O absurdo e a Graça

Na vida hoje caminhamos entre uma fome que condena ao sofrimento uma enorme parcela da humanidade e uma tecnologia moderníssima que garante um padrão de conforto e bem estar nunca antes imaginado. Um bilhão de seres humanos estão abaixo da linha da pobreza, na mais absoluta miséria, passam FOME ! Com a tecnologia que foi inventada seria possível produzir alimentos e acabar com TODA a fome no mundo, não fossem os interesses de alguns grupos detentores da tecnologia e do poder. "Para mim, o absurdo e a graça não estão mais separados. Dizer que "tudo é absurdo" ou dizer que "tudo é graça " é igualmente mentir ou trapacear... "Hoje a graça e o absurdo caminham, em mim lado a lado, não mais estranhos, mas estranhamente amigos" A cada dia, nas situações que se nos apresentam podemos decidir entre perpetuar o absurdo, ou promover a Graça. (Jean Yves Leloup) * O Blog tem o mesmo nome do livro autobiográfico de Jean Yves Leloup, e é uma forma de homenagear a quem muito tem me ensinado em seus livros retiros, seminários e workshops *
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5 de junho de 2012

Os javalis na vinha do Senhor

Na semana passada, os escândalos e a vergonha ou a falta dela sucederam-se no Vaticano.

Primeiro, foi a publicação por Gianluigi Nuzzi do livro Sua Santidade. Os Dossiers Secretos de Bento XVI. O jornalista teve acesso a uma centena de cartas e documentos confidenciais reservados. Evidentemente, a sua publicação, embora nada traga de surpreendente, causou irritação no Vaticano, já que a obrigação de manter o segredo foi violada. Nestes textos, "emergem os confrontos secretos e as armadilhas a todos os níveis", que percorrem os palácios apostólicos do Vaticano. Nuzzi defende-se, dizendo que não pagou nem um euro a ninguém e que "não é um livro contra a Igreja, nem contra a fé, nem contra o Santo Padre". Pelo contrário, "há vontade de limpeza; são pessoas que vivem há anos no Vaticano e que querem expulsar os vendilhões do templo".

Depois, foi a destituição do presidente do Instituto para as Obras da Religião (IOR), mais conhecido como o Banco do Vaticano, Ettore Tedeschi.
Isso aconteceu, após uma moção de censura no Conselho de Supervisão. Há quem fale em casos de lavagem de dinheiro. No entanto, Tedeschi, apresentado como católico fervoroso, simpatizante do Opus Dei, respeitado pelo Papa, especialista em ética nas finanças, antigo professor de Economia na Universidade Católica de Milão e director da filial do Santander na Itália, tinha até há pouco tempo a "total confiança" da Santa Sé. Após a demissão, declarou: "prefiro não falar, para não dizer grosserias."

Por fim, um caso sem precedentes: o mordomo do Papa, Paolo Gabriele, de 46 anos, homem de confiança, no lugar desde 2006, e um dos poucos com contacto directo com Bento XVI, foi preso por posse de documentos sigilosos. Segundo o porta-voz do Vaticano, padre Federico Lombardi, "a pessoa detida por posse ilegal de documentos confidenciais, encontrados no seu domicílio situado no território do Vaticano, é o senhor Paolo Gabriele, que permanece preso". Mas será ele o principal responsável?

Afinal, o que se passa? Há um Papa debilitado (tem 85 anos), amargurado, que talvez nem sequer imaginasse o que vai pela Cúria e cujos interesses são de outra ordem que não propriamente a administração, pois o que o preocupa é a fé e a sua inteligência. Depois, está instalado o carreirismo eclesiástico, que tantas vezes denunciou. E, agora, os especialistas em vaticanologia vão
chamando a atenção para os rancores entre cardeais e, sobretudo, para as lutas e intrigas de poder, já que a sucessão papal está para breve.

Diz-se, por exemplo, que há os que querem desfazer-se do cardeal Tarcisio Bertone e dos que lhe são próximos. Por outro lado, o ex-secretário de Estado do Vaticano e actual decano do Colégio Cardinalício, cardeal Angelo Sodano, está "ferido", porque o actual Papa não o defendeu, quando o cardeal Christoph Schönborn, arcebispo de Viena e amigo pessoal de Bento XVI, o acusou publicamente de ter protegido Marcial Maciel, um dos homens que mais escândalos e danos causou nos últimos tempos à Igreja.

Jesus foi tentado três vezes, e as três tentações estão referidas ao poder: poder económico, poder político, poder religioso. O poder religioso é o que oferece mais perigos. Por isso, foi dizendo: "Sabeis que os governantes das nações as dominam e os grandes as tiranizam. Entre vós não deverá ser assim. Ao contrário, quem quiser tornar-se grande entre vós seja aquele que serve e
o que quiser ser o primeiro seja o vosso servo. Eu não vim para ser servido, mas para servir."

O cancro da Igreja é mesmo a Cúria Romana. Sem a sua reforma urgente e radical (mas ela será reformável?), que tem de começar pela transparência económico-financeira, a Igreja Católica assistirá a uma descredibilização crescente. Quando, no meio de uma crise global e sem fim à vista, seria mais necessária do que nunca uma palavra moral limpa por parte da Igreja, ela afunda-se em escândalos. "Os javalis entraram na vinha do Senhor", queixa-se, com razão, o Papa Bento XVI. Chegou-se a este paradoxo: a última monarquia absoluta do Ocidente parece sentir-se impotente para pôr ordem na sua casa.

* Padre, Professor de Filosofia na Universidade de Coimbra, Teólogo, Jornalista. Escreve no Diário de Notícias de Lisboa

30 de maio de 2012

''O verdadeiro problema é a clericalização. Voltemos ao Concílio e à colegialidade''

http://www.ihu.unisinos.br/noticias/509992-o-verdadeiro-problema-e-a-clericalizacao-voltemos-ao-concilio-e-a-colegialidade

Não parece tão surpreso o vaticanista e escritor Gian Franco Svidercoschi com osescândalos vaticanos. Mas certamente decepcionado. O ex-vice-diretor doL'Osservatore Romano é o autor de um livro – Mal di Chiesa. Dubbi e speranze di un cristiano in crisi – que tem provocado muita discussão.

A reportagem é de Roberto Monteforte, publicada no jornal L'Unità, 28-05-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.




Eis a entrevista.

A dor e a degradação que o senhor denunciou têm a ver com os fatos de hoje?


Diante do que está acontecendo, o meu livro parece ter sido escrito por uma noviça. A crise que a Igreja atravessa é muito mais grave até mesmo do que aquela imaginada pelo próprio pontífice, que convocou para setembro próximo o Ano da Fé. É verdade que estamos diante de uma crise da fé. Mas esse é o resultado final de muitas coisas. Não só de crises individuais. Na Igreja, certamente há também uma crise de estruturas, uma crise de projetos e principalmente de liderança. Muitas coisas têm acontecido nos últimos anos para não pensar que aqueles que tinham que suprir um papa idoso, que preferia se dedicar à pregação e à escrita, tivessem que fazer funcionar a máquina da Cúria. Não foi assim. Nos últimos tempos, a Secretaria de Estado parece ter assumido uma autonomia e uma predominância excessiva...

Explique mais...

Olhemos para os dois últimos consistórios, ambos realizados com o cardeal Bertone, secretário de Estado. O seu parecer indubitavelmente pesou na escolha dos cardeais. Mais de 40% dos nomeados são italianos, e 50% são daCúria Romana. Foi a subversão do rosto do colégio cardinalício que elegeu a papa o cardeal Joseph Ratzinger, em que os europeus não tinham a maioria. Agora, ao invés, voltaram a tê-la. Na última rodada de nomeações, não houve nenhum novo cardeal africano. E depois as lutas pelos grupos...

A que se refere?

Eu não acredito que o mordomo do papa assumiu sozinho a responsabilidade de trazer à tona os documentos. Até porque não podia chegar sozinho a todos os documentos vazados. Depois, porque me parece excessivo pensar quePaolo tivesse um amor infinito pelo papa e, com esses vazamentos de documentos, pensasse em atacar os supostos inimigos do papa. Deve haver alguém por trás disso. Essa é a demonstração da queda da liderança da Igreja, antigamente conhecida como o centro de uma grande diplomacia e de governo. Agora, são esses os homens que chegaram ao poder. E não é à toa que os dois últimos pontífices condenaram explicitamente, mais de uma vez, o carreirismo. É o sinal de que, entre a hierarquia, o carreirismo exagerado está presente, com um subgoverno que, talvez para agraciar um "chefe" ou outro, chega à guerra de grupos da qual estamos vendo os resultados.

Com quais objetivos estariam agindo? Os efeitos são devastadores para a credibilidade da Igreja.

Há a pobreza de visão dessas pessoas. As gafes em que, para sua infelicidade, Bento XVI incorreu põem em causa a Secretaria de Estado. Na Cúria, há quem pensa em criar "territórios privados" reservados aos italianos. Foi assim com as últimas nomeações. É evidente a influência do secretário de Estado sobre as escolhas específicas. Isso pode ter causado uma reação por parte daqueles que tendem a resistir àquela que podem considerar como uma prepotência, uma arrogância da Secretaria de Estado. Há cardeais que já pediram ao Papa Ratzinger a renúncia deBertone. Na cabeça da Cúria, seria necessário um político de nível internacional: dessa forma, no entanto, o próprio papa, no fim, ficou achatado em uma dimensão italiana.

Isso justifica os corvos?

Na nota vaticana de condenação da publicação das cartas roubadas no Vaticano publicadas no livro de Nuzzi – e eu digo isto como fiel –, faltava um mínimo de explicações sobre os conteúdos críticos presentes nessas cartas. São cartas verdadeiras. Há acusações específicas. Alguém as desmentiu? Não. Penso em Viganò ou no que está escrito na carta de Boffo. É incrível o que está acontecendo. É preciso mais transparência. E depois se ataca aqueles que trazem às notícias à tona sem explicá-las?

A responsabilidade é só da gestão da Cúria Romana?

Nos últimos anos, houve um empobrecimento da cúpula vaticana, com uma infusão de pessoas muito próximas ao secretário de Estado. São amigos do cardeal Bertone os três cardeais colocados nos postos-chave da organização do Vaticano. Do outro lado do Tibre, entrou a fragilidade humana. Tanto Wojtyla quanto Ratzinger, com suas sensibilidades, perceberam a impossibilidade de mudar a Cúria Romana.

O que o senhor propõe?

Uma premissa. O verdadeiro problema é a clericalização da Igreja. É o retorno de um mal antigo: o domínio dos clérigos. Há um retorno de individualismo e de clericalismo também entre os jovens padres. É a Igreja hierárquica que se sente dona da verdade e não ao serviço dos outros. O que na Igreja devia ser serviço se fez poder. O uso do poder sagrado por parte dos clérigos: esse é o caruncho. Determinando assim uma reação igual e contrária por parte de quem detinha o poder e agora se sente marginalizado. A Secretaria de Estado não está ao serviço do papa; tornou-se um poder. A resposta é voltar verdadeiramente ao Concílio Vaticano II e à colegialidade.

A Igreja Católica está se reduzindo a uma seita?

Jamie L. Manson, teóloga católica e mestre em teologia pela Yale Divinity School




Se a hierarquia continuar nesse caminho de privação de direitos em massa, o resultado não será uma Igreja menor e mais fiel, mas sim uma seita isolada e contracultural.

A análise é de Jamie L. Manson, teóloga católica e mestre em teologia pela Yale Divinity School. Suas colunas no jornal National Catholic Reporter - NCR - renderam-lhe um prêmio da Catholic Press Association por melhor coluna/comentário regular em 2010. O artigo foi publicado no sítio do jornal NCR, 24-05-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.


Muito tem se falado nos últimos meses sobre um anúncio publicado no The New York Times (imagem abaixo)encorajando católicos liberais e nominais a "sair da Igreja", porque ela nunca poderá ser mudada a partir de dentro e porque participar dela é colaborar com o seu sistema opressivo.
O anúncio foi pago por uma organização chamada Freedom from Religion Foundation. Mas, quanto mais eu reflito sobre o anúncio e sobre o comportamento da nossa hierarquia ultimamente, há uma parte de mim que não ficaria surpresa se ficássemos sabendo que o próprio Vaticano secretamente pagou pelo anúncio.
Com os seus ataques contra o casamento homossexual, a batalha contra a prestação de cuidados de saúde adequados às mulheres, o golpe hostil contra a LCWR [Leadership Conference of Women Religious] e a inquisição contra as meninas escoteiras, a hierarquia continua se apresentando como um embaraçoso espetáculo midiático em uma sociedade que há muito tempo se recusa a aceitar o ensino sobre o controle de natalidade, que acredita na igualdade das mulheres e que, cada vez mais, apoia o casamento homossexual.

Mesmo aqueles que não são afetados diretamente por essas batalhas ideológicas acham odioso o fato de que a hierarquia prefere gastar uma quantidade preciosa de dinheiro e de recursos em ações judiciais contra o governoObama e em bizarras novas campanhas como a Fortnight for Freedom [período de oração e reflexão sobre a liberdade religiosa proposto pela Conferência dos Bispos dos EUA para os dias 21 de junho a 4 de julho].

Os líderes da Igreja parecem obcecados por privar de seus direitos o maior número de leigos possível.

A pergunta é: por quê? Por que a hierarquia está agindo como a nova chefe que, para se livrar da equipe que herdou, torna tudo o mais desconfortável possível para que não permaneçam na organização? As lideranças da Igreja tomaram uma decisão por reduzir seu tamanho? Será que ele perceberam que os 2,2 bilhões de dólares em acordos em torno dos abusos sexuais e o número rapidamente decrescente de padres nos Estados Unidos tornou a Igreja incapaz de prover as necessidades dos 72 milhões de católicos?

Talvez, todas essas batalhas ideológicas – que, dizem, estão fundamentadas no desejo do Papa Bento XVI de umaIgreja menor e mais fiel – tenham realmente tudo a ver com dinheiro, ou com a falta dele. Mais de um comentarista sugeriu que o fim da repressão contra a LCWR poderia estar na recaptura de propriedades, bens e reservas de pensão das comunidades religiosas.

Infelizmente, se a hierarquia continuar nesse caminho de privação de direitos em massa, o resultado não será uma Igreja menor e mais fiel, mas sim uma seita isolada e contracultural.

Em seu livro The Sacred Quest, os estudiosos Lawrence Cunningham John Kelsay descrevem as características de uma Igreja e de uma seita. Eles contam com o trabalho pioneiro do estudioso alemão Ernst Troeltsch - o primeiro a fazer essa distinção com base em suas observações na Europa -, do início do século XX, quando comunidades religiosas como a Igreja da Inglaterra estavam em contraste com grupos dissidentes, como os quakers, cujas crenças religiosas os excluíram da cultura dominante de seu país.

Cunningham Kelsay definem uma igreja como "uma comunidade religiosa de alguma posição social que convida todos os membros de uma sociedade a participar de suas atividades, tem uma participação no bem-estar da comunidade social, e afirma ser o guardião da verdade religiosa".

Uma seita, por outro lado, "tende a exigir mais da conformidade em seus membros, é exclusiva, distancia-se das preocupações da sociedade em geral e também afirma ser a portadora da verdade religiosa." Seitas são "exclusivistas, introspectivas e têm algumas tensões com a cultura dominante". Exemplos atuais de seitas seriam os Amish ou os judeus hassídicos.

Enquanto a hierarquia e seus devotos gastam todo o seu tempo e energia exilando os "dissidentes" na Igreja, são eles que estão se tornando dissidentes na sociedade. O chamado de Bento XVI para a obediência radical e a recusa de questionamentos soa mais como a demanda absoluta de uma seita para o conformismo do que o chamado para uma igreja universal.

A recusa da hierarquia em reconhecer a necessidade crucial de contracepção global, bem como um sacerdócio que inclua mulheres e pessoas casadas, é um sinal claro de seu isolamento contínuo com relação às preocupações da sociedade.

Alguns na hierarquia e muitos dos que estão no movimento neoconservador até já se voltaram para a noção pré-Vaticano II de que a salvação só pode vir através da Igreja Católica Romana.

Até mesmo os trajes a Igreja Católica estão se tornando sectaristas. Jovens seminaristas e recém-ordenados tornaram-se notórios por arrastar para fora dos armários da Igreja túnicas amarradas como saias, pluviais e manípulos repletos de traças. E qual leitor do NCR pode se esquecer do galero do cardeal Raymond Burke (foto à esquerda), ou da exibição da capa magna de 20 metros de comprimento do bispo Edward Slattery James na Basílica do Santuário Nacional da Imaculada Conceição (foto à direita)?

Quem pode ficar feliz e em paz na Igreja institucional, exceto aqueles que possuem pontos de vista extremistas e contraculturais? Claro, alguém pode argumentar que o próprio Jesus foi considerado extremista e contracultural em seu tempo. Mas aqui está a diferença: Jesus não tinha medo do mundo.

Jesus nunca permitiu obediência absoluta à lei para trunfar as necessidades pastorais da das pessoas diante dele. Ele desafiou o ritual religioso em prol da cura do sofrimento. Ele chamou todos - coletores de impostos, homens ricos, mulheres, bêbados, prostitutas - para a sua mesa, sem exigir nenhum teste de fidelidade ou confissões.

Igreja Católica Romana está se tornando rapidamente um refúgio para aqueles que têm medo do mundo. A Igreja que, há 50 anos, chamou a si mesma para imergir no mundo moderno está, em vez de encolhendo, recusando-se a se envolver de uma forma significativa e pastoral com as lutas e necessidades humanas de hoje.

A hierarquia está tão arraigada em ideologias que esqueceu que existem complexas histórias humanas por trás de questões como a contracepção, a ordenação de mulheres e o casamento homossexual. Não é à toa que eles têm tanto medo de mulheres religiosas - que construíram uma Igreja de integridade e credibilidade moral por imersão na realidade da vida humana e pela coragem de se comprometer com um mundo cheio de sofrimento, fissura, imprevisibilidade e paradoxo.

Ao invés de permitir que o ministério da Igreja cresça e evolua com a comunidade humana, a hierarquia parece estar escolhendo o caminho de um grupo religioso dissidente. Ao fazer isso, eles estão abandonando, de bom grado, aqueles que esforçaram-se por décadas para permanecer fiéis à Igreja, mesmo através da desgraça dos abusos sexuais e da rescisão gradual das promessas do Concílio Vaticano II.

E quando essa geração de fiéis morrer, quem entre as novas gerações irá achar vida e sentido nesta Igreja-seita? Aqueles que querem fugir de um mundo em fluxo, com sofrimento, incerteza e luta pela igualdade? Aqueles que querem se recolher em um enclave fundamentalista onde homens europeus e patriarcais afirmam ter a verdade absoluta e inquestionável sobre Deus e sobre o nosso mundo?

Talvez seja uma Igreja mais fraca do que a hierarquia e seus devotos acham que querem. Talvez isso é tudo o que as lideranças sê veem realisticamente capazes de pagar. Quaisquer que sejam as motivações, se eles continuarem nesse caminho, terão que aceitar que deixarão de ser uma Igreja no mundo moderno e, ao contrário, se transformarão em uma seita exclusivista e isolada.

29 de maio de 2012

De Pacelli a Ratzinger: a grande crise da Igreja

De Pacelli Ratzinger, todos os pontificados foram atravessados pelo fio dourado do confronto entre a Igreja e a modernidade. Por isso, merecem uma atenção especial para se entender qual é a essência da crise sistêmica que ocorre debaixo dos nossos olhos.

Publicamos aqui o editorial de Eugenio Scalfari, fundador do jornal La Repubblica,  publicada no jornal La Repubblica, 27-05-2012. A tradução é deMoisés Sbardelotto.

Eis o texto.

A velha Itália afundou durante um dia repleto de tempestade e de presságios, no outono de 1958: oPapa Pio XII morria em meio a uma corte desfeita de cardeais decrépitos, de alcoviteiros de negócios, de freiras fanáticas, de parasitas. No palácio papal deCastel Gandolfo, enquanto o temporal enchia as águas do lago e o vento sul escancarava as persianas e se engolfava entre as tendas e nos corredores, dignitários leigos e eclesiásticos se preparavam para ir embora.

Cada um tentava levar embora, até mesmo fisicamente, o máximo que podia. Mas, acima de tudo, cada um brigava para conservar algum benefício, um cargo lucrativo, uma fatia, por menor que fosse, daquele poder que, até aquele momento, há mais de dez anos, havia sido administrado sem escrúpulos e sem concorrência.

O afã era visível em toda parte, nas salas de recepção, nas antessalas e até mesmo ao redor do leito do moribundo que, já em agonia, era impudicamente fotografado pelo seu médico assistente e pela sua irmã assistente, com o tubo de oxigênio na boca, e os traços do rosto devastados pelas sombras da morte. Não era o afã da piedade. Era o afã da ganância e do medo, porque todos sabiam, dentro do palácio, que não morria um papa, mas acabava um reino.

Na sala privada do papa, circundado pelos purpurados mais idosos e poderosos, pelos chefes do Santo Ofício, dasMissões, do Tesouro, dos Seminários, o Camerlengo da Igreja representava o último elo de uma continuidade que estava prestes a se despedaçar definitivamente. Ele tinha, como sempre, um rosto absolutamente inexpressivo; não era um homem, mas sim um cargo, uma função, uma pausa do cerimonial. Mas, em torno desse cargo e do homem que estava dentro dele, ia se tecendo, precisamente nessas horas e naquele lugar, a trama do conclave.

Aloisi Masella, o Camerlengo, foi o primeiro e talvez decisivo mediador, juntamente com Agagianian, o prefeito doPropaganda Fide, entre o grupo dos cardeais estrangeiros e os curiais. Começou ali a busca que se concluiria algumas semanas depois sob as abóbadas da Capela Sistina, com um resultado que abalaria todos os programas, de um terceiro homem, um papa que teria que ser, ao mesmo tempo, bastante pastoral para absorver as inquietações da catolicidade, bastante diplomático para não esquecer as leis do poder, bastante humilde para restituir ao Colégio e aos Episcopados as prerrogativas que Pacelli havia confiscado. E bastante velho para não durar por muito tempo.

Naquela aurora de trovões e de ventos, quando o médico do papa, Galeazzi Lisi, declarou a sua morte clínica, dignitários, curiais, camareiros secretos, banqueiros, políticos, fugiram para Roma em grandes automóveis pretos para preparar o futuro incerto. Um bando de corvos abandonava as estruturas corroídas de um lugar do qual uma monarquia absoluta havia governado um país.
* * *
O trecho que vocês leram foi retirado de um livro meu intitulado L'autunno della Repubblica, de 1969, no auge do movimento estudantil. O capítulo aqui citado intitula-se "O fim de um reino" e relata justamente a morte do Papa PacelliPio XII, que personificou por longos anos a Igreja triunfante e combatente que continha, porém, desde então, aquela crise sistêmica da qual fala o católico Alberto Melloni, um dos historiadores da Igreja mais credenciados nessa matéria.

Os acontecimentos em andamento marcam o momento culminante dessa crise: a destituição de Gotti Tedeschi da liderança do IOR, a prisão do mordomo do papa, Paolo Gabriele, a surda luta em curso entre as diversas facções curiais e anticuriais, a posição cada vez mais vacilante do secretário de Estado, Tarcisio Bertone. Por fim, o desespero do Papa Ratzinger, fechado em seus aposentos e manifestamente incapaz de segurar firme o leme em um mundo invadido por ganâncias, ambições, complôs e visões conflitantes da Igreja futura.

Não vou me ocupar, todavia, das investigações em curso, que o nosso jornal já abordou amplamente nestes dias e também hoje, com todas as atualizações noticiosas. Interessa-me, ao invés – e espero que interesse aos nossos leitores –, dar uma olhada de conjunto sobre os pontificados que se sucederam de Pacelli Ratzinger. Todos foram atravessados pelo fio dourado do confronto entre a Igreja e a modernidade. Por isso, esses pontificados merecem uma atenção especial para se entender qual é a essência dessa crise sistêmica que ocorre debaixo dos nossos olhos.
* * *
O conclave que elegeu João XXIII ocorreu depois da monarquia absoluta, mas muito astuta, de Pio XII, um diplomata por excelência, que governou a Igreja em tempos duríssimos, com a guerra em curso e, depois, a guerra que encerrou com a reconstrução da democracia e o governo daDemocracia Cristã de De Gasperi.

Pacelli teve todos os defeitos e todas as qualidades dos grandes pontífices. Dissemos que se destacou nas capacidades diplomáticas, e ele demonstrou isso amplamente, sobretudo no atormentadíssimo período da ocupação nazista de Roma. Mas não lhe faltava pastoralidade e nem grandes capacidades cênicas. Ainda está nos olhos de todos os seus contemporâneos a sua visita ao bairro de San Lorenzo, em Roma, destruído pelo bombardeio norte-americano, onde a sua veste branca ficou manchada de sangue, quando avançou por entre as ruínas para abençoar os mortos e socorrer os feridos ainda estendidos pelas ruas devastadas.

Partido Conservador também estava, naquela época, barricado na Cúria. O papa teve o cuidado de não dispersá-lo. Ao contrário, o reforçou para que se submetesse. Era ele quem decidia quando era o de fazê-lo emergir ou de fazê-lo calar. Além disso, quem falava por ele era o padre jesuítaLombardi, chamado de "o microfone de Deus", que combatia os social-comunistas com espada desembainhada. Uma outra espada estava nas mãos de Gedda e dos comitês cívicos que renegavam até mesmo a política de De Gasperi, que nunca foi recebido em audiência privada no Vaticano.

Mas Pacelli também era nepotista no sentido clássico e familista do termo. Era um príncipe e, como tal, se comportou e, como todos os príncipes, se entregou também ao populismo: recebia todos os tipos de categorias da sociedade civil: médicos, advogados, jornalistas católicos, ciclistas e jogadores de futebol, donas de casa, policiais e militares, atores e operários, empresários e barbeiros. O populismo de Berlusconi faz rir em comparação ao de Pio XII, que agora está em predicado de santidade.
* * *
Papa João foi o extremo oposto, embora com alguns condicionamentos. Ele foi eleito com uma condição: que restituísse à Cúria a sua independência funcional. Ele se manteve fiel a esse mandato, mas os curiais não contaram que o papa também era capaz de proceder novas nomeações quando a morte abrisse espaços vazios na hierarquia.Havia a necessidade de um papa sobretudo pastoral, e o tiveram no sentido mais pleno da palavra. João foi muito mais pastor do que Romano Pontífice. O físico o ajudava, e o discurso também, mas foi sobretudo a sua alma que o ajudou ou, se se quiser, o Espírito Santo. Ele amava as crianças, as mães, as famílias, os pobres, os excluídos.

Ele chamou Montini novamente para a Secretaria de Estado e convocou o Concílio Vaticano II, para onde afluíram os bispos de todo o mundo católico. Havia passado um século desde oVaticano I, que se reuniu a pouca distância de tempo desde o fim do poder temporal dos papas. Ali, foi proclamado o Papa-Rei, infalível quando fala ex cathedra, e foi elevada a dogma a virgindade de Maria.

Vaticano II, ao contrário, proclamou a necessidade de que a Igreja se confrontasse com a modernidade. Foi uma revolução, iniciada, mas obviamente completada. Foi a escolha de um tema que devia ser levado adiante, começando pela modernização da Igreja, pelo abalo da liturgia, a missa recitada nas línguas correntes e não mais em latim, com o sacerdote voltado para os fiéis e não mais de costas, a abertura do debate sobre o papel dos leigos e das mulheres. Por fim, o desinteresse do Vaticano com relação à política italiana e, portanto, a autonomia dos católicos comprometidos.

Mas em um ponto os curiais estavam certos: no seu quarto ano de pontificado, o papa adoeceu e, no quinto ano, morreu.

Ainda me lembro do funeral: uma multidão imensa que, da praça, chegava ao Tibre e além, todas as ruas apinhadas, desde a Piazza Cavour e a Villa Pamphili, todo o Borgo Pio. Não se via um papa como ele há muito tempo e não se viu desde então.
* * *
Depois, veio Montini. Dizer que ele teve qualidades pastorais seria pouco. Diplomático, certamente. Nenhuma sombra de populismo. Foi um político, talvez até demais. Mas não conservador.

Ele não levou adiante o confronto com a modernidade, mas impediu que houvesse novos retrocessos. Foi um pontificado com fases dramáticas naqueles anos de chumbo que culminaram com o assassinato de Aldo Moro, do qual que ele oficiou a missa fúnebre em Latrão.

Foi um papa de interregno.

Talvez, o Papa Luciani tinha alguma semelhança distante com o Papa João, mas morreu depois de apenas um mês. Depois dele, subiu à cátedra um cavalo de raça, uma grande, grandíssimo ator. Não sei se a Igreja precisava de um ator, mas ele o foi da cabeça aos pés, no momento da eleição, no momento do atentado, no momento da revolução na Polônia, no momento da queda do Muro, nas suas viagens contínuas ao redor do globo, no Jubileu do ano 2000 e na longa fase da doença e depois da morte.

Quando o Camerlengo pronunciou o seu nome depois da fumaça branca da chaminé da Capela Sistina, toda a praça pensou que haviam eleito um papa africano. Só quando ele se assomou, entendeu-se que era um branco, mas não italiano. "Se eu me equivocar, corrijam-me": recebeu uma ovação de estádio e assim começou.

Até o Solidarnosc e depois da queda do Muro de Berlim,Wojtyla foi o papa da liberdade religiosa contra o totalitarismo comunista. No Ocidente, ele teve o apoio dos conservadores, dos liberais, dos democratas. Derrubado o comunismo, ele acentuou a sua crítica contra o capitalismo, mas, ao mesmo tempo, reprimiu a "nova teologia" e a experiência dos padres operários. A indiferença com relação aoassassinato do bispo Romero enquanto rezava a missa em El Salvador foi uma das páginas desagradáveis do seu pontificado, compensada, contudo, pela sua peregrinação ininterrupta a todos os cantos do mundo onde lhe foi possível chegar.

Ele tentou iniciar a reunificação das Igrejas cristãs, mas sem dar passos significativos. Ele reconheceu a culpa histórica da Igreja, começando pela acusação de deicídio contra os judeus e pela condenação de Galileu e de Giordano Bruno.

A agonia foi muito longa e cenicamente grandiosa. Certamente não por cálculo, mas por autêntica vocação. "Santo subito" foi a invocação da multidão imensa que, também para ele, ocupou meia cidade.

Um balanço? Os problemas da Igreja na sua morte eram os mesmos: poder da hierarquia, marginalização do povo de Deus, crise das vocações, crise da fé em todo o Ocidente, nenhuma modernização dentro da Igreja. Mas uma modificação, sim, havia sido verificada nesse meio tempo: a mensagem do Vaticano II não só não dera passos à frente, mas havia dado passos para trás. Não por acaso, no Conclave, os martinianos foram marginalizados desde a primeira votação, e, a partir da segunda, emergiu Ratzinger, enquanto Ruini estava pronto para intervir se Ratzingerfosse derrotado.
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Bento XVI não é um grande papa, embora o talento e a doutrina não lhe faltem. Não é um ator, ao invés, é o seu contrário. Wojtyla tinha um guarda-roupa grandioso, porque tudo era grandioso nnele. O guarda-roupa de Ratzinger, ao contrário, é lânguido, porque o próprio papa é lânguido, como se veste, como fala, como caminha. Escreve bem, isso sim. Os seus livros sobre Cristo são bons de ler, as suas encíclicas possuem aberturas, assim como alguns de seus discursos. A sua reavaliação de Lutero causou surpresa e alguma esperança de progresso em direção à modernidade, contrariadas, no entanto, pelas suas escolhas operativas, da confirmação de Sodano na Secretaria e, depois, à substituição por Bertone: do medíocre ao pior. Bertone: um Ruini sem a inteligência e a flexibilidade do ex-vigário e ex-presidente daCEI [Conferência dos Bispos da Itália]. A hierarquia se tornou novamente todo-poderosa, mas dividida em muitos pedaços. O ecumenismo já é uma flor murcha antes do tempo.

Bento XVI re-exumou plenamente a tomística de Tomás de Aquino com tantas saudações a OrígenesAnselmo de AostaBernardoAgostinho parecia ser um dos inspiradores deRatzinger, mas qual Agostinho? O maniqueísta, o coadjutor deAmbrósio ou o autor das Confissões? Agostinho foi muitas coisas ao mesmo tempo, chegando até Calvino, a Jansen e aPascal. Se quisesse dizer algo verdadeiramente atual, o Papa Ratzinger deveria dar início à beatificação de Pascal, mas me dou conta de que, no mundo dos Bertone, da Cúria Romana e das atuais Congregações, isso sim seria um gesto radical rumo à modernidade. Nunca o farão.

O pontificado lânguido seguirá adiante enquanto puder, depois não haverá o dilúvio, mas sim uma chuva de pântano cheio de rãs, mosquitos e alguns patos selvagens. O que há de pior para todos.