O absurdo e a Graça

Na vida hoje caminhamos entre uma fome que condena ao sofrimento uma enorme parcela da humanidade e uma tecnologia moderníssima que garante um padrão de conforto e bem estar nunca antes imaginado. Um bilhão de seres humanos estão abaixo da linha da pobreza, na mais absoluta miséria, passam FOME ! Com a tecnologia que foi inventada seria possível produzir alimentos e acabar com TODA a fome no mundo, não fossem os interesses de alguns grupos detentores da tecnologia e do poder. "Para mim, o absurdo e a graça não estão mais separados. Dizer que "tudo é absurdo" ou dizer que "tudo é graça " é igualmente mentir ou trapacear... "Hoje a graça e o absurdo caminham, em mim lado a lado, não mais estranhos, mas estranhamente amigos" A cada dia, nas situações que se nos apresentam podemos decidir entre perpetuar o absurdo, ou promover a Graça. (Jean Yves Leloup) * O Blog tem o mesmo nome do livro autobiográfico de Jean Yves Leloup, e é uma forma de homenagear a quem muito tem me ensinado em seus livros retiros, seminários e workshops *
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16 de abril de 2019

A Catedral de Notre Dame em chamas



Olhando assustado para as imagens  na tela do computador  e meio que atônito me pergunto: como, quem, mas sobretudo porque esse símbolo tão forte  da civilização arde assim em chamas?
Como não há um sistema de prevenção para acidentes como este?
Eu fiz essa pergunta também no lamentável incêndio do nosso museu, daqui da Quinta da Boa Vista, mas infelizmente aqui é Brasil, estamos acostumados a estas lamentáveis displicências, mas em Paris? E com o marco zero da França?  Uma catedral com 850 anos de existência?

As influencias Junguianas me fizeram ficar preso na ideia do que este evento tão doloroso  estaria querendo simbolizar algo para nós.
A casa de Maria, a Notre Dame, a casa da nossa Dama, nossa mãe... Maria Mãe do mundo, Maria a mulher, a humana, a matéria que serviu a Deus para gerar Jesus, o filho de Deus.

Deus precisou se utilizar de uma criatura sua para se manifestar no meio dos homens e é esta criatura, Maria, que desde 1163 tem esse importante marco no coração de Paris.

A  antiga oração cristã, um símbolo importante da cristandade, o credo Niceno-Constatinopolitano reza:
“Deus de Deus, Luz da Luz, Deus verdadeiro de Deus Verdadeiro, GERADO, não criado, consubstancial ao Pai... “
Desde os primórdios, a cristandade sabe que Jesus não foi criado, e sim gerado, gerado na matéria, gerado em Maria.

Logo me surgiu na mente  o fantástico Hino à matéria do grande Teilhard de Chardin

“Eu te saúdo, potência universal de aproximação e de união, através da qual se liga a multidão das mônadas e na qual convergem todas sobre a rota do Espírito.
Eu te saúdo, fonte harmoniosa das almas, cristal límpido de onde é tirada a nova Jerusalém.
Eu te saúdo, Meio Divino, carregado de Potência Criadora, Oceano agitado pelo Espírito, Argila amassada e animada pelo Verbo encarnado.”
(Hino a Matéria - Teilhard de Chardin)

Um hino á matéria, à mãe matéria, da qual Maria é a principal referência quando pensamos na criação.

E a pergunta voltou a me desafiar:
O que esse incêndio está querendo simbolizar apara todos nós ? 



Edward F. Edinger, em seu livro “O Arquétipo Cristão”, a respeito do mito da “Virgem Maria”,
diz : 
A virgindade de Maria configura-se como importante parte do simbolismo. Parece haver uma conexão arquetípica entre a virgindade e a capacidade de lidar com o “Fogo Sagrado” (energia transpessoal). Na Roma Antiga as virgens vestais eram as guardiãs da chama sagrada. Entre os incas peruanos mulheres virgens mantinham no templo um fogo santo”.

Adam Mclean, em seu livro “A Deusa Tríplice: Em Busca do Feminino Arquetípico” , diz algo interessante para esta reflexão:

A Deusa é um arquétipo eterno da psique humana, embora a desprezamos e reprimamos ou neguemos exteriormente a sua existência. Desde os primórdios de nossa civilização ela se revela a nós em desenhos  rupestres e em esculturas primitivas, nas grandes mitologias, manifestando-se na nossa cultura atual sob os mais diversos disfarces. Ela faz parte do tecido de nosso ser, com o qual toda a humanidade tem de se relacionar interiormente se desejarmos ter em nossas almas um equilíbrio de base. Ela é parte tão essencial da humanidade que, mesmo se, nos próximos séculos nos tornarmos filhos do Cosmo, deixando a Terra para trás em sua viagem para as estrelas, sem dúvida a encontraremos nas escuras profundezas do espaço”.


Vejo a Notre Dame em chamas no exato momento, dramático, em que na cúpula principal, a seta desaba. A seta que apontava para o céu, como a indicar a ligação entre o céu e a terra, ou simbolicamente aquilo que a Nossa Dama representa, o elo que liga o criador e a criatura, o meio que Deus se utilizou para se manifestar entre os humanos, para descer à matéria.

Na minha mente se abre  a tela do que temos visto mundo afora, guerras, destruição, egoísmo.refugiados não recebendo ajuda e sendo rechaçados por onde passam, a natureza, a criação sendo destruída pela ganância,  a eleição de dirigentes de países pouco comprometidos com a felicidade da humanidade, toda sorte de absurdos que indicam claramente o perigo da extinção da espécie humana.

Talvez seja esse o recado simbólico que essa tragédia venha nos indicar. Se não cuidarmos da preservação , a seta vai se romper. A ligação vai ser desfeita e a terra seguirá adiante, mas sem a espécie que tentou destruí-la.


Bendita sejas tu,

áspera matéria,

terra estéril,

dura rocha,
que cedes apenas à violência
e nos forças a trabalhar
se quisermos comer.
Bendita sejas,
poderosa matéria,
evolução irresistível,
realidade sempre nascendo,
que a cada momento fazes em estilhaços nossos limites
e nos obrigas a procurar
cada vez mais profundamente a verdade.
.................................................................
Bendita sejas,
matéria imortal,
Tu, que, desagregando -te um dia em nós,
nos induzirá, forçosamente,
no íntimo daquilo que é.
Sem ti, matéria,
sem teus combates,
sem teus dilaceramentos,
viveríamos inertes,
estagnados,
pueris,
ignorantes de nós mesmos
e de Deus.
.............................................
Leva-me para o alto, matéria,
pelo esforço,
a separação
e a morte.
Leva-me para onde for possível,
enfim, abraçar castamente.

( Hino à Matéria - Teilhard de Chardin)





22 de abril de 2017

No dia da Terra Um "Hino à Matéria " Teilhard de Chardin





Bedita sejas tu,
áspera matéria,
terra estéril,
dura rocha,
que cedes apenas à violência
e nos forças a trabalhar
se quisermos comer.

Bendita sejas,
poderosa matéria,
evolução irresistível,
realidade sempre nascendo,
que a cada momento fazes em estilhaços nossos limites
e nos obrigas a procurar
cada vez mais profundamente a verdade.

Bendita sejas,
matéria universal,
éter sem fronteiras,
triplo abismo das estrelas,
dos átomos e
das gerações.
Tu, que dissolvendo e transbordando
nossas estreitas medidas,
nos revelas as dimensões de Deus.

Bendita sejas,
impenetrável matéria.
tu que és tensão entre nossas almas
e o mundo das essências
e nos fazes definhar
com o desejo de romper o véu dos fenômenos.

Bendita sejas,
matéria imortal,
Tu, que, desagregando -te um dia em nós,
nos induzirá, forçosamente,
no íntimo daquilo que é.

Sem ti, matéria,
sem teus combates,
sem teus dilaceramentos,
viveríamos inertes,
estagnados,
pueris,
ignorantes de nós mesmos
e de Deus.

Tu que feres e que curas,
tu que resistes e que cedes,
que aprisionas e libertas,
tu que desmoronas e constróis,
seiva de nossas almas,
mãe de Deus,
carne do Cristo,
matéria,
eu te bendigo.

Eu te bendigo e te saúdo,
não como te descrevem,
diminuída e transfigurada,
os pontífices da ciência
e os pregadores da virtude.
Um amontoado - dizem eles -
de forças brutais ou
de apetites baixos,
mas como me apareces hoje,
na totalidade da tua verdade.

Eu te saúdo,
inesgotável capacidade de ser e de transformação,
onde germina e cresce
a substância escolhida.

Eu te saúdo,
universal poder
de aproximação e de união,
por onde se comunicam a multidão das moléculas
e a quem todas convergem,
em marcha para o espírito.

Eu te saúdo,
matriz harmoniosa das almas,
límpido cristal,
do qual será tirada a Nova Jerusalém.

Eu te saúdo,
meio divino,
carregado de poder criador,
oceano agitado pelo espírito,
argila modelada
e animada pelo Verbo encarnado.

Crendo obedecer ao teu irresistível apelo,
os homens se precipitam muitas vezes,
por teu amor,
no abismo externo dos prazeres egoístas.
Um reflexo os engana,
ou, então,
um eco.

Mas, agora eu vejo.
Para te atingir, matéria,
é preciso que,
partindo de um contato universal,
com tudo o que se move,
sintamos, pouco a pouco,
esvair-se entre nossos dedos,
as formas particulares de tudo que seguramos,
até que retenhamos, apenas,
a única essência
de todas as consistências e de todas as uniões.

Se quisermos te possuir,
temos que te sublimar na dor,
após termos, voluptuosamente,
apertado os braços.

Tu reinas, matéria,
nas serenas alturas,
onde imaginam evitar-te
os santos.
Carne tão transparente e móvel
que não te distinguimos mais de um espírito.

Leva-me para o alto, matéria,
pelo esforço,
a separação
e a morte.
Leva-me para onde for possível,
enfim, abraçar castamente
o universo.

22 de abril de 2015

No dia da Terra - Um "Hino à Matéria "- Teilhard de Chardin

Pe. Piere Teilhard de Chardin





Bedita sejas tu,
áspera matéria,
terra estéril,
dura rocha,
que cedes apenas à violência
e nos forças a trabalhar
se quisermos comer.

Bendita sejas,
poderosa matéria,
evolução irresistível,
realidade sempre nascendo,
que a cada momento fazes em estilhaços nossos limites
e nos obrigas a procurar
cada vez mais profundamente a verdade.

Bendita sejas,
matéria universal,
éter sem fronteiras,
triplo abismo das estrelas,
dos átomos e
das gerações.
Tu, que dissolvendo e transbordando
nossas estreitas medidas,
nos revelas as dimensões de Deus.

Bendita sejas,
impenetrável matéria.
tu que és tensão entre nossas almas
e o mundo das essências
e nos fazes definhar
com o desejo de romper o véu dos fenômenos.

Bendita sejas,
matéria imortal,
Tu, que, desagregando -te um dia em nós,
nos induzirá, forçosamente,
no íntimo daquilo que é.

Sem ti, matéria,
sem teus combates,
sem teus dilaceramentos,
viveríamos inertes,
estagnados,
pueris,
ignorantes de nós mesmos
e de Deus.

Tu que feres e que curas,
tu que resistes e que cedes,
que aprisionas e libertas,
tu que desmoronas e constróis,
seiva de nossas almas,
mãe de Deus,
carne do Cristo,
matéria,
eu te bendigo.

Eu te bendigo e te saúdo,
não como te descrevem,
diminuída e transfigurada,
os pontífices da ciência
e os pregadores da virtude.
Um amontoado - dizem eles -
de forças brutais ou
de apetites baixos,
mas como me apareces hoje,
na totalidade da tua verdade.

Eu te saúdo,
inesgotável capacidade de ser e de transformação,
onde germina e cresce
a substância escolhida.

Eu te saúdo,
universal poder
de aproximação e de união,
por onde se comunicam a multidão das moléculas
e a quem todas convergem,
em marcha para o espírito.

Eu te saúdo,
matriz harmoniosa das almas,
límpido cristal,
do qual será tirada a Nova Jerusalém.

Eu te saúdo,
meio divino,
carregado de poder criador,
oceano agitado pelo espírito,
argila modelada
e animada pelo Verbo encarnado.

Crendo obedecer ao teu irresistível apelo,
os homens se precipitam muitas vezes,
por teu amor,
no abismo externo dos prazeres egoístas.
Um reflexo os engana,
ou, então,
um eco.

Mas, agora eu vejo.
Para te atingir, matéria,
é preciso que,
partindo de um contato universal,
com tudo o que se move,
sintamos, pouco a pouco,
esvair-se entre nossos dedos,
as formas particulares de tudo que seguramos,
até que retenhamos, apenas,
a única essência
de todas as consistências e de todas as uniões.

Se quisermos te possuir,
temos que te sublimar na dor,
após termos, voluptuosamente,
apertado os braços.

Tu reinas, matéria,
nas serenas alturas,
onde imaginam evitar-te
os santos.
Carne tão transparente e móvel
que não te distinguimos mais de um espírito.

Leva-me para o alto, matéria,
pelo esforço,
a separação
e a morte.
Leva-me para onde for possível,
enfim, abraçar castamente
o universo.

10 de abril de 2014

Pierre Teilhard de Chardin




Piere Teilhard de Chardin  foi padre jesuítateólogofilósofo e paleontólogo. Nascido na França tentou construir uma visão integradora entre ciência e teologia. Através de suas obras, legou para a sua posteridade uma filosofia que reconcilia a ciência do mundo material com as forças sagradas do divino e sua teologia. Disposto a desfazer o mal entendido entre a ciência e a religião, conseguiu ser mal visto pelos representantes de ambas. Muitos colegas cientistas negaram o valor científico de sua obra, acusando-a de vir carregada de um misticismo e de uma linguagem estranha à ciência. Do lado da Igreja Católica, por sua vez, foi proibido de lecionar, de publicar suas obras teológicas e submetido a um quase exílio na China.

"Aparentemente, a Terra Moderna nasceu de um movimento anti-religioso. O Homem bastando-se a si mesmo. A Razão substituindo-se à Crença. Nossa geração e as duas precedentes quase só ouviram falar de conflito entre Fé e Ciência. A tal ponto que pôde parecer, a certa altura, que esta era decididamente chamada a tomar o lugar daquela. Ora, à medida que a tensão se prolonga, é visivelmente sob uma forma muito diferente de equilíbrio – não eliminação, nem dualidade, mas síntese – que parece haver de se resolver o conflito."
(Teilhard de CHARDIN, O Fenómeno Humano)





Biografia:

Criado em uma família profundamente católica, Chardin entrou para o noviciado daCompanhia de Jesus em Aix-en-Provence no ano de 1899 e para o juniorado em 1900, em Laval. Era a época das reformas liberais de Waldeck-Rousseau, que retirara das universidades católicas o direito de conceder graus e posteriormente dissolveu as ordens religiosas e expulsou vinte mil religiosos da França.  Por este motivo, teve que deixar a França e os seus estudos prosseguiram na ilha de JerseyInglaterra, onde cursou filosofia e letras. Licenciou-se neste curso em 1902. Entre 1905 e 1908 foi professor de física e química no colégio jesuíta da Sagrada Família do Cairo, no Egito, onde teve oportunidade de continuar suas pesquisas geológicas, iniciadas na Inglaterra. Seus estudos de teologia foram retomados em Ore Place, de 1908 a 1912. Ordenou-se sacerdote em 1911.
Entre 1912 e 1914 cursou paleontologia no Museu de História Natural de Paris. Foi a sua porta de entrada na comunidade científica. Durante seus estudos teve a oportunidade de visitar os sítios pré-históricos do noroeste da Espanha, entre eles, a Caverna de Altamira.
Durante a Primeira Guerra Mundial, foi carregador de maca dos feridos e depois capelão em diversas frentes de batalha.
Passada a Guerra, retomou os estudos em Paris, onde obteve o doutorado em 22 de março de 1922 na Universidade de Sorbonne com a tese: Os mamíferos do eoceno inferior francês e seus sítios. Em 1920 tornara-se professor de geologia no Instituto Católico de Paris. O ambiente intelectual de Paris proporcionou-lhe encontros fecundos para o exercício intelectual. Costumava apresentar suas ideias a plateias de jovens leigosseminaristas e professores. Do ponto de vista teológico, já assumira as ideias evolucionistas e realizava uma síntese original entre a ciência e a fé cristã.
Em 1922, escreveu Nota sobre algumas representações históricas possíveis do pecado original, que gerou um dossiê pela Santa Sé, acusando-o de negar o dogma do pecado original. Teve que assinar um texto que exprimia este dogma do ponto de vista ortodoxo e foi obrigado a abandonar a cátedra em Paris e embarcar para Tianjin na China. Este fato marcará uma nova etapa da sua vida: o silêncio sobre temas eclesiais e teológicos que duraria o resto da sua vida. Foi-lhe permitido trabalhar em pesquisas científicas e suas publicações deveriam ser cuidadosamente revisadas.
Embora proibido de escrever sobre temas eclesiais e teológicos, seus superiores imediatos estimularam suas pesquisas e escritos, desde que sua ortodoxia fosse assegurada por uma séria revisão, com a esperança de uma publicação posterior.
Em Pequim, realizou diversas expedições paleontológicas, e em 1929 participou da descoberta e estudo do sinantropo - o homem de Pequim. Também realizou pesquisas em diversos lugares do continente asiático, como o Turquestão, a Índia e a Birmânia.
Entre novembro de 1926 e março de 1927, estimulado pelo editor da coleção de espiritualidade Museum Lessianum, escreveu O Meio Divino a partir de suas notas de retiro. A obra foi submetida a dois censores romanos, que a consideraram aceitável. Ao ser submetida ao Imprimatur, o cônego encarregado submete a obra a teólogos romanos, que a consideraram suspeita pela originalidade. Apesar disto, cópias inéditas da obra passaram a circular, datilografadas e policopiadas.
Em Pequim, escreveu sua obra prima: O Fenômeno Humano. Encaminhou a obra a Romaem 1940, que prometeu o exame por teólogos competentes. Várias revisões foram encaminhadas sem que o nihil obstat fosse concedido.
Em 1946 retornou a Paris. Seus textos mimeografados continuavam a circular e suas conferências lotavam os auditórios. Foi convidado a lecionar no Collège de France. Diante de ameaças de novas sanções pela Santa Sé, dirige-se a Roma em 1948. A visita foi inútil: foi proibido de ensinar no Colégio da França e a publicação do Fenômeno Humano não foi autorizada.
Entre 1949 e 1950 deu cursos na Sorbonne que geraram a obra O grupo zoológico humano. Em 1950 foi eleito membro da Academia de Ciências do Instituto de Paris.
Em 1950, foi promulgada a encíclica Humani Generis pelo papa Pio XII, que na opinião de Chardin, bombardeava as primeiras linhas de seu trabalho.
Em 1951, mudou-se para Nova York, a convite da Fundação Wenner-Gren, que patrocinou duas expedições científicas na África para pesquisar sobre as origens do homem sob sua coordenação.
Pierre Teilhard de Chardin faleceu em 10 de abril de 1955, num domingo de Páscoa, em Nova York. No campo científico deixou uma obra vasta: cerca de quatrocentos trabalhos em vinte revistas científicas.
No campo filosófico, seu pensamento pode ser editado por um comitê internacional porque ele deixou do direito de suas obras para um colega, não para a sua ordem religiosa. No mesmo ano de sua morte, as Éditions du Seuil lançaram o primeiro volume das Ouevres de Teilhard de Chardin.
Santo Ofício solicitou ao Arcebispo de Paris que detivesse a publicação das obras. Em 1957, um decreto deste mesmo órgão decidiu que estes livros fossem retirados das bibliotecas dos seminários e institutos religiosos, não fossem vendidos nas livrarias católicas e não fossem traduzidos. Este decreto não teve muita adesão. Cinco anos mais tarde, uma advertência foi publicada, solicitando aos padres, superiores de Institutos Religiosos, seminários, reitores das Universidades que protejam os espíritos, principalmente o dos jovens, contra os perigos da obra de Teilhard de Chardin e seus discípulos. Segundo esta advertência, "sem fazer nenhum juízo sobre o que se refere às ciências positivas, é bem manifesto que, no plano filosófico e teológico, estas obras regurgitam de ambiguidades tais e até de erros graves que ofendem a doutrina católica".
A sua obra continuou a ser editada, chegando ao décimo terceiro volume em 1976, pelas Éditions du Seuil e foi traduzida em diversos idiomas. Seu trabalho teve grande repercussão, gerando diversos estudos a cerca de sua obra até nos dias atuais.
Em 12 de maio de 1981, por ocasião da comemoração do centenário do seu nascimento, Chardin teve sua obra reconhecida pela Igreja através de uma carta enviada pelo cardeal Agostino Casaroli, secretário de Estado do Vaticano, ao reitor do Instituto Católico de Paris. A carta afirma:
Sem dúvida, o nosso tempo recordará, para além das dificuldades da concepção e das deficiências da expressão dessa audaciosa tentativa de síntese, o testemunho da vida unificada de um homem aferrado por Cristo nas profundezas do seu ser, e que teve a preocupação de honrar, ao mesmo tempo, a fé e a razão, respondendo quase que antecipadamente a João Paulo II: "Não tenham medo, abram, escancarem as portas a Cristo, os imensos campos da cultura, da civilização, do desenvolvimento"
Suas ideias foram sendo incorporadas ao discurso oficial da Igreja, como depreende-se da mensagem do Papa Bento XVI por ocasião da Festa da Santíssima Trindade de 2009, dirigida aos fieis em Roma: "Em tudo o que existe, encontra-se impresso, em certo sentido, o "nome" da Santíssima Trindade, pois todo o ser, até as últimas partículas, é ser em relação, e deste modo se transluz o Deus-relação; transluz-se, em última instância, o Amor criador. Tudo procede do amor, tende ao amor e se move empurrado pelo amor, naturalmente, segundo diferentes níveis de consciência e de liberdade."… "Utilizando uma analogia sugerida pela biologia, diríamos que o ser humano tem no próprio "genoma" um profundo selo da Trindade, do Deus-Amor".3 E ainda mais claro, no dia 24 de Julho em Aosta, Itália o Papa Bento XVI diz: "Nós mesmos, com todo o nosso ser, temos que ser adoração e sacrifício, restituir o nosso mundo a Deus e assim transformar o mundo. A função do sacerdócio é consagrar o mundo a fim de que se torne hóstia viva, para que o mundo se torne liturgia: que a liturgia não seja algo ao lado da realidade do mundo, mas que o próprio mundo se torne hóstia viva, se torne liturgia. É a grande visão que depois teve também Teilhard de Chardin: no final teremos uma verdadeira liturgia cósmica, onde o cosmos se torne hóstia viva."



Como geopaleontólogo, Teilhard de Chardin estava familiarizado com as evidências geológicas e fósseis da evolução do planeta e da espécie humana. Como sacerdote cristão e católico, tinha consciência da necessidade de um meta-cristianismo que contribuísse para a sobrevivência do planeta e da humanidade sobre ele . No cerne da questão está a visão filosófica, teológica e mística de Teilhard de Chardin a respeito da evolução de todo o Universo, do caos primordial até o despertar da consciência humana sobre a Terra, estágio esse que, segundo ele, será seguido por uma Noogenese, a integração de todo o pensamento humano em uma única rede inteligente que acrescentará mais uma camada em volta da Terra: a Noosfera, que recobrirá todo o Biosfera Terrestre. A orientar todo esse processo, existe uma força que age a partir de dentro da matéria, que orienta a evolução em direcção a um ponto de convergência: o Ponto Ômega. Teilhard sustentava a ideia de um Panenteísmo cósmico: a crença de que Deus e o Universo mantém uma criativa e dinâmica relação de progressiva evolução.
Como escritor, a sua obra-prima é O Fenômeno Humano, além de centenas de outros escritos sobre a condição humana. Como paleontólogo, esteve presente na descoberta do Homem de Pequim. Ainda que ele estivesse presente depois do descobrimento do “Piltdown Man” a evidência aponta a o fato que ele nunca perdeu prestígio com a falsificação de um suposto fóssil "O Homem de Piltdown". Como Teilhard disse em 1920: "anatomicamente as partes não cabem."
Segundo Chardin, a Terra seria composta de várias camadas esféricas:
Barisfera ou núcleo metálico terrestre;
Litosfera ou camada de rochas;
Hidrosfera ou camada de água;
Atmosfera ou camada de ar;
Biosfera ou esfera da vida;
Noosfera ou esfera do pensamento ou espírito humano:
Cristosfera ou âmbito de Cristo 







Obras de Teilhard de Chardin
Cartas a Léontine Zanta
Cartas de Viagem
Cartas do Egipto
Ciência e Cristo
O Fenómeno Humano
Hino do Universo
Lugar do Homem no Universo
O Meio Divino
A Minha Fé
Reflexões e Orações no Espaço-Tempo
Sobre a Felicidade / Sobre o Amor



Obras Publicadas sobre Teilhard de Chardin
Rideau, Émile, s.j. - A favor de Teilhard ou contra?
Silvestre, José Gomes - Acção e sentido em Teilhard de Chardin
Cuénot, Claude - Aventura e Visão de Teilhard de Chardin
Barjon (L.) + Leroy (P.) - A Carreira Científica de Teilhard de Chardin
Arnould, Jacques - Darwin, Teilhard de Chardin, a Igreja e a evolução
JANEIRA, Ana Luísa - Energética no pensamento de Pierre Teilhard de Chardin
Lessa, Almerindo - As Estradas espirituais das ciências
Colomer, Eusébio, s.j. - A Evolução segundo Teilhard de Chardin
Tresmontant, Claude - Introdução ao Pensamento de T. de Chardin
Patrício, Manuel Ferreira - Leonardo Coimbra e Teilhard de Chardin
Demoulin, J.P. + autres - O Tempo e o Modo – Teilhard de Chardin
Lubac, Henri de - Oração (A) de Teilhard de Chardin
Mortier, Jeanne-Marie - Pierre Teilhard de Chardin Pensador Universal
Sebastião, Luís Miguel - Possibilidade de Fundamentação da Educação no Pensamento de Teilhard de Chardin
Dupleix, André - Quinze dias com Teilhard de Chardin
Fragata, Júlio - Revista Portuguesa de Filosofia – Teilhard de Chardin (entre out.)
Magalhães s.j., Vasco - Revista Portuguesa de Filosofia - Teilhard de Chardin (Braga)
Wildiers, N.M. - Teilhard de Chardin
L.Salleron+A.Monestier - Teilhard de Chardin - pró/contra
Noël Martin-Deslias - Teilhard de Chardin , aventureiro do espírito
Coffy, Robert - Teilhard de Chardin e o socialismo
(diversos autores) - Teilhard de Chardin, Evolução e Esperança
Nunes, J. Paulo - Teilhard de Chardin, o S. Tomás do século XX
Reimão, Cassiano - Teilhard de Chardin: evolução e esperança
Reis, António do Carmo - A Visão da história em Teilhard de Chardin
Pasolini, Piero - O Futuro melhor do que qualquer passado
Boff, Leonardo - Evangelho Do Cristo Cósmico




16 de agosto de 2012

''Nem utópico beat, nem milenarista''. Entrevista inédita com Pierre Teilhard de Chardin


Pierre Teilhard de Chardin
 (Orcines, 1/05/1881 – Nova York, 10/4/1955)


 Pierre Teilhard de Chardin foi um dos mais renomados teólogos-cientistas do século XX. Jesuíta e paleontólogo, elaborou uma teoria que unia criação e evolução no Ponto Ômega, representado por Cristo. 

A entrevista que segue foi concedida a Marcel Brion e publicada em janeiro de 1951 na revista francesa Les Nouvelles Littéraires: aqui, ele explica a sua concepção teológica e científica e rejeita as acusações que lhe foram dirigidas por ignorar o papel do mal e do sofrimento na vida.

A entrevista foi republicada pelo jornal dos bispos italianos, Avvenire, 06-08-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Todas as vezes em que eu encontro o padre Teilhard de Chardin, sou capturado por aquele "clima" de alta espiritualidade e de ciência pura que ele leva consigo para todo lugar. No quarto da Rue Monsieur, como nos campos de escavação na China ou no laboratório do Museu, ele sempre tem a mesma graça amável e irônica, aquela fineza aguda e benevolente ao mesmo tempo e aquela distinção oxfordiana que levam a pensar em algum scholar inglês que é, ao mesmo tempo, Darwin eNewman.

Ele está ao mesmo tempo contente e inquieto pelo fato de que a sua doutrina – chamá-la de teoria ou de sistema seria insuficiente – chega a um público cada vez mais vasto, cada vez mais atento e, acrescentaria, cada vez mais entusiasta e convicto, apesar dos obstáculos que com os quais a difusão do seu pensamento se deparou às vezes, até hoje. Contente porque esse sábio traz à humanidade uma mensagem de confiança, de esperança, de dinamismo vital, de convite a uma consciência mais elevada das possibilidades de progresso que lhe são oferecidas, mas também das crescentes responsabilidades que isso implica.

Inquieto porque essa doutrina, formulada explicitamente há pouco tempo, encontrou-se desfigurada, deformada, falsamente interpretada em certos âmbitos científicos e não só, e, consequentemente, nasceram muitos mal-entendidos e acenderam-se polêmicas até mesmo antes de serem publicadas as obras nas quais o padre Teilhard de Chardin expunha, em uma visão de conjunto, os resultados dos seus trabalhos científicos e das suas reflexões.

Eis a entrevista.

Como o senhor chegou às descobertas que tornaram o seu nome popular e o levaram a formular uma teoria do ser humano e do universo completamente nova?

A minha primeira infância foi passada entre as pedras, nas montanhas de Auvergne, ao lado de um pai naturalista que me transmitiu o gosto pela natureza e guiou a minha crescente paixão pela geologia. Os passeios entre as rochas fizeram nascer em mim o desejo de conhecer esse mundo mineral, tão misterioso e fascinante, que já exercia sobre a minha mente de criança uma atração poderosa e tenaz. Depois, eu estudei no colégio de Mongré, perto deLyon, e foi seguramente por ter respirado a atmosfera daquela santa casa que, logo depois dos estudos, entrei para aCompanhia de Jesus. Você a conhece, não? Em Aix, na calma e silenciosa Rue Lacépède, você que viveu por muito tempo em Aix-en-Provence? Ali eu passei o período do noviciado, animado por feriados e férias na nossa casa de campo de Tholonet.

Nessa paisagem tão intensamente geológica da Montagne Sainte Victoire, da qual Cézanne fez uma espécie de mito cósmico, de divindade original, de elemento primário, elevado na veemência mineral da metamorfose?

Sim, mas logo deixei a França pelas ilhas anglo-normanas: naquele tempo, as congregações eram expulsas do país e obrigadas a se refugiar no exterior. Enquanto eu continuava os meus estudos de filosofia em Jersey, naquela ilha eu tive a sorte de encontrar um autêntico jardim mineralógico, onde pude iniciar cientificamente no estudo da matéria: um objeto que sempre me fascinara.

Eu lembro que o senhor escreveu: "Através das rochas, me encontrei envolvido na estrada do planetário". Instintivamente, no mineral, o senhor procurava, ao mesmo tempo, o durável, o incorruptível. Quando criança, o senhor se desesperou no dia em que descobriu que o ferro era perecível e enferrujava...

Sim, tanto que, para me consolar, procurava equivalentes em outros lugares. Às vezes, em uma chama azul flutuante (ao mesmo tempo tão material, inaferrável e pura) nas cepas na lareira. Mais frequentemente, em alguma pedra mais transparentes ou mais colorida: cristais de quartzo ou de ametista, e principalmente fragmentos brilhantes de calcedônia, como eu podia coletar na minha região de Auvergne. Nesse caso, naturalmente, era preciso que a substância escolhida fosse resistente, inatacável e dura.

Já então o seu senso atual de uma irreversibilidade do movimento que vitaliza o mundo...

E foi assim que, pouco a pouco, despertei para o conceito de "matéria das coisas". Gradual e sutilmente, essa famosa consistência, que até então eu tinha perseguido no sólido e no denso, eu a descobria na direção de um elementar espalhado por toda parte, cuja própria ubiquidade formava a incorruptibilidade. Mais tarde, quando eu me ocuparia com a geologia, se podia acreditar que eu simplesmente sondava, com convicção e sucesso, as oportunidades de uma carreira científica. Mas, na realidade, o que, por toda a minha vida, me levou inevitavelmente (mesmo que às custas da paleontologia) ao estudo das grandes massas eruptivas e das zonas continentais não foi nada mais do que uma insaciável necessidade de manter o contato com uma espécie de raiz, ou de matriz, universal dos seres. É curioso, eu admito, o lugar axial invariavelmente ocupado pela paixão e pela ciência das pedras durante toda a minha embriogênese espiritual.

O senhor deixou Jersey, acredito, no fim daquela iniciação mineralógica, mais ou menos em 1905?

Sim, porque fui nomeado professor de física no Egito. Uma autêntica oportunidade, porque foi justamente no vale do Nilo, onde nasceu e se desenvolveu por milênios uma civilização prodigiosa, que o estudo dos fósseis trazidos à superfície do deserto me fez desviar para a paleontologia.

Que é, eu sei, a sua grande especialização...

Na realidade, o meu interesse científico sempre foi, e continua sendo, dividido entre a paleontologia humana e as questões da geologia continental, um pouco, se se quiser, como Darwin entre os fósseis e os cristais. Nessa competição, no entanto, no fim, foi o estudo do fenômeno humano que ganhou a dianteira nos meus gostos. (...) Sim, na ordem do pensamento científico, foi a descoberta, a tomada de consciência, eu diria, da ideia da evolução – de evolução biológica, quero dizer – que me permitiu conectar, no campo da experiência, os conceitos de energia material e de energia psíquica.

E depois o senhor teve que deixar o Museu, em 1914, para causa do fronte, dos zuavos e dos soldados. Mas não foi exatamente no fronte que germinou no senhor o conceito, tão original e fecundo, de uma noosfera em torno da Terra? O senhor gostaria de definir para os nossos leitores o que entende com o termo noosfera?

Eu usei esse termo pela primeira vez em um dos meus primeiros ensaios sobre o Fenômeno Humano, mais ou menos em 1927, mas, efetivamente, a ideia de uma comunidade espiritual humana adjacente ao orgânico havia nascido em mim nas trincheiras: a ideia, quero dizer, de uma espécie de "megaunidade" biológica especial que constitui o invólucro pensante da terra. Essa é, para mim, a noosfera.

No fim da guerra, o senhor retomou imediatamente os seus trabalhos no campo e no laboratório?

Não imediatamente. Em Verdun, havia morrido o meu querido amigo Jean Boussac, genro de [Pierre-Marie] Termiere, como ele, geólogo, e me foi dada a honra de pensarem em mim para a cátedra de geologia no Instituto Católico de Paris. Mas eu não fiquei lá por muito tempo. Eu havia recém-posto o pé lá quando, de repente, chegou a segunda grande oportunidade da minha vida. O padre Emile Licent, o explorador da China do Norte e fundador do Museu de Tianjin, estava procurando um geólogo que o acompanhasse. Graças à proteção do meu mestre Boule e do falecidoLacroix, um dos pilares da Academia das Ciências, em 1923, eu me encontrei como encarregado do Museu da Missão na China. Foi então que eu e o padre Licent tivemos a sorte de pôr a mão, no loess da bacia do Rio Amarelo, nos primeiros vestígios conhecidos de um paleolítico da China. Descoberta importante, mas que seria logo eclipsada por uma descoberta ainda mais sensacional: a descoberta feita por Andersson, Black e pelo Serviço Geológico da China do homem de Pequim ou sinantropo, um parente próximo do pitecantropo de Java, ambos, talvez, os homens fósseis mais antigos e mais primitivos por nós conhecidos.

Eu também sei que o senhor colaborou muito de perto (outra sorte da sua vida!) com a descoberta que valeu à ciência seis crânios de sinantropos, ao menos meia dúzia de mandíbulas e diversas dezenas de dentes isolados, em cerca de dez anos de pesquisa, de 1927 a 1937...

Esses restos humanos, pertencentes a cerca de 30 indivíduos, foram coletados durante escavações importantes e prolongadas em uma grande vala (50 metros) que constituía a área de uma antiga gruta enterrada e nivelada: muitos utensílios de pedra montados e uma enorme quantidade de ossos fósseis de veados, elefantes, rinocerontes, camelos, búfalos, antílopes e diversos carnívoros, quase todos representantes de espécies extintas há muito tempo. Naturalmente, ainda é difícil datar em anos esse distante primo do homem moderno. Mas podemos afirmar que, quando estava vivo, o manto das terras amarelas ainda não havia se depositado sobre o solo chinês. Fato este que nos remete para muito, muito atrás no tempo. Ao menos centenas de milhares de anos...

Eu conheço as conclusões gerais às quais essa longa carreira de estudioso lhe levou. Gostaria de resumi-las para os nossos leitores? Não se trata, naturalmente, de entrar nos detalhes dos problemas, mas apenas de entrever aquele "ultra-humano" que, cientificamente, em sua opinião, se desenha no término da evolução do Homo sapiens, de como a paleontologia nos faz conhecê-la e nos convida a levá-la adiante?

Especificamente, note-se bem, eu não sou nem filósofo, nem teólogo, mas sim um estudioso "do fenômeno" (um físico, no antigo sentido grego). Bem, nesse modesto nível de conhecimento, o que domina a minha visão das coisas é a metamorfose que o homem nos obriga a submeter o universo em torno a nós, a partir do momento em que (conforme aos imperiosos convites da ciência) nos decidimos a considerá-lo como constituinte, como parte integrante, nativa, do resto da vida. Em consequência a esse esforço de incorporação, emergem, se não me equivoco, duas constatações capitais na nossa percepção experimental das coisas.
A primeira é que o universo, muito mais do que "entropia" (que o leva novamente aos estados físicos mais prováveis), é caracterizado por um desvio preferencial de uma parte da sua matéria para estados cada vez mais complexos e sustentados por intensidades crescente de "consciência". Desse ponto de vista estritamente experimental, a vida não é mais uma exceção no mundo, mas aparece como um produto característico – o mais característico – do desvio psicoquímico universal. E o humano, ao mesmo tempo, torna-se, no campo da nossa observação, o termo provisoriamente extremo de todo o movimento. O humano: uma cabeça do mundo...
Posto isso, a segunda constatação à qual, a meu ver, somos conduzidos por uma aceitação científica integral do fenômeno humano é que a corrente de complexidade-consciência, da qual o psiquismo reflexo (isto é, o pensamento) brotou experimentalmente, ainda não parou, mas sim, através da totalização biológica da massa humana, continua funcionando, arrastando-nos, por efeito biológico de socialização, para certos estados ainda irrepresentáveis de reflexão coletiva, ou seja, como eu digo, para algum "ultra-humano". Tudo isso, repito, por simples extrapolação de uma lei de recorrência positivamente observável, sobre toda a extensão do passado, isto é, fora de todo sentimentalismo e de toda metafísica.
Pois bem, essa posição estritamente objetiva, mal-entendida, fez nascer e correr sob às minhas custas um certo número de lendas, em que as mais prejudiciais podem remeter às seguintes. Acima de tudo, eu fui considerado um otimista ou um utópico beat, que sonha com euforia humana ou com milenarismo confortável. Como se a maturação humana, que os fatos têm o fôlego para anunciar, não se apresentasse, nas minhas perspectivas, não como um repouso, mas até como uma crise de tensão, paga por um imenso rastro de desordens e de sofrimentos: crise totalmente repleta de riscos e, portanto, ainda mais dramática, por causa da enormidade do que está em jogo (o sucesso de um universo, nada menos!), de todas as fantasias egoístas e mórbidas do existencialismo contemporâneo.
Ainda mais grave, repete-se que eu seria o profeta de um universo destruidor de valores individuais: porque, a meu ver, o mundo se dirige, experimentalmente, a um estado sintético. Mas, na realidade, a minha grande preocupação sempre foi a de afirmar, em nome dos fatos, que a autêntica união não confunde, mas diferencia, e também que, no caso de seres pensantes e amantes (como o ser humano), longe de mecanizar, personaliza, e duplamente: primeiro, intelectualmente, por super-reflexão, e depois afetivamente, por unanimização. Assim, apesar do primado que eu concedo tecnicamente a tudo com relação ao elemento, eu me encontro, assim como a própria estrutura do meu pensamento científico, nos antípodas tanto de um totalitarismo social que leva ao formigueiro, quanto de um panteísmo hinduizante que busca saída e a figura última do espiritual na direção de uma identificação dos seres com um fundo comum subjacente à variedade dos eventos e das coisas.
Nem mecanização, portanto, nem identificação por fusão e perda de consciência, mas sim unificação por ultradeterminação laboriosa e amor. É preciso reconhecer que essas visões biológicas podem ter uma certa incidência sobre a nossa avaliação dos valores humanos. Fazem-nos propender para um humanismo renovado, baseado não mais, como no século XVI, em uma redescoberta do passado, mas sim sobre possibilidades inesperadas conservadas para nós pelo futuro. Mas o nascimento, ao nosso redor, de um tal "neo-humanismo" (ligado, no meu pensamento religioso, aos progressos da "caridade") não é precisamente uma das características distintivas dos tempos que estamos atravessando?
Fonte :

17 de março de 2012

Hino à Matéria

Piere Teilhard de Chardin


Bedita sejas tu,
áspera matéria,
terra estéril,
dura rocha,
que cedes apenas à violência
e nos forças a trabalhar
se quisermos comer.

Bendita sejas,
poderosa matéria,
evolução irresistível,
realidade sempre nascendo,
que a cada momento fazes em estilhaços nossos limites
e nos obrigas a procurar
cada vez mais profundamente a verdade.

Bendita sejas,
matéria universal,
éter sem fronteiras,
triplo abismo das estrelas,
dos átomos e
das gerações.
Tu, que dissolvendo e transbordando
nossas estreitas medidas,
nos revelas as dimensões de Deus.

Bendita sejas,
impenetrável matéria.
tu que és tensão entre nossas almas
e o mundo das essências
e nos fazes definhar
com o desejo de romper o véu dos fenômenos.

Bendita sejas,
matéria imortal,
Tu, que, desagregando -te um dia em nós,
nos induzirá, forçosamente,
no íntimo daquilo que é.

Sem ti, matéria,
sem teus combates,
sem teus dilaceramentos,
viveríamos inertes,
estagnados,
pueris,
ignorantes de nós mesmos
e de Deus.

Tu que feres e que curas,
tu que resistes e que cedes,
que aprisionas e libertas,
tu que desmoronas e constróis,
seiva de nossas almas,
mãe de Deus,
carne do Cristo,
matéria,
eu te bendigo.

Eu te bendigo e te saúdo,
não como te descrevem,
diminuída e transfigurada,
os pontífices da ciência
e os pregadores da virtude.
Um amontoado - dizem eles -
de forças brutais ou
de apetites baixos,
mas como me apareces hoje,
na totalidade da tua verdade.

Eu te saúdo,
inesgotável capacidade de ser e de transformação,
onde germina e cresce
a substância escolhida.

Eu te saúdo,
universal poder
de aproximação e de união,
por onde se comunicam a multidão das moléculas
e a quem todas convergem,
em marcha para o espírito.

Eu te saúdo,
matriz harmoniosa das almas,
límpido cristal,
do qual será tirada a Nova Jerusalém.

Eu te saúdo,
meio divino,
carregado de poder criador,
oceano agitado pelo espírito,
argila modelada
e animada pelo Verbo encarnado.

Crendo obedecer ao teu irresistível apelo,
os homens se precipitam muitas vezes,
por teu amor,
no abismo externo dos prazeres egoístas.
Um reflexo os engana,
ou, então,
um eco.

Mas, agora eu vejo.
Para te atingir, matéria,
é preciso que,
partindo de um contato universal,
com tudo o que se move,
sintamos, pouco a pouco,
esvair-se entre nossos dedos,
as formas particulares de tudo que seguramos,
até que retenhamos, apenas,
a única essência
de todas as consistências e de todas as uniões.

Se quisermos te possuir,
temos que te sublimar na dor,
após termos, voluptuosamente,
apertado os braços.

Tu reinas, matéria,
nas serenas alturas,
onde imaginam evitar-te
os santos.
Carne tão transparente e móvel
que não te distinguimos mais de um espírito.

Leva-me para o alto, matéria,
pelo esforço,
a separação
e a morte.
Leva-me para onde for possível,
enfim, abraçar castamente
o universo.



5 de março de 2012

A missa sobre o Mundo

O texto está na obra  "Hino ao Universo" escrito , 
em momento de grande sofrimento pela injustiça que sofria 
durante o" silencio obsequioso"
 imposto pela Igreja ao Pe. PiereTeilhard de Chardin

 Foi composto quando ele não tinha acesso às espécies, pão e vinho, para celebrar a missa. Ganhamos nós, com essa maravilha de rara beleza e espiritualidade.

Na época o Pe. Teilhard era considerado um herege por suas ideias revolucionárias, hoje em nossos dias o atual  papa o cita como se nada houvesse acontecido.

Infelizmente Teilhard não pode ver sua obra publicada, já que o Vaticano 
só retirou a proibição após a sua morte.


A MISSA SOBRE O MUNDO

OFERTÓRIO

Senhor, já que uma vez ainda, não mais nas florestas da França, mas nas
estepes da Ásia, não tenho pão, nem vinho, nem altar, eu me elevarei acima
dos símbolos até à pura majestade do Real, e vos oferecerei, eu, 

vosso sacerdote, sobre o altar da terra inteira, 
o trabalho e o sofrimento do  mundo.

O sol acaba de iluminar, ao longe, a franja extrema do primeiro oriente.
Mais uma vez, sob a toalha móvel de seus fogos, a superfície viva da Terra
desperta, freme, e recomeça seu espantoso trabalho. Colocarei sobre minha
patena, meu Deus, a messe esperada desse novo esforço. Derramarei no meu
cálice a seiva de todos os frutos que hoje serão esmagados.

Meu cálice e minha patena, são as profundezas de uma alma largamente aberta
a todas as forças que, em um instante, vão elevar-­se de todos os pontos do
Globo e convergir para o Espírito. - Que venham pois, a mim, a lembrança e a
mística presença daqueles que a luz desperta para uma nova jornada!

Um a um, Senhor, eu os vejo e os amo, aqueles que me destes como sustento e
como encanto natural de minha existência. Um a um, também, eu os conto, os
membros dessa outra e tão cara família que pouco a pouco as afinidades do
coração, da pesquisa científica e do pensamento juntaram à minha volta, a
partir dos elementos mais diversos. Mais confusamente, mas todos sem
exceção, eu os evoco, aqueles cuja tropa anônima forma a massa inumerável
dos vivos: aqueles que me rodeiam e me sustentam sem que eu os conheça;
aqueles que vêm e aqueles que vão; sobretudo aqueles que, na Verdade ou
através do Erro, no seu escritório, laboratório ou fábrica, crêem no
progresso das Coisas e, hoje, perseguirão apaixonadamente a luz.

Quero que nesse momento meu ser ressoe ao murmúrio profundo dessa multidão
agitada, confusa ou distinta, cuja imensidade nos espanta, - desse oceano
humano cujas lentas e monótonas oscilações lançam a inquietação nos corações
mais crentes. Tudo aquilo que vai aumentar no Mundo,
ao longo deste dia, tudo aquilo que vai diminuir, - tudo aquilo que vai
morrer, também, - eis, Senhor, o que me esforço por reunir em mim para vos
oferecer; eis a matéria de meu sacrifício, o único que vós podeis desejar.

Outrora, carregava-­se para vosso Templo as primícias das colheitas e a flor
dos rebanhos. A oferenda que esperais agora, aquela de que tendes
misteriosamente necessidade cada dia, para aplacar vossa fome, para acalmar
vossa sede, não é nada menos do que o crescimento do mundo impelido pelo
devir universal.

Recebei, Senhor, esta Hóstia total que a Criação, movida por vossa atração,
vos apresenta à nova aurora. Este pão, nosso esforço, não é em si, eu o sei,
mais que uma degradação imensa. Este vinho, nossa dor, não é ainda, ai de
mim, mais que uma dissolvente poção. Mas, no fundo dessa massa informe,
colocastes – disso estou certo, porque o sinto – um irresistível e
santificante desejo que nos faz a todos gritar, desde o ímpio ao fiel:
“Senhor, fazei-nos Um!

Porque, à falta do zelo espiritual e da sublime pureza de vossos santos,
deste-me, meu Deus, uma simpatia irresistível por tudo quanto se move na
matéria obscura, - porque irremediavelmente, reconheço em mim, bem mais que
um filho do Céu, um filho da Terra, - subirei, esta manhã, em pensamento, às
alturas, carregado das esperanças e das misérias de minha Terra-Mãe; e lá,
por força de um sacerdócio que somente Vós, creio, me destes, - sobre tudo
aquilo que, na Carne humana, se prepara para nascer ou perecer sob o sol que
se levanta, eu chamarei o Fogo.

O FOGO NO MUNDO

Aconteceu.

O fogo, mais uma vez, penetrou na Terra.

Não caiu ruidosamente sobre os cimos como o raio em seu fragor. Força o
Mestre as portas para entrar em sua casa?

Sem abalo, sem trovão, a chama iluminou tudo por dentro. Desde o coração do
menor átomo à energia das leis mais universais, ela tão naturalmente
invadiu, individual e conjuntamente, cada elemento, cada mola, cada liame de
nosso Cosmos que ele, poder-se-ia crer, inflamou-se espontaneamente.

Na Humanidade nova que hoje se engendra, O Verbo prolongou o ato sem fim de
seu nascimento; e, por virtude de sua imersão no seio do Mundo, as grandes
águas da Matéria, sem um arrepio, carregaram-se de vida. Nada estremeceu,
aparentemente, sob a inefável transformação. E, entretanto, misteriosa e
realmente, ao contato da substancial Palavra, o Universo, imensa Hóstia, se
fez Carne. Meu Deus, toda matéria é doravante encarnada, pela vossa
Encarnação.

Há tempo que nossos pensamentos e nossas experiências humanas reconheceram
as estranhas propriedades do Universo que o fazem tão semelhante a uma
Carne...

Como a Carne, ele nos atrai pelo encanto que flutua no mistério de suas
dobras e na profundidade de seus olhos.

Como a carne, ele se decompõe e nos escapa sob o trabalho de nossas
análises, de nossas quedas e de sua própria duração.

Como a Carne, ele não se abraça verdadeiramente senão no esforço sem fim
para atingí-lo sempre mais além daquilo que nos é dado.

Senhor, todos nós sentimos, ao nascer, essa mistura inquietante de
proximidade e distância. E, não há, na herança de dor e de esperança que
transmitem as idades, não há nostalgia mais desolada que aquela que faz o
homem chorar de irritação e de desejo no seio da Presença que paira,
implacável e anônima, em todas as coisas, à sua volta: "Que definitivamente
os homens A alcancem..."

Agora, Senhor, pela Consagração do Mundo, o clarão e o perfume flutuando no
Universo, tomam, em Vós, corpo e feição para mim. Aquilo que meu pensamento
hesitante entrevia, aquilo que meu coração reclamava por um desejo
inverossímil, Vós mo concedeis magnificamente: que as criaturas não sejam
somente solidárias entre si, a ponto de nenhuma poder existir sem que todas
as outras a rodeiem, - mas que sejam de talmaneira sustentadas pelo mesmo
centro real, que uma verdadeira Vida, expeimentada em comum, lhes dê
definitivamente sua consistência e sua união.

Fazei explodir, meu Deus, pela audácia de vossa Revelação, a timidez de um
pensamento pueril que nada ousa conceber de mais vasto, nem de mais vivo no
mundo, que a miserável perfeição de nosso organismo humano! Na via de uma
compreensão mais ousada do Universo, os filhos do século ultrapassam, a cada
dia, os mestres de Isarel. Vós, Senhor, Jesus, "em que todas as coisas
encontram sua consistência", revelai-Vos enfim àqueles que vos amam, como a
Alma superior e o Foco físico da Criação. Trata-se de nossa vida, não vedes?
Se eu não pudesse acreditar que vossa Presença real anima, enleva, aquece a
menor das energias que me penetram ou que me roçam, não morrria de frio,
enregelado no âmago de meu ser?

Obrigado, meu Deus, por terdes, de mim maneiras, conduzido meu olhar até
fazê-lo descobrir a imensa simplicidade das Coisas! Pouco a pouco, sob o
desenvolvimento irresistível das aspirações que depositastes em mim quando
eu era ainda uma criança, sob a influência de amigos excepcionais que
surgirm na altura exata ao longo de meu caminho para esclarecer e fortalecer
o meu espírito, sob o despertar de iniciaões terríveis e doces cujos
círculos me fizestes sucessivamente transpor, chego a nada mais poder ver
nem respirar fora do Meio onde tudo não é mais que Um.

Neste momento em que Vossa vida acaba de passar com um acréscimo de vigor no
Sacramento do Mundo, experimentarei, com uma consciência maior, a forte e
calma embriaguez de uma visão cuja coerência e harmonia não chego a esgotar.

O FOGO ACIMA DO MUNDO

Iludimo-nos tenazmente a respeito do Fogo, esse princípio do Ser, julgando
que ele sai das profundezas da Terra e que sua chama se alumia
progressivamente ao longo da brilhante esteira da Vida. Senhor, destes-me a
graça de compreender que esta visão era falsa e que, para Vos perceber, eu
deveria mudá-la completamente. No princípio, havia o poder inteligente,
amante e ativo. No princípio, era o Verbo sobernamente capaz de sujeitar a
si e modelar toda a Matéria que nascesse. No princípio, não havia o frio e
as trevas, mas o Fogo. Eis a Verdade.

Assim, pois, bem antes que de nossa noite jorre gradualmente a luz, é a luz
pré-existente que, paciente e infalivelmente, elimina nossas sombras.
Criaturas, somos por nós mesmos, Sombra e Vazio.
Vós sois, meu Deus, o próprio fundo e a estabilidade do Meio eterno, sem
duração nem espaço, em que gradualmente, nosso Universo emerge e se consuma,
perdendo os limites pelos quais nos parece tão grande. Tudo é ser, não há
senão ser em tudo, fora da gragmentação das criaturas e da oposição de seus
átomos.

Espírito ardente, Fogo fundamental e pessoal. Termo real de uma união mil
vezes mais bela e desejável que a fusão destruidora imaginada por qualquer
panteísmo, dignai-vos, esta vez ainda, descer sobre a frágil película de
matéria nova, com a qual o mundo vai se envolver hoje, para lhe dar uma
alma.

Eu sei. Não poderíamos ditar, nem mesmo antecipar o menor de vossos gestos.
De Vós, todas as iniciativas, a começar por esta de minha oração.

Verbo bilhante, Poder ardente, Vós que modelais o Múltiplo para lhe insuflar
vossa vida, baixai, eu Vos peço, sobre nós, vossas mãos poderosas, vossas
mãos previdentes, vossas mãos onipresentes, essas mãos que não tocam nem
aqui nem ali (como faria uma mão humana), mas que misturadas à profundeza e
à universalidade presente e passada das Coisas, nos atingem simultaneamente
por tudo quanto existe de mais vasto e de mais interior em nós e à nossa
volta.

Com essas mãos invisíveis, preparai, por uma adaptação suprema, para a
grande obra que meditais, o esforço terrestre cuja totalidade, reunida em
meu coração, eu vos apresento agora. Remanejai, corrigi, refundi até às
origens, ete esforço, Vós que sabeis por que é impossível que a criatura não
nasça senão sustentada pela haste de uma interminável evolução.

E agora, pronunciai sobre ele, por minha boca, a dupla e eficaz palavra, sem
a qual tudo desmorona, tudo se desata, em nossa sabedoria e em nossa
experiência, - mas com a qual tudo se reúne e tudo se consolida, a perder de
vista, em nossas especulações e nossa prática do Universo. – Sobre toda a
vida que vai germinar, crescer, florescer e amadurecer neste dia, repeti:
“Isto é o meu Corpo”. – E, sobre toda a morte pronta a corroer, fanar e
segar, ordenai (o mistério de fé por excelência!): “Isto é o meu Sangue”.

O que experimento em face e no seio do Mundo assimilado por vossa Carne,
tornado vossa Carne, meu Deus - não é nem a absorção do monista ávido de se
fundir na unidade das coisas, - nem a emoção do pagão prostrado aos pés de
uma divindade tangével, - nem o abandono passivo do quietista agitado ao
sabor das energias místicas.

Tomando dessas diversas correntes algo de sua força, sem me levar a nenhum
empecilho, a atitude na qual fixo vossa universa Presença, é uma dmirável
síntese em que se unem, corrigindo-se, três das mais temíveis paixões que
sempre podm excitar um coração humano:

Como o monista, eu mergulho na Unidade total, - mas a Unidade que me recebe
é tão perfeita que nela sei encontrar, perdendo-me, o último aperfeiçoamento
de minha individualidade.

Como o pagão, adoro um Deus palpável. Eu até toco esse Deus, por toda a
superfície e profundidade do Mundo da Matéria em que me encontro. Mas para
alcançá-lo como eu quereria (simplemente para continuar a tocá-lo), é
necessário que eu vá sempre mais longe, através e para além de qualquer
empresa, - sem poder descansar em nada - levado a cada instante pelas
criaturas e a cada instnte ultrapassando-as, - num contínuo acolhimento e
num contínuo desapego.

Como o quietista, deixo-me deliciosamente embalar pela divina Fantasia. Mas,
ao mesmo tempo, sei que a Vontade divina só me será revelada, a cada
instante, no limite de meu esforço. Eu só tocarei Deus na matéria, como
Jacó, quando tiver sido vencido por Ele.

Assim, porque me apareceu o Objeto definitivo, total, conforme o qual está
afinada minha natureza, as potências de meu sr se põem espontaneamente a
vibrar segundo uma Nota Única, incivelmente rica, onde distingo, unidas sem
esforço, as tendências mais opostas: a exaltação de agir e a alegria de
suportar; a volúpia de reter e a febre de ultrapassar; o orgulho de crescer
e a felicidade de desaparecer em alguém maior que eu.

Rico da seiva do Mundo, subo para o Espírito que me sorri para além de toda
conquista, revestido do esplendor concreto do Universo. E, perdido no
mistério da Carne divina, eu já não saberia dizer qual é a mais radiosa
destas duas bem-aventuranças: ter encontrado o Verbo para dominar a Matéria,
ou possuir a Matéria para atingir e receber a luz de Deus.

Fazei, Senhor, com que vossa descida sobre as Espécies universais seja para
mim, não somente querida e acariciada como o fruto de uma especulação
filosófica, mas que ela se torne verdadeirmente uma Presença real. Em
potência e em direito, queiramos ou não, estais encarnado no Mundo e vivemos
suspensos a Vós. Mas, de fato, falta (e quanto!) para todos nós, que Vós
estejais igualmente próximo. Levados, todos juntos, no seio de um mesmo
Mundo, formamos, não obstante, cada um, nosso pequeno Universo no qual a
Encarnação se opera independentemente, com uma intensidade e nuanças no
altar, pedimos que, para nós, a consagração se faça: "Para que se torne para
nós o Corpo e o Sangue de Jesus Cristo... ". Se creio firmemente que tudo, à
minha volta, é o Corpo e o Sangue do Verbo, então para mim (e, num certo
sentido, só para mim) se produz a maravilhosa 'Diafania' que faz
transparecer objetivamente, na profundidade de todo o fato e de todo
elemento, o calor luminoso de uma mesma Vida. Mas que minha fé, por
desgraça, esmoreça logo a luz se extigue, tudo se tona obscuro, tudo se
decompõe.

No dia que começa, Senhor, acabaste de descer. Ai, que infinita diversidade
nos graus de vossa presença par os acontecimentos que se preparam e que
todos suportaremos! Nas mesmas circunstâncias exatmente, prontas a me
envolver e a envolver meus irmãos, podeis ser um pouco, muito, cada vez
mais, ou nada.

Para que nenhum veneno me prejudique hoje, para que morte alguma me elimine,
para que nenhum vinho me embriague, para que em toda criatura eu Vos
descubra e Vos sinta - Senhor, fazei que eu creia!

COMUNHÃO

Se o Fogo desceu ao coração do Mundo é, finalmente, para me tomar e para me
absorver. A partir de então, não basta que eu o contemple e que por uma fé
viva intensifique sem cessar seu ardor à minha volta. É preciso que, depois
de haver cooperado, de todas as minhas forças, com a Consagração que o faz
jorrar, eu consinta enfim na comunhão que lhe dará em minha pessoa o
alimento que ele veio finalmente procurar.

Prosto-me, meu Deus, diante de vossa Presença no Universo em chamas e, sob
os traços de tudo aquilo que encontrarei, e de tudo que me acontecerá, e de
tudo que realizarei neste dia, desejo-Vos e Vos espero.

É terrível ter nascido, isto é, encontrar-se irrevogavelmente arrebatado,
sem o ter querido, numa torrente de energia formidável que parece querer
destruir tudo quanto arrasta consigo.

Quero, meu Deus, por uma inversão de forças das quais só Vós podeis ser o
autor, que o pavor que me domina diante das alterações sem nome, prontas a
renovar meu ser, vire uma alegria transbordante de ser transformado em Vós.

Sem hesitar, primeiro, estenderei a mão para o pão ardente que me
apresentais. Neste pão, onde encerrastes o germe de todo desenvolvimento,
reconheço o princípio e o segredo do futuro que me reservais. Tomá-lo é me
entregar, eu o sei, aos poderes que me arrancarão dolorosmente de mim mesmo
para me atirar no perigo, no trabalho, na renovação contínua das idéias, no
desapego austero das afeições. Comê-lo é adquirir, por aquilo que em todas
as coisas está acima de tudo, um gosto e uma afinidade que me tornarão
doravante impossíveis as alegrias em que se acalentava minha vida. Senhor
Jesus, aceito ser possuído por Vós, e conduzido pelo inexprimível poder de
vosso Corpo ao qual estarei ligado, em direção a soledades às quais,
sozinho, jamais teria ousado subir. Instintivamente, como todo Homem,
gostaria de erguer aqui minha tenda sobre um monte escolhido. Tenho medo,
como todos os meus irmãos, do futuro excessivamente misterioso e novo para o
qual me impele a duração. E depois com eles pergunto-me ansioso: aonde vai a
vida?... Possa esta comunhão do pão com o Cristo revestido dos poderes que
dilatam o Mundo libertar-me de minha timidez e de minha indiferença.
Lanço-me, ó meu Deus, apoiado em vossa Palavra, no turbilhão das lutas e das
energias em que se desenvolverá meu poder de perceber e expeimentar vossa
Santa Presença. Aquele que amar apaixonadamente a Jesus escondido nas forças
que fazem crescer a Terra, a Terra maternalmente o elevará em seus braços
gigantes e o fará contemplar o semblante de Deus.

Se vosso reino, meu Deus, fosse deste Mundo, bastaria para Vos possuir, que
eu me confiasse aos poderes que nos fazem sofrer e morrer engrandecendo-nos
palpavelmente a nós ou àquilo que nos é mais caro em nós mesmos. Mas, posto
que o Termo em direção ao qual se move a Terra está para além não somente de
cada coisa individual, mas do conjunto das coisas - o trabalho do Mundo
consiste não em engendrar em si mesmo alguma Realidade suprema, mas em se
consumir por união num Ser pré-existente - conclui-se que, para chegar ao
centro flamejante do Universo, não basta ao Homem viver cada vez mais para
si, nem mesmo dedicar sua vida a uma causa terrestre por maior que ela seja.
O Mundo só pode finalmente se reunir a Vós, Senhor, por uma espécie de
inversão, de retorno, de excentração onde por um tempo, soçobra não somente
o êxito dos indivíduos, mas a própria aparência de todo proveito humano.
Para que meu ser seja decididamente anexado ao vosso, é preciso que morra em
mim não somente a mônada, mas o Mundo, isto é, que eu passe pela fase
dilacerante de uma diminuição que nada de tangível virá compensar. Eis por
que, recolhendo no cálice a amargura de todas as separações, de todas as
limitações, de todas as quedas estéreis, Vós mo ofereceis: "Bebei dele
todos".

Como, Senhor, recusaria este Cálice, agora que pelo pão que me fizestes
saborear, introduziu-se no âmago de meu ser a inextinguível paixão de Vos
abraçar, para além da vida, através da morte? A Consagração do Mundo já
permaneceria inacabada se não tivésseis animado com predileção, para aqueles
que crêem, as forças que matam, depois das que vivificam. Minha Comunhão
seria então incompleta (simplesmente não seria cristã) se, com os acréscimos
que este novo dia me traz, eu não recebesse, em meu nome e em nome do Mundo,
como a mais direta participação em Vós mesmo, o trabalho, surdo ou
manifesto, de enfraquecimento, de velhice e de morte que mina
incessantemente o Universo, para sua salvação ou condenação. Abandono-me
perdidamente, ó meu Deus, às temíveis ações de dissolução pelas quais vossa
divina Presença se substituirá hoje, nisso quero crer totalmente, à minha
estreita personalidade. Aquele que tiver amado apaixonadamente a Jesus
escondido nas forças que fazem morrer a Terra, a Terra se desfazendo, o
estreitará em seus braços gigantes e, com ela, ele também despertará no seio
de Deus.

ORAÇÃO

E agora, Jesus, que escondido sob os poderes do Mundo, Vos tornastes
verdadeira e fisicamente tudo para mim, tudo à minha volta, tudo em mim,
farei passar numa mesma aspiração a embriaguez daquilo que tenho e a sede
daquilo que me falta, e Vos repetirei, segundo vosso servidor, as palavras
inflamadas em que se reconhecerá sempre mais exatamente, nisso tenho fé
inabalável, o Cristianismo de amanhã:

"Senhor, encerrai-me no mais profundo das entranhas de vosso Coração. E,
quando aí me tiverdes, abrasai-me, purificai-me, inflamai-me, sublimai-me,
até a satisfação perfeita de vossos gostos, até a mais completa aniquilação
de mim mesmo."

"Senhor". Ah sim, finalmente! pelo duplo mistério da Consagração e da
Comunhão universais, encontrei assim alguém a quem possa, de todo o coração,
dar este nome: Senhor! Enquanto eu não soube ou não ousei ver em Vós, Jesus,
mais que o Homem de há dois mil ano, o Moralista sublime, o Amigo, o Irmão,
meu amor permaneceu tímido e constrangido. Amigos, irmãos, sábios, não os
temos nós tão grandes e tão requintados e mais próximos, à nossa volta? E
depois, pode o Homem se dar plenamente a uma natureza estritamente humana?
Desde sempre, o Mundo, acima de todo elemento do Mundo, havia tomado meu
coração, e eu nunca me curvara sinceramente diante de mais ninguém. Então,
durante muito tempo, mesmo crendo, errei sem saber aquilo que amava. Mas
hoje que, pela plena manifestação dos poderes supra-humanos que a
Ressurreição vos conferiu, transpareceis para mim, Mestre, através de todos
os poderes da Terra; hoje eu Vos reconheço como meu Soberano e me entrego
deliciosamente a Vós.

Estranhos caminhos os de vosso Espírito, meu Deus! - Quando, há dois
séculos, começou a se fazer sentir em vossa Igreja, a atração distinta de
vosso Coração, pôde parecer que o que seduzia as almas era a descoberta em
Vós de um elemento mais determinado, mais circunscrito que a vossa própria
Humanidade. Ora, eis que agora, súbita inversão: torna-se evidente que pela
"revelação" de vosso Coração, Vós quisestes, acima de tudo, Jesus, fornecer
ao nosso amor o meio de escapar do que era estreito demais, preciso demais,
limitado demais na imagem que fazíamos de Vós. No centro de vosso peito, não
percebo senão uma fornalha; e quanto mais fixo esta fornalha ardente, tanto
mais me parece que à volta os contornos de vosso Corpo se fundem, crescendo
além de toda medida, até não se distinguirem mais em Vós outros traços que
os da figura de um Mundo incendiado.

Cristo glorioso! Influência secretamente difusa no seio da Matéria e Centro
deslumbrante em que se ligam todas as fibras inúmeras do Múltiplo;
Potência implacável como o Mundo e quente como a Vida; Vós que tendes a
fronte de neve, os olhos de fogo, os pés mais irradiantes que o ouro em
fusão; Vos cujas mãos aprisionam as estrelas, Vós que sois o primeiro e
o último, o vivo, o morto e o ressuscitado: Vós que reunis em vossa unidade
todos os encantos, todos os gostos, todas as forças, todos os estados: é por
Vós que meu ser chamava com um desejo tão vasto quanto o Universo: Vós sois
verdadeiramente meu Senhor e meu Deus!

"Encerrai-me em Vós, Senhor." Ah! eu creio (e tanto que essa fé se tornou um
dos fundamentos de minha vida íntima): trevas absolutamente exteriores a Vós
seriam umpuro nada. Nada pode subsistir fora de vossa Carne, Jesus; a tal
ponto que mesmo aqueles que se encontram rejeitados fora de vosso amor se
beneficiam ainda, para sua infelicidade, do suporte de vossa presença.
Estamos todos irremediavelmente em Vós, Meio universal de consistência e de
vida! - Mas justamente porque não somos coisas definitivamente prontas que
possam ser concebidas indiferentemente como próximas ou afastadas de Vós;
justamente porque em nós o sujeito da união cresce com a própria união que
nos entrega progressivamente a Vós; - em nome daquilo que há de mais
essencial em meu ser, Senhor, escutai o desejo desta coisa que ouso chamar
minha alma, ainda que, a cada dia que passa, eu compreenda o quanto ela é
maior do que eu; e para estancar minha sede de existir - através das zonas
sucessivas de vossa Substância profunda - atraí-me até as dobras íntimas do
Centro de vosso Coração.

Mais profundo sois encontrado, Mestre, mais vossa influência se descobre
universal. Sob este aspecto poderia apreciar, a cada instante, o quanto
avancei em Vós. Quando eu visse todas as coisas guardando à minha volta seu
sabor num único Elemento, infinitamente próximo e infinitamente distante, -
quando, aprisionado na intimidade ciumenta de um santuário divino, eu me
sentisse entretanto errar livremente pelo céu de todas as criaturas, então
saberia estar próximo do lugar central para onde converge o coração do Mundo
na irradiação descendente do Coração de Deus.

Nesse ponto de universal abrasamento, agi sobre mim, Senhor, pelo fogo
reunido de todas as ações interiores e exteriores que, provadas menos perto
de Vós, seriam neutras, equívocas ou hostis; mas que, animadas por uma
Energia "que tudo pode dominar", tornam-se, nas profundezas físicas de vosso
Coração, os anjos de vossa vitoriosa operação. Por uma combinação
maravilhosa, com vossa atração, exaltai - e depois desgostai - meu coração
do encanto das criaturas e da sua insuficiência, de sua doçura e de sua
maldade, de sua decepcionante fraqueza e de seu espantoso poder; ensinai-me
a verdadeira pureza, aquela que não é separação anemizante das coisas, mas
um impulso através de todas as belezas; revelai-me a verdadeira caridade,
aquela que não é o medo estéril de fazer o mal, mas a vontade vigorosa de
forçar, todos juntos, as portas da vida; dai-me, enfim, dai-me acima de
tudo, por uma visão sempre maior de vossa onipresença, a paixão
bem-aventurada de descobrir, de fazer e de suportar sempre um pouco mais o
MUndo, a fim de penetrar sempre mais em Vós.

Toda minha alegria e meu êxito, toda a minha razão de ser e meu gosto de
viver, meu Deus,
estão suspensos a essa visão fundamental de vossa conjunção com o Universo.
Que outros anunciem os esplendores de vosso puro Espírito! Para mim,
dominado por uma vocação que penetra até ás últimas fibras de minha
natureza, eu não quero, eu não posso dizer outra coisa que os inúmeros
prolongamentos de vosso Ser encarnado através da matéria: jamais poderia
pregar senão o mistério de vossa Carne, ó Alma que transpareceis em tudo o
que nos rodeia!

Ao vosso Corpo, em toda sua extensão, isto é, ao Mundo tornado por vosso
poder e por minha fé o crisol magnífico e vivo em que tudo aparece para
renascer, - por todos os recursos que fazem jorrar em mim a vossa atração
criadora, por minha ciência fraca demais, por meus laços religiosos, por meu
sacerdócio e (no que mais insisto) pelo fundo de minha convicção humana -
para nele viver e morrer, - eu me entrego, ó Jesus.

Ordos, 1923.
(Em Hino do Universo, 1923)



meu agradecimento especial ao amigo Gilberto que me ajuda a manter a lista de discussão por e-mails,  Teilhard de Chardin, no Yahoo.