Absurdo e graça!

.Na vida hoje caminhamos entre uma fome que condena ao sofrimento uma enorme parcela da humanidade
e uma tecnologia moderníssima que garante um padrão de conforto e bem estar nunca antes imaginado.
Um bilhão de seres humanos estão abaixo da linha da pobreza, na mais absoluta miséria, passam FOME !
Com a tecnologia que foi inventada seria possível produzir alimentos e acabar com TODA a fome no mundo,
não fossem os interesses de alguns grupos detentores da tecnologia e do poder.

"Para mim, o absurdo e a graça não estão mais separados.
Dizer que "tudo é absurdo" ou dizer que "tudo é graça "
é igualmente mentir ou trapacear...
Como morrer e ressuscitar, o absurdo e a graça são só dois lados da mesma moeda."
"Hoje a graça e o absurdo caminham, em mim lado a lado,
não mais estranhos,
mas estranhamente amigos"
A cada dia,nas situações que se nos apresentam podemos decidir entre perpetuar o absurdo ou promover a Graça. (Jean Yves Leloup)

* O Blog tem o mesmo nome do livro autobiográfico de Jean Yves Leloup, e é uma forma de homenagear a quem muito tem me ensinado em seus retiros, seminários e workshops *

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16 de setembro de 2016

O canto dos pássaros o incomoda ? Será que perdemos a nossa conexão primordial?

J. Ricardo A de Oliveira

De tanto amar o feio o belo passa a ser esquisito, incômodo, destoante.
Pobre civilização em agonia, já não sabe mais apreciar o canto dos pássaros e tê-los como melodia que embala os seus sonhos...
 Onde moro, desde criança ouço os sabiás que anunciam que o tempo das flores chegou que a frieza do inverno está no fim e que é tempo de alegria e muita luz.
Eles chegam na madrugada e cantam até quase a exaustão, seu canto me traz sonhos de natureza.
Sempre que os ouço agradeço a Deus por continuarem existindo em meio a tanta devastação.



Lendo no jornal hoje uma reportagem sobre o incômodo que o canto dos sabiás vem provocando em algumas pessoas, lembrei que há muitos anos, quase 40, quando casei ganhei um Coleiro Papa Capim de um amigo. Naquela época ainda não era politicamente incorreto ter pássaros na gaiola e eu o coloquei na área do novo apartamento que ficava a um passo da floresta da tijuca.
O bicho cantava de arrebentar e isso atraia uma grande quantidade de outros pássaros, para a área de serviço, tantos que passei a colocar comida e água e eles cantavam agradecidos. Uma verdadeira sinfonia de alegria e beleza.
Qual não foi a minha surpresa, quando um dia bem cedo, antes de sairmos para o trabalho, bateu à nossa porta uma enraivecida vizinha, bobs na cabeça, cara amarrada, nem bom-dia deu, foi logo dizendo:
 Olha, eu sou muito nervosa, muito, muito mesmo e odeio canto de pássaros ! Mas disse essa última parte do recado como que a cuspir fogo dos olhos.  E concluiu: se vocês não derem fim a este passarinho infernal que canta o dia inteiro, eu vou tomar providencias, vou a polícia denunciar. E dizendo isso deu as costas, sem mais, nem talvez...
Meio espantado, sem nem entender muito bem, pensei: polícia ?  Canto de pássaro infernal?
Como não tinha muito tempo porque trabalhávamos o dia inteiro e depois ainda seguíamos para a faculdade, só voltando ás 11 da noite, decidi levar o pássaro até a floresta da Tijuca e soltá-lo.
 De volta coloquei um laço na parte de cima da gaiola e pedi ao porteiro que entregasse o presente à Aborrecida vizinha  com meus votos de Paz e muita alegria.
Nenhuma resposta.
Soube depois que ela sempre dava alteração quando percebia que havia festa em algum apartamento, ou até mesmo quando ouvia pessoas rindo um pouco mais alto. O porteiro comentou que a coitada sempre reclamava de tudo e de todos.  
 Há pessoas que não suportam a alegria, a luz, o sol, o canto dos pássaros. Odeiam a vida e fazem dela um martírio para elas próprias e para os que estão a sua volta. De tanto se encastelar em seus mundinhos cinza perderam a noção de que fazem parte da natureza. De tanto se afastarem de si mesmas acham que são entidades únicas, acima da natureza, criaturas especiais, que precisam ser reverenciadas e jamais incomodadas até mesmo pelo canto de um pássaro.
Quanto a mim, que hoje moro no meio do caminho entre a Quinta da Boa Vista e a Floresta da Tijuca, que venham os sabiás, e quando amanhecer, os Maracanãs em algazarra, afinal eles já eram moradores deste lugar antes  que nós nos instalássemos  aqui e promovêssemos a sua expulsão.

“Vou voltar
Sei que ainda vou voltar
Para o meu lugar
Foi lá e é ainda lá
Que eu hei de ouvir cantar
Uma sabiá...
Vou voltar
Sei que ainda vou voltar
Vou deitar à sombra
De um palmeira
Que já não há
Colher a flor
Que já não dá
E algum amor Talvez possa espantar
As noites que eu não queira
E anunciar o dia  “  

 Sabiá -  Chico Buarque de Holanda 



Abaixo  reportagem do Jornal.

Cantoria de sabiá-laranjeira na madrugada divide ouvidos paulistanos
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ROBERTO DE OLIVEIRA
DE SÃO PAULO



Diz uma antiga lenda indígena que, durante as madrugadas, no início da primavera, quando uma criança ouve o canto de um sabiá-laranjeira, ela é abençoada com amor, felicidade e paz.
Isso lá na floresta. Na selva urbana, a história é outra: tem gente se revirando na cama com a sinfonia que chega a durar duas horas seguidas antes mesmo de clarear o dia.
"Morei 35 anos no interior paulista e nunca fui acordada por passarinho algum", conta Adriana Matiuzo, 37, moradora do Brooklin (zona sul). "Agora, em plena São Paulo barulhenta e caótica, minhas madrugadas têm sido bem diferentes."

Por volta das três da matina começa a sinfonia. O cantante é o sabiá-laranjeira, ave-símbolo do Brasil e do Estado de São Paulo, que vive no campo e na cidade.
Por causa do insistente gorjeio, "posts" vêm pipocando nas redes sociais, reivindicando o silêncio dos passarinhos em prol do sono.
O diretor de arte Gilberto Leite, 38, postou: "Ele canta três acordes e fica o dia inteiro martelando isso. É insuportável!". À reportagem, disse ele: "Vou ser linchado pelos protetores dos pássaros, mas que é insuportável, isso é".
O engenheiro Johan Dalgas Frisch pensa diferente. "O sabiá é considerado a ave que melhor canta", afirma.
Um dos maiores especialistas do país, respeitado internacionalmente, esse ornitólogo já gravou 18 discos... de cantos de passarinhos.
Frisch, 83, pioneiro na gravação de vozes de aves da América do Sul, diz que quem reclama da cantoria é "gente que nasceu num bloco de concreto sem conhecer o chilreio dos passarinhos".

DE PAI PARA FILHO
Segundo o ornitólogo Márcio Repenning, 31, do Laboratório de Ornitologia do Museu de Ciências e Tecnologia da PUC-RS, a ave canta principalmente para defender um território em disputa com outros machos da mesma espécie e seduzir a fêmea. "Machos que cantam com mais vigor a priori terão melhor capacidade de alimentar os filhotes."
Já Frisch lembra que o pássaro fica a até cinco metros de distância do ninho para ensinar a melodia aos filhotes, explicando, assim, a aula madrugada afora.
A escolha do horário, diz Frisch, é estratégica: durante o dia, se abandonasse o ninho, o macho deixaria os filhotes na mira de predadores.
O pássaro é o regente da estação que se avizinha, mesmo numa cidade com pouca área verde como São Paulo. De Higienópolis ao Morumbi, do Sumaré ao Tremembé, o canto está por toda a parte.
Morador de Interlagos (zona sul), o dramaturgo Brunno Almeida Maia, 26, conta que a rua onde vive nem é tão arborizada assim, mas, "por sorte", a vizinha tem um jardim, que é voltado para a janela do quarto dele.
"Como tenho insônia, ouço o trinado até as 5h. Confesso, não me incomoda. É como o barulhinho da chuva."
Diz que prefere o canto do sabiá-laranjeira ao ronco de alguém ao seu lado ou "à barulheira de um vizinho ouvindo 'Applause', da Lady Gaga". "Eu quero mais é o sabiá."
Nenhum pássaro da espécie canta igual ao outro, segundo Frisch. O ornitólogo catalogou o canto de mais de cem sabiás em diferentes pontos da cidade e do país.
Da literatura ao cancioneiro popular, o pássaro ganhou homenagens de nomes como Marisa Monte, Tom Jobim e Chico Buarque. Roberta Miranda compôs e Jair Rodriques celebrizou: "A majestade, o sabiá!". O bicho solta o gogó pelo menos até o verão. E a primavera ainda nem começou!


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