O absurdo e a Graça

Na vida hoje caminhamos entre uma fome que condena ao sofrimento uma enorme parcela da humanidade e uma tecnologia moderníssima que garante um padrão de conforto e bem estar nunca antes imaginado. Um bilhão de seres humanos estão abaixo da linha da pobreza, na mais absoluta miséria, passam FOME ! Com a tecnologia que foi inventada seria possível produzir alimentos e acabar com TODA a fome no mundo, não fossem os interesses de alguns grupos detentores da tecnologia e do poder. "Para mim, o absurdo e a graça não estão mais separados. Dizer que "tudo é absurdo" ou dizer que "tudo é graça " é igualmente mentir ou trapacear... "Hoje a graça e o absurdo caminham, em mim lado a lado, não mais estranhos, mas estranhamente amigos" A cada dia, nas situações que se nos apresentam podemos decidir entre perpetuar o absurdo, ou promover a Graça. (Jean Yves Leloup) * O Blog tem o mesmo nome do livro autobiográfico de Jean Yves Leloup, e é uma forma de homenagear a quem muito tem me ensinado em seus livros retiros, seminários e workshops *

5 de abril de 2011

Os pobres e a libertação. Artigo inédito de José Comblin

José Comblin
"Os pobres são a verdadeira Igreja, o verdadeiro povo de Deus ainda que a sua presença no sistema religioso possa ser muito fraca. Encontram-se nos grandes santuários de romarias populares. Não se encontram nas igrejas paroquiais e muitas vezes nem sequer nas capelas. Mas Jesus sabe reconhecê-los e os integra no seu corpo como o verdadeiro povo de Deus. Jesus luta pela sua libertação no meio deles". A afirmação é do Pe. José Comblin em artigo inédito para o livro Fome de Justiça, perspecivas de superação da pobreza que será lançado na Suiça no dia 20 de maio próximo. O artigo nos foi enviado por Marianne Spiller, suiça, há muitos anos radicada no Brasil e coordenadora da Associação Brasileira de Amparo à Infância –Abai, com sede em Mandirituba-PR.
Marianne conheceu José Comblin, quando foi se solidarizar com D. Luiz Cappio, bispo de Barra - BA, em greve de fome contra a transposição do Rio São Francisco.
Eis o artigo.
A história da humanidade é a história de um conflito permanente, uma verdadeira guerra entre alguns que conseguem acumular mais poder dominando os demais e as vítimas dominadas. Os vencedores obrigam os vencidos a trabalhar a serviço deles quando precisam deles ou os abandonam sem recursos quando não precisam mais deles. Os vencedores apropriam-se todos os recursos que estão na terra ou nos mares. Os outros vivem daquilo que os poderosos querem deixar-lhes Esta foi a visão marxista da história. Mas não era original porque já é a visão da Bíblia.A Bíblia fala dos pobres e dos ricos. Os pobres são os vencidos da guerra e os ricos são os vencedores. A história da América é uma figura exemplar dessa condição da humanidade.
Vida e morte
A síntese da história encontra-se no capítulo 8 do evangelho segundo João. Jesus denuncia que os seus interlocutores que são as elites de Israel querem matá-lo porque são filhos do diabo que quer matar. Fazem a vontade do seu pai. De fato eles o mataram. Na cruz Jesus está aí como representante de toda essa parte da humanidade que é oprimida porque vencida. Jesus quer a vida. Ele vai ressuscitar e, depois de ressuscitado, leva os vencidos para a vida
Pois Jesus também foi vencido e a sua derrota envolve todas as derrotas dos vencidos. Mas a sua ressurreição envolve a ressurreição de todos os que foram mortos como ele. Viveram na terra, mas foi uma vida aparente, porque foi uma sobrevida, uma tentativa permanente para não morrer. Milhões foram mortos cruelmente pelas armas ou pela arrogância dos vencedores. Eis a história da América que ainda continua.
A mensagem de vida
A mensagem de Jesus é o anuncio da vitoria dos vencidos, a vitória da vida que vence a morte. Nos evangelhos Jesus usa a expressão de “reino de Deus”. O reino de Deus é, de acordo com o linguajar dos profetas, um reino de justiça e de paz. É o contrário dos reinos que houve e que há e haverá na história humana. No tempo de Jesus o reino era o Império romano, um Império tremendamente cruel que concentrava todas as riquezas do Império na fortuna de alguns milhares de bilionários. Estes residiam em Roma e na região, e oprimiam 50 milhões de vencidos por um sistema de impostos que os deixava sem força.
Jesus anuncia a ruína desse Império e de todos os Impérios. Cada um tem o seu tempo, mas eles acabam derrotados. Virá o reino de Deus. Este não virá pela conquista com as armas, ou o dinheiro. Virá pelos pobres porque a força de Deus estará com eles. Jesus não explica como será. Mas a história dos seus discípulos vai mostrar pouco a pouco como entra esse reino de Deus neste mundo. Em lugar do poder reinará a comunidade. Todos agirão juntos e introduzirão o reino de Deus neste mundo. Que essa história será trágica, lenta, que exigirá tantos sacrifícios, vinte séculos o ensinam. Mas este reino de Deus já tem as suas manifestações nesta terra. Sucede cada vez que os pobres conseguem direitos pela força da sua união que desafia os dominadores.
O evangelho entrou no Império romano. Ali as traduções grega e latina da palavra aramaica que significa reino, são palavras tão odiadas que os apóstolos nem sequer se atrevem a usá-la o a aplicá-la a Deus. É impossível que Deus reine porque reinar é dominar, destruir, escravizar. Paulo como João falam da vida que veio vencer a morte. Jesus veio trazer a vida. Deus é vida. Jesus trouxe a vida. O Espírito nos dá a vida prometida por Jesus.
A vida virá pelos que não têm poder, nada podem impor, não têm armas, não têm força política. Vão conseguir vencer o poder das armas, do dinheiro, da política. Quem tem poder, somente pensa em defender ou aumentar esse poder. Quem tem dinheiro, somente pensa em conservar ou aumentar o seu dinheiro. Quem tem armas, somente pensa em fazer mais armas. Não se preocupam pelo que acontece com os vencidos. No entanto, temem os pobres, enxergam-nos como entes perigosos. Inventam forças de controle para impedir que os pobres deixem de se submeter. Apesar disso Jesus promete a vida aos pobres.
A liberdade prometida aos pobres
Os pobres de quem Jesus falava eram os camponeses sem terra que deviam trabalhar a serviço de grandes proprietários nas terras deles . Eram pescadores que muitas vezes deviam trabalhar em barcos de outros que eram os donos desses barcos. Deviam pagar-lhes uma taxa insuportável. Todos deviam pagar os impostos de Roma e os impostos do templo. A sua vida era uma vida dedicada a outros que dominavam os meios de produção. Não havia alternativa.
Para eles o reino de Deus era libertar-se daqueles que lhes roubavam o trabalho e a vida. Era poder fazer a sua vida, eles próprios. Era poder trabalhar para si mesmos e para os seus filhos. Alguns entenderam que Jesus lhes daria essa libertação por um grande ato de violência destruindo toda a classe dos dominadores. Esperaram que Jesus fizesse o que muitos em Israel achavam que seria a obra do Messias. Não aconteceu assim. Houve discípulos desanimados com a morte de Jesus porque não tinha sido o Messias esperado por eles.
O caminho de Jesus
O próprio Jesus entendia que a sua missão terrestre era o início e o sinal do libertação dos pobres e de todos os oprimidos, de todas as vítimas do reino da violência. Erra preciso entender isso, entender o sentido dessa vida de Jesus. Entender isso demorou. Muitos se deixaram iludir porque achavam que a libertação se faria na segunda vinda de Jesus, essa vinda que ele mesmo tinha prometido. Muitos esperavam que essa segunda vinda ocorresse em breve. O próprio S. Paulo pensava que muitos dos seus contemporâneos e talvez ele próprio não conheceriam a morte, porque Jesus viria antes. Mas ele não veio como se esperava. Então foi preciso procurar entender de outra maneira o que ele realmente tinha dito, o que realmente tinha ensinado e que não tinham percebido.
Jesus tinha prometido que voltaria depois da sua ressurreição e depois da sua ascensão. Voltaria para viver com os seus discípulos, para acompanhá-los. Mas era preciso descobrir de que maneira ele estava presente, e o que pretendia fazer. Até hoje muitos cristãos ainda não sabem isso. Ainda não entenderam. Acham que devemos entender a história no sentido de que Jesus prometeu essa libertação dos pobres para depois do fim deste mundo e do juízo final. Os pobres teriam primeiro que salvar a sua alma para poder entrar no reino de justiça e de paz. Mas com essas condições os pobres não teriam nenhum privilégio porque salvar a alma era uma operação factível por todos graças aos meios que a religião colocava a sua disposição. A libertação não se realizaria neste mundo, mas no outro. Muitos pensaram assim e ainda hoje muitos pensam assim e se dizem cristãos .
A maneira de Jesus
Jesus chama e reúne discípulos e os prepara para refazer no mundo inteiro aquilo que ele mesmo faz. Desperta para a espera do reino de Deus e pede uma conversão, uma mudança. Qual é essa conversão ? Mudar de vida, dedicar-se a anunciar o reino de Deus a todos. Fundar uma vida social de irmãos na qual ninguém domina nem explora outros. Nessa vida ninguém quer ser o primeiro, mas todos querem ser servidores dos outros. Os discípulos vão começar essa vida entre eles e convidar os outros a fazer a mesma coisa. É algo muito simples e muito difícil de ser aceito. Como acreditar que esse método possa ser eficaz ? No entanto, a história mostra que tem eficácia, sempre parcial, precária, provisória, que é preciso sempre recomeçar, mas que alguma coisa acontece. Jesus não prometeu a realização completa da libertação, mas ensina a buscá-la neste terra, neste vida, acreditando nela. Isso é ter fé. Ter fé é acreditar que fomos chamados para construir o reino de Deus no mundo tal como é, sem violência, sem dominação e que o método de Jesus vale.
Somente os pobres podem acreditar, porque é impossível um rico acreditar nisso. Os ricos acreditam no poder e acham que o caminho é querer sempre mais poder. Dessa maneira aumentam sem cessar a dominação e a opressão . Para eles esse evangelho de Jesus é pura loucura como já dizia Paulo. Mas para os que confiam em Jesus , é a verdadeira sabedoria.
Como se percorre o caminho de Jesus
Jesus não liberta sem a colaboração dos próprios pobres. A libertação não é um dom que desce do céu e se recebe já acabado. A experiência ensinou-nos que de fato nenhum dom desce acabado do céu. Jesus realiza a libertação pela vida e pela atividade dos próprios pobres. Jesus está neles animando-os para construir esse reino de liberdade.
Os pobres animados por Jesus não usam, nem procuram as armas dos dominadores, nem as armas, nem o poder político, nem o dinheiro Não usam os meios pelos quais os donos da terra dominam os pobres e fazem deles os seus escravos. Se buscassem esses mesmos meios, cairiam nos mesmos defeitos. Construiriam outra forma de sociedade de dominação mas não trariam a liberdade porque esses meios não criam a liberdade
A formação da comunidade
Os pobres formam comunidades de vida. São diversas as formas que essas podem assumir. Pois dependem das condições históricas. No inicio são comunidades minúsculas como aqueles que aparecem no Novo Testamento. Mas elas podem crescer e vão crescendo na história. Não são essencialmente comunidades de culto ou de religião, embora culto e religião possam ser formas de educação ou de preparação para a vida comunitária. Nem sempre culto e religião fazem isso, nem de longe. Muitas vezes culto e religião têm o seu fim em si mesmos, pois respondem a necessidades psicológicas e sociais das pessoas. As comunidades que Jesus cria, são comunidades de vida total, de trabalho, de educação, de habitação, de relacionamento sempre na vida concreta de todos os dias e nunca fora num mundo puramente simbólico.
Podem ser comunidades rurais em que todos tem o seu pedaço de chão e trabalham em conjunto, produzem em conjunto, comercializam em conjunto e crescem em conjunto. Podem ser indústrias dirigidas pelos próprios trabalhadores em forma de cooperativa ou outra. Aliás, pode haver cooperativas em muitas atividades humanas.
Porque essa formação de comunidade é tão lenta? Com certeza porque o sistema estabelecido se defende e usa todos os meios para destruir tudo o que é comunitário. Mas também precisamos reconhecer que muitas vezes os próprios pobres não têm a fé suficiente, não têm a coragem, a audácia, a confiança nos outros que são necessárias para buscar formas de vida comunitária. Nada se faz sem uma fé radical.

As comunidades na história
Historicamente houve e há semelhantes comunidades, de dimensão mais ou menos importante. Há regimes de comunidade parcial: por exemplo quando todo um povo assume a solidariedade nos casos de doença, desemprego, velhice. Há comunidade quando o povo inteiro assume a educação de todos e a mesma educação para todos. É o que recebeu na época contemporânea o nome de Estado de bem-estar social, ou de democracia social. São expressões comunitárias importantes. Ainda são muito incompletas porque a maior parte dos meios de produção pertencem a minorias privilegiadas, e é o que permite uma grande desigualdade. Na América latina, no Brasil de modo particular, a desigualdade social é imensa e as classes sociais praticamente não comunicam, vivem em mundo fisicamente separados. Não se encontram na vida a não ser de modo puramente formal e funcional nas fábricas ou nas unidades de produção, de maneira totalmente desigual. Com essa situação os encontros são manifestações da desigualdade.
Porque os pobres suportam ainda tanta dominação ? Porque se sentem tão fracos frente aos seus dominadores que perdem coragem. Por medo, por falta de audácia, por falta de confiança em si próprios. Falta uma evangelização forte capaz de suscitar a verdadeira fé. Há toda uma cultura dominante que lhes ensina que são incapazes, impotentes, condenados a sua condição de dominados, porque não há outra sociedade possível. Quem recebe essa mensagem durante a vida toda, perde coragem; Não confiam uns nos outros e por isso são lentos para unir-se e buscar juntos essa nova convivência humana que pode substituir as estruturas de dominação existentes.
O anúncio da libertação
Jesus anunciou a libertação . Iniciou o movimento comunitário reunindo os seus discípulos que se acharam juntos no dia de Pentecostes para receber o Espírito Santo enviado por ele. Lançou o movimento. A missão dos apóstolos, dos missionários é anunciar de modo ativo, como Jesus, mostrando o modo de proceder para construir o reino de Deus. A Igreja constitui esse povo de missionários. A Igreja existe para iniciar esse movimento de comunidade humana em todos os níveis. Para dizer melhor, a Igreja existe nesse movimento. Fora desse movimento ela não existe como Igreja de Jesus Cristo, mas somente de nome.
Historicamente a Igreja falhou e continua falhando. Os cristãos pertencem a este mundo e trazem todo um passado pagão . Custa acreditar no evangelho, mas muitos nem sequer o receberam, ainda que fossem batizados e recebessem os sacramentos. No início, Jesus não tinha criado uma religião, não tinha organizado nenhum culto, nem definido uma doutrina, nem um regime de governo, já que queria que todos fossem iguais. Mas muito cedo os discípulos que traziam em si toda a religião da sua vida anterior, sentiram uma necessidade de fazer uma religião a partir do culto a Jesus ressuscitado. Não tinham conhecido a vida real de Jesus e aplicaram a Jesus o que tinham aprendido seja no judaísmo seja nas religiões ditas pagãs.
A religião e os pobres
Criou-se uma religião muito desenvolvida e cada vez mais formalizada. A religião vive num mundo simbólico, consiste em formas e não em realidades materiais. Acontece que a Igreja chega a se fechar no seu mundo simbólico para viver nesse mundo simbólico que para ela é salvação. O Deus da religião pede a paz e a tranqüilidade, mas se esquece de que os missionários são perseguidos. Se a Igreja vive em paz, é sinal de que não anuncia, não tem por objetivo o reino de Deus mas apenas a segurança dos seus fiéis. No concreto das paróquias e das comunidades religiosas as atividades dominantes de longe são atividades simbólicas, de culto, de profissões de fé, de construção de um aparelho material para realizar melhor as suas atividades simbólicas. Essas atividades têm por finalidade a salvação das almas mas não se preocupam pelo que sucede neste mundo.
Uma Igreja dedicada ao culto e ao mundo simbólico não dá atenção particular aos pobres a não ser para lhes dar esmolas, mas não faz nem idéia sequer da sua libertação . Ela não tem interesse em ser a Igreja dos pobres porque os pobres não trazem muito poder. Ela procura ter boas relações com o poder político, o poder econômico e o poder cultural. Ainda hoje traz as marcas do 15 séculos de cristandade quando a religião dos povos era a religião dos reis. Todos deviam praticar a religião do rei. E a Igreja dependia do rei. Essa colaboração entre o poder religioso e os poderes civis ainda está na mentalidade e nos projetos conscientes ou inconscientes de muitos cristãos sobretudo do clero. O discurso é evangélico, mas a prática é o serviço a esse edifício religioso que construiu a Igreja como instituição .
As minorias abraamicas de dom Helder
Minorias salvam a honra da Igreja. Houve homens e mulheres heróicos que conseguiram despertar os cristãos e levá-los a promover reformas sociais. Nem sempre pertenceram à Igreja de modo explícito. A Instituição Igreja não lutou pela emancipação dos escravos porque estava atada pelos laços com o Império e não queria emancipar-se. Não sentia que a união estreita entre o Império ou, antes dele, com o reino de Portugal era o maior obstáculo para a vida cristã. Essa estrutura de cristandade favorecia a religião , mas desviava da missão da Igreja que era anunciar o reino de Deus e lutar pela libertação dos oprimidos e entre eles estavam os índios e os escravos africanos.
Há minorias que lutam pela reforma agrária e o próprio episcopado toma posição com muita força nas suas declarações . Mas as elites sociais e as classes médias que se dizem católicas e as vezes praticam e recebem os sacramentos regularmente, não querem saber de reforma agrária. Há cristãos que lutam também pela libertação das favelas e de todas as habitações insalubres, mas a massa dos católicos não se move e continua elegendo governantes que não ser dedicam a essas tarefas primordiais.
Podemos perguntar-nos se nas paróquias há realmente muito interesse em entrar nessas lutas. Não se nota muito. Então a nível teórico a Igreja quer reforma agrária, reforma urbana, salário justo, mas na prática nas paróquias e nas instituições da Igreja, esses assuntos não têm importância. Na prática a Igreja se confunde com as atividades religiosas e não está a serviço da humanidade, não busca a sua libertação. Como fazer para conseguir a libertação da instituição tão apegada à estrutura social estabelecida e às classes sociais dominantes ? Eis o drama.
Quem é pobre?
Os ricos sempre procuraram desviar o sentido do evangelho. Inventaram o conceito de pobreza espiritual. Pobres seriam os que não estão apegados à riqueza, os que não se sentem ricos, os que têm sentimentos de compaixão pelos pobres. Interpretam o versículo de Mateus sobre os pobres em espírito como se o espírito fosse o imaterial,o mental, o psicológico. Mas o espírito é vento, força, tempestade como no dia de Pentecostes. Os pobres no espírito são os que são animados pelo Espírito. Não são os pobres sentimentalmente.
Os verdadeiros pobres sabem que são pobres. Não se perguntam quem é pobre. Sabem que são pobres. Os ricos buscam subterfúgios para definir em forma complicada a pobreza de tal maneira que não se sintam denunciados como os ricos do evangelho. Se alguém duvida se é pobre ou rico, com certeza é rico porque um pobre não duvida, mas sabe muito bem o que é pobreza. Os pobres são a verdadeira Igreja, o verdadeiro povo de Deus ainda que a sua presença no sistema religioso possa ser muito fraca. Encontram-se nos grandes santuários de romarias populares. Não se encontram nas igrejas paroquiais e muitas vezes nem sequer nas capelas. Mas Jesus sabe reconhecê-los e os integra no seu corpo como o verdadeiro povo de Deus. Jesus luta pela sua libertação no meio deles.

3 de abril de 2011

Romero. Uma beatificação incômoda

No dia 24 de março de 1980, um grupo de pistoleiros crivou de balas o então Arcebispo de São Salvador Oscar Arnulfo Romero e Galdámez. Um assassinato político em meio a uma sangrenta guerra civil. Os discursos do prelado foram por demais incômodos para o governo e para os esquadrões da morte. Passados 31 anos de sua morte, a sua figura continua incomodando e o seu processo de beatificação não avança.
A análise é de Andrés Beltramo Alvarez em seu blogSacro & Profano, 28-03-2011. A tradução é do Cepat.
Por seus inflamados discursos em favor dos pobres, a defesa dos direitos humanos e a sua proximidade com o povo, Monsenhor Romero é lembrado como um defensor dos menos favorecidos. Em uma América Latina onde a Teologia da Libertação tinha força, o seu assassinato foi lido pela chave ideológica (algo inevitável).
Em 1994, o seu sucessor na Arquidiocese de São Salvador Arturo Rivera e Damas, iniciou o processo de beatificação. Como era previsível, a interpretação ideológica veio a tona, sobretudo no Vaticano. Em 2000, a Congregação para a Doutrina da Fécomeçou o estudo de todos os discursos de Romero. Em 2005, o postulador da causa, o bispo italiano Vincenzo Paglia disse publicamente que Romero não era um bispo revolucionário, mas um homem da Igreja, do Evangelho e os pobres”.
Apesar disso, seis anos depois, nada se sabe sobre a beatificação. Fontes qualificadas nos confiaram que, neste momento, a Santa Sé não tem previsão sobre tema. Espera passar tempo suficiente para deixar para trás riscos de instrumentalização e permitir que venha a tona a figura de Romero, para além das ideologias.
Enquanto isso, o povo salvadorenho espera, assim como o movimento católico da Comunidade de São Egídio, um dos grupos eclesiais que mais apóia o "caminho para o altar" do arcebispo.

2 de abril de 2011

Matthew Fox - Um cristianismo sem Agostinho?


"A principal tese do teólogo norte-americano Matthew Fox é que a 'bênção original' no centro da mensagem do cristianismo foi ofuscada pela prevalência de uma teologia particular do pecado original, cujo principal autor é Santo Agostinho de Hipona."
A opinião é de Massimo Faggioli, doutor em história da religião e professor de história do cristianismo no departamento de teologia daUniversity of St. Thomas, em Minneapolis-St. Paul, nos EUA. O artigo foi publicado na revistaEuropa, 31-03-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
Eis o texto.
O cristianismo, assim como o conhecemos, é fiel às suas origens, à mensagem deJesus? A pergunta, a mais arriscada para qualquer pessoa que se interesse pelo cristianismo, está no centro do livro de Matthew Fox, In principio era la gioia [No princípio era a alegria] (Ed. Fazi, 2011, 423 páginas), publicado originalmente nosEstados Unidos em 1983 com o título Original Blessing[Bênção original].
O livro, que levou o autor à expulsão dos dominicanos em 1993 (junto com um grande sucesso editorial), foi traduzido só agora ao italiano e abre uma nova coleção de textos teológicos, intitulada significativamente Campo dei Fiori, publicada pela Fazi Editores e organizada por Vito Mancuso e Elido Fazi.
Mancuso introduz o livro de Fox com um longo texto que apresenta não só o livro, mas também toda a coleção e o projeto editorial que prevê a publicação de textos de teologia, espiritualidade e história do cristianismo. O projeto se baseia em uma constatação dificilmente contestável: "A oposição sistemática entre liberdade e pertencimento à Igreja Católica foi se dilatando e gerou a muito difundida ideia de uma oposição sistemática entre liberdade e experiência espiritual" (p. xxx).
Se Mancuso pretende iniciar um diálogo com o catolicismo institucional, as premissas postas por esse livro da coleção são combativas: no prefácio,Mancuso sugere uma analogia entre o destino deMatthew Fox e o dos teólogos hereges e dissidentes condenados à morte pela Igreja romana, dentre os quais Arnaldo de BrésciaeGiordano Bruno. A sorte reservou a Fox uma saída da Igreja de Roma bem mais cômoda em comparação ao fogo no Campo de Fiori.
Mas In principio era la gioia se presta bem para essa interessante operação cultural e editorial da efitora Fazi, da qual logo veremos outros volumes (entre os quais a recente história dos Papas deJohn O’Malley e uma interpretação cristã do budismo dePaul Knitter). A principal tese de Fox, agora ex-católico que se define "padre pós-denominações", é que a "bênção original" no centro da mensagem do cristianismo foi ofuscada pela prevalência de uma teologia particular do pecado original, cujo principal autor é Santo Agostinho de Hipona.
Na opinião de Fox, o original otimismo da revelação judaico-cristã sobre a humanidade e sobre a criação foi removido pelo "esquema queda-redenção" centrado no pecado original: esse deslizamento fez do cristianismo uma religião não só pessimista, mas também patriarcal e violenta. A teologia de Fox tenta despedaçar o esquema "queda-redenção" para romper o fundamental dualismo alma-corpo, sagrado-profano, Deus-mundo – um dualismo herança da experiência maniqueia do jovem Agostinho.
Fox propõe uma viagem espiritual de quatro etapas: a via positiva (em contato com a energia criativa de Deus), a via negativa (redescobrir o sofrimento por meio da natureza), a via criativa (para nos tornarmos novamente criadores do mundo junto com Deus) e a via transformativa (para voltar ao momento inicial graças a uma inspiração de justiça pelo cosmos).
Hoje, quando um dos principais acusadores do livro (o então cardeal Ratzinger) tornou-se Papa de Roma, In principio era la gioia se apresenta como uma espécie de testemunha póstuma da tentativa de fundar, em uma síntese pós-agostiniana, as almas teológicas do catolicismo pós-conciliar: em outras palavras, a tentativa de elaborar uma teologia liberacionista em sentido amplo, que misture ecumenismo, teologia feminista, espiritualidade ecológica, misticismo e busca de um campo teológico inter-religioso bem além do "monoteísmo abraâmico", judaísmo-cristianismo-islã.
Nesse sentido, o livro de Fox se apresenta, mais do que como uma proposta original de espiritualidade alternativa ao catolicismo institucional, como um mapa das fontes e das direções possíveis em que a teologia católica foi estimulada (frequentemente com maior sucesso de Fox) depois do Concílio Vaticano II.
São evidentes as fraquezas teológicas da proposta de Fox. Um dos elementos prevalentes do livro é o de uma oferta de "teologia terapêutica", típica da paisagem religiosa norte-americana contemporânea, fenômeno do qual o catolicismo dos EUApermaneceu em grande parte (e por sorte) imune. Às vezes, parece que lemos em Foxessa proposta teológica para católicos suburbanizados, cultos e pós-confessionais, que havia feito o sucesso de Thomas Merton nos anos 50 e 60: com a diferença de queMerton escrevia como neocatólico, enquanto aqui Fox fala como ex-católico.
A segunda fraqueza tem a ver com a exigência de reduzir a taxa de agostinismo da teologia cristã e católica em particular: exigência compreensível, especialmente se considerarmos os legados mais problemáticos do bispo de Hipona (teologia da guerra justa, concepção da sexualidade). Mas entre eliminar a ênfase sobre a libertação do pecado original e eliminar do horizonte da teologia cristã a ideia de libertação tout courto limite é tênue: a ideia de "libertação" é uma das ideias teológicas mais poderosas da revelação judaico-cristã (do Êxodo em diante, chegando às teologias políticas).
Além disso, Fox parece ignorar a passagem de paradigma dos séculos XIX e XX da teologia como metafísica à teologia como "história da revelação" e, substancialmente, parece declarar decaídos os grandes mestres da teologia católica do século XX.
Por fim, Fox se baseia em fontes bíblicas (especialmente dos livros sapienciais) e em fontes místicas medievais, além de uma vasta série de fontes teológicas sui generis(poesia, literatura, psicologia), deixando substancialmente de lado a teologia patrística latina e grega dos primeiros séculos do cristianismo. Não está claro quanta teologia dos Padres da Igreja Fox pretende arquivar (além de Agostinho), se é verdade que oressourcement teológico foi uma das pedras-angulares da reconstrução da teologia católica no século XX, depois da estação árida da teologia neoescolástica. Declarar acabado o ressourcementequivale a declarar acabada a teologia doVaticano II: uma declaração que todos os catolicismos inimigos de Fox ficariam felizes em assinar embaixo.

http://www.ihu.unisinos.br/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=41981

1 de abril de 2011

Pedra maia é exibida para desmentir anúncio do fim do mundo em 2012

Peça foi mostrada na cidade de Tabasco, no México.Arqueólogo garante que não há escritos sobre o Apocalipse.

Maias fim do mundo 1 (Foto: René Alberto López / AFP Photo)
Pedra com calendário maia é exposta em Tabasco, no México (Foto: René Alberto López / AFP Photo)

A pedra do calendário maia que foi interpretada erroneamente como um anúncio do fim do mundo marcado para dezembro de 2012 foi apresentada na terça-feira (29) em Tabasco, sudeste do México.

A peça é formada de pedra calcária e esculpida com martelo e cinzel, e está incompleta. "No pouco que podemos apreciá-la, em nenhum de seus lados diz que em 2012 o mundo vai acabar", enfatizou José Luis Romero, subdiretor do Instituto Nacional de Antropologia e História.

Na pedra está escrita a data de 23 de dezembro de 2012, o que provocou rumores de que os maias teriam previsto o fim do mundo para este dia. Até uma produção hollywoodiana, "2012", foi lançada apresentando esse cenário apocalíptico.

"No pouco que se pode ler, os maias se referem à chegada de um senhor dos céus, coincidindo com o encerramento de um ciclo numérico", afirmou Romero. A data gravada em pedra se refere ao Bactum XIII, que significa o início de uma nova era, insistiu o pesquisador.

Comblin, o profeta da ironia afetuosa


"Como poucas pessoas, é o caso de Dom Helder Câmara, Comblin conseguiu ser cada dia mais aberto e crítico à medida que seus anos avançaram", testemunha Marcelo Barros, monge beneditino, teólogo e escritor.

Eis o testemunho.

Hoje saí da UTI de um hospital de Olinda, no qual me abriram o peito e me recauchutaram o coração fragilizado, com duas pontes de safena. No reencontro com a vida, ainda no leito de uma enfermaria, fico sabendo da partida do padre José Comblin, meu velho professor de Teologia e amigo de tantos anos e companheiro de lutas e esperanças.

A um teólogo de fama mundial e de projeção pastoral como foi o padre Comblin, não faltarão testemunhos de muitos irmãos e irmãs que com ele conviveram e trabalharam por tantos anos. Eu fui apenas um dos seus alunos em todo o curso de Teologia e nem pertenci ao grupo mais ligado a ele na Teologia da Enxada ou mesmo no instituto de vida missionária que ele animava. Entretanto, fui marcado por sua figura e sua doutrina e tenho algumas experiências próprias que podem ser úteis que agora sejam recordadas. Há pouco mais de uma semana, escrevi um pequeno artigo, defendendo a atualidade e a pertinência de sua profecia eclesial e popular. Ele me respondeu com uma breve mensagem de agradecimento e depois me mandou um texto maior explicando suas críticas ao estilo atual do poder na Igreja Católica.

Conheci o padre Comblin quando ele ainda era muito jovem, em 1964. Dom Hélder Câmara, então novo arcebispo de Olinda e Recife, trouxera uma equipe célebre de professores de Teologia. Entre eles estava o padre Comblin que, durante seus primeiros anos no Nordeste, ficou hospedado no mosteiro dos beneditinos. Naqueles anos, justamente, eu entrei no Mosteiro com a ânsia de renovação que motivava minha geração. Apesar de ser o tempo em que o Concílio Vaticano II propunha para a Igreja um novo Pentecostes, a maioria dos monges se apegava às velhas tradições. Apesar de ser muito discreto e viver outras preocupações pastorais, Comblin não deixava de ser irônico e quase sarcástico. E aquilo me atraía. No meu tempo de noviciado, li em francês “O Cristo no Apocalipse” onde se vê um Comblin exegeta e pouco conhecido. Li também, já em português “A Ressurreição”, um belo livro da Herder no qual ele, antes do Vaticano II, sustentava que o fato teológico mais marcante para o século XX tinha sido a revalorização teológica e espiritual do mistério pascal e da ressurreição de Jesus

Quando comecei a fazer Teologia no Seminário de Camaragibe, ele era o coordenador do curso. Na minha juventude, eu o achava contraditório. De um lado, ele ensinava uma teologia profunda, mas tradicional (não tradicionalista) e eu compreendia pouco isso. Esperava dele intuições inventivas e estas não apareciam, ao menos para mim. Sei que, neste tempo, ele produziu obras impressionantes como Théologie de la Paix, Théologie de la Ville e um estudo sobre Catolicismo Popular no Brasil. Mas, na época, não tive acesso a estas obras. Suas aulas eram dadas em um tom monocórdio, só interrompidas aqui e ali pelas risadas de alunos que festejavam as ironias do Comblin, aparentemente demolidoras, mas no fundo construtivas.

Mais tarde, em 1968, o Instituto de Teologia do Recife nomeia uma equipe de três professores e três alunos para elaborar uma proposta de nova temática e nova metodologia teológica. O coordenador da equipe era Comblin e eu fazia parte dos três alunos que tinham de discutir com ele as propostas dos alunos. Eu tinha a sensação de que ele mal nos escutava, mas me surpreendi quando, depois de muitos debates ácidos, ele assumiu nossas propostas e estas foram, em sua maioria, implementadas.

No mesmo ano, um escrito interno com o qual Comblin preparava a conferência episcopal de Medellin e propunha uma revolução social, extravasou para a imprensa. Ele que tinha ido a Europa foi proibido pela ditadura militar de voltar ao Brasil. Quando lhe perguntaram quem poderia, até o final do ano, coordenar o seu curso de Teologia dos Sacramentos, (estávamos em agosto), tive a surpresa e o orgulho de saber que ele escolhera o meu nome. Eu era apenas um dos alunos da classe do terceiro ano. A partir daí, sim, eu o assumi como um mestre de vida e procurava ler e estudar tudo que ele escrevia. A partir de então, descobri como ele inovava sua doutrina.

Seu livro em dois volumes “Teologia da Revolução” foi meu batismo nos caminhos do que depois chamaríamos teologia da libertação. Nos anos 70, ele estava fora do Brasil e tivemos poucos contatos. Nos anos 80, o reencontrei mais velho e o achei mais aberto e comunicativo, sempre muito atento aos amigos. Um homem fiel às amizades e às relações. Era um intelectual de erudição raríssima, capaz de dissertar sobre Teologia, Política, Bíblia, Economia e muitos outros assuntos com uma competência incrível, ao mesmo tempo que punha em prática sua visão de uma teologia popular e seu carinho por um instituto para formar padres, missionários/as e religiosos /as que viessem do campo e não precisassem sair do meio rural.

Algumas discussões com ele nortearam-me a vida. Por exemplo, a tentativa de libertar a Teologia cristã de sua base helenista (filosófica grega) ainda muito forte em nossa Igreja. Também, me impressionavam sempre a sua capacidade de criticar livremente a estrutura monárquica e absolutista do Vaticano. Mesmo um interesse imenso por uma vida religiosa mais popular e mais inserida, menos centrada nas estruturas das congregações.

Nos últimos anos em que vivi no mosteiro de Goiás, sempre passou a Páscoa conosco. No Brasil, temos a graça de contar com teólogos e teólogas dos mais abertos e criativos do mundo, mas a contribuição própria do padre Comblin tem sido sempre a de uma liberdade interior de dizer o que pensa e ser um profeta crítico e irônico sempre capaz de ler a história e as estruturas eclesiásticas a partir dos empobrecidos e das grandes causas da América Latina. Em 2006, com Dom Tomás Balduíno e com ele, fomos observadores internacionais das eleições presidenciais da Venezuela e, bem mais do que outros companheiros, eu o vi muito aberto ao bolivarianismo. Quem o conheceu de perto sabe que sua ironia era profunda, mas não era de ruptura e sim de afeição.

Como poucas pessoas, é o caso de Dom Helder Câmara, Comblin conseguiu ser cada dia mais aberto e crítico à medida que seus anos avançaram. Que sua herança teológica e profética seja por nós mantida e continuada.

28 de março de 2011

Como o profeta Amós, Padre José Comblin incomodava

Carlos Mesters

Padre José Comblin morreu. Um bispo o criticou, como: "Comblin, homem cansado e pessimista". O pessoal das Comunidades por onde ele andava não o chamava de Comblin, mas sim de "Padre José". Padre Comblin incomodava as pessoas de poder, mas era amado pelos pobres que o acolhiam carinhosamente como Padre José.

Padre José Comblin nasceu na Bélgica nos anos 20 do século passado e nos anos 50 veio trabalhar e anunciar a Boa Nova aqui no Brasil. O profeta Amós era de Judá no Sul e foi trabalhar e anunciar a Boa Nova de Deus em Israel no Norte, no santuário de Betel. Amasias, o sacerdote de Betel, não gostou e denunciou o profeta junto ao rei Jeroboão, dizendo que já não se podia tolerar as palavras de Amós. E mandou dizer ao próprio Amós: "Ó, seu profeta, vá embora daqui. Retire-se para sua terra Judá. Vá ganhar sua vida por lá com suas profecias. Mas não me venha mais fazer suas profecias aqui em Betel, pois isto aqui é o santuário do Rei e o templo do Rei". Amós mandou dizer: "Eu não sou profeta nem filho de profeta. Sou camponês, criador de gado e cultivador de sicômoros. Foi Javé que me tirou de trás do rebanho e me ordenou, ‘Vá profetizar ao meu povo Israel'!" (Amós 7,10-15).

Como o profeta Amós, Padre José Comblin incomodava aos homens do poder no tempo da ditadura e foi expulso várias vezes. Incomodava também aos que exercem o poder na Igreja. Alguns deles chegaram a dizer que já não se podia tolerar as coisas que ele dizia, e eles proibiram a fala dele várias vezes em vários lugares.
Como o profeta Amós, Padre José, ele mesmo, nunca se apresentou como profeta. Ele se apresentava como ser humano cristão e sacerdote, cumpridor fiel do seu dever. Posso testemunhar: convidado para falar nas comunidades e nos grupos do CEBI, Padre José convencia as pessoas pela simplicidade do seu jeito de conversar e dialogar, pelo testemunho da sua sinceridade e profundidade de vida e pela quantidade enorme de informações de que dispunha para confirmar as coisas que dizia e as denúncias que fazia.

Mesmo ausente ele continua presente. Como o profeta Amós, "seu corpo foi sepultado em paz, mas o seu nome viverá através das gerações" (Eclo 44,14). Eternamente grato.


*Frei Carlos Mesters, 0.Carm. Convento do Carmo, São Paulo, 28 de março-2011.
Biblista popular, Carlos Mesters é um dos fundadores do CEBI.


http://www.cebi.org.br/noticia.php?secaoId=1&noticiaId=1885

27 de março de 2011

O nosso já Saudoso, Comblin...



Morre
um dos maiores teólogos pensadores

da Teologia da Libertação

* 22 de março de 1923 + 27 de março de 2011

Morreu hoje cedo 27/3/2011, na cidade de Pedro Simões, interior da Bahia, o padre José Comblin, 88 anos, um dos mais importantes e polêmicos teóricos da Teologia da Libertação, e autor de vários livros, entre os quais A Teologia da Enxada, sobre a vivência cristã e teológica nas comunidades rurais.

Comblin estava dando um curso para comunidades de base em Pedro Simões. Foi encontrado morto, sentado, em seu quarto, quando era esperado para a oração da manhã e não apareceu na capela. Ele tinha problemas cardíacos e usava marcapasso. Apesar da doença, parecia bem disposto e estava trabalhando.

Nascido em Bruxelas, em 22 de março de 1923, padre Comblin veio para o Brasil em 1958, atendendo a apelo do papa Pio XII, que no documento Fidei donum (O Dom da Fé) pedia missionários voluntários para regiões com falta de sacerdotes.

Depois de trabalhar em Campinas e, em seguida, passar uma temporada no Chile, foi para Pernambuco, em 1964, quando D. Helder Câmara foi nomeado arcebispo de Olinda e Recife. Perseguido pelo regime militar, foi detido e deportado, em 1972, ao desembarcar no aeroporto de volta de uma viagem à Europa. Religioso foi perseguido pelo regime militar brasileiro, chegando a exilar-se no Chile

http://www.estadao.com.br/noticias/nacional,morre-padre-belga-jose-comblin-da-teologia-da-libertacao,697964,0.htm
Trechos de uma entrevista do Pe. Comblain.
Quando o senhor fala de mudar o mundo, fala de revolução social?

Não, de mudar a humanidade, a forma de se relacionar entre as pessoas, isso é o que é preciso mudar. Como fizeram as comunas medievais, as comunidades de base, as empresas cooperativas, em que todos participam. No final, o império cairá como todos os anteriores, e os oprimidos se libertarão graças à sua luta.

Como o senhor caracteriza Jesus Cristo?

Ele vem mostrar em sua vida o que é a nova humanidade e anunciar a transformação. Busca os que sofrem, os doentes, os que não tiveram sorte. Depois, anuncia aos pobres que a situação mudará, que tenham confiança e força, porque eles têm a sabedoria de Deus e a entendem. Por outro lado, os ricos e poderosos nunca entendem e não querem entender. Eles defendem seus privilégios e nada mais. Depois, ele reuniu uma comunidade e lhes deu uma recomendação básica fundamental: que ninguém queira ser mais do que os outros. Isso basta, é a única instrução. Se respeitarem isso, todo o resto funciona. Depois, denunciou a todos os que mantêm o sistema de dominação, e que o defendem, porque lhes beneficia. Por fidelidade a essa mensagem, todas as autoridades de Israel querem matá-lo e vão pôr-se de acordo com o governador romano que, de fato, sente que ele é um revolucionário que ameaça seu sistema e ao qual é melhor suprimir. Jesus mostrou o caminho para construir um mundo novo, não só para salvar a alma, que é mais fácil.

24 de março de 2011

Mais um ano sem São Oscar Romero

São Oscar Romero, mártir.
Rogai por nós !




Trecho da última Oração Eucarística
celebrada por São Oscar Romero

”... Vocês acabam de ouvir, no Evangelho de Cristo, que as pessoas não devem amar tanto a si mesmas e cercarem-se de cuidados para evitar os riscos da vida que a história nos exige, pois quem quiser afastar de si o perigo acabará perdendo a sua vida. Em contrapartida, aquele que se entrega por amor a Cristo a serviço dos outros viverá como o grão de trigo que morre, mas só morre aparentemente. Se não morresse, permaneceria só. Mas a colheita só existe porque ele morre, deixa-se imolar nesta terra, desfazendo-se – e só se desfazendo é que ele produz a colheita.
... Esta santa missa, esta Eucaristia, portanto, é precisamente um ato de fé: pela fé cristã, parece que neste momento a voz da diatribe converte-se no corpo do Senhor, que se ofereceu pela redenção do mundo, e neste cálice, cujo vinho se transforma no sangue que foi o preço da salvação. Que este corpo imolado e este sangue sacrificado pelos homens nos alimentem, para que, como Cristo, também saibamos dar nosso corpo e nosso sangue no sofrimento e na dor, não por nós mesmos, mas para trazer justiça e paz para o nosso povo. Na fé e na esperança, unamo-nos intimamente neste momento de oração, por dona Sarita e por nós mesmos...”

(NESSE MOMENTO, SOOU "O COVARDE" DISPARO MORTAL...)

24 de março de 1980

23 de março de 2011

A Igreja ainda pode ser salva? O novo livro de Hans Küng

“Na presente situação não posso assumir a responsabilidade de silenciar”, diz Hans Küng: A Igreja católica está enferma, talvez moribunda. Em vez de minimizar, ocultar, silenciar, é preciso assumir um honesto diagnóstico e propor terapias eficazes.

Essa proposta está presente no mais recente livro de Küng, Ist die Kirche noch zu retten? [A Igreja ainda pode ser salva?], recém publicado pela editora alemã Piper.

Durante toda a sua vida Hans Küng serviu a Igreja católica (em todo o caso, nem sempre para alegria dos papas): como teólogo mundialmente respeitado, como sacerdote e autor muito lido.

Agora ele novamente presta à Igreja um serviço, enquanto expressa claramente de que a Igreja está enferma, por que enfermidade ela está afetada. Sua crise ultrapassa muitíssimo os casos de abuso e seu acobertamento: trata-se de uma crise sistêmica básica. Uma Igreja que continua atendo-se ao seu monopólio de poder e de verdade, em uma inimizade sexual e com as mulheres, que se recusa às reformas e ao mundo moderno esclarecido, não poderá sobreviver – esse é o diagnóstico de Hans Küng. Por isso ele propõe uma agenda para um “diálogo futuro”, explicitada em seu novo livro.

Hans Küng, nascido em 1928 em Sursee, Suíça, é professor emérito de teologia ecumênica da Universidade de Tübingen e presidente da Fundação Ética Mundial, cujo escritório brasileiro encontra-se no Instituto Humanitas Unisinos - IHU. Ultimamente, foram publicados sua obra mais pessoal, Was ich glaube [O que creio], assim como Anständig wirtschaften. Warum Ökonomie Moral braucht[Negociar honestamente. Por que a economia necessita de moral].

http://www.ihu.unisinos.br/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=41627

19 de março de 2011

Natureza, ''o corpo cósmico de Cristo''.


Marcelo Barros

Natureza, ''o corpo cósmico de Cristo''. Por uma espiritualidade ecológica. Entrevista especial com Marcelo Barros

Defensor de uma espiritualidade ecológica, o monge beneditino Marcelo Barros nesta entrevista à IHU On-Line, concedida por e-mail, afirma que todas as tradições espirituais, com linguagens diferentes e acentuações próprias, ensinam uma contemplação da presença e da atuação divinas no mundo.

Para abordar a relevância da relação entre espiritualidade e ecologia, Barros estará presente em dois momentos do programa Páscoa IHU 2011, que inicia no próximo dia 30 de março. O primeiro deles é a palestra Diálogo Inter-Religioso e Ecologia, das 17h30min às 19h, na Sala Ignacio Ellacuría e Companheiros - IHU, na Unisinos. E o segundo encontro é o painel das religiões Espiritualidade e Ecologia. Uma Perspectiva Inter-Religiosa, promovido em conjunto com o Programa Gestando o Diálogo Inter-Religioso e o Ecumenismo - Gdirec, das 19h30min às 22h, no Auditório Central da Unisinos.

Segundo ele, é importante saber-nos jardineiros do universo, e não seus donos. Em termos cristãos, é preciso "olhar toda a natureza como uma espécie de 'corpo cósmico do Cristo'", ilustra. "O cuidado com a natureza é sagrado, como é a hóstia consagrada".

Além da presença de Marcelo Barros, a Páscoa IHU 2011 aprofunda a reflexão sobre o cuidado da vida na cultura contemporânea por meio da exibição dos filmes A Era da Estupidez, de Franny Armstrong (2009, 98 min.), no dia 30 de março, das 19h30min às 22h, e de Home – Nosso Planeta, Nossa Casa, de Yann Arthus-Bertrand (2009, 90 min.), no dia 26 de abril, no mesmo horário. Ambos serão exibidos na Sala Ignacio Ellacuría e Companheiros - IHU.

Marcelo Barros é monge beneditino, teólogo e escritor. Membro da Comissão Latino-americana da Associação Ecumênica de Teólogos/as do Terceiro Mundo - ASETT, assessora as comunidades eclesiais de base e movimentos populares. Tem 37 livros publicados, dentre os quaisO Amor Fecunda o Universo (Ed. Agir, 2009), de coautoria de Frei Betto. Estão no preloDom Hélder Câmara, Profeta para os Nossos Dias (Ed. Paulus) e Espiritualidade Socialista para o Século XXI (Ed. Nhanduti).

Confira a entrevista

IHU On-Line – Em sua opinião, o que é e como pode ser vivida uma espiritualidade ecológica e ecumênica?

Marcelo Barros – A espiritualidade é o caminho de intimidade com o Espírito Divino. O evangelho fala em “se deixar conduzir pelo Espírito”. Isso é graça, é dom. Um modo de se viver isso é se exercitar no amor, na aceitação, no diálogo e no aprendizado com os diferentes – pessoas de outras Igrejas, religiões e tradições espirituais. Isso é a espiritualidade ecumênica. E viver a relação amorosa com todo ser vivo, como expressão da presença divina no universo – a espiritualidade ecológica.

IHU On-Line – Que aspectos da espiritualidade cristã, como vivenciada hoje, podem apresentar sinais “não ecológicos”? Como torná-la cada vez mais ecológica, individual e comunitariamente?

Marcelo Barros – A espiritualidade cristã surgiu do contexto cultural judaico, que teve de se libertar de antigas culturas que adoravam os astros e a natureza e legitimavam opressões, escravidão etc. Por isso, insistiu que Deus se revela na história e deu menos importância à presença divina na natureza. Uma coisa que temos de mudar é certa separação que parecia haver entre Criação e Salvação, natureza e história. Quando eu era pequeno, me ensinaram a orar fechando os olhos. Isso tem um valor – ajuda a nos concentrar –, mas, na espiritualidade ecológica, aprendi a orar abrindo os olhos para a beleza do mundo e da vida.

IHU On-Line – No debate ecológico, parece haver dois contrapontos: os que defendem que as mudanças climáticas não existem e que a natureza está ao dispor do desenvolvimento humano (antropocentrismo); e aqueles que a colocam acima das necessidades humanas (ecocentrismo). É possível encontrar um meio termo?

Marcelo Barros – Não me parece que se trata de meio termo e sim de superar essa noção de qual é o centro ou o mais importante, como se fosse concorrente – ou o ser humano ou a natureza, ou o desenvolvimento ou a preservação. Penso que o mais sagrado é a vida, e a comunidade da vida é o mais importante. De um lado, superar a noção do crescimento ou desenvolvimento como meta acima de tudo. Nem sempre crescer é o melhor. O câncer é o crescimento desorganizado das células e mata. Não é bom.

De outro lado, é certo que o ser humano tem uma missão no universo e não podemos advogar uma ecologia preservacionista que diz: "Se o homem desaparecer da terra, a natureza agradece". Essa não é a visão de uma espiritualidade nem bíblica, nem budista, nem afro ou indígena. O importante é a humanidade não querer ser dona de tudo e sim gerente ou jardineira do universo.

IHU On-Line – O que o relato bíblico da Criação pode nos inspirar acerca de uma espiritualidade ecológica?

Marcelo Barros – Na Bíblia, há vários relatos da Criação. Há alguns nos profetas (Isaías, por exemplo), outros nos livros da Sabedoria e há os dois do Gênesis. A idéia de Criação surgiu na Bíblia como argumento para dizer que Deus é libertador. Em épocas nas quais o povo estava oprimido, os profetas diziam: se ele criou com tanto amor, vai nos salvar. Creio que os relatos da Criação sublinham o amor divino que criou tudo, a missão humana de ser como Deus é para nós, e assim nós sermos para os outros, e a vivência da vocação de defender a vida e de sermos livres e felizes.

IHU On-Line – Que outras narrações religiosas nos ajudam a alimentar e fomentar a mística e a contemplação de Deus presente na natureza?

Marcelo Barros – A mística judaica – dos rabinos – fala em Deus como Mãe, e do universo como saído do útero divino (rabino Luriá, século XVI). A mística do Candomblé diz queOdodua ou Olorum criou nos tornando criadores. Os índios Maya dizem que o ser humano foi criado do milho para ser flexível e um ser alimento de vida para o outro crescer. Penso que todas as tradições espirituais, com linguagens diferentes e acentuações próprias, indicam essa contemplação da presença e da atuação divinas no mundo.

IHU On-Line – Você fala de uma "teologia ecológica da eucaristia", em que a presença de Cristo se dá pelos elementos fundamentais da natureza. Que implicações isso tem para a vivência da fé cristã?

Marcelo Barros – Ajuda a olhar toda a natureza como uma espécie de "corpo cósmico doCristo". Assim como ele nos ensinou que quem dá um copo d’água a um pobre, é a ele que dá, e quem socorre uma pessoa necessitada, é a ele que socorre, assim também o cuidado com a natureza é sagrado, como é a hóstia consagrada.

IHU On-Line – "A criação geme em dores de parto": nos últimos dias, trágicos acontecimentos naturais, como as enchentes no Sul do Brasil e o maremoto do Japão, chocaram a opinião pública. Como analisar, teológica e ecologicamente, esses fatos?

Marcelo Barros – Em horas assim de sofrimento e nas quais temos muitos irmãos e irmãs chorando a dor de entes queridos e países como o Japão e o Haiti, precisando ser reconstruídos, não é justo tirarmos lições frias ou como quem diz: "A gente não tinha avisado?".

Nas enchentes e inundações em várias regiões brasileiras, são sempre os pobres que sofrem mais. Diante de tanta dor, vamos simplesmente nos mobilizar e ser solidários e sofrer com o outro. Todo mundo sabe que a natureza sempre teve esses fenômenos, mas nunca com tanta intensidade e tanta frequência como agora. É preciso mudar os padrões de civilização. Vários países estão se perguntando: podemos continuar a mesma política energética? Construir mais centrais nucleares apostando na segurança que uma vez ou outra falha?

Nada de leituras fundamentalistas – castigo divino ou fim do mundo – e nada de catastrofismo. Mas, sim, partir do sofrimento para nos organizar melhor e aprender a conviver melhor com a terra e com os seus ritmos próprios. Não podemos continuar a construir casas em lugares perigosos, a edificar cidades tomando o lugar do mar e assim por diante. O Apocalipse(capítulos 21 e 22) diz que, na Nova Jerusalém, natureza e técnica humana, construção urbana, têm de ser muito mais harmônicas e casadas.

http://www.ihu.unisinos.br/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=41514

12 de março de 2011

Marcelo Barros: Eu me acuso II - sobre a profecia de Comblin

Marcelo Barros

Alguns órgãos de comunicação ligados à pastoral popular divulgaram uma recente conferência feita pelo padre José Comblin no Chile e uma entrevista-resumo que o padre Comblin deu logo depois. Diante deste material, Dom Redovino Rizzardi, bispo católico de Dourados, reagiu com um texto no qual afirma que o padre Comblin está ressentido. Segundo ele, isso se deveria ao seu envelhecimento e sua posição é pessimista e negativa. O seu texto tem um título pesado: José Comblin: crepúsculo de um profeta?

José Comblin é um teólogo famoso no mundo inteiro e um pastor dedicado ao melhor da inserção junto aos pobres. Viveu isso a sua vida inteira e continua vivendo-o hoje. Não precisa de defesa minha nem de ninguém. Provavelmente entre os católicos conscientes de hoje, se encontram muitos que estão a favor de tudo o que o padre Comblin disse e ainda de outras coisas mais. É claro que em um debate aberto e democrático, a reação de Dom Redovino é até bem-vinda, desde que ele se coloque na discussão e não comece desmerecendo quem pensa diferente dele. Lamento que ele não respondeu ao padre Comblin com argumentos. O quadro que o padre Comblin pinta da centralização hierárquica romana é ou não verdade? Neste contexto autoritário, existe ou não o controle do pensamento e da ação? E o que Comblin diz sobre os dois últimos papas é real ou não? Sem entrar propriamente no mérito das questões, Dom Redovino simplesmente cita o texto do profeta Elias no Horeb, (1 Reis 19), tirando-o do contexto histórico e pinçando dele apenas o elemento da brisa silenciosa. No texto bíblico, a brisa é sinal da presença e da nova revelacao divina. Nesta reação ao padre Comblin, se torna elemento ou fator de mudança (eclesial?).

Na primeira metade dos anos 80, em um diário nacional, um importante companheiro do CEBI foi acusado por um bispo brasileiro de fazer leitura redutiva da Bíblia e de outros "erros". Julguei ser minha obrigação vir a público e escrevi um artigo intitulado "Eu me acuso!". Neste texto, eu dizia que tudo aquilo do qual o irmão em questão era criticado, podiam também dizer de mim. Então, não seria justo deixá-lo sozinho na arena dos leões. Agora me sinto obrigado a escrever um "Eu me acuso número 2" para dizer que, embora eu tenha outro temperamento e outro estilo pessoal, a maioria das coisas que o padre Comblin disse, eu penso exatamente assim e assinaria embaixo. Não tenho 87 anos (tenho 66) e penso que quem me conhece sabe que não sou de natureza pessimista nem digo isso por amar menos a Igreja. Ao contrário, a amo como minha mãe. Mas, isso me obriga a ser ainda mais exigente e sincero em querer vê-la "sem rugas nem manchas".

Quando escuto críticas dizendo que o padre Comblin é pessimista ou que realça mais o negativo, me lembro do saudoso padre Alfredinho (Alfredo Kunz) que, nos anos 70, em Crateús, comparava os profetas bíblicos com os urubus que via nos telhados das casas de periferia. Ele dizia: "Normalmente, ninguém gosta de urubu e entretanto das aves é a mais útil no sertão do Nordeste a cuidar da higiene e da limpeza pública".

Já que foi citado o primeiro livro dos Reis, é bom lembrar que no capítulo 22 deste mesmo livro, os reis de Judá e de Israel querem consultar um profeta de Deus e o rei Josafá pergunta ao seu colega de Israel: Será que aqui não tem ao menos um profeta do Senhor? E o rei responde: "Só tem o profeta Miquéias, filho de Jemla, mas eu o detesto, porque ele so profetiza desgraças e só diz coisas negativas". O relato conta que o profeta é obrigado a dizer o que Deus lhe inspira e por isso é esmurrado, preso e mantido a pão e água. A maioria dos profetas bíblicos viveu isso e mereceu a mesma crítica feita ao meu mestre padre Comblin. Jeremias denuncia os profetas falsos como sendo aqueles que dizem "Está tudo bem! Estamos em paz!" quando de fato está tudo mal (Cf. Jr 14, 13- 15 e outros). Através do profeta, Deus pergunta: "Por acaso a minha Palavra não é como um fogo que queima, um martelo que fende até rocha?" (Jr 23, 29).

Eu e todos os que conhecemos o padre Comblin sabemos que ele se mantém sempre jovial e bem-humorado, assim como ativo na sua inserção junto aos mais pobres e na sua dedicação às Igrejas locais que o Concílio Vaticano II afirmou serem Igrejas no sentido pleno do termo. É o modo dele obedecer à proposta da conferência episcopal de Medellin que pedia: darmos à nossa Igreja o rosto de uma Igreja pobre e despojada de poder, missionária e pascal, comprometida com a libertação da humanidade toda e de cada ser humano em sua integralidade" (Med 5, 15). Deus o mantenha entre nós por muito tempo, lúcido como está, com a mesma coragem profética de nos dizer as coisas e sempre fiel ao que o Espírito diz hoje às Igrejas.

Ao publicar esse artigo de Marcelo Barros, o CEBI reafirma seu compromisso com o sonho e a profecia de José Comblin e testemunha sua lucidez e a sua fidelidade ao Evangelho. O CEBI também reafirma que acredita na possibilidade de uma Igeja fraterna, plural, sem discrinações ou abusos de poder.

A não-violência e o amor aos inimigos

José Comblin


(Reflexões com base em Mt 5,38-48 e Lc 6,27-37)

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O presente artigo é desenvolvido de forma mais ampla no livro Ser é poder. Organizada por Luiz Dietrich, a obra inclui as contribuições de Sebastião Gameleira (Somos poder), Edênio Valle (Dimensões psicológicas nas relações de poder) e Selvino Hech (A cidadania e a questão de poder). Pedidos paravendas@cebi.org.br


“Ouvistes que foi dito: Amarás o teu próximo, e odiarás o teu inimigo. Eu, porém, vos digo: Amai a vossos inimigos, bendizei os que vos maldizem, fazei bem aos que vos odeiam...”

A não violência e o amor ao inimigo são, com certeza, as maiores características dos discípulos de Jesus e, também, as mais discutidas. Foram, muitas vezes, entendidas de forma errada ou negadas, com força, não somente por não-cristãos, mas também por cristãos que querem tornar a mensagem de Jesus mais aceitável. Nietzsche considerava essa doutrina uma moral de escravos e a entendia como uma reação de rancor e ressentimento de derrotados que não querem enfrentar a situação. Seria a expressão da covardia. Claro está que ela pode ser invocada por pessoas que realmente são covardes e querem legitimar a covardia. No entanto, quando se tomam os textos no seu sentido original, não se trata de covardia. Cabe a cada um de nós e a cada comunidade examinar como essa doutrina se aplica nos conflitos da vida cotidiana.

O lugar social do amor ao inimigo e da renúncia à violência

No texto de Mateus (Mt 5,38-48), o contexto mostra que o texto convém no quadro das comunidades depois da guerra da Judéia (66-70). A derrota dos judeus foi completa. Estava tudo arrasado, as comunidades de Mateus, ligadas ao judaísmo, podiam sentir-se totalmente esmagadas. O que fazer, o que pensar ou sentir nessa oportunidade? O inimigo está triunfando, e desapareceu toda esperança de resistência. “Nessa situação de opressão, o texto de Mateus expressa a consciência da possibilidade de agüentar a situação com amor ao inimigo e renúncia à violência e, assim, estar em superioridade quanto aos adversários, os gentios. Olhar para eles torna-se compreensível no seguinte raciocínio: Há uma diferença entre olhar [para baixo] para aqueles aos quais, de qualquer modo, se é superior e entre o fato de a pessoa subjugada preservar a sua honra, sabendo-se interiormente superior ao vencedor. A idéia de um Deus que está acima do bem e do mal permite suspeitar que essa postura seja um ressentimento”.Como textos que constituem esse contexto de um povo subjugado, citamos Mt 5,41 que se refere às prestações de serviço obrigatório impostas pelos soldados como serviço ao estado; também Mt 5,39 com os quatro exemplos de reações não-violentas, o que se explica diante do desastre do ano 70; também a comparação entre Mt 5,44 e 5,9.Há duas particularidades no texto de Lucas (Lc 6,27-37).

A primeira é a representação de uma sociedade urbana em que as relações de reciprocidade são comuns e respondem a uma ética tradicional. É preciso tratar os outros sem ódio se queremos ser tratados sem ódio. Essa regra de ouro, a regra da reciprocidade, já era comum entre os filósofos gregos. Não é novidade cristã.A segunda particularidade é a grande insistência de Lucas no dinheiro. O princípio geral é : “Dá a todo o que te pede”. Perdoar é perdoar a dívida, não cobrar a dívida (Lc 6,37-38). Aqui o inimigo é o devedor. Amar o inimigo é perdoar a dívida.

Dessa maneira, tanto Mateus como Lucas aplicam as palavras de Jesus a casos particulares, dando-lhes sentidos bem específicos. Eles não inventaram as palavras de Jesus. Receberam-nas de uma tradição comum. Essa mesma tradição deriva de Jesus. Como saber o que havia na tradição comum e o que o próprio Jesus pensava?

A tradição primitiva dos textos e o pensamento de Jesus

O estudo dos textos insinua que a tradição comum dos ditos vem da Palestina antes da guerra. O grupo que mais freqüentemente se refere aos ditos seriam os missionários itinerantes. Eles são os que vão encontrar ladrões no caminho. As alusões ao sol e aos lírios provêm de pessoas que andam pelo campo. A falta de preocupação com comida e bebida também se refere a missionários itinerantes. O mesmo vale para a alusão às perseguições. Uma vez perseguidos, os missionários vão para outro povoado. Tudo se aplica muito bem às condições de vida dos missionários itinerantes.

Cabe-nos fazer a aplicação a nós mesmos, que, de modo geral, não somos missionários itinerantes (ainda que haja alguns).A condição de missionário itinerante combina bastante bem com a condição do próprio Jesus. O amor ao inimigo deriva de Jesus e também a negação da violência. Os missionários itinerantes aprenderam esses temas de Jesus, da sua conduta e dos seus ditos.

A não-violência não é pura novidade de Jesus. Ele mesmo pôde inspirar-se em fatos da história de Israel. Por exemplo, no ano de 26/27, quando Jesus estava prestes a começar o seu ministério, houve um incidente esclarecedor na Judéia. Pilatos, assumindo o governo na Judéia, quis levar imagens de César para dentro de Jerusalém. Para os judeus, eram ídolos. Foi um alvoroço em Jerusalém. Milhares de judeus foram ao palácio de Pilatos em Cesaréia. Lá, de joelhos, ficaram cinco dias e cinco noites sem mover-se do lugar. Pilatos acabou permitindo que entrassem no palácio. Ele mandou cercar os judeus com três fileiras de soldados. Mesmo assim, os judeus negaram-se a aceitar as imagens. Pilatos descontrolou-se e os ameaçou de morte. Ordenou que os soldados sacassem suas espadas. Os judeus deitaram-se lado a lado no chão, ofereceram seus pescoços e gritavam que preferiam morrer a transgredir as leis dos pais. Profundamente impressionado, Pilatos ordenou que as imagens fossem retiradas de Jerusalém. Jesus devia conhecer esse fato ocorrido poucos meses antes que ele mesmo começasse a sua missão. Ali ele tinha um exemplo de não-violência, e, nesse caso, a não-violência tinha sido vitoriosa.

Jesus generalizou esse comportamento e definiu o amor aos inimigos em geral. O mandamento é geral. Não leva em conta as circunstâncias particulares, nem a eventual eficácia. Depois dele, os cristãos procuraram adaptar o mandamento às novas circunstâncias. Vieram os missionários itinerantes que tiveram um papel importante na transmissão dos ditos e fatos de Jesus. As comunidades de Mateus aplicaram os ditos à situação dos judeus esmagados pela guerra. As comunidades de Lucas relacionaram-nos com os problemas econômicos das cidades gregas, sobretudo com o problema fundamental das dívidas.

Agora o problema é nosso. Quais são os casos em que somos chamados a aplicar os mandamentos da não-violência e do amor aos inimigos? De que maneira se faz a aplicação?

Fonte:
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8 de março de 2011

Crepúsculo de um profeta?

José Comblin


Transcrevemos abaixo matéria do site IHU, segundo a qual Comblin denuncia as manipulações nas eleições dos dois últimos papas da Igreja Católica. Na sequênica, transcrevemos do site da CNBB, a resposta de Dom Redovino, bispo católico de Dourados/MS.

Uma análise mais profunda feita por Comblin acerca da situação atual da Igreja Católica pode ser lida no artigo É preciso sonhar, conferência proferida na Universidade Centro-Americana em San Salvador, em 14/11/2010.

''A Igreja abandonou as classes populares'', afirma José Comblin

José Coblin, um dos criadores da Teologia da Libertação, afirmou que a eleição de João Paulo II e de Bento XVI foi manejada pelo Opus Dei "praticando a chantagem, intimidando os cardeais", e que na América Latina o Papa "é mais divino do que Deus". Comblin, belga que vive no Brasil e acaba de visitar o Chile, país em que esteve exilado em 1972, durante o governo da Unidade Popular, explicou ainda que os teólogos da libertação têm hoje mais de 80 anos e "não apareceu uma nova geração" que desse continuidade a esse pensamento.

A reportagem é do sítio Religión Digital, 05-01-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

"A repressão foi muito forte, terrível, e a ditadura do Papa aqui na América Latina é total e global. Aqui, pode-se criticar Deus, mas não o Papa. O Papa é mais divino do que Deus", asseverou o teólogo.

Segundo Comblin, a Igreja Católica "abandonou as classes populares, salvo os velhos e algumas relíquias do passado".

"Hoje, as universidades e os colégios católicos são para a burguesia. O porvir da América Latina é ser um continente evangélico protestante, salvo sua classe alta. Assim, a Opus Dei e os Legionários de Cristo e todas essas associações que existem de ultradireita vão crescendo nesse setor", opinou, em declarações no Chile à revista El Periodista.

"Onde há um ou dois bispos da Opus Dei no episcopado, intimidam a todos os demais. Os outros ficam calados e só um fala. Esse é um problema de psicologia típico de ditaduras", defendeu.

Segundo Comblin, "foi a Opus el que elegeu João Paulo II e o atual, praticando a chantagem, intimidando os cardeais. O próximo Papa será igual porque a Opus tem um poder muito forte".

O teólogo, de 87 anos, defende que Deus está "em La Victoria e em La Legua (dois bairros populares de Santiago) e na prisão, mas de Roma desapareceu há muito tempo".

"Agora, sempre fica mais claro que o problema é o Papa, ou seja, a função do Papa, uma ditadura implacável com muitas formas de doçura e amabilidade, mas implacável", defendeu.

Comblin defendeu que "o porvir do cristianismo está na China, Coreia, Filipinas, Indonésia. Estima-se que só na China há 130 milhões de cristãos martirizados, porque estão praticamenteperseguidos".

O teólogo criticou a eventual canonização de João Paulo II porque seu papado "foi catastrófico".

"Todos os que fizeram sua carreira com ele puderam ser cardeais, apesar de sua mediocridade pessoal. Não mereciam nada, mas ele os promoveu. Claro que agora querem canonizá-lo! Uma vez que canonizaram Escrivá, todo mundo sabe que se pode ser santo sem ter virtude alguma", destacou.

Sobre a Opus Dei e os Legionários de Cristo, Comblin afirmou que "têm a confiança da Cúria Romana e depois representam a plena liberdade dada a personalidades que são como os grandes Rockefeller, os conquistadores".

"Como Escrivá de Balaguer, que era um capitalista, o homem que vai triunfar, que vai desfrutar o mundo, que vai ganhar, ser rico, poderoso e que é capaz de criar pessoas totalmente subordinadas, soldados com mentalidade de soldado, esses são todos homens deformados psicologicamente, como são os futuros ditadores", detalhou.

Depois de recordar que do mexicano Marcial Maciel, dos Legionários de Cristo, foi descoberta uma vida paralela e uma fortuna de 50 bilhões de dólares, afirmou que "sua chantagem, sua palavra e sua exigência chegaram aos milionários".

"Hoje, os que trabalharam com ele, seus colaboradores, todos dizem e afirmam que não sabiam nada da vida paralela (de Maciel). Como? Trabalham 40 anos com ele e não sabem de nada, que ele tem uma família, três filhos, que praticou a pedofilia com as crianças, alunos de sua formação, de seus colégios, que tinha um mundo de amantes. Não sabiam de tudo isso? Supõe-se, então, que eles são cúmplices e também têm uma vida paralela", concluiu.

Pe José Comblin: Crepúsculo de um projeta?

Dom Redovino Rizzardo, bispo católico de Dourados

Causou-me tristeza a entrevista concedida pelo Pe. José Comblin no Chile, onde esteve no início de 2011. Conheço-o e admiro-o desde os meus primeiros anos de ministério presbiteral, quando o via como um incansável batalhador por uma Igreja mais fiel ao projeto de Jesus e às necessidades do povo.

Mas, ultimamente, percebo-o triste e ressentido, talvez contaminado pelo vírus que afeta a maior parte das pessoas que ultrapassam a casa dos 70 anos (ele chegou aos 87!) -, etapa da vida caracterizada pela saudade dos "bons tempos antigos" e pelas queixas contra a superficialidade e a apatia da sociedade atual.

A entrevista faz eco a inúmeros outros artigos escritos por ele nestes últimos anos. Neles, são comuns e acerbas as críticas contra o modelo de Igreja incentivado pelos Papas João Paulo II e Bento XVI, em aberto contraste com a Teologia da Libertação: «Na América Latina, a repressão foi terrível. A ditadura do Papa é total. Pode-se criticar Deus, mas não o Papa».

Outra sua reclamação é dirigida aos Institutos, Movimentos Eclesiais e Comunidades de Vida nascidos nas últimas décadas. Ele os vê como os grandes culpados pela letargia em que jaz a Igreja, depois dos anos gloriosos das Comunidades Eclesiais de Base: «O futuro da América Latina é ser um continente evangélico. O Opus Dei, os Legionários de Cristo e todas as demais associações de ultradireita crescem a olhos vistos».

Sua dor não nasce apenas do fato de lhe parecer que «a Igreja Católica abandonou as classes populares», mas também de saber que «os teólogos da libertação têm hoje mais de 80 anos, e não apareceu ainda uma nova geração disposta a dar-lhes continuidade».

Para Comblin, a Igreja se teria transformado numa instituição como qualquer outra, sujeita a conchavos e politicagem: «Foi o Opus Dei que elegeu João Paulo II e o Papa atual, praticando a chantagem e intimidando os cardeais». Por isso, não é de se admirar que «Deus esteja presente em "La Victoria" e em "La Legua" (dois bairros populares de Santiago) e nos presídios, mas de Roma ele se afastou há muito tempo».

Nenhuma esperança, portanto? Para o teólogo belga, «o futuro do cristianismo está na China, na Coreia, nas Filipinas e na Indonésia. Supõe-se que, na China, vivam 130 milhões de cristãos em contínuo estado de perseguição». Sem dúvida, uma novidade, já que na década 1970/1980, no auge da Teologia da Libertação e das Comunidades Eclesiais de Base, tinha-se por certo que o futuro da Igreja Católica seria a América Latina...

O Pe. Comblin encerra a entrevista criticando a eventual canonização de João Paulo II, cujo papado, para ele, foi simplesmente «catastrófico. Todos os eclesiásticos que fizeram carreira com ele chegaram ao cardinalato, apesar de sua mediocridade pessoal. Nada mereciam, mas ele os promoveu. Evidentemente, agora querem canonizá-lo! Mas, uma vez que canonizaram José Maria Escrivá, todo mundo sabe que se pode ser santo sem ter virtude alguma».

Nascido em Bruxelas no dia 22 de março de 1923 e formado pela Universidade de Lovaina, o Pe. José Comblin veio ao Brasil em 1958, como resposta ao apelo do Papa Pio XII, preocupado com a falta de sacerdotes na América Latina. Autor de inúmeros e renomados livros de teologia e de formação popular, tomou várias iniciativas no intuito de aproximar a Igreja das classes trabalhadoras e campesinas. A Teologia da Enxada, os Missionários do Campo e as Missionárias do Meio Popular são algumas delas.

Apesar do ressentimento que lhe ofusca a "melhor idade", o Pe. Comblin batalhou por uma Igreja em constante estado de conversão, como deixou claro num artigo de 3 de agosto de 2007, poucos meses após a Assembleia da Conferência do Episcopado Latino Americano, em Aparecida: «A história mostra que todas as mudanças profundas na Igreja foram realizadas por pessoas novas, formando grupos novos e criando um novo estilo de vida, sempre a partir de uma opção de vida na pobreza». Seu pecado, talvez, tenha sido esquecer que esta renovação não nasce da força prepotente e demolidora do furacão, mas da brisa suave da comunhão e da humildade (Cf. 1Rs, 19,11) de quem acredita que também os "outros", começando pelos Papas, amam a Igreja e trabalham por ela... pelo menos tanto como ele!