Absurdo e graça!

.Na vida hoje caminhamos entre uma fome que condena ao sofrimento uma enorme parcela da humanidade
e uma tecnologia moderníssima que garante um padrão de conforto e bem estar nunca antes imaginado.
Um bilhão de seres humanos estão abaixo da linha da pobreza, na mais absoluta miséria, passam FOME !
Com a tecnologia que foi inventada seria possível produzir alimentos e acabar com TODA a fome no mundo,
não fossem os interesses de alguns grupos detentores da tecnologia e do poder.

"Para mim, o absurdo e a graça não estão mais separados.
Dizer que "tudo é absurdo" ou dizer que "tudo é graça "
é igualmente mentir ou trapacear...
Como morrer e ressuscitar, o absurdo e a graça são só dois lados da mesma moeda."
"Hoje a graça e o absurdo caminham, em mim lado a lado,
não mais estranhos,
mas estranhamente amigos"
A cada dia,nas situações que se nos apresentam podemos decidir entre perpetuar o absurdo ou promover a Graça. (Jean Yves Leloup)

* O Blog tem o mesmo nome do livro autobiográfico de Jean Yves Leloup, e é uma forma de homenagear a quem muito tem me ensinado em seus retiros, seminários e workshops *

Receba "O Absurdo e a Graça" por Email

Total de visualizações de página

Seja Bem vindo (a)!

Agradeço por sua visita, ela é muito oportuna.
Aqui eu reúno pensamentos meus
e de outras pessoas com quem sinto afinidade de idéias e ideais.


"Vamos precisar de todo mundo
pra banir do mundo a opressão
Para construir a vida nova
vamos precisar de muito amor...

Vamos precisar de todo mundo,
um mais um é sempre mais que dois
Pra melhor juntar as nossas forças
é só repartir melhor o pão...

Deixa nascer o amor/Deixa fluir o amor
Deixa crescer o amor/Deixa viver o amor

O sal da terra,..." (
Beto Guedes)

10 de maio de 2016

Maio 1968, nós acreditávamos em um outro mundo possível.



Não há dúvida que o mês de maio de 1968  marca uma mudança significativa no comportamento dos jovens no enfrentamento dos governos ao redor do mundo.

O escritor Zuenir Ventura diz no Título de seu livro que 1968 é o ano que não terminou.
Na verdade, para nós  brasileiros, 68 só foi terminar em 1985.
Mas é preciso retroagir um pouco no tempo para contar essa pagina triste de nossa história.



Tudo começou  em 31 de Março de 1964, o Golpe Militar de 64 é na verdade um conjunto de eventos ocorridos em 31 de março de 1964 no Brasil, que culminaram, com um golpe de estado que depôs o governo do presidente João Goulart, democraticamente eleito vice-presidente pelo Partido Trabalhista Brasileiro (PTB) – na eleição que conduziu Jânio da Silva Quadros do Partido Trabalhista Nacional (PTN) à presidência, apoiado pela União Democrática Nacional (UDN). Com a renúncia de Jânio, assume João Goulart, sua orientação mais  à esquerda desagradou à direita brasileira, que reagiu inicialmente, com o apoio da igreja Católica através das marchas com Deus pela liberdade. Marchas estas que serviram como um meio de convencimento da grande massa para uma postura de condenação ao  “comunismo ateu”.



O golpe estabeleceu um regime alinhado politicamente aos Estados Unidos e acarretou profundas modificações na organização política do país, bem como na vida econômica e social. Todos os cinco presidentes militares que se sucederam desde então se declararam herdeiros e continuadores do que eles gostavam de chamar de “A Redentora Revolução Militar de 31 de Março”.



Eu tinha nesta época 13 anos e pertencia à Juventude estudantil católica,a JEC,  D. Helder era nosso diretor espiritual, e este período que sucedeu ao golpe foi muito difícil.
A sequencia de horrores  a partir de abril de 64 pode ser assim resumida:
11/4/64 - O marechal Castelo Branco é "eleito" pelo Congresso, presidente da República.
Saem as primeiras listas de cassações de mandatos.
São instaurados, em todo o país, os Inquéritos Policiais Militares (IPMs) para enquadrar todos os que eram considerados adversários pelo regime - ainda nesse ano, Alceu Amoroso Lima (Tristão de Athayde), entre outros, já falava em Anistia.

13/3/65 - Manifesto de intelectuais pede liberdade, democracia e direitos individuais julho/65 -

27/10/65 - Ato Institucional nº 2 (extingue os partidos políticos e cassa seus registros, suspende garantias constitucionais de estabilidade, vitaliciedade, inamovibilidade, prevê possibilidade de decretação do estado de sítio

24/11/65 - Ato Complementar no 4 - Institui o bipartidarismo: cria Arena e MDB                             

1967 - Frente Ampla (movimento  em que se juntaram Carlos Lacerda, Jucelino                                                                  Kubtschek e João Goulart) lança manifesto em que clama por Anistia Geral.

15/3/67 - Costa e Silva assume Presidência do Brasil (vice Pedro Aleixo).


Chegamos então em 1968.

Já não tínhamos a JEC e nem o Dom por perto, mas em nós fervia uma sede de mudanças, um grito de liberdade travado na garanta.  A repressão era intensa, mas protestávamos e muito.
Nas escolas, durante missas em que pedíamos a palavra ao padre para fazer declarações contra a ditadura e em toda e qualquer oportunidade.
Em um destes protestos em 28 de março o companheiro Edson foi barbaramente assassinado.
Edson Luís Lima Souto (Belém, 24 de fevereiro de 1950 — Rio de Janeiro, 28 de março de 1968) 



Morreu assassinado em confronto com a polícia, no restaurante Calabouço, no Rio de Janeiro.
Durante o protesto tropas da Polícia Militar invadem o galpão onde acontecia uma Assembleia Estudantil. Durante a invasão, o comandante da tropa da PM,  atirou e matou o secundarista Edson Luís com um tiro a queima roupa no peito. Edson foi o primeiro estudante assassinado pela  
Ditadura militar e sua morte marcou o início de um ano turbulento de intensas mobilizações contra o regime militar.
No Brasil a revolta que caracteriza o “1968” começou um pouco antes da grande revolta, conhecida como “Maio de 68” e que teve lugar em Paris.

No  Brasil, o maio de 68 começou em Março. 

Com medo que a PM sumisse com o corpo, nós estudantes não permitimos que Edson fosse levado para o Instituto Médico Legal (IML), levamos em passeata diretamente para a Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, onde foi velado por nós.



MATARAM UM ESTUDANTE – PODIA SER SEU FILHO !
Palavra de ordem durante o enterro de Edson Luís

O Rio de Janeiro parou no dia do enterro.
Para expressar seu protesto, os cinemas da Cinelândia amanheceram anunciando três filmes:
 A noite dos Generais, 
e Coração de Luto.
Centenas de cartazes foram colados na Cinelândia com frases como:
 "Bala mata fome?", 
"Os velhos no poder, os jovens no caixão" 
"Mataram um estudante. E se fosse seu filho?".



Edson Luís foi enterrado ao som do Hino Nacional , cantado por uma multidão.

Eu vivi intensamente essa época, ainda lembro com detalhes o que foram os dias que sucederam à morte do Edson, lembro bem da missa na Candelária, de como fiquei encurralado na porta lateral, lembro que saí com os padres, Bruno Trombeta, Max, Vital e outros que não lembro o nome.  Posso ainda, se fechar os olhos, ver a cavalaria invadindo pela porta central a igreja, a falta de respeito pelo lugar sagrado. 

No período que se estendeu do velório até a missa, foram mobilizados protestos em todo o país.
Quatro mil estudantes  em S. Paulo fizeram uma manifestação na Faculdade de Medicina da  USP. Além dessa foram realizadas manifestações no Centro Acadêmico XI de Agosto, da Faculdade São Francisco, na Escola Politécnica da USP e na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.

 


Na manhã de 4 de abril foi realizada a missa na Igreja da Candelária em memória de Edson. Após o término da missa, as pessoas que deixavam a igreja foram cercadas e atacadas pela cavalaria da Polícia militar com golpes de sabre. Dezenas de pessoas ficaram feridas.



Outra missa seria realizada na noite do mesmo dia. O governo militar proibiu a realização dessa missa, mas o vigário-geral do Rio de Janeiro, D. Castro Pinto, insistiu em realizá-la. A missa foi celebrada com cerca de 600 pessoas. Várias igrejas do Rio de Janeiro  realizaram missas por alma do Edson neste dia à noite.
Temendo que o mesmo massacre da manhã se repetisse, os padres pediram que ninguém saísse da igreja. Do lado de fora havia três fileiras de soldados a cavalo com os sabres desembainhados, mais atrás estava o corpo de fuzileiros navais e vários agentes do Departamento de Ordem Política e Social (DOPS).



Num ato de coragem, os padres saíram na frente de mãos dadas, fazendo um "corredor" da porta da igreja até a Avenida Rio Branco para que todos os que estavam na igreja pudessem sair com segurança. Apesar desse ato, a cavalaria aguardou que todos saíssem e nos encurralou nas ruas da Candelária. Novamente o saldo foi de dezenas de pessoas feridas.






Lembro da passeata e das muitas disputas na Rio Branco. Eu tinha 17 anos, um a menos que o Edson. Éramos uma juventude guerreira e sabíamos o que queríamos. O meu grupo se reunia na igreja Matriz da Tijuca, na Muda. Tínhamos com a aprovação do pároco, uma capela no porão da Igreja.
A capela servia como local de reunião. Lembro  uma vez à noite estávamos reunidos e chegaram os policiais do exército e invadiram, mas estávamos todos com a bíblia na mão e eles não encontraram nada, mas mesmo assim nos empurraram e tentaram nos intimidar, felizmente aquela noite era só uma preparação da celebração do domingo...

No início de junho de 1968, o movimento estudantil começou a organizar um número cada vez maior de manifestações públicas. No dia 18, uma passeata, que terminou no Palácio da Cultura, resultou na prisão de um líder estudantil.  No dia seguinte, o movimento se reuniu na UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) para organizar novos protestos e pedir a libertação  de alunos presos. Mas o resultado foi a detenção de 300 estudantes, ao final da assembleia.
Três dias depois, uma manifestação estudantil, em frente à embaixada norte-americana, gerou um conflito que terminou com 28 mortos, centenas de feridos, mil presos e 15 viaturas da polícia incendiadas. Aquele dia ficou conhecido como "Sexta-Feira Sangrenta".
Diante da repercussão negativa do episódio, o comando militar acabou permitindo uma manifestação estudantil, marcada para o dia 26 de junho. Segundo o general Luís França, 10 mil policiais estariam prontos para entrar em ação, caso fosse necessário.

O evento,  chamado de  “Passeata dos Cem Mil” foi uma manifestação popular de protesto contra a Ditadura Militar no Brasil, ocorrida em 26 de junho de 1968, na cidade do Rio de Janeiro, organizada pelo movimento estudantil e que contou com a participação de artistas, intelectuais e outros setores da sociedade brasileira.




Logo pela manhã, os participantes da passeata já tomavam as ruas da Cinelândia, no centro do Rio de Janeiro. A marcha começou às 14h, com cerca de 50 mil pessoas. Uma hora depois, esse número já havia dobrado.
Além dos estudantes, também artistas, intelectuais, políticos e outros segmentos da sociedade civil brasileira engrossaram a passeata, tornando-a uma das maiores e mais expressivas manifestações populares da história republicana brasileira.
Ao passar em frente à igreja da Candelária, a marcha interrompeu seu andamento para ouvir o discurso inflamado de um líder estudantil,  que lembrou a morte de Edson Luís e cobrou o fim da ditadura militar.
Tendo à frente uma enorme faixa, com os dizeres: "Abaixo a Ditadura. O Povo no poder", a passeata prosseguiu, durante três horas, encerrando-se em frente à Assembleia Legislativa, sem conflito com o forte aparato policial que acompanhou a manifestação popular, ao longo de todo o seu percurso.



Depois do evento, o então presidente Costa e Silva marcou uma reunião com líderes da sociedade civil - entre eles os universitários,  ocasião em que lhe foi pedida a libertação de estudantes presos, o fim da censura e a restauração das liberdades democráticas. Nenhuma dessas reivindicações foi aceita. O resultado foi a realização de outra passeata, que reuniu cerca de 50 mil pessoas.
Nos outros estados, os protestos estudantis ampliaram seu nível de organização e mobilização, como em Goiás, onde a polícia baleou 4 estudantes. Mas à medida que cresciam as manifestações contra a ditadura, também crescia a ação repressiva do governo militar, em todo o território nacional:
  • No dia 2 de agosto, Vladimir Palmeira foi preso. Logo em seguida, outros 650 estudantes foram para a cadeia.
  • No dia 4, 300 alunos foram detidos em São Paulo.
  • Em 21 de agosto, o Congresso rejeitou o projeto que concedia anistia aos estudantes e operários presos.
  • Em 12 de outubro, mais de 400 estudantes foram detidos durante um congresso clandestino da UNE (União Nacional dos Estudantes) em Ibiúna, interior de São Paulo.



Apesar da repressão, as manifestações estudantis continuaram, até 13 de dezembro de 1968, quando foi promulgado o AI-5 (Ato Institucional nº 5), marcando o início dos "Anos de chumbo" da Ditadura Militar brasileira.

O fotojornalista Evandro Teixeira que, à época, trabalhava para o Jornal do Brasil, tornou-se o autor da foto mais conhecida e representativa da Passeata dos Cem Mil. A foto exibe a massa humana que percorreu o centro do Rio de Janeiro e a enorme faixa contendo as frases: "Abaixo a Ditadura. O povo no poder"

Inspirado pela foto, o poeta Carlos Drumond de Andrade compôs o poema:
 "Diante das fotos de Evandro Teixeira".



"Das lutas de rua no Rio
em 68, que nos resta
mais positivo, mais queimante
do que as fotos acusadoras,
tão vivas hoje como então,
a lembrar como a exorcizar?"
Diante das Fotos de Evandro Teixeira


Nós passávamos muito tempo lá na capela e foi lá que recebemos a noticia de que o frei Betto e os dominicanos tinham caído, foi lá também que recebemos a notícia do AI-5.

Foi lá também que vi pela última vez alguns amigos, que a ditadura matou na flor da idade: Marcos, Januário entre tantos outros, esses dois metralhados no subúrbio de Quintino, no que ficou conhecido como a chacina do bairro de Quintino.
è preciso fazer memória, especialmente aos muitos Jesuses que deram sua vida pelo povo. A eles e ao Edson resgato a lembrança de um trecho da Paixão segundo Cristino do Geraldo Vandré, que cantávamos, naquela capela/ catacumba moderna de nossos sonhos, na sexta feira Santa:

Senhor, dai-nos todo teu perdão,
 Senhor, caminho da libertação,
Perdoa qualquer maldade,
que a outros possa causar,
Nosso amor a liberdade
Temos que continuar.
......
 Não viemos por teu pranto,
 nem viemos pra chorar,
 Na força do teu carinho
Esperamos nos salvar.

Reparte entre nós Senhor,
 a justiça em tua mesa
 Não viemos por teu pranto,
 nem viemos prá chorar..

O Ato Institucional nº 5, de 13 de dezembro de 68, marcou o início do período mais duro da ditadura militar (1964-1985). Editado pelo então presidente Arthur da Costa e Silva, deu munição ao regime para reprimir silenciar, amordaçar e eliminar seus opositores:
fechou o Congresso Nacional e outros legislativos
cassou mandatos eletivos, suspendeu por dez anos os direitos políticos de qualquer cidadão, interviu em Estados e municípios, decretou o confisco de bens por enriquecimento ilícito e suspendeu o direito de habeas corpus para crimes políticos.
O ministro da Justiça, Gama e Silva, anunciou as novas medidas em pronunciamento na TV à noite.
Foi como se tivéssemos sido assassinados, custou um pouco, mas o golpe foi muito duro, não sei se porque eu já tinha aos 17 anos uma visão mais profunda do absurdo que era o golpe militar ou por ter que encarar de frente a impotência e a desistência compulsória de nossos sonhos mais imediatos. Tivemos a duras penas que aprender a adiar a vida por tempo indeterminado.
Para um jovem isso produz um sentimento de perda indescritível...




Os primeiros efeitos do AI-5 foram percebidos naquela mesma noite. O Congresso é fechado. O presidente Juscelino Kubitschek, ao sair do Teatro Municipal do Rio – onde tinha sido paraninfo de uma turma de formandos de engenharia– foi levado para um quartel em Niterói, onde permaneceu preso num pequeno quarto por vários dias, sem roupa para trocar e nada para ler. O governador Carlos Lacerda foi preso no dia seguinte pela PM da Guanabara.
Após uma semana em greve de fome, conseguiu ser libertado.

Para driblar a censura, o "Jornal do Brasil" tenta dar a dimensão dos acontecimentos na sua seção de meteorologia:

"Previsão do tempo:
Tempo negro.
Temperatura sufocante.
O país está sendo varrido por fortes ventos.
Máx.: 38º, em Brasília.Mín.:5º, nas Laranjeiras.
O ar está irrespirável

O AI-5 foi seguido por mais 12 atos institucionais, 59 atos complementares e oito emendas constitucionais– duraria até 17 de outubro de 1978.

Sobre ele disse Costa e Silva, em discurso transmitido por rádio e TV, no último dia de 1968: "Salvamos o nosso programa de governo e salvamos a democracia, voltando às origens do poder revolucionário". Em 13 de janeiro de 1969, o coronel João Batista Figueiredo, ex-chefe da Agência Central do SNI (Serviço Nacional de Informações) e ex-presidente da República (1979-1985), mandava carta a Heitor Ferreira, secretário de Geisel e Golbery:
"Os erros da Revolução foram se acumulando e agora só restou ao governo 'partir para a ignorância'".

Passados dez longos anos, outubro de 1978, no governo Geisel, foi promulgada a emenda constitucional nº 11,  que no artigo 3º revogava todos os atos institucionais e complementares, no que fossem contrários à Constituição Federal, "ressalvados os efeitos dos atos praticados com bases neles, os quais estão excluídos de apreciação judicial".6 , restaurando o habeas corpus.
Mas a emenda constitucional só  entrou em vigor em 1º de janeiro de 1979.



Já estávamos na década de 80, depois de um longo período de silêncio, tristeza e uma sensação de impotência. Muitos tinham deixado o Brasil outros ficaram na clandestinidade, outros ainda acordaram seus sonhos e fingiam uma vida normal...

Na noite de 30 de abril de 1981, por volta das 21 horas, um frustrado ataque a bomba que seria perpetrado no Pavilhão Riocentro, no Rio de Janeiro,  quando ali se realizava um show comemorativo do Dia do Trabalhador, passou para história com o apelido de” Atentado do Riocentro” As bombas seriam colocadas por dois militares. Por volta das 21h00min, com o evento já em andamento, uma das bombas explodiu dentro do carro onde estavam os dois militares, no estacionamento do Riocentro. O artefato, que seria instalado no edifício, explodiu antes da hora, matando o sargento e ferindo gravemente o capitão.
Na ocasião o governo culpou radicais da esquerda pelo atentado. Essa hipótese já não tinha sustentação na época e atualmente já se comprovou, inclusive por confissão, que o atentado no Riocentro foi uma tentativa de setores mais radicais do governo (principalmente do CIE e o SNI) de convencer os setores mais moderados do governo de que era necessária uma nova onda de repressão a fim de paralisar a abertura política que estava acontecendo.

Durante o governo Figueiredo, o Brasil mergulhou numa das mais graves crises econômicas e sua história. A inflação era muito alta, a dívida externa assombrosa e as dívidas públicas do governo muito maiores que sua arrecadação.
A sociedade canalizou seu enorme descontento para com o governo militar organizando uma gigantesca companha em favor das eleições diretas para presidente da República.
Nas ruas, nas praças, multidões entusiasmadas, reunidas em grandes comícios, gritavam o lema Diretas-já! e cantavam o Hino Nacional.
Entretanto, uma série de manobras de políticos  ligados à ditadura militar, impediu a realização das eleições diretas para presidente. O principal grupo que sabotou a emenda das diretas foi liderado pelo deputado paulista Paulo Maluf.
Contrariada a vontade do povo brasileiro, teve progressivamente o processo das eleições indiretas, criado pelo regime militar. Concorreram à presidência dois candidatos: Paulo Maluf e Tancredo Neves.
Paulo Maluf era o candidato oficial do PDS, o partido do governo. Entretanto, não contavam com o apoio afetivo das forças tradicionais que estavam no poder.
Tancredo Neves, governador de Minas Gerais, era o candidato de uma confusa aliança política (a Aliança Democrática) composta por ex-integrantes do PDS e membros do MDB.
Em comício popular, Tancredo Neves apresentava-se como a alternativa concreta para que a sociedade brasileira alcançasse o fim do regime militar. Tancredo dizia que iria ao Colégio Eleitoral para acabar com ele e que sua eleição seria a última eleição indireta para presidente da República.
Em 15 de janeiro de 1985, o Colégio Eleitoral reuniu-se em Brasília para escolher entre Tancredo e Maluf. O resultado da votação foi amplamente favorável a Tancredo Neves, que recebeu 480 votos contra 180 dados a Maluf e 26 abstenções.
Tancredo Neves não conseguiu tomar posse da presidência da República. Doze horas antes da solenidade de posse, foi internado e operado no Hospital de Base de Brasília com fortes dores abdominais. Depois foi transferido para o INCOR – Instituto do Coração, em São Paulo. A enfermidade evoluía de forma fatal. Tancredo morreu em 21 de abril de 1985. O país foi tomado de grande comoção, em face da morte de Tancredo e das esperanças de mudança nele depositadas.
O Vice-Presidente em exercício, José Sarney, assumiu de forma plena o comando da nação.

De lá para cá a história é bem conhecida. O que esses acontecimentos produziram na sociedade brasileira especialmente em seus jovens é irreparável.
Foram inúmeras as iniciativas para fazer com que os jovens se alienassem. Desde uma ênfase na questão da prosperidade econômica, uma  crescente  valorização da razão cínica até a famosa Lei de Gerson que apregoava que deve-se levar vantagem em tudo, não importando s meios.
Na igreja  os movimentos populares que eram aglutinadores da força dos jovens e incentivos na crença da utopia, que na década de 60 e 70 tiveram sua expressão na teologia da libertação, acabou sendo duramente reprimida  não só pela ditadura mas principalmente pela própria igreja. Com a eleição de João Paulo II em 1978 houve uma crescente repressão e um incentivo á recém criada Renovação carismática católica oriunda dos Estados Unidos em 1967 , mas  foi entre 70 e 73 que ela chegou ao brasil e com ela uma nova espiritualidade mais individualista com ênfase no sobrenatural e com um forte viés tradicionalista disfarçado em espiritualidade carismática.
Os efeitos desse horror que se abateu sobre os jovens de 68 foi muito maior do que se poderia imaginar, foi como uma bomba de efeito retardado que se estendeu a seus filhos e netos e que vem se fazendo sentir décadas depois, fez como que uma lobotomia nas gerações futuras aos jovens de 68 e desviou todos os seus sonhos de liberdade, de Paz e amor para uma sede de poder e consumo. Talvez por isso os jovens de hoje prefiram os shoppings ao invés das intermináveis reuniões estratégicas para mudar o mundo tão atuais naquele tempo.
Sem os diretórios acadêmicos, sem eleições, sem a possibilidade de se reunirem e com um incentivos apenas para o crescimento individual a juventude acabou sem espaço e sem uma formação que a tornasse questionadora e interessada em política.
Vai ser preciso muitas décadas para que se possa ter uma efervescência como a de 1968 entre os jovens, que os faça sonhar e desejar algo mais que sucesso, fama e enriquecimento.
Pode-se dizer que os resultados são os que observamos hoje, uma ausência de lideranças politicas sérias e a ausência de um militância comprometida com valores maiores.







Nenhum comentário:

Postar um comentário