Absurdo e graça!

.Na vida hoje caminhamos entre uma fome que condena ao sofrimento uma enorme parcela da humanidade
e uma tecnologia moderníssima que garante um padrão de conforto e bem estar nunca antes imaginado.
Um bilhão de seres humanos estão abaixo da linha da pobreza, na mais absoluta miséria, passam FOME !
Com a tecnologia que foi inventada seria possível produzir alimentos e acabar com TODA a fome no mundo,
não fossem os interesses de alguns grupos detentores da tecnologia e do poder.

"Para mim, o absurdo e a graça não estão mais separados.
Dizer que "tudo é absurdo" ou dizer que "tudo é graça "
é igualmente mentir ou trapacear...
Como morrer e ressuscitar, o absurdo e a graça são só dois lados da mesma moeda."
"Hoje a graça e o absurdo caminham, em mim lado a lado,
não mais estranhos,
mas estranhamente amigos"
A cada dia,nas situações que se nos apresentam podemos decidir entre perpetuar o absurdo ou promover a Graça. (Jean Yves Leloup)

* O Blog tem o mesmo nome do livro autobiográfico de Jean Yves Leloup, e é uma forma de homenagear a quem muito tem me ensinado em seus retiros, seminários e workshops *

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19 de janeiro de 2015

Eu não sou Charlie. Eu SOU !

O mundo vem acompanhando uma sequência de acontecimentos bastante tenebrosos e seus efeitos não menos absurdos.  Vemos a exaltação do que seria uma tal liberdade, que beira a irresponsabilidade e a falta total de limites, algo como o antigo  ”é proibido proibir”, uma espécie de verdade máxima. Ao mesmo tempo se percebe que quem brada essa proibição manda com todas as letras um líder mundialmente reconhecido calar a boca ! Mas como será esta tal liberdade ? Existe apenas  para alguns ?

Nossa sociedade está muito doente, eu quase  classifico como em estado terminal. As instituições  parece que sofrem de uma mal chamado partidarismo, fruto da sede de poder e da total ausência de ética.
Como terapeuta sinto a necessidade de alertar inclusive a meus colegas de profissão  para estar muito atentos a estes "novos conceitos" de liberdade de expressão e de democracia que alguns insistem em deturpar.
Embora eu defenda que absolutamente NADA, mas NADA mesmo pode justificar chacinas  ou assassinatos, não posso  fechar os olhos para os abusos cometidos por aquele jornal francês que acabou sendo o centro das atenções do mundo.  Para exercer a liberdade é preciso que se respeite a liberdade do outro. Não pode existir liberdade sem limites. Não existe este tipo de democracia onde cada um faz o que bem entende como se as leis fossem dispensáveis e os direitos de cada um não precisassem ser levados em consideração.



 Eu não sou Chalie e ele nem me representa. Mas há algo que  também me deixa profundamente  revoltado neste momento em que o mundo pareceu tão comovido e pronto a protestar pelo episódio lamentável na França. Revolta-me o silêncio e a total apatia mundial para o que vem acontecendo na África. Se em Paris o atentado contra os jornalistas chocou o mundo, porque uma chacina de proporções infinitamente maiores (calcula-se mais de 2000 mortos só nos atentados do ultimo mês) não causou nenhum protesto, nenhuma marcha ou alarde dos jornais?
São vidas humanas, milhares, há quem fale de mais de 60 mil até agora, e nenhuma providencia... Talvez porque sejam negros, pobres, africanos e para esta nossa sociedade cínica, não façam a menor diferença.



Mas minha revolta não é só pelos Nigerianos massacrados, ela é também por algo que vem acontecendo aqui, bem embaixo do nosso nariz. Pouco se fala sobre o que está ocorrendo com nossos índios. Nada se lê contra o agro negócio que vem desalojando de suas terras os índios que já habitavam o Brasil antes de aqui chegarem os colonizadores. Não tenho as estatísticas mas sabe-se por fontes como o CIMI - o Conselho Indigenista Missionário que o número de suicídios entre os Guarani Kaiowá estão causando um verdadeiro genocídio. E nada se diz ou se faz. Nenhum protesto, nenhuma passeata...



Se há um luto a ser vivido pela humanidade, acho que deva se incluir o luto pelos Nigerianos, pelos Índios no Brasil que estão sendo dizimados e também, é claro, pelos jornalistas de Paris, mas não só por estes últimos.

Vivemos uma época de muita hipocrisia, de ausência de valores. O que se apregoa nem sempre é o que se vive. Confesso que ando farto de pregações moralistas, de regras absurdas de gente que diz temer a Deus, mas agem como funcionários do mal. Gente que fala de humildade, mas trata empregados como escravos. Que defende um namoro santo , mas às escondidas pula  a cerca. Gente que defende  e exige do parceiro fidelidade conjugal, mas não hesita em trair na primeira oportunidade. Perdi a conta de ver casal de pregadores que vociferavam contra o sexo antes do casamento na igreja e acabavam casando grávidos.



Não digo isso como alguém que tem o dedo em riste e aponta pecadores. Não, pecador eu também sou. Mas não seria mais honesto não ficar alardeando e condenando quando se tem noção de nossa fragilidade como seres humanos falíveis?
 O papa Francisco tem sido para mim um grande alento. Ele não cansa de mostrar, para desespero dos tradicionalistas e fariseus da atualidade, que ele é simplesmente um homem. Alguém que aceitou o convite do Espírito Santo para mostrar uma igreja tal qual seu fundador.
 Um Jesus que questionava as leis absurdas de sua religião na época, que apontava a falta de amor, que era avesso aos dogmas, que como Francisco não entendia a igreja como uma alfandega de fiscais raivosos prontos a condenar quem não lhes agradasse.
Temos muito que pensar e o que mudar. Mas esta mudança nem é tão difícil assim, na verdade a sua realização depende apenas de uma percepção simples, já alertada por Jesus:
 O reino de Deus, está no meio de nós.  Não está em um lugar distante e inaccessível, está dentro de cada um de nós, com todas as nossas falhas e imperfeições.  Como bem dizia Teresa de Àvila  às suas irmãs : “ Não penseis que havereis de entrar no céu sem antes entrar dentro de vós mesmas, a fim de conhecer as vossas misérias” e mais A melhor maneira de chegar ao conhecimento de Deus, é através do conhecimento de vós mesmas”.
Ainda é tempo, eu espero, de nos renovarmos na tarefa da construção e um novo tempo, um tempo de Paz e fraternidade, mas para isso será preciso que tenhamos coragem suficiente para nos abrir à mensagem daquele que está no meio de nós.

 Ao dizer “ Je suis Charlie”  de alguma forma torta é como se estivéssemos proclamando Charlie como um Deus. Talvez uma peça pregada pelo inconsciente de alguns, ou quem sabe algo próprio de quem trabalha com as forças de involução.
 “Jesuis” não é Chalie !
Jesus é Je suis = Eu Sou !
Depende de nós descobrir esse Je suis que deixamos adormecido,  aprisionado lá no fundo de nosso Ser, e uma vez desperto, dar voz a Ele e não temer o que Ele tem a nos dizer, e seguir o caminho que Ele vai nos mostrar, que na verdade todos nós já sabemos qual é. Seguramente vamos descobrir o que é a verdadeira Liberdade  que reside na lei que ele ensinou : Amar como Ele amou, até as ultimas consequências, mas sem exceções.

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