O absurdo e a Graça

Na vida hoje caminhamos entre uma fome que condena ao sofrimento uma enorme parcela da humanidade e uma tecnologia moderníssima que garante um padrão de conforto e bem estar nunca antes imaginado. Um bilhão de seres humanos estão abaixo da linha da pobreza, na mais absoluta miséria, passam FOME ! Com a tecnologia que foi inventada seria possível produzir alimentos e acabar com TODA a fome no mundo, não fossem os interesses de alguns grupos detentores da tecnologia e do poder. "Para mim, o absurdo e a graça não estão mais separados. Dizer que "tudo é absurdo" ou dizer que "tudo é graça " é igualmente mentir ou trapacear... "Hoje a graça e o absurdo caminham, em mim lado a lado, não mais estranhos, mas estranhamente amigos" A cada dia, nas situações que se nos apresentam podemos decidir entre perpetuar o absurdo, ou promover a Graça. (Jean Yves Leloup) * O Blog tem o mesmo nome do livro autobiográfico de Jean Yves Leloup, e é uma forma de homenagear a quem muito tem me ensinado em seus livros retiros, seminários e workshops *
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8 de agosto de 2020

Pedro Profeta da Esperança

 " A causa de Deus não fracassa"
( Pedro Casaldáliga)

1ª parte



2ª parte

Ir. Pedro Casaldáliga respondendo a perguntas em 1988

Jesus nos ensinou que 
o PAI, não é meu,

é NOSSO!

E que o Pão não é meu,

é NOSSO!




Pedro Casaldáliga, um santo que vive entre nós


"Mi vida son mis causas 
y mis causas valen más que mi vida"



O contrário da fé é o medo.

Não se pode ter medo de ter medo do medo.

Eu tenho a poesia, a poesia me salva do medo e da dúvida.

Não posso resolver todas as dúvidas, por isso rezo, falo com Deus.





  



  


Bispo de São Felix do Araguaia




 Pedro não queria ser bispo. Foi difícil convencê-lo 
e quando aceitou fez exigências 
 que queria tudo o mais simples possível

Foi sagrado Bispo de S. Feliz do Araguaia: 
ao invés de mitra, preferiu o chapéu de palha, 
ao invés de báculo lançou mão de um remo indígena.
Mais simples e identificado com seu povo, impossível. 

                                                  

Não ter nada, não levar nada,
Não poder nada, não pedir nada
E em contrapartida, não matar nada.
 Não Calar nunca.

                                           




                        

                        









EU, ARAGUAIA E TU

Eu, Araguaia e tu, um tempo só.
Abraamicamente numerosas,
nos garantem o sonho proibido
as estrelas, lá fora canceladas.

O ipê batiza ainda com ouros gratuitos
o Silêncio, o que nós, ó Araguaia,
conseguimos salvar dos invasores.

Sempre ainda encontramos — eu e tu —
a pergunta inquietante de uma garça, na beira,
provocando respostas, acordando o Mistério.

Tu estavas, no princípio,
de acordo com a Lua, sacerdotisa virgem,
alfombrando as cadências do Aruanã sagrado.

Os potes Karajá recolhiam teus olhos
e os peixes costuravam de prata teu banzeiro.

Ainda o Padim Ciço não mostrara
tua bandeira Verde aos retirantes.

Não havia Funai, Sudam, nem Incra.

Eram
Deus
e as Aldeias.


Poema extraído da obra CHUVA DE POESIAS, CORES E NOTAS NO BRASIL CENTRAL, 2 ed., de Sônia Ferreira. Goiânia:Editora da UCG; Editora Kelps, 2007, com a autorização da autora.















São Pedro Casaldáliga rogai por nós !





 

São Pedro Casaldáliga, (vídeo) Descalço sobre a terra roxa


O link abaixo é de uma série da TV espanhola de nome " Descalço sobre a terra Roxa" . Conta parte da vida do Bispo Pedro Casaldáliga, nascido na Catalunia, mas que tomou o Brasil, ou a região de São Felix do Araguaia, em Goiás como sua terra natal. O filme é uma importante parte da história recente do Brasil em seus anos mais duros e vergonhosos, a ditadura militar.
Ao assistir a esse filme tem-se a nítida certeza de que estamos assistindo a um filme da vida de um santo de nosso tempo.
 É um filme longo, em duas partes. Um filme realista e por vezes bastante forte. Na minha opinião um filme   que não pode ser deixado á margem da vida de quem se diz cristão.


copie e cole este endereço em seu navegador:
http://www.rtve.es/alacarta/videos/descalzo-sobre-la-tierra-roja/descalzo-sobre-tierra-roja-1-parte/2748214/




24 de fevereiro de 2020

A verdade vos fará Livres - Mangueira 2020



Mangueira:
Toquinho e Vinícius já tinham profetizado que “ um bom samba é uma forma de oração”, mas nunca alguém tinha realizado na pratica, esta profecia como a Mangueira nos proporcionou na madrugada desta segunda feira de carnaval. 
Lindo, tocante, profético e sobretudo uma verdadeira celebração religiosa. Muito digna, e extremamente profunda a provocação da estação primeira, nesta reflexão sobre o “Jesus da gente”. Nunca tinha visto alguém realizar um cristianismo tão verdadeiro e autêntico.
O carnavalesco Leandro Vieira não sei se propositalmente ou não, acabou fazendo o que o Papa Francisco tem pedido insistentemente a Igreja católica, com muito pouco sucesso, por parte de seus bispos e padres. O Jesus da gente é o líder da “igreja em saída” da igreja “com cheiro de ovelha”.

O Jesus que está verdadeiramente no meio de nós, proclamado por religiosos, mas nunca realizado na prática como Leandro da Mangueira ousou mostrar. O Jesus negro, gay, mulher, o pobre perseguido pela polícia e pela sociedade. o Jesus mendigo,  filho do José desempregado e da Maria de tantas dores, que “sobe e desce as ladeiras” das favelas.
O Jesus índio, a cada dia mais próximo da extinção pelas ações genocidas, dos poderes constituídos. A mangueira ousou mostrar sem maquiagem o verdadeiro Jesus que disse que estaria conosco até o fim dos tempos.




Certamente a Mangueira não agradou  a quem detém o poder, nem civil nem religioso. Seu desfile denuncia séculos de mentiras e estratégias para manter o poder pelo medo e a culpa. 
A imagem de um Jesus que nada tem a ver com o jovem galileu. O Jesus que embora exaltado em ostensórios sobre o altar prefere estar embaixo dos viadutos ou esmolando pelas calçadas da cidade.
Não existiria homofobia, preconceito racial, feminicídio, exploração, e desigualdade sócio econômica, se cada um reconhecesse no seu semelhante, o mesmo Jesus que anima a sua própria vida. É essa identidade, esse Emanuel, o Deus conosco, que quando reconhecido dá sentido ao “amai ao próximo como a ti mesmo” e o “amai-vos uns aos outros como eu vos amo”.
Ele deixou claro em várias passagens do evangelho, que foram deturpadas na busca do controle do poder. Porque fizeram o povo não levar a sério o “os ladrões e as prostitutas vos precederão no Reino”, dito aos sacerdotes do templo?


A Mangueira num só desfile desmonta as teologias inventadas, da prosperidade, do sucesso, da predileção pelos que mais doam seus parcos recursos aos padres e pastores gananciosos .
Mais que cantar e desfilar a Mangueira rezou e nos fez rezar, por um novo Brasil sem preconceitos, com melhor distribuição da riqueza, com respeito e igualdade e oportunidade para todos, sem armas nas mãos, sem destruição e genocídio.

O Jesus real foi posto para sambar na avenida, e faz a sua ressureição na consciência do povo pobre e sofrido que sempre foi barrado nas igrejas por estar maltrapilho. O Jesus da gente não precisa de templo feito por mãos como diz o salmo, ele vive no coração de cada um de nós que bate como  surdo de marcação, tão característico da Mangueira.

Chegou a hora de todos nós, não só a Mangueira pegar a visão:
Não há futuro sem partilha e muito menos Messias de arma na mão.

Felizmente ainda temos sacerdotes de varias correntes cristãs que anunciam e vivem o verdadeiro Jesus da gente e estavam abrindo a procissão negra da Mangueira na avenida.
 



Cantemos todos com a Mangueira,
Jesus ressuscitou!    Aleluia !!!

Senhor, tenha piedade
Olhai para a terra
Veja quanta maldade
Senhor, tenha piedade
Olhai para a terra
Veja quanta maldade

Mangueira

Samba, teu samba é uma reza
Pela força que ele tem
Mangueira
Vão te inventar mil pecados
Mas eu estou do seu lado
E do lado do samba também

Eu sou da Estação Primeira de Nazaré

Rosto negro, sangue índio, corpo de mulher
Moleque pelintra no buraco quente
Meu nome é Jesus da Gente

Nasci de peito aberto, de punho cerrado
Meu pai carpinteiro, desempregado
Minha mãe é Maria das Dores Brasil

Enxugo o suor de quem desce e sobe ladeira
Me encontro no amor que não encontra fronteira
Procura por mim nas fileiras contra a opressão
E no olhar da porta-bandeira pro seu pavilhão

Eu tô que tô dependurado
Em cordéis e corcovados
Mas será que todo povo entendeu o meu recado?
Porque, de novo, cravejaram o meu corpo
Os profetas da intolerância
Sem saber que a esperança
Brilha mais na escuridão

Favela, pega a visão
Não tem futuro sem partilha
Nem messias de arma na mão
Favela, pega a visão
Eu faço fé na minha gente
Que é semente do seu chão

Samba, teu samba é uma reza
Pela força que ele tem
Mangueira
Vão te inventar mil pecados
Mas eu estou do seu lado
E do lado do samba também


video completo do desfile













20 de outubro de 2019

Os riscos da arrogância do Império

Leonardo Boff

Conto-me entre os que se entusiasmaram com a eleição de Barack Obama para Presidente dos EUA, especialmente vindo depois de G. Bush Jr, Presidente belicoso, fundamentalsta e de pouqíssimas luzes. Este acreditava da iminência do Armagedon bíblico e seguia à risca a ideologia do Destino Manifesto, um texto inventado pela vontade imperial norteamericana, para justificar a guerra contra o México, segundo o qual os EUA seriam o novo povo escolhido por Deus para levar ao mundo os direitos humanos, a liberdade e a democracia. Esta excepcionalidade se traduziu numa histórica arrogância que fazia os EUA se arrogarem o  direito de levar ao mudo   inteiro, pela política ou pelas armas,  o seu estilo de vida e sua visão do mundo.

Esperava que o novo Presidente não fosse mais refém desta nefasta e jorjada  eleição divina, pois anunciava em seu programa o multilateralismo e a não hegemonia. Mas tinha lá minhas desconfianças, pois atrás do Yes, we can (“sim, nós podemos”) podia se esconder a velha arrogância. Face à crise econômico-financeira apregoava que os EUA mostrou em sua história que podia tudo e que ia superar a atual situação. Agora por ocasião do assassinato de Osama bin Laden ordenada por ele ( num Estado de direito que separa os poderes, tem o Executivo  o poder de mandar matar ou não cabe isso ao Judiciário que manda prender, julgar e punir?)  caiu a máscara. Não teve como esconder .a arrogância atávica.
O Presidente, de extração humilde, afrodescentente, nascido fora do Continente, primeiramente muçulmano e depois convertido evangélico, disse claramente:”O que aconteceu domingo envia uma mensagem a todo o mundo: quando dizemos  que nunca vamos esquecer, estamos falando sério”. Em outras palavras: “Terrorristas do mundo inteiro, nós vamos assassinar vocês”. Aqui está revelada, sem meias palavras, toda a arrogância e a atitude imperial de se sobrepor a toda  ética.
Isso me faz lembrar uma frase de um teólogo que serviu por 12 anos como assessor da ex-Inquisição em Roma e que veio me prestar solidariedade por ocasião do processo doutrinário que lá sofri. Confessou-me:”Aprenda da minha experiência: a ex-Inquisição, não esquece nada, não perdoa nada e cobra tudo; prepare-se”. Efetivamente assim foi o que senti. Pior ocorreu com um teólogo moralista, queridíssimo em toda a cristandade, o alemão, Bernhard Hâring, com câncer na garganta a ponto de quase não poder falar. Mesmo assim foi submetido a rigoroso interrogatório na sala escura daquela instância de terror psicológico por causa de algumas afirmações sobre sexualidade. Ao sair confessou:“o interrogatório foi pior do que aquele que sofri com a SS nazista durante a guerra”. O que significa: pouco importa a etiqueta, católico ou nazista, todo sistema autoritário e totalitário obedece à mesma lógica:cobra tudo, não esquece e não perdoa. Assim prometeu Barack Osama e se propõe levar avante o Estado terrorista, criado pelo seu antecessor, mantendo o Ato Patriótico que autoriza a suspensão de certos direitos e a prisão preventiva de suspeitos sem sequer avisar aos familiares, o que configura sequestro. Não sem razão escreveu Johan Galtung, norueguês, o homem da cultura da paz, criador de duas instituições de pesqusa da paz e inventor do método Transcend na mediação dos conflitos (uma espécie de política do ganha-ganha): tais atos aproximam os EUA ao Estado fascista.
O fato é que estamos diante de um Império. Ele é consequência logica e necessária do presumido excepcionalismo É um império singular, não baseado na ocupação territorial ou em colônias mas nas 800 bases militares distribuidas pelo mundo todo, a maioria  desnecessária para a segurança americana. Elas estão lá para meter medo e garantir a hegemonia no mundo. Nada disso foi desmontado pelo novo Imperador, nem fechou Guantânamo como prometeu e ainda mais, enviou trinta mil soldados ao Afeganistão para uma guerra  de antemão perdida.
Podemos discordar da tese básica de Abraham P. Huntington em seu discutido livro O choque de civilizações. Mas nele há observações, dignas de nota, como esta: “a crença na superioridade da cultura ocidental é falsa, imoral e perigosa”(p.395). Mais ainda:”a intervenção ocidental provavelmente constitui a mais perigosa fonte de instabilidade e de um possível conflito global num mundo multicivilizacional”(p.397). Pois as condições para semelhante tragédia estão sendo criadas pelos EUA e pelos seus súcubos europeus.
Uma coisa é o povo norte-americano, bom, ingenioso, trabalhador e até  ingênuo que admiramos, outra é o Governo imperial, que não respeita tratados internacionais que vão contra seus interesses  e capaz de todo tipo de violência. Mas não há impérios eternos. Chegará  o momento em que ele será um número a mais no cemitério dos impérios mortos.

21 de maio de 2017

Marxismo e Cristianismo

Maurício Tupinambá Fernandes de Sá
A teoria marxista surgiu da reflexão crítica e científica sobre os mais importantes movimentos de trabalhadores surgidos na história e é, sem dúvida, a teoria mais relevante para entender a economia capitalista e a possibilidade de emancipação dos oprimidos. Iniciado pelo filósofo alemão Karl Marx, o marxismo continuou sendo desenvolvido e aperfeiçoado por outros pensadores, como Friedrich Engels, Rosa Luxemburgo, Wladimir Lênin, Leon Trotski, Antônio Gramsci, Georg Lukács, Theodor Adorno, Herbert Marcuse e Ernst Bloch. A maior vantagem do marxismo, como teoria, é que ele é um movimento crítico e, por isso, ele renasce com nova força da reflexão sobre seus próprios erros e permite que continue sendo interpretado e experimentado com maior rigor e eficácia. O marxismo é um pensamento em movimento, diferente do positivismo que é estático e conservador.
O Cristianismo, maior expressão religiosa do ocidente, surgiu antes do capitalismo, e baseia sua fundamentação na vida e ação de Jesus Cristo. O ideal da vida cristã é a Partilha, a Comunhão. Este é o sentido da Comunidade, expressando a idéia de uma vida em Comum-unidade com os outros. Não cabe ali a Propriedade Privada, a exploração e a desigualdade social. Por defender o ideal de uma sociedade onde o importante é o Comum, aquilo que é de todos, Jesus Cristo , Filho de Deus , foi Crucificado pelos poderosos de sua época, os Romanos e Fariseus, e, inclusive, os sumo-sacerdotes (religiosos que não comungavam dos ideais cristãos).
Entretanto, em torno do século VI, no reinado de Constantino, o Cristianismo foi utilizado como ideologia a serviço da dominação pelo Império Romano. Os senhores feudais negaram o Cristianismo e constituíram sociedades injustas, instrumentalizando ideologicamente a crença cristã para integrá-la politicamente ao Estado. Mais tarde, com o advento do capitalismo, os burgueses tentaram conciliar sua forma de vida parasitária com a fé cristã. Entretanto, os capitalistas mais autênticos se assumiram como liberais e se contrapuseram à Igreja, na tentativa de superar o Cristianismo e acabar com a hegemonia do feudalismo.
Podemos afirmar que tanto os capitalistas que se "autodenominam cristãos" como aqueles que se identificam como liberais, negam a vida em comunhão e pregam a acumulação pessoal com o sacrifício da maioria. Seu combate é o mesmo, a luta contra o comunismo, termo que, até hoje, utilizam para confundir as pessoas. E essa é uma luta política, como não poderia deixar de ser, embora os opressores continuem afirmando que só eles é que podem fazer "política". Como negar que o cristianismo é político se o maior líder de uma Igreja cristã é chefe de um Estado, o Vaticano, que em toda sua história organiza movimentos políticos em todo o mundo? Cristo foi morto como "preso político", por defender idéias que contestavam a estrutura injusta da sociedade. Assim, todo cristão que vive o evangelho de forma coerente, desagrada àqueles que oprimem o povo.
Há mais de um século, o marxismo passou a ser a principal expressão do pensamento da esquerda mundial, tendo em vista que a teoria liberal se converteu em ideologia do capitalismo. Esta, além de ser anterior ao marxismo, não consegue apresentar perspectivas à esmagadora maioria da população, principalmente aos problemas da exclusão social e da destruição ambiental. Onde estariam os liberais cristãos? Teoricamente sua base é contraditória e conflituosa. Sua ação é, em sua maioria, disfarçada, secreta e geralmente hipócrita. A maioria dos capitalistas, não se revela como liberal (inclusive partidos deixam de declarar publicamente como liberais) para não assustar a população, reunindo-se em torno de movimentos empresariais, claramente opostos ao cristianismo e, mesmo assim, mantendo a aparência de "cristãos devotos" na sociedade.
Como o liberalismo passou a legitimar a opressão capitalista, para manter os privilégios de classe, muitos liberais negam o saber ao povo, se apresentando, eles mesmos, como estudiosos e "colecionadores" de obras do marxismo, mas reprimindo e discriminando a leitura marxista à população em geral. Atualmente, é freqüente verificarmos que os mesmos que estiveram a serviço da ditadura militar, que mataram e torturam pessoas para manter os capitalistas no poder, vêm a público combater o marxismo. Aliás, assumem a mesma prática dos que mataram Cristo: não querem que o povo conheça realmente o ideal cristão, assustando as pessoas sobre teorias que possam alterar a ordem que favorece aos poderosos. Da mesma forma que reprimiram a leitura do marxismo no período de ditadura militar, prendendo, perseguindo e assassinando marxistas no Brasil. São esses os liberais brasileiros que se apresentam como defensores da democracia.
Partindo do entendimento do significado do marxismo e do cristianismo, podemos verificar que as duas correntes de pensamento, em sua origem, convergem para o mesmo sentido: a vida em comum, o comunismo. O que não é possível é ser capitalista e cristão ao mesmo tempo e os liberais demonstram isso claramente em sua teoria, que surgiu, objetivamente, para combater o cristianismo, em torno do século XVII. Os equívocos de algumas experiências socialistas com relação ao cristianismo são evidentes, assim como foram contraditórias com o próprio marxismo, instrumentalizado para legitimar o poder de Estados autoritários e burocratizados. Mas, o marxismo permanece vivo, lado a lado com o Cristianismo, com inúmeros Cristãos Marxistas, adeptos da Teologia da Libertação, o que não ocorre com o liberalismo.
Como o marxismo estimula o pensamento livre, sua leitura e debate devem ser oportunizados a todos, sem distinção. Através do marxismo tornou-se possível aos trabalhadores compreender a exploração capitalista, permitindo a sua mobilização e organização social contra os opressores, numa perspectiva de construção de uma sociedade socialista, sem classes e desigualdades sociais, coerente com o propósito Cristão de que "todos tenham vida e a tenham em abundância".

18 de agosto de 2016

CANTO PARA AS TRANSFORMAÇÕES DO HOMEM *

Moacyr Felix


A todos os que sonham e trabalham por um mundo melhor, libertado dos obscurantismos e dos dogmas, do apodrecimento da própria existência pela
miséria física e da perda dos valores dos humanismo pela miséria moral.


(I) INICIAÇÃO

- Meu pai, o que é a liberdade?

- É o seu rosto, meu filho,
o seu jeito de indagar
o mundo a pedir guarida
no brilho do seu olhar.
A liberdade, meu filho,
é o próprio rosto da vida
que a vida quis desvendar.
É sua irmã numa escada
iniciada há milênios
em direção ao amor,
seu corpo feito de nuvens
carne, sal, desejo, cálcio
e fundamentos de dor.
A liberdade, meu filho,
é o próprio rosto do amor.

- Meu pai, o que é a liberdade?

A mão limpa, o copo d’água
na mesa qual num altar
aberto ao homem que passa
com o vento verde do mar.
É o ato simples de amar
o amigo, o vinho, o silêncio
da mulher olhando a tarde
- laranja cortada ao meio,
tremor de barco que parte,
esto de crina sem freio.

- Meu pai, o que é a liberdade?

È um homem morto na cruz
por ele próprio plantada,
é a luz que sua morte expande
pontuda como uma espada.
É Cuauhtemoc a criar
sobre o brasileiro que o mata
uma rosa de ouro e prata
para altivez mexicana.
São quatro cavalos brancos
quatro bússolas de sangue
na praça de Vila Rica
e mais Felipe dos Santos
de pé a cuspir nos mantos
do medo que a morte indica.
É a blusa aberta do povo
bandeira branca atirada
jardim de estrelas de sangue
do céu de maio tombadas
dentro da noite goyesca.
É a guilhotina madura
cortando o espanto e o terror
sem cortar a luz e o canto
de uma lágrima de amor.
É a branca barba de Karl
a se misturar com a neve
de Londres fria e sem lã,
seu coração sobre as fábricas
qual gigantesca maçã.
É Van Gogh e sua tortura
de viver num quarto em Arles
com o sol preso em sua pintura.
É o longo verso de Whitman
fornalha descomunal
cozendo o barro da Terra
para o tempo industrial.
É Federico em Granada.
É o homem morto na cruz
por ele próprio plantada
e a luz que sua morte expande
pontuda como uma espada.

- Meu pai, o que é a liberdade?

A liberdade, meu filho,
é coisa que assusta:
visão terrível (que luta!)
da vida contra o destino
traçado de ponta a ponta
como já contada conta
pelo som dos altos sinos.
É o homem amigo da morte
Por querer demais a vida
- a vida nunca podrida.
É sonho findo em desgraça
desta alma que, combalida,
deixou suas penas de graça
na grade em que foi ferida...
a liberdade, meu filho,
é a realidade do fogo
do meu rosto quando eu ardo
na imensa noite a buscar
a luz que pede guarida
nas trevas do meu olhar.



(II) ENREDO


I

Onde se destrói o mundo em que vivo
aí estou.
Onde há destruição, aí se define o meu caminho.
Onde os deuses se desmoronam é que apareço
sem rosto
atrás de suas formas feitas de noite e de medo.
Onde se morre, onde se nasce.
Onde se morre é que eu renasço.

- Stirb und werde!
- “Morre e transmuda-te!”
Está não é, meu velho Goethe, a verdade das verdades, a ignorada
pelos que apenas
“um hóspede triste sobre a escura terra”?!
A morte e o fogo e a humilhação e o ódio
em vida e verde devem ser devolvidos.


II


Depois de silenciar o vozerio das cores
nas coisas cinzas que não dizem mais
do olhar humano que as fizera humanas,
a chama desce, e em rodopios tontos
retorna ao calor íntimo da terra,
ao berço rubro, à causa que realiza
este mistério grande de existir
o peixe e a estrela, o movimento e a cor
e o som do homem a se querer de amor.
Medo e humilhação e ódio
Assim alimentados serão devolvidos.


III


Medo e humilhação e ódio
devem ser devolvidos:
infenso ao homem é guardá-los em sua alma
receptáculo de coisas maiores
(como as águas da lua a perlavar a noite
num rosto de criança que dorme
ou numa anca macia de mulher nua).
Porque emudeceu a voz mais alta de minha infância?
Que ternura imunda rouba
A fala do mar dos pés de uma criança?
Que nos faz sobreviver, adultos
somente em medo e humilhação e ódio?
Querer-me novo é querer-me mais que morto
em mim ou nesta existência que me olha.
É querer-me outro que não este em que me instalaram.
É não parar, não querer parar os eixos
desta roda de luz
- plural de eternidades
a dissolver o bronze entre os escombros do que eu era.
Nesta banda podre do tempo
A água não inventa rios
nem ouve os cantos do mar.
Nestas escarpa onde habitam os dourados senhores do sul
ninguém nasce, ninguém agoniza mais de uma vez.
Aqui o sangue se enclausura
numa ordem arrumada como a das geladeiras.
E não sabe mais a ciência do orvalho numa alegria de flor.
Aqui a morte interrompe apenas o esforço de durar.
Aqui
Medo e humilhação e ódio
não devem ser recebidos
Muitas vezes essa é a única forma concreta de amar
aqui.


IV


Quando ensolarada pelas raízes do fogo, a vida
é o coração ligado ao velocíssimo novelo das galáxias
e na fúria de uma lágrima, senhores, e no desejo
de todo amor que se descobre
fogo e movimento e transformação
eu poderia doar-vos o acontecimento ilimitado,
o reinado da ordem e do caos anteriores a todos os deuses.


Porém a treva, a treva deste mundo em que eu escuto
estilhaçar-se a vida em seu cristal escuro,
a treva
só me permite em vossas mãos (e nas minhas)
apenas com esses parcos cacos de mim próprio...


Os vossos mitos são fortes, senhores, muito fortes.


V


Nos álbuns de família quem ganha e perde
és tu, sombra de Heráclito,
a transformar em chuva o sol em nossos rios.


Nos álbuns de família com brasões, a sepultura ideal
dos que já morreram
tantas vezes
quantas as que se deixaram fotografar
singulares
sobre uma data, uma conquista ou uma verdade
que pensaram imóveis.
Se o camponês não possui maquinas
Fotográficas
Para re-saltar o instante de sua morte como servo,
que família imóvel é essa que se quer sagrada?
Ignora ela a vazia tristeza dos seus domingos,
quando os cupins também a devoram ao lado da Casa Grande?
Nos álbuns de família, qual a vida que está neles?

Se em cada página o tempo ri
velho devasso, avô caduco
a negar ajuda e mão
estranha-mente
aos netos acordados pelo dor em fundo chão.

Nos álbuns de família quem ganha e perde
és tu, sombra de Heráclito,
a transformar em chuva o sol de nossos rios.


VI


De repartição em repartição a poesia
fugiu, tentou fugir
do engavetado mundo das mesas
alinhadas
como leitos fúnebres
à disposição das
necrófilas orgias de generais e beatas e banqueiros
e exporta-dores.
Ah, o clima de cemitério que reina nos ministérios!
Ah, a essencial recusa da poesia,
suas explosões de sangue naufragando
o destino e a infiníta infância da vida
entre os ruídos do mar e a rouquidão dos homens
agachados.
Agachados
sob o pensamento natimorto dos que divinizam
o Poder, o Estado, e a Política.
Ah, a aurora guardada no tinteiro dos poetas
em que o amor apenas autoriza o dia
na praça
sem o discurso hipócrita
ou na cidade sem bancos e sem forças armadas.


VII


Assim como defende
a perfeição da flor
acabada
e em si mesma fechada,
o poeta não defende
até hoje governo algum:

seu lado é o lado do povo
sempre e sempre roubado
por mil, por cem ou por um.

O pelego se untou
nas banhas do negocista
e engordou engordou
tanto
que a sua barriga tão grande
esmagou

a menina do povo
que vinha com a flor,
que vinha com a flor.

O poeta defende
o direito de andar

até o outro lado da vida
em que o homem é o seu avesso
o chão de seu próprio mar
e a verdade a rosa nua
solta na praia e na rua
como um convite a bailar.

O poeta defende
o direito de amar.


VIII


Do princípio e do fim das horas que o dinheiro envilece
foi então que chegaram os matadores de pássaros,
os que invadiram a minha ilimitada gaiola de ossos
e arrastaram de lá o poeta
para os depósitos de preços ou de presos.

A roda dos olhos quebrada ou o acanalhamento.
O mundo, ou o interior do exterior, tinha que ser quebrado
alguma coisa, a vida, tinha que ser quebrada
já que os homens inteiros estavam ainda no ventre
dos que reivindicavam uma história nova
nos campos e nas fábricas.
Ou no pensamento daqueles que sabiam escutar, mas
com um punhal na cintura,
o abraço das coisas e dos seres.

De re-partição em re-partição a poesia
Comprimiu o poeta no coração de uma bala.


IX


Segregada pelos amiantos do medo nos comutadores
e nos lustres, a luz
despe-se de todo berro e toda flama,
enquanto no morno ritual da sala
a saltar de colarinhos e colares
a palavra do homem assassina o homem: repetição de quando
o sílex, afiado, trazia a morte para as suas carótidas.
Os antigos porém, desconheciam os terríveis cortejos
a enterrar na tarde movida pela fala inglesa
a mudez de um Cristo sempre de madeira
e a histórica possibilidade de liberdade na existência.
E não gelavam o sangue da palavra injustiça
Em fáceis copos de uísque.

Nem mediam também a construção do homem pelo número de suas latrinas

sabiam eles, os antigos, pelo menos a diferença
entre o conforto das jaulas e o fogo aceso no topo das montanhas.
Mais alto do que eles, o coração do povo tem que saber isso!
Mais alto do que eles, o carvão que faz a noite
vestir a chama do silêncio em chamas
escreve

na estupidez moderna destes nossos muros
indicações escritas pelo sol nos mapas do futuro.


X


O homem, os homens
São vitórias da morte a circular as vidas
ou sombras opacas de uma Vida
em que esse anti-salto, a morte
não existe e nem nunca existiu
a não ser em seu não-ser de ser
desvão ao lado de desvão na ponte?

Se os câes falassem, ah, como ririam
(em frente ao sol)
dos nossos medrosos altares.


(III) CONCLUSÃO

É inútil querer parar o Homem,
o que transforma a pedra em piso,
o piso em casa e a casa em fonte
de novas músicas da carne
sob as velocidades da luz e da sombra.
É inútil querer parar o Homem
acolher sempre um pouco de si próprio
no mistério da vida a cavalgar
os cavalos aéreos da semântica
sob uma indeferida eternidade.
É inútil querer parar o Homem
e o impulso que o transforma sempre
na pátria sem fim do ato livre
que arranca a vida e o tempo e as coisas
do espelho imóvel dos conceitos.
Ah, que mistério maior é este
que liga a liberdade e o homem
e une o homem a outros homens
como o curso de um rio ao mar!
(quando a noite é una e indivisível,
nos olhos da mulher que eu amo
acende-se o deus deste segredo
-e uma sombra só nos transporta
ao fundo sem nome da vida.)

É inútil querer parar o Homem.
Do que morre fica o gesto alto
a ser o germe de outro gesto
que ainda nem vemos no tempo.
Isto as crianças nos lembram
quando rodam em nossas portas
os ossos do dia que foi nosso
e agora são os eixos do pedalar
nas bicicletas com que os deuses
as vão levando para outros dias
do acaso, do desejo e do fazer
em que não seremos mais, eternamente.
É inútil querer parar o Homem
e o seu sonho a dar longas voltas
ou a inventar estradas no cárcere,
o seu sonho mais essencial
a destruir e a enferrujar
metais de qualquer ditadura.
É inútil querer parar o Homem
e o seu sonho, o mais de flor,
de apagar dos lábios da terra
o ricto do medo que estica
no céu de aço a bomba atômica;
o seu sonho, que é o seu movimento
onde a razão dança mais bela,
de ver no armário dos museus
o manual oco e sem asas
que aprisiona o corpo e o sexo
en desrazões dadas na infância
e os livros de Deve & Haver
dos poderosos de Manhattan
comerciando Deus e o mundo.

É inútil querer parar o Homem
e o seu sonho de enterrar
sob o verde passo de uma história livre
os dogmas do stalinismo
grudado como esparadrapo
sobra a boca múltipla da vida
(e a subdesenvolvida farda
dos tiranos que bebem uísque
pago com o sangue de sua pátria).
É inútil querer parar o Homem:
em tudo que de amor cantar
o seu sonho caminhará
a encaminhá-lo na direção dele próprio
inteirado quando históricamente liberto
do econômmico em que ora o algemam.
É inútil querer parar o Homem,
o que transforma a pedra em piso,
o piso em casa e a casa em fonte
de novas músicas de carne.
A andar em formas de palavras
sob os arvoredos da vida
o sonho do Homem caminhará
do pensamento para as mãos
e das mãos para o pensamento,
noite e dia caminhará.
até tornar as mãos em pássaros
livres, inteiramente livres, para amar
o azul ou as várias almas do céu
dentro do Homem que se movimenta
na liberdade, no amor e no desejo
em que a si próprio inventa.



____
* Deste poema, escrito em maio de 1964, o fragmemto inicial foi então publicado no Correio da Manhã. Diagramado com eficiência na seleção intelectual de cada fragmento do seu texto e no uso adequado das ilustrações feitas pelo talento criador de Poty, o célebre gráfico Rubens de Barros Lima, neste mesmo ano, armou também um livro de 84 páginas, no formato de 18x24 cm, e tão graficamente bonito, que à Editora foi concedida, por essa beleza gráfica, a Medalha de Ouro da Câmara Municipal do Livro em São Paulo.
Sendo um dos primeiros livros contra o golpe militar de 1964, a livrariada Civilização Brasileira, em gesto típico de Ênio Silveira, colocou-o no espaço total de suas estantes para a rua e sobre elas estendeu uma longa faixa onde estava escrito ”A poesia é a arma do povo contra a tirania”. O livro esgotou-se rapidamente. (N. do A.)

Moacyr Félix de Oliveira (Rio de JaneiroRJ, 11 de março de 1926 — Rio de JaneiroRJ, 25 de outubro de 2005) foi um poetaescritoreditor e intelectual brasileiro.

Começou sua trajetória como editor em 1954, quando integra a equipe de redação da revista literária Marco, e de 1954; em 1956 integrou a comissão de redação da revista Caderno do Nosso Tempo, do Ibesp. De 1956 e 1958, foi o responsável pela seção de poesia e escreveu artigos de crítica e balanços literários no Para Todos, jornal de cultura do antigo Partido Comunista Brasileiro (PCB), dirigido por Jorge Amado e Oscar Niemeyer, e redator-chefe Moacyr Werneck de Castro; de 1963 a 1971, diretor da Coleção Poesia Hoje, da editora Civilização Brasileira, que juntamente com as coleções Poesia Sempre e Poesia Viva; em 1965, faz parte do conselho de redação e depois secretário da famosa Revista Civilização Brasileira, editada por Ênio Silveira e em 1966, torna-se diretor. Como poeta, de 1955 a 1960, colaborou em vários jornais, como o Correio da Manhã, o Diário de Notícias, o Diário Carioca e Jornal do Brasil. Como jornalista, de 1955 a 1962, fez parte também do conselho de redatores e redator-chefe do Jornal de Letras. Em 1962, escrevia ao domingos, no Diário de Notícias, a seção "Radiografia de um livro", dedicada a autores de filosofiasociologiapolítica e economia. Como intelectual e ativista, foi um dos fundadores do Comando de Trabalhadores Intelectuais (CTI), que teve a adesão no Rio de Janeiro de mais de quatrocentos intelectuais de todas as áreas das artes, da literatura, da ciência e das profissões liberais. Em 1964, foi eleito membro do Conselho Deliberativo deste comando.
Obras
  • Cubo de Treva (1948);
  • Lenda e Areia (1950);
  • Itinerário de uma Tarde (1953);
  • O pão e o Vinho (1959);
  • Canto para as Transformações do Homem (1964);
  • Um Poeta na Cidade e no Tempo (1966);
  • Canção do Exílio Aqui (1977);
  • Neste Lençol (1977);
  • Invenção de Crença e Descrença (1978);
  • Em Nome da Vida (1981);
  • Encontros com a Civilização Brasileira (1981);
  • Singular Plural (1988);
  • Introdução a Escombros (1998);

28 de julho de 2015

Tologia da libertação e Oração


Coletânea  de textos sobre  A TEOLOGIA DA LIBERTAÇÃO E A ORAÇÃO"

É a oração que assegura a unidade, em relação dialética, entre a fé e o amor. Pela oração, imprimimos caráter evangélico à nossa ação e dilatamos a nossa fé. A oração quebra as nossas resistências ao amor e impele-nos a manifestar esse Amor pelo nosso amor. Ela aguça a nossa sensibilidade evangélica, de modo a tornar a vida de Cristo presente em nossa vida. A oração é o espaço por excelência onde, no Espírito que a anima, atingimos a plenitude de nossa liberdade frente às pessoas, às coisas e ao mundo. Por isso, ela é para o cristão tão importante quanto o alimento para a pessoa poder pensar e agir".
Frei Betto, Oração na Ação.




A fé, nutrida da oração, propicia-nos uma ruptura constante com os elementos nocivos que a ideologia dominante introjeta em nossa vida. Arranca-nos do pecado, da atitude de fechamento, para ampliar em nós o espaço da ação transformadora da graça. Faz-nos efetuar uma nova leitura do processo histórico, através do qual percebemos seu sentido último e absoluto, sem os riscos de absolutizarmos os dados de uma leitura parcial, imediata,racionalista e científica".
Frei Betto, Oração na Ação.

"A ação não é oração, a luta não é oração, a oração é oração! A luta pelo Reino, a ação evangelicamente honesta, será vivência da fé e da caridade pastoral-política, mas não é oração - como a doença não se identifica necessariamente com a pobreza, porque há ricos doentes...Trata-se, então, de viver a oração, de testemunhá-la, de ensiná-la. Exercer sempre em nossa família e em nossa comunidade - no meio do triste e querido mundo humano, mais ou menos distanciado de Deus - a pastoral da oração. Todo agente de pastoral deve ser um agente de oração".
Dom Pedro Casaldáliga,Nossa Espiritualidade.

"Nunca podemos prescindir da oração pessoal, do tu a tu com Deus, da fala da criatura consciente ao Criador pessoal, do filho/filha à Mãe-Pai. A oração pessoal diária deve ser o outro pão nosso de cada dia. Aqui não cabe claudicação nem subterfúgio".
Dom Pedro Casaldáliga, Nossa Espiritualidade.














"A oração, uma atitude fundamental na vida de Jesus, deve ser a atitude fundamental em nossa vida. Se a fé é relação pessoal com Deus, deverá ser logicamente comunicação com Ele: oração. Nosso Deus é Deus-conosco, nós devemos ser com-Ele. Uma fé que não ora é uma fé morta, um amor cortado".
Dom Pedro Casaldáliga, Nossa Espiritualidade.

"Se, como dizia Arturo Paoli em um retiro, orar é frequentar o Senhor Jesus,eu acho que em todos estes sofrimentos, preocupações, angústias, nesta lutae inclusive nestas contradições, frequento insistentemente o Senhor Jesus.Apelando a ele, vivendo sua Páscoa, sentindo sua cruz, reclamando a força de sua Ressurreição. Buscando sua Palavra e seus gestos como chaves de interpretação. Cantando também. Uma grande oração minha é o canto; o canto com o povo ou sozinho, em diversos momentos, inclusive nas longas viagens deônibus, contemplo e canto. As vezes alguém pensará que sou doido, embora não cante a pleno pulmão, é claro, mas com voz discreta. Fiz-me algo teilhardiano e comungo com a natureza e com a presença universal de Deus em tudo e em todos os seres. Diante da festa belíssima e ultrajada natureza,sinto a unidade e a presença de Deus. Antes eu achava que a contemplação nãoera para mim, mas agora eu estou cada vez mais dentro".
Dom Pedro Casaldáliga, Na Procura do Reino.

"A oração é uma expressão de fé, de confiança no Senhor, ato original e específico do crente. Ela se move no âmbito do amor, amor que sabemos estar marcado, na sua própria raiz, pela gratuidade. Com efeito, trata-se de um diálogo amoroso, segundo uma acepção de Teresa de Ávila. Algo que brota como resposta humilde e confiante ao dom gratuito do Pai e como desejo decompartilha-lo, generosamente, com os irmãos. Como todo diálogo de amor,corre este perigo de ser interpretado, por um terceiro, como um ato inútil quando, na realidade. é vivido como uma experiência de gratuidade. Segue dali o silêncio próprio da oração, como em todo encontro amoroso. E a experiência humana nos dá testemunha disto: chega-se a um momento em que as palavras não dizem mais nada".
Gustavo Gutierrez, Beber do Próprio Poço.






"Deve haver um lugar explícito para a oração, aquela atitude da alma que se abre diretamente a Deus. Uma coisa é pensar sobre Deus, falar dEle e de Seu desígnio. Isso o fazem continuamente a teologia ou o discurso religioso.Outra muito diferente é falar a Deus, abrir-se a Ele, chorar diante dEle pela demasiada escuridão da história, encher-se de interrogações - até quando, Senhor, por quê, meu Deus? - sobre tantos dramas das pessoas e dos povos que nos jogam na abissalidade de um propósito divino que nos escapa ouque não sabemos conjugá-lo com a bondade divina, alegrar-se, cantar e porque não? - dançar diante dEle até as lágrimas pela superabundância de sentido, de luz e de satisfação em viver, saborear o amor, em sentir-se plenificado. Isso é viver uma experiência mística e deixar-se tomar pelo mistério".
Leonardo Boff, Ecologia, Mundialização, Espiritualidade.

"A oração da ave-maria, tão profundamente assimilada, juntamente com o pai-nosso, à piedade diária dos cristãos desde os primeiros balbucios das crianças, encerra todas as riquezas do mistério de Deus em Maria. É qual mina de ouro; quanto mais se cava mais pepitas vêm à tona. Na breve oração da ave-maria se cristalizou a memória coletiva dos cristãos. Com sua recitação trazemos à tona da consciência, do louvor e da petição aquilo que se passa no nível do mistério"
Leonardo Boff, A Ave-Maria - O Feminino e oEspírito Santo




"A oração traduz a suprema expressão da fé viva. Pela oração, a pessoa deixa, como atrás de si, o universo de todas as coisas e busca uma relação com o Supremo. Eis a manifestação da verdadeira transcendência humana. Só o ser humano pode colocar-se numa posição 'estática', vale dizer, contemplar cara a cara a Deus, gritar-lhe 'meu Pai!' e assim ultrapassar todos os limites impostos pela criação e pela história. Nesta atitude se encontra sua suprema dignidade. Orar é um ato de coragem; supõe grandeza e dilatação doespírito e do coração para além dos tempos indefinidos e dos espaços abertos do macrocosmo. Tudo isto é demasiadamente pequeno diante de Deus e diante do impluso do coração que não diz 'sum!' (eu sou) mas 'sursum!' (para cima)".
Leonardo Boff, A Ave-Maria - O Feminino e o Espírito Santo

"Toda verdadeira libertação, na perspectiva cristã, arranca de um profundo encontro com Deus que nos lança à ação comprometida". Leonardo Boff, O Pai-Nosso - A Oração da Libertação Integral."A oração, nesse sentido, nos engrandece, porque continuamente nos tira do centro de nós mesmos e nos centra num absoluto fora de nós, acima de nós e dentro de nós, que se apresenta como uma Alteridade absoluta benfazeja, que não podemos domesticar mas que experimentamos, se entrega com gratuidade e sempre está aí, também quando estamos crucificados em nossos problemas. Esta atitude é mais que um ato. Ela cria em nós o ocular mediante o qual conseguimos identificar Deus misturado com todas as coisas".
Leonardo Boff,Ecologia, Mundialização, Espiritualidade.