O absurdo e a Graça

Na vida hoje caminhamos entre uma fome que condena ao sofrimento uma enorme parcela da humanidade e uma tecnologia moderníssima que garante um padrão de conforto e bem estar nunca antes imaginado. Um bilhão de seres humanos estão abaixo da linha da pobreza, na mais absoluta miséria, passam FOME ! Com a tecnologia que foi inventada seria possível produzir alimentos e acabar com TODA a fome no mundo, não fossem os interesses de alguns grupos detentores da tecnologia e do poder. "Para mim, o absurdo e a graça não estão mais separados. Dizer que "tudo é absurdo" ou dizer que "tudo é graça " é igualmente mentir ou trapacear... "Hoje a graça e o absurdo caminham, em mim lado a lado, não mais estranhos, mas estranhamente amigos" A cada dia, nas situações que se nos apresentam podemos decidir entre perpetuar o absurdo, ou promover a Graça. (Jean Yves Leloup) * O Blog tem o mesmo nome do livro autobiográfico de Jean Yves Leloup, e é uma forma de homenagear a quem muito tem me ensinado em seus livros retiros, seminários e workshops *
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28 de janeiro de 2022

Quem nasce lá na Vila, nem sequer vacila, ao abraçar o samba...( Noel Rosa)

 Eu nasci aqui, neste bairro e neste Boulevard, em uma maternidade que ficava a poucos metros e tinha o mesmo nome da Basílica de Nossa Senhora de Lourdes. Fiz o meu ensino primário numa escola também no Boulevard 28 de Setembro. Escola que existe até hoje "escola Argentina". Moro na vizinhança de Vila Isabel, no bairro do Maracanã, que é um bairro entre a Vila Isabel e a Tijuca. Vila Isabel.


João Batista Viana Drumond (1825-1897), o abolicionista Barão de Drumond, resolveu levantar, em 1872, um bairro nas terras da Fazenda dos Macacos que havia recém-adquirido. Encantado com Paris, o barão entregou o traçado do bairro ao arquiteto e engenheiro Francisco Bitencourt da Silva (fundador do Liceu de Artes e Ofícios do Rio de Janeiro). O bairro foi projetado com toques franceses, e batizado de Vila Isabel, em homenagem à filha de D.Pedro II, tendo ruas com nomes de abolicionistas.
A principal avenida recebeu o nome de Boulevard 28 de Setembro, em comemoração à data da assinatura da Lei do Ventre Livre. A praça do bairro foi nomeada Sete de Março, em homenagem ao dia da constituição do Gabinete do Primeiro Ministro Visconde de Rio Branco, que promoveu a famosa Lei de 1871, que determinava a libertação dos nascidos de mães escravas. A segunda rua em importância recebeu o nome de Teodoro da Silva, que havia assinado a Lei com a Princesa. Após a morte de Drumond, a praça passou a chamar-se Barão de Drumond.
Em 1873, o Barão havia criado a Companhia Ferro Carril de Vila Isabel, para a ligação do centro da cidade com o bairro.
Além de ter sido o primeiro bairro planejado da cidade, Vila Isabel abrigou o primeiro jardim zoológico do Rio de Janeiro. Como pretexto para incentivar a visita, o ingresso possuia um número representando um animal; no final do dia era efetuado um sorteio com prêmios em dinheiro. Esta a origem do jogo do bicho.
A foto é um cartão postal que mostra o boulevard. O canteiro central fora construído para facilitar o acesso do público ao bonde. O texto sobre a Vila Isabel foi copiado do Facebook Celia Fernanda FontouraFotos, Fatos e Histórias do Rio Antigo

13 de fevereiro de 2020

O que deu errado? Onde foi que erramos?


Vivíamos tempos de contestação, a despeito dos cinzentos anos que atravessávamos aqui em Pindorama. Em 1967/68 estreava o musical Hair que anunciava uma nova era e que teve um sucesso esplendoroso que chegou a 1750 apresentações só na Broadway. Remontado pelo mundo afora virou filme em 1979. Na época eu me perguntava como seriam os anos futuros depois de tanta liberdade.
Jamais eu poderia imaginar um retrocesso tão grande, Tanta caretice junta meio século depois. Nunca eu poderia pensar que o mundo caminharia para traz e que teríamos no futuro as figuras grotescas e atrasadas que despontam no cenário mundial.
Naquele tempo Trumps e Bolsonaros eram inimagináveis.
Onde foi que erramos ?
O que deu errado?
De qualquer forma fica ai esse verdadeiro hino à liberdade,
o sonho de uma época transformada em musical.

A Q U A R I U S  !
Quando a lua estiver na sétima casa
E Júpiter se alinhar com Marte
Então a paz guiará os planetas
E o amor guiará as estrelas
Este é o amanhecer da Era de Aquário
A Era de Aquário
Aquário!/Aquarius!
Harmonia e compreensão
Simpatia e confiança abundarão
Chega de falsidades ou escárnios
Sonhos vivos dourados de visões
Revelação de cristal místico
E  verdadeira libertação da mente
Aquário!/Aquarius!/ 







8 de fevereiro de 2020

Até qualquer hora meu caro Max


É curioso como o passado às vezes nos encontra de repente e se faz vivo na memória, misturando a saudade com as lembranças de um tempo que ficou perdido lá atrás.
Hoje, o amigo Bruno me deu há pouco a notícia de que o ex-padre Max voou para a eternidade.
Max fez parte de minha adolescência naqueles atribulados anos sessenta, especialmente no final da década, quando politicamente as coisas eram bem quentes, até o AI-5 vir nos golpear de morte. Na época ela era seminarista e estagiava na Matriz da Tijuca onde tínhamos o nosso grupo de jovens. Algo meio clandestino, no porão da Igreja, a despeito de existir um grupo de jovens oficial da paróquia que acontecia na igreja o mesmo horário. Max se dividia nos dois grupos. Mas era lá ,na naquele misto de capela e “catacumba cristã”, que nos reuníamos todo domingo para celebrar uma missa, da qual até hoje, cinquenta anos depois, eu sinto uma enorme saudade, pela profundidade da mística espiritual que tínhamos lá. Assessorados pelo padre Bruno Trombetta, que também já não está entre nós, e pelo padre Max trabalhávamos para como dizia o Dom, para não deixar a profecia cair.
Lembro até hoje do dia que juntos choramos com a decretação do AI-5, da revpolta por saber da prisão do Frei Betto e da morte dos irmãos da Fátima pela ditadura, no episódio que ficou conhecido como a chacina de Quintino.
Max sofreu bastante depois de ordenado com D. Eugenio. Foi envolvido num escândalo da época com a filha de um investigador, porque se recusou a revelar um segredo de confissão. O investigador tentou envolve-lo e ele quis processar o investigador, mas foi proibido pelo bispo que ainda o transferiu para uma paróquia no subúrbio. Mas ele logo virou notícia porque resolveu cuidar da terceira idade com aulas de dança e mais uma vez o bispo não gostou e o mandou para uma outra paróquia.
Nunca mais soube dele, lamentavelmente a vida nos dispersou.
Muito tempo depois soube por amigos que ele havia abandonado o sacerdócio.
Há poucos anos atrás encontrei o vídeo abaixo, na internet,  em que ele fala daquela época e relembra alguns fatos e pessoas.
Max junto com o padre Bruno foram pessoas que considero formadores de minha vida pessoal e espiritual, a quem sou infinitamente grato. Peço ao bom Deus que o Max possa encontrar o caminho de casa e lá se reunir com os que já foram e festejar, como ele gostava.
Uma das coisas que jamais esqueci, é uma frase que ele sempre nos dizia, em meio a uma gostosa gargalhada, quando nos reuníamos, muitas vezes num bar, após a missa.
“ Voces são jovens muito revolucionários, a maioria de seus pais são extremamente reacionários, mas  não se enganem, a história é cíclica e no futuro, vocês vão ver jovens tão reacionários como seus país” E não é que ele estava certo.

Vá em paz meu caro amigo Max e de lá do alto reze por nós e pelo nosso Brasil por quem tanto sonhamos e lutamos.
Um grande e saudoso abraço.



 

22 de outubro de 2016

Quando se vai um amigo...



Desde que você chegou por aqui sempre nos entendemos muito bem, eu era um adolescente e seus conselhos a minha mãe me foram muito uteis. Embora houvesse uma grande diferença de idade tínhamos uma visão do cristianismo bem parecida. Tão parecida que acabamos colegas de pré-vestibular para Psicologia. Em nossas conversas o meu e o seu jeito critico sobre algumas posturas combinava perfeitamente, e isso nossos anéis de tucum podiam atestar, até mesmo quando alguns tentavam demonizar esse simbolo da opção cristã pelos mais necessitados. Éramos muitos a lhe admirar. As crianças que corriam ao seu encontro, os jovens, que recebiam as suas broncas cheias de amor, os adultos e os mais velhos a quem você sabia tão bem tranquilizar e aliviar o coração. Você tinha esse dom de saber falar ao coração de cada um, de convencer-nos que o amor de nosso Deus era infinitamente maior do que qualquer falta que pudéssemos cometer.


Você nos ensinou a sermos inclusivos como Jesus, a deixar os julgamentos de lado, a na hora do ofertório, oferecer tudo, mas tudo mesmo, principalmente as nossas limitações, as nossas falhas, a entregar nas mãos do Pai exatamente aquilo que somos, com todos os nossos defeitos. quase posso ouvir você dizendo e olhando para nós:  vai! entrega! sem medo! se coloque por inteiro, coloque a sua vida aqui neste altar.


Embora a gente saiba que vai sentir saudade, tenho certeza de que hoje o céu está em festa, imagino que Santo Afonso estará de braços abertos para receber esse seu filho muito amado. Quanto a nós ganhamos um grande intercessor.

Descanse em Paz Pe. Marques, um descanso merecido depois de tantas ocupações e tantas realizações, os seus amigos especiais são muito gratos pela realização de uma obra fantástica, a Casa da Convivência. São gratas também as muitas famílias que aconselhou como psicólogo/sacerdote, além delas as incontáveis crianças que passaram pelo catecismo da Santo Afonso que durante muitos anos, por sua causa, tinha a fama de ser o melhor da arquidiocese. Foi uma jornada maravilhosa e você meu amigo e confessor, merece toda a nossa admiração.




A igreja do Brasil lhe deve a catequese dos especiais, uma luta sua em um tempo em que ninguém acreditava ser possível. Você desbravou e abriu muitos caminhos, cabe a nós caminhar e aprimorá-los.




Fica para nós essa saudade incomoda e a falta de alguém que celebre a Eucaristia com esse sorriso e essa intimidade que nos fazia sentir Jesus alí, bem perto de nós. 

                                                   

Quem ousará abrir caminhos e ouvir as criticas pela ousadia de fazer o novo?
Quem não se lembra da primeira vez que você colocou as crianças à sua volta no altar 
no momento da consagração?
Colocar especiais como acólitos?
Santa Ousadia !
Santa Alegria!
Santa disponibilidade para acolher a tantos.




Para nós o sentimento mais forte será sempre a gratidão.
Receba o nosso carinho e no céu continue a rezar por nós.

Até um dia Pe. Marques


+ 22-10-2016







21 de dezembro de 2012

Natal é coisa de criança...


J Ricardo A de Oliveira



Sem dúvida, afinal a festa gira em torno de um menino que veio  ensinar que só há uma lei : Amar. 
Ninguém está  mais propenso a se entregar de cabeça no amor do que as crianças. Criança não tem preconceito, não discrimina, não pensa antes de falar, não tem censura para amar a quem quer que seja.
Já repararam como as crianças ficam agitadas e felizes com a proximidade  do Natal? Certamente elas guardam mais de perto a memória do convívio com o aniversariante. Tenho um amigo que  diz que é porque elas saíram recentemente da fábrica...
O natal traz em nós um gosto de infância, a espera do presente, a dúvida se o Noel vai atender ao pedido, se o comportamento durante o ano vai mesmo ser levado em consideração...
Quando se é criança e tivemos a graça de viver em uma família onde o amor é o sentimento mais presente e também o mais cultivado, o Natal é uma festa da realização deste ideal. Tive Natais muito felizes.  As lembranças que chegam à minha mente, vem com a casa cheia de primos, tios e uma grande algazarra de crianças. Mas vem também o cheiro da manteiga batida e rebatida que a vovó Bebel  usava para fazer seus "mantecais". Eram quilos e quilos para que ninguém ficasse sem os deliciosos biscoitões típicos de sua aldeia Malagueña na época do Natal. Eram feitos com muito carinho e a participação da Tia belinha e da Tia Nair, as quituteiras mais competentes da famila que a essa altura devem estar preparando a ceia de natal lá no céu.

Me salta na lembrança também, avó Corintha, a que me criou , essa de descendência  lusitana,  preparando o mexido ou formigos. Era um tal de esfarelar miolos de pães dormidos que eram molhados e  levados para a panela de barro ao fogo e por horas eram mexidos e remexidos enquanto eram acrescentados os ovos, as amêndoas, o mel, o vinho e sei lá eu mais quantas iguarias eram postas naquilo que virava uma espécie de um creme, delicioso, servido solenemente na ceia.
Quantas lembranças e quanta saudade! Quanto AMOR!  Mas Natal é fundamentalmente isso: Amor.
A minha criança interna se enche de ansiedade nesta época.  Sinto falta das grandes mesas cheias de coisas gostosas, das brincadeiras, do riso farto, a felicidade contagiando e unindo os nossos corações. Sinto falta da briga depois do almoço para decidir quem ia lavar a louça. Todas, minha mãe e tias queriam lavar e participar da arrumação. Quando o amor está presente , todo serviço é feito com alegria e prazer.
Eram muitos netos e depois do almoço, invariavelmente havia para alegria da vovó Bebel, o jogo de víspora. Ela sentava-se ao lado dos netos, cada qual com seus cartões e os  montinhos de grãos de feijão para marcar. Aos poucos o vovô Zezé, cantava os números: dois patinhos na lagoa ( 22), bico de pato (4), terminou o jogo (99) , vai começar a  brincadeira ( 1) . E, de repente alguém gritava: Duque de ponta! E parava tudo para o vovô conferir. E a tarde seguia animada e muito alegre. Acho curioso que as lembranças mais vivas não são dos presentes, mas da alegria do convívio daqueles a quem tanto amávamos.
Hoje essas lembranças me fazem rir sozinho como a criança daquele tempo que faço força para que  continue viva em mim, apesar dos muitos anos. Junto com o riso, as lágrimas também insistem em rolar pelo meu rosto, fruto da grande saudade que  também tempera a alma da criança que sente a  ausência de quase todas aquelas presenças, nas festas de final de ano. Consola-me saber que foram comemorar o Natal junto do aniversariante. Fora isso é muito bom além de relembrar sentir-se que se está criando memória junto aos mais novos que hoje são as atuais crianças do Natal.

Um feliz e abençoado Natal, que o “Menino Eterno” renasça sempre no nosso coração, e que o  Natal ,  nos lembre sempre  que é preciso ser criança para entrar no Reino de justiça, Paz e amor que o Pai os reservou.

12 de fevereiro de 2010

Cinco anos sem Irmã Doroty- até quando seremos coniventes com a impunidade?


Cinco anos passaram desde aquele fatídico sábado em que Rayfran e Clodoaldo, empregados de Tato, cruzaram o caminho da Irmã Dorothy, não para cumprimentá-la, mas para executar o sinistro plano, há tempo concebido pelo consórcio do crime, e cumprir o nefasto papel de matar a Irmã que dedicou toda a sua vida aos pobres.
Os pobres de hoje não são apenas uns explorados e oprimidos. São excluídos, expulsos da sociedade e da terra por serem considerados "supérfluos" (cf. DAp 65). Irmã Dorothy fez a opção de sua vida exatamente por essas pessoas, por essas famílias "sem eira nem beira", desprezadas e maltratadas, sem perspectivas num mundo em que perderam sua pátria.
Foi aos pobres, que Deus assegurou seu amor incondicional e preferencial. As palavras do profeta Jeremias calaram fundo no coração de Dorothy: "Ponde em prática a justiça e o direito, livrai o oprimido das mãos do opressor, nunca prejudiqueis ou exploreis o migrante, o órfão e a viúva nem jamais derrameis sangue inocente no país" (Jer 22,3). Dorothy não apenas acompanhou as famílias de Anapu e da Transamazônica na busca de seus direitos e defendeu seus interesses, peregrinando de repartição em repartição, procurando falar com prefeitos, vereadores, deputados, senadores. Dorothy fez e foi muito mais: Ela amou! E esse amor fez vibrar cada uma das fibras de seu coração. Ela foi mãe, foi irmã, foi filha de seu povo! Dorothy nos lembra a passagem tão sugestiva na primeira carta de São Paulo aos Tessalonicenses: "Apresentamo-nos no meio de vós cheios de bondade, como u'a mãe que acaricia os seus filhinhos. Tanto bem vos queríamos que desejávamos dar-vos não somente o evangelho de Deus, mas até a própria vida, de tanto amor que vos tínhamos" (1 Tes 2,7-8).
Naquela manhã de sábado, 12 de fevereiro de 2005, ela testemunhou "o evangelho de Deus", derramando o seu próprio sangue. Foi morta porque amou sem medida, foi trucidada porque entendeu que seu lugar era "ao lado dessas pessoas constantemente humilhadas" [1] foi assassinada porque abraçou "a justiça e o direito" e lutou para livrar "o oprimido das mãos do opressor" (Jer 22,3), foi eliminada do meio do povo pobre porque contrariou os interesses e ambições de "gente que se considera poderosa", como ela mesma costumava expressar-se.
Dorothy viveu em vida a opção pelos pobres sem deixar-se intimidar ou constranger. Com a sua morte, porém, Dorothy ultrapassou todos os limites e fronteiras. Sacudiu o mundo, descerrando a face ensanguentada da Amazônia, fazendo ecoar os gritos e revelando as dores que golpeiam os povos que aqui vivem.
Cinco anos passaram! Cinco anos, também repletos de tramas e trâmites judiciais. Prisões efetuadas com grande alarde, sentenças condenatórias solenemente proferidas e com a mesma solenidade anuladas, pedidos de habeas corpus deferidos e liberdade provisória concedida. Sempre novas versões do crime, chegando até ao cúmulo absurdo de transformar a vítima em ré, alegando legítima defesa.
Há poucos dias um dos acusados é preso outra vez [2] . Foi condenado a 30 anos e absolvido em um segundo julgamento. Agora outro recurso consegue anular o veredicto anterior e o fazendeiro recebe novamente voz de prisão. E a imprensa divulga o fato como se fosse a prova mais convincente de que a Justiça funciona. Só tem um detalhe! Nós todos já estamos saturados de tais notícias. Em breve, algum advogado experto vai achar outra brecha na legislação e o homem conseguirá mais um alvará de soltura para acrescentar à sua coleção. O mesmo se diga do tal desaforamento anunciado agora [3]. Precisava cinco anos para chegar a essa conclusão?!
E o consórcio do crime? Nada mais tem a temer! A poeira há tempo sentou. Afinal, já há quem responde pelo homicídio! Por que procurar outros para submetê-los a processos complicados? Por que investigar a quem já não quer lembrar-se de nada? E aqueles que de longa data prepararam o terreno e o ambiente para que a irmã fosse morta? Agora negam tudo! Há pessoas que andaram de cima para baixo com a Dorothy e com ela comeram farofa na casa da Prelazia. Hoje estão do outro lado! Habilitaram-se a jogar no time adversário! É o salmo 41 bem atualizado: "Até meu amigo, em quem eu confiava, que comia do meu pão, levantou o calcanhar contra mim" (Sl 41 (40),10).
Neste ano de 2010, o mês de fevereiro, em que Irmã Dorothy foi assassinada, ganha mais uma razão para tornar-se histórico. A Amazônia que Dorothy tanto defendeu e pela qual doou sua vida, recebe mais um golpe, desta vez de proporções que ainda nem sequer podemos vislumbrar. O Presidente da República me prometeu pessoalmente [4] a continuação do diálogo sobre o projeto Belo Monte. No dia primeiro deste mês o Ibama tornou pública a licença prévia para que o Xingu fosse barrado. 1522 km2 de destruição à vista: 516 km2 de área inundada e 1006 km2 de área deteriorada porque faltará água!
Todas as 40 condicionantes que a Licença Prévia elenca para serem observadas pela empresa que sairá vitoriosa no leilão, nada mais são que uma confissão pública do Governo que o projeto, se for executado, terá consequências desastrosas. Ao exigir um bilhão e meio de reais em projetos para mitigar os efeitos, o próprio Governo admite de antemão que Belo Monte causará um terrível e irreversível impacto sobre a Amazônia. Onde já se viu tanto esmero para atenuar sequelas antes de iniciar a obra? É a prova cabal de que o próprio Governo sabe que está dando um tiro no escuro. Até esta data, o Ibama nem sequer conseguiu identificar a abrangência e intensidade dos impactos. Como esse órgão então pode realmente atestar a viabilidade de Belo Monte? Lamentavelmente, quem sofrerá os trágicos efeitos não serão os tecnocratas em Brasília e políticos míopes, mas os povos desta região da Amazônia. O Xingu nunca mais será o mesmo. O solo será danificado, a floresta devastada e das águas turvas e mortas emergirão apenas os esqueletos esbranquiçados das outrora frondosas árvores.
É a política do rolo compressor, é a tática do fato consumado, é o método do autoritarismo que não aceita contestação!
E Dorothy, no seu túmulo, chora a desgraça anunciada!
Mas não deixa de encorajar-nos na luta em favor da vida contra projetos de morte. Nosso caminho é aquele traçado pelo Evangelho. Somos enviados por Jesus para anunciar a Boa Nova aos pobres e denunciar o que se opõe ao Evangelho da Vida, para quebrar as algemas da opressão e tirania, para defender o lar que Deus criou para todos nós e as futuras gerações, e proclamar um ano de graça do Senhor (cf. Lc 4,18-19).
Amém! Marána thá! Vem Senhor Jesus!
Anapu, 12 de fevereiro de 2010
Erwin Kräutler, Bispo do Xingu

30 de outubro de 2009

Memória de Santo Dias da Silva 30 de Outubro

(Colaboração Graça Ribeiro)





Santo Dias da Silva foi um autêntico operário cristão (22/02/42 - 30/10/79), assassinado em defesa do povo oprimido. Conheceu, de perto, os problemas dos sem-terra. Foi lavrador e meeiro em Terra Roxa (SP), onde nasceu. Como metalúrgico, conheceu também os problemas das pessoas que moram na cidade. Teve participação ativa em Sindicato, Sociedade de Amigos de Bairro, Pastoral Operária, Comunidade Eclesial de Base (...)

O ano de 1979 foi um ano agitado. Em agosto, depois de vários anos de intensa movimentação popular exigindo anistia aos presos políticos e exilados, o governo editou a Lei de Anistia, estendendo-a também a torturadores e participantes do aparato repressivo.

Em março, a Oposição Sindical Metalúrgica de São Paulo fez seu primeiro congresso definindo como princípios de sua atividade uma frente de sindicalistas que lutavam pela mudança da estrutura sindical, que entendiam deveria ser independente do Estado e organizada a partir das comissões de fábrica.

Santo Dias participa desse processo agora mais amadurecido pela prática. De 31 de maio a 2 de setembro, o 1o. Congresso da Mulher Metalúrgica reforçou as teses da Oposição. Em outubro, os metalúrgicos começam nova campanha salarial. Desta vez, a reivindicação era 83% de aumento dos salários, não aceita pelos patrões.

Uma assembléia com seis mil trabalhadores na rua do Carmo decidiu, numa sexta-feira, iniciar a greve. No primeiro dia da paralisação, 28 de outubro, as subsedes do Sindicato, abertas para abrigar os comandos de greve, foram invadidas pela Polícia Militar, que prendeu mais de 130 pessoas. Sem o apoio do sindicato e com a intensa repressão policial sobre sua ação, os metalúrgicos passaram a se reunir na Capela do Socorro, sendo a Zona Sul a região de maior concentração da categoria.
No dia 30, Santo Dias, como parte do comando de greve, saiu da Capela do Socorro, para engrossar um piquete na frente da fábrica Sylvânia e discutir com os operários que entravam no turno das 14h00. Viaturas da PM chegam e Santo Dias tenta dialogar com os policiais para libertar companheiros presos.
A polícia agiu com brutalidade e o PM Herculano Leonel atirou em Santo Dias pelas costas. Ele foi levado pelos policiais para o Pronto Socorro de Santo Amaro, mas já estava morto. O corpo de Santo Dias só não “desapareceu” por conta da coragem de Ana Maria, sua esposa.
Ela entrou no carro que transportava seu corpo para o Instituto Médico Legal, apesar de abalada emocionalmente e pressionada pelos policiais a descer, não cedeu. Divulgada a notícia de sua morte pelos vários meios de comunicação, seu corpo seguiu para o velório na Igreja da Consolação.
No dia 31 de outubro, 30 mil pessoas saíram às ruas da Capital para acompanhar o enterro e protestar contra a morte do líder operário, pelo livre direito de associação sindical e de greve e contra a ditadura.
Fonte:
http://www.cebs-sul1.com.br/sp-1/noticias/memoria-de-santo-dias

4 de outubro de 2009

Mercedes Sosa nos deixou

..
Mercedes Sosa nos deixou,

neste domingo 4/10/09, aos 74 anos,

a voz da luta pelos direitos dos povos,

alguém que gritava

pelos os oprimidos da América Latina

calou-se.



(Mercedes Soza e Beth Carvalho)


"Solo le pido a Dios

Que el dolor no me sea indiferente,

Que la reseca Muerta no me encuentre


Vacia y sola sin haber hecho lo suficiente."

Mercedes Sosa
“La Negra”

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