O absurdo e a Graça

Na vida hoje caminhamos entre uma fome que condena ao sofrimento uma enorme parcela da humanidade e uma tecnologia moderníssima que garante um padrão de conforto e bem estar nunca antes imaginado. Um bilhão de seres humanos estão abaixo da linha da pobreza, na mais absoluta miséria, passam FOME ! Com a tecnologia que foi inventada seria possível produzir alimentos e acabar com TODA a fome no mundo, não fossem os interesses de alguns grupos detentores da tecnologia e do poder. "Para mim, o absurdo e a graça não estão mais separados. Dizer que "tudo é absurdo" ou dizer que "tudo é graça " é igualmente mentir ou trapacear... "Hoje a graça e o absurdo caminham, em mim lado a lado, não mais estranhos, mas estranhamente amigos" A cada dia, nas situações que se nos apresentam podemos decidir entre perpetuar o absurdo, ou promover a Graça. (Jean Yves Leloup) * O Blog tem o mesmo nome do livro autobiográfico de Jean Yves Leloup, e é uma forma de homenagear a quem muito tem me ensinado em seus livros retiros, seminários e workshops *
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6 de janeiro de 2024

Guiados pela luz da estrela seguiram


“Haverá sempre uma Estrela no caminho de quem busca. Importa, pois, buscar com mente pura e sempre atenta aos sinais dos tempos como o fizeram os reis magos.’’
(Leonardo Boff)



E eles viram uma estrela e seguiram, porque a estrela indicava algo grandioso.
Mas que estrela era essa?
Na verdade não era uma e sim duas estrelas; a rigor nem eram estrelas eram planetas: Saturno e Júpiter. Planetas revestidos de simbolismos e significados que hoje o moderno cristianismo satanizou. Mas naqueles tempos a astronomia e a astrologia andavam de mãos dadas e eram uma só ciência muito respeitada.

E foram os magos (senhores de um conhecimento mágico) que interpretaram que algo grandioso, que algo maior que todos os acontecimentos da terra estava chegando para promover uma grande síntese. E há como comprovar, (Kepler 1630 fez cálculos astronômicos e mostrou efetivamente que cientificamente Jesus nasceu no ano VI antes da era cristã e justamente neste ano houve uma grande conjunção entre Júpiter e Saturno que fazia com que parecesse uma grande e luminosa estrela. Mas toda esta luz para um leigo seria apenas um fenômeno ou, para o comum dos mortais, não passaria de algo belo e interessante. Mas para os magos, para astrólogos acostumados a perscrutar o céu em busca de sinais essa conjunção revelava algo muito importante.
Astrologicamente naquela época Júpiter simbolizava o grande Senhor do Mundo. Já Saturno era tido como a estrela do povo Judeu. Os Magos interpretaram que no povo judeu nasceria o senhor do mundo e puseram-se a caminho.


Que como os Magos nós possamos aprender a olhar o céu, entender os sinais que lá estão. Que possamos ter a mesma disposição para interpretar as mensagens que Deus nos manda através da natureza e que ultrapassando toda dúvida, todo medo e todo preconceito possamos seguir e frente em direção do grande arquétipo da síntese, que uniu a terra ao céu, o humano ao cósmico a criatura ao criador marcando de uma vez por todas toda a criação como obra de amor e fraternidade.
Que como os magos que geralmente nunca se dobram, possamos nos ajoelhar diante da grande Luz, do grande senhor, que escolheu se apresentar como um menino e adorá-lo em espírito e em verdade, em pneuma e alethéia, no sopro e na atenção.

22 de dezembro de 2021

Nasceu sem luxo, quase no lixo em meio aos animais...


"Estando eles ali, completaram-se os dias dela. E deu à luz seu filho primogênito, e, envolvendo-o em faixas, reclinou-o num presépio; porque não havia lugar para eles na hospedaria." Lc 2,6-7


E assim ele nasceu, sem teto, sem terra, sem luxo quase no lixo e a despeito disso os anjos cantavam e anunciavam:
Que aqueles que tem boa vontade, alcançarão a Paz ainda na Terra...

Ficou conhecido como um malfeitor que incomodava aos poderosos de seu tempo, 
que desafiava Reis e sacerdotes. 
Seu fim, deu-se prematuramente, mal saído da juventude, condenado a morte entre dois ladrões. 
Seu grande e único pecado foi desafiar a toda a humanidade a AMAR da mesma forma que Ele amava.

Seu nome? 
Yeshua, nascido em Belém, mais conhecido como Jesus de Nazaré, um jovem filho de carpinteiro que estranhamente tinha mais sabedoria que os doutores da Lei...
O reverenciam como Deus, embora ele mesmo nunca tenha se atribuído essa majestade, dizia apenas ser o filho de Deus, ou o filho do Homem, ou ainda que ele e o pai são UM e que também devemos ser UM com o Pai.
Pregava o Reino, o Reino do Pai, e disse que esse Reino está no meio de nós.
Sua presença, por incrível que possa parecer atravessa os séculos , embora alguns insistam em dizer que ele nunca existiu...

De certo só sei que ele vive em mim, e em tudo que irradia vida.







26 de dezembro de 2019

Uma Reflexão de Natal - os meus Natais.


Uma Reflexão de Natal - os meus Natais.
(o texto foi escrito em 2004, mas não estava no Blog)


Em meio a tantas mensagens de Natal, li algumas nas redes sociais e uma delas conseguiu me espantar. A pessoa dizia na mensagem que não desejaria Feliz Natal porque Jesus não nasceu em 25 de dezembro e que isso era uma invenção etc., etc., etc. Dizia inclusive que a importância de Jesus era relativa se comparada a outras figuras míticas no mundo. Sugeria que esse tipo de manipulação só servia ao comercio e uma série de outras coisas que na verdade caberiam bem em alguém que pretendesse fazer um discurso ateu e revolucionário. Mas não, o depoimento era de alguém que se diz espiritualista, mística, holística e sei lá mais quantos "istica".

Na verdade eu nem discordo de alguns dos argumentos que foram distorcidos ao longo dos séculos, muito menos que o sistema venha investindo pesado no Natal do Papai Noel e dispensando o aniversariante como uma incomoda figura de segunda importância, um figurante que só traz problemas com suas ideias de amor, fraternidade e coisas no gênero.

Por outro lado, vi também gente questionando o fato de se dizer que Jesus é o aniversariante, porque Ele na verdade é maior, é da ordem dos mistérios e reduzi-lo a aniversariante é diminuir sua importância.
Não comentei, até porque tenho procurado polemizar ao mínimo nas redes sociais depois que percebi que essas situações acabam sempre em barracos, e em alguns casos até em processos judiciais e na verdade nada mudam. Mas confesso que fiquei pensando nos meus sessenta e muitos natais, dos quais apenas os primeiros não estão bem vivos gravados na minha memória.

Que importa se Jesus nasceu em 25 de dezembro ou em maio ou talvez abril ou setembro? Porque me exasperar se a sociedade capitalista transformou o papai Noel na figura central do Natal, ou se as pessoas fazem do Natal uma ocasião de excessos?
Há muito tempo que descobri que toda e qualquer mudança precisa começar primeiro em mim para que depois possa pretender que ela atinja as demais pessoas da sociedade. E entre a minha mudança e a mudança da sociedade vai um longo e demorado caminho a percorrer. Certamente não é pelo discurso, pela crítica direta e desprovida de caridade e pela revolta à questões mal resolvidas em meu íntimo, que as pessoas vão mudar. É principalmente pelo exemplo, pelo testemunho de vida que eu posso fazer a diferença e posso me alegrar com os pequenos gestos de mudança das pessoas.

Se há mais de mil anos se repete em uma mesma data um festejo que coloca a fraternidade, o amor e a caridade em evidencia, porque não me alegrar e incentivar isto? Porque não aproveitar esse incentivo para exercitar estas virtudes?
O Natal para mim sempre foi ocasião de muita alegria, sempre foi lembrança de dias felizes na convivência dos primos, e tios, da família em uma mesa rodeada de sorrisos e afetos e abundancia de afeto e alegria e oportunidade de celebrar a união com quem se ama.

É uma época de caridade farta, até mesmo por pessoas pouco dadas a essa prática. É também uma época em que as pessoas se esforçam para pelo menos parecerem melhores.
Não acho que seja o dia da hipocrisia, como alguns insistem em ressaltar. Até mesmo porque se for por alguns instantes, qualquer gesto de amor e fraternidade é louvável.
Não sou palmatória do mundo, prefiro errar por acreditar nas pessoas do que acertar sempre não confiando nelas.

Os meus natais, a maioria deles, sempre foram momentos de muita Alegria, Paz, entusiasmo e Contentamento. Eu tive a graça de ter convivido com meus avós, tanto paternos como maternos. E natal sempre vai me remeter à casa dos avós.

meus avós maternos

Na casa dos meus avós maternos a lembrança mais forte desta época é a do presépio, majestoso na sala de visitas, o mesmo cujas imagens guardo até hoje, com cuidado. A lembrança daqueles dias de orações em volta do presépio na noite de Natal.
Era lá que passávamos a véspera de Natal. A ceia não era como hoje, com comilanças exageradas. Tínhamos as rabanadas, as frutas secas e alguns doces da tradição portuguesa: o “Formigos” ou “Mexido”. Era na verdade uma espécie de creme, onde de tudo um pouco entrava na sua confecção: pão esfarelado lentamente até quase virar farinha, água, ovos, mel, vinho, amêndoas e uma quantidade enorme de paciência para mexer a grande panela de barro em fogo brando por horas e horas a fio. Uma tradição que minha avó manteve até seus oitenta e nove anos, quando partiu e o mexido passou a só existir junto com ela, em nossas lembranças.

meus avó paternos eu e meus primos ano provavel 1956

No dia de natal, o almoço era na casa dos avós paternos e ali, a família por ser maior, a atividade era imensa. Acho que nenhum de nós, os netos, éramos nove, conseguirá esquecer, por mais que o tempo passe aquelas festas, aquela algazarra de crianças por todo lado e adultos atarefados. No quintal a mesa de pingue-pongue armada com uma toalha e a sua volta bancos, cadeiras e o que mais servisse para que TODOS pudessem sentar-se à volta da mesa e saborear o almoço de natal. O Almoço durava horas...

Terminado o almoço começava uma arenga, quase briga, era a disputa para quem ia lavar a louça... Por incrível que pareça todas, filhas e noras, disputavam a honra de pilotar a pia.
Mas, a coisa mais sagrada, depois do almoço era quando vovó fazia questão de buscar o saco das pedras e os cartões do jogo de víspora e a tarde voava entre o canto de um número e outro e a tensão de não perder nenhuma marcação com os caroços de feijão e os gritos: "duque", "terno!”...
De repente alguém dizia: Ah! Peraí ! Eu tinha marcado esses...
e o vovô dizia : comeu barriga ! Perdeu...
Muitos risos e muita alegria e já alguém gritava: “ duque de ponta”, ou terminava aquela série com um sonoro: "V I S P O R A" !!!!!

Desta época de natal minha memória acusa a lembrança de uma iguaria que só era feita nesta época do ano: os Mantecais. Durante a semana que antecedia o Natal uma bacia era posta na sala de jantar sobre a mesa e nela alguns quilos de banha de porco que minha avó batia com uma colher de pau até que virasse um creme quase líquido em que eram acrescentados outros ingredientes até virar uma massa clara como massa de empada. Depois vinha o momento de enformar os “mantecais”, e eu sempre dava um jeitinho de roubar um pouco daquela massa doce e gostosa. As formas eram como que barquinhos e aos montes eram colocadas para assar e o cheiro ia longe. Assados os mantecais, que na verdade eram uma espécie de biscoitos amanteigados, típicos da tradição espanhola, na distante Málaga da infância de vovó, eram passados no açúcar e canela e guardados em grandes latas para serem saboreados nas festas de fim de ano.
Nunca consegui recuperar a receita para comer e reavivar aquele gosto de infância feliz.

A lembrança da vovó está muito associada àquelas festas na vila da rua Dona Maria, na “Aldeia Campista”, bairro hoje considerado como Tijuca, e à alegria de tempos que embora difíceis, não foram capazes de escurecer a lembrança viva da alegria da família reunida no Natal.
Mais tarde o tempo se encarregou das transformações, algumas bem dolorosas e significativas. Por ironia a vovó Bebel, essa avó paterna, nos deixou em um dia de Natal bem cedo. Lembro bem e eu devia ter meus 19 anos, a notícia chegando no dia 25 de dezembro com o raiar do dia.


Depois que eu casei e os filhos chegaram eu tomei como tradição fazer o Natal, reunir a família e comemorar esta data, que até hoje é para mim muito especial.
Trouxe para mim o mesmo presépio que meu avô comprou lá pelos anos 30 e o gosto de reunir a família e celebrar. Celebrar algo que só quem não quer ver não percebe. São os judeus e a festa da Luz, o Hanukah, ou pode ser a comemoração do Deus pagão como Mitra, ou para nós cristãos o nascimento da Luz.

Este é o presépio comprado por meu avô em 1930

“O povo que andava nas trevas viu uma grande luz naquela noite”. É assim que a bíblia se refere à chegada de Jesus. E o natal é exatamente isso, "Luz". O mistério da Luz que não se apaga nunca.
Sejam as luzes artificiais das fachadas, ou a luz que cada um, se quiser e permitir, acende em seu próprio coração, neste tempo de grandes transformações. E qual sarça ardente jamais se apagará.
Natal é oportunidade de renascimento, é tempo de nos lembrarmos de que existe algo luminoso em nós e que só depende de cada um de nós querer manter aceso, ou ocultar e alardear que não há mais esperança para esse mundo.
De minha parte, continuo acreditando em utopias e buscando manter acesa a chama da vida que a cada natal é avivada por uma onda de paz, e alegria.

É natal, pelo menos por hoje troque as reclamações por agradecimentos, Troque a cara feia por um sorriso. Nós podemos se quisermos transformar esse mundo em algo mais alegre, e digno de seres criados à semelhança de um Deus.
Feliz Natal !
A transformação é possível, vamos manter bem forte esta chama, nós podemos.

25 de dezembro de 2019

Há uma criança nos querendo falar

Há uma criança nos querendo falar, em meio a este mundo tão absurdo, palavras de Justiça, Paz, perdão, misericórdia e compaixão... Será loucura ou excesso de lucidez?




Há um enorme turbilhão levando a todos ao consumo frenético e sem controle. E aquela criança ali, num estábulo pobre, em meio a animais nos convidando a olhar para dentro e entrar e contato com o mais íntimo de nós: desfrutar da presença que nos habita.
Ele foi colocado em uma manjedoura, um coxo onde os animais se alimentam. Bela metáfora.

E isso nos convida a refletir sobre o que temos escolhido para nos alimentar.
Bons sentimentos ou apenas raiva, ódio e intolerância? Também nos questiona sobre o que temos dado aos nossos semelhantes para comer?
Boas palavras ou incitação a sentimentos menos luminosos?

Que neste Natal sejamos capazes de fazer silêncio e ouvir o que a criança que vive em nós tem a nos dizer e que tenhamos a coragem de nos deixar guiar por ela, a divina chama do amor que nos convida a transformar esse mundo, a edificar o reino da justiça, paz e amor.

Que o ano novo nos encontre assim extasiados pela divina presença da criança divina que renasceu no meio de nós.
Que a divina criança lhes acenda ainda mais o fogo do Amor, da justiça, da compaixão e da Paz em seus corações.

E diante da simplicidade de um menino que veio nos ensinar que a Justiça e o Amor são as grandes metas a alcançar  quero pedir que Ele fortaleça a nossa caminhada e aumente a nossa boa vontade, em nossos corações para que possamos viver a verdadeira Paz.

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20 de dezembro de 2019

Coca-Colonização da cultura: Como o Natal se americanizou em todo o mundo

O texto não é meu, me foi enviado pelo amigo André eeu o achei tão imprtante que resolvi publicá-lo


 


feriado religioso mais popular da cristandade carrega em si próprio uma grande contradição: é durante as celebrações de Natal que ao menos quatro dos sete pecados capitais, condenados pelo cristianismo, são mais venerados – a gula, a luxúria, a avareza e a inveja.

A festividade cristã se tornou uma das datas comerciais mais lucrativas e, embora esse fenômeno não seja essencialmente norte-americano, ele se agudizou à medida que avançava a hegemonia sociocultural e econômica dos EUA, que exportou um Papai Noel de roupas vermelhas e uma garrafa de Coca-Cola em mãos como árbitro das celebrações natalinas em todo o mundo.

Basta estudar a própria construção simbólica do Natal tipicamente norte-americano para constatar que a festividade bebe das mais diversas tradições culturais europeias, trazidas por imigrantes e incorporadas à cultura popular dos EUA. É nesse sentido que o antropólogo britânico Daniel Miller – estudioso formulador da “Teoria do Natal”, por meio da qual expõe descaracterizações na data, trazidas pela obrigação da troca de presentes – identifica uma série de linhas de influências que atravessaram os mares e passaram a operar na celebração do Natal desde meados do século XIX.
Segundo Miller, o Natal moderno mistura o corte de árvore da tradição alemã, o preenchimento de meias da tradição holandesa, o envio britânico de cartões natalinos e a manjedoura dos presépios típica dos italianos. Além disso, os dois artistas responsáveis ​​pelas representações visuais mais influentes da figura do Papai Noel tinham fortes antecedentes europeus: no século XIX, o cartunista Thomas Nast (nascido na Alemanha em 1840) e, no século XX, o ilustrador publicitário Haddon Sundblom (norte-americano de ascendência sueca e finlandesa). 
Entretanto, para o professor de estudos de mídia George Mckay, da Universidade de East Anglia, houve nos EUA um elemento fundamental para que todos esses símbolos oriundos de ritos cristãos e pagãos se aglutinassem em um só arquétipo moderno de festejo natalino: o fenômeno do consumo de massa.
O Natal disseminado como ocasião de consumo de massa impulsionou o feriado como “festival global”. Se o Natal contemporâneo, de fato, envolve uma amálgama de costumes, geralmente específicos de nações, regiões ou até aldeias, também está integrado à formação de símbolos e costumes “globais”, isto é, influenciados pelos processos de globalização e americanização. Na própria sequência de “’festivais de consumo” no calendário norte-americano, que inclui o Halloween e o Dia de Ação de Graças, somente o Natal alcança o status de festejo global, tendo como principal figura visual o Papai Noel, um personagem criado nos EUA.

Natal, festival de consumo à americana




Um discurso recorrente em críticas ao aumento do consumo no Natal é que há uma contradição entre a concepção tradicional da data como festividade cristã e ritual de celebração da família – espaço caracterizado pela afetividade – e o comércio durante a temporada natalina – espaço intrínseco à esfera impessoal do mercado. O “materialismo” vigente no sistema de mercadorias seria a força capaz de destruir o “espírito natalino”, e a oposição imediata a ele seriam certos laços de sociabilidade, em especial a família nuclear.
O ritual de dar presentes no Natal remonta às sociedades pré-industriais. Ele começou na época das Treze Colônias, quando os primeiros norte-americanos mantinham uma antiga “obrigação” de oferecer presentes aos mais pobres. Naquele período, não havia ainda a troca de presentes, mas apenas uma “doação”. Porém, essa tradição futuramente se readequou a um conjunto de práticas e inovações na vida social e comercial ligadas ao desenvolvimento do capitalismo ocidental nas esferas urbanas, tanto doméstica como pública. Ao mesmo tempo, a expansão das lojas de departamentos criou uma experiência de lazer e de estilo de vida consumista, e a publicidade se tornou uma forma dominante de comunicação e persuasão da mídia de massa, baseada, em grande medida, nos novos produtos disponíveis nessas “catedrais do consumo”.
Ainda no século XIX, os lojistas norte-americanos perceberam o enorme potencial de impacto do Natal no aumento de suas vendas. O primeiro reconhecimento do aumento sazonal nas vendas e no volume de negócios no período natalino – fenômeno comercial hoje conhecido de todos – aconteceu já em 1867, quando Rowland Hussey Macy, dono da tradicional loja de departamentos Macy’sestendeu o horário de funcionamento de sua loja em Nova York até meia-noite, fazendo com que, em único dia, atingisse um recorde de vendas superior a  6 mil dólares. Em 1874, a Macy’s inovou ao apresentar na vitrine uma promoção de bonecas importadas no valor de 10 mil dólares, exclusiva para a compra de presentes natalinos, e ao oferecer bônus de Natal a seus funcionários.
O significado social da popularização das lojas de departamentos nos EUA e, mais tarde, na Europa no final do século XIX e início do século XX ultrapassa a mera ascensão do consumo e do “materialismo”. Era algo inédito que consumidores pudessem entrar gratuitamente em uma grande loja, e a disposição acessível das mercadorias estimulava as compras, mesmo para quem não tivesse condições de comprar. Em outras palavras, as lojas de departamento democratizaram o desejo.
Além disso, foi nessa época que a loja de departamentos Montgomery Ward, em Chicago, criou no imaginário popular outro personagem símbolo do Natal: Rudolph, a rena do nariz vermelho. Em 1939, mais de dois milhões de cópias da história de Rudolph foram enviadas junto com os catálogos da Montgomery Ward. Uma década depois, a canção homônima cantada por Gene Autry, baseada no personagem da rede de lojas, tornou-se um grande sucesso e continua sendo uma das canções de Natal mais populares da temporada natalina nos EUA, evidenciando a inter-relação entre publicidade e cultura popular. Todavia, nenhum símbolo expõe de forma mais explícita a relação entre a temporada natalina e predominância do jogo das relações mercantis do que a figura do Papai Noel.

Papai Noel, a divindade do “materialismo”

Com seu saco de presentes e dotado de toda sorte de poderes mágicos – onisciência, voo, viagem no tempo e mudança de forma –, o personagem do “bom velhinho” foi central na transformação do Natal em um festival global. Sua principal característica como provedor de bens de consumo fez com que alçasse o status de símbolo da abundância material e do prazer hedonista e, por consequência, de “divindade do materialismo”, como diria Daniel Miller. Ele – e não Jesus Cristo – passa a ser a figura central de organização do evento, e o nascimento a ser comemorado não era mais o do aniversariante da data segundo a tradição cristão, mas o de um novo nicho de mercado.
Figura sagrada feita sob medida para um mundo secular, o Papai Noel moderno é fruto da fusão sincrética de vários personagens diferentes trazidos por imigrantes europeus aos EUA. É o que aponta Claude Lévi-Strauss em seu clássico ensaio “O suplício do Papai Noel” de 1952, em que analisa um caso ocorrido no Natal anterior em Dijon, na França, quando católicos e luteranos se uniram para queimar um boneco de Papai Noel em uma fogueira em protesto pela “crescente paganização do dia de Natal” – um episódio que o jornal espanhol El País apelidou de “o último auto de fé da Europa”. Para o antropólogo francês, a variedade de nomes dados ao personagem – Papai Noel, São Nicolau ou Santa Claus – demonstra que ele é resultado de um “fenômeno de convergência e não um protótipo antigo conservado por toda parte”.
Por outro lado, o “bom velhinho” identificado fundamentalmente a partir dos EUA não se assemelha mais com os personagens europeus que o originaram, como São Nicolau (protetor dos marinheiros e comerciantes) ou Knecht Ruprecht (companheiro de São Nicolau, de acordo com o folclore alemão). Ele tem uma personalidade mais apresentável para sua aparição em lojas e residências e distribui presentes e não apenas frutas, nozes e brinquedos caseiros. Com uma aparência paterna não ameaçadora, sua imagem como conhecida hoje surgiu em janeiro de 1863 pelas mãos do cartunista político da revista Harper’s Weekly, Thomas Nast. Em um contexto de Guerra da Secessão nos EUA (1861-1865), o Papai Noel já estava localizado ideologicamente nos desenhos de Nast. Para construir parte do imaginário da União (o Norte) durante a Guerra Civil, a implicação era que as crianças sulistas se perguntariam por que o Papai Noel não as estava visitando.
Um homem estranho, gordo e de bochechas rosadas que invade as casas no meio da noite e frequentemente visita as crianças em seus quartos passou a evocar não um pesadelo, mas um sonho e desejo, e se tornou símbolo de um festival domesticado. Por ironia, a despeito de sua aparência distinta e de sua origem localizada reconhecidamente nos EUA, o Papai Noel não é facilmente identificável como uma figura tipicamente norte-americana – suas roupas, por exemplo, são vermelhas e brancas e não vermelhas e azuis, tais quais as cores da bandeira nacional. Talvez a única exceção a isso seja o primeiro desenho de Nast, de 1863 – um Papai Noel em um acampamento de tropas da União com a bandeira estrelada em seu paletó e calça listrada.
De fato, a americanidade do Papai Noel se tornou mais clara desde os primeiros antecedentes históricos da propaganda para o marketing sazonal de Natal ainda no século XIX, quando uma loja na Filadélfia utilizou o personagem para fazer propaganda de suas mercadorias aos transeuntes e recorreu à sua representação visual que se tornaria clássica no século seguinte – alegre, corpulento, com uma barba branca e vestindo roupas felpudas. Pois essa é a imagem incorporada à publicidade da Coca-Cola Company no início da década 1920, quando a marca de bebidas começou a fazer campanhas de Natal nas cores corporativas da empresa em vermelho e branco, a fim de expandir as vendas de refrigerantes no inverno. Foi a campanha da Coca-Cola que tornaria tal representação do Papai Noel consagrada no imaginário coletivo contemporâneo.
A companhia de bebidas utilizou o personagem em sua publicidade sazonal pela primeira vez em 1915 e, mais tarde, quando desenvolveu propagandas de sua água mineral White Rock especialmente para a revista Life entre dezembro de 1923 a 1925. Os anúncios mostravam um Papai Noel em trajes e cenários familiares: roupas de pele vermelhas e brancas, sentado ao lado de uma geladeira, em ambientes domésticos de Natal confortáveis ​​e acolhedores (em geral, em contraste com uma cena de inverno do lado de fora, visível através de uma janela). Em meio à década da Proibição pela Lei Seca (1920-1933), os anúncios popularizaram a White Rock a ponto de seu nome ter virado sinônimo de água com gás e, mais tarde, um código secreto para pedir bebidas alcoólicas misturadas nos bares norte-americanos.
Foi a partir de 1931 que a figura visual do Papai Noel ganharia extrema popularidade com os traços do ilustrador Haddon Sundblom e demarcaria definitivamente a conexão no seio da sociedade norte-americana entre a publicidade natalina e o comércio. Os desenhos coloridos do personagem por Sundblom – impressos não só em revistas, mas também em cartões natalinos – ocupam até hoje um lugar central no imaginário público sobre o que representa o Natal.
Do ponto de vista mercadológico, a sazonalidade das vendas é um ponto nevrálgico para produtos refrigerados, já que há pico de vendas no clima quente (verão) e queda no frio (dezembro é inverno nos EUA). Assim a Coca-Cola soube articular sua estratégia de marketing sazonal de aumento de gastos dos consumidores com a compra de presentes e, para tal, optou por associar sua imagem ao consumismo crescente da época festiva. Por isso, sua campanha inicial foi “Sede não conhece estação”. Inicialmente, os anunciantes apresentaram Papai Noel relaxando de seus trabalhos bebendo o refrigerante; depois, mostraram como as crianças poderiam deixar não mais leite, mas uma Coca-Cola, para o “bom velhinho”; por fim, sugeriram que os presentes entregues pelo Papai Noel eram em troca do próprio refrigerante. Todo esse conjunto de códigos compunham a identidade de uma marca poderosa com reconhecimento transnacional.

A “Coca-Colonização” do mundo




No anúncio de Natal da Coca-Cola de 1943, Papai Noel é mostrado caminhando alegremente pela neve virgem com um pesado saco de presentes sobre um ombro e uma garrafa de Coca-Cola na outra mão. Suas botas cobertas de neve, indicando a longa jornada que peregrina, e o slogan “’Onde quer que eu vá” são a metáfora perfeita da ambiciosa expansão global do plano de negócios da empresa. Por trás dela, na direção em que ele está caminhando, também flutua um globo terrestre, enrolado com uma fita e um rótulo de presente de Natal. No globo, podem ser facilmente identificadas as Américas, a África e a Europa, enquanto o logotipo “Coca-Cola” cobre o território dos EUA no mapa.
Na mesma época, os soldados norte-americanos no front na Europa bebiam garrafas de Coca-Cola fornecidas pelo próprio governo dos EUA como parte dos esforços de guerra. O slogan publicitário de 1945 era: “Sempre que você ouve ‘Coca-Cola’, ouve a voz da América”. Cinco anos depois, as fábricas da companhia já estavam estabelecidas em diversos países da Europa Ocidental, e a capa da revista Time mostrava o mundo bebendo uma garrafa de Coca-Cola. O refrigerante estava rapidamente se tornando a bebida do planeta.
Na Europa do pós-Guerra, a chegada da Coca-Cola provocou oposição em vários países. Em muitos casos, os interesses locais de bebidas tentaram bloquear a entrada do refrigerante americano, como na Bélgica e na Suíça, onde a companhia enfrentou ações judiciais sob a alegação de que continha uma quantidade perigosa de cafeína. Na Dinamarca, as cervejarias conseguiram banir a bebida temporariamente. Na maioria dos casos, os partidos comunistas locais lideraram essa oposição, descrevendo a bebida como uma droga viciante ou mesmo um veneno. Na Itália, o L’Unità, jornal do Partido Comunista, alertou os pais de que a Coca-Cola poderia deixar os cabelos das crianças brancos. Já os comunistas austríacos afirmaram que a nova fábrica de garrafas em Lambach poderia ser facilmente transformada em uma fábrica de bombas atômicas. Porém, todos esses distúrbios pareceram triviais se comparados com o tamanho da controvérsia de quando a Coca-Cola chegou à França.
No país, as primeiras garrafas de Coca-Cola foram vendidas aos militares americanos em 1919, após a Primeira Guerra Mundial, porém, com exceção de alguns cafés famosos que atendiam a turistas americanos, os estabelecimentos franceses raramente serviam a bebida durante os anos 1920 e 1930. Após a Segunda Guerra, a Coca-Cola Export Corporation orquestrou um plano de marketing voltado ao país, com a construção de uma nova fábrica em Marselha. As concessionárias deveriam empregar técnicas americanas de vendas e distribuição, incluindo novos caminhões brilhantes pintados nas cores da empresa, degustação gratuita e recomendações por parte de esportistas e artistas de cinema.
Prontamente, iniciou-se uma fortíssima oposição à penetração da empresa de bebidas na sociedade francesa. A Coca-Cola enfrentou sérios problemas políticos e levantou preocupações generalizadas sobre a “americanização da França”. A expressão “Coca-Colonização” ganhou as páginas da mídia imprensa comercial e de esquerda e, entre 1949 e 1953, travou-se uma batalha que ia desde os círculos comunistas até o governo da IV República francesa, passando por industriais e viticultores – todos discutindo sobre cultura e identidade nacionais da França em meio à implantação do Plano Marshall. O jornal comunista L’Humanité se perguntava: “Seremos coca-coca-colonisés?”. O Partido Comunista Francês alertava que a companhia norte-americana diminuiria ainda mais as vendas de vinho e que as reduções tarifárias exigidas pela Coca-Cola piorariam o déficit comercial do país, além de noticiar o boato de que o sistema de distribuição da empresa serviria de fachada para a rede de espionagem dos EUA.
Nesse cenário típico de Guerra Fria, o antiamericanismo liderado pelos comunistas atacou a geladeira como um sintoma do consumo excessivo dos norte-americanos. Para os militantes do Partido Comunista Francês, a Frigidaire, subsidiária norte-americana da marca de eletrodomésticos Electrolux, produzira equipamentos inúteis para a maior parte do ano, exceto por fazer cubos de gelo para coquetéis de uísque. Isso porque, na França, fazia frio o suficiente para pendurar na janela as sobras de cordeiro, e elas se manteriam conservadas de domingo até quarta-feira.
Paralelamente, a geladeira era um item essencial da vida cotidiana norte-americana mesmo durante o inverno. Portanto, o eletrodoméstico era símbolo da esfera doméstica das casas nos EUA, justamente o espaço familiar que servia de ambiente para os anúncios natalinos do Papai Noel da Coca-Cola – retratados com uma lareira crepitante, uma árvore de Natal decorada e uma geladeira contendo garrafas de refrigerante.
á sacralizado como ícone central das publicidades da Coca-Cola, fica difícil não pensar o Papai Noel, portanto, como um emblema global do modelo de consumo constituinte do American way of life. A diáspora do Papai Noel não é diferente da diáspora da Coca-Cola como uma alegoria da modernidade americana. Nesse sentido, as formas de consumo nos EUA inscreviam em si próprias variadas expressões de poder, prazer e medo. Consistiriam elas uma forma de imperialismo cultural por parte dos EUA? Afinal, o conceito de imperialismo cultural norte-americano diz respeito à própria agressividade com a qual Washington tenta exportar seus bens culturais e ideologias dominantes a outras nações. Essa modalidade de imperialismo não significa controle colonial aberto, mas dependências econômicas e dominação ideológica por influência cultural. A exportação da cultura popular norte-americana é criticada nos países que a recebem por conta de seus supostos efeitos homogeneizadores, que eliminariam peculiaridades locais.
No movimento de americanização, a penetração global das empresas norte-americanas anda de mãos dadas com uma disseminação cultural e ideológica quase unilateral. O marketing da mídia norte-americana, incluindo o cinema hollywoodiano e sua música popular, se integra à presença política, econômica e militar dos EUA em todos os continentes, propagando os costumes e valores norte-americanos, bem como o próprio idioma inglês em todo o mundo. Segundo o professor George Mckay, nesse jogo, a novidade se sobrepõe à tradição e a nostalgia à história, e a mídia de massa e a mercantilização desenfreada nos negam agência em nossas próprias escolhas culturais.
É justamente a esse processo que diferentes sociólogos deram o nome de Disneyzação (Alan Bryman), McDonaldização (George Ritzer) e Walmartização (Neil Wrigley), assim como, é claro, a Coca-Colonização. Todos eles defendem que, nas sociedades contemporâneas, elementos culturais – roupas, música, TV, alimentação, convenções linguísticas e modelos de negócios – aparentemente estão se tornando cada vez mais padronizados. A Coca-Colonização sustenta a perspectiva da homogeneização do mundo, fruto do triunfo do imperialismo cultural sobre as culturas locais rumo a um modelo de consumo mundialmente americanizado.
Cruzando fronteiras com facilidade, os prazeres da América são experimentados pelo mundo inteiro pelo consumo conspícuo de produtos de marcas dos EUA, como os cigarros Marlboro, os tênis Nike, as barras de chocolate Hershey, os jeans Levi e os chicletes Wrigley – comprados pelo simples fato de serem norte-americanos. O regozijo pelo livre acesso a essas marcas – profissionais em apelar e manipular cada vez mais às emoções de seus potenciais consumidores – é acompanhado do consumo cultural do rock ‘n’ roll, jazz, rap, NFL, NBA, HQs, pop artfast food e LSD, envolvendo os jovens estrangeiros no hedonismo e provocando pânicos morais regulares entre diferentes gerações em torno da última moda pop.
No caso do Velho Mundo, hierarquias culturais e consensos intergeracionais foram bruscamente rompidos no decorrer do século XX. As reações populares ao poder mercadológico desses cânones do capitalismo norte-americano contribuíram para uma corrente de desconfiança dos EUA e de seus prazeres culturais pop entre os mais significativos setores das sociedades europeias. Essa desconfiança atravessa todo o espectro político e ganhou dimensões perigosas durante a Guerra Fria. O medo francês da dominação norte-americana em seu território tem um sentido não só cultural, mas também político e econômico.
Em um cenário em que a Coca-Cola e a iconografia do feriado natalino se desenvolveram quase como irmãos gêmeos nos EUA, a reação à livre invasão cultural das mercadorias e da simbologia norte-americana do Natal mistura crítica políticas e estritamente estéticas. Na Europa, são recorrentes narrativas contrárias à invasão de um Natal americanizado, que exporta consigo árvores de plástico, neve enlatada, Papai Noel de poliéster e canções natalinas gravadas como músicas de elevador. Durante novembro e dezembro de 1991, no Canadá, as pinturas do Papai Noel de Sundblom para as propagandas da Coca-Cola foram exibidas em exposição no Museu Real de Ontário, em Toronto, e rapidamente sofreram um rechaço coletivo de críticos de arte, que repudiaram a “associação do museu com junk food” e a vinculação do “nascimento de Cristo com o Papai Noel, com o consumo”.

Natal, consumismo e americanização?

Porém, afinal de contas, se o Natal se tornou temporada de consumo dentro da lógica do capitalismo norte-americano, o sentido tradicional do feriado religioso teria sido completamente corrompido? O Natal contemporâneo, moldado nas formas do American way of life, seria uma mera “profanação” descaracterizada pelo consumismo, perdendo seu valor originalmente sagrado? Para o sociólogo Michael Schudson, da Universidade de Columbia, a prevalência do costume de dar presentes sugere que as pessoas frequentemente compram coisas não porque são materialistas, mas porque são seres sociais. Portanto, em geral, elas não estariam substituindo os valores familiares tradicionais pelo consumo material, mas sim consumindo com o objetivo de preservar os próprios laços afetivos.
Por outro lado, toda a esfera pública vem sendo progressivamente penetrada e dominada por interesses corporativos. Isso significa que as atividades socioculturais se tornaram objetos de importância comercial e levam ao surgimento de “sociedades de outdoors, em que cada pessoa, instituição ou evento pode se transformar em um portador potencial de mensagens comerciais.
Nessa conjuntura, um arquétipo de Natal foi impulsionado ao máximo com a internacionalização das grandes marcas dos EUA, com a Coca-Cola à frente desse processo incontrolável que a jornalista e ativista canadense Naomi Klein apelidou criticamente de “promessa equalizadora de um globo conectado por logotipos”. Em meio à profusão de comerciais de grandes marcas mostrando locais estranhamente remotos, a representação dominante é de que as fronteiras geográficas e culturais são transcendidas pelas formas de mercadorias.
Além disso, tal “cultura do consumo” comumente é acusada de ofuscar valores imateriais, como a própria religião. De fato, o capitalismo contemporâneo é caracterizado por processos de mercantilização e secularização, transformando todas as práticas culturais daqueles que entram em sua órbita. Ao mesmo tempo, o simbolismo e as práticas rituais que incorporam distinções sagradas e profanas continuam a existir nos processos sociais seculares, e com o “festival global” do Natal não é diferente.
Nesse sentido, a história da própria Coca-Cola e de seu consumo no Natal por meio da figura-chave do Papai Noel em seus anúncios desde os anos 1930 deixa clara a relação entre o “materialismo” e o feriado natalino como parte de uma americanização da cultura popular a nível mundial. Por mais que lutas ideológicas tenham sido travadas no século XX contra a tomada do feriado religioso pelo consumismo ininterrupto, trata-se de um processo integrado a uma conjuntura muito maior de transnacionalização do capital e de hegemonia política e cultural dos EUA no mundo.
Fonte:

18 de dezembro de 2018

É Natal, de mãos dadas seguiremos construindo a Paz

J. Ricardo A. de Oliveira



Neste momento em que sento para escrever esta mensagem de Natal para meus amigos uma música surge clara e me faz pensar.
“Este ano quero paz no meu coração
Quem quiser ter um amigo que me dê a mão...”

Quem será que me estederá a sua mão, exatamente neste momento em que precisaremos estar de mãos dadas, e não largar a mão de ninguém?

 Tenho consciência de que foi um ano muito difícil, um ano em que as esperanças foram brutalmente ameaçadas. Um ano de muitas apreensões e pesadelos. Mas continuamos firmes e com o propósito, de como fez Maria, sermos propiciadores do nascimento do menino Luz.
Sim Luz!
Precisaremos muito de Luz para guiar nossos passos. Vivemos tempos de que não podemos mais nos perder nas aparências, nas formalidades de um cristianismo pouco comprometido como o jovem Galileu. Não é possível mais nos deixar levar por sofismas e subterfúgios que só nos distanciam da verdadeira mensagem expressa no evangelho. Não é possível mais continuar anunciando um Jesus omisso com relação às necessidades de seus pequeninos, como se ele não tivesse destruído literamente o absurdo dos vendilhões do templo. Ou não tivesse chamado os poderosos da época, de raça de víboras e de fariseus hipócritas. Não, esse Jesus de cabeleira loura escovada em salão de beleza, de olhos azuis e pele alva não condiz com o palestino que disse não ter onde repusar sua cabeça. Um jovem rebelde que por ousar pregar o amor e denunciar as injustiças, acabou pendurado numa cruz, para vergonha de uma humanidade que não conseguiu, e até hoje tem dificuldades de aceitar que Deus possa ter querido se fazer humano.


A cena da manjedoura revela um Deus encarnado na humanidade, mas não podemos ser hipócritas ao contemplar o presépio e fingir que não estamos vendo um casal que não encontrou pousada em nenhum lugar e foi se refugiar em um estábulo, junto com animais. Um casal que precisou usar um cocho de animais, como berço para Deus. Nosso romantismo parece eclipsar a realidade dura de um casal pobre de forasteiros, uma mulher grávida e que por ter estado grávida antes de casar, pode ter sido mal falada, mal vista e mal dita.
Sim, este é o Jesus real da cristandade, o mesmo que nasce nas muitas favelas do mundo, que chora de fome, que de outra forma é rejeitado por Marias de classe media e de classe  mais abastada, grávidas antes de casar e que são também rejeitadas pela hipocrisia da sociedade.
É este o menino da manjedoura, que ao crescer nos indicou o caminho aos que quisessem o seguir, no trecho das Bem Aventuranças (Mt 5), e  que nos advertiu com os “ Ai de vós” ( Mt 23, 23-39).

Impossível dizer Feliz Natal sem estar comprometido com a construção do Reino e com  o critério que ele disse que usará para nos julgar ( Mt25, 31-ss).
Para que o Natal seja de Paz, será preciso que seja restabelecida a justiça, a compaixão, a caridade, todas estas resumidas naquilo que ele nos deixou como lei: Amar como ele amou.
Se for assim, desta maneira, se comungamos deste mesmo propósito, aceito  o seu abraço amigo, a sua mão estendida e prometo fazer de tudo para não soltá-la. Juntos, estaremos construindo um Natal Feliz.
“O tempo passa e com ele caminhamos todos juntos, sem parar,
Como todo dia nasce, novo em cada amanhecer.”

22 de dezembro de 2016

Quando a luz maior vem iluminar os mais humildes e necssitados

J, Ricardo A Oliveira


“ O povo que andava em trevas viu uma grande luz, e aos que habitavam na região da sombra da morte, resplandeceu-lhes a luz.” Is 9.2



"Jesus não só não vem de Roma, capital do império, nem de Jerusalém, capital dos judeus, mas vem de Belém, uma aldeia periférica na Judeia. E mais. Se Belém já é uma aldeia periférica, Jesus nasce ainda mais na periferia, nasce numa estrebaria, num estábulo nos arredores de Belém. Ali, seu primeiro berço foi uma manjedoura, um cocho onde os animais comem seu alimento. Também não é por acaso que o primeiro berço de Jesus é uma vasilha em que se coloca a comida, o pão cotidiano dos animais. Segundo o relato, os pais de Jesus eram forasteiros no lugar e não tinham onde pernoitar. É a partir dessa realidade extrema de marginalidade e de fragilidade, de abandono e de solidão de uma mãe dando à luz a sua criança, que vem a força do Deus libertador que quer incluir todas as pessoas de boa vontade em seu Reinado de justiça e de paz."
(Ildo BohnGass).



Só não entendo, como uma realidade tão simples e clara foi dar lugar a algo tão díspar: um império, luxo, pompa,  realeza, autoritarismo, tão distantes daquilo que Deus se dispôs a realizar. 

25 de dezembro de 2014

Os relatos da infância de Jesus: Teologia ou história?


Leonardo Boff

Quanto mais se medita sobre Jesus mais se descobre o mistério que sua vida humilde escondia e mais se remonta para as origens. Por volta dos anos 75-85, quando S. Lucas e S. Mateus redigiram seus evangelhos, se recolheram as reflexões que se haviam feito nas várias comunidades. Para todos era claro que Jesus fora constituído por Deus como Messias, Salvador, Filho de Deus e Deus mesmo em forma humana. A partir desta fé se interpretaram os fatos relativos ao nascimento e à infância de Jesus. Atrás desses relatos se esconde trabalho teológico muito profundo e intenso num esforço de decifrar o mistério de Jesus e anunciá-lo para os fiéis dos anos 75-85 dC. As cenas familiares do Natal, descritas por S. Lucas e por S. Mateus, querem antes ser proclamações da fé acerca de Jesus Salvador do que relatos neutros acerca de sua história.
O processo cristológico, como o temos desenvolvido no capítulo precedente, nos fez compreender como surgiram os títulos e os nomes atribuídos a Jesus. Atrás de cada título, seja Cristo, Filho do Homem, Filho de Deus, etc., esconde-se uma longa reflexão teológica. Essa reflexão pode chegar até à sofisticação da teologia rabínica mais refinada. É o que veremos nos relatos da infância de Jesus. No sentir comum dos cristãos os relatos do nascimento de Jesus e a celebração do Natal constituem uma festa para o coração. A fé se toma sentimento. Com isso ela atinge o que há de mais profundo e íntimo na personalidade humana: faz vibrar, alegrar e saborear a vida como sentido. No presépio, diante da manjedoura com o Menino entre o asno e o boi, a virgem e o bom José, os pastores e as ovelhas, a estrela, as artes e as profissões, a natureza, as montanhas, as águas, o universo das coisas e dos homens se congraçam e reconciliam diante do Menino. No dia de Natal todos nos tornamos meninos e deixamos que, uma vez pelo menos, o pequeno príncipe que mora em cada um de nós fale a linguagem inocente das crianças que se extasiam diante do pinheirinho, das velas acesas e das bolas cristalinas. O homem mergulha no mundo da infância, do mito, do símbolo e da poesia que é a própria vida, mas que os interesses, os negócios, a preocupação pela sobre-vivência abafam, impedindo a vivência da eterna criança adulta que cada qual ainda é. Tudo isso são valores que devem ser defendidos e alimentados. Contudo para se manterem como valores cristãos devem estar em conexão com a fé. Sem isso o sentimento e a atmosfera do Natal se transformam em sentimentalismo, explorado pela máquina comercial da produção e do consumo. A fé se relaciona com a história e com Deus que se revela dentro da história. Então: o que se deu de fato no Natal? Será mesmo que apareceram anjos nos campos de Belém? Vieram de fato reis do Oriente? É curioso imaginar uma estrela errando por aí, primeiro até Jerusalém e depois até Belém onde estava o Menino. Por que não se dirigiu diretamente a Belém, mas primeiro resplendeu sobre Jerusalém, estarreceu toda a cidade e o Rei Herodes, aponto de este ter decretado a morte das crianças inocentes? Em que medida nisso tudo vai conto ou realidade? Qual é a mensagem que Lucas e Mateus intencionaram com a história da infância de Jesus? O interesse deles é histórico ou, quem sabe, através da amplificação edificante e embelezadora de um dito da Escritura ou de um acontecimento real, comunicar uma verdade mais profunda acerca do Menino que mais tarde pela Ressurreição iria manifestar-se como o Libertador da condição humana e a grande esperança de vida humana e eterna para todos os homens?
Para os olhos de um conhecedor dos procedimentos literários usados nas Escrituras e para o historiador do tempo de Jesus os relatos do Natal não são sem problemas. Atrás da simplicidade cândida e do lirismo de algumas cenas esconde-se uma teologia sofisticada e pensada até nas suas mínimas minúcias. Esses textos não são os mais antigos dos evangelhos. São os mais recentes e elaborados quando já havia toda uma reflexão teológica sobre Jesus e o significado de sua morte e ressurreição, quando já estavam ordenados por escrito os relatos de sua paixão, as parábolas, os milagres e os principais ditos de Jesus, quando já se tinham criado os principais títulos, como Filho de Davi, Messias, Cristo, novo Moisés, Filho de Deus, etc., pelos quais se tentava decifrar o mistério da humanidade de Jesus. No fim de tudo apareceu o começo: a infância de Jesus pensada e escrita à luz da teologia e da fé que se criara ao redor de sua vida, morte e ressurreição. É exatamente aqui que se situa o lugar de compreensão dos relatos de sua infância, como vêm narrados por Mateus e por Lucas.

1.     A fé que procura compreender

A fé não exime nem dispensa a razão. Ela, para ser verdadeira, deve procurar compreender, não para abolir o mistério, mas vislumbrar-lhe as reais dimensões e cantar, maravilhada, a graciosa lógica de Deus. A fé professava que Jesus é o Salvador, o Messias, o Sentido de tudo (Logos), o profeta anunciado outrora (Dt 18,15-22), o novo Moisés que libertaria os homens num êxodo definitivo de todas as ambigüidades da condição humana. Eis, porém que uma pergunta preocupou bem cedo os apóstolos: em que ponto de sua vida Deus instituiu Jesus como Salvador, Messias e Filho de Deus?
A pregação mais antiga responde: na morte e na ressurreição (cf. 1Cor 15,3-8; At 10,34-43). São Marcos, que escreveu seu evangelho por volta de 67-69, afirma: com o batismo de João, Jesus foi ungido pelo Espírito Santo e proclamado Messias e Libertador. Realmente o evangelho de S. Marcos não conhece nenhum relato da infância de Cristo e inicia com a pregação preparadora de João Batista e com o batismo de Jesus. Mateus, que elaborou seu evangelho por volta de 80-85 dC, responde: Jesus é desde o seu nascimento o Messias esperado; mais ainda: toda a história da salvação desde Abraão caminhou para ele (cf. a genealogia de Cristo: Mt 1;1-17). Lucas, que escreveu seu evangelho pela mesma época, dá um passo adiante e diz: desde o Natal na gruta de Belém Jesus é o Messias e o Filho de Deus. Porém não só a história santa de Israel desde Abraão marchou até que Ele nascesse na gruta, mas toda a história humana desde Adão (Lc 3,38). Por fim vem S. João por volta do ano 100, herdando uma longa e profunda meditação sobre quem era Jesus, e responde: Jesus era o Filho de Deus já antes de ter nascido, em sua preexistência junto a Deus, muito antes da criação do mundo porque "no princípio era a Palavra. E a Palavra se fez condição humana e armou tenda entre nós" (Jo 1, 1.14). Como transparece, quanto mais se medita sobre Jesus mais se descobre seu mistério e mais se remonta para as origens. Todo esse processo é fruto do amor. Quando se ama uma pessoa, procura-se saber tudo dela: sua vida, seus interesses, sua infância, sua família, seus antepassados, de que país vieram, etc. O amor vê mais longe e profundamente que o frio raciocínio. A ressurreição revelou as verdadeiras dimensões da figura de Jesus: ele interessa não só aos judeus (Abraão), nem só aos homens todos (Adão), mas até ao cosmos porque "sem ele nada se fez de tudo o que foi criado" (Jo 1 ,3). A partir da luz ganha com o clarão da ressurreição, os apóstolos começam a reler toda a vida de Cristo, reinterpretar suas palavras, recontar seus milagres, e a descobrir em alguns fatos, em si simples, de seu nascimento a presença latente do Messias e Salvador, revelado patentemente, porém, só depois com a ressurreição. Nessa mesma luz foram ganhando nova luz muitas passagens do Antigo Testamento tidas como proféticas, agora ampliadas e explicadas em função da fé em Jesus, Filho de Deus. Por isso, o sentido teológico dos relatos da infância não reside tanto em narrar fatos do nascimento de Jesus, mas através da roupagem de narrações plásticas e teológicas em anunciar para os ouvintes dos anos 80-90 dC quem é e o que é para a comunidade dos fiéis Jesus de Nazaré. Portanto deve-se buscar menos história do que mensagem da fé. Entre os fatos históricos contidos nos relatos de Natal a exegese crítica católica enumera os seguintes: 1. Noivado de Maria com José (Mt 1,18; Lc 1,27; 2,5) ; 2. A descendência davídica de Jesus (Mt 1,1; Lc 1,32) através da descendência de José (Mt 1,16.20; Lc 1,27; 2,4); 3. O nome Jesus Mt 1,21; Lc 1,31) ; 4. O nascimento de Jesus da Virgem Maria (Mt 1,21.23.25; Lc 1,31; 2,6-7) ; 5. Nazaré como residência de Jesus (Mt 2,23; Lc 2,39). Abaixo veremos como Mateus e Lucas trabalharam literária e teologicamente esses dados para com eles e através deles anunciarem, cada qual a seu modo, uma mensagem de salvação e de alegria para os homens: que nesse menino "envolto em faixas e deitado na manjedoura por não haver lugar na estalagem" (Lc 2,7) se escondia o sentido secreto da história desde a criação do primeiro ser e que nele se realizaram todas as profecias e as esperanças humanas de libertação, e total plenitude em Deus.

2.     Mateus e Lucas: Jesus é o ponto Ômega da história, o Messias, filho de Davi esperado, o filho de Deus

A ressurreição mostrou que, com Cristo, a história chegou ao seu ponto Ômega porque a morte foi vencida e o homem totalmente realizado e inserido dentro da esfera divina. Por isso ele é o Messias e, se Messias, então da família real de Davi. Pelas genealogias de Jesus tanto Mateus (1,1-17) quanto Lucas (3,23-38) querem trazer a prova de que Jesus e nenhum outro realmente emergiu quando a história chegou ao seu ponto Z; que ele ocupa aquele exato lugar na genealogia davídica que corresponde ao Messias e que ele se insere nesta genealogia de tal forma que se cumpra a profecia de Isaías (7,14) - de ser filho de uma virgem -, recebendo o nome, e com isso seu inserimento na genealogia, de seu pai adotivo José. Segundo o livro 4 Esdras 14,11-12 esperava-se o Messias, Salvador de todos os homens desde Adão, no final da 11.ª semana do mundo. Onze semanas do mundo resultam 77 dias do mundo. São Lucas constrói a genealogia de Jesus desde Adão mostrando que ele surgiu na história quando se completaram os 77 dias do mundo, cada dia com um ancestral de Jesus. Por isso a genealogia de Jesus de Adão até José perfaz 77 antepassados. A história chegou ao seu ponto Ômega quando Jesus nasceu em Belém. Que essa genealogia é artificialmente construída se percebe comparando-a com a de Mateus. Ademais há longos espaços vazios entre uma geração e outra.
Mateus utiliza um procedimento semelhante para provar que Jesus é filho de Davi e assim o Messias esperado. Substituindo-se as consoantes do nome DaViD (as vogais não contam em hebraico) por seus respectivos números resulta o número 14 (D = 4, V= 6, D = 4: 14). Mateus constrói a genealogia de Jesus de tal forma que resultam, como ele mesmo o diz expressamente (1,17), 3 vezes 14 gerações. O número 14 é o duplo de 7, número que para a Bíblia simboliza a plenitude do plano de Deus ou a totalidade da história. As 14 gerações de Abraão até Davi mostram o primeiro ponto alto da história judaica; as 14 gerações de Davi até a deportação para a Babilônia revelam o ponto mais baixo da história santa; e as 14 gerações do cativeiro babilônico até Cristo patenteiam o definitivo ponto alto da história da salvação que jamais conhecerá ocaso porque aí surgiu o Messias. À diferença de Lucas, Mateus insere ainda na genealogia de Jesus 4 mulheres, todas elas mal afamadas: duas prostitutas, Tamar (Gn 38,1-30) e Raab (Js 2; 6,17.22s) , uma adúltera, Betsabéia, mulher de Urias (2Sm 11,3; 1Cr 3,5) e uma moabita pagã, Rute (Rt 4,12s). Com isso Mateus quer insinuar que Cristo assumiu os pontos altos e baixos da história e tomou também sobre si as ignomínias humanas. Cristo é o último membro da genealogia, exatamente aquele ponto aonde a história chega ao seu ponto Z, completando 3 vezes quatorze gerações. Portanto só ele pode ser o Messias prometido e esperado.

3.     José e a concepção da virgem em Mateus: um rodapé à genealogia

Em sua genealogia de Jesus, Mateus quer provar que Cristo realmente descende de Davi. Na realidade não o consegue provar, porque no passo decisivo em vez de dizer: Jacó gerou José, José gerou Jesus, interrompe e afirma: Jacó gerou José, esposo de Maria, da qual nasceu Jesus, chamado o Cristo (1,16). A mulher na jurisprudência judaica não conta na determinação genealógica. Logo, Cristo através de Maria não pode se inserir na casa de Davi. Contudo para Mateus é claro que Jesus é filho da Virgem Maria e do Espírito Santo (1,18). Aqui, pois surgiu um problema: como inserir Jesus através da árvore genealógica masculina dentro da genealogia davídica se ele não tem pai humano? Para resolver tal problema faz como que um rodapé ou uma glosa (explicação de uma dificuldade) e narra a concepção e a origem de Jesus (1,18-25). A intenção não é narrar a concepção virginal de Jesus, nem descrever, como o faz Lucas, o nascimento de Jesus. O centro do relato está em S. José que, sabendo do estado de Maria, quer abandoná-la de noite. O sentido do relato de Mt 1,18-25 é resolver o problema levantado: o esclarecimento vem no versículo 25: José coloca no menino o nome de Jesus. José, descendente de Davi, legalmente esposo de Maria, dando o nome a Jesus, torna-se juridicamente seu pai e com isso o insere em sua genealogia davídica. Assim Jesus é filho de Davi através de José e também o Messias. Desta forma realiza-se também a profecia de Isaías que o Messias nasceria de uma virgem (Is 7,14) e o plano de Deus se realiza plenamente.

4.     Quis S. Lucas contar a concepção virginal de Jesus?

A anunciação e o nascimento de Cristo são relatados pelo evangelista S. Lucas. S. Lucas é considerado na tradição como o evangelista pintor. Realmente nos capítulos 1-2 ele pinta um dípticon. Dípticon era para o mundo medieval (como podem ser vistos em igrejas antigas também no Brasil) um altar com duas semijanelas ou alas nas quais havia pinturas que se correspondiam. Assim Lucas 1-2 pinta a infância de João Batista num paralelo perfeito com a infância de Jesus. De modo semelhante fará depois Mateus, traçando um paralelo entre Moisés e Jesus. Contudo, em cada ponto paralelo, Lucas mostra como Cristo é maior que João Batista. Assim há uma correspondência perfeita entre o anúncio do nascimento de João Batista através do anjo Gabriel (Lc 1,5-25) e o anúncio do nascimento de Jesus (1,26-56); em ambos os casos ao nascer, ao se circuncidar a criança e ao se dar o nome verificam-se sinais miraculosos (1,57-66; 2,1-21); anuncia-se em ambos os casos o significado salvífico de João e de Jesus nas profecias de Zacarias (João), respectivamente de Simeão e da profetisa Ana (Jesus) (1,67-80; 2,22-40). Em ambos os casos faz-se também uma referência ao crescimento dos dois meninos João e Jesus. Em todas as cenas releva-se que o ciclo de Jesus supera sempre o ciclo de João: na anunciação da concepção de João o anjo Gabriel não faz nenhuma saudação (Lc 1,11), ao passo que com Maria ele a saúda gentilmente (1,28). A Zacarias o anjo diz: Tua oração foi ouvida (1,13), ao passo que a Maria observa reverente: Tu achaste graça aos olhos do Senhor (1,31). Na cena da visitação de Maria a Isabel a saudação de Maria faz a criança estremecer no seio materno de Isabel, agora repleta do Espírito Santo.
Jesus, ao contrário, desde o início é o portador do Espírito porque tem sua origem dele e da Virgem. João Batista surge no deserto (1,80), Cristo, porém no templo (2,41-52).Tais procedimentos literários para ressaltar a função salvífica de Cristo são utilizados de forma ainda mais refinada ao narrar o anúncio da concepção de Cristo (1,26-38) que se deu no sexto mês da concepção de João Batista. Ora, seis meses de 30 dias resultam 180 dias; 9 meses da concepção de Jesus até seu nascimento dão 270 dias; do nascimento até a apresentação do menino no templo, somam 40 dias. A soma total resulta 490 dias, ou 70 semanas. O que significam para os leitores do Novo Testamento 70 semanas? Segundo Daniel (9,24) após 70 semanas-ano o Messias viria e libertaria o povo dos pecados e traria a justiça eterna. Lucas quer com esses dados insinuar que a profecia de Daniel se completou e só Jesus é o Messias esperado. As palavras da anunciação mesma, ditas pelo anjo, a reação da Virgem, a saudação de Gabriel são formuladas em estreita ligação com palavras semelhantes ou iguais proferidas em semelhantes situações no Antigo Testamento (para Lc 1,42 = Jt 13,18; para Lc 1,28.30-33 = Sf 3,14-17; para Lc 1,28 = Gn 26,3.28; 28,15; Ex 3,12; 1Sm 3,19; 1Rs 1,37, etc.). A concepção de Jesus por obra e força do Espírito Santo não quer tanto explicar o processo biológico da concepção (para Lucas é indiscutível que Jesus nasceu da Virgem como virgem), mas, antes relacionar Jesus-Salvador com outras figuras libertadoras do Antigo Testamento que, pela força do Espírito Santo, foram instituídas em sua função (1Sm 10,6s; 16,13s; Jz 3,10; 6,34; 11,29; 13,25; 1Rs 19,19; 2Rs 2,8-15, etc.). Aqui se percebe a diferença de perspectiva entre a catequese tradicional e a perspectiva de S. Lucas e S. Mateus. A catequese tradicional acentuava por excelência a virgindade de Nossa Senhora, o fato da virgindade física e perpétua de Maria, "antes, durante e após o parto". Para os relatos evangélicos a virgindade pessoal de Maria é secundária. Mais importante é a concepção virginal de Jesus. Como o exprime muito bem Dom Paulo Eduardo Andrade Ponte: "A preocupação dos evangelistas era destacar não o caráter virginal, mas o caráter sobrenatural, divino dessa concepção. Para eles a concepção de Jesus foi virginal para poder ser sobrenatural, e não sobrenatural para ser virginal. Ela foi virginal para que Deus pudesse ser a sua causa, não somente primeira, mas principal, para que Ele pudesse ser o seu autor direto... Ao ouvir certos sermões ou ao ler determinados livros de espiritualidade, tinha-se a impressão de que a concepção de Jesus foi sobrenatural e milagrosa para preservar a virgindade de sua mãe. Ela teria sido, portanto sobrenatural para ser virginal e não virginal para ser sobrenatural. E isso era inspirado por toda uma conceituação moralizante e maniqueísta da virgindade no cristianismo". Bem diversa, porém é a perspectiva dos Evangelhos; para eles Cristo está no centro e em sua função a virgindade de Maria. Por isso que o Novo Testamento prefere chamar Maria de Mãe de Jesus (Jo 2,1.3.12; 19,25-26; At 1,14) ao invés de a Virgem que ocorre apenas duas vezes nos textos neotestamentários (Lc 1,27 ; Mt 1,23 ) e ainda para relevar sua função maternal por obra do Espírito Santo. A concepção de Jesus mesma é descrita na forma como a glória de Deus é manifestada no tabernáculo da aliança (Ex 40,32 = Lc 1,35). Assim como o tabernáculo está cheio do Espírito de Deus, da mesma forma e ainda muito mais o filho de Maria, que realmente merece ser chamado Filho de Deus (Lc 1,35). Por força do Espírito surge alguém que é de tal forma penetrado por esse mesmo Espírito que somente dele ganha sua existência. Cristo é a nova criação daquele mesmo Espírito que criou o velho mundo. Esse é o sentido teológico profundo que Lucas quer transmitir com a concepção de Jesus por força do Espírito Santo; e não tanto descrever um fenômeno miraculoso de ordem biológica, embora esse esteja suposto e sirva de motivo da reflexão teológica.

5.     Onde teria nascido Jesus: Belém ou Nazaré?

Semelhante trabalho teológico como vimos até aqui se processa também ao se narrar o nascimento de Jesus em Belém. O nascimento em si é narrado sem qualquer tom romântico, mas no seu caráter rude e seco ganha grande profundidade: "Ora, quando se achavam lá (Belém), chegou o tempo em que devia dar à luz. Ela deu à luz seu filho primogênito, envolveu-o em faixas, e deitou-o numa manjedoura, por não haver lugar para eles na hospedaria" (Lc 2,6-7). Esse fato comum, que poderia ter acontecido com qualquer mãe, é relido, devido à ressurreição, dentro de um conteúdo teológico. Se ele se revelou como sendo o Messias e é filho de Davi por parte de seu pai legal José, então deve-se realizar nele também a outra profecia que diz: de Belém sairá aquele que irá governar Israel (Mq 5,1; 1Sm 16, ls), o Messias; e não de Nazaré, a pátria de Jesus, lugar tão insignificante que jamais ocorre em todo o Antigo Testamento. Lucas não visa especialmente ressaltar o lugar geográfico, mas fazer uma reflexão teológica sobre Belém e sua significação messiânica para deixar claro que Jesus é o Messias. Provável que a pátria de Jesus historicamente tenha sido Nazaré, lugar teologicamente irrelevante. Para fazer Jesus nascer em Belém, Lucas cria uma situação em que de Nazaré a Sagrada Família é levada a ir para Belém. Para atingir tal fim teológico Lucas refere que César Augusto decretara um recenseamento de toda aterra e que fora feito na Palestina quando Quirino era governador da Síria (província a que pertencia a palestina). Sabemos, contudo, que esse censo só foi feito historicamente no ano 6 dC como o próprio Lucas nos Atos lembra (At 5,37), dando origem a um grupo de guerrilheiros terroristas comandados por Judas da Galiléia, os Zelotas, que protestaram contra tal medida. Lucas utiliza tal fato histórico, reprojeta-o para trás, para por um lado motivar a viagem de Maria e José de Nazaré para Belém (e por motivos teológicos lá fazer nascer Jesus) e por outro insinuar que o evento-Jesus interessa não só a Israel, mas a todos os homens como "luz que ilumina as nações" (Lc 2,32). As referências à história profana por ocasião do nascimento de Cristo e do surgimento da pregação de João não visam tanto situar historicamente os fatos, mas antes ressaltar a estreita ligação existente entre a história sagrada com a história profana universal na qual Deus através de Jesus Cristo realiza a salvação.

6.     Quem são os pastores dos campos de Belém?

Se o relato do nascimento de Cristo por sua simplicidade pouco revela do mistério inefável que acontecia dentro da história do mundo, a narrativa dos anjos aparecendo nos campos de Belém o proclama com toda a clareza. Um anjo do Senhor (aqui são legiões) proclama, como comumente ocorre na Bíblia, o significado secreto e profundo do acontecimento: "eis que vos anuncio uma boa-nova, de grande alegria para todo o povo: hoje na cidade de Davi, nasceu-vos um salvador, que é Cristo Senhor" (Lc 2,11).Os anjos proclamam o significado daquela noite: céu e terra se reconciliam porque Deus dá paz e salvação aos homens todos. O que em Lc 2,8-20 se narra, por sua origem, não quer tradicionar um fato passado com os pastores em Belém. Os pastores são, teologicamente, os representantes dos pobres, para os quais foi anunciada a boa-nova e para os quais Jesus foi enviado (Lc 4,18). Aqui não há nenhum resquício de um romantismo pastoril. Os pastores constituíam uma classe desprezada e sua profissão tornava as pessoas impuras frente à lei. Eles pertenciam à classe daqueles que não conheciam a lei, como diziam os fariseus. Ora, Cristo - e isso Lucas deixa transparecer várias vezes em seu evangelho - foi enviado exatamente a esses associais e marginalizados religiosamente. A eles é comunicada por primeiro a mensagem alegre da libertação. Essa mensagem muito provavelmente não foi proclamada aos pastores nos campos de Belém, mas dirige-se aos ouvintes de São Lucas por volta de 80-85 dC para explicar-lhes que aquele em quem crêem é o verdadeiro libertador. Para os que têm olhos de fé, a fraqueza da criança franzina envolta em faixas esconde um mistério que, desvelado, é uma alegria para todo o povo: é Ele, o Esperado, o Senhor do cosmos e da história (Lc 2,11).
7.     S. Mateus: Jesus é o novo Moisés e o libertador

São Mateus conhece ainda quatro episódios ligados à infância de Cristo: a vinda dos reis magos seguindo uma estrela do Oriente, a fuga da Sagrada Família para o Egito, a matança dos santos inocentes decretada por Herodes e a volta da Sagrada Família do Egito para Nazaré (Mt 2).
Estamos aqui diante de fatos históricos ou antes diante de reflexão teológica no estilo dos midraxes (historização de uma passagem da Sagrada Escritura ou amplificação embelezadora de um fato para ressaltar-lhe a mensagem) para exprimir a fé acerca de Jesus? Esta última possibilidade ressalta clara dos próprios textos.

a)    Que significam os reis magos e a estrela?

Como vimos acima, para S. Mateus Cristo é o Messias que chegou na plenitude dos tempos, realizando as profecias todas ditas a respeito dele. Uma destas profecias referia-se ao fato de que no final dos tempos viriam para Jerusalém reis e nações para adorar a Deus e ao Messias e oferecer-lhe dons (Is 60,6; SI 71,10s). Por isso que Magos vão a Jerusalém (Mt 2,ls) antes de chegarem a Belém. Eles seguem uma estrela do Oriente (Mt 2,3), chamada estrela do rei de Judá. A estrela é um motivo muito conhecido no tempo do Novo Testamento. Cada qual possui sua estrela, especialmente, porém, os grandes e poderosos, como Alexandre, Mitridates, Augusto, os sábios e filósofos como Platão. O judaísmo conhece também a estrela do libertador messiânico, na profecia de Balaão (Nm 24,17). Pelo nascimento de Abraão, de Isaac, de Jacó e especialmente de Moisés, apareceu uma estrela no céu. Essa era a crença judaica ao tempo do Novo Testamento. Acresce ainda um fato histórico: desde os tempos de João Kepler os cálculos astronômicos têm mostrado que nos anos 7 aC ocorreu realmente uma grande conjunção de Júpiter e Saturno na constelação de Peixes. Esse fenômeno não deve ter passado despercebido, já que na época se cultivava muito a crença nas estrelas. Júpiter, para a astronomia helenista, era considerado o rei soberano do universo. Saturno designava o astro dos judeus. A constelação de Peixes estava relacionada com o fim do mundo. Dando-se a conjunção destes astros, os sábios do Oriente, magos que decifravam o curso das estrelas, deram naturalmente a seguinte interpretação: No país dos judeus (Saturno) nasceu um rei soberano (Júpiter) dos fins dos tempos (Peixes). Eles se põem em marcha e assim se cumprem, para Mateus, as profecias acerca do Messias Jesus Cristo. Textos do Antigo Testamento e um fenômeno astronômico teriam motivado o relato de Mateus com o fito de anunciar a fé da Igreja em Jesus como o Messias escatológico.

b)    Como o primeiro libertador (Moisés) assim também o último (Jesus)

Assim como Lucas traça um paralelo entre a infância de Jesus e a de João Batista, de forma semelhante Mateus traça um paralelo entre a infância de Jesus e a de Moisés. Era crença da época do Novo Testamento que o Messias libertador dos últimos tempos seria também o novo Moisés, fazendo sinais e milagres como Moisés. Até se dizia: "Como o primeiro libertador (Moisés) assim também o último (o Messias)". Sabemos que Mateus em seu evangelho apresenta Cristo como o novo Moisés, que à semelhança do primeiro deu também uma nova lei, na montanha: o Sermão da Montanha. O midraxe judaico de Moisés refere o seguinte -e nisso vai o paralelo quase perfeito com Jesus: O faraó é notificado do nascimento do libertador (Moisés) através de Magos; de forma semelhante Herodes sabe dos magos acerca do definitivo Libertador (Jesus).O faraó e todo o povo do Egito ficam estarrecidos: Herodes e toda Jerusalém perturbaram-se (Mt 2,3).Tanto o faraó quanto Herodes determinam a matança das crianças inocentes. Como Moisés, assim também Jesus escapa do morticínio. O pai de Moisés sabe através de um sonho que seu filho Moisés será o futuro salvador. José, de forma semelhante, sabe através de um sonho que Jesus será o salvador ("pois ele salvará seu povo dos seus pecados": Mt 2,21). O paralelismo salta aos olhos, completado ainda por um outro texto de Êxodo 4,19-23: "Após a morte do faraó disse Deus a Moisés: Volta para o Egito, pois morreram os que tramavam contra tua vida". Moisés toma sua mulher e seu filho e regressa.
Mateus 2, 2.19-21 diz a mesma coisa: após a morte do rei Deus fala através do anjo: "Levanta-te, toma o menino e sua mãe e volta para a terra de Israel, pois morreram os que haviam tramado contra a vida do Menino". José toma sua mulher e seu filho legal e retoma. O destino do novo Moisés (Jesus) repete o destino do primeiro Moisés. Como se deu com o primeiro Libertador, assim também com o último. Jesus menino é realmente o Messias-Libertador esperado e o profeta escatológico. A fuga para o Egito e o morticínio das crianças inocentes de Belém não precisam ter sido necessariamente fatos históricos. Eles servem para criar um paralelo com o destino de Moisés. As fontes da época, especialmente Flávio Josefo, que informa bastante minuciosamente de Herodes, não conhecem semelhante matança. Embora não possa ser provada historicamente (nem precisa porque no relato de Mateus ela serve como reflexão teológica) podia ter sido possível. Sabemos que Herodes era extremamente cruel: dizimou a própria família, a ponto de o historiador do século V Macróbio (Satumale 2,4.11) referir o trocadilho de César Augusto: Prefiro ser o porco (hys) de Herodes a ser seu filho (hyós).
Mateus 1-2 apresenta numa perspectiva pós-pascal, como num prólogo, os grandes temas de seu evangelho: Esse Jesus de Nazaré é o único verdadeiro Messias, filho de Abraão, descendente da casa real messiânica de Davi, o novo Moisés, que agora no ponto culminante da história e no seu final conduzirá o povo do êxodo do Egito para a pátria definitiva.

8.     Conclusão: Natal - ontem e hoje a mesma verdade

Um ou outro leitor, não informado dos elementares procedimentos exegéticos com os quais a exegese católica hoje trabalha, poderá no final deste capítulo ficar escandalizado. Tudo é conto? Os evangelistas nos enganaram?
Os relatos do Santo Natal não são contos nem fomos enganados. Nós é que erramos quando queremos abordar os evangelhos numa perspectiva não intencionada por seus autores e queremos respostas para perguntas que eles não se colocaram nem intencionaram colocar. Os evangelhos, especialmente o evangelho da infância de Jesus, não são um livreto de história. São anúncio e pregação, onde fatos reais e ditos da Sagrada Escritura ou comentários midráxicos da época foram assumidos, trabalhados e postos a serviço de uma verdade de fé que querem proclamar. Por isso o Magistério oficial da Igreja recomenda ao estudioso da Escritura que ele, "para bem entender o que Deus nos quis transmitir, deve investigar atentamente o que os autores sagrados quiseram dar a entender e aprouve a Deus manifestar por suas palavras... especialmente deve tomar em conta o gênero literário" (Dei Verbum n. 12). Na época do Novo Testamento um gênero literário muito divulgado é o midraxe hagádico que, como repetidas vezes anotamos, toma um fato ou um dito escriturístico, trabalha-o, embeleza-o com o fito de sublinhar e proclamar de forma inequívoca uma verdade de fé.
É o que aconteceu com os relatos da infância. Aí há fatos reais. Mas revestidos de forma teológica, numa linguagem que para nós hoje se tomou quase incompreensível. Mas é dentro deste gênero literário que se esconde a mensagem, que devemos desentranhar, reter e proclamar novamente, dentro de nossa linguagem atual: que esse menino frágil não era um joão-ninguém nem um ninguém-joão, mas o próprio Deus feito condição humana, que tanto amou a matéria que a assumiu, e que gostou tanto dos homens que quis fazer-se um deles, para libertar-nos, e se humanizou para divinizar-nos. Com ele o processo evolutivo psicossocial atingiu uma culminância determinante para o resto da marcha até Deus, pois nele já se deu o fim presente e a meta já alcançada dentro do tempo. Essa é a mensagem fundamental que os relatos da infância de Jesus nos querem transmitir, para que, aceitando-a, tenhamos esperança e alegria: já não estamos sós na nossa imensa solidão e busca de unidade, integração, solidariedade e reconciliação de tudo com tudo. Ele está no meio de nós, o Emanuel, o Deus-conosco: "hoje nasceu-nos um Libertador, que é Cristo Senhor" (Lc 2,11).
Quem quiser salvaguardar a todo custo a historicidade de cada cena dos relatos natalinos, acaba perdendo a mensagem intencionada por seus autores inspirados e por fim situa-se fora da atmosfera evangélica criada por São Lucas e São Mateus, onde a preocupação não é se houve ou não estrela dos reis magos, se apareceram ou não anjos em Belém, mas sim o significado religioso do Pequeno que aí está para ser recebido por nós, não numa fria manjedoura, mas no calor de nossos corações, cheios de fé.
Mas que faremos com os mitos depois de desmitologizados? Eles estão aí sendo sempre representados no presépio e vividos na memória das crianças pequenas e grandes. Perderam seu valor? Se perderam seu valor histórico-factual talvez agora começam a ganhar seu verdadeiro significado religioso-antropológico. Podemos falar dos mistérios profundos de Deus que se encarna, do mistério insondável da própria existência humana do bem e do mal, da salvação e perdição sem ter que contar estórias e usar de mitos e de símbolos? O estruturalismo o viu muito bem, mas a teologia o sabia desde sempre que o mito, o símbolo e a analogia constituem o próprio da linguagem religiosa, porque sobre as realidades profundas da vida, do bem e do mal, da alegria e da tristeza, do homem e do Absoluto só conseguimos balbuciar e usar uma linguagem figurada e representativa.
Contudo ela é mais envolvente que o conceito frio. Por ser sem limites estanques e definidos sugere muito mais o inefável e o transcendente que qualquer outra linguagem científica ou do método historicista. Por isso é bom que continuemos a falar do Menino entre o boi e o asno, dos pastores e das ovelhas, da estrela e dos magos, do rei mau e do bom José, da Virgem-mãe e das faixas que envolvem o Pequenino sobre as palhas secas. Mas devemos nos dar conta - e isso é necessário se não quisermos alimentar magicismo e sentimentalismo - que tudo isso constitui o reino do símbolo e não da realidade do fato bruto. O símbolo é humanamente mais real e significativo do que a história factual e os dados frios. O mito e o conto (bem dizia Guimarães Rosa que no conto tudo é verdadeiro e certo porque tudo é inventado) quando conscientizados e aceitos pela razão como contos e mitos não alienam, não magificam nem sentimentalizam o homem, mas, o fazem mergulhar numa realidade onde ele começa a perceber o que significa inocência, reconciliação, transparência divina e humana das coisas mais banais e o sentido desinteressado da vida, aqui no Natal encarnado na criança divina.
Que fazer dos relatos do Natal e com o presépio? Que continuem. Mas que sejam entendidos e revelem aquilo que querem e devem revelar: que a eterna juventude de Deus penetrou esse mundo para nunca mais deixá-lo, que na noite feliz de seu nascimento nasceu um sol que não conhece mais ocaso.


(De "Jesus Cristo Libertador", capítulo 8, Vozes 1986, pp. 116-128)