O absurdo e a Graça

Na vida hoje caminhamos entre uma fome que condena ao sofrimento uma enorme parcela da humanidade e uma tecnologia moderníssima que garante um padrão de conforto e bem estar nunca antes imaginado. Um bilhão de seres humanos estão abaixo da linha da pobreza, na mais absoluta miséria, passam FOME ! Com a tecnologia que foi inventada seria possível produzir alimentos e acabar com TODA a fome no mundo, não fossem os interesses de alguns grupos detentores da tecnologia e do poder. "Para mim, o absurdo e a graça não estão mais separados. Dizer que "tudo é absurdo" ou dizer que "tudo é graça " é igualmente mentir ou trapacear... "Hoje a graça e o absurdo caminham, em mim lado a lado, não mais estranhos, mas estranhamente amigos" A cada dia, nas situações que se nos apresentam podemos decidir entre perpetuar o absurdo, ou promover a Graça. (Jean Yves Leloup) * O Blog tem o mesmo nome do livro autobiográfico de Jean Yves Leloup, e é uma forma de homenagear a quem muito tem me ensinado em seus livros retiros, seminários e workshops *

26 de maio de 2012

A força do Espírito rompe barreiras e renova o mundo! PENTECOSTES

 Frei Jacir de Freitas Faria, OFM (*)



I. INTRODUÇÃO GERAL

Na era da internet, uma notícia chega aos quatro cantos do mundo em frações de segundos. Através das teclas do computador, vemos o mundo e nos comunicamos com ele, nos mobilizamos para coisas boas e ruins. Tudo se parece a um espírito que corre veloz nas ondas invisíveis e nas fibras óticas de um mundo globalizado, que, apesar dos avanços tecnológicos, persiste ainda em mostrar o incômodo da miséria, do racismo, da exploração sexual e das injustiças sociais que assolam grande parte do nosso planeta. A globalização ainda não acontece satisfatoriamente na promoção da solidariedade, da cultura da paz, do acesso aos bens necessários à vida, da promoção da justiça.
É nesse contexto de século XXI que continuamos celebrando Pentecostes como acontecimento profundamente aglutinador, pois nele todos os povos são reunidos por Deus para desfrutar da páscoa de seu Filho, fonte de paz, salvação e vida plena para todos. Pentecostes não é o oposto de Babel (Gn 11,1-9), pois ali não se trata de multiplicação de línguas, mas é a plenitude da comunicação entre o divino e o humano e  evento basilar do cristianismo primitivo, ao reler a manifestação de Deus no monte Sinai. É o que veremos nas leituras de hoje.
II. COMENTÁRIOS DOS TEXTOS BÍBLICOS
1.    I leitura (At 2,1-11): Pentecostes é a releitura simbólica do Sinai
Haviam se passado os cinquenta dias entre as festas da Páscoa e Pentecostes. Era o quinquagésimo dia da festa das semanas, daí o nome hebraico da festa: pentecostes. Era o dia 06 do mês de Sivan – 22 de maio no nosso calendário. Jerusalém estava repleta de peregrinos. Todos teriam trazido as primeiras colheitas para serem ofertadas no templo. A peregrinação até Jerusalém teria sido linda. Imagine grupos de pessoas caminhando juntos com cestos de uva, trigo, azeitonas, tâmaras, mel… Imagine o povo sendo acolhido em Jerusalém ao som de harpa, flauta e recitação de Salmos. Todos carregavam dentro de si o desejo de agradecer a Deus pelas primeiras colheitas e de comemorar o “dom da Torá”, da Lei dada ao povo no monte Sinai tantos séculos atrás. Nisso consistia a festa judaica de Pentecostes: comemorar o recebimento da Torá no monte Sinai e afirmar, com isso, que no dia de sua revelação “Eu também estava lá” (Dt 5, 24). O ontem se torna hoje (Lc 4).
Em Jerusalém estavam todos. E todos presenciaram a vinda do Espírito Santo. Como podemos interpretar esse episódio narrado por Lucas em Atos? Não estaria aí uma releitura do evento Sinai? Lucas descreve o acontecido em Pentecostes tendo na memória a narrativa do Sinai. Era preciso demonstrar que um novo Sinai estava acontecendo para legitimar a ação da comunidade de Jerusalém. Jesus teria dito para voltar a Jerusalém e lá eles receberiam o Espírito Santo. Pentecostes passa a ser o batismo da comunidade cristã, o qual a confirma na missão de ir para o mundo e evangelizar. Mais do que um dado histórico, estamos diante de uma profissão de fé. Sem Pentecostes, a Páscoa (passagem) em Jesus para uma nova vida não estaria completa. É belíssima a simbologia usada por Lucas para falar de uma experiência tão importante que marca o início da missão das comunidades cristãs.
Em At 2,1-13 temos dois relatos unidos: um mais antigo (vv. 1-4 + 12-13) e um mais desenvolvido redacionalmente (vv.5-11). O objetivo do primeiro é chamar a atenção para o fato carismático e apocalíptico de Pentecostes, e o segundo, demonstrar o caráter profético e missionário do evento. Vamos considerar o texto como um todo e interpretá-lo simbolicamente e como releitura do Sinai (cf. Faria, Jacir de Freitas, In.: O Espírito de Jesus rompe as barreiras, São Leopoldo: CEBI, 2001 p.13-16).
Eis os símbolos:
a)  Casa em Jerusalém: a vinda do Espírito Santo ocorre, segundo a tradição, em uma casa de dois andares na cidade de Jerusalém, que está situada sobre o monte Sião. Esses dois detalhes evocam claramente o monte Sinai, local onde Moisés recebeu as Dez Palavras de Deus. No Primeiro Testamento, os montes eram considerados lugares privilegiados da manifestação de Deus.
a)  Língua/linguagem: Lucas substitui o termo voz, que aparece na narrativa do Sinai, para língua. Esses termos são semelhantes e ambos se referem à Palavra. E cada um entende na sua própria língua. A Palavra é a presença de Deus. Língua (idioma) e linguagem (modo de se comunicar) têm o mesmo sentido no texto. O milagre de Pentecostes consiste no fato de os presentes poderem entender os apóstolos a  partir de sua própria cultura. É o mesmo que dizer: a evangelização está sendo realizada com sucesso. Por isso, esse fenômeno de “falar em línguas” – também encontrado em At 10,46; 19,6; 1Cor 12,10.28.30; 14,2.4-6.9 -, aparece nessa leitura com o acréscimo de “outras línguas”, com a intenção de demonstrar que a evangelização era para “todos no mundo todo”. Evangelizar não é falar em língua que ninguém entende, mas justamente o contrário. Não importa o idioma (língua mãe), mas a linguagem comum, o modo como é transmitida a proposta do reino.
b) De fogo: representa a manifestação de Deus; é um modo apocalíptico para dizer que Deus se manifestou – Ex 3,2-3; 13,21; 19,18) -,  (Cf. Comblin, José, Atos dos Apóstolos vol. 1:1-12. Petrópolis: Vozes, 1988, p.89). Deus acompanha o povo pelo deserto numa coluna de fogo que iluminava a noite (Ex 13,20-22). Deus desce para falar com o povo e Moisés no Sinai por meio de um fogo (Ex 19,18). A comunidade de Mateus conservou a memória da fala de João Batista que anuncia o batismo no Espírito Santo e no fogo que Jesus deveria realizar (Mt 3,11). E é isto que ocorre em Pentecostes, segundo a interpretação da comunidade de Atos dos Apóstolos. O Espírito Santo é o fogo da Palavra de Jesus que deve ser anunciada pelos seus seguidores. Também a tradição rabínica associa a palavra de Deus com o fogo. O comentário rabínico da passagem de Ex 20,18 “todo o povo ouviu trovões” diz: “Note-se que não é dito o trovão, mas ‘trovões’. Por isso, Rabi Johanan disse que a voz de Deus, apenas pronunciada, dividiu-se em 70 vozes, em 70 línguas, para que todas as nações pudessem compreender. Quando cada nação entendeu a voz na própria língua, a sua alma desfaleceu, salvo Israel que a ouviu, mas não ficou perturbado”( Cf. FABRIS, Rinaldo, Os Atos dos Apóstolos,São Paulo: Loyola, 1991, p.62. ). Falar em línguas, então, significa anunciar a palavra comprometedora de Jesus e não, balbuciar palavras indecifráveis.
c)  Multidão: simboliza o povo no deserto que recebeu as tábuas da Lei. No dia de Pentecostes, três mil pessoas estavam em Jerusalém. Não se trata aqui de uma cifra exata. A comunidade de Atos quis, com isso, afirmar que a comunidade dos convertidos era uma multidão, proveniente de doze povos e três regiões. Basicamente, estavam em Jerusalém três grupos: a) nativos do oriente (partos, medos e elamitas); 2) habitantes do leste (Mesopotâmia), norte (Ásia), sul (Líbia) e os da Judeia, Capadócia, Ponto, Frígia, Panfília e Egito; 3) estrangeiros (romanos, judeus e prosélitos, cretenses – povo marítimo – e árabes – povos do deserto). Curioso é o fato de que Lucas não menciona o território das igrejas paulinas (Síria, Macedônia e Grécia). Na menção aos povos, Roma está em último lugar. De onde Lucas herdou essa lista? Questão debatida. A lista dos vv. 9-10 Lucas herdou de uma fonte, mas a modificou, provavelmente. “Judeia” fora do lugar, no meio da Mesopotâmia e “Creta e arábia” parecem ser composição lucana.
d) Vendaval impetuoso: simboliza a manifestação de Deus. É a “violência” do Espírito que leva a comunidade a ser profética e missionária. Deus fala no Primeiro e Segundo Testamentos.
e)  Estão cheios do vinho doce: essa acusação simboliza os que não estão abertos ao novo da comunidade cristã. Segundo os Rolos do Templo (Cf. FITZMYER, J., The Acts of the Apostles, The Anchor Bible, vol. 31, p.235.), gruta 11, os judeus de Qumrã celebravam três pentecostes: a) Festa das Semanas e do Novo Trigo (50 dias após a Páscoa); b) Festa do Novo Vinho (50 dias após a festa do Novo Trigo); c) Festa do Novo Óleo (50 dias após a Festa do Novo Vinho). Essa sequencia de festas nos mostra que, depois da Páscoa, de cinquenta em cinquenta dias, era celebrada uma festa. Sendo uma das festas a do Novo Vinho, podemos entender melhor essa zombaria no texto: “estão cheios de vinho doce”. Lucas pode ter conhecido múltiplos Pentecostes entre os contemporâneos Judeus e fez alusão ao Pentecostes do Novo Vinho, quando fala, mais propriamente, do Pentecostes do Novo Trigo.
f)  Discurso de Pedro: Como Moisés, Pedro faz um discurso para fortalecer na fé os que aceitaram a proposta de Jesus e desmascara os que não estão dispostos a seguir o novo. Pedro, como liderança do grupo dos apóstolos, convoca a comunidade a acreditar em Jesus de Nazaré que foi morto e ressuscitou dos mortos por intervenção divina. Diante da reação atônita da comunidade, só resta a conversão para obter a salvação.       
2. Evangelho (João 20,19-23): Pentecostes é a nova páscoa para os seguidores de Jesus, na paz e no anúncio do Espírito Santo.
A comunidade está reunida e com medo. O ressuscitado ultrapassa a barreiras físicas e aparece diante dela. Ele lhes diz: ‘a paz esteja convosco’. “Paz se diz em hebraico Shalom, o qual, por sua vez, tem sua origem no verbo Shlm que, no tempo verbal piel,significa pagar, devolver, ressarcir, indenizar, conservar. Da mesma raiz, o adjetivo Shalem significa estar completo, inteiro. Pagar em hebraico tem o sentido de completar o valor justo. É uma forma simbólica de completar o vazio deixado pelo objeto tirado. Quem compra e não paga mutila o outro. Paz é um eterno estar em harmonia com Deus, o outro e o universo. Os judeus acreditam que o Messias só virá, quando a justiça social estiver implantada em nosso meio. Jerusalém, a cidade (Yeru) da paz (Shalem), é protótipo desse sonho, dessa esperança. Jerusalém, em hebraico se escreve, na verdade, Ierushalaim. Duas vezes aparece o i(em hebraico yod), sendo que na segunda vez ele não é pronunciado, pois representa o nome de Deus, Iahweh. Os outros povos, não compreendendo o significado do i no nome dessa cidade santa, traduziram o seu nome para Jerusalém. O yod representa, para o semita, a esperança. E é nesse contexto que podemos entender a fala de Jesus: “Nem um i sequer será tirado da Lei” (Mt 5,18). A esperança de paz, de voltar ao tempo de Deus, jamais acabará para quem sabe esperar. Jesus pôde dizer Paz a vós, pois ele é a paz. A sua presença já é paz e esperança. Quando, na missa, saudamos o outro com a expressão paz de Cristo, desejamos que Cristo esteja dentro dele e que ele seja qual outro ressuscitado. A expressão “Paz de Cristo” reúne os elementos do ser completo, da harmonia e, mais do que isso, da presença duradoura de Deus transmitida por Jesus aos seus” (Cf. Faria, Jacir de Freitas, As origens apócrifas do cristianismo, comentários aos evangelhos de Maria Madalena e Tomé. 2 ed. São Paulo: Paulinas, 2003, p.??).
Para as comunidades joaninas, Pentecostes, como dom do Espírito, se realiza na Páscoa. Jesus, na sua morte de cruz, entrega o Espírito (Jo 19,30). Jesus ressuscitado aparece aos discípulos e lhes oferece o Espírito Santo, como nos atesta o evangelho de hoje (v.22). A comunidade pascal é portadora da paz e da força do Espírito do Ressuscitado que deve ser levado ao mundo. Ela é sinal da ação do Espírito que faz passar da morte para a vida todo o universo. Por isso, Jesus envia a comunidade ao mundo, com a missão de reconciliá-lo com Deus, combatendo as forças do mal. A nova comunidade dos judeus cristãos é portadora do projeto de Deus para a verdadeira unificação do mundo. Esse segredo chama-se: páscoa do ressuscitado. Sua força é a mesma de Pentecostes: reunir a diversidade na unidade. O desafio da comunidade é abrir as portas da ‘casa’: sair de si para reconhecer no universo o “vendaval” do Espírito que tudo renova, tudo recria e que sopra onde quer.
3. II leitura (I Coríntios 12,3b -7.12-13): O Espírito, fonte de diversidade e de  comunhão
Tendo aprofundado o caráter simbólico da solenidade de Pentecostes, nos deparamos com a segunda leitura de hoje, a qual é um desafio proposto à comunidade de Corinto, em meio às divisões que ela sofria. Paulo insiste na comunhão no mesmo Espírito, na diversidade de ministérios, atividades, raças, culturas e povos. Diversidade é sinal da riqueza do único corpo de Cristo e condição para a unidade. O Espírito distribui os dons e reúne tudo e todos em Cristo. Assim, todos devem ser responsáveis e contribuir para o crescimento da comunidade, o Corpo do Senhor. Essa unidade só é possível porque envolve três realidades: 1) a ressurreição de Jesus que reúne o corpo e a comunidade; 2) a força do Espírito que impulsiona esse corpo e 3) a diversidade de dons necessários à vida do corpo.
Na Comunidade de Corinto e nas de hoje, reconhecer Jesus como Senhor, título do Ressuscitado, é abandonar toda e qualquer divisão entre os irmãos. É ser sinal do amor de Deus para o mundo, deixando a energia do Espírito nos conduzir ao diferente, ao novo, manifestando a todos a vida que Deus dá. É o que expressa o prefácio litúrgico de Pentecostes: “…é ele quem dá a todos os povos o conhecimento do verdadeiro Deus e une, numa só fé, a diversidade das raças e línguas”. A unidade dos cristãos é um desafio constante para todos nós. É nesse espírito que somos convidados a viver a Páscoa do Senhor como fator de unidade entre todas as Igrejas e entre todo o gênero humano. Pentecostes, assumido pela tradição cristã como plenitude da Páscoa de Jesus, é a força capaz de nos fazer compreender e viver em profundidade o projeto universal de vida para todos. Faz-nos enxergar no diferente, e até no estranho, a força da vida divina. A vida nova em Cristo tem força “simbólica”, unificadora: supõe abandonar tudo o que divide, afasta e cria abismos na convivência humana e ecológica, para abraçar outra norma de vida: o amor que reúne, aproxima e refaz a convivência na humanidade. É o Espírito, força de vida e de unidade, o único capaz de nos conectar com todo o universo e com a fonte da vida.
III.  PISTAS PARA REFLEXÃO
1. Demonstrar que o Espírito Santo é o coração palpitante que animou a vida das primeiras comunidades cristãs no anúncio do evangelho e na fé em Jesus ressuscitado. Somos herdeiros dessa fé intrépida que rompeu barreiras e ganhou o mundo.
2. Demonstrar que a grande mensagem de Pentecostes é a evangelização e não o falar línguas. A vivacidade de nossas comunidades é um exemplo de um novo Pentecostes acontecendo.
3. O Espírito de Deus em Pentecostes enche todo o universo e mantém unidas todas as coisas; gera novas relações na comunidade e no mundo; realiza a plenitude da Aliança do Sinai: o amor sem fronteiras.


Frei Jacir de Freitas Faria, OFM é Padre franciscano, escritor, mestre em Ciências Bíblicas pelo Pontifício Instituto Bíblico, de Roma, especialista em evangelhos apócrifos, professor de exegese bíblica no Instituto Santo Tomás de Aquino – ISTA, em Belo Horizonte e em cursos de Teologia para leigos. Autor de uma centena de artigos. Autor e coautor de quinze livros, sendo o último: Infância apócrifa do menino Jesus. Histórias de ternura e travessura. Petrópolis: Vozes, 2010. Diretor Geral e Pedagógico dos Colégios Santo Antônio e Frei Orlando, ambos em Belo Horizonte.
Veja mais: www.bibliaeapocrifos.com.br

25 de maio de 2012

PENTECOSTES: Como minha avó a soprar brasas -

 Edmilson Schinelo

O que o grupo seguidor de Jesus estava celebrando?
Pentecostes, em Israel, era a festa que marcava o final da colheita dos cereais. Era uma festa agrária, na qual se louvava a Deus pelos primeiros frutos da terra em cada ano. O povo judeu a chamava e ainda a chama de Shavuot, Festa das Semanas, por ser celebrada no primeiro dia, depois de transcorridas sete semanas desde a Páscoa. Por isso o nome grego Pentecostes - qüinquagésimo dia (Dt 16,9-10). Mais tarde, as comunidades judaicas associaram a festa agrária com uma data também histórica, recordando, nesse dia, a entrega das tábuas do Decálogo no Monte Sinai (Ex 19-20).
Como o texto de At 2 foi escrito pelo menos 50 anos depois, já houve tempo para que as comunidades e o redator final elaborassem uma narrativa muito mais cheia de sentido simbólico, que nos ajuda ainda hoje em nossa leitura e em nossa caminhada de fé. Anunciando a chegada do Espírito Santo na festa da antiga lei, estão a nos dizer que a nova aliança é agora selada com o próprio sopro divino.

Sobre quem pousa o Espírito Santo?
Há várias maneiras de se ler o texto de At 2. Bastante comum entre nós é um tipo de leitura que quase dispensa o próprio texto bíblico. Trata-se da leitura feita a partir dos quadros artísticos, nos quais vemos línguas de fogo pousando sobre o grupo dos Doze, quase sempre tendo Maria ao centro, fechados em uma sala bastante luxuosa. Por mais que respeitemos essa leitura, é importante que digamos que a mesma não corresponde à narrativa bíblica: "tendo-se completado o dia de Pentecostes, estavam todos reunidos no mesmo lugar (At 2,1).
"Todos quem?", devemos nos perguntar. Pouco antes, podemos ler que "o número das pessoas reunidas era de mais ou menos cento e vinte" (At 1,15). Tendo em vista que não houve nenhuma indicação de mudança de grupo, é evidente que o "todos" do texto imediatamente seguinte refere-se a esse grupo de cento e vinte pessoas. Ou seja, o Espírito Santo é derramado sobre todas as pessoas da Igreja nascente (o número é rico em simbologia) e não apenas sobre algumas de suas lideranças. Não é por acaso que o relato evoca as palavras do profeta Joel: "Derramarei o meu espírito sobre todas as pessoas (literalmente: sobre toda carne), vossos filhos e vossas filhas profetizarão" (Jl 3,1; At 2,17). Esta lembrança é de importância fundamental, pois significa a reafirmação de um princípio óbvio de nossa fé: ninguém pode se apossar do Espírito Santo.
Um espírito que se manifesta na casa e não no templo!
Outro aspecto a ser observado tem a ver com o local da manifestação do Espírito divino. O texto inicia dizendo que "estavam todos reunidos no mesmo lugar". Que lugar seria esse? O texto grego fala de "mesmo lugar". Traduções mais antigas gostavam de usar a palavra "cenáculo", que literalmente significa "o lugar onde a gente janta", faz a ceia - a cena. Traduziam assim provavelmente por dedução a partir do último lugar especificamente citado: a "sala superior" para onde o grupo havia voltado e onde costumava ficar (At 1,13). Logo em seguida, entretanto, fala-se da reunião dos "quase cento e vinte irmãos", na qual se procede à escolha de Matias no lugar de Judas Iscariotes (At 1,15-26). E do ruído, que, como o agitar do vento, enche toda a casa onde se encontravam (At 2,2).
Muita gente quis interpretar que se tratava de um lugar muito grande para reunir tanta gente. O mais importante, porém, não é discutir o tamanho do lugar, visto que a cultura judaica chama de casa o espaço do clã (como em culturas africanas e indígenas, a casa verdadeira é a sombra das árvores, o quintal, onde a vida acontece). O que precisamos considerar é que, por mais que o Livro dos Atos valorize o templo (cf. At 2,46), é no espaço da casa que o Espírito se manifesta. A casa é o espaço aberto, enquanto o templo se fechava às mulheres, aos estrangeiros, aos "impuros". A casa é o lugar da acolhida e, ao mesmo tempo, da partilha: o lugar da ceia comum (Lc 24,13-35). Assim como o pão se reparte, também o Espírito se reparte a todas as pessoas da casa. E se no templo, apenas os homens querem ter poder, na casa, é comum que este poder se exerça de forma também mais partilhada. Como podemos ler, ali "todos eles se reuniam sempre em oração, com as mulheres, entre as quais Maria, a mãe de Jesus, e os irmãos dele" (At 1,14).
Como minha avó a soprar as brasas
Muitas imagens são evocadas no texto, a maioria delas buscada no Primeiro Testamento. Além da casa e do número 12 X 10, é expressiva a imagem do vento, das línguas e do fogo.
O vento lembra o sopro de Deus que abriu o Mar (Ex 14,21). As línguas lembram Babel (Gn 11,1-9), onde Deus também prefere a diversidade das línguas. Também agora, cada pessoa ouve as maravilhas de Deus na sua própria língua (At 2,11). O fogo lembra a sarça ardente (Ex 3,1-10), lembra a coluna de nuvem (Ex 13,21). E toda a cena lembra especialmente a conclusão da Aliança no Sinai (Ex 19,16-19).
Mas o vento e o fogo também lembram minha avó, enchendo suas simpáticas bochechas para acender fogo na fornalha ou no fogão de lenha, tarefa que exigia cuidado e, ao mesmo, tempo expressa exercício de poder. Essa é a imagem que faço de Pentecostes: a divindade, com suas grandes bochechas, a soprar em nossas brasas, quando querem se apagar. Às vezes, uma brisa leve (a Ruah divina) é suficiente para que nossas brasas se acendam. Outras vezes, faz-se necessário um sopro bem mais forte, ventania até, para que sejamos sacudidas e sacudidos em nossa inércia!
Que neste Pentecostes, possam as bochechas divinas nos despertar de nossa acomodação, especialmente aquela que nos deixa inertes em nossos templos, em nossos cultos e nossas missas! Que possamos louvar o Espírito lá onde ele se manifestou primeiro, no cotidiano das pessoas, em suas próprias casas. Mas especialmente na vida das pessoas empobrecidas cujo espaço muitas vezes nem mesmo podemos chamar de casas. Pois é para isso que o mesmo Espírito de Pentecostes nos conclama: "O Espírito do Senhor está sobre mim, ele me ungiu para levar uma notícia alegre aos pobres" (Is 61,1; Lc 4,18).

Edmilson Schinelo (schinelo@terra.com.br)

22 de maio de 2012

Cristovam Buarque - A POBREZA DA RIQUEZA

Cristovam Buarque

Em raros países os ricos dispõem de tanta ostentação quanto no Brasil. Apesar disso,
os ricos brasileiros são pobres.
São pobres porque compram sofisticados automóveis importados, com todos os
exagerados equipamentos da modernidade, mas ficam horas engarrafados ao lado
dos ônibus de subúrbio. E às vezes são assaltados, seqüestrados e mortos nos sinais
de trânsito.
Presenteiam belos carros a seus filhos, mas não dormem tranqüilos enquanto eles não
chegam em casa. Pagam fortunas para construir modernas mansões, desenhadas por
arquitetos de renome, e são obrigados a escondê-las atrás de muralhas, como se
vivessem nos tempos dos castelos medievais.
Os ricos brasileiros usufruem privadamente de tudo que a riqueza lhes oferece, mas
vivem encalacrados na pobreza social.
Nas sextas-feiras, saem de noite para jantar em restaurantes tão caros que os ricos da
Europa não poderiam freqüentar, mas perdem o apetite diante da pobreza que por
perto arregala os olhos pedindo um pouco de pão; ou são obrigados a comer em
restaurantes fechados, cercados e protegidos por policiais privados. Quando terminam
de jantar escondidos, são obrigados a tomar o carro na porta, trazido por um
manobrista, sem o prazer de caminhar pela rua, ir a um cinema ou teatro e seguir até
o bar preferido para conversar sobre o que viram.
Não é raro que o rico seja assaltado antes de terminar a refeição, ou no caminho de
casa.
Quando isto não acontece, a viagem é um susto até quando se abriu o portão
automático, como as antigas pontes levadiças dos castelos medievais. E, às vezes, o
susto continua dentro de casa. Os ricos brasileiros são pobres de tanto medo. Por
mais riquezas que acumulem no presente, são pobres  na falta de segurança para
usufruir seu patrimônio e no susto permanente diante das incertezas em que os filhos
crescerão.
O rico brasileiro fica menos rico de tanto gastar dinheiro apenas para corrigir os
desacertos criados pela desigualdade que suas riquezas provocam em termos de
insegurança e ineficiência. No lugar de usufruir todo o seu dinheiro, é obrigado a
gastar uma parte dele para proteger-se de perdas que sua riqueza provoca. Por causa
da pobreza ao redor, os ricos brasileiros vivem um paradoxo: para ficarem mais ricos
têm que ficar mais pobres, gastando cada vez mais dinheiro apenas para se proteger
da realidade hostil e ineficiente.
Quando viajam ao exterior, se tiverem um mínimo de informação, os ricos sabem que
no hotel onde se hospedarão serão vistos como destruidores de florestas na
Amazônia, usurpadores da maior concentração de renda no planeta, assassinos de
crianças na Candelária, portadores de malária, dengue, verminose. São ricos
empobrecidos pela vergonha que sentem ao serem vistos pelos olhos estrangeiros.
Porém, a maior pobreza dos ricos brasileiros encontra-se em sua incapacidade de
enxergar a riqueza que há nos pobres.
Foi esta pobreza de visão que impediu os ricos brasileiros de perceberem, há cem
anos, a riqueza que havia nos braços dos escravos libertos se lhes fosse dado o
direito de trabalhar a imensa e ociosa terra de que o país dispunha. Se tivessem
percebido esta riqueza e libertado a terra junto com os escravos, os ricos brasileiros
teriam abolido a pobreza que os acompanha ao redor  da riqueza. Se os latifúndios
tivessem sido colocados à disposição dos braços dos 34 ex-escravos, a riqueza criada
teria chegado aos ricos de hoje, que viveriam em cidades sem o peso da imigração
descontrolada, com uma população sem miséria.
A pobreza de visão dos ricos impediu-os de ver a riqueza que há na cabeça de um
povo educado. Ao longo de toda a nossa história, os nossos ricos abandonaram a educação do povo, desviaram os recursos para criar  a riqueza só deles e ficaram
pobres: contratam trabalhadores com baixa produtividade, investem em modernos
equipamentos e não encontram quem os saiba manejar, vivem rodeados de
compatriotas que não sabem ler o mundo ao redor. Muito mais ricos seriam os ricos se
vivessem em uma sociedade onde todos fossem educados.
Achando que ao comprar água mineral se protegiam das doenças dos pobres, os ricos
construíram viadutos para seus carros com o dinheiro que teria permitido colocar água
e esgoto nas casas do povo. Montam modernos hospitais, mas têm dificuldades para
evitar infecções decorrentes da falta de esgotos nas cidades. Com a pobreza de achar
que poderiam ficar ricos sozinhos, construíram um país doente e vivem no meio da
doença.
Há um grave quadro de pobreza entre os ricos brasileiros. E esta pobreza é tão grave
que a maior parte deles não percebe. Por isso, a pobreza de espírito tem sido o maior
inspirador das decisões governamentais das pobres elites ricas brasileiras.
Se percebessem a riqueza potencial que há nos braços e nos cérebros dos pobres, os
ricos brasileiros poderiam reorientar o modelo de desenvolvimento em direção aos
nteresses de nossas massas. Esta seria uma decisão que enriqueceria o Brasil nteiro,
pois os pobres sairiam da pobreza e os ricos sairiam da vergonha, da insegurança, da
ineficiência e da insensatez.
Mas talvez isto seja querer demais. Os ricos são tão pobres que não percebem a triste
pobreza em que usufruem suas malditas riquezas.
Disponível em: http://www.portalbrasil.net/reportagem_cristovambuarque.htm
Texto do livro “Os Instrangeiros”, de Cristovam Buarque, editora Garamond.

20 de maio de 2012

Cristovam Buarque - O Rico Pobre

Cristovam Buarque 
(O Globo 12.02.01)

Em nenhum outro país os ricos demonstraram mais ostentação que no Brasil. Apesar disso, os brasileiros ricos são pobres. São pobres porque compram sofisticados automóveis importados, com todos os exagerados equipamentos da modernidade, mas ficam horas engarrafados ao lado dos ônibus de subúrbio. E, às vezes, são assaltados, seqüestrados ou mortos nos sinais de trânsito. Presenteiam belos carros a seus filhos e não voltam a dormir tranqüilos enquanto eles não chegam em casa. Pagam fortunas para construir modernas mansões, desenhadas por arquitetos de renome, e são obrigados a escondê-las atrás de muralhas, como se vivessem nos tempos dos castelos medievais, dependendo de guardas que se revezam em turnos.

Os ricos brasileiros usufruem privadamente tudo o que a riqueza lhes oferece, mas vivem encalacrados na pobreza social.

Na sexta-feira, saem de noite para jantar em restaurantes tão caros que os ricos da Europa não conseguiriam freqüentar, mas perdem o apetite diante da pobreza que ali por perto arregala os olhos pedindo um pouco de pão; ou são obrigados a restaurantes fechados, cercados e protegidos por policiais privados. Quando terminam de
comer escondidos, são obrigados a tomar o carro à porta, trazido por um manobrista, sem o prazer de caminhar pela rua, ir a um cinema ou teatro, depois continuar até um bar para conversar sobre o que viram.

Mesmo assim, não é raro que o pobre rico seja assaltado antes de terminar o jantar, ou depois, na estrada a caminho de casa. Felizmente isso nem sempre acontece, mas certamente, a viagem é um susto durante todo o caminho. E, às vezes, o sobressalto continua, mesmo dentro de casa.

Os ricos brasileiros são pobres de tanto medo. Por mais riquezas que acumulem no presente, são pobres na
falta de segurança para usufruir o patrimônio no futuro. E vivem no susto permanente diante das incertezas em que os filhos crescerão.

Os ricos brasileiros continuam pobres de tanto gastar dinheiro apenas para corrigir os desacertos criados pela
desigualdade que suas riquezas provocam: em insegurança e ineficiência.

No lugar de usufruir tudo aquilo com que gastam, uma parte considerável do dinheiro nada adquire, serve apenas para evitar perdas. Por causa da pobreza ao redor, os brasileiros ricos vivem um paradoxo: para ficarem mais ricos têm de perder dinheiro, gastando cada vez mais apenas para se proteger da realidade hostil e eficiente.

Quando viajam ao exterior, os ricos sabem que no hotel onde se hospedarão serão vistos como assassinos de crianças na Candelária, destruidores da Floresta Amazônica, usurpadores da maior concentração de renda do
planeta, portadores de malária, de dengue e de verminoses. São ricos empobrecidos pela vergonha que sentem ao serem vistos pelos olhos estrangeiros.

Na verdade, a maior pobreza dos ricos brasileiros está na incapacidade de verem a riqueza que há nos pobres. Foi esta pobreza de visão que impediu os ricos brasileiros de perceberem, cem anos atrás, a riqueza que havia nos braços dos escravos libertos se lhes fosse dado direito de trabalhar a imensa quantidade de terra ociosa de que o país dispunha. Se tivesse percebido essa riqueza e libertado a terra junto com os escravos, os ricos brasileiros teriam abolido a pobreza que os acompanha ao longo de mais de um século. Se os latifúndios tivessem sido colocados à disposição dos braços dos ex-escravos, a riqueza criada teria chegado aos ricos de hoje, que viveriam em cidades sem o peso da imigração descontrolada e com uma
população sem miséria.

A pobreza de visão dos ricos impediu também de verem a riqueza que há na cabeça de um povo educado. Ao longo de toda a nossa história, os nossos ricos abandonaram a educação do povo, desviaram os recursos para criar a riqueza que seria só deles, e ficaram pobres: contraam trabalhadores com baixa produtividade, investem em modernos equipamentos e não encontram quem os saiba manejar, vivem rodeados de compatriotas que não sabem ler o mundo ao redor, não sabem mudar o mundo, não sabem construir um novo
país que beneficie a todos. Muito mais ricos seriam os ricos se vivessem em uma sociedade onde todos fossem educados.

Para poderem usar os seus caros automóveis, os ricos construíram viadutos com dinheiro de colocar água e esgoto nas cidades, achando que, ao comprar água mineral, se protegiam das doenças dos pobres. Esqueceram-se de que precisam desses pobres e não podem contar com eles todos os dias e com toda saúde, porque eles (os pobres) vivem sem água e sem esgoto. Montam modernos hospitais, mas tem dificuldades em evitar infecções porque os pobres trazem de casa os germes que os contaminam. Com a pobreza de achar que poderiam ficar ricos sozinhos, construíram um país doente e vivem no meio da doença.

Há um grave quadro de pobreza entre os ricos brasileiros. E esta pobreza é tão grave que a maior parte deles não percebe. Por isso a pobreza de espírito tem sido o maior inspirador das decisões governamentais das pobres ricas elites brasileiras.

Se percebessem a riqueza potencial que há nos braços e nos cérebros dos pobres, os ricos brasileiros poderiam reorientar o modelo de desenvolvimento em direção aos interesses de nossas massas populares. Liberariam a terra para os trabalhadores rurais, realizariam um programa de construção de casas e implantação de redes de água e esgoto, contratariam centenas de milhares de professores e colocariam o povo para produzir para o próprio povo. Esta seria uma decisão que enriqueceria o Brasil inteiro - os pobres que sairiam da pobreza e os ricos que sairiam
da vergonha, da insegurança e da insensatez.

Mas isso é esperar demais. Os ricos são tão pobres que não percebem a triste pobreza em que usufruem suas malditas riquezas.

Cristovam Buarque, professor da UNB, é autor do livro "A desordem do progresso". (Jornal O Globo, Opinião, pág. 7 - 12/02/2001).

Os Essênios

Rhenan Carvalho      (com os meus agradecimentos por ter permitido a publicação no Blog)



“Eles respeitavam a vida acima de tudo, escreveram os mais antigos textos 
bíblicos e influenciaram o cristianismo.”



 Em 1923, o húngaro Edmond Szekely obteve permissão para pesquisar os arquivos secretos do Vaticano. Estava à procura de livros que teriam influenciado São Francisco de Assis. Curioso e encantado, vagou pelos mais de 40 quilômetros de estantes com pergaminhos e papiros milenares. Viu evangelhos nunca publicados e manuscritos originais de muitos santos e apóstolos, condenados a permanecer escondidos para sempre. De todas essas raridades, uma obra em especial lhe chamou a atenção. Era o Evangelho Essênio da Paz. O livro teria sido escrito pelo apóstolo João e narrava passagens desconhecidas da vida de Jesus Cristo, apresentado ali como o principal líder de uma seita judaica até então pouco comentada – os essênios. Szekely não perdeu tempo. Traduziu o texto e o publicou em quatro volumes. Sentindo-se traída pelo pesquisador, a Igreja o excomungou.
Não foi uma punição tão grave. Considere o que aconteceu com o reverendo inglês Gideon Ouseley. Em 1880, ele achou um manuscrito chamado O Evangelho dos Doze Santos em um monastério budista na índia. O texto em aramaico – a língua que Jesus falava – teria sido levado para o Oriente por essênios refugiados.

Ouseley ficou eufórico e saiu espalhando que tinha descoberto o verdadeiro Novo Testamento. Afirmava que a Bíblia estava incorreta, pois Cristo era um essênio que defendia a reencarnação e o vegetarianismo. Se hoje essa tese soa estranha, dizer isso na Inglaterra vitoriana do século XIX era blasfêmia da pior espécie. Resultado: os conservadores atearam fogo na casa de Ouseley e o original foi destruído.
O mistério que envolve esses dois textos e o tom místico que os descobridores deram aos seus achados acabaram manchando seu crédito diante dos historiadores. Além do mais, teorias exóticas sobre Jesus é o que não falta. Em 1970, o pesquisador inglês John Allegro, que já havia estudado os essênios, tentou provar que Jesus nunca havia existido e que teria sido uma alucinação coletiva causada pela ingestão de cogumelos. Por motivos óbvios, essa teoria não foi muito bem aceita pelos seus colegas cientistas. Segundo eles, Allegro entendia mais de cogumelos do que de Cristo.
Para os historiadores, os essênios seriam até hoje uma note de rodapé na História se, em 1947, dois pastores beduínos não tivessem por acidente levado a uma das maiores descobertas arqueológicas do século. Escondidos em cavernas próximas ao Mar Morto, em Israel, 813 manuscritos redigidos pelos essênios entre 225 a.C.



E o ano 68 da nossa era guardavam as mais antigas cópias do Antigo Testamento, calendários e textos da Bíblia. Perto das cavernas, em Qumran, estavam as ruínas de um monastério essênio e um cemitério com cerca de 1200 esqueletos, quase todos masculinos.
O achado deu início a um longo e árduo esforço de tradução dos manuscritos por teólogos e cientistas de várias universidades no mundo. Milhares deles estavam em pedaços minúsculos, menores do que uma unha. “Hoje, 90% dos textos já foram transcritos”, diz o teólogo Geza Vermes, da Universidade de Oxford, que pesquisa os manuscritos. O que já é suficiente para moldar uma imagem mais precisa da história, da doutrina, da crença e dos hábitos essênios, que ficaram séculos a fio esquecidos nas ruínas daquele monastério.
O surgimento da doutrina essênia aconteceu em tempos conturbados. Os judeus viveram sob dominação de diversos povos estrangeiros desde 587 a.C., quando Jerusalém foi devastada pelos babilônios, habitantes da atual região do Iraque. Por volta do século II a.C., o domínio era exercido pelos selêucidas, um povo grego que habitava a Síria. A cultura helenista proliferava e a tradição hebraica sofria fortes ameaças. Para recuperar o judaísmo, os israelitas acreditavam na vinda do Messias que chegaria ao final dos tempos para exterminar os infiéis e salvar os seguidores da Bíblia. A chegada do Salvador poderia se dar a qualquer instante.
Os mais ortodoxos seguiam tão à risca os preceitos religiosos e buscavam a ascese e a pureza com tal fervor que ficavam chocados com os hábitos mundanos dos gregos e a presença de leprosos, cegos, surdos e cachorros passeando pela cidade e pelos templos. Entre eles estavam os essênios. Um dia boa parte deles, liderados por um sacerdote, partiu para o Deserto da Judéia (atual Israel) para orar, meditar e estudar as leis sagradas. Longe, bem longe, de tudo o que eles consideravam impuro. Surgia assim o monastério de Qumran, uma das primeiras comunidades monásticas do Ocidente.
A região escolhida para a construção do monastério é a de menor altitude no planeta -400 metros abaixo do nível do mar. As chuvas são raras e o mar é tão salgado que é impossível mergulhar nele, pois a enorme densidade da água mantém o banhista na superfície. Para prosperar, os bens individuais e as tarefas foram divididos entre toda a comunidade e regras de disciplina e de hierarquia foram instituídas. A presença de mulheres em Qumran, por exemplo, era proibida. Transgressões eram duramente punidas. A interpretação das leis e profecias cabia amestre da justiça, o mesmo sacerdote que teria guiado os essênios até Qumran. Ele era respeitado e cultuado por todos e logo virou uma entidade mítica. O guardião, por sua vez, presidia as refeições e decidia as questões a respeito da doutrina, justiça e pureza. Essa figura inspirou a formação da palavra grega “epis copus” (aquele que olha de cima), que foi a origem de “bispo”.

É possível conhecer o dia-a-dia dos essênios a partir do legado do historiador judeu Flávio Josefo (37-100). Aos 16 anos Josefo recebeu lições de um mestre essênio, com quem viveu durante três anos. Os membros da seita acordavam antes do nascer do sol. Permaneciam em silencio e faziam suas preces até o momento em que um mestre dividia as tarefas entre eles de acordo com a aptidão de cada um. Trabalhavam durante 5 horas em atividades como o cultivo de vegetais ou o estudo das Escrituras. Terminadas as tarefas, banhavam-se em água fria e vestiam túnicas brancas. Comiam uma refeição em absoluto silêncio, só quebrado pelas orações recitadas pelo sacerdote no início e no fim. Retiravam então a túnica branca, considerada sagrada, e retornavam ao trabalho até o pôr-do-sol. Tomavam outro banho e jantavam com a mesma cerimônia.
Os essênios tinham com o solo uma relação de devoção. Josefo conta que um dos rituais comuns deles consistia em cavar um buraco de cerca de 30 centímetros de profundidade em um lugar isolado dentro do qual se enterravam para relaxar e meditar.
Diferentemente dos demais judeus, a comunidade usava um calendário solar de 364 dias, inspirado no egípcio. O primeiro dia do ano e de cada mês caía sempre um uma quarta-feira, porque de acordo com o Gênesis, o Sol e a Lua foram criados no quarto dia. O calendário diferente trouxe vários problemas para os essênios. Outros judeus poderiam atacar o monastério no shabbath – o dia sagrado reservado ao descanso, no qual era proibido qualquer esforço, inclusive o de se defender.
A correta observação das regras garantiria a salvação dos essênios quando chegasse o apocalipse, que seria a vitória dos puros “filhos da luz” contra os “filhos das trevas”. No mundo essênio, aliás, tudo era dividido segundo uma visão maniqueísta que tornava possível até mesmo determinar quantas porções de luz e de escuridão cada um possuía. Um sectário de dedos rechonchudos, coxas grossas e cheias de pêlos teria oito porções na casa das trevas para uma de claridade. No mesmo manuscrito, um outro membro obteve um placar mais favorável. Por ter olhos negros e brilhantes, voz suave, dentes alinhados, dedos longos e canelas lisas seu espírito foi condecorado com oito partes de luz para uma de trevas. Para os essênios, a beleza do corpo também era sinal de pureza espiritual.
Graças a essa organização toda, Qumran produzia tudo de que precisava. A dieta era vegetariana. Os essênios tinham um enorme respeito pela natureza. Nenhum homem poderia sujar-se comendo qualquer criatura viva. A regra permitia uma única exceção. Eles podiam comer peixe, desde que fosse aberto vivo e tivesse seu sangue retirado. As refeições eram frugais, com legumes, azeitonas, figos, tâmaras e, principalmente, um tipo muito rústico de pão, que quase não levava fermento. Eles possuíam pomares e hortos irrigados pela água da chuva, que era recolhida em enormes cisternas e servia como bebida. Além dela, as bebidas essênias se resumiam ao suco de frutas’ e “vinho novo”, um extrato de uva levemente fermentado. No shabbath, os sectários deveriam passar o dia inteiro em jejum. Os hábitos alimentares frugais e a vida metódica dos essênios garantiam-lhes uma vida saudável. Segundo Josefo, muitos deles teriam atingido idade extraordinariamente avançada.



Para os essênios, as refeições devem ser uma  Comunhão com Deus  

“Eles viviam em tendas, que mudavam Del lugar freqüentemente, pois construções permanentes matariam a relva”, afirma Fernando Travi. Ele acredita que Jesus, apesar de ter passado por Qumran, viveu muito mais tempo em Monte Carmel. A região em que teria existido essa comunidade está próxima ao local em que Jesus nasceu e realizou muitos de seus milagres. Afirma também que Cristo não era conhecido como “Jesus de Nazaré”, mas sim como “Jesus, o Nazareno”.  Algumas dessas comunidades essênias existem, de certa forma, até hoje.

A Filosofia Essênia

Szekely pesquisou o pensamento dos essênios durante toda a vida. Uma de suas principais obras é a tradução de um manuscrito encontrado em 1785 pelo historiador francês Constantine Volney em viagens pelo Egito e pela Síria. É um diálogo entre Josefo e o mestre essênio Banus a respeito das leis da natureza. Eis alguns trechos:
Bem – Tudo aquilo que preserva ou produz coisas para o mundo, como “o cultivo dos campos, a fecundidade de uma mulher e a sabedoria de um professor”.
Mal – O que causa a morte, como a matança de animais. Por esse motivo, o sacrifício de bichos, mesmo que para a alimentação, é condenável.
Justiça – O homem deve ser justo porque na lei da natureza as penalidades são proporcionais às infrações. Deve ser pacífico, tolerante e caridoso com todos, “para ensinar aos homens como se tornarem melhores e mais felizes”.
Temperança – Sobriedade e moderação das paixões são virtudes, pois os vícios trazem muitos prejuízos à saúde.
Coragem – Ela é essencial para “rejeitar a opressão, defender a vida e a liberdade”.
Higiene – Uma outra virtude essencial dos essênios é a limpeza, “para renovar o ar, refrescar o sangue e abrir a mente à alegria”.
Perdão – No caso de as leis não serem cumpridas, a penitência é simples. Banus afirma que, para se obter perdão, deve-se “fazer um bem proporcional ao mal causado”

__________________________________________________________________________



Jesus e os Essênios

Não busqueis a lei em vossas escrituras,porque a lei é a vida,enquanto o escrito está morto…(Jesus,o Nazareno)”

Este volume traz a tradução, feita pelo conhecido filósofo Edmond Bordeaux Szekely, dos manuscritos existentes em aramaico, nos Arquivos Secretos do Vaticano, e em esloveno, nos Arquivos Reais dos Habsburgos, e que constituem o que convencionou chamar de Evangelho Essênio da Paz. Segundo depoimentos de seu autor, esta tradução foi feita “em harmonia com as grandes tradições dos essênios, rejeitando os métodos dogmáticos da interpretação literal e puramente científica, bem como os exageros da corrente simbolista”. Seu conhecimento proporcionará ao leitor o sentimento de vitalidade eterna das verdades profundas de que a humanidade necessita hoje mais do que nunca.




O Evangelho esta no link abaixo em arquivo pdf.

http://www.giseledemenezes.com/esseniodapaz.pdf
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30 de abril de 2012

Praça Saens Penña-orgulho dos Tijucanos - 101 anos

 S. Penña 2010

Hoje 30 de abril , a Praça Saens Penña, coração do Bairro da Tijuca, no Rio de Janeiro  faz 101 anos.
Como eu tenho saudades da praça da minha infância, dos muitos cinemas, do Cinema Metro Tijuca e das matinês do Ton & Jerry, do cinema Olinda, que na adolescência eu vi filmes de Felini, Pasolini e Buñuel. Saudades do Café Palheta e do Cine América antes de virarem Farmácias ! E do Cinema Carioca, que o triste destino o transformou em Igreja Universal...

S. Penña década de 50/60

Eu acho que estou velho, mas digam de verdade se a praça  não era linda ?
Em termos de cultura, era o máximo:  9 (nove)  Cinemas: Carioca( hoje Igreja Universal), América  
(hoje drogaria Pacheco), Metro( hoje C&A), Art-Palácio(hoje Leader), Skye (que osteriormente virou Tijuca I e II - hoje Casa &Vídeo), Cine Rio (hoje Banco Itaú), Tijuca Palace( hoje curso Miguel Couto) , Bruni Tijuca (hoje labs D'or),  Britania, e Cinema III ( hoje uma igreja evangelica) e mais  2(dois) teatros...
Hoje na praça não temos cinemas, nem teatros...
A modernidade maltratou muito a minha Tijuca...

28 de abril de 2012


DEUS SEGUNDO SPINOZA   

“Pára de ficar rezando e batendo o peito! O que eu quero  que faças é que saias pelo mundo e desfrutes de tua vida. 
Eu  quero que gozes, cantes, te divirtas e que desfrutes de tudo o  que Eu fiz para ti. 

Pára de ir a esses
templos lúgubres,  obscuros e frios que tu mesmo construíste e que acreditas ser a  minha casa.
Minha casa está nas montanhas, nos bosques, nos  rios, nos lagos, nas praias. Aí é onde Eu vivo e aí expresso meu  amor por ti.

Pára de me culpar da tua vida miserável: Eu  nunca te disse que há algo mau em ti ou que eras um pecador, ou  que tua sexualidade 
fosse algo mau.
O sexo é um presente  que Eu te dei e com o qual podes expressar teu amor, teu êxtase,  tua alegria. Assim, não me culpes por tudo 
o que te fizeram  crer.

Pára de ficar lendo supostas escrituras sagradas  que nada têm a ver comigo. Se não podes me ler num amanhecer,  numa paisagem, 
no olhar de teus amigos, nos olhos de teu  filhinho... Não me encontrarás em nenhum livro!
Confia em mim  e deixa de me pedir. Tu vais me dizer como fazer meu  trabalho? 

Pára de ter tanto medo de mim. Eu não te julgo,  nem te critico, nem me irrito, nem te incomodo, nem te castigo.  Eu sou puro amor.

Pára de me pedir perdão. Não há nada a  perdoar. Se Eu te fiz... Eu te enchi de paixões, de limitações,  de prazeres, de sentimentos, 
de necessidades, de  incoerências, de livre-arbítrio. Como posso te culpar se  respondes a algo que eu pus em ti? 
Como posso te castigar  por seres como és, se Eu sou quem te fez? Crês que eu poderia  criar um lugar para queimar
a todos meus filhos que não se  comportem bem, pelo resto da eternidade? Que tipo de Deus pode  fazer isso?

Esquece qualquer tipo de mandamento, qualquer  tipo de lei; essas são artimanhas para te manipular, para te  controlar, 
que só geram culpa em ti.

Respeita teu  próximo e não faças o que não queiras para ti. A única coisa que  te peço é que prestes atenção a tua vida, 
que teu estado de  alerta seja teu guia.

Esta vida não é uma prova, nem um  degrau, nem um passo no caminho, nem um ensaio, nem um prelúdio  para o paraíso. 
Esta vida é o único que há aqui e agora, e o  único que precisas.

Eu te fiz absolutamente livre. Não há  prêmios nem castigos. Não há pecados nem virtudes. Ninguém leva  um placar. 
Ninguém leva um registro.
Tu és absolutamente  livre para fazer da tua vida um céu ou um inferno.
Não te  poderia dizer se há algo depois desta vida, mas posso te dar um  conselho. Vive como se não o houvesse. 
Como se esta fosse  tua única oportunidade de aproveitar, de amar, de existir.  Assim, se não há nada,
terás aproveitado da oportunidade que  te dei.
E se houver, tem certeza que Eu não vou te perguntar  se foste comportado ou não. Eu vou te perguntar se tu gostaste,
se te divertiste... Do que mais gostaste? O que  aprendeste?

Pára de crer em mim - crer é supor,  adivinhar, imaginar. Eu não quero que acredites em mim. Quero  que me sintas em ti. 
Quero que me sintas em ti quando beijas  tua amada, quando agasalhas tua filhinha, quando  acaricias
teu cachorro, quando tomas banho no  mar.

Pára de louvar-me! Que tipo de Deus ególatra tu  acreditas que Eu seja? Me aborrece que me louvem. Me cansa que  agradeçam. 
Tu te sentes grato? Demonstra-o cuidando de ti,  de tua saúde, de tuas relações, do mundo. 
Te sentes olhado,  surpreendido?... Expressa tua alegria! Esse é o jeito de me  louvar.

Pára de complicar as coisas e de repetir como  papagaio o que te ensinaram sobre mim. A única certeza é que tu  estás aqui, 
que estás vivo, e que este mundo está cheio de  maravilhas. Para que precisas de mais milagres? 
Para que  tantas explicações?
Não me procures fora! Não me acharás.  Procura-me dentro... aí é que estou, batendo em  ti.

Baruch Spinoza. 

As sábias palavras são de  Baruch Espinoza - nascido em 1632 em Amsterdã, falecido em Haia  em 21 de fevereiro de 1677, foi um dos grandes racionalistas do  século XVII dentro da chamada Filosofia Moderna, juntamente com  René Descartes e Gottfried Leibniz. Era de família judaica  portuguesa e é considerado o fundador do criticismo bíblico  moderno. Acredite, essas palavras foram ditas em pleno Século  XVII. 
Continuam verdadeiras e atuais até a data de hoje.  

10 de abril de 2012

O Sudário de Turim

O Artigo do Paulo é antigo, mas como a Veja está trazendo o tema á tona  pedi autorização ao Paulo e ele concedeu para que publicasse aqui os comentários dele.
Já conhecia o artigo dele publicado em 2001 e acho muito interessante a leitura.
J Ricardo









Texto  envado pelo Paulo Urban

Acordei hoje cedo com telefonas de dois amigos, um deles advogado, informando-me que a Revista Veja desta semana, ediçao 2263, de 4 de abril de 2012, traz matéria de capa sobre o Santo Sudário, parte dela plagiando texto meu, no que se refere às minhas ideias, ponto de vista e maneira de argumentar sobre o tema, conforme matéria que publicamos faz onze anos, na Revista Planeta, edição 343, de abril de 2001.
Bem... lá fui eu comprar a Revisita e acabo de ler a matéria. Mas observo: "Não, não creio que seja plágio de modo algum, embora, convenhamos, a cronologia sobre o manto publicada pela Veja em forma de box na matéria, ao longo das seis páginas a isso dedicadas, com datas e fatos especialmente escolhidos, esteja de fato 'ipsis literis' atrelada à cronologia que publiquei originalmente em nosso texto de 2001". Também os pontos nevrálgicos sobre o assunto que elegi para compor uma matéria convincente sobre o tema, elementos estes que cumprem provar a veracidade do Sudário, vejo aqui, foram praticamente os mesmos escolhidos pela jornalista que assina a publicação de Veja desta semana. Mas tampouco vejo plágio algum nisso, ademais, o importante mesmo é que o assunto seja devidamente divulgado. Afinal, a verdade sempre prevalece, ainda que seja preciso 2 mil anos para tanto.
Enfim, só tenho que dar meus reiterados parabéns à nossa colega jornalista que ousa trazer mais uma vez à tona, em data oportuna, este polêmico tema, e o faz de modo a confirmar, ratificar e atestar aquilo que alguns pesquisadores - e isso muito antes do inglês Thomas de Wesselow, autor do livro "O Sinal", Cia das Letras - motivo de sua matéria - já vêm dizendo desde quando o malfadado teste de datação pelo Carbono 14, realizado na década de 1990, fez espalhar pelo mundo enorme monta de boatarias e outros equívocos a respeito do Sagrado Manto.
Enfim, convido nossos leitores todos a que leiam, pois, ambas as matérias. A revista Veja, todos sabem, pode ser encontrada, por exemplo, na Banca de jornais aqui ao lado de minha casa; já nosso texto sobre o Santo Sudário, onze anos antes atestando ser legítima tal relíquia bíblica, pode ser lido em nosso site, o "Amigo da Alma", bastando para tanto clicar sobre o link que oferecemos abaixo:   
O SUDÁRIO DE TURIM

é sugestão de leitura de Paulo Urban
para esta sexta-feira da Paixão.
Embora publicado em abril/2001,
o artigo permanece plenamente atualizado,
posto que leva em conta as últimas
e mais contundentes revelações sobre o pano de linho,
feitas pelo cientista espanhol Leoncio Garza-Valdes,
cujos estudos atestam a completa legitimidade do Sudário.
Dr. Garza-Valdes é médico microbiologista,
prof. da Universidade do Texas, 
e autor da obra "O DNA de Deus",
editora Mandarim, 2000. 
O texto, ricamente ilustrado,
pode ser lido no site: www.amigodaalma.com.br
Para acessá-lo, basta clicar sobre o link:
2009/12/27/o-sudario-de-turim/
PAULO URBAN,
SONETISTA do AQUARISMO,
médico psiquiatra, Psicoterapeuta do Encantamento
P.S. 1) Visite também www.paulourban.com.br , leia e assine (deixando seu comentário) O Manifesto da Nova Consciência

8 de abril de 2012

Uma manhã radiante que anuncia a nova Vida.

J. Ricardo A. de Oliveira



Naquela manhã, diante do túmulo vazio, 
Maria de Magdala encontra-se com Jesus.
É a ela que ele pede que avise a Pedro e aos outros.


Foi ela que junto com Maria permaneceu até o fim aos pés da cruz.

Foi a ela que ele escolheu dar primeiro esta notícia:
Estou aqui, eu vencí!
Da mesma forma que os apóstolos acreditaram
no que parecia impossível,
é preciso manter sempre acesa a esperança,
manter firme o sonho
de que uma nova maneira de viver é possível:
mais fraterna, igualitária e amorosa.

Que a nossa páscoa seja a certeza
de que caminhamos todos para a luz,
para a igualdade,
para o renascimento da Paz,
da justiça e da alegria para todos, sem exceções.

Jesus Ressuscitou!
Jesus chegou ao fim de sua jornada,
abriu-nos a possibilidade de também ressuscitarmos.
Deus nos enviou seu filho para que nos tornássemos
Filhos seus, irmãos de Jesus.
Cada um de nós, ao final de sua jornada
encontrará a porta aberta,
e de cada lado desta porta
Jesus de um lado e Maria do outro
para nos receber e nos dar as boas vindas
ao mundo dos justos.



O AMOR venceu!

É tempo de ressuscitar os sorrisos,
o amor, a certeza de novos e melhores dias
Ressuscitar a Alegria e a esperança.
Ressuscitar a vontade de lutar
por um mundo que tenha a face do mestre.
Um mundo que seja o pré-anuncio do Reino do Pai.



Feliz Páscoa !

.

7 de abril de 2012

Páscoa - Passagem

Jean-Yves Leloup 

Sede passantes
Este tema da passagem é o tema da Páscoa. 
Pessah em hebraico, quer dizer passagem. 
A passagem, no rio, de uma margem à outra margem, a passagem de um pensamento a outro pensamento, a passagem de um estado de consciência a outro estado de consciência. 
A passagem de um modo de vida a um outro modo de vida.
Somos passageiros.
A vida é uma ponte e, como diziam os antigos, não se constrói sua casa sobre uma ponte. 
Temos que manter, ao mesmo tempo, as duas margens do rio, a matéria e o espírito, o céu e a terra, o masculino e o feminino e fazer a ponte entre estas nossas diferentes partes, sabendo que estamos de passagem.
É importante lembrar-se do carácter passageiro de nossa existência, da impermanência de todas as coisas, pois o sofrimento geralmente é de querermos fazer durar o que não foi feito para durar.
A grande páscoa é a passagem desta vida mortal para a vida eterna, é a abertura do coração humano ao coração divino.
É a passagem da escravidão para a liberdade, passagem que é simbolizada pela migração dos hebreus, do Egito para a terra Prometida.Mas não é preciso temer o Mar Vermelho.
O mar de nossas memórias, de nossos medos, de nossas reações.
Temos que atravessar todas estas ondas, todas estas tempestades, para tocar a terra da liberdade, o espaço da liberdade que existe dentro de nós.
Sede passantes. 
Creio que esta palavra é verdadeiramente um convite para continuarmos nosso caminho a partir do lugar onde algumas vezes paramos.
Observemos o que pára a vida em nós, o que impede o amor e o perdão, onde se localiza o medo dentro de nós. 
É por lá que é preciso passar, é lá o nosso Mar Vermelho.
Mas, ao mesmo tempo, não esqueçamos a luz, não esqueçamos a liberdade, a terra que nos foi prometida


4 de abril de 2012

O papel do artista/comunicador nesse mundo "sem sentido" em que vivemos

O papel do artista/comunicador nesse mundo "sem sentido" em que vivemos

Daniel Pinchbeck, o autor de "2012, o ano da Profecia maia", acabou de escrever um artigo para a revista "Under the Influence" -Postado pela amiiga/artista Ana Gibson-Segue um trecho:

Os artistas e criadores de mídia têm uma grande responsabilidade nesses tempos. Infelizmente, a maior parte da nossa cultura funciona atualmente como um adjunto da mega-máquina corporativa e do complexo industrial militar. Mesmo a arte e a literatura muito sofisticadas frequentemente têm o efeito de distrair as pessoas e distanciá-las de qualquer idéia de compromisso com o planeta ou do desejo de servir ao processo de transformação que precisa ocorrer na nossa civilização e na nossa espécie para que tenham um futuro. Há um niilismo** subjacente a grande parte da nossa cultura que provem da ideologia recebida– o sistema de crenças não comprovadas– do materialismo secular: a crença de que apenas a matéria tem importância, de que nenhuma forma de continuidade da alma ou do espírito pode existir além da morte. 
Infelizmente, os mundos glamurosos da arte e da moda – a cultura global do bacana – tendem a corroborar um estilo de vida baseado no consumo, vaidade e egocentrismo excessivos. Isso é necessário para que se continue vendendo produtos, acessórios e marcas de luxo sobretaxados – mas de nada ajuda uma ecologia planetária na qual os recursos estão sendo rapidamente esgotados, na qual bilhões de pessoas são ameaçadas de falta de água doce e das necessidades básicas da vida, na qual as armas de destruição em massa são criadas em laboratórios secretos do governo. 
Os biólogos celulares observaram que a verdadeira função da comunicação não é transmitir informação e sim coordenar o comportamento. O comportamento das células é coordenado através de informações transmitidas na forma de sinais químicos recebidos através da membrana celular. Os meios de comunicação têm o efeito de coordenar o comportamento de multidões ao mostrar-lhes o que fazer – consumir, fantasiar acerca dos famosos, fofocar etc. – e o que não fazer: tornar-se agentes catalisadores de uma ecologia planetária, resistir à tirania, criar comunidades saudáveis, dar a sua energia para que a humanidade cresça como um todo e assim por diante. 
O filósofo político Antonio Negri ressalta que a forma de produção mais importante ou “hegemônica” da nossa época não é mais os bens materiais, como no século XIX, mas a “produção imaterial” de imagens, narrativas, tecnologias sociais, modos como grupos e comunidades se formam e assim por diante. Em uma época na qual a produção imaterial é central, a principal coisa produzida e reproduzida é a própria subjetividade. De certo modo, a mídia é uma fábrica que produz consciência em escala global. 
Os artistas e os criadores de mídia têm o papel crucial de construir a narrativa ou a mitologia que subjaz à civilização e empurra as pessoas à ação. Nossa cultura exige uma rápida inversão de polaridades da sua ideologia governante, através de todas as formas de expressão criativa e contação de histórias. O que os artistas e os criadores de mídia precisam desenvolver, sobretudo, é a coragem moral de reconhecer todas as dimensões da emergência planetária, sem se afastarem dela. Ao realizarem sua iniciação pessoal rumo a novos níveis de consciência e compaixão, o seu trabalho refletirá isso automaticamente.
**niilismo= conceito filosófico que aponta, acentua a desvalorização do sentido das coisas. É a morte do sentido. Para que; por que; se não há luz no fim do túnel; não há ancoradouro. É uma abissal ausência de fundamento nas coisas, no mundo, no existir...É um estado de viver/existir "dando de ombros", às vezes nem isso....

17 de março de 2012

Hino à Matéria

Piere Teilhard de Chardin


Bedita sejas tu,
áspera matéria,
terra estéril,
dura rocha,
que cedes apenas à violência
e nos forças a trabalhar
se quisermos comer.

Bendita sejas,
poderosa matéria,
evolução irresistível,
realidade sempre nascendo,
que a cada momento fazes em estilhaços nossos limites
e nos obrigas a procurar
cada vez mais profundamente a verdade.

Bendita sejas,
matéria universal,
éter sem fronteiras,
triplo abismo das estrelas,
dos átomos e
das gerações.
Tu, que dissolvendo e transbordando
nossas estreitas medidas,
nos revelas as dimensões de Deus.

Bendita sejas,
impenetrável matéria.
tu que és tensão entre nossas almas
e o mundo das essências
e nos fazes definhar
com o desejo de romper o véu dos fenômenos.

Bendita sejas,
matéria imortal,
Tu, que, desagregando -te um dia em nós,
nos induzirá, forçosamente,
no íntimo daquilo que é.

Sem ti, matéria,
sem teus combates,
sem teus dilaceramentos,
viveríamos inertes,
estagnados,
pueris,
ignorantes de nós mesmos
e de Deus.

Tu que feres e que curas,
tu que resistes e que cedes,
que aprisionas e libertas,
tu que desmoronas e constróis,
seiva de nossas almas,
mãe de Deus,
carne do Cristo,
matéria,
eu te bendigo.

Eu te bendigo e te saúdo,
não como te descrevem,
diminuída e transfigurada,
os pontífices da ciência
e os pregadores da virtude.
Um amontoado - dizem eles -
de forças brutais ou
de apetites baixos,
mas como me apareces hoje,
na totalidade da tua verdade.

Eu te saúdo,
inesgotável capacidade de ser e de transformação,
onde germina e cresce
a substância escolhida.

Eu te saúdo,
universal poder
de aproximação e de união,
por onde se comunicam a multidão das moléculas
e a quem todas convergem,
em marcha para o espírito.

Eu te saúdo,
matriz harmoniosa das almas,
límpido cristal,
do qual será tirada a Nova Jerusalém.

Eu te saúdo,
meio divino,
carregado de poder criador,
oceano agitado pelo espírito,
argila modelada
e animada pelo Verbo encarnado.

Crendo obedecer ao teu irresistível apelo,
os homens se precipitam muitas vezes,
por teu amor,
no abismo externo dos prazeres egoístas.
Um reflexo os engana,
ou, então,
um eco.

Mas, agora eu vejo.
Para te atingir, matéria,
é preciso que,
partindo de um contato universal,
com tudo o que se move,
sintamos, pouco a pouco,
esvair-se entre nossos dedos,
as formas particulares de tudo que seguramos,
até que retenhamos, apenas,
a única essência
de todas as consistências e de todas as uniões.

Se quisermos te possuir,
temos que te sublimar na dor,
após termos, voluptuosamente,
apertado os braços.

Tu reinas, matéria,
nas serenas alturas,
onde imaginam evitar-te
os santos.
Carne tão transparente e móvel
que não te distinguimos mais de um espírito.

Leva-me para o alto, matéria,
pelo esforço,
a separação
e a morte.
Leva-me para onde for possível,
enfim, abraçar castamente
o universo.



8 de março de 2012

“Invoquem a paz sobre Jerusalém”

Jean Yves leloup

Escritos e Parábolas para a Paz Editora Diálogos do Ser, 2009

 “Invoquem a paz sobre Jerusalém”

“Invoquem a paz sobre Jerusalém
que sejam pacíficos aqueles que te amam
que a paz venha para os teus muros
que sejam pacíficas tuas casas
pelo amor dos meus irmãos, dos meus amigos
deixe-me dizer, paz sobre ti
por amor da casa de YHWH
“Aquele que era, que é e que vem”,
oro pela tua felicidade!” (Salmo 122)

Qual é esta paz que “aqueles que amam” invocam sobre Jerusalém e sobre o mundo?
Que eles próprios sejam pacíficos, essa é sem dúvida a primeira condição para que se realize, já no seu próprio corpo e no seu próprio espírito, a paz que eles desejam a todos.
A palavra hebraica “Shalom” deriva de uma raiz que designa o fato de estar intacto, inteiro; estar em paz é estar “inteiro”, nós não estamos em paz porque não estamos inteiramente aqui... Qual é a parte de nós mesmos que nos falta, que está esquecida ou reprimida – o que nos impede de estarmos em paz?
Perceberemos que quando somos amorosos, somos mais “inteiros”, o amor nos une, nada mais nos falta em nós mesmos, tudo está “voltado para” o Outro.
O mandamento ou o exercício (mitzvot) proposto pela Escritura é um exercício terapêutico, cujo fruto é o de nos fazer “Um”, corpo, coração e espírito, portanto, estarmos felizes e em paz:
“Tu amarás “Aquele que era, que É e que será” de todas as tuas forças, de todo teu coração, de todo teu espírito e tu amarás teu próximo, aquele que era, que é e que será como a ti mesmo, tal qual tu eras, tu és e tu te tornarás...”
A paz abrange todos os tempos. Será que podemos estar em paz com o nosso presente, se não o estivermos com o nosso passado? Será que podemos estar em paz com “aquilo que será”, com “aquilo que virá” se não estivermos em paz com o nosso presente?
A paz designa “o bem-estar do ser” e particularmente do ser humano que vive em harmonia com ele mesmo, com Deus, com os outros, com a natureza, suas sombras e sua luz... Na Bíblia, “estar em boa saúde” e “estar em paz” são duas expressões paralelas; para perguntar como vai alguém; se ele está bem, dizemos: “ele está em paz?”.
Dizemos que Abraão morreu numa idade avançada, feliz e saciado de dias, que “ele se foi em paz”. Também dizemos do nosso namorado que ele é “o homem da minha paz”. A paz é, então, uma confiança mútua, que torna possível a vida em comum e a fraternidade; sem esta paz e esta confiança entre nós, não há comunidade humana ou futuro possível.
Todos os bens materiais, afetivos, intelectuais e espirituais que nós podemos nos desejar uns aos outros estão resumidos nesta simples palavra: Shalom, Salam (em árabe), Bom dia – a paz esteja contigo, em ti e entre nós...
Quando Jesus diz a alguém no Evangelho “Shalom”, é realmente uma “saudação”, uma “salvação”[1], uma cura. Quando ele diz à mulher hemorroíssa: “Vá em paz”, ele lhe devolve a saúde. Da mesma maneira àqueles que se afastaram de diversas maneiras, quando ele lhes diz: “Vá em paz”, eles têm o coração, o corpo e o espírito lavados da sua culpa, eles podem realmente se recolocar a caminho e ver “todas as coisas novas”.
Mas Jesus precisa que a “Sua paz, Ele não a dá como o mundo a dá”. Ela não é um tranqüilizante, um sedativo, que livraria os humanos das provações e das contradições do Real.
Jesus inscreve-se assim na linhagem dos antigos profetas que denunciam “as falsas pazes” e as falsas seguranças que são buscadas em outro lugar e não n’ “Aquele que era, que é e que será”, seu fundamento – aí estão as pazes ilusórias e mentirosas e ele vem nos libertar das nossas ilusões e das nossas mentiras.
Estar em paz é não ser parvo e acreditar-se invulnerável. O Dom da paz supõe uma metanóia, uma transformação da sua vida e da sua maneira de ser e de pensar; Miquéias, Jeremias denunciava assim os falsos profetas que têm apenas a palavra “paz” na sua boca e a ambição e outras vontades de poder no coração: “Eles curam superficialmente a chaga do meu povo dizendo “Paz, Paz” e, no entanto, não existe paz”. (Jr 6, 14)
Jesus será ainda mais radical quando ele dirá: “Penseis que vim trazer a paz sobre a terra? Não, mas o conflito.(polémos, em grego)” Isso quer dizer que se não reconhecermos nossas alteridades, e esse reconhecimento passa às vezes pelo conflito, não há paz verdadeira (particularmente no seio de uma mesma família onde a diferenciação, do pai e do filho, da mãe e da filha é por vezes difícil). A paz não nos deixa tranqüilos, pois se quisermos “permanecer inteiros” e verdadeiros, face ao outro e respeitá-lo na sua inteireza e na sua verdade, isso nem sempre acontece sem que haja um enfrentamento, é preciso amar o outro o suficiente para não ter medo de desagradá-lo e nos amar o suficiente para nos fazer respeitar na nossa identidade. Se o verdadeiro amor é sem complacência, a paz verdadeira é sem compromisso.
Ezequiel também não deixará de gritar: “Chega de remendos! O muro deve tombar” (Ez 13), mas quando os muros do medo, da vaidade, da ilusão e das mentiras desabarem, uma verdadeira paz será edificada.
“Eu sei, eu, “Aquele que era, que é e que será”, que tenho sobre vós um desígnio de paz e não de infelicidade” (Jo 29, 11). Isaías e Zacarias sonham com o “príncipe da paz” (Is 9, 5 /Za 9, 95) que dará uma “paz sem fim”, “é ele que estará em paz” (Mi 5, 4), as duas terras separadas se reconciliarão, as nações viverão em paz (Is 2, 2).
“Farei correr sobre Jerusalém como um rio...” Enquanto aguardamos, “Bem-aventurados os “artesãos” da paz”. A paz é um “artesanato” e não uma indústria. A diferença entre o artesão e o operário é que o artesão realiza um objeto, uma obra na sua “inteireza”, ele trabalha nela do início ao fim. Aquilo que se rouba do operário que trabalha na produção em cadeia é o acesso ao objeto na sua inteireza.
Assim, ser “artesão” da paz é tentar viver, nem que seja apenas uma única relação na sua inteireza, da maneira mais verdadeira e pacífica que possa existir.
Jesus pede que façamos a paz, que amemos o próximo, o mais próximo e não que façamos a paz e amemos “a humanidade”, “o mundo”. A palavra “paz”, os discursos sobre a paz não fazem de nós “artesãos da paz”, mas ideólogos, discursistas, pretensiosos pretendentes à paz, “mas a paz não existe...”
A questão, então, para aquele que, em Jerusalém ou em qualquer outro lugar, queira conhecer a felicidade dos artesãos da paz, não é mais: “O que é a paz?”,mas: “Quem é o meu próximo?”. Basta, então, termos olhos e “vermos” qual relação muito concreta devemos “apaziguar”, compreender e “reconciliar”... Isso começa, sem dúvida, em nós mesmos. Enquanto não tivermos feito a paz entre nossos diferentes quarteirões (cabeça – coração – ventre), não haverá paz entre os diferentes quarteirões de Jerusalém.
“Encontre a paz interior” dizia São Serafim de Sarov, “e uma multidão será salva ao teu lado.”
É sempre pelo mais próximo que devemos começar, é o primeiro passo de todos os caminhos que conduzem à paz.

Nunca vou muito longe
Para encontrar a paz
Basta uma flor no meu jardim
Ela não me coloca questões
Ela não me pergunta por quê
Todos os homens que têm uma flor no seu jardim
Não olham a flor
E não estão em paz

* * *

A calma das árvores queimadas pelo sol
ou arrancadas pelo homem é sempre calma
a calma das árvores sacudidas pela tempestade surpreende:
uma floresta de calma

Essa calma é também a do homem
é até mesmo o segredo da sua vida
mas só vemos as tempestades
o sol e o vento
só ouvimos o barulho que ele faz
jamais o silêncio que ele é
ninguém consegue imaginar o que seria uma cidade
se ela fosse habitada por homens que são o que eles são:
uma floresta de calma



________________________________________
[1] No original em francês : « Quand Jésus dans l’Évangile dit à quelqu’un « shalom », c’est vraiment un « salut », une guérison » ; a palavra “salut” em francês indica tanto “saudação” quanto “salvação”. (N.T.)

6 de março de 2012

Rubem Alves fala da Teologia da Libertação em uma Igreja Pentecostal

Jung Mo Sung

Uma quinta feira à noite (09/02/2012), convite para um relançamento de um livro de teologia –ainda mais teologia da libertação– escrito há mais de 40 anos: quantas pessoas poderiam se interessar? É claro que o autor, Rubem Alves, é uma "atração” por si só; mas como ele não tem escrito mais livros ou artigos de teologia, muito menos escrito ou pronunciado sobre teologia da libertação, eu pensei que haveria um número razoável, mas nada de excepcional. Ainda mais se levarmos em conta que o evento teria lugar em uma igreja pentecostal –Igreja Betesda– e seria um debate sobre o livro com título "Por uma teologia da libertação” (título original da sua tese de doutorado defendida por Rubem Alves em 1968, mas publicada primeiramente nos Estados Unidos, em 1969 como "Por uma teologia da esperança humana”, por decisão do editor; e publicado no Brasil, em 1987, com o título "Da esperança”)
Rubem Alves voltando a debater em público sobre a teologia da libertação em uma igreja pentecostal? Isso seria impensável alguns anos atrás. E para quem não conhece bem o ambiente evangélico e pentecostal, é preciso lembrar que a teologia e os escritos mais espirituais de Rubem Alves são considerados heréticos ou até satânicos por muitos.
Está certo que esse evento foi divulgado na rede social através de pessoas com muitos "seguidores” ou "amigos”, mas divulgação por si não garante o sucesso do evento. Por isso, fui ao evento –após um dia muito intenso e longo de trabalho que quase me fez desistir de ir– com muita expectativa em relação ao que poderia ouvir de Rubem Alves, e dos outros dois debatedores: Ricardo Gondim (pastor da Igreja onde foi realizado o evento) e Ricardo Gouvêa (teólogo presbiteriano); mas não muita em relação ao número de participantes. Além disso, eu imaginava que Rubem Alves fosse falar de muitas coisas, mas pouco especificamente da teologia.
Tive duas surpresas! Em uma igreja com capacidade para 2.000 pessoas, o local estava quase completamente lotado. Imagino que estavam presentes mais de 1.500 pessoas; muitas delas com a Bíblia na mão (algo bem pentecostal ou do mundo evangélico popular). A segunda surpresa: Rubem, no meio de suas memórias, estórias e poesias –bem ao seu estilo–, falou explicitamente da teologia da libertação. Alguns anos atrás, eu participei, na cidade de México, de um painel sobre a teologia da libertação juntamente com Rubem Alves, Dussel e José M. Vigil. E lá, Rubem Alves falou da sua participação no início da teologia da libertação e como um acontecimento muito desagradável o afastou do grupo principal da TL. Mas, depois ele não respondeu nenhuma pergunta específica sobre teologia ou teologia da libertação. Por isso, minha surpresa ao vê-lo aqui tratar diretamente da TL e, em particular, sobre as diferenças entre a TL católica e a protestante. Foi uma fala de quem se sente ainda dentro da grande corrente da teologia cristã da libertação, uma corrente que é feita de várias teologias da libertação, como uma corrente marítima que é alimentada por muitos rios e "caminha” banhando muitos lugares.
Quem conhece o estilo de falar de Rubem Alves sabe que é muito difícil resumir em poucas palavras a complexidade de suas idéias expressas através de imagens, estórias, poesias e raciocínios acadêmicos. Por isso, não vou me atrever sintetizar aqui a bela exposição dele. E penso que isso também não é o mais importante. O mais importante da noite foi o próprio evento.
Alguns podem interpretá-lo como o fechamento de um ciclo que já acabou, como um evento "histórico” no sentido de recuperação de uma memória histórica que marcou a vida da geração de Rubem Alves e de outros. Outros podem interpretar como um sinal de "esperança” (o tema principal na fala de Rubem Alves e de Ricardo Gondim), de que algo novo está surgindo. A presença de muitos jovens (alguns vindos de lugares distantes da Grande S. Paulo e de outras cidades) pode indicar isso. Contudo, o mais importante, para mim, foi o encontro de uma figura memorável – alguém que é capaz de incitar grandes discussões acadêmicas e também encantar corações infantis com suas estórias, que carrega no seu corpo e memória as lutas e esperanças da gerações passadas – com as novas gerações que também anseia por um cristianismo liberto de amarras e dogmatismos que possa contribuir no fortalecimento da esperança dos mais pobres e das lutas pela libertação. E isso em uma igreja pentecostal!
O que resultará desse encontro? A resposta depende das novas gerações de cristãos que assumem –motivadas pelos testemunhos e memória dos mais antigos– a tarefa de levar adiante a boa-nova da esperança, a boa-nova de que a salvação vem pela graça de um Deus que nos ama apesar de tudo. E que, por isso, podemos continuar sorrindo, lutando e vivendo alegremente a vida, apesar de tudo, porque vivemos da esperança e fé.

[Autor de, entre outros, "Cristianismo de libertação” e "Sementes de Esperança”].