O absurdo e a Graça

Na vida hoje caminhamos entre uma fome que condena ao sofrimento uma enorme parcela da humanidade e uma tecnologia moderníssima que garante um padrão de conforto e bem estar nunca antes imaginado. Um bilhão de seres humanos estão abaixo da linha da pobreza, na mais absoluta miséria, passam FOME ! Com a tecnologia que foi inventada seria possível produzir alimentos e acabar com TODA a fome no mundo, não fossem os interesses de alguns grupos detentores da tecnologia e do poder. "Para mim, o absurdo e a graça não estão mais separados. Dizer que "tudo é absurdo" ou dizer que "tudo é graça " é igualmente mentir ou trapacear... "Hoje a graça e o absurdo caminham, em mim lado a lado, não mais estranhos, mas estranhamente amigos" A cada dia, nas situações que se nos apresentam podemos decidir entre perpetuar o absurdo, ou promover a Graça. (Jean Yves Leloup) * O Blog tem o mesmo nome do livro autobiográfico de Jean Yves Leloup, e é uma forma de homenagear a quem muito tem me ensinado em seus livros retiros, seminários e workshops *
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5 de março de 2013

Os 42 anos mais sórdidos do catolicismo


Teólogo revela como os papas Ratzinger e Wojtyla reintroduziram a Inquisição, perseguiram divergentes e tornaram quase impossível a renovação da Igreja.

Entrevista a Amy Goodman e Juan Gonzalez, no DemocracyNow

Desde que o Papa Bento XVI formalmente se retirou, na quinta-feira, as especulações passaram a ser sobre quem vai substitui-lo. Na quarta, Bento deu um adeus emotivo em sua última audiência geral, dizendo que compreendia a gravidade de sua decisão de tornar-se o primeiro pontífice a renunciar, em um período de cerca de 600 anos. Com 85 anos de idade, apontou sua saúde frágil como razão para a partida. Dirigindo-se a cerca de 150 mil fiéis na Praça de São Pedro, disse que está renunciando pelo bem da Igreja.

O mandato do papa Bento foi marcado por muitos escândalos, talvez mais notadamente por sua postura diante dos abusos sexuais. Há alegações de que ignorou ao menos um caso assim, quando era cardeal. Documentos mostram que, em 1985, o estão cardeal Ratzinger adiou esforços para afastar um padre condenado por abusar de crianças.

Enquanto isso, Bento supervisionou, no ano passado, uma sentença do Vaticano segundo a qual o maior e mais influente grupo de freiras católicas norte-americanas sofria “sérios problemas doutrinários”, por ter questionado os ensinamentos da Igreja sobre pontos como homossexualidade e a proibição das mulheres exercerem o sacerdócio. Mais recentemente, novas fontes italianas revelam que três cardeais foram investigados por terem vazado documentos que mostram a corrupção sem limites nos postos do Vaticano.

Para saber mais, fomos a San Francisco, onde entrevistamos o teólogo Matthew Fox. Ele é autor de mais de vinte livros, o mais recente dos quais é The Pope’s War: Why Ratzinger’s Secret Crusade Has Imperiled the Church and How It Can Be Saved (tradução livre: A guerra do Papa: Por que a cruzada secreta de Ratzinger ameaçou a Igreja e como ela pode ser salva). Fox é um ex-padre católico, que foi primeiro impedido de ensinar a Teologia da Libertação e Espiritualidade da Criação pelo então cardeal Ratzinger. Mais tarde, foi expulso pela Ordem Dominicana, à qual pertenceu por 34 anos. Hoje é padre na Igreja Episcopal. Eis sua entrevista:

Amy Goodman: Bem vindo ao Democracy Now! Você pode começar respondendo sobre a renúncia do Papa e seu significado?

Matthew Fox:
 Obrigado. Eu realmente aprecio o jornalismo de vocês. Ele significa muito, para muitos de nós.

Penso que eu vou acreditar na palavra do Papa, quando ele diz que está cansado. Eu estaria cansado também, se tivesse deixado atrás de meu mandato tanta devastação, como ele fez, primeiro como inquisidor-geral durante o papado anterior. Bento trouxe de volta a Inquisição. É verdade que fui um dos teólogos expulsos por ele, mas relaciono outros 104 em meu livro, e a lista continua crescendo. É assim que a História vai lembrar deste homem: como quem trouxe a Inquisição de volta, o que é o completo oposto do espírito e dos ensinamentos do Segundo Conselho do Vaticano. Portanto, acredito realmente que o papa está deixando seu posto porque não o suporta mais.

O Vaticano tornou-se um ninho de serpentes. Como teólogo, vejo o trabalho do Espírito Santo em tudo isso. A Igreja Católica como a conhecemos, a estrutura do Vaticano, está obsoleta. Estamos nos movendo para além dela. O que está ocorrendo é doentio e me refiro, por exemplo, à proteção dos padres pedófilos. Você pode ver este fenômeno em muitos lugares: com o cardeal Mahony em Los Angeles; o cardeal escocês que acaba de renunciar; o cardeal Law, que foi elevado após ter saído de Boston, promovido para dirigir uma basílica do século 4, em Roma; e o próprio papa, segundo informações recentes.

Estamos tomando conhecimento das coisas horríveis que ocorreram em uma escola para surdos em Milwaukee, onde mais de 200 garotos, garotos surdos, foram abusados por um padre, e Ratzinger sabia disso. O padre Maciel, que era tão próximo do último papa que o levou para passeios de avião, abusou de 20 seminaristas; tinha duas esposas e abusou de quatro de seus próprios filhos. Ratzinger soube sobre esse caso por dez anos. Os documentos estavam em sua mesa, e ele não fez nada até 2005.

A história e a bajulação dos papas, que chamo de papolatria, não vão encobrir os fatos. Foram os 42 anos mais sórdidos do catolicismo, desde o Borgias. Acho que é algo realmente relacionado ao fim dessa Igreja, como a conhecemos. Acredito que o protestantismo também necessita de um reinício. Acho que o cristianismo pode voltar mais atrás, e se aproximar dos ensinamentos de Jesus, um revolucionário do amor e da justiça. É disso que se trata. E é por isso que tem havido uma resistência tão feroz, na ala direita.

A própria CIA esteve envolvida, especialmente com o papa João Paulo II, no esmagamento da Teologia da Libertação em toda a América do Sul, substituindo líderes heroicos, inclusive bispos e cardeais, por integrantes da Opus Dei, uma organização fascista. Tudo reduziu-se a uma questão de obediência: não se trata de ideias ou teologia. Eles não produziram um teólogo em 40 anos. Produziram advogados canônicos e pessoas que se infiltram onde o poder está: na mídia, na Suprema Corte, no FBI, na CIA e nas finanças, especialmente na Europa.

Juan González: Em alguns de seus escritos, você sustenta que, no fundo, os dois últimos papas – Bento XVI e João Paulo II – lideram um cisma e que, na realidade, agiram para burlar as decisões do Concílio Vaticano 2º. Você poderia detalhar este movimento histórico?


Matthew Fox: O papa João XXIII convocou o concílio no começo dos anos 1960. O encontro reuniu todos os bispos do mundo e todos os teólogos, muitos dos quais haviam vivido sob fogo no papado anterior, de Pio XII. Foi certamente um movimento de reforma. Inspirou os mais pobres, especialmente na América do Sul. Depois deste concílio, o movimento da Teologia da Libertação e a opção preferencial pelos pobres decolaram, criaram comunidades de base. Eram um novo jeito de fazer a Igreja, onde todos tinham voz, não apenas as pessoas no altar.

Esta aproximação não-hierárquica ao cristianismo e ao culto, muito mais horizontal e circular, foi uma grande ameaça a certas pessoas em Roma – ameaçou ainda mais à CIA. Dois meses depois de elito, o presidente Ronald Reagan convocou uma reunião de seu Conselho Nacional de Segurança em Santa Fé, Novo México, para discutir um ponto específico: como destruir a Teologia da Libertação na América Latina. Concluíram que não poderiam destruir a Igreja, mas conseguiriam dividi-la. Foram ao papa. Deram imensas somas de dinheiro ao sindicato Solidariedade, na Polônia, ao qual ele estava ligado. E em troca, conseguiram permissão ou – se você prefere assim – o compromisso do papado em destruir a Teologia da Libertação.

Isso está muito documentado. Por exemplo, por Carl Bernstein, num artigo de capa da revista Time, onde ele cria algo como uma hagiografia de Reagan e do papa juntos. Bernstein foi muito ingênuo sobre o que realmente estava acontecendo na própria Igreja. Parte importante do Concílio Vaticano 2º era declarar a liberdade de consciência, considerá-la um direito de todos os cristãos. Tudo isso foi destruído pelo papa João Paulo II e pelo cardeal Ratzinger.

As reformas do Concílio Vaticano 2º estavam se concretizando. Falo de um cisma porque, na tradição católica, um Concílio é superior a um papa. Mas nos últimos 42 anos, os dois últimos papados foram desfazendo todos os valores que o Vaticano 2º sustentou. É isso que as freiras estão sofrendo agora. Assim como o Vaticano atacou 105 teólogos, agora acusa as freiras de, digamos, não participar da Inquisição. E Deus abençoe essas freiras, as Nuns on the Bus. Muitos de nós as conhecemos porque elas têm estado nas linhas de frente, sustentando os valores do Vaticano 2º, especialmente os de justiça e paz, e trabalhando com os marginalizados.

Amy Goodman: Matthew Fox, por que você foi expulso da Igreja Católica? Você diz que é por causa da Teologia da Libertação. Explique.


Matthew Fox: Bem, primeiro eu fui silenciado por 14 anos, por Ratzinger. Em seguida, tive permissão para falar de novo e então, três anos depois, fui expulso. Mas ele construiu uma lista de reclamações. Primeira: eu seria um teólogo feminista. Não imaginava que este fato pudesse constituir uma heresia…

Número dois, eu chamava Deus de “Mãe”. Bem, provei que todos os místicos medievais chamavam Deus assim; e que a Bíblia também o faz, apesar de forma menos frequente.

Número três, eu prefiro a expressão “bênção original” a “pecado original”. Escrevi um livro chamado Original Blessing (Bênção Original, em inglês), no qual provo que nem Jesus, nem judeu algum, jamais ouviu falar de “pecado original”. Como você pode construir uma igreja, em nome de Jesus, a partir de um conceito que é do século 4 d.C.?

Sabe o que mais aconteceu no século 4, além da ideia do pecado original? Foi a conversão do Império Romano ao catolicismo. Se você passa a comandar um império, o pecado original é um ótimo dogma a difundir. Faz com que todos fiquem confusos sobre por que estão aqui. Nessa condição, é muito mais fácil colocá-los sob comando.

Acusaram-me por não condenar homossexuais, o que é claro que não faço. Obviamente Deus quer homossexuais, ou não haveria entre 8% e 10 % da população de todo o planeta com essa graça especial.

Disseram que trabalho muito perto dos índios norte-americanos. Bem, realmente trabalho com eles. Aprendi muito com os professores índios e seus rituais, tais como saunas, danças do sol, busca de visões. Não sei se isso é heresia também – eu não sei o que significa “trabalhar perto demais”.

Essas eram algumas das objeções. E realmente, nenhuma delas se sustentava. São testes de Rorschach sobre o que apavora o Vaticano. E acima de tudo, é claro, sobre mulheres e sexo. Essa é a agenda. Em qualquer situação onde há fundamentalismo e fascismo, existe controle. É por isso que o Vaticano, o Talibã e o pastor Pat Robertson têm algo em comum: estão todos apavorados com a possibilidade de trazer a divindade feminina de volta, e com isso, é claro, os direitos iguais para as mulheres.

Juan González: Além da pedofilia, que tem sacudido o Vaticano e toda a Igreja, há também os escândalos de corrupção no próprio Vaticano. Fala-se da denúncia produzida por um grupo de cardeais, que investigaram parte da corrupção mas não vão divulgar nada até o próximo papa ser nomeado. Você sabe quanto qualquer desses temas tem a ver com a renúncia de Bento XVI?

Matthew Fox: Tenho certeza que tiveram. Eu fui informado de que ele recebeu a denúncia, examinou-a e, seis horas depois, anunciou que estava renunciando. Pôs-se a salvo e encarregou o próximo papa de lidar com o tema. Penso ser muito claro que há uma conexão. Há muito mais nos bastidores do que a imprensa já anunciou, posso assegurar.

Quando Ratzinger fez-se papa, fui a Wittenberg e preguei as 95 Teses [de Martinho Lutero] na porta. Um ano e meio atrás, estava em Roma, e as traduzi para o latim – quer dizer, italiano, e entreguei-as para a basílica do cardeal Law numa manhã de domingo. Foi muito interessante. Um homem de 40 anos de idade veio a mim, um romano. Ele me disse, muito simplesmente: “Eu costumava me dizer um católico. Agora, só me chamo de cristão”. Foi um golpe para mim. Logo embaixo do nariz do papa, italianos, também, estão começando a compreender a verdade, estamos em um ótimo momento histórico. Uma instituição ocidental de 1.800 anos está derretendo diante dos nossos olhos. É doloroso e feio. Por outro lado, é também um momento de avanço e para apertar o botão de reiniciar no cristianismo, retornando à mensagem realmente poderosa de Jesus e seus seguidores através dos séculos: os místicos e os profetas.

Susan Sontag define “fascismo” como violência institucionalizada. Os católicos têm passado por violência institucionalizada há 42 anos. Pergunte a qualquer um desses teólogos que foram afastados de seu trabalho. Alguns morreram de ataque cardíaco. Outros, na pobreza das ruas, porque não conseguiram arrumar emprego. Mas, é claro, fale com os jovens que foram abusados por padres e acobertados por Ratzinger, que “protegeu” a instituição às custas de cada uma dessas crianças.

Juan González: Vamos às especulações sobre quem vai ser o sucessor do papa Bento XVI, Fala-se muito sobre a possível escolha, pela primeira vez, de um papa do hemisfério sul. Você ve alguma possibilidade de mudança real e substantiva na política da Igreja, seja quem for seu sucessor?

Matthew Fox: É triste dizer isso, mas eu não acredito, porque todos os que vão votar foram nomeados com aprovação do Ratzinger. Pensam como ele. O emburrecimento da igreja veio com toda essa crise pedófila. Quando você não tem líderes inteligentes e com consciência por 42 anos, mas apenas gente que diz sim, não é possível responder de modo inteligente à crise que emerge quando se acha um pedófilo em seu meio. Há um arcebispo norte-americano – não vou nomeá-lo – que, vinte anos atrás, chorou na presença de um amigo meu e lhe disse: “Não há um único bispo nomeado nos últimos vinte anos que eu consiga respeitar”. Bem, agora nós podemos dizer 42 anos.

Por isso, francamente, poucos nomes me vêm à cabeça. Existe este na África, que por azar é um completo homofóbico, e está endossando todas as leis recentes de violência homofóbica na África. É o chefe da Comissão de Justiça e Paz no Vaticano. Seria de esperar que não chegasse tão longe. Existe o cardeal austríaco, que é dominicano e mostrou um pouquinho de independência uma ou duas vezes. Há esse O’Malley, de Boston, que é franciscano, e portanto não quer ser papa.

Fonte: Blog Outras Palavras. Tradução: Gabriela Leite


3 de março de 2013

A igreja católica tem novo papa. 76 anos, Jorge Mario Bergoglio

“É o Vaticano mais corrupto, desde os Bórgia”

Por Paul Jay x Matthew Fox


Novo papa nunca foi da Opus Dei (foi do movimento Comunione e Liberazione), mas...
Tradução pela equipe VIla Vudu
13/3/2013, Matthew Fox (ex-padre católico), entrevista, The Real News Network, TRNN
http://therealnews.com/t2/index.php?option=com_content&task=view&id=31&Itemid=74&jumival=9868
PAUL JAY, EDITOR SÊNIOR, TRNN: Bem-vindos à The Real News Network. Sou Paul Jay, em Baltimore.
A igreja católica tem novo papa. 76 anos, Jorge Mario Bergoglio, agora, Papa Francisco [eles só são numerados a partir do segundo. Como a 2ª. Guerra Mundial, que sempre se chamou “Grande Guerra” e só passou a ser 1ª., depois que começou a 2ª. (NTs)]. É o 266º pontíficie da Igreja Católica Romana. Também é o primeiro papa não europeu, em mais de mil anos.
Para discutir a significação dessa eleição, está Matthew Fox. Matthew é autor de mais de 30 livros sobre espiritualidade e cultura, dentre os quais The Pope's War, Original Blessing, Hildegard of Bingen, a Saint for Our Time e Christian Mystics. Matthew foi sacerdote católico. Agora é pastor episcopal e professor. Obrigado, Matthew, por nos receber.
MATTHEW FOX: Obrigado. É um prazer estar com você.
JAY: Para começar, por que nos interessamos tanto pelo novo papa? A rede CNN está ao vivo hoje, todo o dia – e acho que ontem também, e a coisa está na mídia global. E é sempre assim. É dia fraco, de noticiário, mas se não fosse, nada mudaria. A mídia não dá a mesma atenção a nenhuma outra igreja e, sinceramente, nós também não. Quero dizer... acho que estamos fazendo isso porque quero criticar a mídia. Não sei. Por que tanto alarido? Que significado e que poder tem o papa hoje?
FOX: Para começar, claro, ninguém faz melhor teatro que os italianos. Há a imagem dramática de São Pedro, o balcão e as cortinas de veludo entreabrindo-se e aquilo tudo. Ninguém faz melhor cenário, importantante, se o que se busca é o drama. Assim, aquelas imagens rendem excelentes imagens de televisão. Alguém que usa roupas esquisitas e, supostamente, representa 1,2 bilhão de pessoas que, de um modo ou de outro chamam-se “católicos”... É claro que o drama, o teatro, contam muito.
Mas acho que há também uma coisa mais profunda. Acho que as pessoas gostam de sentir que há alguma liderança espiritual em alguma parte, na nossa espécie humana. Ontem escrevi um artigo, publicado no Huffington Post, sobre por que o meu candidato a papa seria o Dalai Lama, porque acho que ele representa algum significado mais profundo de ser humano, a busca de compaixão... E acho que as pessoas gostariam de encontrar isso também num papa. Nem sempre acontece. O papa João 23, nos anos 60s, foi um homem raro. Mas... as pessoas gostam de ver, gostam de projetar alguma liderança em alguém. [fala cruzada]
JAY: Deixe-me perguntar... Não sei se você concorda, mas... Não lhe parece um pouco estranho – porque a mim parece... – Quero dizer, a mídia manifesta uma visão secular do mundo. Hoje, não se vê nem vestígio de algum tipo de gramática religiosa. No passado, tudo era enquadrado nessa gramática religiosa. Mas agora, é como se houvesse uma separação entre a mídia e as crenças religiosas. Conceitos como a infalibilidade do papa, a ideia de que Deus fala diretamente a ele... são ideias fortemente espirituais, que a mídia apresenta como se fossem fatos corriqueiros. Ninguém sequer questiona essas crenças.
FOX: É tudo é ‘sentimentalizado’ pela mídia, sem pensamento crítico. É uma das razões pelas quais gosto de falar com você. Para falar sobre significados mais profundos.
Mas há, sim, uma carência... Interessante: nas poucas palavras que disse, o papa Francisco usou uma expressão, algo sobre sermos todos irmãos, coisa assim. Veja, são tempos de globalização, o mundo é cada dia menor e temos o primeiro papa não europeu, em mais de mil anos [fala cruzada], o primeiro papa latino-americano. Há significados, aí, as coisas de deseuropeízam, até o papado. Mas, como você diz, nada é discutido em profundidde. Tudo isso é notícia durante um, dois dias, e, em seguida, a mídia muda de pauta.
JAY: (...) E qual é a influência que o papa teria sobre tantos milhões de pessoas – que me parece influência real. Antes, outra questão: quanto, nessa influência, tem a ver com o fato de que o Vaticano ainda é uma potência financeira, que acaba de nomear um presidente executivo, como qualquer grande e poderoso centro financeiro?
FOX: É verdade. E sabe-se que a situação financeira do Vaticano é escândalo à parte. É área a ser saneada, também, como o encombrimento de crimes de pedofilia, praticamente em termos tão graves quanto foram os crimes da Inquisição. Escrevi sobre isso em meu livro The Pope's War. Nos últimos 42 anos, com os dois últimos papas, a Inquisição voltou ao Vaticano.
A situação financeira é absolutamente escandalosa. Há cerca de um ano, o governo italiano proibiu o uso de cartões de crédito do Vaticano, não podiam ser usados em lugar algum, porque havia denúncias de lavagem de dinheiro, dentre outras. Aí não há novidade. A falta de transparência nas finanças do Vaticano é antiga.
E há também a questão dos reais laços que ligam o Vaticano à política mundial. Lembro, por exemplo, que, no governo Reagan, a CIA e o Vaticano do papa João Paulo II uniram-se para atacar a Teologia da Libertação das comunidades de base na América Latina e destruíram o movimento, e, afinal, substituíram aquela ação pela ação da Opus Dei, da Communion and Liberation [it. Comunione e Liberazione[1] (NTs)], todos esses grupos de extrema direita que pregam valores da extrema direita ou, se você preferir, pregam atitudes de poder, de dominação, de patriarcado, até de fascismo.
JAY: Você disse que há na igreja uma nova Inquisição?
FOX: Ah, sim. Mais de 105 teólogos – fui um deles – foram silenciados, expulsos ou perseguidos, caçados nos últimos 42 anos, nos papados de João Paulo II e Bento 16. E Bento 16 foi, é sabido, cabeça da Inquisição. Mudaram o nome, chamam de Congregação da Sagrada Doutrina da Fé, mas é a mesma organização que, antes, se conhecia como Inquisição. Bento 16 comandou o ataque contra nós, aqueles teólogos.
Podem-se listar os 105. Há, aliás, na lista, vários bons canadenses. Um deles morreu, de ataque cardíaco, quando fazia as malas para viajar a Roma e defender sua teologia, pela sexta vez, apesar de o Concílio Vaticano II afirmar que os teólogos seriam livres para pensar e que tinham garantida, como todos, o que se chama liberdade de consciência.
Isso foi o que realmente aconteceu nos últimos 42 anos, e acho que tivemos dois cismas, porque os padres e suas cúrias haviam realmente compreendido os ensinamentos do Vaticano II, que tratava de reformar a Igreja, oferecia pensamento novo, ligado ao evangelho dos valores da justiça social. Acabaram com tudo isso. O silêncio imposto àqueles 105 teólogos teve a ver com esse movimento.
Portanto, não cabe qualquer dúvida de que a Inquisição voltou. Espero, de todo coração, que o novo papa esteja alerta para esse retrocesso e consiga reverter esse processo.
JAY: E quanto ao novo papa, Bergoglio, papa Francisco. Qual o papel dele na América Latina? Sempre houve, na AL essa separação entre a Teologia da Libertação e os setores mais dominantes e hierárquicos da Igreja que, uns mais outros menos, trabalharam com vários ditadores ao longo do tempo. E claro que aconteceu na Argentina, como aconteceu com Pinochet. A Igreja tem pouco de que se orgulhar do papel que desempenhou, pelo menos a alta hierarquia da Igreja, no relacionamento com Pinochet. E quanto ao papa Francisco, em tudo isso? E o que representa?
FOX: Pelo que mostram minhas pesquisas, não teve ação corajosa contra a ditadura militar argentina, em 1983 e dali em diante, e foi muito criticado por isso. Também nunca apoiou os teólogos das comunidades de base. Pertenceu a um grupo chamado Comunione e Liberazione, muito fortemente direitista, que surgiu na Itália. Tem sido comparado à Opus Dei. Dizem que têm base laica, como diz também a Opus Dei, mas de fato são movimentos dirigidos por religiosos.
JAY: Expliquemos um pouco, às pessoas que não conhecem essas coisas. A Opus Dei – e corrija-me se estiver errado – é grupo que reúne a extrema direita da Igreja, em aliança com a extrema direita de vários grupos das elites governantes em vários países; e é uma espécie de grupo secreto, conspiracional, que sempre aparece associado a ações obscuras, quando não criminosas.
FOX: Bem, é verdade. Tenho um capítulo inteiro dedicado a esses grupos, em meu livro The Pope's War. E é assustador, porque são hoje membros muito destacados da Igreja Católica. Por toda a América Latina estão sendo nomeados cardiais e bispos ligados à Opus Dei e, agora, também na América do Norte. O padre Escrivá [Josemaría Escrivá de Balaguer], um padre fascista espanhol que fundou a Opus Dei, foi empurrado até a canonização, mais depressa que qualquer outro santo em toda a história [foi canonizado em 2002, por João Paulo II]. E todos os que se opunham a ele  – que viam o lado obscuro daquilo tudo, o sexismo, o fato de que várias vezes elogiou Hitler – vou repetir: Escrivá várias vezes elogiou Hitler. Agora, nos dizem que é santo. Não sei o que isso significa.
Sim, a Opus Dei tem, sim, de ser vigiada. E estão em toda parte. São muito fortes na imprensa-empresa nos EUA. São muito fortes na CIA e no FBI. O maior espião da história dos EUA, que entregou mais segredos que qualquer outro, que contribuiu para o assassinato do maior número de espiões norte-americanos de todos os tempos – hoje está na cadeia, acho que foi condenado à prisão perpétua, porque trabalhou livremente no FBI durante 20 anos, passando adiante quantidade descomunal de segredos da Agência... Bem, era homem que assistia à missa todos os dias. Durante o restante do dia, traía os EUA. Não há dúvidas de que a Opus Dei é assustadora [fala cruzada].
JAY: Você estava dizendo que o papa Francisco é membro de uma organização assemelhada à Opus Dei...
FOX: Não. Ele nunca foi membro da Opus Dei.
JAY: Uma organização semelhante?
FOX: Foi muito próximo da organização Comunione e Liberazione e, sim, são outra versão próxima da Opus Dei. A Opus Dei começou na Espanha. Comunione e Liberazione é grupo mais recente, começaram na Itália. São menos secretivos que a Opus Dei. Por isso, precisamente, se sabe que o papa Francisco esteve ligado ao movimento. A Opus Dei é mais secretiva, dificilmente se sabe quem é ou não é ligado a eles.
Mas, seja como for, espero que...
Sabe, não quero associá-lo exclusivamente à Comunione e Liberazione, mas não há dúvida de que foi parte da história pessoal do novo papa e é história que é preciso considerar cuidadosamente e criticamente.
JAY: Permita que eu leia uma frase de Sergio [rub@n], autor de um livro intitulado The Jesuit e que entrevistou o novo papa antes de ele ser papa. Ele diz o seguinte: “Bergoglio é progressista, teólogo da libertação? Não, não é. Não é absolutamente um sacerdote do Terceiro Mundo. Mas ele critica o Fundo Monetário Internacional e o neoliberalismo? Sim, critica. Passou grande parte de seu tempo nas favelas? Sim, passou.” Eis o que diz esse autor. O que tudo isso lhe diz?
FOX: É. Confirma tudo o que eu sei. Como homem, digamos, é visivelmente um homem simples, não é nem jamais foi carreirista. Contam que dispensou a limosine e demitiu o motorista. Vive vida simples. Anda, toma ônibus, usa o transporte público. Durante certo tempo, ia trabalhar de ônibus. Prepara a própria comida, num apartamento modesto, recusa-se a viver no [incompreensível] palácio onde sempre viveram os ‘grandes’ da Igreja. Tudo isso, parece, é bom sinal. Acho que é a mesma inspiração que o levou a adotar o nome de Francisco – que foi homem simples, humilde.
Interessante, o que diz o seu e-mail, que ele não é um bispo do Terceiro Mundo. Não é, mesmo. (...) Mas, na minha opinião, a questão mais importante é: quem o novo papa indicará como secretário de Estado? Porque esse é o cargo, esse é o trabalho que de fato faz acontecer e supervisiona tudo, na Curia. Terá de indicar alguém firme e que conheça o jogo. Veja... Esse papa jamais trabalhou no Vaticano, o que, por um lado, me parece fator positivo. Mas, por outro lado, é indispensável conhecer aquilo, conhecer os jogos, os jogadores, tudo aquilo. E é indispensável ser muito firme. Por isso, acho que temos de esperar para ver quem será secretário de Estado.
Os dois secretários de Estado foram criaturas das sombras. Posso contar algumas histórias sobre eles, se interessar. (...)
JAY: Voltaremos a esse assunto, mas infelizmente não temos tempo, hoje. Agora, para encerrar essa entrevista, queria que você falasse um pouco sobre a igreja da Teologia da Libertação na América Latina. Como fica a Igreja Católica em tudo isso. Com Hugo Chávez, por exemplo, recentemente falecido, a Igreja teve relação tumultuada. O que sobrou da Teologia da Libertação?
FOX: Bem... Pode-se dizer que vários dos presidentes de esquerda que hoje governam a América Latina nasceram no movimento da Teologia da Libertação, como [José Inácio Lula da] Silva, o grande ex-presidente do Brasil.
Há vários anos, quando tive de cumprir o voto de silencio de um ano, imposto pelo Cardeal Ratzinger, viajei ao Brasil para saber o que estaria acontecendo nas comunidades de base. E Leonardo Boff disse, naquela ocasião, que assistíamos a uma grande reunião com [Lula da] Silva, que eu prestasse atenção naquele homem, “Pode vir a ser o próximo presidente do Brasil”. Era ainda líder sindical. Tudo isso é parte de onde está, hoje, a Teologia da Libertação [fala cruzada].
Na verdade, se se conversa com eles hoje, o que me dizem é que “antes, servíamos à Igreja; agora, servimos à humanidade.” Acho que podem ter conseguido romper as barreiras do sistema exclusivamente eclesial e hoje veem não só a humanidade, mas acho que já veem também a crise geral da terra, do planeta, em que todos estamos. Entendo que já não estejam fechados, só, numa caixa rotulada “igreja”. (...) Essa é uma das razões pelas quais meu candidato a papa seria o Dalai Lama: aproximava-se logo ocidente e oriente.
JAY: E você sabe de como Bergoglio, agora o papa, como se posicionou em relação a essa deriva para a esquerda que se vê hoje na América Latina?
FOX: Sei que nunca se aproximou amigavelmente desses movimentos. Essa é uma das causas por que não se pode deixar de considerar suas relações com Comunione e Liberazione, mesmo que hoje já não existam, não sei. Esse grupo fez declarada oposição à Teologia da Libertação.
Houve outro cardeal jesuíta, de Milão, que morreu ano passado. No testamento, escreveu que a Igreja está 200 anos atrasada. E sempre combateu o grupo Comunione e Liberazione. É interessante, porque assim se vê que houve outro cardeal, também jesuíta, que não se desligou da tradição libertadora do Concílio Vaticano II e da Teologia da Libertação e que, ao morrer, ainda apoiava as comunidades de base e a teologia da libertação. Mas o novo papa, não. Sempre foi, pode-se dizer, mais moderado, mais de meio. (...)
JAY: Uma das questões a acompanhar, é se e o quanto o Vaticano cooperará com a CIA, dessa vez, na América Latina.
FOX: Ora... Sempre cooperou, no passado. Mas sempre houve grande frenesi na imprensa-empresa, como você bem disse. Tudo, na imprensa-empresa tende a ser ‘santificado’, a tudo aplicam um verniz sentimental. Quem sabe, talvez, acalmem-se e seja possível fazer alguma avaliação objetiva produtiva do que o novo papa venha a fazer. Não esqueçamos que, como disse Carl Jung, por traz de muito sentimentalismo sempre se oculta muita violência. Não basta ao papa ser ‘doce’. Teremos de acompanhar as ações e a filosofia efetiva que anima o novo papa, como temos de vê-las também em qualquer movimento e qualquer indivíduo que represente qualquer movimento. Sem projetar coisas demais sobre ele. O poder corrompe, o poder absoluto corrompe absolutamente.
Nunca antes, na história, houve tanta e tal corrupção no Vaticano, que só se compara ao Vaticano dos Bórgias no século 16. Veremos se o novo papa conseguirá, ou não, limpar a casa. Mas, ao mesmo tempo, tampouco se deve investir muita energia nisso. Temos de investir nossa melhor energia em criar novas comunidades de base, numa nova versão da cristandade que realmente ecoe o saber dos Evangelhos. Essa é a questão que realmente importa.
JAY: OK. Na próxima entrevista, falaremos sobre isso.


15 de fevereiro de 2012

A cruzada secreta de Bento XVI

Matthew Fox, ordenado padre dominicano em 1967, é autor de mais de 30 livros e fundador de movimentos que combinam as escrituras, a tradição, os místicos e os profetas em sua visão pessoal chamada de espiritualidade da criação. É uma teologia "verde", em que a proteção da natureza é considerada um sacramento.

A análise é do padre jesuíta Raymond A. Schroth, editor associado da revista America, dos jesuítas dos EUA. O artigo foi publicado no sítio National Catholic Reporter, 11-01-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Em 1993, ele foi expulso dos dominicanos por não ter conseguido explicar por que ele chamou Deus de "Mãe" e preferiu o termo "bênção original" a pecado original. Ele então se tornou pastor da Igreja Episcopal.

Seu último livro, The Pope's War, é muitas coisas. É mais um tratado do que uma análise, uma acusação caso a caso do sistema político-religioso que encobriu a crise de abuso sexual, e uma exposição das três sociedades secretas dominantes – Opus Dei, os Legionários de Cristo e o Comunhão e Libertação – que, em seu julgamento, fortificaram a concentração de poder em Roma, determinados a desfazer o trabalho do Concílio Vaticano II.

A força do livro reside em seu "martirológio" dos inimigos do "inquisidor". O inquisidor era o cardeal Joseph Ratzingercomo prefeito da Congregação para a Doutrina da FéFox apresenta uma lista de 91 homens e mulheres cujas carreiras foram postas de lado ou terminaram porque, no julgamento da Inquisição contemporânea, eles disseram a coisa errada.

Grande parte da sua narrativa é baseada no trabalho de outros estudiosos: Penny Lernoux sobre a América Latina e ateologia da libertaçãoJason Berry sobre a Legião de Cristo e seu fundador corrupto, Pe. Marcial Maciel Degollado;Michael WalshGordon Urquhart Maria del Carmen Tapia sobre o Opus Dei; e John Allen sobre os primeiros anos de Ratzinger, mas não sobre o Opus Dei, pois Fox sugere que Allen se deixou enganar por entrevistas de bastidores com as lideranças do Opus Dei.

As críticas mais fortes de Fox são ao Opus Dei, cujos bispos latino-americanos, afirma, foram os agentes vaticanos para a repressão das comunidades de base inspiradas pela teologia da libertação.

Então, é apresentado esse martirológio (das 91 pessoas da lista, aquelas que eu conheço são homens de absoluta integridade).

O padre redentorista Bernard Häring é mais conhecido como o teólogo moral pioneiro que centrou sua ética sobre a virtude da caridade. Convocado para o exército alemão em 1940, a observação das "ações diabólicas dos soldados cristãos alemães" em nome da obediência o convenceu de que a obediência nunca poderia ser um conceito central na teologia moral: deve ser a coragem de ser responsável. Ele alertou que os teólogos podem difamar a teologia por covardia, assim como por arrogância, e podem distorcer a verdade "lutando por ofícios e posições ou títulos de honra".

A história do franciscano brasileiro Leonardo Boff lembra ao leitor que a teologia da libertação era baseada nos princípios do Vaticano II, mas aplicada às "circunstâncias concretas e terríveis da América Latina na luta pela justiça e pela igualdade". Até o fim da década de 1970, mais de 850 padres e freiras haviam sido martirizados.

Os norte-americanos que estão impacientes hoje com a relutância dos bispos dos EUA para abordar questões de justiça social podem se inspirar com os bispos do Brasil, incluindo Pedro Casaldáliga, um bispo-poeta da selva amazônica. Interrogado por Ratzinger em Roma, ele foi silenciado e confinado em sua diocese. A razão: ele se recusou a viajar regularmente para Roma porque não tinha dinheiro. Casaldáliga aprovou a teologia da libertação, criou uma missa centrada na cultura indígena e negra e se refere ao arcebispo Óscar Romero, de El Salvador, como a um "mártir".

Na Tchecoslováquia, em 1945, Ludmila Javorova foi ordenada por Dom Felix Davidek, que suportou 14 anos em uma prisão comunista e se sentiu compelida, em sã consciência, depois da consulta com outros bispos, a ir ao encontro da necessidade de padres em uma situação desesperadora. Tendo sido avisada em 1995 que sua ordenação havia sido "inválida", Javorova se afastou. Hoje, ela diz que "Deus permitiu a minha ordenação. Eu queria apenas servir".

Em certo sentido, o livro de Fox é uma acusação contra o homem agora conhecido como Papa Bento XVI, que, motivado pela ambição, se transformou de um liberal do Vaticano II a um carreirista eclesiástico. Ele abraçou movimentos semifascistas como o Opus Dei por apoio psicológico e financeiro, e deixou uma lista de espíritos quebrados em seu rastro. Mas também é um manifesto sobre a própria espiritualidade de Fox, que ele afirma que pode salvar a Igreja.

As listas de mitos a serem descartados, tesouros a serem preservados e 25 passos para nos salvar são uma compilação de ideias debatidas na imprensa católica livre nos últimos anos. Tudo isso, mais as suas interpretações pessoais, vão desde a ortodoxia até a surpresa.

Os "mitos" que Fox descartaria incluem: o celibato, a dominância masculina, a centralidade do magistério, um papa "celebridade" e que Jesus é o "filho de Deus". Os tesouros incluem: o mistério pascal, a Encarnação, a cruz, Deus é amor, a imortalidade e que todos fazemos parte uns dos outros.

Como não há esperança de um terceiro Concílio Vaticano, porque seus possíveis candidatos a membros foram "reduzidos" a "homens que sempre dizem sim", o que devemos fazer para sermos salvos? Reconstruir a Igreja a partir da base; unirmo-nos a organizações leigas e manter encontros nacionais e internacionais; refazer o culto com pequenos encontros caseiros e danças extáticas; chamar de volta os ex-padres; limitar os nascimentos por razões ecológicas; confiar nos teólogos; e ouvir os jovens.

Costuma-se dizer em Nova York que um conservador é um liberal que acabou de ser assaltado. Se é assim, isso aconteceu com o Ratzinger das páginas de Fox. Ratzinger era uma vez progressista, mas ficou traumatizado quando uma manifestação estudantil invadiu o seu espaço universitário. Ele se afastou e calculou uma carreira conservadora que o levou ao topo. Mas, no retrato de Fox, ele continua sendo um ser humano.

Se esse livro fosse uma grande ópera ou um romance sobre um rei, ele poderia ter dois possíveis finais felizes.

Em um deles: um profeta-amigo do Antigo Testamento confronta o rei sozinho em seu quarto e percorre os acontecimentos de sua vida diante de seus olhos, e pergunta: "De que vale ao homem...?". O rei volta o seu rosto para a parede e chora aos prantos.

Em outro: quando Ratzinger removeu Fox do ensino da espiritualidade da criação em 1988, Matthew Fox escreveu-lhe uma carta ao "Querido irmão Ratzinger", que descrevia a Igreja como uma família disfuncional, resumia a espiritualidade da criação como compaixão e convidava Ratzinger para tirar um ano sabático e unir-se a ele: "Por que não abandonar a sua vida isolada e privilegiada no Vaticano para fazer danças de círculo com mulheres e homens", velhos e jovens, em busca de uma autêntica espiritualidade?

Quem sabe? Talvez ele o fará.

The Pope's War: Why Ratzinger's secret crusade has imperiled the Church and how it can be saved, de Matthew Fox, Ed. Sterling Ethos.

6 de setembro de 2011

Abençoar ao invés de culpar


"Cada um de nós pode (ou melhor, deveria) praticar privadamente a sua própria religião com o espírito de `benção original`, esquecendo a lúgubre ideia da culpa coletiva."
A análise é do filósofo e político italiano Gianni Vattimo, em artigo publicado no jornal La Stampa, 02-04-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
Eis o texto.
O livro de Matthew Fox In principio era la gioia inaugura dignamente a nova coleção de teologia dirigida por Vito Mancuso e Elido Fazi, que é o seu editor (423 páginas). Pode-se e deve-se recomendá-lo certamente como fonte de edificação espiritual, como manual de meditação, como guia para uma possível experiência mística.
Como muito frequentemente a teologia não é edificante, assim a edificação parece se prestar pouco a discussões e argumentações teológicas. Todavia, podemos induzir que o livro é algo mais do que um banal texto de edificação do fato, em nada insignificante, de que, em consequência da sua publicação (1983), o autor foi expulso (1993), por iniciativa do então cardeal Ratzinger, chefe do Santo Ofício, da ordem dominicana, na qual havia sido discípulo de um grande teólogo como Chenu.
Se, para alguns, essa expulsão já é uma recomendação positiva, há uma outra que se descobre só depois da leitura das densas 300 páginas do livro, e que soa assim: "Todo este livro, na realidade, nada mais é do que a exposição da espiritualidade dos anawim , dos oprimidos" (p. 331).
Não se deve, por isso, motivar ulteriormente a simpatia que sentimos desde o início pelo livro e pelo seu autor. Mesmo que alguns elementos que o caracterizam suscitem alguma resistência: a sistematicidade da construção, que repete e também renova certos esquemas típicos dos manuais de espiritualidade da tradição católica, com a articulação da Via positiva, Via negativa, Via criativa, Via trasformativa; a fluvial abundância das citações que servem como epígrafes para os vários capítulos, onde é convocada toda a história da mística, da poesia, do pensamento espiritual não só doOcidente (e que também tem o sentido positivo de oferecer uma espécie de suma antológica desse pensamento).
Principalmente, o que me atrai mas também repele no livro é o seu tom "positivo", que faz pensar às vezes em certas formas de nova religiosidade "americana" (New Age), às quais alimentamos respeito, mas que não sentimos como nossas.
O porquê de um certo incômodo com relação a este último aspecto do livro é também a sua substância teórica e teológica. A reação de suspeita é motivada justamente por aquilo que ainda domina a nossa experiência religiosa: somos todos filhos de Agostinho, diria Fox, isto é, submissos a uma educação que nos acostumou a pensar a história da salvação como redenção da queda original no pecado.
Não por acaso o título em inglês do livro é Original Blessing, Benção original. Nós, de original, sempre conhecemos principalmente o pecado: o ato de amor que deu lugar à criação, a benção original, foi logo manchado pela história da serpente e da maçã. A história das nossas relações com Deus é uma história de queda, pena e redenção, também esta, porém, operada só na força de um sacrifício, de uma pena que o próprio Filho de Deus carregaria sobre as costas, suportando a dor da Crucificação.
Mas, diz Fox, "ninguém acreditava no pecado original antes de Agostinho", como por exemplo Santo Irineu de Lyon, que escreveu 200 anos antes dele (p.49). A "benção", o ato de amor com que Deus cria o mundo e nos dá a vida, é uma ideia bíblica muito mais original. Agostinho construiu a doutrina do pecado original só nos últimos anos da sua vida, fundamentando-se em uma passagem da carta de Paulo aos Romanos (5,12) que ele leu como se dissesse que, com Adão, todos os homens pecaram e, por isso, trazem consigo a mesma culpa.
A filosofia ocidental (Kant: a ideia do "mal radical") retomou essa doutrina, considerando que a inclinação ao mal é um dado natural no homem, com consequências importantes também para o modo de entender a sociedade. E também todo o modo que herdamos de considerar o corpo, os sentidos, o erotismo está profundamente ligado a esse primado do pecado.
Fox se propõe a obra nada simples, de fato, de repensar o cristianismo fora da luz cintilante que o agostinismo lhe impôs. Certamente, não fazendo como se não se devesse mais falar de pecado – ele mesmo, nas quatro seções em que ilustra as suas quatro "vias", dedica páginas intensas a como se configura o pecado do ponto de vista de cada uma delas: que se reduz sempre a uma forma qualquer de resistência inerte (egoísta, conservadora) contra a positividade da relação com o mundo, com a natureza, com os outros.
Mas as desventuras que ele encontrou com a hierarquia católica advertem sobre a dificuldade também teórica da sua posição, pelo menos no plano doutrinal. A Igreja sempre deixou muita liberdade aos muitos místicos que Fox se refere no livro, de Hildegarda de Bingen a Meister Eckhart, de Juliana de Norwich a Simone Weil – certamente não aGiordano Bruno, que é um dos grandes inspiradores desse livro.
Mas, no plano da doutrina aceita e ensinada, o discurso era e ainda é muito mais rígido. Cada um de nós, e o próprio Fox e seus discípulos, pode (ou melhor, deveria) praticar privadamente a sua própria religião com esse espírito de benção, esquecendo a lúgubre ideia da culpa coletiva.
Mas, dessa ideia, dependem muitas "disciplinas", relações de poder, verdadeiros privilégios da casta (!) sacerdotal, para que uma proposta de renovação teológica e espiritual como essa não se confronto, no fim, com a necessidade de uma autêntica revolução. Talvez fosse a hora, mas lhes parece que é o tempo propício?


8 de junho de 2011

Batalhas para demolir a doutrina baseada no pecado

Batalhas para demolir a doutrina baseada no pecado
Quando nasceu o pecado original? Com Adão e Eva, com a serpente e a maçã: essa seria a resposta quase unânime de uma pesquisa improvável, confortada por séculos de encantamento iconográfico nas telas de MasaccioTintorettoMichelangelo,Rubens e milhares de outros.
A análise é de Claudio Canal, publicada no jornal Il Manifesto, 29-07-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
Sobre como Adão chegou até nós, as respostas não estariam tão de acordo: por transmissão biológica, por descendência, pela metafísica do ser e da natureza. Até a explícita admissão doCatecismo da Igreja Católica, no parágrafo 404: "a transmissão do pecado original é um mistério que nós não podemos compreender plenamente".
A data exata do seu nascimento é 397 d.C., quando Agostinho de Hipona escreveu um livro intitulado De diversis quaestionibus ad Simplicianum, em que começa a definir aquela que será, nos séculos vindouros, a teoria bem-sucedida do pecado original, que, como se sabe, se entrelaçará profundamente com o pensamento ocidental. Os temas da queda, da culpa, do mal, da salvação e da redenção, da liberdade individual, do mal de viver, todos têm um apoio sobre a serpente, a maçã e, sobretudo, sobre a pérfida Eva, equilibrada pela perfeita Maria, imaculada, ou seja, sem pecado original.
"Teoria da verdadeira civilização. Não está no gás, nem no vapor, nem nas mesas giratórias. Está na diminuição dos vestígios do pecado original", escrevia Charles Baudelaire, um teólogo não de segunda linha. No seu tempo, no entanto,Kant já havia visto as suas óbvias contradições, e Paul Ricoeur, em 1969, em um ensaio que fez história, escreveu: "Jamais se dirá o suficiente quanto mal fez ao cristianismo a interpretação literal – se deveria dizer `historicista` – do mito de Adão. Ela o fez cair na profissão de uma história absurda e em especulações pseudorracionais sobre a transmissão biológica de uma culpabilidade quase jurídica pelo erro de um outro homem, expulso para longe na noite dos tempos, não se sabe bem para onde, entre o Pithecanthropus e o homem de Neandertal. Ao mesmo tempo, o tesouro escondido do símbolo adâmico foi desperdiçado".
Pecado original ou bênção original? Essa pergunta é respondida, sem papas na língua, por Matthew Fox, um nome que não deve ser confundido com o intérprete principal da série de televisão de grande sucesso Lost. O nosso Matthew Foxé um ex-dominicano norte-americano, agora episcopaliano, ou melhor, "padre pós-denominações", como ele gosta de se definir, que, em 1983, escreveu um volumoso best-seller de 400 páginas intitulado Bênção Original, agora traduzido para o italiano como In principio era la gioia, em sua terceira edição (introdução de Vito Mancuso, tradução Gianluigi Gugliermetto, Ed. Fazi, 2011, 428 páginas).
O dominicano teve que enfrentar, em 1988, a Congregação para a Doutrina da Fé, presidida pelo prefeito cardeal Joseph Ratzinger, sobretudo pelas atividades e teorias elaboradas pelo Instituto de Espiritualidade da Criação, fundado por Fox. Em 1993, ele foi expulso da ordem.
No livro, Fox inverte o paradigma: "A religião no Ocidente deve abandonar o modelo exclusivista de queda e redenção […], modelo dualista e patriarcal, cuja teologia inicia com o pecado e com o pecado original, e termina normalmente com a redenção […] e não ensina nada sobre a Nova Criação ou sobre a criatividade, sobre a construção da justiça e da transformação social, ou sobre o eros, o prazer e o Deus da alegria. Ela não consegue ensinar o amor pela Terra ou o cuidado pelo Universo, e é assim assustada pela paixão que não consegue ouvir o grito dolorido dos anawim, dos pequenos da história humana".
Esse é, substancialmente, o interessante programa do livro, habilmente sintetizado, além disso, em um apêndice de quatro páginas, em que os dois paradigmas são contrapostos em uma tabela de duas colunas.
Fox consegue bem, embora de modo rapsódico, destacar a importância que a doutrina do pecado original teve na constituição da consciência ocidental: um ser humano marcado pelo pecado e pela vergonha e, por isso, incapaz de decidir o que é melhor para ele e para os outros, sempre à espera de uma autoridade que lho diga e que pratique o bem em seu lugar e, talvez, contra ele. Uma autoridade sacerdotal ou política, tanto faz.
Mas a estratégia da Fox não é exclusivamente centrada em demonstrar que o conceito de pecado original é um falso saber, como diria Ricoeur, mas é sobretudo voltada a elaborar uma summa de espiritualidade alternativa para a construção de um mundo pacificado, onde o pecado, original ou não, seja apenas um resíduo.
Os caminhos a serem percorridos por Fox são: Via positiva (alegria, hospitalidade cósmica, maravilha), Via negativa(deixar-se levar, silêncio, escuridão), Via criativa (criatividade, Deus como mãe), Via transformadora (justiça, compaixão, interdependência). Cada uma totalmente ilustrada e aprofundada em uma trama de iluminações estrepitosas e de banalidade desarmantes, a ponto de desorientarem assim que nos distanciamos um pouco do tom sempre cativante do texto.
A primeira impressão é que a Fox, apesar de todas as sacrossantas batalhas contra a Igreja faraônica, permaneceu enredado, no entanto, nas suas milenares práticas retóricas. O modo narrativo de In principio era la gioia é muito semelhante à tradicional, e antiquada, apologética católica, que, reunindo e liquefazendo citações da Bíblia, dos Padres da Igreja, dos santos e dos papas, pontificava sobre qualquer assunto.
A forma de fazer com o que leitor salte da citação de um psicanalista a uma do profeta Isaías, de uma feminista dos nossos dias a Francisco de Assis, passando por GandhiPablo Casals e Tomás de Aquino, dá bem uma ideia de bricolagem que subjaz à escrita de Fox e que constitui ao seu código argumentativo.
Para fugir da rígida geometria da teologia "masculina", Fox parece cair um pouco demais na evocação indiferenciada e barroca das belas palavras deste ou daquela, como um pregador qualquer do século XVII. O que reforça essa perplexidade de leitura é o uso desenvolto que Fox faz de duas figuras eminentes da mística e do pensamento ocidental, Hildegard von Bingen eMeister Eckhart. O seu objetivo é mostrar uma outra genealogia de uma renovada espiritualidade contemporânea, revelando um pensamento cristão escondido, muitas vezes censurado, senão até abertamente condenado pelos letais tribunais eclesiásticos.
Na busca de fontes não esgotadas, Fox não é tão sutil. Ele toma dos dois aquilo que lhe serve, destoricizando tanto Hildegard quanto Eckhart. À primeira, ele também dedicou um livro, Illuminations of Hildegard, que diz muito sobre Matthew Fox, mas pouco de Hildegard abadessa deRupertsberg, escritora, filósofa, naturalista, linguista, curandeira, poeta e compositora.
Ele faz de Eckhart um perfeito distribuidor automático de belas frases e de belos pensamentos, descontextualizado e avulso, seja das influências recebidas – são importantíssimas as islâmicas –, seja dos inquietantes influxos exercidos sobre o pensamento alemão posterior.
Um livro não de uma única cor; exuberante e vigoroso, para ser lido e discutido, não para ser adorado.



2 de abril de 2011

Matthew Fox - Um cristianismo sem Agostinho?


"A principal tese do teólogo norte-americano Matthew Fox é que a 'bênção original' no centro da mensagem do cristianismo foi ofuscada pela prevalência de uma teologia particular do pecado original, cujo principal autor é Santo Agostinho de Hipona."
A opinião é de Massimo Faggioli, doutor em história da religião e professor de história do cristianismo no departamento de teologia daUniversity of St. Thomas, em Minneapolis-St. Paul, nos EUA. O artigo foi publicado na revistaEuropa, 31-03-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
Eis o texto.
O cristianismo, assim como o conhecemos, é fiel às suas origens, à mensagem deJesus? A pergunta, a mais arriscada para qualquer pessoa que se interesse pelo cristianismo, está no centro do livro de Matthew Fox, In principio era la gioia [No princípio era a alegria] (Ed. Fazi, 2011, 423 páginas), publicado originalmente nosEstados Unidos em 1983 com o título Original Blessing[Bênção original].
O livro, que levou o autor à expulsão dos dominicanos em 1993 (junto com um grande sucesso editorial), foi traduzido só agora ao italiano e abre uma nova coleção de textos teológicos, intitulada significativamente Campo dei Fiori, publicada pela Fazi Editores e organizada por Vito Mancuso e Elido Fazi.
Mancuso introduz o livro de Fox com um longo texto que apresenta não só o livro, mas também toda a coleção e o projeto editorial que prevê a publicação de textos de teologia, espiritualidade e história do cristianismo. O projeto se baseia em uma constatação dificilmente contestável: "A oposição sistemática entre liberdade e pertencimento à Igreja Católica foi se dilatando e gerou a muito difundida ideia de uma oposição sistemática entre liberdade e experiência espiritual" (p. xxx).
Se Mancuso pretende iniciar um diálogo com o catolicismo institucional, as premissas postas por esse livro da coleção são combativas: no prefácio,Mancuso sugere uma analogia entre o destino deMatthew Fox e o dos teólogos hereges e dissidentes condenados à morte pela Igreja romana, dentre os quais Arnaldo de BrésciaeGiordano Bruno. A sorte reservou a Fox uma saída da Igreja de Roma bem mais cômoda em comparação ao fogo no Campo de Fiori.
Mas In principio era la gioia se presta bem para essa interessante operação cultural e editorial da efitora Fazi, da qual logo veremos outros volumes (entre os quais a recente história dos Papas deJohn O’Malley e uma interpretação cristã do budismo dePaul Knitter). A principal tese de Fox, agora ex-católico que se define "padre pós-denominações", é que a "bênção original" no centro da mensagem do cristianismo foi ofuscada pela prevalência de uma teologia particular do pecado original, cujo principal autor é Santo Agostinho de Hipona.
Na opinião de Fox, o original otimismo da revelação judaico-cristã sobre a humanidade e sobre a criação foi removido pelo "esquema queda-redenção" centrado no pecado original: esse deslizamento fez do cristianismo uma religião não só pessimista, mas também patriarcal e violenta. A teologia de Fox tenta despedaçar o esquema "queda-redenção" para romper o fundamental dualismo alma-corpo, sagrado-profano, Deus-mundo – um dualismo herança da experiência maniqueia do jovem Agostinho.
Fox propõe uma viagem espiritual de quatro etapas: a via positiva (em contato com a energia criativa de Deus), a via negativa (redescobrir o sofrimento por meio da natureza), a via criativa (para nos tornarmos novamente criadores do mundo junto com Deus) e a via transformativa (para voltar ao momento inicial graças a uma inspiração de justiça pelo cosmos).
Hoje, quando um dos principais acusadores do livro (o então cardeal Ratzinger) tornou-se Papa de Roma, In principio era la gioia se apresenta como uma espécie de testemunha póstuma da tentativa de fundar, em uma síntese pós-agostiniana, as almas teológicas do catolicismo pós-conciliar: em outras palavras, a tentativa de elaborar uma teologia liberacionista em sentido amplo, que misture ecumenismo, teologia feminista, espiritualidade ecológica, misticismo e busca de um campo teológico inter-religioso bem além do "monoteísmo abraâmico", judaísmo-cristianismo-islã.
Nesse sentido, o livro de Fox se apresenta, mais do que como uma proposta original de espiritualidade alternativa ao catolicismo institucional, como um mapa das fontes e das direções possíveis em que a teologia católica foi estimulada (frequentemente com maior sucesso de Fox) depois do Concílio Vaticano II.
São evidentes as fraquezas teológicas da proposta de Fox. Um dos elementos prevalentes do livro é o de uma oferta de "teologia terapêutica", típica da paisagem religiosa norte-americana contemporânea, fenômeno do qual o catolicismo dos EUApermaneceu em grande parte (e por sorte) imune. Às vezes, parece que lemos em Foxessa proposta teológica para católicos suburbanizados, cultos e pós-confessionais, que havia feito o sucesso de Thomas Merton nos anos 50 e 60: com a diferença de queMerton escrevia como neocatólico, enquanto aqui Fox fala como ex-católico.
A segunda fraqueza tem a ver com a exigência de reduzir a taxa de agostinismo da teologia cristã e católica em particular: exigência compreensível, especialmente se considerarmos os legados mais problemáticos do bispo de Hipona (teologia da guerra justa, concepção da sexualidade). Mas entre eliminar a ênfase sobre a libertação do pecado original e eliminar do horizonte da teologia cristã a ideia de libertação tout courto limite é tênue: a ideia de "libertação" é uma das ideias teológicas mais poderosas da revelação judaico-cristã (do Êxodo em diante, chegando às teologias políticas).
Além disso, Fox parece ignorar a passagem de paradigma dos séculos XIX e XX da teologia como metafísica à teologia como "história da revelação" e, substancialmente, parece declarar decaídos os grandes mestres da teologia católica do século XX.
Por fim, Fox se baseia em fontes bíblicas (especialmente dos livros sapienciais) e em fontes místicas medievais, além de uma vasta série de fontes teológicas sui generis(poesia, literatura, psicologia), deixando substancialmente de lado a teologia patrística latina e grega dos primeiros séculos do cristianismo. Não está claro quanta teologia dos Padres da Igreja Fox pretende arquivar (além de Agostinho), se é verdade que oressourcement teológico foi uma das pedras-angulares da reconstrução da teologia católica no século XX, depois da estação árida da teologia neoescolástica. Declarar acabado o ressourcementequivale a declarar acabada a teologia doVaticano II: uma declaração que todos os catolicismos inimigos de Fox ficariam felizes em assinar embaixo.

http://www.ihu.unisinos.br/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=41981

22 de fevereiro de 2011

"A bênção original". Um livro polêmico


 Entrevista com Matthew Fox
"Não um pecado original”, não uma humanidade caída, ferida e depois redimida por Jesus Cristo. Mas, um Deus criador panenteísta (presente em tudo e em todos). A morte como fato natural, parte do ciclo vital e não conseqüência do pecado de Adão. “A bênção originária” da criação prenuncia a Redenção. São as teses expressas no livro de Matthew Fox, intitulado precisamente Original Blessing (1) [Bênção original], que saiu nos EUA, em 2000 e agora é traduzido na Itália com o título In principio era la gioia [No princípio era a alegria]. Um texto no qual a tradição católica e apostólica se transmuda numa religiosidade sapiencial, feminista, ecológica, sensual, com forte veia vitalista e new age.
A entrevista é de Maria Antonietta Calabrò e publicada pelo jornal Corriere della Sera, 17-02-2011. A tradução é deBenno Dischenger.
Eis a entrevista.
Matthew Fox, o então cardeal Ratzinger “condenou” o seu livro como “perigoso e conduzindo em erro”. Qual tem sido sua reação à eleição a Papa de um “discípulo” de Agostinho, que o senhor acusa de estar na raiz da teologia negativa e pessimista do pecado?
Minha reação tem sido a de ir a Wittenberg, na Alemanha, durante o tempo de Pentecostes e afixar 95 teses na mesma porta onde Martinho Lutero havia afixado as suas. Pareceu-me particularmente apropriado porque Ratzinger foi o primeiro papa alemão em centenas de anos, mas principalmente por fazer ressaltar a profunda necessidade de uma reforma da Igreja  em nossos dias. Penso que minhas 95 teses indiquem a direção apropriada para a qual devamos mover-nos. Os eventos que aconteceram depois que ele foi feito Papa, incluindo o tsunami de revelações sobe a pedofilia dos padres e sobre a cobertura do escândalo da parte da Congregação para a doutrina da fé que ele guiava, indicam que minhas ações eram justificadas”.
O grande convertido inglês Chesterton exprime conceitos muito semelhantes aos de “Original Blessing”.  Mas, sustenta que a Igreja católica é o único “lugar onde todas as verdades se encontram”. Por que o senhor não está de acordo?
Chesterton era, de muitos modos, um celebrante da teologia da “bênção originária” ou da beleza e bondade originárias Em seu livro sobre Tomás de Aquino (que li como garoto e influenciou o meu desejo de me tornar frade dominicano) ele fala do “velho puritanismo agostiniano” e do pessimismo que o Aquinate combateu tão fortemente. Quanto à eclesiologia de Chesterton, o nosso conhecimento do mundo cresceu desde o início do século vinte, quando ele escrevia. E aprendemos do Concílio Vaticano II que o Espírito Santo trabalha através de todas as tradições. E que a Igreja institucional é semper reformanda. Chesterton escreveu que o diabo se encontra tanto na Igreja como no mundo”.
O Credo codificado em 325 no Concílio de Nicéia afirma: “Confesso um só batismo para o perdão dos pecados.
Este Credo fala da remissão dos pecados (no plural) e não da remissão de um só (o pecado original). O batismo dos adultos “re-limpava” as pessoas dos pecados do passado e os acolhia na nova vida em Cristo. O batismo dos neonatos os acolhe na comunidade dos fiéis no mundo e na plenitude de vida com Cristo. Opostamente à falsa caracterização feita por Ratzinger do meu livro, eu não nego o pecado original. Eu contesto o que nós entendemos com isto. A palavra “pecado” é muito problemática e não aparece em nenhuma parte na consciência hebraica (isto é, a de Jesus). Não é uma palavra bíblica.
O papa Wojtyla está para ser declarado beato: sua abordagem não era positiva, criativa, numa palavra, como diria ele, bendizente?
Há sérios questionamentos sobre esta beatificação. A começar pelo fato que defendeu a canonização de um homem violento como Escrivá, o fundador do Opus Dei.
E as multidões que o seguiram?
Não creio que o culto do papado ou grandes multidões falem necessariamente de renovação da Igreja. A papolatria não é uma virtude. Alguns escritos de João Paulo II são admiráveis, mas creio que a história mostrará que ele desenraizou aTeologia da Libertação e as comunidades de base na América Latina. Sem contar sua completa indiferença para com a coragem e a santidade de leigos e membros do clero, centenas dos quais foram torturados e assassinados na mesma América Latina para defender os pobres e proclamar a Boa Nova da Justiça de um modo concreto (Oscar Romero era apenas uma destas pessoas santas). Os encargos assinalados a uma hierarquia de extrema direita (frequentemente doOpus Dei); a recusa de honrar o princípio de colegialidade fixado pelo Concílio Vaticano II; o apoio ao padre Maciel, fundador da Legião de Cristo, mesmo depois que as revelações sobre sua pedofilia tinham sido tornadas públicas; o diminuir as mulheres, a recusa até de tomar em consideração o clero casado ou as mulheres padres, também quando os sacramentos são denegados a muitos pela falta de sacerdotes; o apoio a movimentos fanáticos de leigos que na realidade não são leigos, como Comunhão e Libertação, o Opus Dei e a Legião de Cristo; as denúncias profundamente homofóbicas; a restauração da Inquisição contrária ao ensinamento e ao espírito do Vaticano II: tudo isso não me faz exprimir admiração.
O senhor deixou a ordem dominicana durante o papado de Wojtyla...
Eu não deixei a Ordem dominicana, fui expulso. Lutei 12 anos para permanecer e tive o apoio de muitos dominicanos, sobretudo na Holanda. O Concílio Vaticano II era focalizado para a renovação da Igreja, mas a grande parte das declarações sobre isso foi negada durante os papados de Wojtyla e Ratzinger. Este é o motivo pelo qual muitos pensadores de Igreja que conhecem um pouco de história retêm que o atual pontificado e o precedente sejam cismáticos”.
Cismáticos?
Um papa e sua cúria (não importa quantas dezenas tenham sido feitas cardeais e quantos estejam ocupados em canonizar-se um ao outro) não superam um Concílio. No grande cisma do século XIV, no qual três pessoas reclamavam contemporaneamente o papado, foi o Concílio de Constança que destituiu todos os três papas e elegeu um novo. Penso que seja a época de um catolicismo pós-Vaticano, uma verdadeira cristandade católica. Talvez a Cidade do Vaticano tenha algo a aprender do Cairo. Seria preciso derrubar do trono os ditadores e repelir um sistema corrupto, tão distante dos ensinamentos do Evangelho. Penso que o próprio Jesus poderia novamente derrubar as mesas dos mercadores no templo, se ele viesse ao cenário eclesial corrente.
Transmite-se que no fim da vida Santo Tomás tenha dito: “Tudo o que escrevi é palha”. O senhor que  é autor de best-seller; subscreveria esta frase?
Como ávido leitor do Aquinate, estou feliz que seus trabalhos tenham sido salvos e que não tenham tido o fim da palha. Sua experiência mística, em cuja perspectiva havia visto todo o seu trabalho “como palha” em comparação com a luz de Deus, é uma experiência profunda sobre a qual devemos meditar. Todos os nossos esforços no mundo do trabalho, da vida familiar e da nossa cidadania parecem palha no grande esquema da história. Isto não significa que nós não estejamos aqui para trabalhar duro, divertir-nos e amar generosamente. Isto significa somente que somos meros instrumentos de um drama de 13,7 bilhões de anos que chamamos universo. Mas, não era da evolução cósmica que falava Tomás...
Nota da IHU On-Line:
1.- O título completo do original do livro é: Original Blessing: A Primer in Creation Spirituality Presented in Four Paths, Twenty-Six Themes, and Two Questions.