O absurdo e a Graça

Na vida hoje caminhamos entre uma fome que condena ao sofrimento uma enorme parcela da humanidade e uma tecnologia moderníssima que garante um padrão de conforto e bem estar nunca antes imaginado. Um bilhão de seres humanos estão abaixo da linha da pobreza, na mais absoluta miséria, passam FOME ! Com a tecnologia que foi inventada seria possível produzir alimentos e acabar com TODA a fome no mundo, não fossem os interesses de alguns grupos detentores da tecnologia e do poder. "Para mim, o absurdo e a graça não estão mais separados. Dizer que "tudo é absurdo" ou dizer que "tudo é graça " é igualmente mentir ou trapacear... "Hoje a graça e o absurdo caminham, em mim lado a lado, não mais estranhos, mas estranhamente amigos" A cada dia, nas situações que se nos apresentam podemos decidir entre perpetuar o absurdo, ou promover a Graça. (Jean Yves Leloup) * O Blog tem o mesmo nome do livro autobiográfico de Jean Yves Leloup, e é uma forma de homenagear a quem muito tem me ensinado em seus livros retiros, seminários e workshops *

4 de novembro de 2010

Nós e os Outros - Os pobres - em casa num mundo globalizado ?

José Comblin

No Brasil, desde janeiro deste ano (1999) sabemos o que é a globalização. Os mexicanos sabiam desde 1994. Trata-se, porém, de uma ciência incomunicável, não se transmite de um país para outro. Precisa ter feito a experiência em carne própria. Ninguém acredita na experiência dos outros.

Durante 20 anos os poderes dominantes do mundo financeiro celebraram as maravilhas da globalização. Puderam contar com a colaboração de toda a mídia mundial. Conseguiram conversões inumeráveis: inúmeros socialistas converteram-se à nova ideologia que prometeu um futuro glorioso. A globalização traria por fim todos os benefícios que os modernos tinham prometido.

Foram duas décadas de chantagem que paralisaram as faculdades críticas da humanidade: no Brasil 4 anos de discursos do governo Fernando Henrique derramaram a ideologia nas elites e nas massas. Quem não se converteu, ficou intimidado, quase que envergonhado por não ter entrado na psicose coletiva.

Estas duas décadas entrarão na história como o maior sociodrama da história da humanidade. Um pequeno grupo de financistas de Wall Street e alguns outros lugares conseguiram enganar 6 bilhões de seres humanos durante 20 anos. Nações inteiras integraram-se aos sonhos: infelizmente não somente entregaram suas mentes, mas também todos os seus bens e suas capacidades de desenvolvimento. Entregaram mais ainda: a sua liberdade.

A chantagem da globalização não foi inocente. Graças a ela, alguns acumularam riquezas inauditas e bilhões ficaram mais pobres.

Quando caiu o império soviético, a arrogância dos meios financeiros já não teve mais limites. Eles se sentiram os donos do mundo: poderiam conquistar o mundo inteiro sem encontrar nenhum obstáculo capaz de opor resistência.

A globalização não é outra coisa a não ser a conquista do mundo, conquista econômica e cultural, graças a imposição da superioridade política e militar dos Estados Unidos.

A conquista ainda não está completa. Trata-se de um processo, porém o processo progride e invade cada vez mais os últimos rincões da independência dos povos. A propaganda pela globalização é uma das armas pelas quais os Estados Unidos se impõem ao resto do mundo.

Claro está que as novas tecnologias desempenham um papel importante nesse processo. As tecnologias de comunicação permitem a multiplicação das mensagens pelo mundo inteiro de modo quase instantâneo. Os meios de transporte permitem que a indústria componha produtos feitos de milhares de peças fabricadas em dezenas de países diferentes. As novas tecnologias permitem a reprodução imediata e sem limite de bens culturais: os mesmos filmes, as mesmas canções, os mesmos ritmos, as mesmas imagens simultaneamente no mundo inteiro. Sobretudo o primeiro bem cultural atual que é a pornografia circula instantaneamente no mundo inteiro.

Os meios de comunicação e de transporte forneceram às entidades financeiras e às multinacionais a conquista rápida do mundo. Quem tira proveito, quem usa mais as novas tecnologias, são justamente os poderes financeiros que estão majoritariamente concentrados nos Estados Unidos. E sobre os outros, os poderes econômicos dos Estados Unidos exercem uma superioridade tão grande que arrastam-nos dentro dos mesmos movimentos.

Na América Latina a globalização significa um novo colonialismo. A meados do século XX a penetração do capital estrangeiro, a instalação das primeiras multinacionais e um pequeno crescimento da dívida externa provocaram reações nacionalistas, populistas, as vezes revolucionárias. Prevaleceu a teoria da dependência, seguindo as primeiras colocações da CEPAL. Alguns intelectuais tornaram-se ilustres nessa contestação daquilo que se denunciava como um novo colonialismo procedente dos Estados Unidos.

Se comparamos a dependência daquele tempo com a dependência de hoje, há um abismo. Hoje em dia a dependência é muito maior. A dívida externa multiplicou-se por 50 ou por 100. As decisões do governo federal são tomadas pelo FMI, o governo está forçado a privatizar as empresas públicas para facilitar a sua aquisição pelo capital estrangeiro. Este compra bancos, empresas, sobretudo o que está em plena expansão como as comunicações. E a cultura norte-americana inunda o país. A penetração norte-americana é tão forte que nem se nota mais: todos estão tão acostumados que não reparam mais nela.

No entanto, a oposição é muito fraca. Todos parecem convencidos pelo argumento de que não há alternativa. O mundo entrega-se ao colonialismo quase sem resistência. Na América latina, a resistência é mínima. Alguns países, como a Argentina, tornam-se arautos da mensagem libertadora do colonialismo: a dolarização é oferecida como a salvação dos povos.

A dependência colonial, como sempre, divide as nações. Por um lado, as elites ficam cooptadas pelo sistema e integram-se nele. Tornam-se os imitadores da cultura dominante e os colaboradores dos quais as entidades financeiras e econômicas estão precisando em cada país. As elites locais encarregam-se de ampliar, consolidar e eventualmente defender os poderes colonizadores. Os governos locais estão encarregados de manter a ordem para que o sistema colonial possa funcionar sem sofrer reações nacionalistas.

A docilidade das elites tem a sua recompensa: a potência colonial confirma e consolida os privilégios dos seus fiéis colaboradores: alguns dependentes são chamados a entrarem nos quadros do sistema. Facilitam a assimilação da cultura norte-americana pelas elites de todos os países formando uma classe mundial homogênea que governa o mundo inteiro em nome da superpotência única.

As elites latino-americanas são particularmente sensíveis ao prestígio que lhes confere a integração no sistema colonial. Todos estudaram nos Estados Unidos e tornaram-se discípulos e propagandistas da ideologia que lhes foi inculcada.

Se as elites são promovidas e têm acesso ao modo de viver ocidental, as grandes maiorias estão excluídas. Não têm acesso, nem terão acesso a Internet, não terão ações na Bolsa de Valores, não comprarão títulos na Bolsa de Valores de Tokyo ou de Singapura, nem sequer poderão ser operários nas novas indústrias ultra-sofisticadas. No melhor dos casos poderão ser guarda-costas ou empregadas dos privilegiados, limpadores de vidros dos seus carros, porteiros dos hotéis de grande turismo.

Para as massas o desemprego aumenta, o arrocho salarial é constante, a repressão policial é o único remédio ao crescimento da criminalidade. E as migalhas do festim dos grandes: cestas básicas, água do carro-pipa. Para os seus filhos, escolas que não ensinam nada, hospitais que não curam, aposentadorias de miséria. A fase da globalização foi paga pelo aumento da pobreza em toda a América Latina. Mesmo no Chile que seria a exceção, porque o número de pobres teria diminuído, a distância entre ricos e pobres aumentou escandalosamente.

Os pobres participam também do mundo globalizado, porém, como espectadores. Pela TV sabem tudo o que acontece no mundo no qual nunca entrarão. Aliás, a TV consola-os e os distrai: impede a inveja e o desejo de lutar contra a sociedade estabelecida.

Na América Latina, a resistência é fraca. 500 anos de submissão criaram mentalidades, hábitos, estruturas mentais e comportamentos que não favorecem a luta. Nos problemas da vida, a maioria ainda acha que a solução é o recurso a um patrão benevolente: pedir ajuda ao vereador, ao prefeito, ao deputado ou ao vigário ou ao pastor, a uma instituição estrangeira ou local. O sistema social está ainda baseado no clientelismo, mesmo em grandes cidades como São Paulo ou Rio de Janeiro. A doutrina implícita é que é bom que haja ricos para que possam ajudar os pobres.

Espontaneamente os povos latino-americanos são submissos e reverenciam toda autoridade, a do vigário, a do prefeito, do patrão, do rico.

O clientelismo justifica todo e qualquer colonialismo. Se os Estados Unidos mandam capitais para o Brasil, só pode ser um benefício que merece respeito, admiração e gratidão. Antigamente o benfeitor supremo, o grande distribuidor de benefícios era o presidente da república, por intermédio dos pequenos benfeitores que são os governadores, os membros de congresso e as autoridades locais. Agora há um benfeitor mais poderoso ainda do que o presidente: é o presidente dos Estados Unidos que distribui os seus favores mediante o FMI, o Banco Mundial ou os conjuntos financeiros de Wall Street. É assim que se analisa a realidade e toda a mídia confirma esta análise.

Por isso, o tema do colonialismo tem pouca ressonância. Quem tem dinheiro, merece reverência e os Estados Unidos têm muito dinheiro e, portanto, merecem muita reverência. Também a mídia sempre apresenta os Estados Unidos com a maior admiração e os representantes do FMI chegam no Brasil como Papai Noel. São aqueles que podem derramar dinheiro no país e todos acham que receberão algumas migalhas.

1. O encobrimento do outro

Por ocasião dos 500 anos do desembarque de Cristóvão Colombo na América em 1492, Enrique Dussel publicou em 1992 uma série de conferências sob o título de "1492: O encobrimento do outro".

Na realidade, o encobrimento do outro continua até hoje e a recente globalização somente pode aumentar esse encobrimento.

As nações latino-americanas querem recuperar a memória dos chefes indígenas do passado que lutaram contra a conquista. Celebram Benito Juarez no México, Tupac Amaru no Peru, Atahualpa no Equador, Lautaro e Caupolican no Chile, Tibiriça em São Paulo. Mas tal culto não tem consequência alguma no comportamento para com os descendentes destes heróis. Glorificam-se os índios daquele tempo e a nação adota-os como antepassados e símbolos da nacionalidade. Porém, os índios de hoje são simplesmente encostados e, quando querem resistir, são duramente reprimidos. Está sendo glorificado o índio místico, abstrato do passado, mas é proibido evocar a memória dos índios que vivem hoje. Como se o papel dos índios consistisse em fornecer símbolos de nacionalidade e depois cortesmente desaparecer. O índio de hoje incomoda.

Para a mídia e a cultura dominante, os índios devem esconder-se. A sua presença é desagradável. Incomoda porque contraria o retrato que as elites querem dar do seu país: um país civilizado, realmente ocidental, ocupando um lugar digno no mundo globalizado, bem longe dos africanos ou dos asiáticos.

Quanto aos negros, o encobrimento é mais radical ainda. Supõe-se que a abolição jurídica da escravidão suprimiu o problema. Os heróis são os chefes brancos que tiveram a grande generosidade de emancipar os escravos. Os heróis são a princesa Isabel, Joaquim Nabuco, Castro Alves: não se cita nenhum negro. Zumbi não tem acesso á cultura mediévica.

No Brasil que oficialmente conta com 44% de negros, a presença negra é quase nula na sociedade que se mostra e, por conseguinte, no retrato que os brasileiros se fazem a sua nação. Oficialmente celebra-se a fusão das três culturas. Uma vez que se chega na prática, na TV tudo é branco. Quando a TV mostra o carnaval de Salvador, destaca todas as mulheres brancas. Igual no Rio de Janeiro: os negros sempre na sombra e os brancos na luz.

Quantos estudantes universitários negros ? Quantos professores negros ? Melhor não olhar as páginas sociais do Estado de São Paulo ou dos diários locais como o Correio da Paraíba: Quantos negros ? Nenhum.

Apesar da retórica oficial, o encobrimento ainda é quase total. Você, por favor, entre no aeroporto de Guarulhos ou do Galeão, ou mesmo de Salvador ou de Recife e veja quantos negros há no aeroporto! Entre no avião: se pode contar dois ou três negros, já dá para se admirar. Quantas aeromoças negras ? Pessoalmente já encontrei centenas de aeromoças brancas e até agora encontrei duas negras num vôo da Varig. Pode ser coincidência, mas duvido muito que seja pura coincidência. Piloto de avião, ainda não encontrei nenhum negro, o que não quer dizer que não existe nenhum.

A política do encobrimento deu bons resultados. Índios e negros tornaram-se invisíveis.

2. O encobrimento da Igreja

A Igreja teria evitado o encobrimento ? Daria aos índios e aos negros todo o espaço que a sua importância demográfica, histórica ou cultural merece ? Infelizmente, não parece que essa seja a situação. Tomemos um exemplo significativo: o sínodo da América reunido em Roma em 1997. Foi publicado o documento que conclui o sínodo da América, a exortação apostólica Ecclesia in America.

Este documento consta de 135 páginas e a matéria está distribuída em 76 números. O texto contem mais ou menos 25.000 palavras. Num texto tão breve fala-se de tudo e de todos: todos os aspectos da vida da Igreja, todas as instituições e todas as categorias que compõem o povo de Deus na América. Com essas condições pode-se esperar que os problemas e os assuntos sejam tratados a nível de suma generalidade. Em semelhantes documentos todos os grupos de católicos querem ver mencionadas as suas atividades: precisa dirigir algumas palavras para todos, ainda que seja para repetir as mesmas banalidades que se encontram invariavelmente em todos os documentos eclesiásticos: são as exigências da burocracia. Tudo isso é muito compreensível e faz parte das convenções sociais.

No entanto, alguns fatos chamam a atenção. Na América moram entre 120 e 140 milhões de negros. Há no território americano uns 40 milhões de indígenas que conservam as suas culturas tradicionais. A cada grupo se dedica meia página dentro do no. 64, além de brevíssimas alusões no decorrer do texto global. Não deixa de ser um espaço limitado. Sobretudo se se leva em conta que dois números e quase três páginas são reservadas às Igrejas de rito oriental (no. 17 e 38). Ora, os católicos de rito oriental constituem uma minoria muito modesta que nem de longe se poderia comparar com os negros ou os índios.

Sobre a história dos negros na América, história que ainda condiciona tão profundamente a situação deles na atualidade, apenas uma alusão: "A recordação dos capítulos cinzas da história da América, relativos à prática da escravidão e outras situações de discriminação social, não deve deixar de suscitar um sincero desejo de conversão que leve à reconciliação e à comunhão" (no. 58 a). Sobre os 400 anos de escravidão da qual os negros americanos ainda não saíram na realidade apesar das leis oficiais, nada mais do que isto "os capítulos cinzas". Como se, além disso, fossem capítulos de um passado superado! Nada mais do que isto para evocar a situação dramática dos descendentes dos escravos, ainda radicalmente marginalizados e esquecidos!

No no. 64, dedicado aos negros e índios, a respeito dos negros, diz-se o seguinte: "Desejaria lembrar aqui que também os americanos de origem africana continuam sofrendo, em algumas zonas, preconceitos étnicos, que constituem, para eles, um sério obstáculo para encontrar a Cristo. Tendo em vista que toda pessoa, de qualquer raça e condição, foi criada por Deus à sua imagem, sejam promovidos planos concretos, em que não deve faltar a oração comunitária, que favoreçam a compreensão e a reconciliação". Nada mais ? Nada mais ! Por acaso existem na América zonas em que os negros não estejam sofrendo "preconceitos étnicos"? Por acaso estão sofrendo simples "preconceitos étnicos" ou uma completa marginalização, um esquecimento total?

Não haveria por acaso diferenças culturais tão grandes entre os africanos e os ocidentais que dificilmente se lhe pode impor o mesmo esquema de cultura religiosa ? Os "orientais" podem conservar os seus costumes e os seus ritos próprios. Mas os africanos que são muito mais diferentes do que os orientais, não têm o direito de ser eles também "orientais"? Por acaso seria possível evangelizar a população negra dentro das estruturas de uma Igreja tão marcadamente branca, tão ocidental de cultura ? Nenhuma esperança para a pastoral negra! Terá que ser branca!

No parágrafo sobre as outras religiões presentes na América (no. 51) não há alusão às religiões africanas. Simples esquecimento ? Porém, não se esquecem dos hinduistas, budistas, muçulmanos. O esquecimento refere-se justamente por acaso aos africanos ? Ou não seria encobrimento, ainda que inconsciente ?

De certo modo os índios são tratados com mais atenção, mas somente um pouquinho mais. O sínodo reconhece a existência de religiões "nativas": "A Igreja na América deve esforçar-se por incentivar o mútuo respeito e as boas relações com as religiões nativas americanas" (no. 51 b).

No entanto, as propostas pastorais oferecidas aos índios ficam aquém das expectativas, muito aquém. "É preciso extirpar toda tentativa de marginalização" se os indígenas ainda estão sendo roubados, destruídos, mortos e se a sua presença é objeto constante de repressão: Ninguém ouviu falar de Chiapas em Roma ? Ninguém se lembrou de Guatemala e das lutas dos povos indígenas desde o Chile até o México, passando por Bolívia, Peru, Equador, Colômbia, Panamá ? E a condição reservada ao Paraguai guarani na América do Sul ?

"O que supõe, em primeiro lugar, que se devem respeitar seus territórios e os pactos com elas estabelecidos; da mesma forma, há que responder às suas legítimas necessidades sociais, sanitárias e culturais" (no. 64 a). Infelizmente depois do "primeiro lugar" não há "segundo lugar". Nada sobre as aspirações à autonomia das nações indígenas dentro das nações historicamente reconhecidas.

É verdade que há muito espaço para saudar Nossa Senhora de Guadalupe, "o rosto mestiço da Virgem de Guadalupe constitui desde o início, um símbolo da inculturação da evangelização, da qual foi a estrela e a guia" (no. 70 b).

Por que o "rosto mestiço" e não o rosto índio. O que há de mestiço na imagem de Guadalupe ?

O texto fala de "santa Maria de Guadalupe, um grande exemplo de evangelização perfeitamente inculturada" (no. 11 d). Estranha expressão! A evangelização é obra humana, obra dos evangelizadores. Nossa Senhora de Guadalupe seria exemplo de evangelização inculturada se tivesse sido criação dos evangelizadores, criando a figura da Guadalupana para melhor inculturar o seu evangelho. Porém, segundo a tradição local, Nossa Senhora de Guadalupe não foi uma invenção dos missionários espanhóis com o afã de inculturação, foi milagre de Deus. E os missionários ficaram longe de seguir o exemplo do milagre divino. A inculturação não veio depois e tampouco até agora ela veio e nenhum caminha de inculturação se mostra aos índios no texto final do Sínodo.

Enfim, a perspectiva oferecida aos indígenas permanece muito reduzida. Quem trabalha com os índios ficará frustrado. Quanto aos próprios índios, felizmente nem vão tomar conhecimento de que houve um sínodo em que se aludiu um pouco a eles.

É verdade que a propósito da formação dos sacerdotes nos seminários, se faz menção dos indígenas. "Particular atenção será reservada às vocações provindas entre os indígenas: ocorre proporcionar uma formação inculturada no seu ambiente. Estes candidatos para o sacerdócio, ao receberem uma adequada formação teológica e espiritual para o seu futuro ministério, não devem perder as raízes da própria cultura" (no. 40 c).

Belo programa! Infelizmente até agora todas as tentativas nesse sentido foram condenadas. Perguntem ao sr. cardeal Echeverria do Equador, uma pessoa que certamente não será acusada de progressismo!

Então, encobrimento dos indígenas e encobrimento dos negros. Desde 1492 não se nota nenhum progresso.

3. A nova face da religião popular

Neste final de século a religião popular muda. Melhor dito: uma religião popular tradicional, nascida e cultivada na cultura rural, está declinando. Hoje em dia 80% da população brasileira mora em cidades e nos outros países latino-americanos a evolução tende para uma situação semelhante. As tradições rurais mantêm-se ainda durante alguns anos, mas influem pouco nas gerações nascidas nas cidades.

O protestantismo conheceu sobretudo na década dos 80 a passagem do pentecostalismo para o neopentecostalismo. Uma mudança semelhante ocorre hoje na Igreja católica. Aqui o grande sinal da abertura de uma nova época histórica, a chegada de um novo paradigma é a irrupção do fenômeno Marcelo Rossi em São Paulo e no Brasil inteiro, pois em poucas semanas o padre Marcelo Rossi conquistou o Brasil inteiro.

O que acontece com o padre Marcelo Rossi não é um caso particular: é a entrada de uma nova religião popular católica sem timidez e sem restrição. O fenômeno foi preparado pela Renovação carismática católica, mas esta ainda tinha muitas lembranças do passado rural e uma certa reserva no uso das técnicas de comunicação. Doravante a época dos escrúpulos passou. Algo novo está surgindo.

A mensagem de padre Marcelo Rossi responde diretamente às aspirações religiosas e à cultura do ser urbano. Pois no mundo rural, os seres humanos faziam a experiência de Deus na natureza, isto é de modo objetivo. Deus estava na frente deles, no céu estrelado, no sol, na lua, na chuva, na terra, nas árvores, nas montanhas. Deus era como objeto de contemplação: era conhecido imediatamente por todos.

Na cidade, o mundo exterior fica dessacralizado, a natureza desaparece ou se transforma em bem de consumo graças ao turismo e às saídas de final de semana: o turista não encontra a Deus na natureza: encontra-se a si próprio.

A religião não desaparece por isso, muito pelo contrário. As cidades latino-americanas conhecem uma fermentação religiosa que lembra as civilizações antigas, pré-cristãs. Porém, a experiência religiosa mudou. Agora a pessoa faz a experiência de Deus no seu coração, nos seus sentimentos, nas suas emoções religiosas. Sente a presença e o amor de Deus de modo sensível. A experiência torna-se mais intensa pela comunicação com outras experiências. Se a mesma experiência é vivida simultaneamente por milhares ou centenas de milhares de pessoas, a experiência transforma-se numa plenitude de alegria: choram, gritam, gesticulam como num orgasmo espiritual.

O padre Marcelo não permanecerá só. Terá muitos imitadores e todas as paróquias vão ter que inspirar-se nele se querem fazer sucesso. O sinal da passagem para um novo paradigma é que a Rede Vida de TV resolveu transmitir as missas de padre Marcelo: dizem que cederam ante a pressão do público. A Rede Vida tinha começado com a transmissão das missas aborrecidas que ainda se mantém nas paróquias, mesmo após as transformações dos carismáticos. Os conservadores cederam ante a pressão do público. Sinal de que os bispos e os padres conservadores logo mais entrarão no mesmo movimento. Vão descobrir que o verdadeiro conservadorismo está no padre Marcelo apesar das aparências.

O padre Marcelo representa a perfeita inculturação na cultura urbana. De saída, adota o modo de expressão cultural básico da nova cultura urbana: o show. Adota o show como meio de expressão religiosa. Os carismáticos praticavam o show de modo inconsciente e involuntário e por isso mesmo nunca formalmente, nunca como tal. Praticavam o louvor que era concebido como pura oração, puro contato com Jesus sem mediação de um modelo cultural humano. Ilusão, naturalmente! Nunca se prescinde de um modelo cultural. O drama da liturgia pós-Vaticano II é que não sabia bem qual era o seu modelo cultural. A missa tridentina sabia muito bem: era o modelo sacrificial do Antigo Testamento e das religiões antigas: o sacerdote oferece o sacrifício e os leigos assistem com silêncio e admiração à imolação e ao oferecimento do sacrifício.

Agora, como o padre Marcelo, a Igreja adota o show. A própria missa integra-se no show e as pessoas vêm pelo show, assistem a missa como suplemento sem saber exatamente o que é, porque o show oferece um sentido completo.

O show fala por si mesmo. Não precisa de muitas palavras: a experiência de Deus não depende das explicações, pois não é abstrata. O show é sinal, é sacramento porque é entendido imediatamente. Nota-se que todos aprendem os cantos imediatamente. Milhares de pessoas que nunca cantaram os cantos da missa paroquial, de repente aprendem e cantam. Os corpos movem-se, a emoção aflora, as lágrimas não se deixam reprimir: Jesus está aqui e me ama, me salva, me conduz com Ele a uma vida nova de puro amor. Jesus me dá saúde, paz, esperança, anula todos os problemas e apaga todos os temores.

Estamos assistindo ao começo da inculturação do catolicismo na cultura urbana. O show é a procissão de ontem. Padre Marcelo é o novo frei Damião para a cidade. No show as pessoas solitárias da civilização urbana sentem-se envolvidas numa grande comunidade, experimentam o calor da multidão de milhares de pessoas, todos irmãos e irmãs. No show está a resposta às frustrações da vida na cidade: isolamento, solidão, falta de sentido, ao aborrecimento da multidão solitária, das filas, das viagens de ônibus, em pé, do estresse no trabalho, da insegurança, do medo de perder o emprego. O show não é espetáculo: é incorporação no movimento da vida.

Nem todos sabem dirigir um show. Nem todos têm o dom. Porém, os dons não faltam e aparecem desde que se manifesta a procura. O show supõe muitas técnicas. Não se improvisa. Nada tem de espontâneo.

Além disso, o padre Marcelo inaugura a idade da TV na Igreja. É o primeiro representante da Igreja que se torna estrela de TV, comunicando-se com a quase totalidade do povo brasileiro. A mensagem dele na TV é também exatamente o que o público espera: cada um encontra nele a resposta à sua religião pessoal urbana que muitas vezes não tinha expressão: o padre Marcelo diz o que eu sabia, mas não sabia dizer, diz o que eu pensava, mas não sabia que o pensava. Depois dele virão outros padres Marcelo, talvez até mais brilhantes do que ele, mas ele terá a dignidade de ter sido o primeiro.

Padre Marcelo expressa e desperta, alimenta, fortalece a religiosidade popular urbana.

A religiosidade popular corresponde maioritariamente aquilo que os escolásticos chamavam de religião natural. A fé cristã edifica-se sobre os fundamentos de uma religião natural. Não nasce nem vive solitária, separada de toda a cultura como a tradição luterana sempre tendeu a representá-la. Antigamente a fé popular repousava no fundamento da religião cosmológica do Deus transparente no cosmos. Agora, a religião natural é a manifestação de Deus nas emoções, isto é, na subjetividade.

Os conservadores têm razão, não têm nada para temer. Pelo contrário, a nova religiosidade popular é profundamente conservadora. Vai reforçar o clericalismo e o triunfalismo. Reconstitui a figura sagrada do sacerdote com novas expressões. Todos os sacerdotes vão aproveitar a sacralização da figura de padre Marcelo, todos serão um pouco como companheiros de pe. Marcelo, da mesma família dele. E as multidões voltarão para as Igrejas. Os shows não questionam em nada nenhum aspecto do rosto tradicional na Igreja. Inclusive restauram vários elementos tradicionais que estavam em declínio: a água benta, o incenso, a procissão do Santíssimo... Nenhuma mudança nem na Igreja, nem na sociedade. A religião popular está bem guardada em mãos clericais e não cometerá nenhum deslize.

E o evangelho em tudo isso ? E a evangelização ? O evangelho e outra coisa. Porém, parece que já não é mais a prioridade. A prioridade é a experiência natural de Deus, a renovação do sentimento religioso, a redescoberta do prestígio sobrenatural do padre e do prestígio social da Igreja. O evangelho é outra coisa. Menciona-se com muita complacência na teoria, porém na hora da prática é outra coisa. De uma preocupação pelo evangelho estamos passando para uma preocupação pela religião natural, pela experiência religiosa.

O temor à conquista das igrejas evangélicas pentecostais gera um sentimento de urgência. "Temos que freiar esta expansão, lutar contra ela". Como sempre para lutar contra um adversário, recorre-se às armas dele. A Igreja católica está sendo aspirada para o lado das igrejas pentecostais, sobretudo das neo-pentecostais, como a Igreja Universal que são as mais agressivas. Para lutar contra elas, usemos as armas delas. Lutando contra um inimigo, torna-se semelhante a ele.

A exortação pós-sinodal diz: "A atividade de proselitismo, que as seitas e novos grupos religiosos desenvolvem em várias regiões da América, constitui um grave obstáculo ao esforço evangelizador. A palavra "proselitismo" tem sentido negativo quando reflete um modo de conquistar adeptos não respeitador da liberdade daqueles que são atingidos por um determinada propaganda religiosa. A Igreja católica na América critica o proselitismo das seitas e, por esta mesma razão, na sua ação evangelizadora exclui o recurso a tais métodos" (no. 73a). Com a maior cara de pau!

Que as Igrejas evangélicas sejam "grave obstáculo ao esforço evangelizador" não deixa de suscitar dúvidas. Pois, em muitos setores da população pobre e marginalizada na América, os pentecostais são os únicos que evangelizam. Evangelizam e não são obstáculos à evangelização. Que o seu evangelho seja incompleto, é de se lamentar. Mas não é culpa deles que nunca receberam nenhuma formação, nenhuma ajuda ecumênica. Que evangelizam, não pode haver dúvida e a acusação que se lhes faz, é uma grave injustiça.

Agora que sejam os católicos que venham acusar outros de não respeitar a liberdade, é espantoso. O que foi que aconteceu durante 500 anos a não ser uma imposição da fé católica com todos os meios de constrangimento, inclusive a Inquisição. A lembrança do passado deveria inclinar para mais discrição. Que certas igrejas pentecostais, sobretudo as neo-pentecostais, pratiquem métodos reprováveis, está claro. Porém em muitos casos não fazem outra coisa a não ser renovar os métodos praticados pelos missionários católicos até há poucos anos atrás.

Graças a Deus muitos católicos continuam evangelizando. Grupos permanecem fiéis à orientações de Medellin e Puebla. No entanto, distanciam-se cada vez mais as duas Igrejas de que fala I. Gonzalez Faus. Como conciliar o evangelho com a nova religião popular que parece ser a nova menina dos olhos da hierarquia americana? Eis o desafio.

Poder-se-ia pensar que a nova face da religião popular seria o sinal de um diálogo entre a Igreja e os povos na sua religião. Na realidade, não há instâncias de diálogo. A nova religião popular procede de sacerdotes, será controlada pelos padres e reforçará o poder dos padres. Durante todo o século XX os padres conseguiram controlar pouco a pouco todas as manifestações do catolicismo popular, santuários, romarias, ritos, objetos religiosos, devoções. Não podem penetrar na intimidade das pessoas, mas pelo menos podem controlar as expressões exteriores. Quanto a nova religião popular, a conexão é mais forte, porque desde o início ela tem origem clerical.

4. Os outros são os pobres

Que os pobres sejam eminentemente "o outro", foi o que repetiram incansavelmente os teólogos da libertação, especialmente Gustavo Gutierrez e Jon Sobrino. Ora, aqui também há uma evolução sensível.

O discurso eclesiástico está sempre ligado pelo seu passado. Não se pode deixar de usar o linguajar dos pobres. O discurso sobre os pobres está presente na exortação pós-sinodal (no. 58).

Se comparamos com os textos de Medellin ou de Puebla, o retrocesso é evidente. Em primeiro lugar a palavra opção foi substituída pela palavra amor. Não há opção preferencial, mas amor preferencial. Ora, a opção afetava toda a pastoral. Se a Igreja faz opção pelos pobres, isto significa que toda a pastoral há de ser convertida, reorientada em função da prioridade dos pobres. O amor preferencial não diz isso. De fato a pastoral preconizada pela exortação, longe de dar prioridade aos pobres, dá prioridade à recuperação do poder perdido, à reconquista do poder eclesiástico. Daí a insistência particular nos instrumentos de poder: os colégios e as Universidades católicas, que se dedicam essencialmente à classe rica na América latina, os meios de comunicação de massa.

Medellin e Puebla preconizavam uma Igreja mais pobres. Destacavam o tema da conversão total da Igreja para poder realizar a opção pelos pobres. Agora não se fala mais de uma conversão da Igreja, nem do sentido da pobreza da Igreja.

Puebla fala do protagonismo dos pobres, do seu papel como sujeitos da própria libertação e como questionamento da Igreja. Os pobres eram reconhecidos como evangelizadores da própria Igreja.

O no. 58 da exortação faz dos pobres o objeto da pastoral da Igreja que se situa face a eles. O texto não vai além do assistencialismo e não se vê como a prioridade dos pobres obrigaria a Igreja a uma conversão radical dos meus métodos ou de suas estruturas. Os pobres deixam de ser "o outro" que questiona e exige mudanças de comportamento. Como "outro" o pobre fica também encoberto.

O documento pós-sinodal não foi surpresa nenhuma. Na realidade veio confirmar uma evolução que foi cada vez mais clara nas últimas décadas, sobretudo durante o presente pontificado.

Na América latina a Igreja transformou-se numa fortaleza de conservadorismo. Os restos da fase anterior (Medellin-Puebla) estão escondidos, quase desapercebidos. Quando o Papa dizia que a teologia da libertação está morta, ele dizia que ela não exerce mais nenhuma influência na Igreja da América latina. Tornou-se subterrânea. Ainda tem certo espaço no Brasil, mas isto mesmo vai desaparecer em breve.

Roma reconquistou América Latina e assim assegurou o seu futuro. Na América Latina já não há mais nenhuma contestação. As normas romanas são recebidas com submissão total. E o espaço eclesial está cada vez mais ocupado por movimentos ou instituições fundamentalistas ou integristas. Ali o movimento carismático expande-se de modo acelerado. Os movimentos mais antigos como Focolari, Schoenstatt, Neo-catecumenais crescem e se espalham. Nascem institutos integristas como os Legionários de Cristo com uma pujança tal que podemos prever que daqui a dez anos a maioria será integrista na América Latina. Somente no Brasil nascem centenas de institutos semelhantes, todos integristas. E o Opus Dei, o mestre de todos, realiza suas melhores façanhas na América Latina. América Latina fortaleza do conservadorismo onde renasce o espírito de Vaticano I !

No início do pontificado o Papa manifestou algumas vezes que estava pensando numa nova cristandade na Europa depois da queda do comunismo. Estas esperanças desapareceram depois da queda do muro de Berlim. Então apareceu que o capitalismo ocidental era muito mais perigoso do que o ateísmo comunista. Em Roma já sabem que a Europa está perdida para a Igreja. As minorias que permanecem ainda na Igreja católica, são críticas, questionam as estruturas tradicionais e toda a maneira como a Igreja está sendo conduzida.

Ao invés, na América Latina, todas as críticas desapareceram. Reina a calma total. Os católicos latino-americanos já constituem a metade dos católicos do mundo e numericamente a sua importância ainda vai crescer. Ali está doravante a força da Igreja católica. África é fraca demais e muito dependente, entregue às guerras e à instabilidade. Na Ásia os católicos são muito minoritários e não têm condições para assumirem a continuidade do poder romano. Somente América latina poderá assumir esse papel. A Igreja latino-americana está sendo preparada para esse papel. Tudo indica que as esperanças da Cúria romana não serão desmentidas. Sob os estandartes dos seus "Legionários" Cristo reinará no mundo mediante a massa católica da América Latina.

O que acontecerá com a Igreja que foi de Medellin e Puebla ? Com os que escolheram uma pastoral dos índios, dos negros, dos pobres ? Constituirão minorias muito discretas, pois não poderão contar com a TV, nem com a mídia em geral. Não se falará deles na mídia e por isso a maioria nem sequer saberá que tais coisas ainda existem. No entanto, continuarão nos subterrâneos com a ajuda de uma minoria de bispos, sacerdotes, religiosas e religiosos, aqueles que não serão as estrelas da TV.

Justamente porque serão tão fracos, serão tolerados: não perturbarão muito os triunfos da Igreja. E uma Igreja triunfante pode dar-se ao luxo de ser mais tolerante.

Apesar de tudo isso, o evangelho deve continuar clandestinamente, como sucedeu no passado da Igreja. Durante toda a época colonial, tudo era mais difícil porque não havia tolerância nenhuma. Quem discordava era preso e enviado à Espanha ou Portugal para ser julgado, condenado à prisão ou à morte.

Voltamos à época das minorias abraâmicas como diz dom Helder. Estas minorias devem manter o fogo aceso no meio da "noite obscura". A "noite obscura" não é quando a Igreja é perseguida, mas quando é triunfante.

Até quando ? Quem manterá a chama acesa ? Por enquanto devemos agüentar todo o tempo necessário. Também, América Latina não pode permanecer muito isolada, como uma fortaleza bem protegida. Há movimentos de discussão e de contestação na Ásia, na Oceania, na Europa, até na África. A única Igreja que a cúria romana controla completamente é América Latina. A comunicação com outras Igrejas do mundo pode arejar a abrir horizonte novos. A noite não dura sempre. Lembremo-nos da perseguição ao franciscanismo no século XIV, da perseguição aos erasmianos no século XVI, da perseguição aos padres sociais entre 1860 e 1960. Tudo tem um fim e o evangelho, apesar de perseguido, acaba manifestando-se.

(www.ciudadanet.org.br/missiologia/abertura.htm)

21 de outubro de 2010

Sobre aborto e eleições

Neuza Tetzner
Sobre aborto e eleições:
Somos responsáveis pelo cuidado da Criação Inteira

Não sou escritora, política, ou entendida em assuntos muito profundos como os que estamos debatendo e assistindo no momento. Mas em meio à enxurrada de textos que recebo todos os dias, me vejo na necessidade de reagir. Mais que um texto de posicionamento pessoal, eu quero apenas "vomitar" algumas idéias e sentimentos que estão me corroendo por dentro, e na impossibilidade de poder soltar um grito, me atrevo a escrever e espalhar alguns pensamentos, assim como muitos estão fazendo nestes dias.

Desde os primeiros debates e pesquisas do primeiro turno, até o resultado das eleições tenho tentado refletir sobre a responsabilidade dessas duas mulheres que se dispuseram a assumir o risco de concorrer à presidência da República. Desde há muito tempo queremos ver como mulheres e feministas a nós mesmas representadas no Planalto. E para nós mulheres, creio que foi fundamental ver essas duas mulheres, diferentes e iguais ao mesmo tempo, demonstrando sua capacidade de articular e mobilizar o Brasil em torno de dois temas tão importantes e urgentes para todo o país, bem como para toda humanidade. A partir desta campanha o rosto da mulher brasileira fará parte dos debates políticos. Não será mais possível ignorar a presença das mulheres na política, porque através delas todas nós estivemos representadas e fomos o alvo das atenções. No rosto de Marina a mulher pobre pode se ver, no rosto de Dilma a intelectual, a empresária, as mulheres que tiveram acesso à educação. Fomos vistas não como objeto de cama e mesa, mas como mulheres capazes de conduzir um país, e representá-lo no mundo.

Após o resultado do primeiro turno recai sobre essas mulheres uma enorme responsabilidade.
De um lado a enorme responsabilidade de Marina Silva, por ter complicado a vitória de Dilma no primeiro turno e ter agora que tomar uma posição. Sem Marina, talvez teria sido mais fácil Dilma vencer. Talvez. De outro lado a terrível discussão sobre o aborto, tema nunca encarado de fato por nenhuma candidatura.
Dois temas polêmicos e urgentes e duas mulheres na condução do debate, ainda que o rosto de Marina esteja ausente da tela.
Conheço Marina como a maioria das pessoas. Sua história, sua vida de luta e sacrifício, sua coragem, que se mistura com o seu corpo franzino. Quando a vi em Porto Velho no intereclesial me impressionou a sua maneira de falar, mas me veio à mente, algo que às vezes experimento como mulher e pastora. Como é fácil arrancar aplausos no meio de quem pensa como a gente, ou está sedento de novidades. Como é fácil emocionar as pessoas com nossas estórias de vida.

Por sua força e determinação, e também pela estratégia de seus apoiadores, Marina foi capaz de trazer a discussão sobre o Meio Ambiente para o Ambiente Inteiro, em especial junto aos jovens, aumentando a onda verde. Mas toda onda é passageira, e o risco é que a discussão morra na praia, pois onda não se segura. É preciso mais Educação para que a juventude possa assumir essa luta com mais compromisso, e assim no futuro tenhamos um país mais "consciente e consistente" em relação ao Ambiente Inteiro.


Tão doloroso quanto ver a devastação do Ambiente Inteiro é assistir a discussão sobre o aborto, personalizado na candidatura de Dilma. Ninguém em sã consciência é favor do aborto. Assim como ninguém em sã consciência ateia fogo numa floresta em tempo de seca. Ambos são atos criminosos. A diferença é que os crimes contra a Natureza são difíceis de se comprovar. O aborto é fácil, pois a vitima é conhecida, está próxima de nós, e muitas vezes morta.
Se a questão do aborto surgiu nesta campanha, é porque ele é um fato tão grave e tão importante quanto a destruição Meio Ambiente, pois em ambos está presente a preservação da vida, em toda a sua plenitude. Por isso é hipócrita quem defende um projeto e exclui o outro. Se as Igrejas defendem a preservação da Natureza e trabalham o tema Ecologia, não podem deixar de trabalhar a questão do aborto com a mesma força e intensidade. Se é necessário preservar a Natureza é igualmente necessário preservar a Vida da Mulher.
Quando uma mulher recorre ao aborto é porque lhe faltaram todas as informações necessárias para não engravidar: Educação sexual, métodos anticoncepcionais de prevenção, e homens com o mesmo conhecimento e respeito, capazes de impedir que uma gravidez indesejada aconteça. Porque uma gravidez só acontece quando se tem um homem na relação. E aí está o grande problema na questão do aborto. O homem está saindo ileso na discussão. E pior está conduzindo a discussão como quem está fora do problema. Olhando apenas para a vida que foi gerada por ele, e não para a vida que está ameaçada por causa dele. É importante perceber que quem está escrevendo e debatendo mais sobre o aborto são homens, em nome das Igrejas ou de seus próprios interesses. Digo das Igrejas porque por trás da Católica, outras se escondem ou incluem o seu discurso. A vida da mulher não interessa para os homens, não interessa para as Igrejas, até o momento em que está para acontecer um aborto. Nesse momento todos entram com seus discursos baseados na religião, na ética, na moral, fazendo prevalecer a lei e a justiça.
Discriminalizar o aborto não significa apoiar para que as mulheres realizem o aborto sempre que engravidarem, mas significa não punir com uma pena maior, que aquela que já carregam por conta própria. Se uma mulher tiver que responder como crime por abortar, que também sejam punidos os que cometem crimes contra a Natureza, ou seja, contra o Ambiente Inteiro.
O tema do aborto entrou no debate para aterrorizar as pessoas e não para esclarecer e ajudar a pensar em políticas públicas para as mulheres. Somos mais de 50% das eleitoras e mãe dos outros 50%.

Compete a nós mulheres termos clareza sobre o cuidado com o nosso corpo, clareza sobre os interesses que se tem sobre o nosso corpo. Com o nosso corpo vendem-se de sabonete a carros importados. Somos responsáveis pela propaganda e pela compra de milhares de produtos. Somos responsáveis pelo cuidado da Criação Inteira.
Façamos valer a nossa condição de Mulher e o nosso direito a Opinar sem o autoritarismo de quem quer que seja, Estado - Igreja - Marido.


Neuza Tetzner é pastora da IECLB - Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil

20 de outubro de 2010

Padre Zezinho - ENTRE A GRÁVIDA E O FETO

Pe. José Fernandes de Oliveira (Padre Zezinho)
Entre os humanos, grávida é mãe que ainda não deu à luz e feto é filha ou filho que se desenvolve no ventre da mãe. Trata-se de concepção, gestação e geração. É o pequeno ser humano concebido, gestado e gerado; ou interrompido...

Quando uma sociedade discute a regulamentação ou a proibição do aborto, sem rodeios e eufemismos discute a vida ou a morte do feto, os pais como protagonistas, os médicos e o Estado como cúmplices ou auxiliares, os crentes ou os não crentes como conselheiros. Aí a raiz do magno conflito entre mãe e feto. Deve a mulher ir até o fim e dar à luz o feto traz no ventre? Não pode escolher? Pode-se eleger um candidato que é a favor da mãe e, pelo bem da mãe, em algumas circunstâncias admite provocar a morte do filho dela? Pode-se eleger alguém que, entre a mãe indefesa e em risco de vida e o feto sadio, mas também indefeso, escolheria o feto?

O debate vai longe porque, como não poderia ser diferente, mexe com o conceito de liberdade, pessoa, vida e morte. Alguém pede uma lei que favorece a mulher; alguém luta contra esta lei, porque abrirá espaço para a mortandade financiada de milhões de fetos indesejados. Aparecerem os amenizadores a dizer que se trata de apenas alguns casos. Rebatem os éticos que, em questão de vida e morte, não existem isto de "apenas alguns"!

Declarar-se contra o aborto e garantir que jamais assinará uma lei do congresso em favor da interrupção da gravidez é ir contra o segmento que não ver o feto como filho ou como pessoa em formação. E há muitos que assim pensam. Para eles o dono da vida é o casal. Deus, ou não existe ou não se mete nisso! Declarar-se a favor da mãe que não quer ou não pode ter o filho agora e por questão de saúde permitir que ela aborte seu filho com assistência do Estado é bater de frente contra milhões de crentes das mais diversas religiões que afirmam que o dono da vida é Deus: o casal é o guardião. O tema vida resvala para o conceito de criação e criador e acaba em debate crentes x ateus. Divide a sociedade e assume conotação ideológica e, por isso, política.

O aborto legalizado favorece alguém e prejudica alguém. Os que pensam que o feto ainda não é alguém tomam a defesa da mulher que o concebeu e quer interromper sua macha para a luz. Os que o consideram alguém em formação tomam sua defesa: está vivo e tem o direito de nascer.

Depois aparecem os adjetivos: retrógrado, fanático, ateu, materialista, conservador, direitista, progressista... Tudo por causa da mulher que não deseja hospedar aquela vida ou daquela vida que não pode ser descartada nem por ela nem por ordem do juiz.

No meio do debate virão as manipulações de cunho político e religioso e as ofensas. Há quem discuta o tema com maturidade e há os que descambam para os gritos, as altercações e atos de violência. O Brasil caminha nesta direção. Se o debate não for enfrentado de maneira serena fará mais vítimas do que faz agora. O aborto já existe. Regulamentá-lo é admitir que prossiga, mas de maneira mais higiênica. Condená-lo é manter a clandestinidade. Cabe aos crentes motivar os fiéis a não matar seus fetos e cabe aos não crentes admitir que ao tomar a defesa da mulher estão aceitando a morte de uma vida humana, por menor que seja o seu tamanho. Acontece que o tamanho da vítima ao invés de diminuir, às vezes agrava o crime, ainda que não se chame o crime de crime! Só que tem que é! Alguém morreu e alguém matou!

18 de outubro de 2010

Padre Zezinho - MUDAR DE RELIGIÃO

Pe.José Fernandes de Oliveira(Pe. Zezinho)

O filho de um amigo meu, levado por sua devoção a esposa, mudou de religião. Incidentemente os dois têm nome de santo católico! Numa conversa informal que um dia tivemos, ele disse que estava mais feliz agora, mas que admirava o fato de eu também ser feliz, felicidade que atribuo a minha Igreja e que ele agora atribui a Igreja da qual faz parte. Conversa vai, conversa vem... eu lhe disse:

- “Sua mãe, que já morreu, agora tem certeza sobre Deus e sobre ela mesma. Creio que ela está no céu pertinho de Deus, no colo dele. Quando eu morrer, terei certezas muito maiores do que tenho hoje, porque estarei, espero eu, no colo de Deus. Quando você morrer também descobrirá quem esteve mais certo neste mundo: sua mãe, eu, você, sua esposa, o povo da nova religião que você adotou ou os da religião da qual você saiu para não ter conflitos com a esposa. Agora, só podemos ter fé e viver desta fé. Você resolveu vivê-la numa outra Igreja e eu continuo vivendo na minha que, para mim, é mais do que mãe e é mais do que suficiente”.
A conversa mudou para outros temas e nos despedimos civilizadamente com chá vermelho e torrada. Quando se é civilizado, é bem assim que se faz. Lá no céu saberemos quem esteve certo. Aqui vivemos de procuras. Quem acha que achou, continue! Quem acha que não achou, continue também! Em algum lugar haverá verdade suficiente para a gente ser feliz, sempre na caridade, porque sem esta, nenhuma verdade vale a pena.

15 de outubro de 2010

Aborto. assunto sério, virou um ''samba do teólogo doido'. Entrevista especial com Gedeon Freire de Alencar

“Eu não sou a favor do aborto, e, teoricamente, creio que ninguém é a favor disso. Mas precisamos discutir isso porque aborto ainda é uma questão de pobre nesse país. Os ricos continuam abortando e não morrem, porque fazem em clínicas bem aparelhadas”, ressalta o sociólogo e presbítero da Igreja Assembleia de Deus, Gedeon Freire de Alencar, durante a entrevista que concedeu por telefone à IHU On-Line. Ele discute a importância do voto evangélico para definição do primeiro turno e analisa seus caminhos para o segundo. Gedeon vibra ao apontar que, finalmente, a política esteja na pauta das igrejas e instituições religiosas, mas afirma que o “tiro pode sair pela culatra” dos conservadores que estão levantando essas questões: “se a nova geração se acostuma a discutir isso, vai também querer discutir outras coisas”.

Gedeon Freire de Alencar é presbítero da Igreja Assembleia de Deus Betesda em São Paulo, mestre em Ciências da Religião pela Universidade Metodista, diretor pedagógico do Instituto Cristão de Estudos Contemporâneos (ICEC). É membro da Associação Brasileira de História da Religião. É autor de Protestantismo Tupiniquim: Hipóteses Sobre a (não) Contribuição Evangélica à Cultura Brasileira (Arte Editorial).

Confira a entrevista.


Confira a entrevista.

IHU On-Line – Dilma ganhou nas regiões onde o Bolsa Família tem mais abrangência. Conforme uma entrevista que o senhor nos deu, nas regiões mais pobres da sociedade aonde o pentecostalismo chegou, houve uma melhora na questão da alfabetização. Como o senhor vê a relação que se dará entre Dilma e os evangélicos neste segundo turno?

Gedeon Freire de Alencar –
Uma coisa que tenho dito nessas últimas semanas é que, ironicamente, nós nos tornamos atores políticos no Brasil. Os evangélicos sempre viveram na marginalidade em quase todos os aspectos. Entramos quase pela porta dos fundos na política e agora, plagiando uma expressão, “nunca na história desse país” se falou tanto em religião na época de eleição. Segundo as pesquisas e analistas, a questão religiosa foi fundamental, principalmente, em função de o pleito ter chegado ao segundo turno. Agora, eu queria que fosse realizada uma pesquisa mais específica sobre essa questão do voto dos pobres e da religião, porque não estou muito convencido de que obrigatoriamente o pessoal vota ou não vota naquele candidato por alguma razão religiosa.

Sei que, quanto mais escolarizadas, as pessoas têm mais informação e o voto se torna mais complexo. Eu presumo que nas classes mais baixas, o voto se dá de forma muito instrumental e pelo meu interesse imediato. Nesse caso, a votação da Dilma na periferia se deu basicamente em função das necessidades imediatas que estavam sendo alcançadas, inclusive pelo Bolsa Família. Bom, aí você tem o recorte de evangélicos nessa região. Eu vi uma senhora de uma região muito pobre do nordeste sendo entrevistada e a repórter pergunta: “Você não vai votar na Marina que é evangélica?” E ela responde: “Pois é, na minha igreja todo mundo está falando nisso, mas eu vou votar no Lula porque tenho Bolsa Família”. Ou seja, para além das questões mais religiosas, as pessoas votam de fato em função de suas questões imediatas que estão sendo respondidas.

Nesse caso, como vai continuar a questão da eleição? A questão do aborto, ou do moralismo do aborto, esteve muito presente nessas eleições e isso pesou muito na decisão dos evangélicos. Porém, segundo tenho visto nos jornais, foi um fenômeno de internet. E poucas pessoas das classes C e D têm acesso à internet. As classes A e B do Brasil já têm acesso 100% à internet. Eu tenho minhas dúvidas em relação ao fato de as classes C e D estarem formando suas opiniões em função da discussão de internet. Tem algumas coisas que precisam ficar mais claras em relação a isso.

IHU On-Line – Teoricamente, vivemos num Estado laico. Como o senhor vê a dimensão que a religião está tomando nesse debate para o segundo turno?

Gedeon Freire de Alencar –
Apesar de todos os males e problemas do “talismã gospel” que existe por aí, eu acho muito interessante porque, antes, exercitávamos o nosso evangelho dentro de quatro paredes e as questões do mundo não diziam respeito a nossa espiritualidade. Os pessimistas diziam que estava sendo algo muito confuso, muito ridículo essa relação entre religião e política, mas acho muito válido. Isso porque mal ou bem as igrejas começaram a discutir a eleição, mal ou bem os pastores se envolveram e as novas gerações começam a discutir esse negócio. Quem sabe as pessoas, com isso, se entusiasmam e começam a discutir esse negócio? Por mais que seja uma discussão moralista, conservadora, truncada, cheia de ressalvas e mentiras, eu vejo como algo muito interessante essa nova geração evangélica se inserindo na sociedade dessa forma.

Claro, há dois tipos de interesses envolvidos: uma coisa é pastor-deputado, senador-deputado, entre outros, que entram na discussão de disputa de poder. Estes não estão se esforçando para que a figura da Dilma ou do Serra seja digerida. Está se "cacifando" para que, quando um deles for eleito, se leve a nota promissória do que ele ganhou com isso. O povão está se entusiasmando com a discussão. E o tiro pode sair pela culatra das lideranças conservadoras, porque grandes pastores conservadores desse país (e é quase redundante falar em pastor conservador) têm trazido a questão do aborto e da homossexualidade para o debate das eleições e, se a nova geração se acostuma a discutir isso, vai também querer discutir outras coisas. Se entrar na moda, isto é, discutir todas as questões nacionais, isso vai ser muito bom, mas vai fazer com que as lideranças conversadoras percam o trem da história. Talvez eu esteja sendo ingênuo por achar isso maravilhoso, mas prefiro assim a ser pessimista em absoluto.

IHU On-Line – As diferentes igrejas deveriam, então, se posicionar em relação a um ou outro candidato?

Gedeon Freire de Alencar –
Ao candidato não, porque fica muito corporativista. As igrejas e instituições deveriam se posicionar propositivamente. Alguém vai dizer que isso é muito ingênuo e idealista. Mas quantas eleições passaram e se discutiram essas questões e nós não tomamos partido algum. Transposição do São Francisco, privatização dos meios de comunicação entre outras questões foram debatidas e a igreja não se envolveu. Mas agora, a igreja está tendo a ver e tem uma resposta para dar. Portanto, as igrejas deveriam, de fato, se posicionar de forma prepositiva sobre, por exemplo, saneamento básico, remédios nos postos de saúde. Nós somos cidadãos desse país e do mundo, então podemos e devemos nos posicionar.

IHU On-Line – O que diferencia o posicionamento de Dilma e Serra em relação ao aborto e ao casamento gay?

Gedeon Freire de Alencar –
Eu troco um pelo outro e não quero volta. Deixo bem claro que vou anular meu voto no segundo turno. Votei na Marina não achando que ela seria solução da lavoura e a salvação para o país, mas eu não opto por Dilma ou Serra porque eles são, para mim, absolutamente iguais e ambos estão fazendo uma política interesseira. Estão fazendo agora todo um discurso religioso, cristão, de quem teme a Deus, a favor da vida, quando ambos são a favor da descriminalização do aborto. O problema é que nessa discussão há uma mistura do que vem a ser descriminalização do aborto e legalização. São duas coisas completamente diferentes, mas é pedir muito que no debate político essas questões fiquem claras.

IHU On-Line – Os evangélicos podem mesmo ser os responsáveis pela definição deste segundo turno?

Gedeon Freire de Alencar –
Pois não é. Não sei se a resposta é sim ou não. É lamentável que nem o Datafolha e nem o Ibope, nas últimas pesquisas, tenham colocado a questão religiosa na pergunta. Não dá para saber de fato se a maioria evangélica aderiu mesmo à Marina que teve toda essa simpatia dentro do universo religioso. Agora, afirmar que o universo evangélico será o grande diferencial, não é algo que tenho tanta certeza assim.

IHU On-Line – Então, que motivos vão conduzir os votos dos evangélicos?

Gedeon Freire de Alencar –
O voto do evangélico, na média, é conservador. Nessa altura do campeonato, portanto, o PT está sofrendo do mal do veneno que plantou. O PT expulsou deputado que é contra o aborto e colocou isso no projeto de governo, o que é uma bobagem porque poderia ter deixado a questão para ser discutida depois. Isso não é projeto de governo. O mais lastimável em toda essa campanha é que o aborto virou a grande questão a ser discutida e esqueceu-se de debater o problema da Receita, da Casa Civil e corrupções gravíssimas. Está sendo muito conveniente para o governo Lula e para o próprio Serra que a discussão do aborto se torne fundamental e, com isso, se esqueça das questões econômicas e corrupção que estão por aí.

IHU On-Line – O possível apoio de Marina pode mudar esse cenário atual?

Gedeon Freire de Alencar –
Espero que ela não apoie qualquer um dos dois. Se fizesse isso seria incoerente. Espero que ela permaneça neutra, continue fazendo o discurso da economia sustentável, levantando questões que Dilma e Serra não discutiram e se mantenha íntegra no seu posicionamento de questionamento. Eu acredito que ela não fará isso, embora a estrutura do PV possa se posicionar para ganhar alguns carguinhos.

IHU On-Line – Qual a importância dos valores religiosos na sociedade de hoje?

Gedeon Freire de Alencar –
São muito importantes. Mas, para além disso, é preciso que pensemos no que são esses valores, quem está estabelecendo-os e quem está lucrando com isso. Ser visceralmente contra o aborto, em quaisquer circunstâncias, é também não pensar na vida da mulher, da família e da própria criança depois que é vítima ou fruto de, por exemplo, um estupro. Ou seja, que valor é esse que é tão absurdamente a favor de uma vida que nem existe ainda e é tão contra outras vidas que já estão existindo ou, no futuro, da vida que será problematizada? Eu não sou a favor do aborto, e, teoricamente, creio que ninguém é a favor disso. Mas precisamos discutir isso porque aborto ainda é uma questão de pobre nesse país. Os ricos continuam abortando e não morrem, porque fazem em clínicas bem aparelhadas. Meninas da periferia abusadas e mulheres pobres vão fazer aborto em clínicas que estão mais para açougues e morrem, mas morte de pobre em periferia não importa. Nesse momento, estão deturpando essa questão fazendo um “samba do teólogo doido” em cima de um assunto muito sério.

‘A CNBB está vivendo um momento difícil’, diz Dom Demétrio

"Não foi, oficialmente, a CNBB que explorou eleitoralmente a questão do aborto”. É o que esclarece Dom Demétrio Valentini, numa breve entrevista por correio eletrônico ao Brasil de Fato, 13-10-2010. Segundo ele, certos episódios, como a distribuição de panfletos como o texto intitulado “Apelo aos fiéis”, distribuídos em algumas igrejas católicas paulistas, em plena campanha eleitoral, ameaçam seriamente a instituição.

Eis a entrevista.

Dom Demétrio, você achou legítima e democrática a distribuição de panfletos contra a candidatura de Dilma Roussef (PT) pela Regional Sul 1 da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB)? Por quê?

Já temos agora a declaração oficial da Presidência da CNBB, emitida no dia 08 de outubro, denunciando a manipulação feita, envolvendo indevidamente o nome daCNBB. Diz textualmente a Nota da Presidência da CNBB: "Lamentamos profundamente que o nome da CNBB - e da própria Igreja Católica, tenha sido usado indevidamente ao longo da campanha, sendo objeto de manipulação". A Nota da Presidência da CNBB se refere, evidentemente, à farta distribuição de folhetos, que usavam a "recomendação" feita pelo Sul 1, apresentando-a como se fosse uma recomendação oficial da própriaCNBB. É o caso típico de manipulação, com a clara intenção de enganar o eleitor. Infelizmente, foi o que a "recomendação" do Sul 1 proporcionou.

Essas eleições têm causado desconforto entre os bispos da CNBB?

A CNBB está vivendo um momento difícil, que certamente demandará uma profunda avaliação, passadas as eleições, para analisar com serenidade de espírito os episódios que estão ocorrendo nesta campanha eleitoral e que ameaçam seriamente a credibilidade desta instituição, que já deu no passado importante contribuição para a sociedade brasileira.

O senhor acredita que a questão do aborto, por exemplo, tem sido explorada de uma forma extremamente eleitoral por parte da CNBB e que, desse modo, alimenta enormemente os votos nos tucanos?

De novo é preciso reafirmar com clareza: não foi, oficialmente, a CNBB que explorou eleitoralmente a questão do aborto. É evidente que está havendo uma exploração eleitoral do questão do aborto. E para isto estão utilizando posicionamentos pessoais de alguns bispos e padres, para apresentar estes posicionamentos com se fossem daCNBB. Esta é a instrumentalização que está sendo feita. E os bispos e padres que usam a religião para manifestar publicamente sua opção partidária, deveriam se dar conta de quanto estão sendo explorados pelos partidários de uma determinada candidatura.

Alguns sociólogos afirmaram que o voto em Marina foi, sobretudo, uma resposta ao caráter antirreligioso da candidatura de Dilma Roussef, e denominaram isso como uma demonstração de uma face fascista do Brasil. Como o senhor analisa isso?

Pode ser que isto ajude a entender o resultado do primeiro turno. O fato evidente é que esta campanha está mostrando problemas muito sérios, existentes em nossa sociedade brasileira. Existem os saudosistas da ditadura militar, há ódios e rancores represados que começam perigosamente a se manifestar, há posturas religiosas fundamentalistas, que se aproximam perigosamente do fanatismo. Tudo isto nos desafia a todos e nos convoca para o bom senso e para a responsabilidade.

13 de outubro de 2010

MANIFESTO

“Se nos calarmos, até as pedras gritarão!”



Manifesto de Cristãos e cristãs evangélicos/as e católicos/as em favor da vida e da Vida em Abundânci
a!



Somos homens e mulheres, ministros, ministras, agentes de pastoral, teólogos/as, padres, pastores e pastoras, intelectuais e militantes sociais, membros de diferentes Igrejas cristãs, movidos/as pela fidelidade à verdade, vimos a público decla
rar:

1. Nestes dias, circulam pela internet, pela imprensa e dentro de algumas de nossas igrejas, manifestações de líderes cristãos que, em nome da fé, pedem ao povo que não vote em Dilma Rousseff sob o pretexto de que ela seria favorável ao aborto, ao casamento gay e a outras medidas tidas como “contrárias à mo
ral”.
A própria candidata negou a veracidade destas afirmações e, ao contrário, se reuniu com lideranças das Igrejas em um diálogo positivo e aberto. Apesar disso, estes boatos e mentiras continuam sendo espalhados. Diante destas posturas autoritárias e mentirosas, disfarçadas sob o uso da boa moral e da fé, nos sentimos obrigados a atualizar a palavra de Jesus, afirmando, agora, diante de todo o Brasil: “se nos calarmos, até as pedras gritarão!” (Lc 19,
40).
2. Não aceitamos que se use da fé para condenar alguma candidatura. Por isso, fazemos esta declaração como cristãos, ligando nossa fé à vida concreta, a partir de uma análise social e política da realidade e não apenas por motivos religiosos ou doutrinais. Em nome do nosso compromisso com o povo brasileiro, declaramos publicamente o nosso voto em Dilma Rousseff e as razões que nos levam a tomar esta ati
tude:
3. Consideramos que, para o projeto de um Brasil justo e igualitário, a eleição de Dilma para presidente da República representará um passo maior do que a eventualidade de uma vitória do Serra, que, segundo nossa análise, nos levaria a recuar em várias conquistas populares e efetivos ganhos sócio-culturais e econômicos que se destacam na melhoria de vida da população brasil
eira.
4. Consideramos que o direito à Vida seja a mais profunda e bela das manifestações das pessoas que acreditam em Deus, pois somos à sua Imagem e Semelhança. Portanto, defender a vida é oferecer condições de saúde, educação, moradia, terra, trabalho, lazer, cultura e dignidade para todas as pessoas, particularmente as que mais precisam. Por isso, um governo justo oferece sua opção preferencial às pessoas empobrecidas, injustiçadas, perseguidas e caluniadas, conforme a proclamação de Jesus na montanha (Cf. Mt 5, 1-
12).
5. Acreditamos que o projeto divino para este mundo foi anunciado através das palavras e ações de Jesus Cristo. Este projeto não se esgota em nenhum regime de governo e não se reduz apenas a uma melhor organização social e política da sociedade. Entretanto, quando oramos “venha o teu reino”, cremos que ele virá, não apenas de forma espiritualista e restrito aos corações, mas, principalmente na transformação das estruturas sociais e políticas deste m
undo.
6. Sabemos que as grandes transformações da sociedade se darão principalmente através das conquistas sociais, políticas e ecológicas, feitas pelo povo organizado e não apenas pelo beneplácito de um governante mais aberto/a ou mais sensível ao povo. Temos críticas a alguns aspectos e algumas políticas do governo atual que Dilma promete continuar. Motivo do voto alternativo de muitos companheiros e companheiras Entretanto, por experiência, constatamos: não é a mesma coisa ter no governo uma pessoa que respeite os movimentos populares e dialogue com os segmentos mais pobres da sociedade, ou ter alguém que, diante de uma manifestação popular, mande a polícia reprimir. Neste sentido, tanto no governo federal, como nos estados, as gestões tucanas têm se caracterizado sempre pela arrogância do seu apego às políticas neoliberais e pela insensibilidade para com as grandes questões sociais do povo mais empobre
cido.
7. Sabemos de pessoas que se dizem religiosas, e que cometem atrocidades contra crianças, por isso, ter um candidato religioso não é necessariamente parâmetro para se ter um governante justo, por isso, não nos interessa se tal candidato/a é religioso ou não. Como Jesus, cremos que o importante não é tanto dizer “Senhor, Senhor”, mas realizar a vontade de Deus, ou seja, o projeto divino. Esperamos que Dilma continue a feliz política externa do presidente Lula, principalmente no projeto da nossa fundamental integração com os países irmãos da América Latina e na solidariedade aos países africanos, com os quais o Brasil tem uma grande dívida moral e uma longa história em comum. A integração com os movimentos populares emergentes em vários países do continente nos levará a caminharmos para novos e decisivos passos de justiça, igualdade social e cuidado com a natureza, em todas as suas dimensões. Entendemos que um país com sustentabilidade e desenvolvimento humano – como Marina Silva defende – só pode ser construído resgatando já a enorme dívida social com o seu povo mais empobrecido. No momento atual, Dilma Rousseff representa este projeto que, mesmo com obstáculos, foi iniciado nos oito anos de mandato do presidente Lula. É isto que está em jogo neste segundo turno das eleições de
2010.
Com esta esperança e a decisão de lutarmos por isso, nos subscrev
emos:



Dom Thomas Balduino, bispo emérito de Goiás velho, e presidente honorário da CPT nacion
al.
Dom Pedro Casaldáliga, bispo emérito da Prelazia de São Feliz do Araguaia-MT.
Dom Demetrio Valentini, bispo de Jales-SP e presidente da Cáritas nacional.
Dom
Luiz Eccel - Bispo de Caçador-SC
Dom Anto
nio Possamai, bispo emérito da Rondônia.
Dom Sebastiã
o Lima Duarte, bispo de Viana- Maranhão.
Dom Xavier Gille
s, bispo emérito de Vina- Maranhão.
Padre Paulo Gabriel,
agente de pastoral da Prelazia de São Feliz do Araguaia /MT
Jether Ramalho, Rio de J
aneiro.
Marcelo Barros, monge benedi
tino, teólogo
Professor Candido Mendes, cientis
ta político e reitor
Luiz Alberto Gómez de Souza, cientista
político, professor
Zé Vicente, cantador popular. Ceará
Chico
césar. Cantador popular. Paraíba/são paulo
Revdo Roberto Zwetch, igreja IELCB e professor de teologia em São Leopoldo.
Pastora Nancy Cardoso, metodista, Vassouras / RJ
Antonio M
arcos Santos, Igreja Evangélica Assembléia de Deus - Juazeiro - Bahia
Maria Victoria Benevides, professora, da USP
Monge Joshin, Comunidad
e Zen Budista do Brasil, São Paulo
Antonio Cecchin
, irmão marista, Porto Alegre.
Ivone Gebara, religiosa católica
, teóloga e assessora de movimentos populares.
Fr
. Luiz Carlos Susin – Secretário Geral do Fórum Mundial de Teologia e Libertação
Frei
Betto, escritor, dominicano.
Luiza E. Tomita – Sec. Executiva EATWOT(Ecumenical Associa
tion of Third World Theologians)
Ir. Ir
io Luiz Conti, MSF. Presidente da Fian Internacional
Pe. João Pedro Baresi, pres. da Comissão Jus
tiça e Paz da CRB (Conferência dos religiosos do Brasil) SP
Frei
José Fernandes Alves, OP. – Coord. da Comissão Dominicana de Justiça e Paz
Pe. Oscar Beozzo, diocese de Lins
.
Pe. Inácio Neutzling – jesuíta, diretor do Instituto Humanitas Unisinos
Pe. Ivo P
edro Oro, diocese de Chapecó / SC
Pe. Igo
r Damo, diocese de Chapecó-SC.
Irmã Pompeia Bernasconi, cônegas de Santo Agos
t
inho
C
ibele Maria Lima Rodrigues, Pesquisadora.
Pe. John Caruana, Rondônia.
Pe. Julio Gota
rdo, São Paulo.
Toninho Kalunga, São Paulo,
Washingtonn L
uiz Viana da Cruz, Campo Largo, PR e membro do EPJ (Evangélicos Pela Justiça)
Rica
rdo Matense, Igreja Assembléia de Deus, Mata de São João/Bahia
Silva
nia Costa
Mercedez Lopes,
André Marmilicz
Raimundo Cesar Barreto Jr, Pastor Batista, Doutor em é
tica social
Pe. Arnildo Fritzen, Carazinho. RS.
Darciolei Volpato, RS
F
rei Ildo Perondi - Londrina PR
Ir. Inês W
eber, irmãs de Notre Dame.
Pe. Domingos Luiz Costa Curta, Coord. Dioc de Pastoral da Diocese
de Chapecó/SC.
Pe. Luis Sartorel,
Itacir
Gasparin
Célio Piovesan, Ca
noas.RS
Toninho Evangelista - Hortolâ
ndia/SP
Geter Borges de Sousa, Evangélicos
Pela Justiça (EPJ), Brasília.
Caio César Sousa Marçal - Missionário da Igreja de Cris
to - Frecheirinha/CE
Rod
inei Balbinot, Rede Santa Paulina
Pe. Cleto João Stu
lp, diocese de Chapecó.
Odja Barros Santos
- Pastora batista
Ricardo Aléssio, cristão de tradição presbiteriana,
professor universitário.
Maria Luíza Aléssio, professora universitária, ex-secre
tária de educação do Recife
Rosa Maria Go
mes
Roberto Cartaxo Machado Rios
Rute Maria Mon
teiro Machado Rios
Antonio Souto, Caucaia,
CE
Olidio Mangolim – PR
Joselita Alves Sampaio – PR
Kleber Jorge e silva, teologi
a – Passo Fundo - RS
Terezinha Albuquerque
PR. Marco Aurélio Alves Vicente - EPJ - Evangé
licos pela Justiça, pastor-auxiliar da Igreja Catedral da Família/Goiânia-GO
Padre Ferraro, Ca
mpinas.
Ir, Carmem Vedovatto
Ir.
Letícia Pontini, discípulas, Manaus.
Padre Manoel, PR
Maga
li Nascimento Cunha, metodista
Stela Maris da Silva
Ir.
Neusa Luiz, abelardo luz- SC
Lucia Ribeiro, socióloga
Marcelo Timotheo da Costa, historiador
Maria Helena Silva Timotheo da Costa
Ianete Sampaio
Ney Paiva
Chavez, professora educação visual, Rio de janeiro
Ant
onio Carlos Fester
Ana Lucia Alves, Brasília
I
vo Forotti, Cebs – Canoas - RS
Agnaldo da Silva Vieira - Pasto
r Batista. Igreja Batista da Esperança - Rio de Janeiro
Irmã Cl
audia Paixão, Rio de Janeiro
M
arlene Ossami de Moura, antropóloga / Goiânia.
Ir. Maria Celina Correia Leite, Recife
Pedro Henriques de Moraes Melo - UFC/ACEG
Fernanda Seibel, Caxias do Sul.
Benedito Cunh
a, pesquisador popular, membro do Centro Mandacaru - Fortaleza
Pe. Lino Allegri - Pastoral do P
ovo da Rua de Fortaleza, CE.
Juciano de Sousa Lacerda, Prof. Doutor de Comunicação Social da
UFRN
Pasqualino Toscan - Guaraciaba SC
Fr
ancisco das Chagas de Morais, Natal - RN.
Elida Araúj
o
Maria do Socorro Furtado Veloso - Natal, RN
Maria Letícia Ligneul Cotrim, educadora
Maria
das Graças Pinto Coelho/ professora universitária/UFRN
Ismael de Souza Maciel membro do CEBI - Centro de Estudos Bíbi
cos Recife
Xavier Uytdenbroek, prof. aposentado da UFPE e membro
da coordenação pastoral da UNICAP
Maria Mércia do Egito Souza agente da Pa
storal da Saúde Arquidiocese de Olinda e Recife
Leonardo Fernando de Barros Autran Gonça
lves Advogado e Analista do INSS
Karla Juliana Souza Uytdenbroek Ba
charel em Direito
Targelia de Souza Albuquerq
ue
Maria Lúcia F de Barbosa, Professora UFPE
Débora Costa-Maciel,
Profª. UPE
Maria Theresia Seewer
107. Ida Vicenzia Dias Maciel

108. Marcelo
Tibaes

109. Sergio Bernardoni, diretor da CARAVIDEO- Goiânia - Goiás

110. Claudio de Oli
veira Ribeiro. Sou pastor da Igreja Metodista em Santo André, SP.

104 . Pe. Paulo Sérgio Vail
lant - Presbítero da Arquidiocese de Vitória – ES

106. Roberto Fernandes de
Souza. RG 08539697-6 IFP RJ - Secretario do CEBI RJ

107
. Sílvia Pompéia.

108. Pe.
Maro Passerini - coordenador Past. Carcerária - CE

109. Dora Seibel – Pedagoga, caxias
do sul.

110. Mosara Barbosa
de M
elo

111. Maria de Fátim
a Pim
entel Lins

112
. Pr
of. Renato Thiel, UCB-DF

114 . Alexandre Brasil Fonseca
, Soc
logo, prof. da UFRJ, Ig. Presbiteriana e coordenador da Rede FALE)

115 Daniel
a Sa
nches Frozi, (Nutricionista, profa. da UERJ, Ig. Presbiteriana, conselheira do CONSEA Nacional e vice-presidente da ABUB)

116. Marcelo Ayres Camurça –
Prof
essor do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Religião – Universidade Federal de Juiz de Fora

117. Revd. Cônego Francisco
de Assis da Silva,Secretário Ger
al da IEAB e membro da Coordenação do Fórum Ecumênico Brasil

11
8.
Irene Maria G.F. da Silva Telles

119. Manfredo Araújo de Oliveira

120. Agnaldo da Silva Viei
ra -
Pedagogo e Pastor Auxiliar da Igreja Batista da Esperança-Centro do Rio de Janeiro

121. Pr. Marcos Dornel - Pastor Evangélico -
Igrej
a Batista Nova Curuçá - SP

122. Adriano Carvalho.

123. Pe. Sérgio Campos, Fundação Redentorista de Comunicações Sociais –
Para
naguá/Pr.

124. Eduardo Dutra Machado, pastor presbiteriano

125. Maria Gabriela Curubeto Godoy - médica psiquiatr
a - R
S

1
26. Genoveva Prima de Freitas- Professora – Goiânia

127. M. Ca
ndida
R. Diaz Bordenave

128. Ismael de Souza Maciel membro do CEBI - Centro de Estudos Bíbicos Recife

129.
Xavie
r Uytdenbroek prof. aposentado da UFPE e membro da coordenação pastoral da UNICAP

130. Maria Mércia do Egito Souza agente da Pastoral da Saúde Arquidiocese de Olinda e Recife

131. Le
onard
o Fernando de Barros Autran Gonçalves Advogado eAnalista do INSS

132. Karla Juliana Souza Uytdenbroek Bac
harel
em Direito

133. Targelia de Souza Albuquerque

134.
Maria Lúcia F de Barbosa (Professora - UFPE)

135. Paulo Teixeira, parlamentar, são paulo.

136. Alessandro M
olon,
parlamentar, Rio de janeiro.

137. Adjair Alves (Professor - UPE)

138. Luziano Pere
ira M
endes de Lima - UNEAL

139. Cláudia Maria Afonso de Castro-psicóloga- trabalha
dora
da Saúde-SMS Suzano-SP

140. Fátima Tavares, Coordenadora do Programa de Po
s-Gra
duação em Antropologia FFCH/UFBA

141. Carlos Caros
o, Pr
ofessor Associado do Departamento deAntropologia e Etrnologia da UFBA.

142. Isab
el To
oda

143. Joanildo Burity (Anglicano, c
ienti
sta político, pesquisador da Fundação Joaquim Nabuco,

14
4. Prof. Dr. Paulo Fernando Carneiro de Andrade, Doutor em Teologia pela Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma, Professor de Teologia PUC- Rio

145. Aristóteles R
odrig
ues - Psicólogo, Mestre em Ciência da Religião

146. Zwinglio Mota Dias - Profes
sor A
ssociado III – Universidade Federal de Juiz de Fora

147. Antonio Francisco Braga dos San
tos-
IFCE

148. Pa
ulo C
outo Teixeira, Mestrando em Teologia na EST/IECLB

149. Rev. Luis Omar Dominguez Espinoza


15
0. Anivaldo Padilha - Metodista, KOINONIA, líder ecumênico

151. Nercina Gonçalves

152. Hélio Rios, pastor presbiteriano

153. João Jos
é Sil
va Bordalo Coelho, Professor- RJ

154. Lucilia Ramalho. Rio de janei
ro.

155. Maria tereza Sartorio, educadora, ES

156. Maria jose Sartorio, saúde, ES

157.
Ni
lda Lucia sartorio, secretaria de ação social, Espírito santo

158. Ângela maria fernandes -Curitiba paraná

159. Lúcia Adélia Fernandes

160. Jeanne Nascimento - Advogada em São Paulo/SP

16
1,. Frei José Alamiro, franciscano, São Paulo, SP

162.Leonardo Boff, teólogo e escritor

163 Marcia M.M.Miranda, Centro de Defesa dos Direitos Humanos de Petropolis RJ

164 J. Ricardo A de Oliveira , Psicoterapeuta, RJ

2 de outubro de 2010

Esta é a Hora





Súplica a Deus brasileiro no tempo eleitoral

por Zé Vicente - poeta e cantor da caminhada popular.

Meu Deus Brasileiro concede que assim te chame e assim ti clame,
Ao contemplar a grandeza e a beleza que de ti emana em nossos mares e biomas,
Em nossa gente tão diversa e tal capaz,
em nossa Pátria tão grandiosa e graciosa, Brasil!
Eu sei que És a fonte e a origem da Vida, e que é pouco demais chamar-te com nossas palavras e títulos. E nenhuma intenção, por melhor que seja, pode reduzir-te ao nosso gênero homem ou mulher e às nossas intenções particulares! És tudo em todos e em todas as criaturas!
Ó Deus Brasileiro, que o teu Espírito sopro e luz, se faça presente nestes instantes em que estamos mergulhados na maior campanha eleitoral de nossa história.
Ilumine-nos e desarme-nos das ambições pessoais, de nossos medos e preconceitos, que nos aprisionam ao que já passou e não serve mais como sementes do futuro!
A presença das mulheres nesta campanha para Presidente é sinal e elemento de Esperança e afirmação de mudança, para o país que precisamos construir.
Que nada, ó Divina Estrela Guia, possa interromper essa caminhada rumo ao dia em que uma mulher possa assumir o posto de Servidora Pública Número 1 de nossa Pátria e de nossa gente, principalmente das grandes maiorias sem terra, sem teto, sem toda assistência que um Governo e um Estado devem ao seu povo!
Dá-nos, a nós homens, a humildade que nos livra de todo machismo!Cura as mulheres que também foram contaminadas por tal doença!
Liberta-nos de candidatos e candidatas que usam o dinheiro, as ameaças, as mentiras para confundir e entravar nosso caminho de amadurecimento na democracia popular!
Confunde, sim, a quem em teu nome sagrado, usa a palavra, a fé e os altares, numa falsa postura não partidária, para semear nos corações a dúvida, o medo e o preconceito, contra quem não reza de seu jeito!
Livra-nos dos poderosos escondidos na escuridão e nos bastidores do poder, criminosos e traficantes de interesses dos inimigos do Brasil!
Tua força esteja na nossa união, quando movida para o bem maior! Tua justiça brilhe em nossos sonhos e atos para criamos leis e instrumentos como a da Ficha Limpa e outras que precisamos para fazer da Política bons ensaios do teu Reino entre nós!
Bendito seja, ó Deus Brasileiro, pelos avanços conquistados, pelos homens e mulheres que não se venderam e nem se renderam ao poder das elites do dinheiro, do latifúndio, da grande mídia, do grande mercado!
Bendito és, pela juventude militante, que sabe distinguir onde está o rumo certo e segue adiante, sem medo de aprender com os possíveis erros, contando com tua luminosa presença!
Seremos vigilantes em teu nome! Seguiremos adiante, animados pelo firme exemplo de Maria, mãe de teu filho, que canta pelos séculos a derrota dos poderosos e a vitória dos humilhados em todas as nações da terra, também do nosso Brasil!
Assim seja!