Absurdo e graça!

.Na vida hoje caminhamos entre uma fome que condena ao sofrimento uma enorme parcela da humanidade
e uma tecnologia moderníssima que garante um padrão de conforto e bem estar nunca antes imaginado.
Um bilhão de seres humanos estão abaixo da linha da pobreza, na mais absoluta miséria, passam FOME !
Com a tecnologia que foi inventada seria possível produzir alimentos e acabar com TODA a fome no mundo,
não fossem os interesses de alguns grupos detentores da tecnologia e do poder.

"Para mim, o absurdo e a graça não estão mais separados.
Dizer que "tudo é absurdo" ou dizer que "tudo é graça "
é igualmente mentir ou trapacear...
Como morrer e ressuscitar, o absurdo e a graça são só dois lados da mesma moeda."
"Hoje a graça e o absurdo caminham, em mim lado a lado,
não mais estranhos,
mas estranhamente amigos"
A cada dia,nas situações que se nos apresentam podemos decidir entre perpetuar o absurdo ou promover a Graça. (Jean Yves Leloup)

* O Blog tem o mesmo nome do livro autobiográfico de Jean Yves Leloup, e é uma forma de homenagear a quem muito tem me ensinado em seus retiros, seminários e workshops *

Receba "O Absurdo e a Graça" por Email

Total de visualizações de página

Seja Bem vindo (a)!

Agradeço por sua visita, ela é muito oportuna.
Aqui eu reúno pensamentos meus
e de outras pessoas com quem sinto afinidade de idéias e ideais.


"Vamos precisar de todo mundo
pra banir do mundo a opressão
Para construir a vida nova
vamos precisar de muito amor...

Vamos precisar de todo mundo,
um mais um é sempre mais que dois
Pra melhor juntar as nossas forças
é só repartir melhor o pão...

Deixa nascer o amor/Deixa fluir o amor
Deixa crescer o amor/Deixa viver o amor

O sal da terra,..." (
Beto Guedes)

4 de agosto de 2014

PAPA FRANCISCO: ENCONTRO COM BISPOS, SACERDOTES E SEMINARISTAS

Em alguns trechos da entrevista o papa Francisco mais uma vez nos surpreende por sua simplicidade, por sua maneira profundamente humana e direta que nos leva a uma grande reflexão no que se refere ao que é  ser cristão.
Os diversos grifos no texto são meus.




1 - A UNIDADE ENTRE OS BISPOS

No último sábado, 26 de julho, o Papa Francisco realizou uma visita pastoral à cidade de Caserta, sul da Itália. Antes da Missa celebrada às 18h15min, o Bispo de Roma teve um "encontro familiar" com sacerdotes e seminaristas daquela diocese, ocasião em que lhe foram feitas várias perguntas, alguns questionamentos feitos ao Papa Francisco:

O Vigário Geral de Caserta, Pe. Pasquariello, após expor um problema de limites físicos na diocese, perguntou ao Papa Francisco "Quando os bispos chegam a um acordo?"

PERGUNTA (Pe. Pasquariello, Vigário Geral de Caserta): Santidade, o bem que o senhor está trazendo à Igreja Católica com suas homilias diárias, os documentos oficiais - especialmente a Evangelii Gaudium -, baseiam-se, sobretudo, na conversão espiritual, interior, pessoal. É uma reforma que diz respeito - no meu modesto parecer - somente à esfera da teologia, da exegese bíblica e da filosofia. Junto a esta conversão pessoal - que é essencial para a salvação eterna -, penso que seria útil algum pronunciamento, de Vossa Santidade, que possa envolver maiormente o povo de Deus, enquanto povo. Me explico: a nossa Diocese, há 900 anos, tem limites absurdos. Alguns territórios municipais são divididos pela metade com a Diocese de Capua e a de Acerra. Até mesmo a estação da cidade de Caserta, distante menos de 1 quilômetro do município, pertence à Capua. Por este motívo, Santo Padre, peço a sua intervenção para que as nossas comunidades não tenham mais que sofrer devido aos deslocamentos inúteis e não seja mortificada ulteriormente a unidade pastoral dos nossos fiéis. É claro, Santidade, que no n. 10 da Evangelii Gaudium, o senhor diz que estas coisas pertencem ao episcopado. Porém, eu recordo que desde que eu era um jovem sacerdote, há 47 anos , estivemos com Mons. Roberti, que trabalhava na Secretaria de Estado e ele disse que deveríamos chegar a um acordo com os bispos e depois ele assinaria. E isto é uma coisa bonita. Mas, quando os bispos se colocam de acordo?
Papa Francisco: "Alguns historiadores dizem que em alguns dos primeiros Concílios, os Bispos partiam prá briga, mas depois chegavam a um acordo. E isto é um mau sinal. É ruim quando os Bispos falam mal uns dos outros, ou fazem acordos. Não falo em ter unidade de pensamento ou unidade espiritual, porque isto é bom. Falo de acordos no sentido negativo da palavra. Isto é ruim pois rompe justamente a unidade da Igreja. Isto não é de Deus. E nós, Bispos, devemos dar o exemplo da unidade que Jesus pediu ao Pai para a Igreja. Mas não se pode ficar murmurando um doo outro: "E este faz assim e aquele outro faz daquele jeito". Mas, deve dizê-lo na cara! Os nossos antepassados nos primeiros Concílio chegavam às "vias de fato". Eu já prefiro que sejam gritadas quatro coisas, daquelas forte, e depois se abracem e não que fiquem falando escondido um contra o outro. Isto, como princípio geral, ou seja: na unidade da Igreja é importante a unidade entre os Bispos. Após, o senhor sublinhou um caminho que o Senhor desejou para a sua Igreja. E esta unidade entre os bispos é aquela que favorece o colocar-se em acordo sobre isto ou aquilo. Em um país - não na Itália, mas em outro lugar -, existia uma Diocese cujos limites foram refeitos, mas devido à localização do tesouro da catedral, ficaram em litígio nos tribunais por mais de 40 anos. Por dinheiro: isto não se entende! É aqui que o diabo festeja! É aqui que ele ganha. Depois, é bonito que o senhor diga que os Bispos devem sempre estar de acordo: mas de acordo na unidade, não na uniformidade. Cada um tem o seu carisma, cada um tem o seu modo de pensar, de ver as coisas: esta variedade, às vezes é fruto de erros, mas tantas vezes é fruto do mesmo Espírito. O Espírito Santo quis que na Igreja existisse esta variedade de carismas. O mesmo Espírito que faz a diversidade, depois consegue fazer a unidade; uma unidade na diversidade de cada um, sem que ninguém perca a própria personalidade. Mas, eu desejo que aquilo que o senhor disse vá em frente. E depois, todos somos bons, porque temos a água do Batismo, todos, temos o Espírito Santo dentro que nos ajuda a seguir em frente".

2 - SOBRE A PIEDADE POPULAR

"Santidade, na Exortação Apostólica 'Evangelii Gaudium' o senhor convidou a encorajar e reforçar a piedade popular, como precioso tesouro da Igreja Católica. Ao mesmo tempo, porém, mostrou o risco - infelizmente sempre mais real - da difusão de um cristianismo individual e sentimental, atento mais às formas tradicionais e à revelação, privado dos aspectos fundamentais da fé e privado de incidência na vida social. Qual sugestão poderias nos dar para uma pastoral que, sem mortificar a piedade popular, possa relançar o primado do Evangelho? Obrigado Santidade" (Padre Angelo Piscopo, Pároco de São Pedro Apóstolo e de São Pedro em Cátedra):

Papa Francisco: "Se ouve dizer que este é um tempo onde a religiosidade foi para baixo, mas eu não acredito muito nisto. Porque existem correntes, estas escolas de religiosidade intimista, tipo os gnósticos, que fazem uma pastoral parecida com uma oração pré-cristã, uma oração pré-bíblica, uma oração gnóstica, e o gnosticismo entrou na Igreja nestes grupos de piedade intimista: eu chamo isto de intimismo. O intimismo não faz bem, é uma coisa para mim, estou tranquilo, me sinto pleno de Deus. É um pouco - não é a mesma coisa - mas é um pouco o caminho da New Age. Existe religiosidade, sim, mas uma religiosidade pagã, ou até mesmo herética; não devemos ter medo de pronunciar esta palavra, porque o gnosticismo é uma heresia, foi a primeira heresia na Igreja. Quando falo da religiosidade, falo daquele tesouro de piedade, com tantos valores, que o grande Paulo VI descreveu na 'Evangelii Nuntiandi'. Pensem numa coisa: o Documento de Aparecida - que foi o documento da V Conferência do Episcopado Latino-americano - para fazer uma síntese no fim do documento, no penúltimo parágrafo - os outros dois eram de agradecimento e de oração -, teve que retroceder 40 anos e pegar um trecho da 'Evangelii Nuntiandi', que é um documento pastoral pós-Conciliar não ainda superado. É de uma atualidade enorme. Naquele documento, Paulo VI descreve a piedade popular, afirmando que ela, algumas vezes, deve ser ainda evangelizada. Sim, porque como toda piedade, existe o risco de ir um pouco de um lado, um pouco para outro ou de não ter uma expressão de fé forte. Mas a piedade que as pessoas tem, a piedade que entra no coração com o Batismo é uma força enorme, a tal ponto que o povo de Deus que tem esta piedade, no seu conjunto, não pode errar, é infalível acreditando: assim diz a 'Lumen Gentium' N. 12. A piedade popular verdadeira nasce daquele 'sensus fidei' de que fala este documento conciliar e guia a devoção dos Santos, de Nossa Senhora, também com expressões folclorísticas, no bom sentido da palavra. Por isto a piedade popular é fundamentalmente inculturada, não pode ser uma piedade popular de laboratório, mas nasce sempre a partir da nossa vida. Mesmo se cometem pequenos erros - por isto é necessário vigiar - , a religiosidade popular é um instrumento de evangelização. Pensemos aos jovens de hoje. Os jovens - ao menos a experiência que eu tive na outra Diocese - os jovens, os movimentos juvenis em Buenos Aires não funcionavam. Por que? Se dizia a eles: façamos uma reunião para falar.... e no final os jovens se chateavam. Mas quando os párocos encontraram o caminho para envolver os jovens em pequenas missões, fazer missão nas férias, a catequese para o povo que tem necessidade dela, nas cidadezinhas que não tem padre, então sim, havia uma boa adesão. Os jovens, na verdade, querem este protagonismo missionário e aprendem daqui e viver uma forma de piedade que se pode também dizer, popular: o apostolado missionário dos jovens tem alguma coisa da piedade popular. A piedade popular é ativa, é um sentido de fé - dizia Paulo VI - profundo, que somente os simples e os humildes tem capacidade de ter. E isto é grandioso! Nos Santuários, por exemplo, se vêem milagres! Em todo 27 de julho íamos ao Santuário de São Pantaleão, em Buenos Aires e eu confessava pela manhã. Mas, eu voltava novo daquela experiência, voltava envergonhado da santidade que encontrava nas pessoas simples, pecadoras mas santas, porque diziam os próprios pecados e depois contavam como viviam, como era o problema do filho ou da filha, ou deste ou daquele e como iam visitar os doentes. Transparecia um sentido evangélico. Nos Santuários se encontra destas coisas. Os confessionários dos Santuários são um local de renovação para nós sacerdotes e bispos; são um curso de atualização espiritual, devido ao contato com a piedade popular. E os fiéis quando vem confessar te contam as suas misérias, mas você vê por trás daquelas misérias a graça de Deus que os conduz àquele momento. este contato com o povo de Deus que reza, que é peregrino, que manifesta a sua fé nesta forma de piedade, nos ajuda tanto na nossa vida sacerdotal".

3 - O PERFIL DO SACERDOTE DO TERCEIRO MILÊNIO

"Um homem de criatividade, que segue o mandamento de Deus - "criar as coisas" -; um homem de transcendência, quer com Deus na oração, quer com os outros, sempre; um homem de proximidade, que se aproxima das pessoas".

Pergunta: Se me permite chamar-lhe de padre Francisco, mesmo porque a paternidade implica, inevitavelmente uma santidade, quando é autêntica. Como aluno dos Padres Jesuítas aos quais devo a minha formação, cultural e sacerdotal, primeiro falo sobre uma impressão pessoal e após, uma pergunta dirigida ao senhor, em particular. O perfil do padre do terceiro milênio: equilíbrio humano e espiritual; consciência missionária; abertura dialógica com outras fés, religiosas ou não. Por que isto? O senhor certamente está operando uma revolução copernicana pela linguagem, estilo de vida, comportamento e testemunho sobre temas que dizem respeito mais a nível mundial, mas também em relação aos ateus e aos afastados da Igreja cristã-católica. A pergunta que lhe faço: como é possível nesta sociedade, com uma Igreja que se espera cresça e desenvolva, nesta sociedade que vive uma evolução dinâmica e conflitual e muito frequentemente afastada dos valores do Evangelho de Cristo, nós somos uma Igreja muito frequentemente atrasada. A sua revolução linguistica, semântica, cultural, de testemunho evangélico, está suscitando nas consciências certamente uma crise existencial para nós sacerdotes. Que caminhos - imaginativos e criativos - o senhor sugere a nós, para superar, ou pelo menor atenuar, esta crise que nós sentimos?

Papa Francisco: Como é possível, com a Igreja crescendo e se desenvolvendo, seguir em frente? Você dizia algumas coisas: equilíbrio, abertura dialógica...Mas, como é possível prosseguir? Você disse uma palavra que me agrada tanto: é uma palavra divina, se é humana é porque é um dom de Deus: criatividade. É o mandamento que Deus deu à Abraão: "Vai e faça crescer a Terra. Seja criativo". É também o mandamento que Jesus deu aos seus, mediante o Espírito Santo, por exemplo a criatividade da primeira Igreja nas relações com o judaísmo: Paulo foi um criativo; Pedro, naquele dia, foi ter com Cornélio, tinha medo dele, pois estava fazendo uma coisa nova, criativa. Mas ele foi lá. Criatividade é a palavra. E como se pode encontrar esta criatividade? Antes de tudo - e esta é a condição se nós quisermos ser criativos no Espírito, isto é, no Espírito do Senhor Jesus - não existe outro caminho senão a oração. Um bispo que não reza, um padre que não reza, fechou a porta, fechou o caminho da criatividade. É justamente na oração, quando o Espírito te faz sentir uma coisa, vem o diabo e te faz sentir outra; mas a oração é a condição para seguir em frente. Mesmo se a oração muitas vezes possa parecer chata. A oração é tão importante. Não somente a oração do Ofício Divino, mas a Liturgia da Missa, tranquila, bem feita com devoção, a oração pessoal com o Senhor. Se nós não rezamos, seremos talvez bons empreendedores pastorais e espirituais, mas a Igreja sem oração se torna uma ONG, não tem aquele 'unctio Spiritu Sancti'. A oração é o primeiro passo, porque é abrir-se ao Senhor para poder abrir-se aos outros. É o Senhor que diz: "Vai lá, vem aqui, faz isto...", suscita em você aquela criatividade que a muitos santos custou tanto. Pensem no Beato Antonio Rosmini, aquele que escreveu 'As cinco chagas da Igreja', , foi um crítico criativo, porque rezava. Escreveu aquilo que o Espírito lhe inspirou, por isto foi enviado ao cárcere espiritual, isto é, na sua casa: não podia falar, não podia ensinar, não podia escrever, os seus livros estavam no Index. Hoje é Beato! Tantas vezes a criatividade te leva à Cruz. Mas quando vem da oração, dá frutos. Não a criatividade um pouco, "a 'sans façon' e revolucionária, porque hoje está na moda ser revolucionário; não, isto não é do Espírito. Mas quando a criatividade vem do Espírito e nasce na oração, pode te trazer alguns problemas. A criatividade que vem da oração tem uma dimensão antropológica de transcendência, porque mediante a oração tu te abres à transcendência de Deus. Mas existe também a outra transcendência: abrir-se aos outros, ao próximo. Não precisa ser uma Igreja fechada em si mesma, que olha o próprio umbigo, uma Igreja auto-referencial, que olha a si mesma e não é capaz de transcender. É importante a transcendência dupla: para Deus e para o próximo. Sair de si não é uma aventura, é um caminho, é o caminho que Deus indicou aos homens, ao povo desde o primeiro momento quando disse a Abraão: "Sai da tua terra". Sair de si. E quando eu saio de mim encontro Deus e encontro os outros. E como encontro os outos? De longe ou de perto? Precisa encontrá-los de perto, a proximidade. Criatividade, transcendência, proximidade. Proximidade é uma palavra chave: ser próximo. Não assustar-se com nada. Estar próximos. O homem de Deus não se apavora. O próprio Paulo quando viu tantos ídolos em Atenas não se assustou, disse àquelas pessoas: "Vocês são religiosos, tantos ídolos ... mas, eu, vos falarei de um outro". Não se assustou e se aproximou deles, também citou os seus poetas: "Como dizem os vossos poetas...". Trata-se de proximidade a uma cultura, proximidade às pessoas, ao seu modo de pensar, às suas dores, aos seus resentimentos. Tantas vezes esta proximidade é justamente uma penitência, pois devemos ouvir coisas chatas, coisas ofensivas. Há dois anos, um sacerdote que foi fazer missão na Argentina - era da Diocese de Buenos Aires e foi à uma Diocese do sul, em uma região onde há anos não havia sacerdote, e haviam chegado os evangélicos - me contou que foi na casa de uma senhora que foi professora do povo da região e depois diretora de uma escola da cidade. Esta senhora o fez sentar e começou a insultá-lo, não com palavrões, mas insultá-lo com força: "Vocês nos abandonaram, nos deixaram sozinhos, e eu que tenho necessidade da Palavra de Deus tive que ir ao culto protestante e me converti ao protestantismo". Este sacerdote jovem, que é muito humilde, reza, quando a senhora acabou 'a catarata' (ndr - o desabafo), disse: "Senhora, somente uma palavra: perdão. Perdoe-nos. Perdoe-nos. Abandonamos o rebanho". E o tom daquela senhora mudou. Todavia permaneceu protestante e o sacerdote não entrou na questão sobre qual fosse a verdadeira religião: "Padre, queres um café?". "Sim, tomemos um café". E quando o sacerdote estava para sair, disse: "Pare Padre, venha!", e o levou até o quarto, abriu o armário e havia uma imagem de Nossa Senhora: "O senhor deve saber que eu nunca a abandonei. A escondi por causa do Pastor, mas ela está aqui em casa!". É uma história que ensina como a proximidade, a brandura, fizeram com que esta senhora se reconciliasse com a Igreja, pois havia se sentido abandonada por ela. E eu fiz uma pergunta que não se deve fazer nunca: "E depois, como acabou? Como acabaram as coisas?". Mas o Padre me corrigiu: "Ah, não, eu não pedi nada: ela continua a ir ao culto protestante, mas se percebe que é uma mulher que reza. Que faça o Senhor Jesus". E não foi além, não convidou para que retornasse à Igreja Católica. É aquela proximidade prudente, que sabe até onde se deve ir. Mas, proximidade significa também diálogo; é necessário ler na 'Ecclesiam Suam', a doutrina sobre o diálogo, depois repetida por outros Papas. O diálogo é tão importante, mas para dialogar são necessárias duas coisas: a própria identidade como ponto de partida e a empatia com os outros. Se eu não estou seguro quanto à minha identidade e vou dialogar, acabo mudando a minha fé. Não se pode dialogar senão partindo da própria identidade, e a empatia, isto é, não sair condenando. Cada homem, cada mulher, tem alguma coisa para nos dar; cada homem, cada mulher, tem a própria história, a própria situação e devemos escutá-la. Após, a prudência do Espírito Santo nos dirá como responder a eles. Partir da própria identidade para dialogar, mas o diálogo, não é fazer apologética, mesmo se algumas vezes deva ser feita, quando não são colocadas questões que exigem uma explicação. O diálogo é coisa humana, são os corações, as almas que dialogam, e isto é tão importante. Não ter medo de dialogar com ninguém. Se dizia de um santo, um pouco na brincadeira - não recordo, mas talvez fosse São Felipe Neri, mas não estou certo disto - que era capaz de dialogar também com o diabo. Por que? Porque tinha aquela liberdade de escutar todas as pessoas, mas partindo da própria identidade. Era tão seguro, mas ser seguro da própria identidade não significa fazer proselitismo. O proselitismo é uma armadilha, que também Jesus um pouco condena, 'en passant', quando fala aos fariseus e saduceus: "Vocês que fazem o giro do mundo para encontrar um prosélito e depois se recordam disto...". Mas, é uma armadilha. E o Papa Bento tem um expressão muito bonita, a disse em Aparecida, mas acredito que a tenha repetido em outro lugar: "A Igreja cresce não por proselitismo, mas por atração". E o que é a atração? É esta empatia humana que depois é guiada pelo Espírito Santo. Assim, como será o perfil do sacerdote deste século assim secularizado? Um homem de criatividade, que segue o mandamento de Deus - "criar as coisas" -; um homem de transcendência, quer com Deus na oração, quer com os outros, sempre; um homem de proximidade, que se aproxima das pessoas. Afastar as pessoas não é sacerdotal e deste comportamento as pessoas, às vezes, se cansam. Mas quem acolhe as pessoas e está próximo a elas, dialoga com elas, está seguro da própria identidade, que o impele a ter o coração aberto à empatia. Isto é o que me veio de dizer a você, para responder à sua pergunta".


- A ESPIRITUALIDADE DO SACERDOTE DIOCESANO

"Mas, você é um homem, portanto, se tens alguma coisa contra o Bispo, vá e diga a ele. Mas depois terá suas consequências não muito boas. Levarás a cruz, mas seja homem!"

PERGUNTA: Caríssimo Padre, a minha pergunta diz respeito ao lugar onde nós vivemos: a Diocese, com os nossos bispos, as relações com os nossos irmãos. Pergunto ao senhor: este momento histórico que nós estamos vivendo traz consigo expectativas em relação a nós, presbíteros, isto é, de um testemunho claro, aberto, alegre - como o senhor está nos convidando - justamente aberto à novidade do Espírito Santo. Qual poderia ser, na sua opinião, justo no específico, o fundamento de uma espiritualidade do sacerdote diocesano? Tenho presente ter lido em algum lugar, que o senhor dizia: "O sacerdote não é um contemplativo". Mas antes, não era assim. Portanto, se o senhor pudesse nos apresentar um ícone a ter presente para o renascimento, para o crescimento da comunhão da nossa Diocese. E sobretudo, me interessa saber como podemos ser fiéis, hoje, aos homens tanto quanto a Deus:

PAPA FRANCISCO: "Você falou na 'novidade do Espírito Santo'. É verdade. Mas Deus é o Deus das surpresas, sempre nos surpreende, sempre, sempre. Lemos o Evangelho e descobrimos uma surpresa após outra. Jesus nos surpreende porque chega antes de nós: Ele nos espera primeiro, nos ama primeiro. Quando nós o buscamos, Ele já está nos procurando. Como disse o Profeta Jeremias, ou Isaías, não recordo bem: Deus é como a flor da amendoeira, floresce por primeiro na primavera. É o primeiro, sempre a primeiro, sempre nos espera. E esta é a surpresa. Tantas vezes nós buscamos Deus aqui e Ele está lá. E, passamos à espiritualidade do clero diocesano. Padre contemplativo, mas não alguém que está na Cartuxa, não entendo esta contemplação. O sacerdote deve ter uma 'contemplatividade', uma capacidade de contemplação para com Deus e também para com os homens. É um homem que olha, que enche os seus olhos e o seu coração com esta contemplação: com o Evangelho diante de Deus e com os problemas humanos diante dos homens. Neste sentido deve ser um contemplativo. Não é necessário fazer confusão: o monge é outra coisa. Mas onde está o centro da espiritualidade do clero diocesano? Eu diria que está na 'diocesanidade'. É ter a capacidade de abrir-se à 'diocesanidade'.

A espiritualidade de um religioso, por exemplo, é a capacidade de abrir-se a Deus e aos outros na comunidade: seja a menor, seja a maior da congregação. Ao contrário, a espiritualidade do sacerdote diocesano é abrir-se à diocesanidade. E vocês religiosos que trabalham na paróquia devem fazer as duas coisas, por isto o dicastério dos Bispos e o dicastério da Vida Consagrada estão trabalhando em uma nova versão da 'Mutuae relationes', porque o religioso tem as duas pertenças. Mas voltemos à diocesanidade: o que significa? Significa ter uma relação com o Bispo e ter uma relação com os outros sacerdotes. A relação com o Bispo é importante, é necessária. Um sacerdote diocesano não pode ser separado do Bispo. "Mas, o Bispo não me quer bem, o Bispo aqui, o Bispo alí...": O Bispo talvez poderá ser um homem com um caráter difícil: mas é o teu Bispo. E tu deves encontrar, também naquele comportamento não-positivo, um caminho para manter a relação com ele. Isto, no entanto, é a exceção. Eu sou padre diocesano porque tenho uma relação com o Bispo, uma relação necessária. É muito significativo quando no rito de ordenação se faz o voto de obediência ao Bispo. "Eu prometo obediência a ti e aos teus sucessores". Diocesanidade significa uma relação com o Bispo que deve agir e fazer crescer continuamente. Na maior parte dos casos não é um problema catastrófico, mas uma realidade normal. Em segundo lugar a diocesanidade comporta uma relação com os outros sacerdotes, com todo o presbitério. Não existe espiritualidade do padre diocesano sem estas duas relações: com o bispo e com o presbítero. E são necessárias. "Eu, sim, com o Bispo vai tudo bem, mas nas reuniões do clero não vou porque dizem bobagens". Mas com este comportamente vai ter fazer falta alguma coisa: não tens aquela verdadeira espiritualidade do padre diocesano.
Tudo está nisto: é simples, mas ao mesmo tempo não é fácil. Não é fácil, porque colocar-se de acordo com o Bispo não é sempre fácil, pois um pensa de uma maneira e outro de outra, mas se pode discutir....e se discute! E se pode fazer a alta voz? Se faça! Quantas vezes um filho com o seu pai discute e no final permanecem sempre pai e filho. Todavia, quando nestas duas relações, quer com o Bispo quer com o presbítero, entra a diplomacia, não tem o Espírito do Senhor, porque falta o espírito de liberdade. É necessário ter a coragem de dizer "Eu não penso assim, penso diferente", e também a humildade de aceitar uma correção. É muito importante. 

E qual é o maior inimigo destas duas relações? As fofocas, as murmurações. Tantas vezes penso - porque também eu tenho esta tentação de murmurar, a temos dentro, o diabo sabe que esta semente lhe dá frutos e a semeia bem - eu penso se não é uma consequência de uma vida celibatária vivida como esterilidade, não como fecundidade. Um homem sozinho acaba amargurado, não é fecundo e fala mal dos outros. Este é um ar que não faz bem, é justamente o que impede aquela relação evangélica e espiritual e fecunda com o Bispo e com o presbítero
. As fofocas são o maior inimigo da diocesanidade, isto é, da espiritualidade. Mas, você é um homem, portanto, se tens alguma coisa contra o Bispo, vá e diga a ele. Mas depois terá suas consequências não muito boas. Levarás a cruz, mas seja homem! Se tu és um homem maduro e vê alguma coisa no teu irmão sacerdote que não te agrada e que acreditas ser errada, vá e diga a ele na cara, ou, se percebes que ele não tolera ser corrigido, vá e diga ao Bispo ou ao amigo mais íntimo daquele sacerdote, para que possa ajudá-lo a corrigir-se. Mas não deves dizer aos outros: porque isto é sujar um ao outro. E o diabo fica feliz com este "banquete", porque assim ataca justamente o centro da espiritualidade diocesana. Para mim, as fofocas fazem tanto mal. E não são uma novidade pós-conciliar... Já São Paulo teve que enfrentar isto. Recordem a frase: 'Eu sou de Paulo, eu sou de Apolo....". As fofocas são uma realidade presente já no início da Igreja, porque o demônio não quer que a Igreja seja uma mãe fecunda, unida, alegre.

Qual é, pelo contrário, o sinal de que estas duas relações, entre sacerdote e Bispo e entre padres e os outros padres, estão bem? É a alegria. Assim como a amargura é o sinal de que não existe uma verdadeira espiritualidade diocesana - porque falta uma bonita relação com o Bispo e com o presbítero -, a alegria é o sinal que as coisas funcionam. Se pode discutir, se pode ficar brabo, mas existe a alegria acima de tudo, e é importante que esta permaneça sempre nestas duas relações que são essenciais para a espiritualidade do sacerdote diocesano.

Gostaria de voltar a um outro sinal, o sinal da amargura. Uma vez um sacerdote me dizia, aqui em Roma: "Mas, eu vejo que tantas vezes nós somos uma Igreja de enraivecidos, sempre brabos um contra o outro; sempre temos alguma coisa para nos irritar". Isto leva à tristeza e à amargura: não existe a alegria. Quando encontramos em uma diocese um sacerdote que está sempre assim irritado e com esta tensão, pensamos: mas este homem no café da manhã deve tomar vinagre. Após, no almoço, verdura com vinagre e à noite um belo suco de limão. Assim a sua vida não está bem, porque é a imagem de uma Igreja dos irritados. Pelo contrário, a alegria é o sinal de que está bem. Alguém pode ficar brabo: também é saudável embrabecer-se de vez em quando. Mas o estado de brabeza não é do Senhor e leva à tristeza e à desunião.

E no final, você disse "a fidelidade a Deus e ao homem". É a mesma coisa que dissemos antes. É a dupla fidelidade e a dupla trascendência: ser fiéis a Deus é buscá-lo, abrir-se a Ele na oração, recordando que Ele é fiel, Ele não pode renegar a si mesmo, é sempre fiel. E depois, abrir-se ao homem; é aquela empatia, aquele respeito, aquele ouvi-lo, e dizer a palavra certa com paciência".

(Tradução livre do Programa Brasileiro)
https://www.facebook.com/radiovaticanobrasil

Um comentário:

  1. Agradecido pelo envio desse dialogo do Papa Francisco ele me fez refletir sobre muitas coisas, entre elas o dialogo, que envolve o ouvir, penso, em primeiro lugar!
    A poesia do Jean Yves Leloup me recordou uma amiga querida, que um dia me presentou com um de seus livros: Normose, penso escrito com o Roberto Crema! Este e o Pierre "Wiel" tive o prazer de convidá-los para palestrar em um dos nossos eventos anuais sobre qualidade nas organizações. Provocou escândalo em alguns executivos só afeitos ao lucro e a competição. Abraço fraterno

    ResponderExcluir