O absurdo e a Graça

Na vida hoje caminhamos entre uma fome que condena ao sofrimento uma enorme parcela da humanidade e uma tecnologia moderníssima que garante um padrão de conforto e bem estar nunca antes imaginado. Um bilhão de seres humanos estão abaixo da linha da pobreza, na mais absoluta miséria, passam FOME ! Com a tecnologia que foi inventada seria possível produzir alimentos e acabar com TODA a fome no mundo, não fossem os interesses de alguns grupos detentores da tecnologia e do poder. "Para mim, o absurdo e a graça não estão mais separados. Dizer que "tudo é absurdo" ou dizer que "tudo é graça " é igualmente mentir ou trapacear... "Hoje a graça e o absurdo caminham, em mim lado a lado, não mais estranhos, mas estranhamente amigos" A cada dia, nas situações que se nos apresentam podemos decidir entre perpetuar o absurdo, ou promover a Graça. (Jean Yves Leloup) * O Blog tem o mesmo nome do livro autobiográfico de Jean Yves Leloup, e é uma forma de homenagear a quem muito tem me ensinado em seus livros retiros, seminários e workshops *

8 de junho de 2011

Batalhas para demolir a doutrina baseada no pecado

Batalhas para demolir a doutrina baseada no pecado
Quando nasceu o pecado original? Com Adão e Eva, com a serpente e a maçã: essa seria a resposta quase unânime de uma pesquisa improvável, confortada por séculos de encantamento iconográfico nas telas de MasaccioTintorettoMichelangelo,Rubens e milhares de outros.
A análise é de Claudio Canal, publicada no jornal Il Manifesto, 29-07-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
Sobre como Adão chegou até nós, as respostas não estariam tão de acordo: por transmissão biológica, por descendência, pela metafísica do ser e da natureza. Até a explícita admissão doCatecismo da Igreja Católica, no parágrafo 404: "a transmissão do pecado original é um mistério que nós não podemos compreender plenamente".
A data exata do seu nascimento é 397 d.C., quando Agostinho de Hipona escreveu um livro intitulado De diversis quaestionibus ad Simplicianum, em que começa a definir aquela que será, nos séculos vindouros, a teoria bem-sucedida do pecado original, que, como se sabe, se entrelaçará profundamente com o pensamento ocidental. Os temas da queda, da culpa, do mal, da salvação e da redenção, da liberdade individual, do mal de viver, todos têm um apoio sobre a serpente, a maçã e, sobretudo, sobre a pérfida Eva, equilibrada pela perfeita Maria, imaculada, ou seja, sem pecado original.
"Teoria da verdadeira civilização. Não está no gás, nem no vapor, nem nas mesas giratórias. Está na diminuição dos vestígios do pecado original", escrevia Charles Baudelaire, um teólogo não de segunda linha. No seu tempo, no entanto,Kant já havia visto as suas óbvias contradições, e Paul Ricoeur, em 1969, em um ensaio que fez história, escreveu: "Jamais se dirá o suficiente quanto mal fez ao cristianismo a interpretação literal – se deveria dizer `historicista` – do mito de Adão. Ela o fez cair na profissão de uma história absurda e em especulações pseudorracionais sobre a transmissão biológica de uma culpabilidade quase jurídica pelo erro de um outro homem, expulso para longe na noite dos tempos, não se sabe bem para onde, entre o Pithecanthropus e o homem de Neandertal. Ao mesmo tempo, o tesouro escondido do símbolo adâmico foi desperdiçado".
Pecado original ou bênção original? Essa pergunta é respondida, sem papas na língua, por Matthew Fox, um nome que não deve ser confundido com o intérprete principal da série de televisão de grande sucesso Lost. O nosso Matthew Foxé um ex-dominicano norte-americano, agora episcopaliano, ou melhor, "padre pós-denominações", como ele gosta de se definir, que, em 1983, escreveu um volumoso best-seller de 400 páginas intitulado Bênção Original, agora traduzido para o italiano como In principio era la gioia, em sua terceira edição (introdução de Vito Mancuso, tradução Gianluigi Gugliermetto, Ed. Fazi, 2011, 428 páginas).
O dominicano teve que enfrentar, em 1988, a Congregação para a Doutrina da Fé, presidida pelo prefeito cardeal Joseph Ratzinger, sobretudo pelas atividades e teorias elaboradas pelo Instituto de Espiritualidade da Criação, fundado por Fox. Em 1993, ele foi expulso da ordem.
No livro, Fox inverte o paradigma: "A religião no Ocidente deve abandonar o modelo exclusivista de queda e redenção […], modelo dualista e patriarcal, cuja teologia inicia com o pecado e com o pecado original, e termina normalmente com a redenção […] e não ensina nada sobre a Nova Criação ou sobre a criatividade, sobre a construção da justiça e da transformação social, ou sobre o eros, o prazer e o Deus da alegria. Ela não consegue ensinar o amor pela Terra ou o cuidado pelo Universo, e é assim assustada pela paixão que não consegue ouvir o grito dolorido dos anawim, dos pequenos da história humana".
Esse é, substancialmente, o interessante programa do livro, habilmente sintetizado, além disso, em um apêndice de quatro páginas, em que os dois paradigmas são contrapostos em uma tabela de duas colunas.
Fox consegue bem, embora de modo rapsódico, destacar a importância que a doutrina do pecado original teve na constituição da consciência ocidental: um ser humano marcado pelo pecado e pela vergonha e, por isso, incapaz de decidir o que é melhor para ele e para os outros, sempre à espera de uma autoridade que lho diga e que pratique o bem em seu lugar e, talvez, contra ele. Uma autoridade sacerdotal ou política, tanto faz.
Mas a estratégia da Fox não é exclusivamente centrada em demonstrar que o conceito de pecado original é um falso saber, como diria Ricoeur, mas é sobretudo voltada a elaborar uma summa de espiritualidade alternativa para a construção de um mundo pacificado, onde o pecado, original ou não, seja apenas um resíduo.
Os caminhos a serem percorridos por Fox são: Via positiva (alegria, hospitalidade cósmica, maravilha), Via negativa(deixar-se levar, silêncio, escuridão), Via criativa (criatividade, Deus como mãe), Via transformadora (justiça, compaixão, interdependência). Cada uma totalmente ilustrada e aprofundada em uma trama de iluminações estrepitosas e de banalidade desarmantes, a ponto de desorientarem assim que nos distanciamos um pouco do tom sempre cativante do texto.
A primeira impressão é que a Fox, apesar de todas as sacrossantas batalhas contra a Igreja faraônica, permaneceu enredado, no entanto, nas suas milenares práticas retóricas. O modo narrativo de In principio era la gioia é muito semelhante à tradicional, e antiquada, apologética católica, que, reunindo e liquefazendo citações da Bíblia, dos Padres da Igreja, dos santos e dos papas, pontificava sobre qualquer assunto.
A forma de fazer com o que leitor salte da citação de um psicanalista a uma do profeta Isaías, de uma feminista dos nossos dias a Francisco de Assis, passando por GandhiPablo Casals e Tomás de Aquino, dá bem uma ideia de bricolagem que subjaz à escrita de Fox e que constitui ao seu código argumentativo.
Para fugir da rígida geometria da teologia "masculina", Fox parece cair um pouco demais na evocação indiferenciada e barroca das belas palavras deste ou daquela, como um pregador qualquer do século XVII. O que reforça essa perplexidade de leitura é o uso desenvolto que Fox faz de duas figuras eminentes da mística e do pensamento ocidental, Hildegard von Bingen eMeister Eckhart. O seu objetivo é mostrar uma outra genealogia de uma renovada espiritualidade contemporânea, revelando um pensamento cristão escondido, muitas vezes censurado, senão até abertamente condenado pelos letais tribunais eclesiásticos.
Na busca de fontes não esgotadas, Fox não é tão sutil. Ele toma dos dois aquilo que lhe serve, destoricizando tanto Hildegard quanto Eckhart. À primeira, ele também dedicou um livro, Illuminations of Hildegard, que diz muito sobre Matthew Fox, mas pouco de Hildegard abadessa deRupertsberg, escritora, filósofa, naturalista, linguista, curandeira, poeta e compositora.
Ele faz de Eckhart um perfeito distribuidor automático de belas frases e de belos pensamentos, descontextualizado e avulso, seja das influências recebidas – são importantíssimas as islâmicas –, seja dos inquietantes influxos exercidos sobre o pensamento alemão posterior.
Um livro não de uma única cor; exuberante e vigoroso, para ser lido e discutido, não para ser adorado.



28 de maio de 2011

Loucura Sagrada


"Sonhei que o Papa enlouquecia
E ele mesmo ateava fogo ao Vaticano
E à Basílica de São Pedro.

Loucura sagrada!

Porque Deus atiçava o fogo que os
Bombeiros, em vão, tentavam extinguir.
O Papa, louco, saia pelas ruas de Roma
Dizendo adeus aos embaixadores
Credenciados junto a ele
Jogando a Tiara ao tibre.
Espalhando pelos pobres, todos,
O dinheiro do banco do Vaticano.


Que vergonha para os cristãos!
Para que um Papa viva o Evangelho
Temos que imaginá-lo em plena loucura
.

6 de maio de 2011

No Caminho de Emaús Abrir os olhos. Ele está no meio de nós! Lucas 25, 13-35


Texto extraído do livro “O avesso é lado certo – Círculos Bíblicos sobre o Evangelho de Lucas” – dos autores Carlos Mesters e Mercedes Lopes.

1.      De que estavam falando pelo caminho?
Duas pessoas andando pela estrada. Desanimadas. Tristes! Estavam indo na direção contrária. Fugindo. Buscando. Imagem de ontem e de hoje. Imagem de todos nós. No ano de 85, muitos discípulos e discípulas andavam pelo caminho, tristes, desanimados, sem saber se estavam no caminho certo. No ano de 1998, parece que a cruz ficou maior e mais pesada. O desemprego, a violência, a droga, a falta de atenção séria à saúde e à educação, a falta de dinheiro, as dívidas... o desespero. Sentimo-nos impotentes frente à corrupção que desvia fundos dos cofres públicos, ou frente à má administração que deixa o povo no desamparo. O sistema neoliberal vai gerando cada dia mais exclusões de indivíduos, grupos e países. Parece que vivemos em um caos, em uma situação sem saída. Temos a impressão de estarmos caminhando ladeira abaixo, para o pior.

2. Tinham os olhos vendados
A experiência da morte de Jesus tinha sido tão dolorosa que eles perderam o sentido de viver em comunidade, abandonaram o grupo de discípulos e discípulas. Sentiram-se impotentes diante do poder que matou Jesus e procuraram salvar pelo menos a própria pele. Sua frustração era tão grande, que nem reconheceram Jesus, quando este se aproximou e passou a caminhar com eles (24,15). Tinham um esquema rígido de interpretação sobre o Messias, e não puderam ver a salvação de Deus entrando em suas vidas. Algumas discípulas tentaram ajudar os companheiros a perceber que Jesus estava vivo (24,22-23). Mas eles se recusaram a acreditar (24,24). Esta notícia era por demais surpreendente. Era o mesmo que dizer que Jesus era o vencedor do caos e da morte. Só podia ser fantasia, sonho, delírio de mulheres (24,11). Impossível acreditar! Quando a dor e a indignação pegam forte, há pessoas que ficam depressivas, desesperadas. Outras se tornam coléricas e amargas. Algumas invocam o fim do mundo com catástrofes que vão tirar os maus da face da terra. Outras buscam evadir-se numa oração sem compromisso social e político. Mas nenhuma dessas posturas ajuda a abrir os olhos e analisar a situação com fé lúcida e responsável, capaz de inventar saídas para esta situação aparentemente sem saída.

3. A Bíblia esquentou o coração, mas não abriu os olhos
Caminhando com eles, sem eles se darem conta, Jesus fazia perguntas. Escutava as respostas com interesse. Dessa maneira, obrigava-os a irem fundo no motivo da sua tristeza e fuga. Procurava fazê-los expressar a frustração que sentiam. Depois, ia iluminando a situação com palavras da Escritura. Procurava situas os discípulos na história do povo, para que pudessem entender o momento que estavam vivendo. Foi uma experiência apaixonante. Mais tarde, eles iriam fazer uma reflexão e perceber que o coração deles ardia, quando Jesus lhes explicava as Escrituras pelo caminho (24,32). Mas a explicação que Jesus dava a partir das Escrituras não conseguiu abrir os olhos dos discípulos.

4. Eles o reconheceram na partilha do pão
Caminhando com Jesus, os discípulos sentiram o coração arder. Cresceu dentro deles uma atitude de acolhida: “Fica conosco! Cai a tarde e o dia já declina!” (24,29). Foi só então que a partilha aconteceu. Partilha de vida, de oração e de pão. Partilha que abriu os olhos e provocou a mais importante descoberta da fé: ele está vivo, no meio de nós! (24,30-31). Esta descoberta lhes deu forças para voltar a Jerusalém, mesmo de noite. Tinham pressa de partilhar com os outros a descoberta que os fez renascer e ter coragem para enfrentar o poder da morte. Sim, Jesus era de fato o vencedor do caos e da morte! Não era fantasia das mulheres. Era uma realidade escondida, misteriosa, que só pode ser descoberta por quem aprende a partilhar, a se entregar, a sair do círculo vicioso dos interesses egoístas, para lutar junto com os outros pela vida de todos. Quando seus olhos se abriram, livres das trevas e travas por poder dominante, puderam descobrir a morte de Jesus como expressão máxima de um amor sem limites. Amor que tem sua origem no Pai cheio de ternura, gerador incansável da vida. Amor que tomou carne em Jesus de Nazaré para visitar e redimir a humanidade. Amor que se mantém fiel até ao extremo de dar a própria vida, para que todos tenham vida (Jo 10,10). Amor que foi confirmado pelo Pai, quando ressuscitou Jesus da morte.

5. Renascer para uma nova esperança
Esta experiência fez os discípulos renascerem para uma nova esperança. Ao redor de Jesus vivo, eles se uniram de novo e assumiram o projeto de vida para todos. A esperança é como um motor que leva a acreditar nos outros e a inventar práticas de fé. Com a esperança renovada, aquilo que parecia uma total impossibilidade passou a ter um novo significado para eles. Perderam o medo, superaram a experiência de incapacidade e de impotência. Deixaram de lado o negativismo derrotista e voltaram, em plena noite, como se fosse de dia. Voltaram para recomeçar, para reconstruir a comunidade, expressão, sinal e sacramento da presença de Jesus Ressuscitado.

6. Refazer hoje a experiência do caminho de Emaús
Desafiados pela atual conjuntura, somos chamados a viver hoje a experiência de Emaús e descobrir, na partilha solidária, a presença de Deus no meio de nós. Como comunidade de fé, somos chamados a reconstruir, no diálogo, na abertura e na acolhida, o projeto de Jesus, pelo qual ele entregou sua própria vida. A solidariedade leva à descoberta da força libertadora de Deus na história. Com olhar lúcido e criativo procuraremos expressar esta fé numa solidariedade bem concreta e articulada, seja a nível de grupo, de bairro ou de cidade. Dizer articulada quer dizer que esta ação solidária deve ser comunitária. Só assim será de fato sinal do Reino e poderá intervir em favor da vida, da vida indefesa dos pobres, os preferidos de Jesus.




Equipe CEBI
CEBI - Centro de Estudos Bíblicos

1 de maio de 2011

É hora de apressar a canonização do Papa João XXIII



É difícil imaginar Santo Agostinho sem São PauloJoão Paulo II sem João XXIII.

A opinião é do colunista E.J. Dionne Jr., do jornal The Washington Post, 27-04-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
Eis o texto.
A decisão do Vaticano de acelerar o Papa João Paulo II no caminho à santidade despertou grande júbilo entre muitos católicos – e uma reação violenta entre outros na Igreja que veem a pressa como indecorosa.
Há uma solução óbvia que poderia unir os católicos em oposição e enviar exatamente a mensagem certa sobre a atitude da Igreja para o mundo moderno: é hora de declarar oPapa João XXIII um santo.
Aqui está uma oração para que o Papa Bento XVI use as cerimônias de beatificação neste domingo de João Paulo II em Roma para anunciar que o Vaticano está ansioso para completar o processo de santificação do bom Papa João, o grande modernizador da Igreja que abraçou a democracia e a liberdade religiosa.
E há uma ligação natural entre os dois pontificados. Quando os historiadores olham para trás, as maiores realizações de João Paulo II serão vistas, inevitavelmente, como liberais, no sentido mais amplo: seu compromisso com os direitos humanos e a liberdade religiosa, seus apelos por uma maior justiça social, seu abraço aos direitos dos trabalhadores ("a prioridade do trabalho sobre o capital") e sua estrênua oposição ao preconceito religioso. Lembremo-nos que João Paulo II foi o primeiro Papa – sem contar São Pedro – que visitar uma sinagoga, onde ele fez uma condenação retumbante ao antissemitismo.
Nenhuma dessas conquistas teria sido possível se o Papa João XXIII não tivesse terminado a guerra do catolicismo contra a modernidade, convocando o Concílio Vaticano II na década de 1960. João XXIII convidou os católicos a discernir os "sinais dos tempos" e censurou as "almas desconfiadas" que viam na era moderna "somente escuridão oprimindo a face da terra".
"Quero abrir as janelas da Igreja para que possamos olhar para fora, e para que as pessoas possam olhar para dentro" é uma citação amplamente atribuída a João XXIII. Ainda é uma bela encantadora. O padre Joseph Komonchak, um dos principais historiadores do Concílio Vaticano II, gosta de apontar para a visão de João XXIII de que "a Igreja não é um museu de antiguidades, mas sim um vívido jardim cheio de vida".
João XXIII já foi beatificado, o prelúdio para a santidade na tradição católica. Mas sua beatificação no ano 2000 ficou desfigurada quando João Paulo ligou-a à beatificação doPapa Pio IX, um dos Papas mais reacionários da era moderna. Pio conhecidamente referiu-se ao catolicismo liberal como "pernicioso", "pérfido", "perverso" e como "um vírus". A abordagem de João era a antítese de Pio IX, e algo muito bom.
Quando João XXIII morreu em 1963, cardeais progressistas tentaram agilizar sua beatificação mediante a confirmação da nova direção da Igreja. Seus esforços foram rejeitados. Mas Bento XVI abraçou os esforços comparáveis em prol de João Paulo II imediatamente após sua morte, chegando à cerimônia de beatificação deste domingo.
O fato de a tradição ter sido forçada a bloquear a rápida canonização de João, mas ignorada para poder ir a toda velocidade para João Paulo II, sugere que, sim, uma certa quantidade de políticas estão envolvidas nessas questões supostamente sobrenaturais.
E a celebração de João Paulo II foi manchada pela legítima controvérsia sobre o seu apoio incondicional a Marcial Maciel Degollado, o padre mexicano que fundou o conservador movimento dos Legionários de Cristo e que acabou sendo condenado por Bento por, dentre outras coisas, ter abusado dos membros da sua ordem e ter tido filhos fora do casamento com pelo menos duas mulheres. João Paulo II protegeu Maciel. Coube a Bento XVI discipliná-lo.
Sobre os escândalos de abuso de um modo geral, Ross Douthat, o colunista incondicionalmente católico do New York Times, estava certo ao observar que "o ambicioso João Paulo II deixou os escândalos espalhados sob os seus pés", enquanto coube a Bento, o "sem carisma", a tarefa de "limpá-los". E o vigor de João Paulo II em condenar teólogos dissidentes indicou a personalidade paradoxal do seu papado: mais liberal em muitas questões que envolviam o mundo exterior, mais conservador em questões internas.
A Igreja deveria ter aplicado o mesmo padrão de João Paulo II como o fez para João XXIII e ter tomado mais tempo para a beatificação. No entanto, mesmo os católicos mais progressistas sentiram o impacto de João Paulo II como um homem dinâmico, intrépido e genuinamente santo. Tendo-o cobrido por dois anos como repórter, posso testemunhar o seu magnetismo. Assim como o padre James Martin, escritor jesuíta liberal, notou esta semana, João Paulo II "era orante, destemido e zeloso. E, a meu ver, qualquer pessoa que visita a cela da prisão do seu suposto assassino e perdoa esse homem é um santo".
No entanto, os atos mais admirados de João Paulo II estão construídos sobre o legado de João XXIII. É difícil imaginar Santo Agostinho sem São PauloWashingtonsem JeffersonJoão Paulo II sem João XXIII. Uma Igreja que precisa abrir as janelas novamente faria bem em honrar o Papa que libertou-a para ser refrescada pela brisa fortificante da modernidade.

5 de abril de 2011

Os pobres e a libertação. Artigo inédito de José Comblin

José Comblin
"Os pobres são a verdadeira Igreja, o verdadeiro povo de Deus ainda que a sua presença no sistema religioso possa ser muito fraca. Encontram-se nos grandes santuários de romarias populares. Não se encontram nas igrejas paroquiais e muitas vezes nem sequer nas capelas. Mas Jesus sabe reconhecê-los e os integra no seu corpo como o verdadeiro povo de Deus. Jesus luta pela sua libertação no meio deles". A afirmação é do Pe. José Comblin em artigo inédito para o livro Fome de Justiça, perspecivas de superação da pobreza que será lançado na Suiça no dia 20 de maio próximo. O artigo nos foi enviado por Marianne Spiller, suiça, há muitos anos radicada no Brasil e coordenadora da Associação Brasileira de Amparo à Infância –Abai, com sede em Mandirituba-PR.
Marianne conheceu José Comblin, quando foi se solidarizar com D. Luiz Cappio, bispo de Barra - BA, em greve de fome contra a transposição do Rio São Francisco.
Eis o artigo.
A história da humanidade é a história de um conflito permanente, uma verdadeira guerra entre alguns que conseguem acumular mais poder dominando os demais e as vítimas dominadas. Os vencedores obrigam os vencidos a trabalhar a serviço deles quando precisam deles ou os abandonam sem recursos quando não precisam mais deles. Os vencedores apropriam-se todos os recursos que estão na terra ou nos mares. Os outros vivem daquilo que os poderosos querem deixar-lhes Esta foi a visão marxista da história. Mas não era original porque já é a visão da Bíblia.A Bíblia fala dos pobres e dos ricos. Os pobres são os vencidos da guerra e os ricos são os vencedores. A história da América é uma figura exemplar dessa condição da humanidade.
Vida e morte
A síntese da história encontra-se no capítulo 8 do evangelho segundo João. Jesus denuncia que os seus interlocutores que são as elites de Israel querem matá-lo porque são filhos do diabo que quer matar. Fazem a vontade do seu pai. De fato eles o mataram. Na cruz Jesus está aí como representante de toda essa parte da humanidade que é oprimida porque vencida. Jesus quer a vida. Ele vai ressuscitar e, depois de ressuscitado, leva os vencidos para a vida
Pois Jesus também foi vencido e a sua derrota envolve todas as derrotas dos vencidos. Mas a sua ressurreição envolve a ressurreição de todos os que foram mortos como ele. Viveram na terra, mas foi uma vida aparente, porque foi uma sobrevida, uma tentativa permanente para não morrer. Milhões foram mortos cruelmente pelas armas ou pela arrogância dos vencedores. Eis a história da América que ainda continua.
A mensagem de vida
A mensagem de Jesus é o anuncio da vitoria dos vencidos, a vitória da vida que vence a morte. Nos evangelhos Jesus usa a expressão de “reino de Deus”. O reino de Deus é, de acordo com o linguajar dos profetas, um reino de justiça e de paz. É o contrário dos reinos que houve e que há e haverá na história humana. No tempo de Jesus o reino era o Império romano, um Império tremendamente cruel que concentrava todas as riquezas do Império na fortuna de alguns milhares de bilionários. Estes residiam em Roma e na região, e oprimiam 50 milhões de vencidos por um sistema de impostos que os deixava sem força.
Jesus anuncia a ruína desse Império e de todos os Impérios. Cada um tem o seu tempo, mas eles acabam derrotados. Virá o reino de Deus. Este não virá pela conquista com as armas, ou o dinheiro. Virá pelos pobres porque a força de Deus estará com eles. Jesus não explica como será. Mas a história dos seus discípulos vai mostrar pouco a pouco como entra esse reino de Deus neste mundo. Em lugar do poder reinará a comunidade. Todos agirão juntos e introduzirão o reino de Deus neste mundo. Que essa história será trágica, lenta, que exigirá tantos sacrifícios, vinte séculos o ensinam. Mas este reino de Deus já tem as suas manifestações nesta terra. Sucede cada vez que os pobres conseguem direitos pela força da sua união que desafia os dominadores.
O evangelho entrou no Império romano. Ali as traduções grega e latina da palavra aramaica que significa reino, são palavras tão odiadas que os apóstolos nem sequer se atrevem a usá-la o a aplicá-la a Deus. É impossível que Deus reine porque reinar é dominar, destruir, escravizar. Paulo como João falam da vida que veio vencer a morte. Jesus veio trazer a vida. Deus é vida. Jesus trouxe a vida. O Espírito nos dá a vida prometida por Jesus.
A vida virá pelos que não têm poder, nada podem impor, não têm armas, não têm força política. Vão conseguir vencer o poder das armas, do dinheiro, da política. Quem tem poder, somente pensa em defender ou aumentar esse poder. Quem tem dinheiro, somente pensa em conservar ou aumentar o seu dinheiro. Quem tem armas, somente pensa em fazer mais armas. Não se preocupam pelo que acontece com os vencidos. No entanto, temem os pobres, enxergam-nos como entes perigosos. Inventam forças de controle para impedir que os pobres deixem de se submeter. Apesar disso Jesus promete a vida aos pobres.
A liberdade prometida aos pobres
Os pobres de quem Jesus falava eram os camponeses sem terra que deviam trabalhar a serviço de grandes proprietários nas terras deles . Eram pescadores que muitas vezes deviam trabalhar em barcos de outros que eram os donos desses barcos. Deviam pagar-lhes uma taxa insuportável. Todos deviam pagar os impostos de Roma e os impostos do templo. A sua vida era uma vida dedicada a outros que dominavam os meios de produção. Não havia alternativa.
Para eles o reino de Deus era libertar-se daqueles que lhes roubavam o trabalho e a vida. Era poder fazer a sua vida, eles próprios. Era poder trabalhar para si mesmos e para os seus filhos. Alguns entenderam que Jesus lhes daria essa libertação por um grande ato de violência destruindo toda a classe dos dominadores. Esperaram que Jesus fizesse o que muitos em Israel achavam que seria a obra do Messias. Não aconteceu assim. Houve discípulos desanimados com a morte de Jesus porque não tinha sido o Messias esperado por eles.
O caminho de Jesus
O próprio Jesus entendia que a sua missão terrestre era o início e o sinal do libertação dos pobres e de todos os oprimidos, de todas as vítimas do reino da violência. Erra preciso entender isso, entender o sentido dessa vida de Jesus. Entender isso demorou. Muitos se deixaram iludir porque achavam que a libertação se faria na segunda vinda de Jesus, essa vinda que ele mesmo tinha prometido. Muitos esperavam que essa segunda vinda ocorresse em breve. O próprio S. Paulo pensava que muitos dos seus contemporâneos e talvez ele próprio não conheceriam a morte, porque Jesus viria antes. Mas ele não veio como se esperava. Então foi preciso procurar entender de outra maneira o que ele realmente tinha dito, o que realmente tinha ensinado e que não tinham percebido.
Jesus tinha prometido que voltaria depois da sua ressurreição e depois da sua ascensão. Voltaria para viver com os seus discípulos, para acompanhá-los. Mas era preciso descobrir de que maneira ele estava presente, e o que pretendia fazer. Até hoje muitos cristãos ainda não sabem isso. Ainda não entenderam. Acham que devemos entender a história no sentido de que Jesus prometeu essa libertação dos pobres para depois do fim deste mundo e do juízo final. Os pobres teriam primeiro que salvar a sua alma para poder entrar no reino de justiça e de paz. Mas com essas condições os pobres não teriam nenhum privilégio porque salvar a alma era uma operação factível por todos graças aos meios que a religião colocava a sua disposição. A libertação não se realizaria neste mundo, mas no outro. Muitos pensaram assim e ainda hoje muitos pensam assim e se dizem cristãos .
A maneira de Jesus
Jesus chama e reúne discípulos e os prepara para refazer no mundo inteiro aquilo que ele mesmo faz. Desperta para a espera do reino de Deus e pede uma conversão, uma mudança. Qual é essa conversão ? Mudar de vida, dedicar-se a anunciar o reino de Deus a todos. Fundar uma vida social de irmãos na qual ninguém domina nem explora outros. Nessa vida ninguém quer ser o primeiro, mas todos querem ser servidores dos outros. Os discípulos vão começar essa vida entre eles e convidar os outros a fazer a mesma coisa. É algo muito simples e muito difícil de ser aceito. Como acreditar que esse método possa ser eficaz ? No entanto, a história mostra que tem eficácia, sempre parcial, precária, provisória, que é preciso sempre recomeçar, mas que alguma coisa acontece. Jesus não prometeu a realização completa da libertação, mas ensina a buscá-la neste terra, neste vida, acreditando nela. Isso é ter fé. Ter fé é acreditar que fomos chamados para construir o reino de Deus no mundo tal como é, sem violência, sem dominação e que o método de Jesus vale.
Somente os pobres podem acreditar, porque é impossível um rico acreditar nisso. Os ricos acreditam no poder e acham que o caminho é querer sempre mais poder. Dessa maneira aumentam sem cessar a dominação e a opressão . Para eles esse evangelho de Jesus é pura loucura como já dizia Paulo. Mas para os que confiam em Jesus , é a verdadeira sabedoria.
Como se percorre o caminho de Jesus
Jesus não liberta sem a colaboração dos próprios pobres. A libertação não é um dom que desce do céu e se recebe já acabado. A experiência ensinou-nos que de fato nenhum dom desce acabado do céu. Jesus realiza a libertação pela vida e pela atividade dos próprios pobres. Jesus está neles animando-os para construir esse reino de liberdade.
Os pobres animados por Jesus não usam, nem procuram as armas dos dominadores, nem as armas, nem o poder político, nem o dinheiro Não usam os meios pelos quais os donos da terra dominam os pobres e fazem deles os seus escravos. Se buscassem esses mesmos meios, cairiam nos mesmos defeitos. Construiriam outra forma de sociedade de dominação mas não trariam a liberdade porque esses meios não criam a liberdade
A formação da comunidade
Os pobres formam comunidades de vida. São diversas as formas que essas podem assumir. Pois dependem das condições históricas. No inicio são comunidades minúsculas como aqueles que aparecem no Novo Testamento. Mas elas podem crescer e vão crescendo na história. Não são essencialmente comunidades de culto ou de religião, embora culto e religião possam ser formas de educação ou de preparação para a vida comunitária. Nem sempre culto e religião fazem isso, nem de longe. Muitas vezes culto e religião têm o seu fim em si mesmos, pois respondem a necessidades psicológicas e sociais das pessoas. As comunidades que Jesus cria, são comunidades de vida total, de trabalho, de educação, de habitação, de relacionamento sempre na vida concreta de todos os dias e nunca fora num mundo puramente simbólico.
Podem ser comunidades rurais em que todos tem o seu pedaço de chão e trabalham em conjunto, produzem em conjunto, comercializam em conjunto e crescem em conjunto. Podem ser indústrias dirigidas pelos próprios trabalhadores em forma de cooperativa ou outra. Aliás, pode haver cooperativas em muitas atividades humanas.
Porque essa formação de comunidade é tão lenta? Com certeza porque o sistema estabelecido se defende e usa todos os meios para destruir tudo o que é comunitário. Mas também precisamos reconhecer que muitas vezes os próprios pobres não têm a fé suficiente, não têm a coragem, a audácia, a confiança nos outros que são necessárias para buscar formas de vida comunitária. Nada se faz sem uma fé radical.

As comunidades na história
Historicamente houve e há semelhantes comunidades, de dimensão mais ou menos importante. Há regimes de comunidade parcial: por exemplo quando todo um povo assume a solidariedade nos casos de doença, desemprego, velhice. Há comunidade quando o povo inteiro assume a educação de todos e a mesma educação para todos. É o que recebeu na época contemporânea o nome de Estado de bem-estar social, ou de democracia social. São expressões comunitárias importantes. Ainda são muito incompletas porque a maior parte dos meios de produção pertencem a minorias privilegiadas, e é o que permite uma grande desigualdade. Na América latina, no Brasil de modo particular, a desigualdade social é imensa e as classes sociais praticamente não comunicam, vivem em mundo fisicamente separados. Não se encontram na vida a não ser de modo puramente formal e funcional nas fábricas ou nas unidades de produção, de maneira totalmente desigual. Com essa situação os encontros são manifestações da desigualdade.
Porque os pobres suportam ainda tanta dominação ? Porque se sentem tão fracos frente aos seus dominadores que perdem coragem. Por medo, por falta de audácia, por falta de confiança em si próprios. Falta uma evangelização forte capaz de suscitar a verdadeira fé. Há toda uma cultura dominante que lhes ensina que são incapazes, impotentes, condenados a sua condição de dominados, porque não há outra sociedade possível. Quem recebe essa mensagem durante a vida toda, perde coragem; Não confiam uns nos outros e por isso são lentos para unir-se e buscar juntos essa nova convivência humana que pode substituir as estruturas de dominação existentes.
O anúncio da libertação
Jesus anunciou a libertação . Iniciou o movimento comunitário reunindo os seus discípulos que se acharam juntos no dia de Pentecostes para receber o Espírito Santo enviado por ele. Lançou o movimento. A missão dos apóstolos, dos missionários é anunciar de modo ativo, como Jesus, mostrando o modo de proceder para construir o reino de Deus. A Igreja constitui esse povo de missionários. A Igreja existe para iniciar esse movimento de comunidade humana em todos os níveis. Para dizer melhor, a Igreja existe nesse movimento. Fora desse movimento ela não existe como Igreja de Jesus Cristo, mas somente de nome.
Historicamente a Igreja falhou e continua falhando. Os cristãos pertencem a este mundo e trazem todo um passado pagão . Custa acreditar no evangelho, mas muitos nem sequer o receberam, ainda que fossem batizados e recebessem os sacramentos. No início, Jesus não tinha criado uma religião, não tinha organizado nenhum culto, nem definido uma doutrina, nem um regime de governo, já que queria que todos fossem iguais. Mas muito cedo os discípulos que traziam em si toda a religião da sua vida anterior, sentiram uma necessidade de fazer uma religião a partir do culto a Jesus ressuscitado. Não tinham conhecido a vida real de Jesus e aplicaram a Jesus o que tinham aprendido seja no judaísmo seja nas religiões ditas pagãs.
A religião e os pobres
Criou-se uma religião muito desenvolvida e cada vez mais formalizada. A religião vive num mundo simbólico, consiste em formas e não em realidades materiais. Acontece que a Igreja chega a se fechar no seu mundo simbólico para viver nesse mundo simbólico que para ela é salvação. O Deus da religião pede a paz e a tranqüilidade, mas se esquece de que os missionários são perseguidos. Se a Igreja vive em paz, é sinal de que não anuncia, não tem por objetivo o reino de Deus mas apenas a segurança dos seus fiéis. No concreto das paróquias e das comunidades religiosas as atividades dominantes de longe são atividades simbólicas, de culto, de profissões de fé, de construção de um aparelho material para realizar melhor as suas atividades simbólicas. Essas atividades têm por finalidade a salvação das almas mas não se preocupam pelo que sucede neste mundo.
Uma Igreja dedicada ao culto e ao mundo simbólico não dá atenção particular aos pobres a não ser para lhes dar esmolas, mas não faz nem idéia sequer da sua libertação . Ela não tem interesse em ser a Igreja dos pobres porque os pobres não trazem muito poder. Ela procura ter boas relações com o poder político, o poder econômico e o poder cultural. Ainda hoje traz as marcas do 15 séculos de cristandade quando a religião dos povos era a religião dos reis. Todos deviam praticar a religião do rei. E a Igreja dependia do rei. Essa colaboração entre o poder religioso e os poderes civis ainda está na mentalidade e nos projetos conscientes ou inconscientes de muitos cristãos sobretudo do clero. O discurso é evangélico, mas a prática é o serviço a esse edifício religioso que construiu a Igreja como instituição .
As minorias abraamicas de dom Helder
Minorias salvam a honra da Igreja. Houve homens e mulheres heróicos que conseguiram despertar os cristãos e levá-los a promover reformas sociais. Nem sempre pertenceram à Igreja de modo explícito. A Instituição Igreja não lutou pela emancipação dos escravos porque estava atada pelos laços com o Império e não queria emancipar-se. Não sentia que a união estreita entre o Império ou, antes dele, com o reino de Portugal era o maior obstáculo para a vida cristã. Essa estrutura de cristandade favorecia a religião , mas desviava da missão da Igreja que era anunciar o reino de Deus e lutar pela libertação dos oprimidos e entre eles estavam os índios e os escravos africanos.
Há minorias que lutam pela reforma agrária e o próprio episcopado toma posição com muita força nas suas declarações . Mas as elites sociais e as classes médias que se dizem católicas e as vezes praticam e recebem os sacramentos regularmente, não querem saber de reforma agrária. Há cristãos que lutam também pela libertação das favelas e de todas as habitações insalubres, mas a massa dos católicos não se move e continua elegendo governantes que não ser dedicam a essas tarefas primordiais.
Podemos perguntar-nos se nas paróquias há realmente muito interesse em entrar nessas lutas. Não se nota muito. Então a nível teórico a Igreja quer reforma agrária, reforma urbana, salário justo, mas na prática nas paróquias e nas instituições da Igreja, esses assuntos não têm importância. Na prática a Igreja se confunde com as atividades religiosas e não está a serviço da humanidade, não busca a sua libertação. Como fazer para conseguir a libertação da instituição tão apegada à estrutura social estabelecida e às classes sociais dominantes ? Eis o drama.
Quem é pobre?
Os ricos sempre procuraram desviar o sentido do evangelho. Inventaram o conceito de pobreza espiritual. Pobres seriam os que não estão apegados à riqueza, os que não se sentem ricos, os que têm sentimentos de compaixão pelos pobres. Interpretam o versículo de Mateus sobre os pobres em espírito como se o espírito fosse o imaterial,o mental, o psicológico. Mas o espírito é vento, força, tempestade como no dia de Pentecostes. Os pobres no espírito são os que são animados pelo Espírito. Não são os pobres sentimentalmente.
Os verdadeiros pobres sabem que são pobres. Não se perguntam quem é pobre. Sabem que são pobres. Os ricos buscam subterfúgios para definir em forma complicada a pobreza de tal maneira que não se sintam denunciados como os ricos do evangelho. Se alguém duvida se é pobre ou rico, com certeza é rico porque um pobre não duvida, mas sabe muito bem o que é pobreza. Os pobres são a verdadeira Igreja, o verdadeiro povo de Deus ainda que a sua presença no sistema religioso possa ser muito fraca. Encontram-se nos grandes santuários de romarias populares. Não se encontram nas igrejas paroquiais e muitas vezes nem sequer nas capelas. Mas Jesus sabe reconhecê-los e os integra no seu corpo como o verdadeiro povo de Deus. Jesus luta pela sua libertação no meio deles.

3 de abril de 2011

Romero. Uma beatificação incômoda

No dia 24 de março de 1980, um grupo de pistoleiros crivou de balas o então Arcebispo de São Salvador Oscar Arnulfo Romero e Galdámez. Um assassinato político em meio a uma sangrenta guerra civil. Os discursos do prelado foram por demais incômodos para o governo e para os esquadrões da morte. Passados 31 anos de sua morte, a sua figura continua incomodando e o seu processo de beatificação não avança.
A análise é de Andrés Beltramo Alvarez em seu blogSacro & Profano, 28-03-2011. A tradução é do Cepat.
Por seus inflamados discursos em favor dos pobres, a defesa dos direitos humanos e a sua proximidade com o povo, Monsenhor Romero é lembrado como um defensor dos menos favorecidos. Em uma América Latina onde a Teologia da Libertação tinha força, o seu assassinato foi lido pela chave ideológica (algo inevitável).
Em 1994, o seu sucessor na Arquidiocese de São Salvador Arturo Rivera e Damas, iniciou o processo de beatificação. Como era previsível, a interpretação ideológica veio a tona, sobretudo no Vaticano. Em 2000, a Congregação para a Doutrina da Fécomeçou o estudo de todos os discursos de Romero. Em 2005, o postulador da causa, o bispo italiano Vincenzo Paglia disse publicamente que Romero não era um bispo revolucionário, mas um homem da Igreja, do Evangelho e os pobres”.
Apesar disso, seis anos depois, nada se sabe sobre a beatificação. Fontes qualificadas nos confiaram que, neste momento, a Santa Sé não tem previsão sobre tema. Espera passar tempo suficiente para deixar para trás riscos de instrumentalização e permitir que venha a tona a figura de Romero, para além das ideologias.
Enquanto isso, o povo salvadorenho espera, assim como o movimento católico da Comunidade de São Egídio, um dos grupos eclesiais que mais apóia o "caminho para o altar" do arcebispo.

2 de abril de 2011

Matthew Fox - Um cristianismo sem Agostinho?


"A principal tese do teólogo norte-americano Matthew Fox é que a 'bênção original' no centro da mensagem do cristianismo foi ofuscada pela prevalência de uma teologia particular do pecado original, cujo principal autor é Santo Agostinho de Hipona."
A opinião é de Massimo Faggioli, doutor em história da religião e professor de história do cristianismo no departamento de teologia daUniversity of St. Thomas, em Minneapolis-St. Paul, nos EUA. O artigo foi publicado na revistaEuropa, 31-03-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
Eis o texto.
O cristianismo, assim como o conhecemos, é fiel às suas origens, à mensagem deJesus? A pergunta, a mais arriscada para qualquer pessoa que se interesse pelo cristianismo, está no centro do livro de Matthew Fox, In principio era la gioia [No princípio era a alegria] (Ed. Fazi, 2011, 423 páginas), publicado originalmente nosEstados Unidos em 1983 com o título Original Blessing[Bênção original].
O livro, que levou o autor à expulsão dos dominicanos em 1993 (junto com um grande sucesso editorial), foi traduzido só agora ao italiano e abre uma nova coleção de textos teológicos, intitulada significativamente Campo dei Fiori, publicada pela Fazi Editores e organizada por Vito Mancuso e Elido Fazi.
Mancuso introduz o livro de Fox com um longo texto que apresenta não só o livro, mas também toda a coleção e o projeto editorial que prevê a publicação de textos de teologia, espiritualidade e história do cristianismo. O projeto se baseia em uma constatação dificilmente contestável: "A oposição sistemática entre liberdade e pertencimento à Igreja Católica foi se dilatando e gerou a muito difundida ideia de uma oposição sistemática entre liberdade e experiência espiritual" (p. xxx).
Se Mancuso pretende iniciar um diálogo com o catolicismo institucional, as premissas postas por esse livro da coleção são combativas: no prefácio,Mancuso sugere uma analogia entre o destino deMatthew Fox e o dos teólogos hereges e dissidentes condenados à morte pela Igreja romana, dentre os quais Arnaldo de BrésciaeGiordano Bruno. A sorte reservou a Fox uma saída da Igreja de Roma bem mais cômoda em comparação ao fogo no Campo de Fiori.
Mas In principio era la gioia se presta bem para essa interessante operação cultural e editorial da efitora Fazi, da qual logo veremos outros volumes (entre os quais a recente história dos Papas deJohn O’Malley e uma interpretação cristã do budismo dePaul Knitter). A principal tese de Fox, agora ex-católico que se define "padre pós-denominações", é que a "bênção original" no centro da mensagem do cristianismo foi ofuscada pela prevalência de uma teologia particular do pecado original, cujo principal autor é Santo Agostinho de Hipona.
Na opinião de Fox, o original otimismo da revelação judaico-cristã sobre a humanidade e sobre a criação foi removido pelo "esquema queda-redenção" centrado no pecado original: esse deslizamento fez do cristianismo uma religião não só pessimista, mas também patriarcal e violenta. A teologia de Fox tenta despedaçar o esquema "queda-redenção" para romper o fundamental dualismo alma-corpo, sagrado-profano, Deus-mundo – um dualismo herança da experiência maniqueia do jovem Agostinho.
Fox propõe uma viagem espiritual de quatro etapas: a via positiva (em contato com a energia criativa de Deus), a via negativa (redescobrir o sofrimento por meio da natureza), a via criativa (para nos tornarmos novamente criadores do mundo junto com Deus) e a via transformativa (para voltar ao momento inicial graças a uma inspiração de justiça pelo cosmos).
Hoje, quando um dos principais acusadores do livro (o então cardeal Ratzinger) tornou-se Papa de Roma, In principio era la gioia se apresenta como uma espécie de testemunha póstuma da tentativa de fundar, em uma síntese pós-agostiniana, as almas teológicas do catolicismo pós-conciliar: em outras palavras, a tentativa de elaborar uma teologia liberacionista em sentido amplo, que misture ecumenismo, teologia feminista, espiritualidade ecológica, misticismo e busca de um campo teológico inter-religioso bem além do "monoteísmo abraâmico", judaísmo-cristianismo-islã.
Nesse sentido, o livro de Fox se apresenta, mais do que como uma proposta original de espiritualidade alternativa ao catolicismo institucional, como um mapa das fontes e das direções possíveis em que a teologia católica foi estimulada (frequentemente com maior sucesso de Fox) depois do Concílio Vaticano II.
São evidentes as fraquezas teológicas da proposta de Fox. Um dos elementos prevalentes do livro é o de uma oferta de "teologia terapêutica", típica da paisagem religiosa norte-americana contemporânea, fenômeno do qual o catolicismo dos EUApermaneceu em grande parte (e por sorte) imune. Às vezes, parece que lemos em Foxessa proposta teológica para católicos suburbanizados, cultos e pós-confessionais, que havia feito o sucesso de Thomas Merton nos anos 50 e 60: com a diferença de queMerton escrevia como neocatólico, enquanto aqui Fox fala como ex-católico.
A segunda fraqueza tem a ver com a exigência de reduzir a taxa de agostinismo da teologia cristã e católica em particular: exigência compreensível, especialmente se considerarmos os legados mais problemáticos do bispo de Hipona (teologia da guerra justa, concepção da sexualidade). Mas entre eliminar a ênfase sobre a libertação do pecado original e eliminar do horizonte da teologia cristã a ideia de libertação tout courto limite é tênue: a ideia de "libertação" é uma das ideias teológicas mais poderosas da revelação judaico-cristã (do Êxodo em diante, chegando às teologias políticas).
Além disso, Fox parece ignorar a passagem de paradigma dos séculos XIX e XX da teologia como metafísica à teologia como "história da revelação" e, substancialmente, parece declarar decaídos os grandes mestres da teologia católica do século XX.
Por fim, Fox se baseia em fontes bíblicas (especialmente dos livros sapienciais) e em fontes místicas medievais, além de uma vasta série de fontes teológicas sui generis(poesia, literatura, psicologia), deixando substancialmente de lado a teologia patrística latina e grega dos primeiros séculos do cristianismo. Não está claro quanta teologia dos Padres da Igreja Fox pretende arquivar (além de Agostinho), se é verdade que oressourcement teológico foi uma das pedras-angulares da reconstrução da teologia católica no século XX, depois da estação árida da teologia neoescolástica. Declarar acabado o ressourcementequivale a declarar acabada a teologia doVaticano II: uma declaração que todos os catolicismos inimigos de Fox ficariam felizes em assinar embaixo.

http://www.ihu.unisinos.br/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=41981

1 de abril de 2011

Pedra maia é exibida para desmentir anúncio do fim do mundo em 2012

Peça foi mostrada na cidade de Tabasco, no México.Arqueólogo garante que não há escritos sobre o Apocalipse.

Maias fim do mundo 1 (Foto: René Alberto López / AFP Photo)
Pedra com calendário maia é exposta em Tabasco, no México (Foto: René Alberto López / AFP Photo)

A pedra do calendário maia que foi interpretada erroneamente como um anúncio do fim do mundo marcado para dezembro de 2012 foi apresentada na terça-feira (29) em Tabasco, sudeste do México.

A peça é formada de pedra calcária e esculpida com martelo e cinzel, e está incompleta. "No pouco que podemos apreciá-la, em nenhum de seus lados diz que em 2012 o mundo vai acabar", enfatizou José Luis Romero, subdiretor do Instituto Nacional de Antropologia e História.

Na pedra está escrita a data de 23 de dezembro de 2012, o que provocou rumores de que os maias teriam previsto o fim do mundo para este dia. Até uma produção hollywoodiana, "2012", foi lançada apresentando esse cenário apocalíptico.

"No pouco que se pode ler, os maias se referem à chegada de um senhor dos céus, coincidindo com o encerramento de um ciclo numérico", afirmou Romero. A data gravada em pedra se refere ao Bactum XIII, que significa o início de uma nova era, insistiu o pesquisador.

Comblin, o profeta da ironia afetuosa


"Como poucas pessoas, é o caso de Dom Helder Câmara, Comblin conseguiu ser cada dia mais aberto e crítico à medida que seus anos avançaram", testemunha Marcelo Barros, monge beneditino, teólogo e escritor.

Eis o testemunho.

Hoje saí da UTI de um hospital de Olinda, no qual me abriram o peito e me recauchutaram o coração fragilizado, com duas pontes de safena. No reencontro com a vida, ainda no leito de uma enfermaria, fico sabendo da partida do padre José Comblin, meu velho professor de Teologia e amigo de tantos anos e companheiro de lutas e esperanças.

A um teólogo de fama mundial e de projeção pastoral como foi o padre Comblin, não faltarão testemunhos de muitos irmãos e irmãs que com ele conviveram e trabalharam por tantos anos. Eu fui apenas um dos seus alunos em todo o curso de Teologia e nem pertenci ao grupo mais ligado a ele na Teologia da Enxada ou mesmo no instituto de vida missionária que ele animava. Entretanto, fui marcado por sua figura e sua doutrina e tenho algumas experiências próprias que podem ser úteis que agora sejam recordadas. Há pouco mais de uma semana, escrevi um pequeno artigo, defendendo a atualidade e a pertinência de sua profecia eclesial e popular. Ele me respondeu com uma breve mensagem de agradecimento e depois me mandou um texto maior explicando suas críticas ao estilo atual do poder na Igreja Católica.

Conheci o padre Comblin quando ele ainda era muito jovem, em 1964. Dom Hélder Câmara, então novo arcebispo de Olinda e Recife, trouxera uma equipe célebre de professores de Teologia. Entre eles estava o padre Comblin que, durante seus primeiros anos no Nordeste, ficou hospedado no mosteiro dos beneditinos. Naqueles anos, justamente, eu entrei no Mosteiro com a ânsia de renovação que motivava minha geração. Apesar de ser o tempo em que o Concílio Vaticano II propunha para a Igreja um novo Pentecostes, a maioria dos monges se apegava às velhas tradições. Apesar de ser muito discreto e viver outras preocupações pastorais, Comblin não deixava de ser irônico e quase sarcástico. E aquilo me atraía. No meu tempo de noviciado, li em francês “O Cristo no Apocalipse” onde se vê um Comblin exegeta e pouco conhecido. Li também, já em português “A Ressurreição”, um belo livro da Herder no qual ele, antes do Vaticano II, sustentava que o fato teológico mais marcante para o século XX tinha sido a revalorização teológica e espiritual do mistério pascal e da ressurreição de Jesus

Quando comecei a fazer Teologia no Seminário de Camaragibe, ele era o coordenador do curso. Na minha juventude, eu o achava contraditório. De um lado, ele ensinava uma teologia profunda, mas tradicional (não tradicionalista) e eu compreendia pouco isso. Esperava dele intuições inventivas e estas não apareciam, ao menos para mim. Sei que, neste tempo, ele produziu obras impressionantes como Théologie de la Paix, Théologie de la Ville e um estudo sobre Catolicismo Popular no Brasil. Mas, na época, não tive acesso a estas obras. Suas aulas eram dadas em um tom monocórdio, só interrompidas aqui e ali pelas risadas de alunos que festejavam as ironias do Comblin, aparentemente demolidoras, mas no fundo construtivas.

Mais tarde, em 1968, o Instituto de Teologia do Recife nomeia uma equipe de três professores e três alunos para elaborar uma proposta de nova temática e nova metodologia teológica. O coordenador da equipe era Comblin e eu fazia parte dos três alunos que tinham de discutir com ele as propostas dos alunos. Eu tinha a sensação de que ele mal nos escutava, mas me surpreendi quando, depois de muitos debates ácidos, ele assumiu nossas propostas e estas foram, em sua maioria, implementadas.

No mesmo ano, um escrito interno com o qual Comblin preparava a conferência episcopal de Medellin e propunha uma revolução social, extravasou para a imprensa. Ele que tinha ido a Europa foi proibido pela ditadura militar de voltar ao Brasil. Quando lhe perguntaram quem poderia, até o final do ano, coordenar o seu curso de Teologia dos Sacramentos, (estávamos em agosto), tive a surpresa e o orgulho de saber que ele escolhera o meu nome. Eu era apenas um dos alunos da classe do terceiro ano. A partir daí, sim, eu o assumi como um mestre de vida e procurava ler e estudar tudo que ele escrevia. A partir de então, descobri como ele inovava sua doutrina.

Seu livro em dois volumes “Teologia da Revolução” foi meu batismo nos caminhos do que depois chamaríamos teologia da libertação. Nos anos 70, ele estava fora do Brasil e tivemos poucos contatos. Nos anos 80, o reencontrei mais velho e o achei mais aberto e comunicativo, sempre muito atento aos amigos. Um homem fiel às amizades e às relações. Era um intelectual de erudição raríssima, capaz de dissertar sobre Teologia, Política, Bíblia, Economia e muitos outros assuntos com uma competência incrível, ao mesmo tempo que punha em prática sua visão de uma teologia popular e seu carinho por um instituto para formar padres, missionários/as e religiosos /as que viessem do campo e não precisassem sair do meio rural.

Algumas discussões com ele nortearam-me a vida. Por exemplo, a tentativa de libertar a Teologia cristã de sua base helenista (filosófica grega) ainda muito forte em nossa Igreja. Também, me impressionavam sempre a sua capacidade de criticar livremente a estrutura monárquica e absolutista do Vaticano. Mesmo um interesse imenso por uma vida religiosa mais popular e mais inserida, menos centrada nas estruturas das congregações.

Nos últimos anos em que vivi no mosteiro de Goiás, sempre passou a Páscoa conosco. No Brasil, temos a graça de contar com teólogos e teólogas dos mais abertos e criativos do mundo, mas a contribuição própria do padre Comblin tem sido sempre a de uma liberdade interior de dizer o que pensa e ser um profeta crítico e irônico sempre capaz de ler a história e as estruturas eclesiásticas a partir dos empobrecidos e das grandes causas da América Latina. Em 2006, com Dom Tomás Balduíno e com ele, fomos observadores internacionais das eleições presidenciais da Venezuela e, bem mais do que outros companheiros, eu o vi muito aberto ao bolivarianismo. Quem o conheceu de perto sabe que sua ironia era profunda, mas não era de ruptura e sim de afeição.

Como poucas pessoas, é o caso de Dom Helder Câmara, Comblin conseguiu ser cada dia mais aberto e crítico à medida que seus anos avançaram. Que sua herança teológica e profética seja por nós mantida e continuada.

28 de março de 2011

Como o profeta Amós, Padre José Comblin incomodava

Carlos Mesters

Padre José Comblin morreu. Um bispo o criticou, como: "Comblin, homem cansado e pessimista". O pessoal das Comunidades por onde ele andava não o chamava de Comblin, mas sim de "Padre José". Padre Comblin incomodava as pessoas de poder, mas era amado pelos pobres que o acolhiam carinhosamente como Padre José.

Padre José Comblin nasceu na Bélgica nos anos 20 do século passado e nos anos 50 veio trabalhar e anunciar a Boa Nova aqui no Brasil. O profeta Amós era de Judá no Sul e foi trabalhar e anunciar a Boa Nova de Deus em Israel no Norte, no santuário de Betel. Amasias, o sacerdote de Betel, não gostou e denunciou o profeta junto ao rei Jeroboão, dizendo que já não se podia tolerar as palavras de Amós. E mandou dizer ao próprio Amós: "Ó, seu profeta, vá embora daqui. Retire-se para sua terra Judá. Vá ganhar sua vida por lá com suas profecias. Mas não me venha mais fazer suas profecias aqui em Betel, pois isto aqui é o santuário do Rei e o templo do Rei". Amós mandou dizer: "Eu não sou profeta nem filho de profeta. Sou camponês, criador de gado e cultivador de sicômoros. Foi Javé que me tirou de trás do rebanho e me ordenou, ‘Vá profetizar ao meu povo Israel'!" (Amós 7,10-15).

Como o profeta Amós, Padre José Comblin incomodava aos homens do poder no tempo da ditadura e foi expulso várias vezes. Incomodava também aos que exercem o poder na Igreja. Alguns deles chegaram a dizer que já não se podia tolerar as coisas que ele dizia, e eles proibiram a fala dele várias vezes em vários lugares.
Como o profeta Amós, Padre José, ele mesmo, nunca se apresentou como profeta. Ele se apresentava como ser humano cristão e sacerdote, cumpridor fiel do seu dever. Posso testemunhar: convidado para falar nas comunidades e nos grupos do CEBI, Padre José convencia as pessoas pela simplicidade do seu jeito de conversar e dialogar, pelo testemunho da sua sinceridade e profundidade de vida e pela quantidade enorme de informações de que dispunha para confirmar as coisas que dizia e as denúncias que fazia.

Mesmo ausente ele continua presente. Como o profeta Amós, "seu corpo foi sepultado em paz, mas o seu nome viverá através das gerações" (Eclo 44,14). Eternamente grato.


*Frei Carlos Mesters, 0.Carm. Convento do Carmo, São Paulo, 28 de março-2011.
Biblista popular, Carlos Mesters é um dos fundadores do CEBI.


http://www.cebi.org.br/noticia.php?secaoId=1&noticiaId=1885

27 de março de 2011

O nosso já Saudoso, Comblin...



Morre
um dos maiores teólogos pensadores

da Teologia da Libertação

* 22 de março de 1923 + 27 de março de 2011

Morreu hoje cedo 27/3/2011, na cidade de Pedro Simões, interior da Bahia, o padre José Comblin, 88 anos, um dos mais importantes e polêmicos teóricos da Teologia da Libertação, e autor de vários livros, entre os quais A Teologia da Enxada, sobre a vivência cristã e teológica nas comunidades rurais.

Comblin estava dando um curso para comunidades de base em Pedro Simões. Foi encontrado morto, sentado, em seu quarto, quando era esperado para a oração da manhã e não apareceu na capela. Ele tinha problemas cardíacos e usava marcapasso. Apesar da doença, parecia bem disposto e estava trabalhando.

Nascido em Bruxelas, em 22 de março de 1923, padre Comblin veio para o Brasil em 1958, atendendo a apelo do papa Pio XII, que no documento Fidei donum (O Dom da Fé) pedia missionários voluntários para regiões com falta de sacerdotes.

Depois de trabalhar em Campinas e, em seguida, passar uma temporada no Chile, foi para Pernambuco, em 1964, quando D. Helder Câmara foi nomeado arcebispo de Olinda e Recife. Perseguido pelo regime militar, foi detido e deportado, em 1972, ao desembarcar no aeroporto de volta de uma viagem à Europa. Religioso foi perseguido pelo regime militar brasileiro, chegando a exilar-se no Chile

http://www.estadao.com.br/noticias/nacional,morre-padre-belga-jose-comblin-da-teologia-da-libertacao,697964,0.htm
Trechos de uma entrevista do Pe. Comblain.
Quando o senhor fala de mudar o mundo, fala de revolução social?

Não, de mudar a humanidade, a forma de se relacionar entre as pessoas, isso é o que é preciso mudar. Como fizeram as comunas medievais, as comunidades de base, as empresas cooperativas, em que todos participam. No final, o império cairá como todos os anteriores, e os oprimidos se libertarão graças à sua luta.

Como o senhor caracteriza Jesus Cristo?

Ele vem mostrar em sua vida o que é a nova humanidade e anunciar a transformação. Busca os que sofrem, os doentes, os que não tiveram sorte. Depois, anuncia aos pobres que a situação mudará, que tenham confiança e força, porque eles têm a sabedoria de Deus e a entendem. Por outro lado, os ricos e poderosos nunca entendem e não querem entender. Eles defendem seus privilégios e nada mais. Depois, ele reuniu uma comunidade e lhes deu uma recomendação básica fundamental: que ninguém queira ser mais do que os outros. Isso basta, é a única instrução. Se respeitarem isso, todo o resto funciona. Depois, denunciou a todos os que mantêm o sistema de dominação, e que o defendem, porque lhes beneficia. Por fidelidade a essa mensagem, todas as autoridades de Israel querem matá-lo e vão pôr-se de acordo com o governador romano que, de fato, sente que ele é um revolucionário que ameaça seu sistema e ao qual é melhor suprimir. Jesus mostrou o caminho para construir um mundo novo, não só para salvar a alma, que é mais fácil.

24 de março de 2011

Mais um ano sem São Oscar Romero

São Oscar Romero, mártir.
Rogai por nós !




Trecho da última Oração Eucarística
celebrada por São Oscar Romero

”... Vocês acabam de ouvir, no Evangelho de Cristo, que as pessoas não devem amar tanto a si mesmas e cercarem-se de cuidados para evitar os riscos da vida que a história nos exige, pois quem quiser afastar de si o perigo acabará perdendo a sua vida. Em contrapartida, aquele que se entrega por amor a Cristo a serviço dos outros viverá como o grão de trigo que morre, mas só morre aparentemente. Se não morresse, permaneceria só. Mas a colheita só existe porque ele morre, deixa-se imolar nesta terra, desfazendo-se – e só se desfazendo é que ele produz a colheita.
... Esta santa missa, esta Eucaristia, portanto, é precisamente um ato de fé: pela fé cristã, parece que neste momento a voz da diatribe converte-se no corpo do Senhor, que se ofereceu pela redenção do mundo, e neste cálice, cujo vinho se transforma no sangue que foi o preço da salvação. Que este corpo imolado e este sangue sacrificado pelos homens nos alimentem, para que, como Cristo, também saibamos dar nosso corpo e nosso sangue no sofrimento e na dor, não por nós mesmos, mas para trazer justiça e paz para o nosso povo. Na fé e na esperança, unamo-nos intimamente neste momento de oração, por dona Sarita e por nós mesmos...”

(NESSE MOMENTO, SOOU "O COVARDE" DISPARO MORTAL...)

24 de março de 1980