O absurdo e a Graça

Na vida hoje caminhamos entre uma fome que condena ao sofrimento uma enorme parcela da humanidade e uma tecnologia moderníssima que garante um padrão de conforto e bem estar nunca antes imaginado. Um bilhão de seres humanos estão abaixo da linha da pobreza, na mais absoluta miséria, passam FOME ! Com a tecnologia que foi inventada seria possível produzir alimentos e acabar com TODA a fome no mundo, não fossem os interesses de alguns grupos detentores da tecnologia e do poder. "Para mim, o absurdo e a graça não estão mais separados. Dizer que "tudo é absurdo" ou dizer que "tudo é graça " é igualmente mentir ou trapacear... "Hoje a graça e o absurdo caminham, em mim lado a lado, não mais estranhos, mas estranhamente amigos" A cada dia, nas situações que se nos apresentam podemos decidir entre perpetuar o absurdo, ou promover a Graça. (Jean Yves Leloup) * O Blog tem o mesmo nome do livro autobiográfico de Jean Yves Leloup, e é uma forma de homenagear a quem muito tem me ensinado em seus livros retiros, seminários e workshops *

12 de março de 2011

A não-violência e o amor aos inimigos

José Comblin


(Reflexões com base em Mt 5,38-48 e Lc 6,27-37)

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O presente artigo é desenvolvido de forma mais ampla no livro Ser é poder. Organizada por Luiz Dietrich, a obra inclui as contribuições de Sebastião Gameleira (Somos poder), Edênio Valle (Dimensões psicológicas nas relações de poder) e Selvino Hech (A cidadania e a questão de poder). Pedidos paravendas@cebi.org.br


“Ouvistes que foi dito: Amarás o teu próximo, e odiarás o teu inimigo. Eu, porém, vos digo: Amai a vossos inimigos, bendizei os que vos maldizem, fazei bem aos que vos odeiam...”

A não violência e o amor ao inimigo são, com certeza, as maiores características dos discípulos de Jesus e, também, as mais discutidas. Foram, muitas vezes, entendidas de forma errada ou negadas, com força, não somente por não-cristãos, mas também por cristãos que querem tornar a mensagem de Jesus mais aceitável. Nietzsche considerava essa doutrina uma moral de escravos e a entendia como uma reação de rancor e ressentimento de derrotados que não querem enfrentar a situação. Seria a expressão da covardia. Claro está que ela pode ser invocada por pessoas que realmente são covardes e querem legitimar a covardia. No entanto, quando se tomam os textos no seu sentido original, não se trata de covardia. Cabe a cada um de nós e a cada comunidade examinar como essa doutrina se aplica nos conflitos da vida cotidiana.

O lugar social do amor ao inimigo e da renúncia à violência

No texto de Mateus (Mt 5,38-48), o contexto mostra que o texto convém no quadro das comunidades depois da guerra da Judéia (66-70). A derrota dos judeus foi completa. Estava tudo arrasado, as comunidades de Mateus, ligadas ao judaísmo, podiam sentir-se totalmente esmagadas. O que fazer, o que pensar ou sentir nessa oportunidade? O inimigo está triunfando, e desapareceu toda esperança de resistência. “Nessa situação de opressão, o texto de Mateus expressa a consciência da possibilidade de agüentar a situação com amor ao inimigo e renúncia à violência e, assim, estar em superioridade quanto aos adversários, os gentios. Olhar para eles torna-se compreensível no seguinte raciocínio: Há uma diferença entre olhar [para baixo] para aqueles aos quais, de qualquer modo, se é superior e entre o fato de a pessoa subjugada preservar a sua honra, sabendo-se interiormente superior ao vencedor. A idéia de um Deus que está acima do bem e do mal permite suspeitar que essa postura seja um ressentimento”.Como textos que constituem esse contexto de um povo subjugado, citamos Mt 5,41 que se refere às prestações de serviço obrigatório impostas pelos soldados como serviço ao estado; também Mt 5,39 com os quatro exemplos de reações não-violentas, o que se explica diante do desastre do ano 70; também a comparação entre Mt 5,44 e 5,9.Há duas particularidades no texto de Lucas (Lc 6,27-37).

A primeira é a representação de uma sociedade urbana em que as relações de reciprocidade são comuns e respondem a uma ética tradicional. É preciso tratar os outros sem ódio se queremos ser tratados sem ódio. Essa regra de ouro, a regra da reciprocidade, já era comum entre os filósofos gregos. Não é novidade cristã.A segunda particularidade é a grande insistência de Lucas no dinheiro. O princípio geral é : “Dá a todo o que te pede”. Perdoar é perdoar a dívida, não cobrar a dívida (Lc 6,37-38). Aqui o inimigo é o devedor. Amar o inimigo é perdoar a dívida.

Dessa maneira, tanto Mateus como Lucas aplicam as palavras de Jesus a casos particulares, dando-lhes sentidos bem específicos. Eles não inventaram as palavras de Jesus. Receberam-nas de uma tradição comum. Essa mesma tradição deriva de Jesus. Como saber o que havia na tradição comum e o que o próprio Jesus pensava?

A tradição primitiva dos textos e o pensamento de Jesus

O estudo dos textos insinua que a tradição comum dos ditos vem da Palestina antes da guerra. O grupo que mais freqüentemente se refere aos ditos seriam os missionários itinerantes. Eles são os que vão encontrar ladrões no caminho. As alusões ao sol e aos lírios provêm de pessoas que andam pelo campo. A falta de preocupação com comida e bebida também se refere a missionários itinerantes. O mesmo vale para a alusão às perseguições. Uma vez perseguidos, os missionários vão para outro povoado. Tudo se aplica muito bem às condições de vida dos missionários itinerantes.

Cabe-nos fazer a aplicação a nós mesmos, que, de modo geral, não somos missionários itinerantes (ainda que haja alguns).A condição de missionário itinerante combina bastante bem com a condição do próprio Jesus. O amor ao inimigo deriva de Jesus e também a negação da violência. Os missionários itinerantes aprenderam esses temas de Jesus, da sua conduta e dos seus ditos.

A não-violência não é pura novidade de Jesus. Ele mesmo pôde inspirar-se em fatos da história de Israel. Por exemplo, no ano de 26/27, quando Jesus estava prestes a começar o seu ministério, houve um incidente esclarecedor na Judéia. Pilatos, assumindo o governo na Judéia, quis levar imagens de César para dentro de Jerusalém. Para os judeus, eram ídolos. Foi um alvoroço em Jerusalém. Milhares de judeus foram ao palácio de Pilatos em Cesaréia. Lá, de joelhos, ficaram cinco dias e cinco noites sem mover-se do lugar. Pilatos acabou permitindo que entrassem no palácio. Ele mandou cercar os judeus com três fileiras de soldados. Mesmo assim, os judeus negaram-se a aceitar as imagens. Pilatos descontrolou-se e os ameaçou de morte. Ordenou que os soldados sacassem suas espadas. Os judeus deitaram-se lado a lado no chão, ofereceram seus pescoços e gritavam que preferiam morrer a transgredir as leis dos pais. Profundamente impressionado, Pilatos ordenou que as imagens fossem retiradas de Jerusalém. Jesus devia conhecer esse fato ocorrido poucos meses antes que ele mesmo começasse a sua missão. Ali ele tinha um exemplo de não-violência, e, nesse caso, a não-violência tinha sido vitoriosa.

Jesus generalizou esse comportamento e definiu o amor aos inimigos em geral. O mandamento é geral. Não leva em conta as circunstâncias particulares, nem a eventual eficácia. Depois dele, os cristãos procuraram adaptar o mandamento às novas circunstâncias. Vieram os missionários itinerantes que tiveram um papel importante na transmissão dos ditos e fatos de Jesus. As comunidades de Mateus aplicaram os ditos à situação dos judeus esmagados pela guerra. As comunidades de Lucas relacionaram-nos com os problemas econômicos das cidades gregas, sobretudo com o problema fundamental das dívidas.

Agora o problema é nosso. Quais são os casos em que somos chamados a aplicar os mandamentos da não-violência e do amor aos inimigos? De que maneira se faz a aplicação?

Fonte:
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8 de março de 2011

Crepúsculo de um profeta?

José Comblin


Transcrevemos abaixo matéria do site IHU, segundo a qual Comblin denuncia as manipulações nas eleições dos dois últimos papas da Igreja Católica. Na sequênica, transcrevemos do site da CNBB, a resposta de Dom Redovino, bispo católico de Dourados/MS.

Uma análise mais profunda feita por Comblin acerca da situação atual da Igreja Católica pode ser lida no artigo É preciso sonhar, conferência proferida na Universidade Centro-Americana em San Salvador, em 14/11/2010.

''A Igreja abandonou as classes populares'', afirma José Comblin

José Coblin, um dos criadores da Teologia da Libertação, afirmou que a eleição de João Paulo II e de Bento XVI foi manejada pelo Opus Dei "praticando a chantagem, intimidando os cardeais", e que na América Latina o Papa "é mais divino do que Deus". Comblin, belga que vive no Brasil e acaba de visitar o Chile, país em que esteve exilado em 1972, durante o governo da Unidade Popular, explicou ainda que os teólogos da libertação têm hoje mais de 80 anos e "não apareceu uma nova geração" que desse continuidade a esse pensamento.

A reportagem é do sítio Religión Digital, 05-01-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

"A repressão foi muito forte, terrível, e a ditadura do Papa aqui na América Latina é total e global. Aqui, pode-se criticar Deus, mas não o Papa. O Papa é mais divino do que Deus", asseverou o teólogo.

Segundo Comblin, a Igreja Católica "abandonou as classes populares, salvo os velhos e algumas relíquias do passado".

"Hoje, as universidades e os colégios católicos são para a burguesia. O porvir da América Latina é ser um continente evangélico protestante, salvo sua classe alta. Assim, a Opus Dei e os Legionários de Cristo e todas essas associações que existem de ultradireita vão crescendo nesse setor", opinou, em declarações no Chile à revista El Periodista.

"Onde há um ou dois bispos da Opus Dei no episcopado, intimidam a todos os demais. Os outros ficam calados e só um fala. Esse é um problema de psicologia típico de ditaduras", defendeu.

Segundo Comblin, "foi a Opus el que elegeu João Paulo II e o atual, praticando a chantagem, intimidando os cardeais. O próximo Papa será igual porque a Opus tem um poder muito forte".

O teólogo, de 87 anos, defende que Deus está "em La Victoria e em La Legua (dois bairros populares de Santiago) e na prisão, mas de Roma desapareceu há muito tempo".

"Agora, sempre fica mais claro que o problema é o Papa, ou seja, a função do Papa, uma ditadura implacável com muitas formas de doçura e amabilidade, mas implacável", defendeu.

Comblin defendeu que "o porvir do cristianismo está na China, Coreia, Filipinas, Indonésia. Estima-se que só na China há 130 milhões de cristãos martirizados, porque estão praticamenteperseguidos".

O teólogo criticou a eventual canonização de João Paulo II porque seu papado "foi catastrófico".

"Todos os que fizeram sua carreira com ele puderam ser cardeais, apesar de sua mediocridade pessoal. Não mereciam nada, mas ele os promoveu. Claro que agora querem canonizá-lo! Uma vez que canonizaram Escrivá, todo mundo sabe que se pode ser santo sem ter virtude alguma", destacou.

Sobre a Opus Dei e os Legionários de Cristo, Comblin afirmou que "têm a confiança da Cúria Romana e depois representam a plena liberdade dada a personalidades que são como os grandes Rockefeller, os conquistadores".

"Como Escrivá de Balaguer, que era um capitalista, o homem que vai triunfar, que vai desfrutar o mundo, que vai ganhar, ser rico, poderoso e que é capaz de criar pessoas totalmente subordinadas, soldados com mentalidade de soldado, esses são todos homens deformados psicologicamente, como são os futuros ditadores", detalhou.

Depois de recordar que do mexicano Marcial Maciel, dos Legionários de Cristo, foi descoberta uma vida paralela e uma fortuna de 50 bilhões de dólares, afirmou que "sua chantagem, sua palavra e sua exigência chegaram aos milionários".

"Hoje, os que trabalharam com ele, seus colaboradores, todos dizem e afirmam que não sabiam nada da vida paralela (de Maciel). Como? Trabalham 40 anos com ele e não sabem de nada, que ele tem uma família, três filhos, que praticou a pedofilia com as crianças, alunos de sua formação, de seus colégios, que tinha um mundo de amantes. Não sabiam de tudo isso? Supõe-se, então, que eles são cúmplices e também têm uma vida paralela", concluiu.

Pe José Comblin: Crepúsculo de um projeta?

Dom Redovino Rizzardo, bispo católico de Dourados

Causou-me tristeza a entrevista concedida pelo Pe. José Comblin no Chile, onde esteve no início de 2011. Conheço-o e admiro-o desde os meus primeiros anos de ministério presbiteral, quando o via como um incansável batalhador por uma Igreja mais fiel ao projeto de Jesus e às necessidades do povo.

Mas, ultimamente, percebo-o triste e ressentido, talvez contaminado pelo vírus que afeta a maior parte das pessoas que ultrapassam a casa dos 70 anos (ele chegou aos 87!) -, etapa da vida caracterizada pela saudade dos "bons tempos antigos" e pelas queixas contra a superficialidade e a apatia da sociedade atual.

A entrevista faz eco a inúmeros outros artigos escritos por ele nestes últimos anos. Neles, são comuns e acerbas as críticas contra o modelo de Igreja incentivado pelos Papas João Paulo II e Bento XVI, em aberto contraste com a Teologia da Libertação: «Na América Latina, a repressão foi terrível. A ditadura do Papa é total. Pode-se criticar Deus, mas não o Papa».

Outra sua reclamação é dirigida aos Institutos, Movimentos Eclesiais e Comunidades de Vida nascidos nas últimas décadas. Ele os vê como os grandes culpados pela letargia em que jaz a Igreja, depois dos anos gloriosos das Comunidades Eclesiais de Base: «O futuro da América Latina é ser um continente evangélico. O Opus Dei, os Legionários de Cristo e todas as demais associações de ultradireita crescem a olhos vistos».

Sua dor não nasce apenas do fato de lhe parecer que «a Igreja Católica abandonou as classes populares», mas também de saber que «os teólogos da libertação têm hoje mais de 80 anos, e não apareceu ainda uma nova geração disposta a dar-lhes continuidade».

Para Comblin, a Igreja se teria transformado numa instituição como qualquer outra, sujeita a conchavos e politicagem: «Foi o Opus Dei que elegeu João Paulo II e o Papa atual, praticando a chantagem e intimidando os cardeais». Por isso, não é de se admirar que «Deus esteja presente em "La Victoria" e em "La Legua" (dois bairros populares de Santiago) e nos presídios, mas de Roma ele se afastou há muito tempo».

Nenhuma esperança, portanto? Para o teólogo belga, «o futuro do cristianismo está na China, na Coreia, nas Filipinas e na Indonésia. Supõe-se que, na China, vivam 130 milhões de cristãos em contínuo estado de perseguição». Sem dúvida, uma novidade, já que na década 1970/1980, no auge da Teologia da Libertação e das Comunidades Eclesiais de Base, tinha-se por certo que o futuro da Igreja Católica seria a América Latina...

O Pe. Comblin encerra a entrevista criticando a eventual canonização de João Paulo II, cujo papado, para ele, foi simplesmente «catastrófico. Todos os eclesiásticos que fizeram carreira com ele chegaram ao cardinalato, apesar de sua mediocridade pessoal. Nada mereciam, mas ele os promoveu. Evidentemente, agora querem canonizá-lo! Mas, uma vez que canonizaram José Maria Escrivá, todo mundo sabe que se pode ser santo sem ter virtude alguma».

Nascido em Bruxelas no dia 22 de março de 1923 e formado pela Universidade de Lovaina, o Pe. José Comblin veio ao Brasil em 1958, como resposta ao apelo do Papa Pio XII, preocupado com a falta de sacerdotes na América Latina. Autor de inúmeros e renomados livros de teologia e de formação popular, tomou várias iniciativas no intuito de aproximar a Igreja das classes trabalhadoras e campesinas. A Teologia da Enxada, os Missionários do Campo e as Missionárias do Meio Popular são algumas delas.

Apesar do ressentimento que lhe ofusca a "melhor idade", o Pe. Comblin batalhou por uma Igreja em constante estado de conversão, como deixou claro num artigo de 3 de agosto de 2007, poucos meses após a Assembleia da Conferência do Episcopado Latino Americano, em Aparecida: «A história mostra que todas as mudanças profundas na Igreja foram realizadas por pessoas novas, formando grupos novos e criando um novo estilo de vida, sempre a partir de uma opção de vida na pobreza». Seu pecado, talvez, tenha sido esquecer que esta renovação não nasce da força prepotente e demolidora do furacão, mas da brisa suave da comunhão e da humildade (Cf. 1Rs, 19,11) de quem acredita que também os "outros", começando pelos Papas, amam a Igreja e trabalham por ela... pelo menos tanto como ele!

7 de março de 2011

É preciso sonhar

José Comblin

O texto abaixo é a transcrição da conferência proferida na Universidade Centro-Americana em San Salvador, em 14/11/2010

"Boa tarde a todas e todos.

Não é a primeira vez que falo neste lugar, mas agradeço muito a amizade de Jon Sobrino. Nós nos conhecemos há muito tempo e eu o estimo como uma das cabeças mais lúcidas deste tempo que renovou completamente a Cristologia.

Bom... As perguntas de ontem me deram a impressão de que em muitas pessoas há certo desconcerto em relação à situação atual da Igreja. Ou seja, uma sensação de insegurança. Como dizia Santa Teresa, por "não saber nada a respeito, que nada provoque temor". Quando era jovem eu conheci algo semelhante e, talvez, pior. Era o pontificado de Pio XII. Ele havia condenado todos os teólogos importantes, havia condenado todos os movimentos sociais importantes, por exemplo, a experiência dos padres operários na França, Bélgica e outros países. Aí nós, jovens seminaristas e depois jovens sacerdotes, estávamos mais que desconcertados, perguntando-nos: mas, ainda há futuro? Eu me lembro que naquela época tinha lido uma biografia de um autor austríaco do papa Pio XII. E aí contava algumas palavras que havia escrito o Pe. Liber, jesuíta, professor de História da Igreja na Gregoriana. O Pe. Liber era confessor do Papa. Sabia tudo o que passava na cabeça de Pio XII e então dizia: "Hoje a situação da Igreja católica é igual a um castelo medieval, cercado de água, levantaram a ponte e jogaram as chaves na água. Já não há como sair (risos). Ou seja, a Igreja está cortada do mundo, não tem mais nenhuma possibilidade de entrar". Isso foi dito pelo confessor do Papa, que tinha motivos para saber essas coisas. Depois disso veio João XXIII e aí, todos os que haviam sido perseguidos, de repente são as luzes no Concílio e de repente todas as proibições são levantadas. Aí renasceu a esperança. Digo isto para que não se perturbem. Algo virá. Algo virá que não se sabe o que, mas algo sempre acontece.

Como explicar essas situações que ainda podem recomeçar? Porque estamos nos aproximando da fase final da cristandade. Já faz muitos séculos que anunciaram a morte da cristandade... que está agonizando já faz cerca de 200 anos, mas ainda pode continuar sua agonia durante algumas décadas ou alguns anos. Ou seja, deixou de ser a consciência do mundo ocidental. Deixou de ser a força que anima, estimula, esclarece, explica a fonte da cultura, da economia, de tudo o que foi durante o tempo da cristandade. Tudo isso foi sendo destruído progressivamente desde a Revolução Francesa e aqui desde a independência, desde a separação do império espanhol. Então, pouco a pouco, apareceram muitos profetas que disseram que a cristandade morreu... já faz 200 anos. Mas agora creio que a cristandade está entrando em suas fases finais. Querem um sinal? A Encíclica Caritas et Veritate. Não sei quantas pessoas aqui leram a Encíclica. Se se vê a repercussão que teve no mundo: impressionante silêncio... Talvez silêncio respeitoso, mas mais provavelmente silêncio de indiferença. A doutrina social da Igreja não importa mais a ninguém, que também deixou de se interessar pelo que acontece na realidade concreta.

Há alguns anos, um sociólogo jesuíta muito importante, o Pe. Calvez, que teve um papel importantíssimo na criação e manutenção da Doutrina Social da Igreja, publicou um livro intitulado: "Os silêncios da Doutrina Social da Igreja". Ainda está em silêncio. Deixa de entrar com força nos problemas do mundo atual. Fica com teorias tão vagas, tão abstratas, tão genéricas... A carta Caritas in Veritate poderia ser assinada pelo Fundo Monetário Internacional (risos), pelo Banco Mundial... sem nenhum problema. Não há absolutamente nada que incomode esse pessoal. Então, para quê? Esse é o sinal.

Querem outro sinal? A Conferência de Aparecida disse muitíssimas coisas boas. Quer transformar a Igreja em uma missão, passar de uma Igreja de "conservação" a uma Igreja de "missão". Só que pensa que isso será feito pelas mesmas instituições que não são de missão, mas de conservação. Isso será feito pelas dioceses, pela paróquia, pelos seminários, pelas Congregações Religiosas. Estes aqui, de repente e por milagre, vão se transformar em missionários. Já se passaram três anos e o que aconteceu em sua diocese? Como se aplicou a opção pelos pobres? Não sei como é aqui, mas no Brasil não vejo muita transformação. Ou seja, a cristandade está se dissolvendo progressivamente, mas o problema é o depois. O que vem depois? Como? Daí a insegurança porque não sabemos o que vem depois. Isto aconteceu muitas vezes na história e ainda vai acontecer provavelmente muitas vezes. É preciso aprender a resistir, a suportar, a não se deixar desanimar ou perder a esperança pelo que vem acontecendo.

O que acontece é que em Roma não estão convencidos de que a cristandade está morta. Acreditam que as Encíclicas iluminam o mundo, que as instituições eclesiásticas iluminam e conduzem o mundo. Ou seja, é um mundo fechado, que de fato vive em um castelo medieval, cercado de água. E então, o que acontece? Vamos ver como interpretar, como ver o que está acontecendo. E então ver qual é o "método teológico" que convém para isso.

O Evangelho vem de Jesus Cristo. A religião não vem de Jesus Cristo

É preciso partir de uma distinção básica que agora vários teólogos já propuseram entre o Evangelho e a religião. O Evangelho vem de Jesus Cristo. A religião não vem de Jesus Cristo. O Evangelho não é religioso. Jesus não fundou nenhuma religião. Não fundou ritos, não ensinou doutrinas, não organizou um sistema de governo. Nada disso. Ele se dedicou a anunciar, a promover o Reino de Deus. Ou seja, uma mudança radical de toda a humanidade em todos os seus aspectos. Uma mudança, e uma mudança cujos autores serão os pobres. Dirige-se aos pobres pensando que somente eles são capazes de agir com essa sinceridade, com essa autenticidade para promover um mundo novo. Seria essa uma mensagem política? Não é política no sentido de que propõe um plano, uma maneira... não, para isso a inteligência humana é suficiente; mas como meta política, porque isto é uma orientação dada a toda a humanidade.

E a religião? Aah! Jesus não fundou uma religião, mas seus discípulos criaram uma religião a partir dEle. Por quê? Porque a religião é algo indispensável aos seres humanos. Não se pode viver sem religião. Se a religião atual aqui se desintegra... Há 38.000 religiões registradas nos Estados Unidos! Ou seja, não faltam religiões, elas aparecem constantemente. O ser humano não pode viver sem religião, mesmo que se afaste das grandes religiões tradicionais. Então, a religião é uma criação humana. Entre a religião cristã e as demais religiões, a estrutura é igual. É uma mitologia. Assim como há uma mitologia cristã, há uma mitologia hinduísta, xintoísta, confucionista. Isso é parte indispensável para a humanidade. Ou seja, como interpretar todo o incompreensível da humanidade pela intervenção de seres com entidades sobrenaturais, fora deste mundo, que estão dirigindo esta realidade.

Em segundo lugar, uma religião é feita de ritos. Ritos para afastar as ameaças e para acercar-se dos benefícios. Todas as religiões têm ritos. E todas têm pessoas separadas, preparadas, para administrar os ritos, para ensinar a mitologia. Isto é comum a todas. Então, isto devia acontecer com os cristãos também. Devia acontecer. Como poderiam viver sem religião?

Como começou essa religião? Deve ter começado quando Jesus se transformou em objeto de culto. O que aconteceu bastante cedo, sobretudo entre os discípulos que não o conheceram, que não haviam vivido com ele, que não haviam estado próximos dele. Então, a geração seguinte ou aqueles que viviam mais distantes, mais afastados, para eles Jesus se transformou em objeto de culto. Com isso se desumanizou progressivamente. O culto de Jesus vai substituindo o seguimento de Jesus. Jesus nunca havia pedido aos discípulos um ato de culto. Nunca havia pedido que lhe oferecessem um rito... nunca. Mas queria o seguimento, seu seguimento. Essa dualidade começa a aparecer cedo. 30 anos, 40 anos depois da morte de Jesus, já aparece com força suficiente para que Marcos escrevesse em seu Evangelho precisamente para protestar contra essas tendências de desumanização, ou seja, de fazer de Jesus um objeto de culto. Este Evangelho é precisamente para recordar uma palavra de profeta: Não! Jesus era isso. Jesus fez isso, viveu aqui neste mundo! Viveu aqui nesta terra.

Com o desenvolvimento da religião cristã que se fez - aqui problema para os teólogos -, progressivamente essa tentação reapareceu. Nasceu um começo de doutrina, o Símbolo dos Apóstolos. E o que diz o Símbolo dos Apóstolos sobre Jesus? Aah... diz que nasceu e morreu. Nada mais. Como se as outras coisas não tivessem importância, como se a revelação de Deus não fosse justamente a própria vida de Jesus, seus atos, seus projetos, todo o seu destino terrestre. Essa é a revelação, mas isso já vai se perdendo de vista. Os Símbolos de Niceia e Constantinopla, da mesma maneira: Cristo nasceu e morreu. O Concílio de Calcedônia define que Jesus tem uma natureza divina e uma natureza humana. Mas, o que é uma natureza? Um ser humano não é uma natureza. Um ser humano é uma vida, é um projeto, é um desafio, é uma luta, é uma convivência em meio a muitos outros. Isso é o fundamental se queremos fazer o seguimento de Jesus.

A religião: distinção entre o sagrado e o profano

Progressivamente, aparece a partir dos primeiros Concílios um distanciamento entre a religião que se forma. Com Niceia e Constantinopla já há um núcleo de ensinamento e de teologia e a Igreja vai se dedicar a defender, promover, aumentar essa teologia. Já se organizaram as grandes liturgias de Basílio e outros, e já se organizou um clero. O clero como classe separada é uma invenção de Constantino. Até Constantino não havia distinção entre pessoas sagradas e pessoas profanas. Eram todos leigos. Porque Jesus apartou a classe sacerdotal e não tinha previsto nenhuma maneira que aparecesse outra classe sacerdotal, porque todos são iguais. E não há pessoas sagradas e pessoas não sagradas, porque para Jesus não há diferença entre sagrado e profano. Tudo é sagrado ou tudo é profano.

Agora, na religião há uma distinção básica entre sagrado e profano. Em todas as religiões. E há um clero que se dedica ao que é sagrado. E os outros que estão no profano, na religião são receptores, não são atores. Não têm nenhum papel ativo. Para ter um papel ativo é preciso ser realmente consagrado. Isso começa no tempo de Constantino.

E a partir daquilo vão aparecer duas linhas na história cristã. Os que, como o Evangelho de Marcos quer recordar: Não, Jesus veio para mostrar o caminho, para que o sigamos. Isso é o básico, o fundamental. Uma linha que vai renovar, aplicar em diversas épocas históricas o que foi a vida de Jesus e como ele o ensinou. E em toda a história podemos seguir. Claro que não sabemos tudo, porque a grande maioria dos que seguiu o caminho de Jesus foram pobres, dos quais nunca se falou nos livros de história e, portanto, não deixaram nenhum documento. Mas há pessoas que deixaram documentos e com isso podemos acompanhar onde, na história da Igreja cristã, aparece o Evangelho. Onde se buscou primeiramente a vivência do Evangelho. Os que buscaram radicalmente o caminho do Evangelho foram sempre minorias, como dizia Helder Câmara, "minorias abraãmicas".

A maioria está no outro pólo, na religião. Ou seja, dedicando-se à doutrina. Ensinando a doutrina, defendendo a doutrina contra os hereges e as heresias... Essa foi uma das grandes tarefas, praticar os ritos e formar a classe sagrada, a classe sacerdotal. Isso nos leva a uma distinção que vai se manifestar em toda a história. O pólo "Evangelho" está em luta com o pólo "religião" e "religião" com o pólo "Evangelho". Em toda a história. Toda a história cristã é uma contradição permanente e constante entre aqueles que se dedicam à religião e aqueles que se dedicam ao Evangelho. Claro que há intermediários e assim não há pólos totais. Mas na história há visivelmente duas histórias, dois grupos que se manifestam. A história oficial: quando eu era jovem nos davam aulas de História da Igreja que era "história da instituição eclesiástica" e ali só se falava da religião, supondo que a religião era a introdução ao Evangelho. Mas isso é uma suposição: que tudo o que nasceu no sistema católico vem de Jesus, como se dizia na teologia tradicional em tempos da cristandade, que tudo o que existe na Igreja Católica Romana, ao final, vem de Jesus. Com muitos malabarismos teológicos se consegue mostrar que tudo tem finalmente sua raiz em Jesus. Não têm sua raiz em outras religiões, em outras culturas. Como se os cristãos que se convertem à Igreja fossem totalmente puros de toda cultura e toda religião. Todos trazem sua cultura e sua religião, e introduzem em sua vida cristã elementos que são de sua religião e cultura anterior e por isso resulta uma religião que é sempre ambígua, complexa. É inevitável, porque os seres humanos que entram na Igreja não são anjos. Eles estão carregados de séculos e séculos de história e de transmissão cultural e tudo isso entra, naturalmente, na Igreja. Daí uma oposição que em matéria política, por exemplo, se mostra claramente. Se diz: o Evangelho procede de Deus e, portanto, não pode mudar. A religião é criação humana, portanto, pode e deve mudar segundo a evolução da cultura, das condições de vida dos povos em geral. Se a religião fica apegada ao seu passado, ela é pouco a pouco abandonada a favor de outra religião mais adaptada. O que é muito compreensível.

O Evangelho é vivido na vida concreta, material, social. A religião vive em um mundo simbólico. Tudo é simbólico - doutrina, ritos, sacerdotes... -, todos são entidades simbólicas, que não entram na realidade material. O Evangelho é universal, porque não traz nenhuma cultura e não está associado a nenhuma cultura, a nenhuma religião. As religiões estão sempre associadas a uma cultura. Por exemplo, a religião católica atual está ligada à subcultura clerical romana que a modernidade marginalizou, que está em plena decadência porque seus membros não quiseram entrar na cultura moderna. O Evangelho é renúncia ao poder e a todos os poderes que existem na sociedade. A religião busca o poder e o apoio do poder em todas as formas de poder. E são tão visíveis!

O poder... Lembro que na época da prisão dos bispos em Riobamba o núncio dizia: "se a Igreja não tem o apoio dos governantes, não pode evangelizar" (risos). Pode-se pensar o contrário: que caso se tenha o apoio dos poderes será difícil evangelizar. Mas essa é uma mentalidade que ainda é remanescente na cristandade entre a Igreja fundida em uma realidade político-religiosa e então naturalmente estavam unidas todas as autoridades: o clero e o governo; o clero e o Exército - tudo unido. Renunciar a isso é muito difícil. Renunciar à associação com o poder é muito difícil. Vou dar um exemplo. Meu atual bispo na Bahia é um franciscano, se chama Luis Flavio Cappio. Ficou famoso no Brasil por duas greves de fome que fez para protestar contra um projeto faraônico do governo, baseado em uma imensa mentira. Não há tempo para contar toda a história, mas se tornou conhecido e foi convidado para o Kirchentag da Igreja alemã. Depois do convite falou em várias cidades da Alemanha. Um grupo se aproximou dizendo que vinham para entregar-lhe uma doação, uma ajuda para as suas obras. E era bastante: cerca de 100 mil dólares. Ele perguntou: "De onde vem esse dinheiro?" Disseram-lhe que são algumas empresas, alguns executivos que o recolheram. Então disse: "Não aceito. Não quero aceitar o dinheiro que foi roubado dos trabalhadores, dos compradores de material". Não aceitou nenhuma aliança com o poder econômico. Eu não sei quantos no clero não aceitariam (aplausos). Esse bispo é um franciscano igual a São Francisco. Toda a sua vida foi assim. Por isso fui morar ali para santificar-me um pouquinho em contato com uma pessoa tão evangélica...

Então, como nasceu a Igreja? A Igreja de que se fala: essa realidade histórica, concreta de que temos experiência. Para o povo em geral a Igreja é o Papa, os bispos, os padres, as religiosas, religiosos... esse conjunto institucional de que se fala e que provoca também tanta incerteza, como vimos. Como nasceu a Igreja? Jesus não fundou nenhuma igreja. O próprio Jesus se considerava um judeu. Era o povo de Israel renovado e os primeiros discípulos também; Os doze apóstolos são os patriarcas da Igreja do Israel renovado. A primeira consciência era da continuação de Israel, a perfeição, a correção de Israel. Mas uma vez que o Evangelho penetrou no mundo grego, aí Israel não significava muitas coisas para eles e então Paulo inventa outro nome. Dá às comunidades que funda nas cidades o nome de "ekklesia", o que se traduziu por "igreja". O que é a ekklesia? O único sentido que tem no grego é "a assembleia do povo reunido que governa a cidade". Na prática eram as pessoas mais poderosas, mas enfim é que na cidade grega o povo se governa a si mesmo e o faz em reuniões que são "ecclesias". Paulo não dá nenhum nome religioso às comunidades; os vê como um grupo destinado a ser a animação. A mensagem de transformação de todas as cidades, de tal maneira que estão constituindo o começo de uma humanidade nova. E é uma humanidade onde todos são iguais, todos governam a todos. Depois vem a Carta aos Efésios em que se fala da Igreja como tradução de "kahal" dos judeus, ou seja, é o novo Israel. E a ecclesia é aí também o novo Israel. Ou seja, todos os discípulos de Jesus unidos em muitas comunidades, mas não unidos institucionalmente, mas unidos pela mesma fé. Todos constituem a "ecclesia", a grande Igreja que é o corpo de Cristo. Ainda não existem instituições.

Mas, naturalmente, não podia continuar assim. Os judeus que aceitaram o cristianismo não abandonaram todos o judaísmo. E quando o número de cristãos cresceu, o número de comunidades, ali começaram a penetrar algumas estruturas. No tempo de Paulo ainda não há presbíteros, mesmo que São Lucas diga o contrário. Mas São Lucas não tem nenhum valor histórico; isso todo o mundo já sabe. Atribui a Paulo o que se fazia em seu tempo. Então imagina que Paulo fundou presbíteros, conselhos presbiterais. Como se justificaria um bispo sem ordenar sacerdotes? Então, parece evidente um começo de separação ainda muito simples, porque ainda não há sacralidade, não há nada sagrado. Os presbíteros não são sagrados, assim como os presbíteros das sinagogas não eram sagrados. Eles tinham uma função, uma missão de governo, de administração, mas não uma função ritual, ou uma função de ensino de uma doutrina.

Depois apareceram os bispos. No final do século II se estima que o esquema episcopal esteja generalizado, mas demorou bastante. Clemente de Roma, quando publica e escreve sua Carta aos Coríntios, diz "presbíteros", o que não é bispo. Ainda em Roma não há bispo, só presbíteros. Mas se organizou o esquema episcopal. É provável que para as lutas contra as heresias, contra o gnosticismo, se necessitasse de uma autoridade mais forte, para poder enfrentar o gnosticismo e todas as novas religiões sincréticas que aparecem naquele tempo.

E a Igreja como instituição universal, quando aparece? Houve, no século III, Concílios regionais: bispos de várias cidades que se reuniam. Mas uma entidade para institucionalizar tudo não existia. Quem inventou esta Igreja universal foi o imperador Constantino. Ele reuniu todos os bispos que havia no mundo com viagens pagas por ele, alimentação também paga por ele, e toda a organização do Concílio foi dirigida pelo imperador e os delegados do imperador. Isto constitui um precedente histórico. Até hoje não estamos livres disso: que a Igreja universal como instituição tenha nascido com o imperador.

Depois, na história ocidental caiu o imperador romano e então progressivamente o papa conseguiu chegar à função imperial. Houve muitas lutas na Idade Média entre o papa e o imperador, mas sempre o papa se estimava superior ao imperador. Nas cruzadas, o papa era generalíssimo de todos os exércitos cristãos. Era uma personalidade militar - comandante em chefe do exército cristão. E dentro da linha dos Estados pontifícios, isto ainda se mantém.

Quando o papa perdeu o poder temporal, reforçou seu poder sobre as Igrejas: e governa as igrejas como um imperador, ou seja, todos os poderes são centralizados em uma única mão e com todas as vantagens de uma corte. Por que se não há nada de democracia na Igreja, quem são aqueles que orientam o papa? A corte! Os cortesãos, os que estão ali próximos. Claro que ele não pode fazer tudo, mas enfim uma corte separada do povo cristão. Ainda estamos sofrendo as consequências daquilo. O Papa Paulo VI disse em alguns momentos que realmente teria que mudar a função atual do Papa, ou seja, o que o Papa faz. João Paulo II na "Unum sint" disse também que é preciso dar-se conta de que o grande obstáculo no mundo de hoje é essa concentração de todos os poderes no Papa. Seria preciso encontrar outra maneira de exercer isso. Isso para dizer que tudo isto pertence à religião.

Tarefa da teologia: no Evangelho e na religião

A partir disso, qual é a tarefa da teologia? É complexa, justamente porque tem uma tarefa no Evangelho e uma tarefa na religião. A teologia foi durante séculos a ideologia oficial da Igreja. Seu papel era justificar tudo o que a Igreja diz e faz com argumentos bíblicos, com argumentos da tradição, liturgia, e um monte de coisas que eu aprendi quando estava no seminário. Claro que não acreditava nisso (risos), mas a maioria ainda crê nisso. Então, o que acontece?

Primeira tarefa: o que diz o Evangelho?

Primeira tarefa: o que diz o Evangelho? O que é de Jesus? O que é penetração do judaísmo, de outra cultura, de outro tipo de religião? O que vem de Jesus segundo o Novo Testamento? Todo o Novo Testamento não vem de Jesus? Não, as Epístolas pastorais que falam, por exemplo, dos presbíteros, isso não vem de Jesus. Então, a tarefa da teologia consistirá em dizer o que é de Jesus, o que realmente quis, o que realmente fez e em que consiste realmente o seguimento de Jesus.

Vendo a história, quais foram as manifestações, onde, em formas diferentes - porque as situações culturais eram diferente -, onde podemos reconhecer a continuidade dessa linha Evangélica? Porque se quisermos penetrar no mundo de hoje e apresentar o cristianismo ao mundo de hoje, tudo o que é religioso não interessa. O que pode interessar é justamente o Evangelho e o testemunho evangélico. Ninguém vai se converter pela teologia. Você pode fazer todas as melhores aulas, ninguém vai se fazer cristão por causa da teologia. Por isso, me pergunto: por que nos seminários se crê que a formação sacerdotal é ensinar a teologia? Eu não entendo, não entendo. Não há outra coisa necessária para evangelizar? Não é muito mais complexo? Por isso faz 30 anos que decidi, na presença de Deus, nunca mais trabalhar em seminários (risos).

Então, a linha evangélica é essa - São Francisco. São Francisco era um extremista. Não queria que seus irmãos tivessem livros: nada de livros. Com o Evangelho basta, não se necessita nada mais. Ele próprio dizia: "Eu, o que ensino, não aprendi de ninguém, nem do papa; o aprendi de Jesus diretamente, por seu Evangelho". Bom, isso é o que pode convencer o mundo de hoje que está em uma perturbação completa e que se afasta sempre mais das Igrejas institucionais antigas, tradicionais. Quase todas as grandes religiões nasceram entre os anos 1.000 e 500 antes de Cristo, salvo o Islã que apareceu depois, mas que é um ramo da tradição judeu-cristã.

O que fazer com a religião?

Segundo, a religião. O que fazer com a religião? É preciso examinar em todo o sistema de religião, o que ajuda, o que realmente ajuda a entender, a compreender, a agir segundo o Evangelho. Isso terá nascido por inspiração do Espírito em monges, por exemplo? Se você olha a vida dos monges do deserto no Egito, isso não é uma mensagem. Não é uma mensagem e também não vem do Evangelho. Ou seja, muitas coisas vêm não se sabe de que tradição, talvez pode ter sido do budismo ou outras coisas assim. Então, examinar o que é o que ainda vale hoje, e sinceramente.

Jesus não instituiu 7 sacramentos. Até o século XII se discutia se eram 10, 7, 5, 9, 4. Não havia acordo. Finalmente, decidiram que havia 7. Bom, por motivos dos 7 dias do Gênesis, 7 planetas, o número 7... mas há coisas que visivelmente já não falam para as pessoas de hoje. Por exemplo, o sacramento da penitência com confissão a um sacerdote. Quantos se confessam atualmente? Há 20 anos, eu atendia na Semana Santa, em uma paróquia popular, 2.000 confissões, e o pároco outras tantas. Atualmente, 20, 30, ou seja, as pessoas já não respondem mais. Isso foi definido no século XII, XIII. Por que manter algo que já não tem nenhum significado e, ao contrário, provoca muita recusa? Ou seja, que alguém necessite falar com alguém, que o pecador goste de falar com alguém, mas não justamente ao sacerdote. Há muitas pessoas, muitas mulheres, que podem exercer esse ofício muito melhor, com mais equilíbrio, sem atemorizar como fazem os sacerdotes. Isso é uma coisa.

Mas há um monte de coisas que é necessário revisar porque não têm futuro. É inútil querer defender ou manter algo que já é obstáculo para a evangelização e que não ajuda absolutamente em nada. Nas liturgias há muitas coisas que mudar. A teoria do sacrifício foi introduzida pelos judeus, naturalmente. No templo se oferece sacrifícios, os sacerdotes são pessoas sagradas que oferecem o sacrifício. Toda essa teoria, atualmente não significa absolutamente nada. Que o padre seja dedicado ao sagrado para oferecer o sacrifício e que a Eucaristia seja um sacrifício, tudo isto vem de Jesus? Ah, não vem de Jesus. Então, é preciso ver se isso vale ou não vale. Para que manter algo que não vale?

E depois há também a outra parte: o que não ajuda, o que tem sido infiltração de outras tendências, outras correntes. Por exemplo, a vida ascética dos monges irlandeses. A Irlanda foi a ilha dos monges. Ali os bispos não tinham autoridade. Serviam apenas para ordenar sacerdotes, mas para as outras coisas podiam descansar. Quem mandava eram os monges. Os mosteiros eram os centros, o que é a diocese atualmente. Esses monges irlandeses viviam uma vida ascética, mas tão extraordinariamente desumana para nós que isso é impossível que venha de Jesus, é impossível que isso ajude, porque esses homens ali eram super-homens, mas não existem mais homens assim hoje. Um exercício de penitência que faziam, por exemplo, era entrar no rio - na Irlanda os rios são frios - e ficar nu para rezar todos os salmos (risos)... Essa maneira de entender a vida, não, não devemos considerar que isso seja cristão. Também não é marca de santidade. Não é assim que a santidade se manifesta. Examinar tudo o que vem de lá.

Todas as congregações femininas sabem o quanto é preciso lutar para mudar costumes, tradições que não são evangélicos. Quantos debates! Eu conheço uma série de congregações femininas e quanto tempo se gasta em discussões, disputas entre aquelas que querem conservar tudo e aquelas que querem abandonar o que não serve mais e encontrar outro modo de viver mais adaptado à situação atual! Então, a tarefa da teologia, claro que é mudar, isso muda a tradição, deixa de ser a ideologia de todo o sistema romano, mas essa não tem futuro. Esse tipo de teologia já faz tempo que foi progressivamente abandonado.

Na América Latina apareceu algo. Conhecemos um novo franciscanismo, ou seja, uma nova etapa, mas radical, de vida evangélica. Quando nasceu? Falei dos bispos que participaram disso e que animaram Medellín e da opção pelos pobres, dos santos padres da América Latina. E vocês os conhecem. Se for preciso marcar a origem do novo evangelismo da Igreja latino-americana, eu diria - não se esqueçam - dia 16 de novembro de 1965. Nesse dia, em uma catacumba de Roma, 40 bispos, a maioria latino-americanos, incitados por Helder Câmara, se juntaram e assinaram o que se chamou de "Pacto das Catacumbas". Ali se comprometeram a viver pobres, na alimentação. Se comprometeram e, de fato o fizeram depois, uma vez que chegaram às suas dioceses. E depois, priorizar em todas as suas atividades o que é dos pobres, ou seja, deixando muitas coisas para se dedicar prioritariamente aos pobres e uma série de coisas que vão no mesmo sentido. Foram eles que animaram a Conferência de Medellín. Ou seja, nasceu aqui.

E tiveram um contexto favorável. O Espírito Santo já naquele tempo havia suscitado uma série de pessoas evangélicas. As Comunidades Eclesiais de Base já tinham nascido. Já havia religiosas inseridas nas comunidades populares. Mas, eram poucos e se sentiam um pouco marginalizados no meio dos outros. Medellín lhes deu como que legitimidade e ao mesmo tempo uma animação muito grande, e se expandiu. Foi toda a Igreja latino-americana? Claro que não. Sempre é uma minoria. Um dia, me lembro, um jornalista perguntou ao cardeal Arns - um santo, com quem vivemos muito boas relações de amizade: "você, senhor cardeal, aqui em São Paulo tem muita sorte, toda a Igreja se fez Igreja dos pobres, as monjas todas a serviço dos pobres, que coisa magnífica!". Aí, Dom Paulo disse: "Sim, pois, aqui em São Paulo 20% das religiosas foram às comunidades pobres; 80% ficaram com os ricos". Era muito. Atualmente, não há 20%.

Isto foi uma época de criação, uma dessas épocas em que há, às vezes, na história com uma efusão muito grande do Espírito. Mas temos que viver essa herança. É uma herança que é preciso manter, conservar preciosamente porque isso não vai reaparecer. Às vezes me perguntam: Por que hoje os bispos não são como naquele tempo? Porque aquele tempo foi uma exceção, ou seja, na história da Igreja é exceção. De vez em quando o Espírito Santo manda exceções.

E quem vai evangelizar o mundo de hoje? Para mim, são os leigos. E já aparecem muitos grupinhos de jovens que justamente praticam uma vida muito mais pobre, livre de toda organização exterior, vivendo em contato permanente com o mundo dos pobres. Já existem. Haveria mais se se falasse mais, se fossem mais conhecidos. Pode ser uma tarefa também auxiliar da teologia: divulgar o que está realmente acontecendo, onde o Evangelho está sendo vivido neste momento, para dá-lo a conhecer, para que se conheçam mutuamente, porque do contrário podem perder ânimo ou não ter muitas perspectivas. Uma vez que se unam, formem associações, cada qual com sua tendência, seu modo de espiritualidade. Não espero muito do clero. Então é uma situação histórica nova.

Mas acontece que os leigos deixaram de ser analfabetos; isso já faz tempo. Eles têm uma formação humana, uma formação cultural, uma formação de sua personalidade que é muito superior ao que se ensina nos seminários. Ou seja, têm mais preparação para agir no mundo, mesmo que não tenham muita teologia. Se poderia dar mais teologia, mas isso é outro assunto. Agora, não vamos pensar que amanhã quem vai colocar em prática o programa de Aparecida serão os sacerdotes. Eu não conheço tudo, mas levando em conta os seminários que eu conheço, as dioceses que eu conheço, seriam necessários 30 anos para formar um clero novo. E quem vai formá-lo? Para os leigos é diferente. Há muitíssimas pessoas dispostas, e pessoas com formação humana, com capacidade de pensar, de refletir, de entrar em relação e contatos, de dirigir grupos, comunidades... Mas muitos ainda não se atrevem, não se atrevem. Mas aí está o futuro.

Para terminar, uma anedota: me chamaram para ir a Fortaleza, no nordeste do Brasil. Atualmente, Fortaleza é uma cidade muito grande - um milhão de habitantes (sic!). A Santa Sé havia afastado, marginalizado o cardeal Aloísio Lorscheider, mandando-o ao exílio em Aparecida, que é um lugar de castigo para os bispos que não agradam. Então, veio um sucessor, Dom Cláudio Hummes, que agora é cardeal em Roma. Cláudio Hummes suprimiu tudo o que havia de social na diocese, despediu todos: 300 pessoas com a longa trajetória de serviço, com capacidade humana. Um dia me chamaram: eram 300, chorando, lamentando: "e agora não podemos fazer nada. E agora, o que vai acontecer?". Eu lhes disse: "mas, vocês são pessoas perfeitamente humanizadas, desenvolvidas, com uma personalidade forte. Tiveram êxito em sua família, tiveram êxito em suas carreiras, em seus trabalhos profissionais. Do que agora se preocupam se o bispo quer ou não quer? Por que se preocupam se o pároco quer ou não quer? Vocês têm formação suficiente e a capacidade. Por que não agem, não formam uma associação, um grupo, de forma independente? Porque o Direito Canônico - o que muitos católicos não sabem - permite a formação de associações independentes do bispo, independentes do pároco. Isso não se ensina muito nas paróquias, mas é justamente algo que é importante. Então, vocês podem muito bem reunir 4, 5 pessoas para organizar um sistema de comunicação, um sistema de espiritualidade, um sistema de organização de presença na vida pública, na vida política, na vida social: 300 pessoas com esse valor. Se paga, tem que pagar a 5, cada um vai gastar nem sequer 2% do que ganha, ou seja, podem muito bem manter 5 pessoas dedicadas a isso. E vão escolhê-los entre 25 e 30 anos porque essa é a época criativa. Até os 25 o ser humano se busca. A partir deste momento termina seus estudos e já conseguiu um trabalho. Então já quer definir sua vida: estes são os que têm capacidade de inventar. Todas as grandes invenções se deram por gente com essa idade". Mas não o fizeram. Por quê? O que acontece? Por que tanta timidez? "Vocês que são tão capazes no mundo, na Igreja nada!" Não se sentiam capazes, necessitavam do bispo que lhes dissesse o que fazer, necessitam de sacerdotes que lhes digam o que fazer. Como é possível? Certamente, não se lhes ensinou. Podem ser adultos na vida civil e crianças na vida religiosa.

Mas nós podemos! Nós podemos fazê-lo e multiplicá-lo em todas as regiões que vamos conhecer. Então, o futuro depende de grupos de leigos semelhantes, que já existem mesmo que ainda estejam muito dispersos. O futuro está aí, é tarefa de todos, começando pelos jovens. No Brasil há neste momento seis milhões de estudantes universitários. Dois milhões, são de famílias pobres - são pobres os que ganham menos de três salários mínimos, porque com menos disso não se pode viver decentemente. Dois milhões. E qual é a presença do clero? Pouquíssima. Alguns religiosos. Das dioceses? Nada. E ali está o futuro. São jovens que estão descobrindo o mundo. Claro, há alguns que entram no mundo das drogas, que se corrompem, mas é uma minoria. Ou seja, o conjunto são pessoas que querem fazer algo na vida. Se não conhecem o Evangelho não vão viver como cristãos. É preciso explicar, mas não explicar com cursos de teologia, mas explicar fazendo, participando de atividades que de fato são realmente serviços aos pobres. Isso é possível fazer.

Tarefa da teologia. Então será preciso mudar um pouquinho: menos acadêmico, mais orientado para o mundo exterior... com todos os que não estão mais na rede de influxo da Igreja, que não recebem. Mas, presença nisso. E uma teologia que se possa ler, sem ter formação escolástica, porque anteriormente se não se tinha formação aristotélica não se podia entender nada dessa teologia tradicional. Bom, a filosofia aristotélica morreu, ou seja, os filósofos do século XX a enterraram. Agora temos liberdade para ver no mundo como nos abrimos.

Obrigado pela atenção de vocês!"

Conferência transcrita por Enrique A. Orellanae no dia 14-11-2010.

Fonte:

http://www.cebi.org.br/noticia.php?secaoId=15&noticiaId=1817

23 de fevereiro de 2011

A direita católica não atina com a verdade mais profunda de um Jesus Cristo plenamente humano

E se aquelas pessoas da direita católica mais preocupadas atualmente em defender a fé tiverem, na verdade, uma compreensão inadequada da mais central das doutrinas cristãs? Não a proibição doutrinal da contracepção artificial: a direita católica aprendeu esse ensinamento completamente.
Estou falando da reivindicação de que Deus se tornou um de nós.
A reportagem é de David DeCosse e publicada pelo National Catholic Reporter, 11-02-2011. A tradução é de Luiz Marcos Sander.
David DeCosse é diretor de programas de ética no Centro Markulla de Ética Aplicada da Universidade de Santa Clara, na Califórnia.
A controvérsia ocorrida em dezembro passado no Instituto Smithsoniano emWashington por causa da retirada, numa exposição, de um vídeo em que formigas se arrastavam sobre um crucifixo evoca tal pergunta. É claro que a pergunta também se levanta numa época em que a direita católica, dentro e fora das estruturas formais da igreja, está ligando em grau crescente a fé católica a uma série de testes de tornassol destinados a demarcar fronteiras.
É preciso se opor à legalização do aborto e ao casamento entre homossexuais. É preciso pensar que Cristo proibiu explicitamente que mulheres fossem sacerdotes. É preciso ter apreço pela profundidade redentora do tedioso e sangrento filme “A paixão de Cristo”, de Mel Gibson.
Geralmente, a justificação teológica desses testes se baseia em duas coisas. Em primeiro lugar, há um apelo a Cristo abstrato, sagrado mas distante de nosso mundo bagunçado e deficiente em termos de alma humana. Em segundo lugar, há um apelo a essa concepção de Cristo como justificação para a autoridade de medidas tomadas pelo magistério hierárquico da igreja.
Mas a controvérsia em torno daquele incidente no Instituto Smithsoniano oferece uma ocasião para perceber a debilidade teológica desses argumentos – e desses testes de tornassol. A controvérsia começou quando a Liga Católica pelos Direitos Religiosos e Civis questionou por que verbas governamentais foram usadas para mostrar um vídeo que, segundo a Liga, era ofensivo para os católicos.
Embora a Liga não tenha pedido que o vídeo fosse removido, o museu fez isso de qualquer modo. O filme supostamente ofensivo era um segmento curto de um vídeo muito mais longo, feito pelo falecido artista católico gay David Wojnarowicz, que era uma reflexão sobre o fato de ele próprio estar morrendo de AIDS.
O crítico de arte Holland Custer, do New York Times, disse a respeito do vídeo, chamado “A Fire in my Belly” [Um fogo em meu ventre], que Wojnarowicz “se sentia, com razão, envolvido num combate mortal, e o vídeo está repleto de símbolos da vulnerabilidade sob ataque: mendigos, animais mortos em matadouros, corpos deslocados e o Jesus crucificado. No simbolismo da natureza de Wojnarowicz – e isto é confirmado em outras obras – as formigas eram símbolos de uma vida humana movida mecanicamente por suas próprias necessidades, desatenta a qualquer outra coisa. Neste caso elas se apinham cegamente sobre um emblema de sofrimento e autossacrifício.”
A reivindicação central em toda a doutrina cristã é que o Filho de Deus se tornou plenamente humano. Isto não significa apenas que Cristo entrou no mundo como uma criança desamparada. Mas significa também que Cristo assumiu os fardos complexos da liberdade humana e da corporificação humana, chegando ao ponto de aceitar livremente a morte. E quando consideramos essa doutrina central, chegamos a duas conclusões surpreendentes. Primeiramente, que o vídeo de Wojnarowicz passa facilmente no teste dessa crença ortodoxa.
Em segundo lugar, a Liga Católica e seus aliados parecem estar atuando a partir de uma compreensão inadequada dessa convicção cristã central.
A controvérsia em torno do vídeo de Wojnarowicz tem a ver com a aceitação da humanidade plena de Cristo. Particularmente, a questão doutrinal em jogo está representada pela antiga máxima cristã: Quod non est assumptum non est sanatum [O que não foi assumido também não foi redimido]. Ou, em outras palavras, a menos que se entenda que o Filho de Deus assumiu as profundezas da experiência humana – incluindo o medo e a solidão da morte –, não se poderia dizer que Cristo também redimiu essa experiência.
Essa é uma máxima dura porque exige que se veja Jesus Cristo não como uma figura abstrata e sagrada cujo poder sobre o pecado combina com sua distância em relação a tudo que poderia enodoá-lo. Pelo contrário: exige que se o veja como uma figura cuja sacralidade é obtida em sua presença para com tudo que está enodoado e através dessa presença.
E aí podemos ver as raízes da tensão relacionada ao vídeo mostrado no Instituto Smithsoniano. Para um grupo como a Liga Católica, o vídeo é um ataque – ou, como eles preferem se expressar, um “golpe” – contra algo sagrado: o fato de formigas andarem sobre uma estátua de Cristo sinaliza um ato indiferente de macular o que é santo e puro.
Mas para Wojnarowicz, a imagem supostamente ofensiva representa uma forma vigorosa de imaginar um Cristo compassivo, um acompanhante do artista moribundo e de todas as outras pessoas no desamparo e na vergonha da morte. Num processo judicial que ganhou contra Donald Wildmon, um ralhador moral de uma geração mais antiga, Wojnarowicz falou dessas convicções teológicas que animavam sua arte.
Podemos ver um problema teológico afim no apreço que os guerreiros da cultura católica têm pelo filme “A paixão de Cristo”, de Mel Gibson. Aos olhos deles, o retrato extenso e brutal da crucificação de Jesus feito pelo filme tornou claro o grau do sacrifício de Cristo. Mas seu louvor do filme se fundamentou no erro sutil, porém significativo, de pensar que a mera capacidade de Jesus de suportar a dor física era, em si mesma, um testemunho de seu nobre compromisso de aceitar o fardo de uma morte dolorosa.
A dor, na opinião deles, provava o amor. Certamente esse juízo pode ser correlacionado com a melhor avaliação crítica do filme enquanto filme: Gibsonconseguiu, de modo esquisito, criar as visões e sons vívidos de uma crucificação de uma forma dramaticamente rasa. Foi um desfile de sangue coagulado em exibição – não o retrato da destruição de um homem.
Mas essa forma de estimar a dor como prova de amor tem afinidades com uma heresia rejeitada nos primeiros séculos pela igreja. Essa heresia sustentava que Cristo assumiu um corpo humano, mas não uma alma plenamente humana com toda a liberdade, emoção e racionalidade de uma pessoa.
O teólogo e cardeal católico Walter Kasper falou dessa “heresia subliminar” que persiste até a atualidade entre as pessoas que consideram a redenção da Sexta-Feira Santa apenas em termos “da dor física de Jesus e quase nada em termos de sua obediência pessoal e entrega completa ao Pai”.
Tudo indica que podemos esperar mais testes de tornassol da fé católica nos anos vindouros. A hierarquia cada vez mais conservadora favorece tal política temerária em detrimento da solicitude pastoral. E a sempre vigilante Liga Católica não precisa de motivação para denunciar outro caso de “golpe”.
Mas nós faríamos bem em examinar os compromissos teológicos que estão por trás desses testes de tornassol. Uma defesa da fé católica que esteja animada por uma concepção abstrata de Cristo desligada do mundo faz com que as pessoas se sintam ofendidas onde não há razão para isso – e com que absolutamente não atinem com o sentido de um vídeo como o de Wojnarowicz.
De modo semelhante, uma defesa da fé que esteja animada por uma concepção de Cristo com uma alma humana diminuída faz com que se valorize o meramente físico às custas do espiritual.
Também deveríamos nos lembrar de outra admoestação de Kasper no sentido de tomar cuidado com as pessoas que invocam esse Cristo abstrato como ideologia para defender como eternas as estruturas eclesiásticas de feitura humana e, ao fazerem isso, confundem as fronteiras fixas dos testes de tornassol com a verdade católica mais profunda de que estamos sempre a caminho de Jesus Cristo.

UMA IGREJA QUE MARIA PODE AMAR

por Nicholas D. Kristof
Nicholas D. Kristof é colunista do New York Times
Tradução: Rodrigo Garcia

É bom lembrar que o Vaticano não é sinônimo da Igreja Católica, que tem inúmeros exemplos de freiras, padres e leigos que realizam um grande trabalho em favor do próximo. Dia desses, ouviuma piada sobre um devoto que morre, vai para o céu e tem direito a uma audiência com a Virgem Maria. O visitante pergunta a Nossa Senhora por que, mesmo com todas as suas graças, ela sempre aparece nos quadros como se estivesse um pouco triste, um pouco melancólica: "Está tudo bem"? Maria tranquiliza o visitante: "Sim, tudo está ótimo. Nenhum problema, é só que nós sempre quisemos ter uma filha". Lembro-me da história nesse momento em que o Vaticano enfrenta as consequências de uma mentalidade patriarcal pré-moderna: escândalo, acobertamento e a autodefesa mais desastrada desde Watergate. É isso que ocorre com clubes de garotos velhos. Não era inevitável que a Igreja Católica crescesse tão vinculada ao domínio masculino, ao celibato e a hierarquias rígidas. O próprio Jesus se fixou mais nos necessitados do que nos dogmas; ele desviou-se de sua rota para ir ao encontro das mulheres e as tratava com respeito. A Igreja do primeiro século era inclusiva e democrática, englobando até mesmo uma ala e textos protofeministas. O Evangelho de Felipe, um texto gnóstico do século 3, afirma sobre Maria Madalena: "Ela era a quem o Salvador amava mais do que a todos os seus discípulos". Da mesma forma, o Evangelho de Maria (do início do século 2) sugere que Jesus confiou a Maria Madalena a tarefa de ensinar aos apóstolos suas pregações religiosas. São Paulo se refere, em Romanos 16, a uma mulher do primeiro século, chamada Júnias, como figura importante entre os primeiros apóstolos, e a uma mulher de nome Febe que trabalhava como diaconisa. A apóstola Júnias se tornou cristã antes de São Paulo (tradutores machistas às vezes usam o nome como se fosse de um homem, sem nenhuma base histórica para isso). Ao longo dos séculos seguintes, a Igreja se voltou para atitudes fortemente patriarcais, ao mesmo tempo que ficava cada vez mais desconfortável com a sexualidade. A mudança pode ter surgido com as igrejas sendo transferidas das casas, onde as mulheres eram naturalmente aceitas, para reuniões mais públicas. A consequência foi que os textos protofeministas não foram incluídos quando a Bíblia foi compilada e, em grande parte, ficaram perdidos até a época moderna. Tertuliano, um líder cristão primitivo, denunciou as mulheres como "a porta para o demônio", enquanto crônicas da época relatam que o eminente Orígenesde Alexandria levou sua devoção até um passo além e se castrou. A Igreja Católica de hoje ainda parece presa a esse comportamento patriarcal. A mesma fé tão pioneira, que teve Júnias como apóstola logo no primeiro século, não consegue atualmente sequer ter uma mulher como simples sacerdotisa de paróquia. Diaconisas, permitidas durante século, são proibidas hoje. O clube do garotos velhos do Vaticano ficou tão autocentrado quanto outros clubes de garotos velhos, como o Lehman Brothers, com resultados parecidos. E essa é a razão pela qual o Vaticano está cambaleando agora. Contudo, existe mais para ser mostrado do que isso. Em minhas viagens pelo mundo, encontrei duas Igrejas Católicas. Uma é a rígida hierarquia do Vaticano, composta apenas de homens, que parece estar fora da realidade quando proíbe preservativos até para casais casados quando um dos cônjuge é HIV positivo. Pelo menos para mim, essa Igreja –obsecada por dogmas e regras e afastada da justiça social – é uma repetição moderna dosfariseus que Jesus criticou. Mas também existe outra Igreja Católica, que admiro intensamente. Essa é a Igreja Católica das bases, que faz muito mais coisas boas para o mundo do que recebe em créditos. É a Igreja que apoia extraordinárias organizações de ajuda, como a Catholic Relief Services (CRS) e a Caritas, salvando vidas todos os dias, e que mantém escolas fantásticas, garantindo a crianças necessitadas uma escada para sair da pobreza. É a Igreja de freiras e padres no Congo, trabalhando no anonimato para alimentar e educar crianças. É a Igreja do padre brasileiro que combate a aids e que me disse que, se fosse papa, ergueria uma fábrica de preservativos no Vaticano para salvar vidas. Essa é a Igreja das irmãs Maryknoll , na América Central, e das irmãs Cabrini na África. Existe um estereótipo de freiras como tradicionalistas vitorianas enfadonhas. Eu vi o contrário na Suazilândia – enquanto me agarrava à vida no banco de passageiros e uma irmã norte-americana, com pé de chumbo, dirigia seu jipe por entre picadas e cruzava riachos para visitar órfãos da aids. Após vários encontro como esses, comecei a crer que as pessoas mais divertidas e interessantes do mundo podem ser freiras. Então, quando você ler sobre os escândalos, lembre-se que o Vaticano não é a mesma coisa que a Igreja Católica. Leprosos, prostitutas e moradores de favelas talvez nunca vejam um cardeal, mas diariamente encontram um verdadeiro nobre da Igreja Católica na forma de padres, freiras e membros leigos lutando para fazer a diferença. É a última chance do Vaticano se inspirar nesse sublime – até divino – lado da Igreja Católica, com seus membros cuja grandeza se baseia não em suas vestes, mas em seu altruísmo. Eles são o suficiente para fazer a Virgem Maria sorrir.
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"O nosso testemunho no campo missionário e político é estarmos ao lado dos deserdados, sofrendo com os que sofrem, chorando com os que choram, nos alegrando com os que se alegram" - Paulo Wright - cristão e subversivo

22 de fevereiro de 2011

"A bênção original". Um livro polêmico


 Entrevista com Matthew Fox
"Não um pecado original”, não uma humanidade caída, ferida e depois redimida por Jesus Cristo. Mas, um Deus criador panenteísta (presente em tudo e em todos). A morte como fato natural, parte do ciclo vital e não conseqüência do pecado de Adão. “A bênção originária” da criação prenuncia a Redenção. São as teses expressas no livro de Matthew Fox, intitulado precisamente Original Blessing (1) [Bênção original], que saiu nos EUA, em 2000 e agora é traduzido na Itália com o título In principio era la gioia [No princípio era a alegria]. Um texto no qual a tradição católica e apostólica se transmuda numa religiosidade sapiencial, feminista, ecológica, sensual, com forte veia vitalista e new age.
A entrevista é de Maria Antonietta Calabrò e publicada pelo jornal Corriere della Sera, 17-02-2011. A tradução é deBenno Dischenger.
Eis a entrevista.
Matthew Fox, o então cardeal Ratzinger “condenou” o seu livro como “perigoso e conduzindo em erro”. Qual tem sido sua reação à eleição a Papa de um “discípulo” de Agostinho, que o senhor acusa de estar na raiz da teologia negativa e pessimista do pecado?
Minha reação tem sido a de ir a Wittenberg, na Alemanha, durante o tempo de Pentecostes e afixar 95 teses na mesma porta onde Martinho Lutero havia afixado as suas. Pareceu-me particularmente apropriado porque Ratzinger foi o primeiro papa alemão em centenas de anos, mas principalmente por fazer ressaltar a profunda necessidade de uma reforma da Igreja  em nossos dias. Penso que minhas 95 teses indiquem a direção apropriada para a qual devamos mover-nos. Os eventos que aconteceram depois que ele foi feito Papa, incluindo o tsunami de revelações sobe a pedofilia dos padres e sobre a cobertura do escândalo da parte da Congregação para a doutrina da fé que ele guiava, indicam que minhas ações eram justificadas”.
O grande convertido inglês Chesterton exprime conceitos muito semelhantes aos de “Original Blessing”.  Mas, sustenta que a Igreja católica é o único “lugar onde todas as verdades se encontram”. Por que o senhor não está de acordo?
Chesterton era, de muitos modos, um celebrante da teologia da “bênção originária” ou da beleza e bondade originárias Em seu livro sobre Tomás de Aquino (que li como garoto e influenciou o meu desejo de me tornar frade dominicano) ele fala do “velho puritanismo agostiniano” e do pessimismo que o Aquinate combateu tão fortemente. Quanto à eclesiologia de Chesterton, o nosso conhecimento do mundo cresceu desde o início do século vinte, quando ele escrevia. E aprendemos do Concílio Vaticano II que o Espírito Santo trabalha através de todas as tradições. E que a Igreja institucional é semper reformanda. Chesterton escreveu que o diabo se encontra tanto na Igreja como no mundo”.
O Credo codificado em 325 no Concílio de Nicéia afirma: “Confesso um só batismo para o perdão dos pecados.
Este Credo fala da remissão dos pecados (no plural) e não da remissão de um só (o pecado original). O batismo dos adultos “re-limpava” as pessoas dos pecados do passado e os acolhia na nova vida em Cristo. O batismo dos neonatos os acolhe na comunidade dos fiéis no mundo e na plenitude de vida com Cristo. Opostamente à falsa caracterização feita por Ratzinger do meu livro, eu não nego o pecado original. Eu contesto o que nós entendemos com isto. A palavra “pecado” é muito problemática e não aparece em nenhuma parte na consciência hebraica (isto é, a de Jesus). Não é uma palavra bíblica.
O papa Wojtyla está para ser declarado beato: sua abordagem não era positiva, criativa, numa palavra, como diria ele, bendizente?
Há sérios questionamentos sobre esta beatificação. A começar pelo fato que defendeu a canonização de um homem violento como Escrivá, o fundador do Opus Dei.
E as multidões que o seguiram?
Não creio que o culto do papado ou grandes multidões falem necessariamente de renovação da Igreja. A papolatria não é uma virtude. Alguns escritos de João Paulo II são admiráveis, mas creio que a história mostrará que ele desenraizou aTeologia da Libertação e as comunidades de base na América Latina. Sem contar sua completa indiferença para com a coragem e a santidade de leigos e membros do clero, centenas dos quais foram torturados e assassinados na mesma América Latina para defender os pobres e proclamar a Boa Nova da Justiça de um modo concreto (Oscar Romero era apenas uma destas pessoas santas). Os encargos assinalados a uma hierarquia de extrema direita (frequentemente doOpus Dei); a recusa de honrar o princípio de colegialidade fixado pelo Concílio Vaticano II; o apoio ao padre Maciel, fundador da Legião de Cristo, mesmo depois que as revelações sobre sua pedofilia tinham sido tornadas públicas; o diminuir as mulheres, a recusa até de tomar em consideração o clero casado ou as mulheres padres, também quando os sacramentos são denegados a muitos pela falta de sacerdotes; o apoio a movimentos fanáticos de leigos que na realidade não são leigos, como Comunhão e Libertação, o Opus Dei e a Legião de Cristo; as denúncias profundamente homofóbicas; a restauração da Inquisição contrária ao ensinamento e ao espírito do Vaticano II: tudo isso não me faz exprimir admiração.
O senhor deixou a ordem dominicana durante o papado de Wojtyla...
Eu não deixei a Ordem dominicana, fui expulso. Lutei 12 anos para permanecer e tive o apoio de muitos dominicanos, sobretudo na Holanda. O Concílio Vaticano II era focalizado para a renovação da Igreja, mas a grande parte das declarações sobre isso foi negada durante os papados de Wojtyla e Ratzinger. Este é o motivo pelo qual muitos pensadores de Igreja que conhecem um pouco de história retêm que o atual pontificado e o precedente sejam cismáticos”.
Cismáticos?
Um papa e sua cúria (não importa quantas dezenas tenham sido feitas cardeais e quantos estejam ocupados em canonizar-se um ao outro) não superam um Concílio. No grande cisma do século XIV, no qual três pessoas reclamavam contemporaneamente o papado, foi o Concílio de Constança que destituiu todos os três papas e elegeu um novo. Penso que seja a época de um catolicismo pós-Vaticano, uma verdadeira cristandade católica. Talvez a Cidade do Vaticano tenha algo a aprender do Cairo. Seria preciso derrubar do trono os ditadores e repelir um sistema corrupto, tão distante dos ensinamentos do Evangelho. Penso que o próprio Jesus poderia novamente derrubar as mesas dos mercadores no templo, se ele viesse ao cenário eclesial corrente.
Transmite-se que no fim da vida Santo Tomás tenha dito: “Tudo o que escrevi é palha”. O senhor que  é autor de best-seller; subscreveria esta frase?
Como ávido leitor do Aquinate, estou feliz que seus trabalhos tenham sido salvos e que não tenham tido o fim da palha. Sua experiência mística, em cuja perspectiva havia visto todo o seu trabalho “como palha” em comparação com a luz de Deus, é uma experiência profunda sobre a qual devemos meditar. Todos os nossos esforços no mundo do trabalho, da vida familiar e da nossa cidadania parecem palha no grande esquema da história. Isto não significa que nós não estejamos aqui para trabalhar duro, divertir-nos e amar generosamente. Isto significa somente que somos meros instrumentos de um drama de 13,7 bilhões de anos que chamamos universo. Mas, não era da evolução cósmica que falava Tomás...
Nota da IHU On-Line:
1.- O título completo do original do livro é: Original Blessing: A Primer in Creation Spirituality Presented in Four Paths, Twenty-Six Themes, and Two Questions.


Consertando a Igreja quebrada

"Um sacerdócio casado mais abrangente, não restrito a alguns clérigos anglicanos descontentes, seria um passo gigantesco no resgate da confiança de muitíssimos católicos que estão observando, esperando, torcendo por uma renovação substancial daquilo que rapidamente está se tornando uma Igreja moribunda", propõe a teóloga norte-americana.
Phyllis Zagano é professora e pesquisadora na Universidade de Hofstra, Nova York, e autora de vários livros sobre o catolicismo. Seu livro Women & Catholicism [As mulheres e o catolicismo] será publicado pela Palgrave-Macmillan em 2011.). Ela leciona "Introdução às Religiões Ocidentais", "Misticismo e questão espiritual" e "História da Espiritualidade irlandesa".
O artigo foi publicado por National Catholic Reporter, 16-02-2011. A tradução é deWalter O. Schlupp.
Eis o artigo.
O que dói no coração é que ninguém no Vaticano parece saber juntar ponto com ponto. Por maior que seja o número de relatórios oficiais, de revelações na mídia, de visitas ad limina ou de memórias publicadas por bispos, a burocracia simplesmente não entende.
A Igreja irlandesa está à beira do colapso total. Um terço dos teólogos naAlemanha está pedindo reformas. A Igreja nos EUA sofre um escândalo por dia.
Estou farta disso. Você também. Conversemos, então.
Mas vamos estabelecer alguns parâmetros. Para começar, não penso que haja qualquer coisa errada no voto do celibato. Centenas de milhares de homens e mulheres têm vivido vidas contemplativas ou ativas dedicadas a Deus e à Igreja – o povo de Deus. Muitos/as têm vivido em instituições e ordens religiosas. Alguns e algumas têm vivido como eremitas ou virgens consagradas.
Depois existe o outro celibato, aquele exigido da maioria dos sacerdotes seculares e de todos os bispos na Igreja ocidental. Esse também não tem problema, até certo ponto. Muitos sacerdotes seculares não conseguem lidar com ele. Alguns são infantilizados por suas exigências.
Por que as coisas precisam ser desse jeito? Vamos supor que a rede dos apóstolos pesque 153 peixes. Na maioria, são leigos e leigas. Além disso, freiras e irmãs, monges e irmãos, eremitas, virgens e grande número de homens solteiros que integram o clero diocesano. Naturalmente alguns peixes apresentam defeito, estão em pedaços, mas o que se enxerga principalmente é a diversidade de vocações. Então, que há de errado com um padre casado?
Esta é a questão central nas queixas e em muitos escândalos. Qual ministro casado, qual esposa de ministro permitiria que algum esquisitão cultive relações com adolescentes? Ninguém. Você sabe disso. Eu sei disso.
As mães irlandesas deixaram de torcer que um filho se torne padre. Os teólogos alemães não se conformam mais com o declínio da fé e da prática. Americanos de uma costa a outra estão arquejando sob o peso das reportagens sobre rolos que não acabam mais.
Ultimamente os casos têm sido na Filadélfia (um superior de religiosos foi preso por transferir pederastas), Los Angeles (um padre liga para uma mulher de 61 anos de idade da qual ele abusou quando adolescente), Louisville (um dedo-duro alega retaliação) e sacerdotes vão para a cadeia ou tendem para a mesma em Albany e em outros lugares do mundo.
Naturalmente também há as alegações de encrencas financeiras em Milwaukee, processos judiciais contra o atual e antigos arcebispos de Filadélfia e as memórias de tantos católicos comuns, que sempre voltam à mente. Algumas destas vieram à baila na hora do almoço esta semana: o professor-sacerdote em Phoenix, conhecido pelos meninos por suas apalpadelas, e o padre-professor em Nova York que dava nota máxima aos jogadores de futebol americano enquanto lhe dessem o que ele queria.
Tanto faz quantas vezes as histórias são contadas: cada repetição é embaraçosa e incrível. Elas simplesmente não acabam.
Esta é uma das minhas: indo de ônibus para meu primeiro dia no colégio católico, colegas do segundo ano alertaram as novatas sobre o Padre Mott, que "gostava" de garotas adolescentes.
Anos depois a diocese entrou em acordo com algumas delas. Isto não me sai da cabeça. Se cada garota no ônibus sabia, como é que o bispo não sabia? E se o bispo sabia – e eu suspeito que ele tenha sabido – por que ele não tomou providência alguma?
Anos atrás mencionei isto para um religioso graúdo, da geração de Mott. “Oh, ho, ho,Jack Mott velho sacana", riu. Isto também não consigo esquecer.
Você também tem suas histórias. As memórias se juntam à goteira constante e enjoativa. Qual é a próxima? Outro caso da Holanda? Outro processo na Bélgica? Outra carta da Cúria, de trinta anos atrás, varrendo as coisas para debaixo do tapete?
Esses teólogos alemães e centenas de outros que se juntaram a eles têm um monte de itens em sua agenda de reforma. Alguns são fáceis. Outros, difíceis.
Tomemos um fácil: padres casados.
Um sacerdócio casado mais abrangente, não restrito a alguns clérigos anglicanos descontentes, seria um passo gigantesco no resgate da confiança de muitíssimos católicos que estão observando, esperando, torcendo por uma renovação substancial daquilo que rapidamente está se tornando uma Igreja moribunda.
Os detalhes são problema? Então comecemos ordenando homens casados que tenham ou possam conseguir empregos de tempo integral, como capelães militares ou de hospital, como docentes e professores, assistentes sociais e juristas do direito canônico. Desta forma nada muda – e tudo muda.
Não é tão difícil. Tudo se reduz a conseguir que a burocracia, e por extensão o grande número de padres celibatários malformados mundo afora, amadureçam.

Luke Tobin, Sênior em Loreto [Convent College], frequentemente comentava ter ouvido dois bispos voltando do cafezinho durante o Concílio Vaticano II, onde ela fora observadora.
"Ora, eles querem se casar?", dizia um conciliar ao outro, "Que deixem eles ter suas esposas a seu lado."
Isto precisa acabar. Enquanto o carro da Igreja segue corcoveando pela estrada, todos a bordo sofrem de enjôo com os buracos e a fumaça.

http://www.ihu.unisinos.br/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=40847

Religião, não; Cristianismo, sim


                                 


Um dos pesadelos do catolicismo romano é que são abundantes os crentes em Deus e em Jesus Cristo – Hans Küng, por exemplo – e que não obstante negam a Igreja como estrutura, hierarquia ou autoridade em matéria de costumes (moral). Contudo, a atitude eclesial oficial foi menos temerosa daqueles que negam a religião ou as religiões, mas afirmam os valores do cristianismo, e particularmente do catolicismo, como fundamentos do mundo moderno e contemporâneo.

A reportagem é de Javier Morán e está publicada no jornal espanhol La Nueva España, 20-02-2011. A tradução é do Cepat.
A escritora Oriana Fallaci morreu, em 2006, exaltando Bento XVI pelo que representava na defesa dos valores católicos europeus. A uma órbita similar, ainda que menos complacente com o Pontífice, pertence o filósofo italiano Gianni Vattimo, representante da pós-modernidade nos anos 1980, criador do conceito “pensamento fraco”, e há anos alinhado com o “ateísmo católico”, representado também na Espanha pelo filósofo Gustavo Bueno, ainda que com modulações próprias em seus trabalhosA fé do ateu ou Deus salve a razão.
Vattimo debate com o antropólogo francês René Girard no recente livro Verdade ou fé fraca? (Editorial Paidós), no qual o pensador italiano cita a célebre frase do teólogo protestante Dietrich Bonhoeffer: “Ele escrevia que um Deus que ‘existe’ não existe, porque Deus não é um objeto, nem sua existência pode ser artigo de fé”.
Vattimo acrescenta em outro ponto da obra que, portanto, “a missão ecumênica do Cristianismo” consiste em “se despojar das pretendidas declarações metafísicas, de definir a natureza humana, ou dizer como Deus é feito”. Este desafio de um Cristianismo sem metafísica é o que o teólogo espanhol José Ignacio González Fausdefine como a necessidade de “deshelenizar” a fé cristã, a qual desde muito cedo se fundiu com os conceitos da filosofia grega, graças a influências como a de Filão de Alexandria.
Contudo, essa fé helenizada e introduzida nas categorias racionais que foram a base do Ocidente é um dos processos mais louvados por Bento XVI, como mostrou no famoso discurso de Regensburg, em 2006: “Agir contra a razão está em contradição com a natureza de Deus”.
Não obstante, Vattimo aceita um papel contraditório da religião: “Me defino como cristão porque creio que o Cristianismo é mais verdadeiro que todas as outras religiões, precisamente porque em certo sentido não é uma religião”. Isso se explica porque “Jesus Cristo me libertou da crença em ídolos, nas divindades e nas leis naturais”.
O Critianismo como “religião que é a saída da religião” é uma ideia que funde suas raízes em Max Weber, recorda Pierpaolo Antonello na introdução ao livro deVattimo e Girard. “A secularização (e o laicismo) são substancialmente produtos do Cristianismo”, acrescenta, e o processo que o explica é que “a morte de Deus é encarnação, kenosis: um enfraquecimento de sua potência transcendental que nos levou historicamente à conseguinte desestruturação de todas as verdades ontológicas que caracterizaram a história e o pensamento humanos”.
Afora suas raízes filosóficas em Nietzsche (filósofo ao qual Vattimo dedicou grande parte de suas indagações), a “morte de Deus” se popularizou em 1965, quando a revista Time publicou uma capa com a pergunta “Deus está morto?” e a reportagem “Ateísmo cristão. O movimento ‘Deus está morto’”. A teologia protestante americana sobre a “morte de Deus” foi efêmera e sensacionalista, própria da cultura popular.
Contudo, Vattimo fez fortuna com colocações sobre a religião como esta: “Nenhuma prova natural de Deus, mas só caridade e certamente a ética”, o que matiza no citado livro com que “sempre digo que a ética é simplesmente a caridade, mais as leis de trânsito. Respeito as leis de trânsito porque não quero matar meu próximo, e porque devo amá-lo. Mas crer que passar no sinal vermelho seja algo não natural é ridículo”.
Este marco ético cristão do amor e da caridade leva, assim mesmo, Vattimo a rechaçar a regulação moral da Igreja católica em certas matérias. Em uma recenteentrevista publicada no El País, o pensador italiano se revolvia contra a “tradição repressiva e familiarista” da Igreja, que “tradicionalmente se baseou na repressão: fazemos um pouco de caridade ou um pouco de amor?”. Vattimo se perguntava, finalmente: “O Papa precisa pregar sobre o uso dos preservativos? Não”.
Salvo nessas partes, o filósofo da pós-modernidade compartilha o pressuposto de que “a democracia, o livre mercado, os direitos civis e a liberdade individual foram facilitados pela cultura cristã”, como destaca Antonello na citada introdução ao livroVerdade ou fé fraca?. Além disso, o que já não é pouco, Vattimo comenta: “Graças a Deus, sou ateu”.
Fonte:
http://www.ihu.unisinos.br/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=40842