Absurdo e graça!

.Na vida hoje caminhamos entre uma fome que condena ao sofrimento uma enorme parcela da humanidade
e uma tecnologia moderníssima que garante um padrão de conforto e bem estar nunca antes imaginado.
Um bilhão de seres humanos estão abaixo da linha da pobreza, na mais absoluta miséria, passam FOME !
Com a tecnologia que foi inventada seria possível produzir alimentos e acabar com TODA a fome no mundo,
não fossem os interesses de alguns grupos detentores da tecnologia e do poder.

"Para mim, o absurdo e a graça não estão mais separados.
Dizer que "tudo é absurdo" ou dizer que "tudo é graça "
é igualmente mentir ou trapacear...
Como morrer e ressuscitar, o absurdo e a graça são só dois lados da mesma moeda."
"Hoje a graça e o absurdo caminham, em mim lado a lado,
não mais estranhos,
mas estranhamente amigos"
A cada dia,nas situações que se nos apresentam podemos decidir entre perpetuar o absurdo ou promover a Graça. (Jean Yves Leloup)

* O Blog tem o mesmo nome do livro autobiográfico de Jean Yves Leloup, e é uma forma de homenagear a quem muito tem me ensinado em seus retiros, seminários e workshops *

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12 de maio de 2016

E no entanto é preciso cantar, mas que nunca é preciso cantar...


O Brasil hoje marca a ferro e fogo no livro da história uma página muito importante. Talvez a mais importante de nossa história. Numa perspectiva maior, com olhos nas paralelas do tempo não há como falar em perdedores ou ganhadores. Um passo para o futuro foi dado.
Um velho professor de filosofia de meus tempos de colégio costumava dizer que evoluímos ou pela dor ou pelo amor. Temo que tenhamos escolhido o caminho da dor.
Hoje sai temporariamente da presidência da república de um pais que ousou erguer-se diante do mundo de nação do terceiro mundo a uma das potências mundiais, uma mulher que não deixa dúvidas quanto a sua honestidade e idoneidade. Isso tem um preço alto. Esse crescimento  foi feito não massacrando seus menores, mas justamente elevado os sem nada a uma situação de dignidade mínima. Um país que ousou sair em tempo recorde do mapa da fome e que mostrou que é possível desenvolver-se olhando para aqueles que até então só esperavam de boca aberta pelas migalhas que caíam das mesas dos poderosos, não faz isso ipunemente. Nos transformamos na 7ª maior economia do planeta. Paralelamente a isso a presidenta eleita que hoje sai de forma arbitrária do comando da nação ousou demais, e por isso paga um preço alto por sua ousadia. Ela pela primeira vez na história permitiu que se investigasse a corrupção até mesmo em seu partido, não hesitou em permitir investigações que mandaram para cadeia poderosos donos de grandes empresas e políticos influentes. Permitiu que aqueles que não passavam da porta das senzalas modernas a frequentar lugares que antes só os “senhores” tinham acesso. Permitiu o acesso à classe média de milhares de pobres que passaram a desfrutar de uma vida mais folgada com benefícios jamais imaginados por eles. A classe dominante não admite esse tipo de ousadia.

Chegamos perto do sonho de Dom Bosco e da profecia do mudo espiritual que  apelidou o Brasil de coração do mundo e pátria do evangelho. Nossas safras foram recordes, nosso povo vislumbrou uma era de fartura, e pela primeira vez o Brasil passou a ser visto como uma boa alternativa para estrangeiros.
Essa é uma missão nossa, é nosso Dharma e não poderemos fugir a ele. Mesmo que demore, esse caminho será trilhado pela nação que nasceu para ser o coração e o celeiro do mundo.
Talvez tenhamos dado passos largos demais. Provavelmente esbarramos no egoísmo de muitos que não admitem dividir, mesmo aquilo que ainda não tem, mas imaginam conquistar.
Talvez ainda não seja o tempo de colher os novos paradigmas que independente de nossa resistência terão que nortear o novo tempo que se avizinha. Talvez tenhamos tentado alcançar antes do tempo o “ponto de mutação”.
Entramos agora no limbo das incertezas. A presidenta eleita pelo voto, sobre quem não paira dúvidas sobre sua honestidade está sendo substituída por alguém que é inelegível devido a crimes de corrupção eleitoral.
Em minha reflexão estou ainda buscando o que isso terá a me dizer em termos de meu crescimento e evolução, já que em minha vida  não é a primeira vez que vejo essa mesma trama ocorrer. Na infância com o suicídio do presidente Getúlio Vargas, no inico da adolescência com o golpe militar, no final da adolescência o recrudescimento da ditadura, ou o segundo golpe com o AI-5 e hoje na entrada da melhor idade esse golpe vergonhoso que nos expõe ao ridículo internacional e está nos arrastando de volta ao terceiro mundo.

Volto a visitar Carlos Drumond de Andrade mesmo sabendo que ele era simpático aos militares. Mas acho que ele é perfeito para essa nossa hora:

Preso à minha classe e a algumas roupas, vou de branco pela rua cinzenta.
Melancolias, mercadorias, espreitam-me.
Devo seguir até o enjôo?
Posso, sem armas, revoltar-me?
Olhos sujos no relógio da torre:
Não, o tempo não chegou de completa justiça.
O tempo é ainda de fezes, maus poemas, alucinações e espera.
O tempo pobre, o poeta pobre
fundem-se no mesmo impasse.
Em vão me tento explicar, os muros são surdos.
Sob a pele das palavras há cifras e códigos.
O sol consola os doentes e não os renova.
As coisas. Que tristes são as coisas, consideradas sem ênfase.
Vomitar este tédio sobre a cidade.
Quarenta anos e nenhum problema
resolvido, sequer colocado.
Nenhuma carta escrita nem recebida.
Todos os homens voltam para casa.
Estão menos livres mas levam jornais
e soletram o mundo, sabendo que o perdem.
Crimes da terra, como perdoá-los?
Tomei parte em muitos, outros escondi.
Alguns achei belos, foram publicados.
Crimes suaves, que ajudam a viver.
Ração diária de erro, distribuída em casa.
Os ferozes padeiros do mal.
Os ferozes leiteiros do mal.
Pôr fogo em tudo, inclusive em mim.
Ao menino de 1918 chamavam anarquista.
Porém meu ódio é o melhor de mim.
Com ele me salvo
e dou a poucos uma esperança mínima. (
 A
 Flor e a Náusea)


Mas vou parar por aqui, a flor ainda não nasceu no asfalto.
Ainda deve demorar um pouco para que ela iluda a polícia
e fure o asfalto, e rompa o tédio, o nojo e o ódio.
Enquanto isso sigamos caminhando, cantando e seguindo a canção
sem jamais desistir.

Um comentário:

  1. Zé, nunca imaginei que iríamos presenciar tamanho retrocesso.
    Parafraseio o Chico Buarque, que canta "Dormia a nossa Pátria, Mãe tão distraída, sem perceber que era subtraída em tenebrosas transações".
    Deus nos ajude nesses próximos momentos que virão.

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