O absurdo e a Graça

Na vida hoje caminhamos entre uma fome que condena ao sofrimento uma enorme parcela da humanidade e uma tecnologia moderníssima que garante um padrão de conforto e bem estar nunca antes imaginado. Um bilhão de seres humanos estão abaixo da linha da pobreza, na mais absoluta miséria, passam FOME ! Com a tecnologia que foi inventada seria possível produzir alimentos e acabar com TODA a fome no mundo, não fossem os interesses de alguns grupos detentores da tecnologia e do poder. "Para mim, o absurdo e a graça não estão mais separados. Dizer que "tudo é absurdo" ou dizer que "tudo é graça " é igualmente mentir ou trapacear... "Hoje a graça e o absurdo caminham, em mim lado a lado, não mais estranhos, mas estranhamente amigos" A cada dia, nas situações que se nos apresentam podemos decidir entre perpetuar o absurdo, ou promover a Graça. (Jean Yves Leloup) * O Blog tem o mesmo nome do livro autobiográfico de Jean Yves Leloup, e é uma forma de homenagear a quem muito tem me ensinado em seus livros retiros, seminários e workshops *
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11 de agosto de 2022

"Alfredinho" um padre que escolheu viver entre os rejeitados.

 

"ALFREDINHO", foi um padre suíço  que  pertenceu à congregação dos filhos da caridade, que na década de 1980, criou a "irmandade do servo sofredor".



BIOGRAFIA

Frédy Kunz, nasceu no dia 12 de fevereiro de 1920, em Berna (Suíça)

Em 1926, mudou-se, juntamente com a sua família, para Arbois (França).

Na infância, devido ao sobrenome de origem alemã era discriminado por outras crianças, no contexto de grande rivalidade entre os países no período posterior à primeira guerra mundial.

Aos onze anos de idade, começou a trabalhar em na cozinha de um hotel, no início, apenas durante as férias escolares. a partir dos 13 anos, quando terminou os estudos, passou a trabalhar até quinze horas por dia. o patrão o tratava com muita severidade, incluindo tapas da na cara e chutes no traseiro, quando executava tarefas com lentidão e, em troca, recebia uma baixa remuneração.

Aos 16 anos de idade, ingressou na Juventude Operária Católica (JOC).
Em 1940, durante a conquista da França pela Alemanha nazista, o regimento no qual servia foi capturado. Durante a época na qual foi prisioneiro de guerra, organizou grupos de oração e de assistência aos doentes.

Enquanto era prisioneiro de guerra, recusou-se a trabalhar para os nazistas em troca de um melhor tratamento como prisioneiro.

O contato com o sofrimento no campo de concentração o levou a meditar sobre o Cântico do Servo Sofredor, (Isaías,53), que contém os seguintes versos:

“.. desprezado e rejeitado pelos homens,

homem do sofrimento e experimentado na dor;

como indivíduo de quem a gente esconde o rosto,

ele era desprezado e nem tomamos conhecimento dele.

Todavia, eram as nossas doenças que ele carregava,

eram as nossas dores que ele levava em suas costas.

E nós achávamos que ele era um homem castigado,

um homem ferido por deus e humilhado.

Mas ele estava sendo transpassado por causa de nossas revoltas,

esmagado por nossos crimes.

Caiu sobre ele o castigo que nos deixaria quites;

e por suas feridas é que veio a cura para nós.  ”


 

Posteriormente, diria que:

“ É nos cânticos do servo de Deus que Jesus descobriu sua missão. Ele é o servo sofredor por excelência. E hoje, ele continua sua paixão e ressurreição na carne dos pobres humilhados, rejeitados, conduzidos ao matadouro. São esses pobres que purificam nossa humanidade corrompida pelo consumismo, pelo luxo, pelo desperdício, pela sexualidade desenfreada, pela violência. São as suas feridas que nos curam. Se nosso mundo de estupidez e de horrores não afunda de vez, é graças a esses servos sofredores. Seu espírito de resistência, sua disposição a perdoar pode converter aquele que detém o poder e o dinheiro, aquele que é vítima dos falsos deuses do mundo materialista. Quando o pobre, mergulhado nesse mistério, sem saber, adquire a inteligência do que ele vive, alguma coisa nasce. Porque a vocação do servo sofredor não é de ficar eternamente pisado. Ele é portador de uma esperança. Quando Isaías fala no meio dos cativos, ele pressente uma libertação. ”

Após a segunda guerra mundial, ingressou em um seminário, depois, alguém que conhecia suas características, o aconselhou a ingressar na Congregação dos Filhos da Caridade, uma congregação fundada em Paris (França), no dia 25 de dezembro de 1918, pelo padre Jean-Emile Anizan (1853-1928) e que tem como propósito a evangelização das classes trabalhadoras.

Em 1954, foi ordenado sacerdote.

Em 1955, depois de um ano atuando em uma paróquia em Paris, foi enviado para Montreal (Canadá), onde foi capelão da JOC e organizou o círculo Mximiliano Maria Kolbe que tinha como missão conseguir ajuda para pessoas necessitadas.

Entre 1962 e 1968, dedicou-se à Pastoral Vocacional e passou a pregar em retiros espirituais.

Em 1968, foi enviado para a diocese de Crateús (Ceará - Brasil), então dirigida por Dom Antônio Batista Fragoso, um dos participantes do Pacto das Catacumbas, que pretendia transformar a igreja católica em uma entidade a serviço dos mais pobres e das suas lutas para sair da miséria e da exploração.

Naquela cidade, concedeu a unção dos enfermos a uma jovem prostituta, de apenas 22 anos, que, duas semanas depois, faleceria de Tuberculose. Após o falecimento, Alfredinho alugou o barraco onde vivia a prostituta e naquele local, exerceria por três anos suas funções religiosas, convivendo com pessoas marginalizadas.

Em 1976, quando sofria de uma hérnia de disco, indagou ao biblista Carlos Mesters o sentido de tamanho sofrimento. Esse questionamento, levou Mesters a escrever o A Missão do Povo que Sofre", que apresenta Os Quatro Cânticos do Servo de Javé como quatro passos que o sofredor faz para descobrir-se servo.

No início de março de 1981, em decorrência de uma forte seca na região, dezenas de flagelados chegaram à cidade de Crateús em busca de alimentos. Naquele contexto, organizou a campanha "Porta Aberta aos Famintos" (PAF), pelo qual, às pessoas dispostas a doar comida aos famintos colocavam um cartaz com os referidos dizes na porta de suas casas. Essa campanha ajudou a alimentar milhares de camponeses pobres.

Irmandade do Servo Sofredor ( ISSO)

No dia 7 de janeiro de 1977, Alfredinho começou a pregar em um retiro que tinha como tema a figura do "Servo Sofredor" no Seminário da Prainha, em Fortaleza. Esse encontro contou com sete participantes que decidiram se reencontrar uma vez por ano, esse foi o surgimento da “Irmandade do Servo Sofredor” (ISSO), que teria como padroeiro São Maximiliano Maria Kolbe.

Alfredinho, um verdadeiro santo que viveu entre nós fez sua Páscoa no dia 12 de agosto de 2000, em Santo André (Brasil).


16 de julho de 2020

Pe. Alfredinho - resgatando a história


11 de agosto de 2015

Pe. Alfredinho

 Tonny Cálices

Padrte Alfredinho  - 15 anos de sua Páscoa.



Missionário francês da Congregação Filhos da Caridade, fundador da "Irmandade do Servo Sofredor", morou por 20 anos em Crateús-CE, depois mudou-se para a favela Lamartine em Santo André-SP, onde viveu a partilha, o compromisso com os pobres que eram "os seus mestres" até os últimos dias de sua vida.
Neste dia 12 de agosto de 2000, estávamos participando do Retiro da Irmandade do Servo Sofredor, na Paróquia São Geraldo Magela, numa noite de sexta-feira. Alfredinho estava internado se tratando de um câncer, e recebemos o comunicado de sua páscoa/passagem.
Ficamos em vigília e velando seu frágil e pequenino corpo, mas nos enchendo de sua força e profecia, partilhada por tantas pessoas que conviveram com ele, e dele aprenderam a ser um pouco mais humano, solidário e comprometido com a vida do povo.
Na tarde do sábado dia 13 seguimos numa grande procissão, com uma multidão de pessoas vidas de tantos lugares para prestar sua homenagem a este Profeta dos Podres.
O enterro, foi uma momento lindo, com muitos cantos, orações, textos do Profeta Isaías, os 4 Cânticos de Javé gestuada por grande parte das pessoas presente: "Que é esse servo?: É o preferido...; A missão do servo; A paixão do servo, ", .
A multidão cantava: "Torne-se Luz, Torne-se Luz, Fazes brotar Flores de sua Cruz".


PADRE ALFREDINHO - EU CONVIVÍ COM UM BEM-AVENTURADO!

Por Zé Vicente

Eu convivi com um bem-aventurado, pra não usar a expressão tão batida: "Santo"!


Essa frase salta de meus lábios cada vez que as imagens e testemunhos sobre Alfredo,estão diante de meus olhos. O conheci em 1974,em Crateús, daí até 1990,quando saí da cidade,depois de dez intensos anos de convivio bem próximo,brincadeiras (ele era um brincante, um molequinho,daqueles que plantam bananeira diante do Pai Divino...),caminhadas pelas estradas poeirentas do sertão, emoções e orações. nos seus jejuns etc. etc.
Depois o visitei na Favela Lamartine,Santo André-SP,onde foi viver. Partilhou comigo muitas coisas,incluindo a velha e conhecida sopa de legumes,com marcarrão. Na despedida, um abraço longo, lágrimas e uma confissão dele: " estou meio que num exílio!" Não entendi direito e nem quis ousar perguntar o porquê. Afinal essas decisões,envolvendo bastidores de Congregações,de Clero, prá nós leigos,o melhor é mantermos prudentes "desinteresses".
Na última visita,quando fui gravar o disco "Nas horas de Deus,amém", um mês antes de sua páscoa, em 12 de agosto de 2000. Fui ve-lo, ele pediu pra ficarmos um instante sozinhos.Perguntou por nossa gente do sertão, se eu continuava indo a Crateús, como foi a gravação do CD nas Paulinas...Disse que já não acreditava que desse tempo pra eu chegar até ali, na Paróquia São Geraldo. Ao final, partilhamos uma maçã que estava num prato e, ele declarou me olhando firme,num misto de pedido e ordem: " Nunca deixe de seguir esse caminho de cantar a esperança dos pobres! Chamamos as pessoas que estavam com ele e juntos,cantei com elas, em primeira mão: "Nas horas de Deus, Amém!" E, então, parti com o coração partido, de volta pro sertão que ele tanto amou.
É, querido Alfredinho, vamos teimando na esperança, que pulsa no coração dos simples,dos pobres, juntando neste 12 de agosto, essas pessoas que tanto amaste e, que agora e sempre, estão na bendita e pascal comunhão contigo: nosso Dom Fragoso, Tia Rita, todos os sofredores e lutadores, de braços abertos na história e na obra do companheiro artista Francisco Daniel, todos os Mandacarus floridos e as Margaridas em marchas de vigorosa valentia pelas ruas desta Pátria Brasil, em horas de tantas urgências.
. Em tempo: nos dias 17 e 18 de setembro que vem,a Coordenação da ISSO - Irmandade do Servo Sofredor - nos visitará na Casa Mãe, do Sertão Vivo - Ceará, para o planejamento de sua Romaria, marcada pra janeiro de 2016,em Juazeiro do Padim Cícero.

Santos do cotidiano

Alfredinho, um mendigo padre


Pe. Alfredinho 1920-2000



Frédy Kunz, ou Pe. Alfredinho, como é mais conhecido, nasceu em 9 de fevereiro de 1920 e faleceu em 12 de agosto de 2000.
É conhecido como o “missionário” do Servo Sofredor e o companheiro dos pobres. A Irmandade do Servo Sofredor que ele mesmo fundou e com a qual se identificou resume todo o itinerário espiritual de sua vida.

A grande contribuição de Alfredinho não é outra senão chamar nossa atenção para os pobres, os sofredores, mostrar que o lugar deles é o coração mesmo do Evangelho, que o seguimento de Jesus é inseparável do serviço aos Pobres, e que só a partir dos últimos da sociedade é que se pode incluir e amar a todos.

Alfredinho convida-nos a centrar o nosso olhar não tanto sobre sua pessoa, miúda e silenciosa, mas na “doce Trindade” que acolhe e vivifica a vida dos pobres.
“Os Sofredores, associados à Paixão do Senhor e à cruz do Calvário são a fonte inspiradora de sua espiritualidade”.
Ele dizia: “Os pobres são os meus mestres”.

Deixou-se evangelizar pelos pobres que vivem o Evangelho, às vezes sem sabê-lo.
Alfredinho tinha um pé no chão cotidiano dos excluídos e o outro nas fontes da Sagradas Escritura, sobretudo nos cânticos do Servo Sofredor de Isaías e em Jesus, identificado como os “sem esperança” e os rejeitados.
Em alguns escritos e em suas pregações, costumava comentar a figura do Servo Sofredor e a praticar o caminho do aniquilamento e da esperança.

Frédy nasceu na Suíça e, desde os primeiros anos, integrou-se à escola da Juventude Operária Católica (JOC), sendo ele mesmo um operário.

A Segunda Guerra Mundial e o fato de ter sido prisioneiro do exército alemão revelaram-lhe que toda guerra e violência são uma brutalidade e um horror. Os membros da Irmandade que fundou carregam, ainda hoje, um pedaço de tecido e o número de identificação de Maximiliano Kolbe, mártir e santo dos campos de concentração nazista.

À semelhança de Gandhi, Charles de Foucauld e Teresa de Calcutá, inspirava-se na “não violência ativa”.
Trata-se de uma resistência contra qualquer tipo de opressão, até oferecer a própria vida por amor aos pobres.

Chegou ao Brasil em 1968 e fez sua opção radical pelos pobres em Crateús. Na dura seca do sertão de 1983, decidiu ir trabalhar na frente de emergência, falando mais com a vida que com as palavras. Carregava a enxada e o carrinho e juntava-se ao sofrimento do nordestino. Sobrevivia, como qualquer um, com um mínimo de coisas e nunca se deixou atrair pelo “demônio” do desperdício e do consumismo.
Quando, mais tarde, em 1988, mudou-se para São Paulo, foi na favela Lamartine (Santo André) que arrumou um lugar para viver. No meio dos “danados da terra”, continuou sua vida de oração e de solidariedade.

“Padre Alfredinho era um homem de oração, contemplativo e um místico”.
Não lhe importava o barulho das músicas e dos gritos da favela.
É ali que, com o Cristo pobre, passava, no incógnito e no anonimato, o melhor de sua vida.

Em 1995, com 75 anos, Alfredinho recebeu e acolheu uma grande graça: ir morar com os sofredores de rua.
E lá foi ele com os andarilhos, dormindo ao relento e fazendo-se, ainda mais, excluído com os excluídos.

Ficou na rua até que a saúde permitiu, depois voltou para a favela.
Morreu no silêncio e no abandono, pobre com os pobres.
Foi sepultado sem pompa.
Seus amigos e seus companheiros, no velório e enterro, viveram a experiência viva da Ressurreição, alegria pascal.

A Irmandade continua e os Servos Sofredores de Jesus (não de Alfredinho) vivem a alegria da pobreza e da esperança.

veja Pe. Alfredinho no video:




 Padre Alfredinho celebrando com seu povo no Nordeste




Ele viveu entre nós

Padre Alfredinho    Frei Betto





Salão do Sindicato dos Cozinheiros de Paris, início da década de 40. 0 presidente indaga quantos trabalhadores tem um mes de férias por ano. Uns tantos se levantam. Quem tem apenas uma semana de descanso. Uns poucos ficam de pé. Quem só obtém licença do patrão para descansar apenas no fim de semana. Outro punhado de pé. Quem nunca descansa? Um rapaz suíço, com pouco mais de um metro e meio de altura, levanta-se ao fundo. Era Alfredo Kunz, um militante cristão.
Meses depois, Alfredinho, como era conhecido, foi mobilizado pelo Exército francês para lutar contra o avanço das tropas de Hitler. Aprisionado, passou a guerra num campo de concentração na Áustria, ao lado de prisioneiros soviéticos. Aprendeu russo para pregar o Evangelho a seus companheiros de infortúnio. Em 1945, logrou fugir do campo, onde morreram cerca de 40 mil pessoas. Estranhou a indiferença dos soldados nazistas que cruzavam com ele, um notório evadido, com uniforme azul e cabeça raspada. Naquele dia, a guerra terminara.
Alfredinho tomou três decisões: tornar-se padre, trabalhar com os mais pobres entre os pobres e jamais vestir outra roupa que não reproduzisse o modelo do uniforme do campo, em memória de seus companheiros mortos.
Ingressou na congregação dos Filhos da Caridade e, a convite de dom Antônio Fragoso, em 1968 veio para a Diocese de Crateús (CE). Perguntou ao bispo qual era a paróquia mais miserável da diocese. Dom Fragoso apontou Tauá, região de seca e flagelo. Alfredinho instalou-se na capela local. Desprovida de casa paroquial, ele dormia no colchão estendido junto ao altar e cozinhava num fogareiro.
Certa noite, foi chamado para atender uma prostituta que, cancerosa, agonizava em seu barraco de taipa, na zona boêmia. Antonieta queria confessar-se.
Padre Alfredinho disse a ela: "Somos nós que devemos pedir perdão a você. Perdão pelos pecados de uma sociedade que não Ihe ofereceu outra alternativa de vida. Como Jesus prometeu, Antonieta, você nos precederá no Reino de Deus. Interceda por nós."
Após receber a absolvição e a unção dos enfermos, a mulher faleceu. Não havia dinheiro para o caixão. As prostitutas enrolaram a companheira num lençol e arrancaram a porta de madeira do barraco para levar o corpo a vala comum do cemitério. Ao retornar para colocar a porta no lugar, Alfredinho teve uma inspiração. Durante anos, o vigário de Tauá habitou aquele casebre em plena zona boêmia da cidade.
Num tempo de seca, os flagelados invadiam as cidades do Ceará. Temerosos, muitos fechavam as portas. Alfredinho criou a campanha da Porta Aberta ao Faminto (PAF), cartaz que cerca de 2 mil fami1ias ostentaram em suas casas, acolhendo as vítimas do descaso do poder público.
Fomos amigos e bebi de sua espiritualidade. Barbado, vestido com a roupa azul que lembrava um macacão, sandálias nos pés e mochila nas costas, o aspecto de Alfredinho não diferia do de um mendigo. Convidado a pregar o retiro dos franciscanos, em Campina Grande, chegou de madrugada e dormiu na escada da igreja do convento. Ao acordar, catou as moedas que encontrou em volta e bateu a porta. "Quero falar com o superior", disse ao porteiro. "O superior não pode atender. Está em retiro." Alfredinho tentou esclarecer: "Sim, eu sei, pois vim pregar o retiro." O porteiro já ia expulsá-lo quando Alfredinho foi reconhecido por um frade que passava.
Testemunhei fato idêntico em Vitória, nos anos 70. A cozinheira interrompeu meu jantar com dom João Batista da Motta Albuquerque para comunicar: "Um mendigo insiste em falar com o senhor." O arcebispo reagiu: "Diga a ele que espere, minha filha. Vou atende-lo após o jantar." Era o padre Alfredinho, que viera pregar o retiro do clero local.
Em 1988, Alfredinho mudou-se para a Favela Lamartine, em Santo André (SP). Passou a viver entre o povo da rua e a dedicar-se a confraria que fundou, a Irmandade do Servo Sofredor (Isso), hoje congregando pessoas consagradas aos mais pobres em dez Estados do Brasil e vários países. Sua trajetória espiritual entre os excluídos está narrada em seus livros, muitos traduzidos no exterior: A sombra do Nabucodonosor, A Ovelha de Urias, A Burrinha de Balaão, A Espada de Gedeão e O Cobrador.
No domingo, 13 de agosto, Alfredinho transvivenciou, acolhido por Aquele que era o seu caso de Amor. Deixou como herança o testemunho de que uma Igreja afastada do pobre é uma Igreja de costas para Jesus.