O absurdo e a Graça

Na vida hoje caminhamos entre uma fome que condena ao sofrimento uma enorme parcela da humanidade e uma tecnologia moderníssima que garante um padrão de conforto e bem estar nunca antes imaginado. Um bilhão de seres humanos estão abaixo da linha da pobreza, na mais absoluta miséria, passam FOME ! Com a tecnologia que foi inventada seria possível produzir alimentos e acabar com TODA a fome no mundo, não fossem os interesses de alguns grupos detentores da tecnologia e do poder. "Para mim, o absurdo e a graça não estão mais separados. Dizer que "tudo é absurdo" ou dizer que "tudo é graça " é igualmente mentir ou trapacear... "Hoje a graça e o absurdo caminham, em mim lado a lado, não mais estranhos, mas estranhamente amigos" A cada dia, nas situações que se nos apresentam podemos decidir entre perpetuar o absurdo, ou promover a Graça. (Jean Yves Leloup) * O Blog tem o mesmo nome do livro autobiográfico de Jean Yves Leloup, e é uma forma de homenagear a quem muito tem me ensinado em seus livros retiros, seminários e workshops *

30 de junho de 2012

A teologia da Libertação e seu(s) fundamento(s): Em debate com Clodovis Boff “sed contra...”



A Teologia da Libertação, a mais original contribuição da teologia latino-americana, possui uma ambigüidade epistemológica acerca do fundamento, ou seja: colocou o pobre no lugar de Cristo. Isso aconteceu através de uma confusão e de um nevoeiro epistemológico, uma indecisão a respeito do “princípio regente” que deslizou para a inversão e instrumentalizou a fé e Deus. Este equívoco levou a conseqüências graves: esvaziamento da identidade, sociologia e ideologia no lugar de teologia, tagarelice ad nauseam, percepção da Igreja como uma ONG etc. A Teologia da Libertação cedeu ao espírito da modernidade, absorveu da modernidade o seu antropocentrismo expressando-o em termos de pauperocentrismo. Conseqüências últimas: a libertação pode devorar a teologia, e “o pobre não agüentará por muito tempo nas costas o edifício de uma teologia que o escolheu por base: cederá antes de ser esmagado por ela, como a história não cansa de mostrar” (p.1022).
Este é um “rude resumo” do artigo de fr. Clodovis Boff, conhecido por sua atenção e por seus méritos nas questões de método em Teologia da Libertação (TdL). É autoridade “desde dentro”, que escreve um artigo crítico e, portanto, autocrítico. Afirmar que a TdL colocou o pobre no lugar de Deus e, sobretudo, Deus no lugar do pobre, poderia soar como uma santa e sábia ambigüidade cristã. Mas Clodovis afirma que o pobre, desta forma, substitui Deus e a ambigüidade é funesta.
Publicado nesta prestigiosa Revista Eclesiástica Brasileira, em número especial dedicado ao evento e ao documento de Aparecida – REB n.67, de outubro 2007, p.1001-1022 – Clodovis faz uma confrontação do caminho “desviante” da Teologia da Libertação com a “surpresa do Espírito” e o “milagre de Nossa Senhora (Aparecida)” que é o documento de Aparecida: correta relação entre fé e ação libertadora, não do pobre a Cristo, mas de Cristo ao pobre.
Evidentemente, os dois parágrafos acima não fazem justiça aos matizes cuidadosos de um teólogo tão rigoroso e exigente em termos de epistemologia e de método. É necessário lê-lo com atenção para ser justo. No entanto, parece-nos que o artigo de Clodovis, ainda assim, no desenrolar do artigo, tem afirmações ex abrupto, sem aprofundamentos. Talvez seja de alguém que já advertiu também ad nauseam anteriormente, em seus textos mestres, sobre o problema, e aqui atalha caminhos. Resume para a sua intenção: acentuar o dom de Aparecida para a arquitetura e a engenharia da TdL. Não faltam, é claro, afirmações de que a TdL é ou foi oportuna, importante, mas “a prova dos frutos mostra que necessita de uma oportuna pulverização crítico-epistemológica e, mais ainda, de adubar suas raízes”(p.1007). Por isso Clodovis aposta tanto no documento de Aparecida – evidentemente por amor à TdL que ele mesmo ajudou a parir e a criar.
Para compreender melhor a crítica sem açúcar de Clodovis, convém cotejar este artigo contundente com outros textos dele no passado recente. As suas duas obras maiores sobre método[1] podem ser encontradas de forma mais resumidas sem perda de rigor nos seus artigos: Como vejo a teologia latino-americana trinta anos depois[2], que tem caráter autobiográfico, e Retorno à Arché da Teologia[3]. Além destes dois elucidativos textos, pode ser útil o seu verbete Epistemología y Metodología de la Teología de la Liberación[4]. Somente assim se p0de levar adiante um debate objetivo e fecundo a partir de uma provocação sem rodeios a colegas e novas gerações de teólogos e teólogas latino-americanos.
No artigo em debate, Clodovis menciona autores como Sobrino e Rahner de forma curta e cortante, mas deve-se fazer a mesma justiça a estes dois grandes teólogos, considerando suas elaborações teológicas de forma estrutural e completa. Sobre Rahner, Clodovis se atém à “vulgata rahneriana que subjaz à TdL”(p.1007), em que a teologia, no contexto da “virada antropológica”, fica reduzida a uma “hermenêutica da existência humana”, repercutindo por aqui como hermenêutica da existência pobre. Na verdade, Rahner foi considerado “o engenheiro da teologia católica do século XX” (J.Moltmann). Clodovis reclama, em seus textos, o respeito à fonte originária da fé e da teologia, que é o “Mistério” transcendental de Deus. E o faz citando Rahner, o teólogo que insistiu no Mistério não manipulável de Deus que, no entanto – aqui a originalidade espantosa do cristianismo – habita o humano e o mundo. Quanto a Sobrino, podemos parodiar Moltmann: é o engenheiro da mais criativa e madura cristologia entre nós, inclusive depois de considerar a Notificação da Congregação para a Doutrina da Fé.
Com a atual facilidade de comunicação, teólogos e teólogas, Brasil afora, se perguntaram uns aos outros como interpretar adequadamente o artigo de Clodovis. Não por esprit de corps, mas como trabalho e responsabilidade comum, como comunidade teológica, abrimos em muitas mãos este debate. Somos membros da Sociedade de Teologia e Ciências da Religião, e/ou da Equipe de Reflexão Teológica da Conferência dos Religiosos do Brasil, e/ou da Ameríndia, rede latino-americana de reflexão teológica, diversos de nós presentes em Aparecida. Diante de uma provocação tão “de repente”, debater vai fazer bem a todos, sobretudo à verdade e ao Povo de Deus.


1.      Razões indiscutíveis: a fé como princípio referente, mas ela se constitui de diversos aspectos e manifestações.

Convém dizer o óbvio ululante, que de tão óbvio, como lembra Clodovis, pode ser um pressuposto esquecido no fragor das batalhas de libertação: numa dialética de fé e prática cristã, a fé é o princípio referente, enquanto outros princípios são “referidos”, ganham da fé a sua autoridade. Não conseguimos encontrar e nem imaginar que teólogos da libertação tenham escrito ou pensado diferentemente. Clodovis põe a salvo os “pais” da TdL, nossos mestres. Nós [quem? Parágrafo acima] somos a segunda geração pós-conciliar na teologia latino-americana. Ela buscou um método que realmente refletisse o rosto e a alma do cristianismo latino-americano e não fosse mero “reflexo da reflexão” européia. Sem pretensões de originalidade narcisista, ainda que com impulsos de adolescência, mas em obediência a Medellín: buscando fidelidade pós-conciliar num continente com tremendo anseio de transformação onde a fé cristã é conatural à se tornou cultura popular.
Clodovis, em outros textos, refere-se à sua experiência com alunos, portanto com teólogos em formação e suas peculiaridades, que nós também conhecemos. Sabemos também de sua grande experiência com militância de fé e política e com lideranças de pastoral popular e de massa, que frequentemente transformam a teologia em “ferramenta de luta” e slogans. E toda a teologia arrisca ser julgada pelo sucesso dos slogans, pela impaciência da sede de justiça, por um lado, e, por outro lado, pelo cinismo de quem não leu e não gostou porque aberta ou disfarçadamente tem posição oposta. Tudo isso é realmente risco de possíveis efeitos colaterais de um caminho novo. No entanto, de longe – é o nosso protesto – isso não diz respeito à produção propriamente teológica no espírito e no método da TdL. Pode-se comprovar com escritos recentíssimos, de grande qualidade, como, apenas a título de exemplo, o livro Temas de Teologia Latino-americana[5], com artigos que incidem exatamente sobre cristologia e eclesiologia da TdL e sua epistemologia. É bom lembrar também que interpretações redutivas não são privilégio da TdL, mas acompanham como tentação, hybris, todo e qualquer discurso humano a respeito do Mistério Divino. A tradição da Teologia apofática, por um lado e o recurso à analogia, por outro, mostram a fragilidade da palavra sobre a Palavra. (interpretação redutiva é só uma tentação? Se sim, seria possível um discurso interpretativo – de qualquer genro, e não só da teologia – que não fosse redutivo. Mas, a redução é a condição inescapável de toda teoria ou interpretação. O problema não está na redução ou não, mas a “qualidade” da redução e no reconhecimento ou não de que a teoria/interpretação, por ser redutiva, não é total e nem definitiva.)
Não só a fé, mas a espiritualidade tem sido preocupação recorrente, busca e refrigério de teólogos e teólogas da libertação. Há uma contínua produção, desde os primeiros e os grandes pais da TdL até o presente, em torno de uma espiritualidade sólida, fontal. Que esta espiritualidade, vida no Espírito e segundo o Espírito, esteja indissoluvelmente ligada ao seguimento de Cristo encontrado no lugar privilegiado do pobre, ainda vamos examinar.
No entanto, Clodovis elegeu com toda a energia intelectual, seguindo uma admirável tradição repetida reiteradamente em seus textos, que somente o intellectus fidei que se voltado para o Evento da Revelação do Mistério é ato de acolhimento e compreensão da Revelação, e, portanto, princípio epistemológico do edifício teológico. Bate-se com Sobrino negando esta excelência ao que Sobrino chama de intellectus amoris ou também intellectus justitiae, intellectus misericordiae, e que desemboca no “princípio misericórdia” da existência cristã e de uma teologia realmente cristã[6]. Ora, que o amor ou o coração vê e compreende o que a inteligência não consegue compreender batendo-se em aporias, isso também tem longa e respeitável tradição na Igreja. O que Sobrino acrescenta, seguindo Gutiérrez, é a sua dimensão de práxis: verum faciendum: quem faz a vontade e não quem diz “Senhor” e senta-se e come com o Senhor, realmente chega ao verdadeiro conhecimento e à verdade da salvação. A verdade como fidelidade prática é atestada recorrentemente pela Escritura, como ainda veremos.
A Revelação e a fé, como anota Clodovis, se manifestam em linguagem: palavra de Revelação que se reconhece e se acolhe, e palavra em que a fé se expressa. Não somente a radicalidade fiducial, última e abismsal, da fides qua creditur¸ mas a fides quae creditur, fé com conteúdo, acontecimento e palavra. Ora esse conteúdo e essa linguagem são exemplificadas por Jesus ao doutor que queria saber como conseguir a “vida eterna”, a vida verdadeira, a salvação: Jesus conta a sua pequena pérola narrativa do Samaritano que se compadeceu do caído, arriscou com ele a impureza que os sacerdotes não se permitiram, aproximando-se, tendo compaixão, usando de misericórdia. Só isso. Não é ainda teologia ocidental, mas é um princípio de toda real teologia cristã. Aqui o princípio lógico e grande da salvação está “dentro”, não “acima” do princípio existencial e humilde da libertação. Parece, então, ser necessário reconhecer uma circularidade entre salvação e libertação. Não basta, portanto, como o faz Clodovis dizer que “para se obter realmente a libertação é preciso mais que apenas a libertação: é preciso – digamo-lo sem medo - Salvação!” Somente a Transcendência redime a imanência”(p.1008). Parodiando Kant, poderia reconhecer-se o vazio da transcendência sem a imanência. Mas não é preciso chegar a tanto. Basta ler 1 Jo 4,20: quem diz amar a Deus a quem não vê, mas não ama ao irmão a quem vê, é um mentiroso! Jesus, com sua historinha do Samaritano e do caído, ensinou ao doutor da Lei que, para se obter realmente a Salvação, é preciso mais que apenas a Salvação: é preciso – digamo-lo sem medo – libertação! Somente na humilde imanência se dá a transcendência. (acho que seria bom explicar melhor o que se entende por “se dá a transcendência”. Eu penso que a metáfora de “baixo” e “cima” para se referir a imanência e transcendência, pois é muito espacial e estático e não dá conta do mistério da manifestação de Deus (transcendente) no interior da história quando o “amor se realiza” entre os irmãos/pobres. Como o parágrafo lida com a parábola do samaritano  e 1 Jo, eu penso que deveria insistir que na abertura ao necessitado, no amor-solidário, o Deus se faz presente, como diz 1 Jo 4, 12: “Ninguém jamais  contemplou a Deus. Se nos amarmos uns aos outros, Deus permanece em nós e seu amor é realizado.” Eu penso que uma outra forma de expressar a sua idéia de “somente na humilde imanência se dá a transcendência” poderia ser a noção de Deus se fazendo presente no interior da vida humana, ou a transcendência que se revela no interior da imanência, aceitando se “reduzir” (Fil 2,6) às condições do mundo humano para que possa se conhecido por seres humanos, sem deixar de ser transcendente, isto é, uma redução necessária para ser conhecido e experienciado pela humanidade (a revelação), mas que se sabe que não se reduz à essa redução, é transcendência irredutível. Essa dialética da imanência-transcendência reforçaria também a dialética da redução teológica e o mistério de Deus. (aliás, eu li nas férias um livro muito interessante de uma jovem teóloga latina nos Estados Unidos sobre o tema da transcendência de Deus: RIVERA, Mayra. The Touch of Transcendence. A Postcolonial Theology of God. Louisville: Westminster Kohn Knox Press, 2007.)

[Desenvolver o tema do amor condescendente]

O destino da linguagem, exatamente quando é relevante – e quanto mais relevante - é sua utilização sem possibilidade de controle em todos os seus percursos. A filosofia da existência, por exemplo, deu em curiosas formas de terapia. Assim, também em teologia: na produção de “vulgatas” militantes falou-se da Bíblia como “ferramenta” e da “construção” do Reino de Deus: uma linguagem de sabor “neopelagiano”, quando isolada de um nível mais profundo de encontro e de graça, mas que atualmente pode ser considerada superada por expressões menos “fabricadas” e mais justas. Por exemplo: leitura orante da Palavra de Deus, dom e responsabilidade do Reino de Deus.No entanto, mesmo com sua fragilidade, a expressão em sua totalidade - “construir o Reino ou Reinado de Deus” - mantém uma relacionalidade que rompe a tentação de construir apenas a si mesmo ou cristalizar instituições centradas no próprio ego. Mesmo a compreensão da Bíblia como ferramenta, não deixa de ser um valor bíblico, na medida em que é útil (ôphélimos) para o ensino e educação na justiça (cf. 2 Tm 3,16). Como texto, possui uma reserva de sentido sempre maior do que sua leitura paradigmática.     (Penso que esta parte destacada poderia ser substituída por uma reflexão sobre a “construção de uma sociedade mais justa, mais livre”, que se busca e constrói iluminado pelo horizonte do RD e é um sinal da presença do RD entre nós (a transcendência de Deus no interior da história), o RD que só será pleno e definitivo na parusia)

2. Fé e círculos hermenêuticos ou pericoréticos.

Clodovis é um grande apaixonado pelo “único fundamento” que dá identidade cristã à teologia. Se não for assim, resvala-se na ambigüidade. Mas Cristo – e Deus nele – se dá com uma pluralidade de acessos, e uma vez encontrado, remete para além de si: Cristo é encruzilhada, chegada de muitos caminhos e partida para muitas presenças: o Pai, o Espírito, os irmãos, a comunidade, as criaturas, o vasto mundo... e privilegiadamente o pobre, como ainda queremos acentuar. A identidade cristã é aberta, fundada e marcada por alteridades. E isso nos faz dançar numa complexa dialética circular destas alteridades. Para nossa surpresa, Cristo nos conduz à pluralidade na simbólica trinitária da imagem cristã de Deus: cada pessoa remete à outra, pois é desde a outra, para a outra – é pericorese. Ora, a pericorese é uma boa imagem do círculo hermenêutico da teologia cristã. Que isso corra riscos de resvalões, de tatear flutuando a meio caminho, enfim de ambigüidades e falta de clareza, parecem-nos riscos menores do que uma identidade clara e circunscrita sobre um princípio único ao qual tudo se reduz, que pode esconder em sua sombra um fundamentalismo afinal perigoso.
Clodovis conhece bem e cita com propriedade em seus textos grandes nomes da hermenêutica do século XX: Heidegger, Althusser, Ricoeur, Foucault, Rorty. Lembra com freqüência o trabalho dialético, os princípios em pólos e sua relação recíproca, mas nega com todo cuidado a simetria dos pólos e dos princípios, insistindo sempre no princípio “regente” mesmo quando modificado ou enriquecido pelos princípios “de segunda ordem” que retornam sobre o pólo regente. Ilustra reiteradamente com Aristóteles. O filósofo grego, em sua Metafísica, conduz não só a lógica, mas também a ontologia, ao Unum princeps citando sintomaticamente a Ilíada de Homero e seu personagem Agamenon ao reunir os chefes para a guerra contra Tróia: “Que um só comande sobre nós”. Moltmann[7], lembrando o Monoteísmo como problema político de Erik Peterson[8], nos deixa inquietos com este procedimento.
Talvez por necessidade de afirmação e de redução ao fundamento único Clodovis não dá especial significado ao círculo hermenêutico. Ora, o círculo hermenêutico tem algumas vantagens sem se reduzir a uma dialética de pólos simétricos e menos ainda a um dualismo: pode-se partir de qualquer ponto chegar bem a outro ponto compreendendo cada ponto em seu real e devido lugar. A teologia trinitária é uma boa demonstração. Nela, o primeiro lógico é o Pai, mas existencialmente é o Filho que revelou historicamente, desde sua humanidade, quem seja realmente Deus Trindade. Por isso o triênio para o Ano Jubilar começou pelo Filho, seguindo o axioma metodológico de Boaventura: Incipiendum est a médio quod est Christus. Assim também quanto à condição humana e divina de Cristo, e quanto aos diversos lugares teológicos em que se revela. Seguimos aqui uma indicação de grande sensibilidade bíblica de Christian Duquoc: em primeiro lugar não se deve perguntar pela essência de Deus, mas pelo lugar desde onde ele se revela! Assim, pode-se partir de Cristo para chegar ao pobre, mas pode-se partir do pobre para chegar a Cristo – e à compreensão realmente cristã de Deus. Há riscos: não nos parece ser verdadeira a afirmação de Clodovis de que de Cristo sempre se chega ao pobre mas do pobre nem sempre se chega a Cristo. Se não se chega a um ponto é porque não se compreendeu bem também o outro, e isso vale para ambos: uma má compreensão de Cristo não leva necessariamente para o pobre – e temos exemplos constrangedores - enquanto uma compreensão real do pobre nos remete sempre para o Mistério feito carne e dor de Cristo.
Clodovis prefere uma epistemologia e uma metodologia linearmente lógicas, de corte aristotélico e escolástico, para manter as rédeas através da clareza. Uma hermenêutica circular complica (não seria melhor “complexifica”) e parece que banaliza. Para complicar ainda mais: a imagem mais contemporânea desta circularidade foi a “rede” e depois a “teia”. Em tudo isso não há um “centro” ou fundamento único ao qual se inclinam os demais pontos, mas todo lugar é centro (mesmo em uma rede ou teia, há pontos mais fundamentais do que outros, por isso, nem tudo é centro – pois isto negaria o próprio conceito e o sistema seria indiferenciado, isto é, não formaria um sistema–, mas há vários centros) e, sobretudo, ex-cêntrico: remete para além de si, até Deus. Do ponto de vista cristão, tal imagem pode ser surpreendentemente bem vinda: o Deus bíblico, cristão, não é narcisista, não é ídolo, não precisa propriamente de nossos aplausos ainda; ama gratuitamente e que se dê se dá a paciência de nos escutar e socorrer com o Espírito a nossa fraqueza, de vez que “não sabemos o que pedir como convém” (cf. Rm 8,26). Remete, assim, para além de si. Que, no nosso caso, é “para aquém”: A transcendência de Deus consiste em transcender-se em direção a nós, às criaturas e às mais frágeis, uma transcendência de transcondescendência. Modificando um pouco os termos polares de Santo Ireneu: Gloria hominis visio Dei, gloria autem Dei homo vivens!
Por isso é tão preciosa a categoria circular de Reino de Deus, que reúne Deus e além-de-Deus: a criação, a humanidade, e a prova máxima de inclusão: as vítimas, os frágeis, os pobres. Se o Reino está à disposição dos pobres, estamos todos salvos. Se Deus se faz carne no lugar do mais pobre, então estamos todos assumidos. Mas a categoria de Reino de Deus como categoria teológica necessária para que a teologia seja cristã, categoria holística (Uma reflexão: o conceito de holístico se refere mais à totalidade, enquanto que holograma/hologramático usado por teóricos de sistemas complexos faz referência explícita à totalidade, mas também às partes: “as partes estão no todo e o todo está nas partes”. Eu sei que não dá para desenvolver este tipo de reflexão neste artigo, mas penso que o conceito de holograma pode ser mais interessante para falar do RD porque a totalidade do RD também está presente nos espaçoes e relações micro. Por ex., no caso do bom samaritano, podemos dizer, usando a noção de holograma, que o todo do RD, entendido como o reinado de Deus, no sentido macro, já está presente nesse pequeno âmbito das relações de solidariedade, mesmo que ela não seja a totalidade do RD.) , saída da boca de Jesus, sua epistemologia por excelência, parece não ter peso suficiente na metodologia de Clodovis. Tudo o que é recíproco, redondo, com a complexidade da multirreferencialidade, incomoda uma construção analítica com lógica extremamente linear: com um primeiro, um segundo - teologia de primeira ordem, teologia de segunda ordem, teologia como tal e teologia particular. Isso francamente, do ponto de vista epistemológico, não nos parece adequado.
Uma dificuldade essencial do pensamento de Clodovis é a não consideração dos pressupostos atuantes em todas as teologias. De fato, a chamada “Teologia 1” ou “Momento 1” da Teologia, é tão pouco isenta de pressupostos quanto outra Teologia qualquer. As constantes referências a Aristóteles mostram sua filiação epistemológica, supondo, quem sabe numa hiperinterpretação do realismo estagirita, que os conceitos expressem a realidade de forma insuperável. Ora, isso seria visio beatifica, e não corresponde à condição peregrina do conhecer que se dá como em enigmas (cf. 1 Cor 13,12). Deve-se lembrar que mesmo os maiores teólogos escolásticos nunca tiveram a presunção de serem a Sacra Doctrina ou a Theologia. Pelos contrário, foi no debate das Escolas que a própria Igreja se orientou.[9] 
Numa hierarquização adequada o que para Clodovis é Teologia 1 ou Momento 1 agora deve ser entendido como Fé. Em sua tese de doutorado esse conceito fazia um certo sentido enquanto substituto para a Teologia clássica ou mesmo escolástica ou européia. No entanto, pensar que exista a Teologia que funcione como gênero “teologia de primeira ordem” em relação a outras “de segunda ordem” que seria espécie[10] é confundir o gênero de discurso religioso, chamado Teologia, uma abstração das muitas elaborações das razões da fé. Há uma Teologia no Novo Testamento, uma Teologia patrística, uma teologia oriental, uma Teologia Ocidental; da Idade Média conhecemos uma Teologia Dominicana, Franciscana, e assim por diante; na Modernidade existem uma Escola de Tübingen e uma Escola Romana, com uma entrada da Teologia Jesuítica,  por exemplo. O que dificulta e muda a situação atual, é o pluralismo geográfico e cultural da Teologia, além das opções ideológicas em jogo. É inegável um certo compromisso político de fundo em todas as teologias vigentes, mesmo as mais oficiais. A tarefa da boa teologia não está na isenção e presunção de uma neutralidade, de fato utópicas, mas é submeter-se à crítica da realidade e da fé. Assim, tanto para a TdL, como qualquer outra Teologia, seria um anacronismo manter as óticas dos tempos da guerra fria e do socialismo soviético. Teologia, portanto, seja T1 ou T2 ou T3, é sempre uma teologia e nunca a Teologia. (eu penso que vale a pena manter esses 2 parágrafos destacados em verde. Uma sugestão: ao falar de vários tipos de teologia, você deu ênfase às divisões de tempo e lugar, mas não fez nenhuma referência às teologias (substantivas) que se diferenciam pela perspectiva, por ex., a teologia da cruz de Lutero, que é o caso também da própria TL.)
A questão do círculo hermenêutico, da pericorese do Reino de Deus, dos lugares teológicos da realidade viva, no caso da Teologia da Libertação, faz com que a dialética, as reciprocidades, incluam também conflitos e “interesses” (Foucault), sobretudo, lembrando uma enfática expressão de Clodovis em nossos círculos de debates, “os altos interesses dos pobres”. É que teologia não é só oração, poesia, “teologia bonita” como a de Urs Von Balthasar. Ele é um perfeito dialético, desenvolveu a teologia hegeliana do Cristo como universal concreto de maneira gloriosa inclusive e principalmente na cruz. Encontrou uma inclusão da realidade no sistema de sua Herrlichkeit com tal poesia e coerência que não se consegue colocar uma agulha entre as pedras. Não lhe falta a descida aos infernos na meditação dos Três Dias. E tudo se resolve numa imensa, e abstrata, mística pascal. A alteridade das multidões de pobres de carne e osso parece um resto negligenciável em teologia, sem relevância para compreender a Revelação e a Salvação.. Diferentemente, o “concreto” na TdL não se consegue sistematizar: o Cristo vivo hoje é justamente o que está expulso do sistema, que vive na carne a fé e a esperança no Pai e seu tremendo mistério – é o Cristo identificado com o pobre de hoje, a vítima, o “esmagado” (sentido etimológico do “pequenino” de Mt 25). A Europa está com um surto de “teologia da beleza” de inspiração balthasariana, que parece acompanhar a vida como estética, inclusive uma estética eclesiástica correspondente (com retorno lento e seguro das “lingeries litúrgicas” – Thomas Merton). Assim, o sistema em que tudo fica resolvido ao invés de revelar, na verdade “encobre” a realidade cruel da favelização crescente do sul do mundo onde Cristo está identificado com os crucificados.
Mas se o Verbo realmente se fez carne frágil e mortal, é esta (este) o lugar teológico para compreender Deus. Paulo VI encerrou o Concílio com uma afirmação retomada em seu discurso de Medellín, 1968, e assumida na introdução do documento: “Para conhecer Deus é necessário conhecer o homem”. Supõe-se que sejam homens e mulheres de carne e osso, reais em suas alegrias e angustias, “especialmente os pobres e sofredores”, segundo a abertura de GS. Carne humana não é só subjetividade: é alteridade plural que provoca sacerdotes e samaritanos ao longo dos encontros e desencontros do caminho. A abertura do Concílio sofre agora a desconfiança de que por ele entrou o antropocentrismo da modernidade no pensamento da Igreja, antropocentrismo que na verdade esqueceu os pobres. Estes, hoje, são vítimas da modernidade e a atenção ao seu “potencial evangelizador” é um teste de fidelidade ao Concílio. A TdL tem hoje a melhor palavra de aggiornamento querido pelo Concílio, que é também palavra de incômoda profecia em confronto com a modernidade.

3.     O fantasma no porão

Quando acena para a virada antropológica de Rahner, Clodovis parece desconfiar da dissolução do transcendente no imanente, o que, para o esforço de superação feito pela Nouvelle Théologie e para o próprio Rahner se tratava de superar o dualismo e a superposição “natural-sobrenatural”, natureza-graça, etc. sem cair no antropocentrismo da modernidade. Pelo contrário, sabemos sobejamente que o “Mistério” sempre transcendente é categoria central da teologia de Rahner, e que sua antropologia poderia ser resumida em “Ouvinte da Palavra”, em seqüência à sua tese sobre o Espírito no Mundo. É claro que Clodovis sabe disso, mas no artigo aqui em debate ele só realça as sombras da modernidade e do esforço de responder honestamente a ela. A primeira grande vítima teológica na área católica foi, como se sabe, Alfred Loisy. Querendo se confrontar com a teologia liberal, buscou mostrar que, se a Igreja não é propriamente o Reino de Deus, no entanto, é mediação necessária para o Reino. (não está muito claro.) A pedrada, no entanto, veio do lado da Igreja, que desencadeou o anti-modernismo e “reduziu a cemitério o pensamento católico”. Foi necessário o Concílio, depois da morte amargurada de Loisy, para encontrar o equilíbrio: “Jesus iniciou sua Igreja pregando a boa nova, isto é, o advento do Reino de Deus” (LG 5). Graças, inclusive, a Rahner e à Nouvelle Théologie, como se desprende do diário de Congar.
A contraposição entre Reinado de Deus, Igreja e Cristo, ignora o significado bíblico da tradição do Reinado. Ao menos segundo os sinóticos, toda existência de Jesus gira em torno do anúncio e prática do Reinado, que deve ser entendido como sendo o do Pai. Daí também a íntima relacionalidade entre Jesus e o Pai. Quando Orígenes identifica Jesus como a “autobasiléia thou theou”, exprime essa relacionalidade mediadora. Jesus proclama o Reinado e vincula sua pessoa com seu advento, como deixa clara a ceia de despedida. O Reinado, no entanto, é para os pobres como as pesquisas exegéticas têm mostrado desde o final do século XIX e ao longo de todo século XX em diferentes abordagens, desde os estudos histórico-críticos passando pelos sociológicos e antropológicos das antigas civilizações do Mediterrâneo e do Crescente Fértil.
Esta longa volta é para chegar a este ponto: depois das intervenções da Congregação para a Doutrina da Fé da década de oitenta, houve uma conspiração para reduzir o pensamento teológico da América Latina a um novo cemitério: acabou, está morta, etc. Ironicamente a Notificação a Sobrino chega no centenário da Pascendi de Pio X. É impressionante, e Libânio anotou num parágrafo incisivo de seu artigo na mesma REB do nosso artigo em questão que, tendo falado de tudo, o documento passa em absoluto silêncio a teologia latino-americana e a sua contribuição, mesmo que ela exista em muita substância do documento (p839). Basta lembrar que “discípulos e missionários” são duas palavras chaves da cristologia de Sobrino: “seguimento e missão”. Porque a teologia latino-americana incomoda tanto? Porque os bispos têm tanto pudor a respeito deste ministério na Igreja? “Como vencer o oceano se é livre a navegação, mas proibido fazer barcos?” - reclamava o poeta Carlos Drumond[11].
É que a “virada” do pensamento teológico da América Latina é ainda mais profunda e traumatizante. Por isso se falou de “ruptura epistemológica” inclusive com a metodologia da Europa central, tão coroada pelo Concílio. Apesar da riqueza e herança recebida de além-mar, mesmo as mais próximas como a de Metz, com sua teologia como memoria passionis, ou de Moltmann com Deus Crucificado, aqui há um lugar teológico incontornável para uma teologia minimamente honesta: a realidade grande, clamorosa, atual e não só memória, dos pobres num mundo em que a pobreza não é simplesmente natural, mas social, produzida por relações e estruturas sociais injustas, portanto pobres como vítimas de um sistema social, aos quais se juntam situações especiais em seu duplo significado enquanto negativamente “vítimas” mas positivamente “outros” com suas afirmações e resistências próprias: afrodescendentes, indígenas, mulheres em realidade patriarcal, etc. Antes de tratar de “enfoques” e mesmo de óticas, como fazem Libânio e Clodovis, parece mais mordente falar de lugares teológicos, lugares atualmente privilegiados. Estes lugares se tornam, então óticas. Talvez certo vazio da teologia européia e do Atlântico norte seja exatamente por não conseguir se assentar mais em lugares teológicos reais, vivos, trabalhando preferentemente com lugares textuais e com memórias. Pode ser uma teologia bonita, mas sem refletir a fé real – ou ao menos a crise de fé que assola o Ocidente. E com a quase exclusividade do método histórico-crítico, a teologia da Europa e do Atlântico norte, em sua busca de afirmação acadêmica, tende a se transformar em “ciência da religião” deixando de ser teologia viva, sabedoria e fonte de sentido.
Uma pergunta que se pode dirigir ao nosso mestre em metodologia é esta: porque não deu atenção à lição de Melchior Cano sobre os loci theologici? Ele já intuía que a história, os tempos humanos, como se mostrou visceralmente no século XX, é um lugar teológico. O Dicionário de Teologia Fundamental organizado pelo próprio Rino Fisichella, bispo auxiliar de Roma que viu sua apostila de teologia fundamental lecionada na Universidade Gregoriana se transformar na Fides et Ratio, [Garantir essa informação] anota ainda que novos lugares teológicos podem surgir, como a vida das Igrejas Locais – quanto mais continentais!
O “lugar” torna-se decisivo na hermenêutica do século XX: o tempo, a cultura, os eventos, são lugares vivos. A Escritura e a Tradição são lugares categoriais, textuais, mas a realidade viva é o lugar substancial, seja aquela realidade que a Escritura e a Tradição lembram, seja aquela que é vivida hoje, que está de face para a Escritura. Por isso os contextos também são tão decisivos, não somente os contextos que estão “por trás” dos textos, mas os que estão “na frente”, ou seja, os contextos dos atuais leitores, segundo uma lição de Paul Ricoeur. Por isso a fé apostólica transmitida pela Igreja não pode ser contraposta à Igreja dos pobres que olham para a Escritura e encontram Cristo: há uma continuidade de sensus fidei e de reconhecimento. Ao invés de dar razão à Notificação a Sobrino, sobretudo à Nota Explicativa da mesma, como faz Clodovis, parece-nos necessário debater tais afirmações da Congregação, porque causa espanto que a Nota Explicativa faça uma contraposição – este e não aquele - de lugares teológicos quando os contextos os unem.


4. O pobre como lugar teológico privilegiado

Clodovis, recorrendo a Heidegger, nos lembra, ao tratar da fé como instância determinante do método teológico, que “o modo de acesso a uma esfera do ente – no caso Deus – depende do modo de sua manifestação – no caso: a Revelação”[12]. Afirma que “é necessário pensar dialeticamente a reciprocidade de pólos em confronto, no caso, o pólo da fé e o pólo método”[13]. E finalmente anota:
Pensando agora no concreto do método teológico, há que dizer: se o caminho, ou seja precisamente, o meta-hodos, para Deus é o caminho de Deus em nossa direção, poderíamos perguntar como se deu concretamente tal caminho no processo histórico-salvífico. Ora, Deus veio a nós pelo caminho da quenose, isto é, da humildade, da pobreza e da perseguição. Logo – e essa conclusão foi tirada e sublinhada pela teologia latino-americana e caribenha – os pobres e sofredores, além de sujeitos epistemológicos, são os mediadores privilegiados (não exclusivos) do conhecimento do Deus vivo e verdadeiro. De fato, a Bíblia atesta que os “pequenos” são os confidentes mais íntimos dos segredos de Deus, ou seja, dos mistérios do Reino (cf. Mt 11, 26; 1Cor 1, 26-29). Nessa linha, têm, no fundo, razão os teólogos da libertação em dizer que o seu método era a sua espiritualidade, precisamente o “encontro com Deus no pobre”. Pois, como vimos, o evento da fé determina o método teológico, de vez que a natureza do objeto determina o modo de seu acesso cognitivo[14].
Nesta citação Clodovis reconhece que o modo da Revelação do Mistério transcendente se deu – e se dá – no caminho de Deus em nossa direção, e se dá como quenose, encontrado na humildade, na pobreza e na perseguição – Deus das vítimas, dos “diminuídos”. Opção preferencial ou “eleição” que tem uma lógica somente explicada por um amor “justo”, ao estilo da pergunta sobre “quem é o preferido da mãe?” cuja resposta, no ensinamento árabe, é: “o menor até que cresça, o distante até que chegue, o doente até que cure”. Ou seja, para amar a todos com justiça e igualdade é necessário dar preferências. E este é o ponto de vista de Deus – desde Abel até Jesus - como um fio dourado que atravessa a memória bíblica. E cabe à teologia a perigosa ousadia de assumir “o ponto de vista de Deus”. Se não assumir o ponto de vista de Deus e, mais ousado do que o ensinamento árabe sobre o amor preferencial da mãe, o lugar desde onde Deus se revela e se dá a conhecer em carne humana viva hoje, então sim andará por ambigüidades teóricas e práticas, deslocando-se para outros lugares – o lugar da ordem, do poder, da sacralização da instituição e da lei, que levará para uma paganização e uma idolatrização do Deus vivo, petrificando-o. No entanto, essas coisas sim são “de segunda ordem”. Ainda que tenha muito charme, muita beleza litúrgica e poética, muita palavra augusta como “transcendência” e “mistério”. É o lugar do pobre, de carne e osso, lugar de uma alteridade ao mesmo tempo incontornável e irredutível, que se mantém a reserva de transcendência e mistério. Isso, mais que paradoxo, é escândalo. Ora, o escândalo deve integrar a epistemologia teológica cristã: o que a cabeça não resolve, resolve o coração. É que a transcendência, na revelação tipicamente cristã, é de Deus para nós não “em geral”, mas para o lugar dos mais humildes e frágeis. Isso faz com que o seu Mistério não seja apenas um “excesso além”, mas um “excesso aquém”, loucura e escândalo, mas paradoxal poder e sabedoria de Deus, etc., segundo a comparação que, no início da primeira carta aos corintos, Paulo faz entre a memória escandalosa de Cristo crucificado e a comunidade viva de gente sem qualificações segundo o mundo – pobres, mais uma vez, ad nauseam!
O “lugar teológico do pobre” privilegiado cristãmente está intrinsecamente conectado com o pobre como “sujeito eclesial”. Que o pobre mereça atenção, seja objeto de cuidado e amor pastoral, etc., nisso sempre se esteve de acordo em toda a Igreja de todos os tempos e tendências. É o pobre como objeto preferencial de amor e até de inspiração[15]. No documento de Aparecida, a opção preferencial pelos pobres e excluídos foi parar na terceira parte, na promoção da dignidade humana (8.3). É tão forte a impressão de que se trata de destinatários da missão, que o comentário de Stefano Raschietti, na mesma REB de nosso artigo em discussão, tem um subtítulo de seu artigo “O envio ad extra aos pobres e aos outros para comunicar vida plena”(p.944). Este ad extra chega a doer, mas parece coerente com a estrutura do documento. Convida a ir pelo caminho da quenose e da compaixão. Está de acordo com a já famosa afirmação de Bento XVI: a opção preferencial pelos pobres é decorrência intrínseca da cristologia. E, no entanto, o que sustentamos aqui é que há algo mais radical: é “lugar cristológico”, e por isso é lugar teológico: não se encontra Deus cristãmente falando se não no campo dos pastores, naquele que vem de Nazaré, no lugar dos malfeitores crucificados, etc. reais, de hoje, que têm rosto e nome, e não só textuais, tecidos de memórias. Os pobres surgem, assim, como escandoloso sujeito magisterial na Igreja e na sua teologia, portando um testemunho que se torna uma prova nas tentações da Igreja e da teologia: para continuar a ser teologia “cristã”, este reconhecimento e esta conversão ao lugar privilegiado do pobre sem graça e nem mérito é articulum stantis vel cadentis[16].
Clodovis, em seu rico e saboroso texto básico Teoria do Método Teológico compara a teologia da Europa à raposa – sabe muitas coisas – e a teologia da América Latina ao porco-espinho – sabe uma coisa só, mas importante. Embora tenhamos teólogos e teólogas que são correspondem a ambas as metáforas, até porque são europeus que aqui fizeram sua ruptura epistemológica e inculturação ou são latino-americanos que foram se carregar de muitas coisas por lá ou mesmo por aqui, a comparação e o discurso ad nauseam insistindo no fio dourado condutor que ajuda a teologia a permanecer cristã tem algo do oráculo obsessivo dos profetas. Bastam duas citações aqui: “Eu sou o Altíssimo, mas habito junto ao humilde e ao abatido”(Isaias 57, 15 –VERIFICAR tradução) “Fazia justiça ao pobre e ao infeliz (...) não era isso conhecer-me?” (Jeremias 22,16 IDEM). Is 58; Tg.
Finalmente, para não alongar nossa parte no debate, vale recordar a gênese histórica da opção preferencial pelos pobres como categoria teológica, portanto teórica e não só pastoral ou prática ou ad extra, na década entre Medellín e Puebla. Desde então até hoje talvez o maior porco-espinho tenha sido Sobrino. Ele, como todos os demais, teólogos e teólogas, tem uma biografia por trás da bibliografia. Sua convicção firme é de que o discurso teórico da Igreja, com legítima busca de universalidade, na verdade voa para a abstração, e esta acaba servindo de nevoeiro para realidades eclesiais menos evangélicas. Contra o discurso abstrato, loquaz, que em Roma é chamado pelo povo leigo de “curialista”, Sobrino tem insistido tenazmente na “parcialidade” concreta dos pobres em um mundo de interesses em conflito. É ridículo rotular esta ótica como leitura marxista, bastando ler o evangelho para adquirir sensibilidade e para ler inclusive pastoralmente tais parcialidades em conflito, como fazem os documentos mesmos dos bispos latino-americanos. Sobrino aprofunda teoricamente, aproveitando a crítica que já Hegel fazia ao universalismo abstrato de Kant, exigindo uma parcialidade concreta e aberta à realização dialética da universalidade. Se já Hegel viu tudo isso em Cristo, Sobrino e a TdL nada mais fazem que buscar por onde passa Cristo não em uma universalidade abstrata que se atém ao discurso, mas viva hoje: na parte dos pobres, a única parcialidade que realmente pode abrir-se para a inclusão e a universalização escatológica do Reino de Deus e das bem-aventuranças[17]. 
A pluralidade de enfoques ou de óticas em teologias de libertação tornou a árvore frondosa: teologia índia, feminista, afro, ecológica. São teologias críticas e, sobretudo, afirmativas: seu lado positivo e construtivo ajuda a reconhecer sinais ou sacramentos do Reino de Deus. Podem ser chamadas de “teologias para o Reino de Deus”. Mas o tronco continua a ser a intuição nascida durante o Concílio, regada em Medellín, amadurecida entre Medellín e Puebla: a teologia que parte do lugar do pobre, da quenose, revela o Deus do Reino (a expressão “a teologia que ... revela o Deus do Reino” pode ser mal-interpretada como algo pretensioso, como a TL pretendendo ter o monopólio da revelação. Sugiro que encontre uma outra palavra ou expressão para “revela”, algo como: “a teologia que ... , tem como o seu objeto central o Deus do Reino). E, por isso, pode ser chamada de “teologia do Deus do Reino”.
Afinal, é o próprio Clodovis quem afirma que toda teologia, para ser cristã, deve levar a sério a dimensão libertadora da fé:
Pois, se há uma teologia que não assume esse desafio, pode-se questionar se é bastante ‘cristã’ ou se não é também ‘neoliberal’ (...) não ponho mais a teologia da libertação como uma corrente entre outras, brigando por um lugar ao sol e disputando a hegemonia cultural no campo teológico e pastoral. Ponho sim, a libertação social como dimensão constitutiva de toda teologia cristã. Desse modo, o que se requer não é tanto uma opção particular por uma corrente quanto uma opção pela vocação da própria teologia, caso se queira ainda cristã[18].
Parece-nos justo e apropriado reafirmar, depois de tudo, que o pobre não está no lugar de Cristo ou de Deus como um substitutivo, mas que Cristo – Deus mesmo - se encontra privilegiadamente no lugar do pobre, sub specie contraris (VERIFICAR GENITIVO). Isso não é só regime de urgência, é regime de excelência: escândalo e loucura, ruptura epistemológica, sabedoria e teologia verdadeiramente cristã.
Sobre a relação entre Deus e o pobre
Certamente Clodovis não diria que entre Deus e os pobres prefere Deus, mas que prefere Deus porque fica tanto com os pobres como com Deus. No entanto, dificilmente poderá negar que seu interesse real são os pobres. Ora, se o interesse real são os pobres, então não buscará um Deus sem os pobres. E é exatamente a isso que se chama de perspectiva. Ou seja, não se busca simplesmente a Deus, como um físico busca um primeiro princípio e nem como Aristóteles buscava o primeiro motor, um princípio de explicação da contingência. Caso os seus interesses não fossem os pobres, buscaria um Deus que o mantivesse afastado e de consciência em paz. Não basta ler a Bíblia e nem a Tradição e nem Magistério para esse vínculo. Ou se parte dos pobres e se encontra ao Mistério Divino fragilizado nas fissuras de suas vidas, ou não se encontram os pobres, porque a idolatria é capaz de suprir os arquétipos religiosos sem as irmãs e os irmãos. Ao propor uma Igreja Samaritana, Aparecida qualifica um modo de ser capaz de manter a fidelidade à presença divina em meio à fragilidade histórica e humana.

Uma questão que foi mencionada rapidamente, na discussão sobre se de Cristo necessariamente chega ao pobre, é como o pobre é visto quando se parte de Cristo para chegar ao pobre. O pobre pode ser visto como um mero objeto de assistência ou de evangelização. A história do cristianismo está cheia de pessoas de fé que a partir da sua fé trabalham em prol dos pobres, mas na perspectiva de levar a eles a “libertação” ou melhores condições de vida. Eles são sempre objetos da ação da Igreja. A TL é mais do que trabalhar em prol dos pobres, mas compreende os pobres como co-participantes ou como agentes principais (essa é uma questão polêmica no interior da TL) na luta pela libertação.
Os pobres não devem ser somente objetos da ação solidária da Igreja e da evangelização, mas também como “portadores” da revelação da presença de Cristo entre nós. Além disso, é preciso enfatizar que os pobres podem e devem ser também agentes das lutas (não sujeitos históricos, pois esse conceito é questionável), sujeitos lutando para a afirmação da sua dignidade e sua subjetividade. A TL se destaca por assumir os 2 último pontos, e não somente por se preocupar com os pobres.


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[1] Cf. Teologia e Prática. Petrópolis: Vozes, 1993. 2ª edição, com prefácio autocrítico, em que prefere substituir “Teologia 1” e “Teologia 2” por “Momento 1” e “Momento 2” da Teologia. Teoria do Método Teológico. Petrópolis: Vozes, 1998.
[2] Cf. In: SUSIN Luiz Carlos, O mar se abriu. São Paulo: Soter/Loyola, pp.79-95.
[3] Cf. In: SUSIN Luiz Carlos, Sarça Ardente. Teologia na América Latina: Prospectivas. São Paulo: Soter/Paulinas, 2000. pp.145-187.
[4] Cf. In: ELLACURÍA Ignacio & SOBRINO Jon, Mysterium Liberationis. Madrid: Trotta, 1990, tomo I, pp. 81-82.
[5] O oranizador é o prof. Pe. Ney de Souza, e reúne textos de professores da Pontifícia Faculdade de Teologia Nossa Senhora da Assunção, de São Paulo, e da Faculdade de Teologia da Universidade Católica de Campinas. São Paulo: Paulinas, 2007.
[6] Cf. Teoria do Método Teológico. Petrópolis: Vozes, 1998. p.119-123.
[7] Cf. Teologia trinitária............
[8] O livro de Peterson é de 1935, sob o impacto da ascensão do fascismo e do nazismo.
[9] Clodovis Boff vê nesse período o risco de “usurpar a função magisterial dos Pastores” (cf. Justificação da Teologia ontem e hoje”, Studium 1 [2007] p. 111-120, aqui, 112). Que também os Pastores estejam sujeitos a usurpações, não se menciona e talvez não fosse pertinente.
[10] Cf. p. 1006. Em outro lugar é ainda mais explícito ao afirmar ser “a Teologia  que arranca daí [ponto de partida ou perspectiva do pobre], como é a TdL, só pode ser ‘um discurso de segunda ordem’, que supõe em sua base uma ‘teologia primeira’ (p. 1004).
[11] Apud ALTEMEYER JÚNIOR Fernando, A arte de construir remos: sobre a polêmica Teologia da Libertação. In: ...............revista Puc/Paulinas
[12] Em Retorno à Arché da Teologia. In: SUSIN Luiz Carlos, Sarça Ardente. Opus cit. P154.
[13] Ibid. p.156.
[14] Ibid. p.156-157.
[15] Cf. VIGIL José Maria, Opção preferencial pelos pobres (CERTIFICAR) In: SUSIN Luiz Carlos, Sarça ardente. Op. Cit. P........
[16] Cf. SOBRINO Jon, La autoridad doctrinal del pueblo de Dios. Concilium 200 (1985) pp. 71-81.
[17] Cf, para não sobrecarregar com toda a bibliografia de sobrino, a última publicação: Fuera de los pobres no hay salvación...........
[18] BOFF Clodovis, Como vejo a teologia trinta anos depois. In: SUSIN Luiz Carlos, O mar se abriu. Op.cit. p90.


Publicado em:

http://amaivos.uol.com.br/amaivos09/noticia/noticia.asp?cod_canal=29&cod_noticia=11383

5 de junho de 2012

Os javalis na vinha do Senhor

Na semana passada, os escândalos e a vergonha ou a falta dela sucederam-se no Vaticano.

Primeiro, foi a publicação por Gianluigi Nuzzi do livro Sua Santidade. Os Dossiers Secretos de Bento XVI. O jornalista teve acesso a uma centena de cartas e documentos confidenciais reservados. Evidentemente, a sua publicação, embora nada traga de surpreendente, causou irritação no Vaticano, já que a obrigação de manter o segredo foi violada. Nestes textos, "emergem os confrontos secretos e as armadilhas a todos os níveis", que percorrem os palácios apostólicos do Vaticano. Nuzzi defende-se, dizendo que não pagou nem um euro a ninguém e que "não é um livro contra a Igreja, nem contra a fé, nem contra o Santo Padre". Pelo contrário, "há vontade de limpeza; são pessoas que vivem há anos no Vaticano e que querem expulsar os vendilhões do templo".

Depois, foi a destituição do presidente do Instituto para as Obras da Religião (IOR), mais conhecido como o Banco do Vaticano, Ettore Tedeschi.
Isso aconteceu, após uma moção de censura no Conselho de Supervisão. Há quem fale em casos de lavagem de dinheiro. No entanto, Tedeschi, apresentado como católico fervoroso, simpatizante do Opus Dei, respeitado pelo Papa, especialista em ética nas finanças, antigo professor de Economia na Universidade Católica de Milão e director da filial do Santander na Itália, tinha até há pouco tempo a "total confiança" da Santa Sé. Após a demissão, declarou: "prefiro não falar, para não dizer grosserias."

Por fim, um caso sem precedentes: o mordomo do Papa, Paolo Gabriele, de 46 anos, homem de confiança, no lugar desde 2006, e um dos poucos com contacto directo com Bento XVI, foi preso por posse de documentos sigilosos. Segundo o porta-voz do Vaticano, padre Federico Lombardi, "a pessoa detida por posse ilegal de documentos confidenciais, encontrados no seu domicílio situado no território do Vaticano, é o senhor Paolo Gabriele, que permanece preso". Mas será ele o principal responsável?

Afinal, o que se passa? Há um Papa debilitado (tem 85 anos), amargurado, que talvez nem sequer imaginasse o que vai pela Cúria e cujos interesses são de outra ordem que não propriamente a administração, pois o que o preocupa é a fé e a sua inteligência. Depois, está instalado o carreirismo eclesiástico, que tantas vezes denunciou. E, agora, os especialistas em vaticanologia vão
chamando a atenção para os rancores entre cardeais e, sobretudo, para as lutas e intrigas de poder, já que a sucessão papal está para breve.

Diz-se, por exemplo, que há os que querem desfazer-se do cardeal Tarcisio Bertone e dos que lhe são próximos. Por outro lado, o ex-secretário de Estado do Vaticano e actual decano do Colégio Cardinalício, cardeal Angelo Sodano, está "ferido", porque o actual Papa não o defendeu, quando o cardeal Christoph Schönborn, arcebispo de Viena e amigo pessoal de Bento XVI, o acusou publicamente de ter protegido Marcial Maciel, um dos homens que mais escândalos e danos causou nos últimos tempos à Igreja.

Jesus foi tentado três vezes, e as três tentações estão referidas ao poder: poder económico, poder político, poder religioso. O poder religioso é o que oferece mais perigos. Por isso, foi dizendo: "Sabeis que os governantes das nações as dominam e os grandes as tiranizam. Entre vós não deverá ser assim. Ao contrário, quem quiser tornar-se grande entre vós seja aquele que serve e
o que quiser ser o primeiro seja o vosso servo. Eu não vim para ser servido, mas para servir."

O cancro da Igreja é mesmo a Cúria Romana. Sem a sua reforma urgente e radical (mas ela será reformável?), que tem de começar pela transparência económico-financeira, a Igreja Católica assistirá a uma descredibilização crescente. Quando, no meio de uma crise global e sem fim à vista, seria mais necessária do que nunca uma palavra moral limpa por parte da Igreja, ela afunda-se em escândalos. "Os javalis entraram na vinha do Senhor", queixa-se, com razão, o Papa Bento XVI. Chegou-se a este paradoxo: a última monarquia absoluta do Ocidente parece sentir-se impotente para pôr ordem na sua casa.

* Padre, Professor de Filosofia na Universidade de Coimbra, Teólogo, Jornalista. Escreve no Diário de Notícias de Lisboa

30 de maio de 2012

''O verdadeiro problema é a clericalização. Voltemos ao Concílio e à colegialidade''

http://www.ihu.unisinos.br/noticias/509992-o-verdadeiro-problema-e-a-clericalizacao-voltemos-ao-concilio-e-a-colegialidade

Não parece tão surpreso o vaticanista e escritor Gian Franco Svidercoschi com osescândalos vaticanos. Mas certamente decepcionado. O ex-vice-diretor doL'Osservatore Romano é o autor de um livro – Mal di Chiesa. Dubbi e speranze di un cristiano in crisi – que tem provocado muita discussão.

A reportagem é de Roberto Monteforte, publicada no jornal L'Unità, 28-05-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.




Eis a entrevista.

A dor e a degradação que o senhor denunciou têm a ver com os fatos de hoje?


Diante do que está acontecendo, o meu livro parece ter sido escrito por uma noviça. A crise que a Igreja atravessa é muito mais grave até mesmo do que aquela imaginada pelo próprio pontífice, que convocou para setembro próximo o Ano da Fé. É verdade que estamos diante de uma crise da fé. Mas esse é o resultado final de muitas coisas. Não só de crises individuais. Na Igreja, certamente há também uma crise de estruturas, uma crise de projetos e principalmente de liderança. Muitas coisas têm acontecido nos últimos anos para não pensar que aqueles que tinham que suprir um papa idoso, que preferia se dedicar à pregação e à escrita, tivessem que fazer funcionar a máquina da Cúria. Não foi assim. Nos últimos tempos, a Secretaria de Estado parece ter assumido uma autonomia e uma predominância excessiva...

Explique mais...

Olhemos para os dois últimos consistórios, ambos realizados com o cardeal Bertone, secretário de Estado. O seu parecer indubitavelmente pesou na escolha dos cardeais. Mais de 40% dos nomeados são italianos, e 50% são daCúria Romana. Foi a subversão do rosto do colégio cardinalício que elegeu a papa o cardeal Joseph Ratzinger, em que os europeus não tinham a maioria. Agora, ao invés, voltaram a tê-la. Na última rodada de nomeações, não houve nenhum novo cardeal africano. E depois as lutas pelos grupos...

A que se refere?

Eu não acredito que o mordomo do papa assumiu sozinho a responsabilidade de trazer à tona os documentos. Até porque não podia chegar sozinho a todos os documentos vazados. Depois, porque me parece excessivo pensar quePaolo tivesse um amor infinito pelo papa e, com esses vazamentos de documentos, pensasse em atacar os supostos inimigos do papa. Deve haver alguém por trás disso. Essa é a demonstração da queda da liderança da Igreja, antigamente conhecida como o centro de uma grande diplomacia e de governo. Agora, são esses os homens que chegaram ao poder. E não é à toa que os dois últimos pontífices condenaram explicitamente, mais de uma vez, o carreirismo. É o sinal de que, entre a hierarquia, o carreirismo exagerado está presente, com um subgoverno que, talvez para agraciar um "chefe" ou outro, chega à guerra de grupos da qual estamos vendo os resultados.

Com quais objetivos estariam agindo? Os efeitos são devastadores para a credibilidade da Igreja.

Há a pobreza de visão dessas pessoas. As gafes em que, para sua infelicidade, Bento XVI incorreu põem em causa a Secretaria de Estado. Na Cúria, há quem pensa em criar "territórios privados" reservados aos italianos. Foi assim com as últimas nomeações. É evidente a influência do secretário de Estado sobre as escolhas específicas. Isso pode ter causado uma reação por parte daqueles que tendem a resistir àquela que podem considerar como uma prepotência, uma arrogância da Secretaria de Estado. Há cardeais que já pediram ao Papa Ratzinger a renúncia deBertone. Na cabeça da Cúria, seria necessário um político de nível internacional: dessa forma, no entanto, o próprio papa, no fim, ficou achatado em uma dimensão italiana.

Isso justifica os corvos?

Na nota vaticana de condenação da publicação das cartas roubadas no Vaticano publicadas no livro de Nuzzi – e eu digo isto como fiel –, faltava um mínimo de explicações sobre os conteúdos críticos presentes nessas cartas. São cartas verdadeiras. Há acusações específicas. Alguém as desmentiu? Não. Penso em Viganò ou no que está escrito na carta de Boffo. É incrível o que está acontecendo. É preciso mais transparência. E depois se ataca aqueles que trazem às notícias à tona sem explicá-las?

A responsabilidade é só da gestão da Cúria Romana?

Nos últimos anos, houve um empobrecimento da cúpula vaticana, com uma infusão de pessoas muito próximas ao secretário de Estado. São amigos do cardeal Bertone os três cardeais colocados nos postos-chave da organização do Vaticano. Do outro lado do Tibre, entrou a fragilidade humana. Tanto Wojtyla quanto Ratzinger, com suas sensibilidades, perceberam a impossibilidade de mudar a Cúria Romana.

O que o senhor propõe?

Uma premissa. O verdadeiro problema é a clericalização da Igreja. É o retorno de um mal antigo: o domínio dos clérigos. Há um retorno de individualismo e de clericalismo também entre os jovens padres. É a Igreja hierárquica que se sente dona da verdade e não ao serviço dos outros. O que na Igreja devia ser serviço se fez poder. O uso do poder sagrado por parte dos clérigos: esse é o caruncho. Determinando assim uma reação igual e contrária por parte de quem detinha o poder e agora se sente marginalizado. A Secretaria de Estado não está ao serviço do papa; tornou-se um poder. A resposta é voltar verdadeiramente ao Concílio Vaticano II e à colegialidade.

A Igreja Católica está se reduzindo a uma seita?

Jamie L. Manson, teóloga católica e mestre em teologia pela Yale Divinity School. 




Se a hierarquia continuar nesse caminho de privação de direitos em massa, o resultado não será uma Igreja menor e mais fiel, mas sim uma seita isolada e contracultural.

A análise é de Jamie L. Manson, teóloga católica e mestre em teologia pela Yale Divinity School. Suas colunas no jornal National Catholic Reporter - NCR - renderam-lhe um prêmio da Catholic Press Association por melhor coluna/comentário regular em 2010. O artigo foi publicado no sítio do jornal NCR, 24-05-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.


Muito tem se falado nos últimos meses sobre um anúncio publicado no The New York Times (imagem abaixo)encorajando católicos liberais e nominais a "sair da Igreja", porque ela nunca poderá ser mudada a partir de dentro e porque participar dela é colaborar com o seu sistema opressivo.
O anúncio foi pago por uma organização chamada Freedom from Religion Foundation. Mas, quanto mais eu reflito sobre o anúncio e sobre o comportamento da nossa hierarquia ultimamente, há uma parte de mim que não ficaria surpresa se ficássemos sabendo que o próprio Vaticano secretamente pagou pelo anúncio.
Com os seus ataques contra o casamento homossexual, a batalha contra a prestação de cuidados de saúde adequados às mulheres, o golpe hostil contra a LCWR [Leadership Conference of Women Religious] e a inquisição contra as meninas escoteiras, a hierarquia continua se apresentando como um embaraçoso espetáculo midiático em uma sociedade que há muito tempo se recusa a aceitar o ensino sobre o controle de natalidade, que acredita na igualdade das mulheres e que, cada vez mais, apoia o casamento homossexual.

Mesmo aqueles que não são afetados diretamente por essas batalhas ideológicas acham odioso o fato de que a hierarquia prefere gastar uma quantidade preciosa de dinheiro e de recursos em ações judiciais contra o governoObama e em bizarras novas campanhas como a Fortnight for Freedom [período de oração e reflexão sobre a liberdade religiosa proposto pela Conferência dos Bispos dos EUA para os dias 21 de junho a 4 de julho].

Os líderes da Igreja parecem obcecados por privar de seus direitos o maior número de leigos possível.

A pergunta é: por quê? Por que a hierarquia está agindo como a nova chefe que, para se livrar da equipe que herdou, torna tudo o mais desconfortável possível para que não permaneçam na organização? As lideranças da Igreja tomaram uma decisão por reduzir seu tamanho? Será que ele perceberam que os 2,2 bilhões de dólares em acordos em torno dos abusos sexuais e o número rapidamente decrescente de padres nos Estados Unidos tornou a Igreja incapaz de prover as necessidades dos 72 milhões de católicos?

Talvez, todas essas batalhas ideológicas – que, dizem, estão fundamentadas no desejo do Papa Bento XVI de umaIgreja menor e mais fiel – tenham realmente tudo a ver com dinheiro, ou com a falta dele. Mais de um comentarista sugeriu que o fim da repressão contra a LCWR poderia estar na recaptura de propriedades, bens e reservas de pensão das comunidades religiosas.

Infelizmente, se a hierarquia continuar nesse caminho de privação de direitos em massa, o resultado não será uma Igreja menor e mais fiel, mas sim uma seita isolada e contracultural.

Em seu livro The Sacred Quest, os estudiosos Lawrence Cunningham e John Kelsay descrevem as características de uma Igreja e de uma seita. Eles contam com o trabalho pioneiro do estudioso alemão Ernst Troeltsch - o primeiro a fazer essa distinção com base em suas observações na Europa -, do início do século XX, quando comunidades religiosas como a Igreja da Inglaterra estavam em contraste com grupos dissidentes, como os quakers, cujas crenças religiosas os excluíram da cultura dominante de seu país.

Cunningham e Kelsay definem uma igreja como "uma comunidade religiosa de alguma posição social que convida todos os membros de uma sociedade a participar de suas atividades, tem uma participação no bem-estar da comunidade social, e afirma ser o guardião da verdade religiosa".

Uma seita, por outro lado, "tende a exigir mais da conformidade em seus membros, é exclusiva, distancia-se das preocupações da sociedade em geral e também afirma ser a portadora da verdade religiosa." Seitas são "exclusivistas, introspectivas e têm algumas tensões com a cultura dominante". Exemplos atuais de seitas seriam os Amish ou os judeus hassídicos.

Enquanto a hierarquia e seus devotos gastam todo o seu tempo e energia exilando os "dissidentes" na Igreja, são eles que estão se tornando dissidentes na sociedade. O chamado de Bento XVI para a obediência radical e a recusa de questionamentos soa mais como a demanda absoluta de uma seita para o conformismo do que o chamado para uma igreja universal.

A recusa da hierarquia em reconhecer a necessidade crucial de contracepção global, bem como um sacerdócio que inclua mulheres e pessoas casadas, é um sinal claro de seu isolamento contínuo com relação às preocupações da sociedade.

Alguns na hierarquia e muitos dos que estão no movimento neoconservador até já se voltaram para a noção pré-Vaticano II de que a salvação só pode vir através da Igreja Católica Romana.

Até mesmo os trajes a Igreja Católica estão se tornando sectaristas. Jovens seminaristas e recém-ordenados tornaram-se notórios por arrastar para fora dos armários da Igreja túnicas amarradas como saias, pluviais e manípulos repletos de traças. E qual leitor do NCR pode se esquecer do galero do cardeal Raymond Burke (foto à esquerda), ou da exibição da capa magna de 20 metros de comprimento do bispo Edward Slattery James na Basílica do Santuário Nacional da Imaculada Conceição (foto à direita)?

Quem pode ficar feliz e em paz na Igreja institucional, exceto aqueles que possuem pontos de vista extremistas e contraculturais? Claro, alguém pode argumentar que o próprio Jesus foi considerado extremista e contracultural em seu tempo. Mas aqui está a diferença: Jesus não tinha medo do mundo.

Jesus nunca permitiu obediência absoluta à lei para trunfar as necessidades pastorais da das pessoas diante dele. Ele desafiou o ritual religioso em prol da cura do sofrimento. Ele chamou todos - coletores de impostos, homens ricos, mulheres, bêbados, prostitutas - para a sua mesa, sem exigir nenhum teste de fidelidade ou confissões.

A Igreja Católica Romana está se tornando rapidamente um refúgio para aqueles que têm medo do mundo. A Igreja que, há 50 anos, chamou a si mesma para imergir no mundo moderno está, em vez de encolhendo, recusando-se a se envolver de uma forma significativa e pastoral com as lutas e necessidades humanas de hoje.

A hierarquia está tão arraigada em ideologias que esqueceu que existem complexas histórias humanas por trás de questões como a contracepção, a ordenação de mulheres e o casamento homossexual. Não é à toa que eles têm tanto medo de mulheres religiosas - que construíram uma Igreja de integridade e credibilidade moral por imersão na realidade da vida humana e pela coragem de se comprometer com um mundo cheio de sofrimento, fissura, imprevisibilidade e paradoxo.

Ao invés de permitir que o ministério da Igreja cresça e evolua com a comunidade humana, a hierarquia parece estar escolhendo o caminho de um grupo religioso dissidente. Ao fazer isso, eles estão abandonando, de bom grado, aqueles que esforçaram-se por décadas para permanecer fiéis à Igreja, mesmo através da desgraça dos abusos sexuais e da rescisão gradual das promessas do Concílio Vaticano II.

E quando essa geração de fiéis morrer, quem entre as novas gerações irá achar vida e sentido nesta Igreja-seita? Aqueles que querem fugir de um mundo em fluxo, com sofrimento, incerteza e luta pela igualdade? Aqueles que querem se recolher em um enclave fundamentalista onde homens europeus e patriarcais afirmam ter a verdade absoluta e inquestionável sobre Deus e sobre o nosso mundo?

Talvez seja uma Igreja mais fraca do que a hierarquia e seus devotos acham que querem. Talvez isso é tudo o que as lideranças sê veem realisticamente capazes de pagar. Quaisquer que sejam as motivações, se eles continuarem nesse caminho, terão que aceitar que deixarão de ser uma Igreja no mundo moderno e, ao contrário, se transformarão em uma seita exclusivista e isolada.

29 de maio de 2012

De Pacelli a Ratzinger: a grande crise da Igreja

De Pacelli a Ratzinger, todos os pontificados foram atravessados pelo fio dourado do confronto entre a Igreja e a modernidade. Por isso, merecem uma atenção especial para se entender qual é a essência da crise sistêmica que ocorre debaixo dos nossos olhos.

Publicamos aqui o editorial de Eugenio Scalfari, fundador do jornal La Repubblica,  publicada no jornal La Repubblica, 27-05-2012. A tradução é deMoisés Sbardelotto.

Eis o texto.

A velha Itália afundou durante um dia repleto de tempestade e de presságios, no outono de 1958: oPapa Pio XII morria em meio a uma corte desfeita de cardeais decrépitos, de alcoviteiros de negócios, de freiras fanáticas, de parasitas. No palácio papal deCastel Gandolfo, enquanto o temporal enchia as águas do lago e o vento sul escancarava as persianas e se engolfava entre as tendas e nos corredores, dignitários leigos e eclesiásticos se preparavam para ir embora.

Cada um tentava levar embora, até mesmo fisicamente, o máximo que podia. Mas, acima de tudo, cada um brigava para conservar algum benefício, um cargo lucrativo, uma fatia, por menor que fosse, daquele poder que, até aquele momento, há mais de dez anos, havia sido administrado sem escrúpulos e sem concorrência.

O afã era visível em toda parte, nas salas de recepção, nas antessalas e até mesmo ao redor do leito do moribundo que, já em agonia, era impudicamente fotografado pelo seu médico assistente e pela sua irmã assistente, com o tubo de oxigênio na boca, e os traços do rosto devastados pelas sombras da morte. Não era o afã da piedade. Era o afã da ganância e do medo, porque todos sabiam, dentro do palácio, que não morria um papa, mas acabava um reino.

Na sala privada do papa, circundado pelos purpurados mais idosos e poderosos, pelos chefes do Santo Ofício, dasMissões, do Tesouro, dos Seminários, o Camerlengo da Igreja representava o último elo de uma continuidade que estava prestes a se despedaçar definitivamente. Ele tinha, como sempre, um rosto absolutamente inexpressivo; não era um homem, mas sim um cargo, uma função, uma pausa do cerimonial. Mas, em torno desse cargo e do homem que estava dentro dele, ia se tecendo, precisamente nessas horas e naquele lugar, a trama do conclave.

Aloisi Masella, o Camerlengo, foi o primeiro e talvez decisivo mediador, juntamente com Agagianian, o prefeito doPropaganda Fide, entre o grupo dos cardeais estrangeiros e os curiais. Começou ali a busca que se concluiria algumas semanas depois sob as abóbadas da Capela Sistina, com um resultado que abalaria todos os programas, de um terceiro homem, um papa que teria que ser, ao mesmo tempo, bastante pastoral para absorver as inquietações da catolicidade, bastante diplomático para não esquecer as leis do poder, bastante humilde para restituir ao Colégio e aos Episcopados as prerrogativas que Pacelli havia confiscado. E bastante velho para não durar por muito tempo.

Naquela aurora de trovões e de ventos, quando o médico do papa, Galeazzi Lisi, declarou a sua morte clínica, dignitários, curiais, camareiros secretos, banqueiros, políticos, fugiram para Roma em grandes automóveis pretos para preparar o futuro incerto. Um bando de corvos abandonava as estruturas corroídas de um lugar do qual uma monarquia absoluta havia governado um país.
* * *
O trecho que vocês leram foi retirado de um livro meu intitulado L'autunno della Repubblica, de 1969, no auge do movimento estudantil. O capítulo aqui citado intitula-se "O fim de um reino" e relata justamente a morte do Papa Pacelli, Pio XII, que personificou por longos anos a Igreja triunfante e combatente que continha, porém, desde então, aquela crise sistêmica da qual fala o católico Alberto Melloni, um dos historiadores da Igreja mais credenciados nessa matéria.

Os acontecimentos em andamento marcam o momento culminante dessa crise: a destituição de Gotti Tedeschi da liderança do IOR, a prisão do mordomo do papa, Paolo Gabriele, a surda luta em curso entre as diversas facções curiais e anticuriais, a posição cada vez mais vacilante do secretário de Estado, Tarcisio Bertone. Por fim, o desespero do Papa Ratzinger, fechado em seus aposentos e manifestamente incapaz de segurar firme o leme em um mundo invadido por ganâncias, ambições, complôs e visões conflitantes da Igreja futura.

Não vou me ocupar, todavia, das investigações em curso, que o nosso jornal já abordou amplamente nestes dias e também hoje, com todas as atualizações noticiosas. Interessa-me, ao invés – e espero que interesse aos nossos leitores –, dar uma olhada de conjunto sobre os pontificados que se sucederam de Pacelli a Ratzinger. Todos foram atravessados pelo fio dourado do confronto entre a Igreja e a modernidade. Por isso, esses pontificados merecem uma atenção especial para se entender qual é a essência dessa crise sistêmica que ocorre debaixo dos nossos olhos.
* * *
O conclave que elegeu João XXIII ocorreu depois da monarquia absoluta, mas muito astuta, de Pio XII, um diplomata por excelência, que governou a Igreja em tempos duríssimos, com a guerra em curso e, depois, a guerra que encerrou com a reconstrução da democracia e o governo daDemocracia Cristã de De Gasperi.

Pacelli teve todos os defeitos e todas as qualidades dos grandes pontífices. Dissemos que se destacou nas capacidades diplomáticas, e ele demonstrou isso amplamente, sobretudo no atormentadíssimo período da ocupação nazista de Roma. Mas não lhe faltava pastoralidade e nem grandes capacidades cênicas. Ainda está nos olhos de todos os seus contemporâneos a sua visita ao bairro de San Lorenzo, em Roma, destruído pelo bombardeio norte-americano, onde a sua veste branca ficou manchada de sangue, quando avançou por entre as ruínas para abençoar os mortos e socorrer os feridos ainda estendidos pelas ruas devastadas.

O Partido Conservador também estava, naquela época, barricado na Cúria. O papa teve o cuidado de não dispersá-lo. Ao contrário, o reforçou para que se submetesse. Era ele quem decidia quando era o de fazê-lo emergir ou de fazê-lo calar. Além disso, quem falava por ele era o padre jesuítaLombardi, chamado de "o microfone de Deus", que combatia os social-comunistas com espada desembainhada. Uma outra espada estava nas mãos de Gedda e dos comitês cívicos que renegavam até mesmo a política de De Gasperi, que nunca foi recebido em audiência privada no Vaticano.

Mas Pacelli também era nepotista no sentido clássico e familista do termo. Era um príncipe e, como tal, se comportou e, como todos os príncipes, se entregou também ao populismo: recebia todos os tipos de categorias da sociedade civil: médicos, advogados, jornalistas católicos, ciclistas e jogadores de futebol, donas de casa, policiais e militares, atores e operários, empresários e barbeiros. O populismo de Berlusconi faz rir em comparação ao de Pio XII, que agora está em predicado de santidade.
* * *
O Papa João foi o extremo oposto, embora com alguns condicionamentos. Ele foi eleito com uma condição: que restituísse à Cúria a sua independência funcional. Ele se manteve fiel a esse mandato, mas os curiais não contaram que o papa também era capaz de proceder novas nomeações quando a morte abrisse espaços vazios na hierarquia.Havia a necessidade de um papa sobretudo pastoral, e o tiveram no sentido mais pleno da palavra. João foi muito mais pastor do que Romano Pontífice. O físico o ajudava, e o discurso também, mas foi sobretudo a sua alma que o ajudou ou, se se quiser, o Espírito Santo. Ele amava as crianças, as mães, as famílias, os pobres, os excluídos.

Ele chamou Montini novamente para a Secretaria de Estado e convocou o Concílio Vaticano II, para onde afluíram os bispos de todo o mundo católico. Havia passado um século desde oVaticano I, que se reuniu a pouca distância de tempo desde o fim do poder temporal dos papas. Ali, foi proclamado o Papa-Rei, infalível quando fala ex cathedra, e foi elevada a dogma a virgindade de Maria.

O Vaticano II, ao contrário, proclamou a necessidade de que a Igreja se confrontasse com a modernidade. Foi uma revolução, iniciada, mas obviamente completada. Foi a escolha de um tema que devia ser levado adiante, começando pela modernização da Igreja, pelo abalo da liturgia, a missa recitada nas línguas correntes e não mais em latim, com o sacerdote voltado para os fiéis e não mais de costas, a abertura do debate sobre o papel dos leigos e das mulheres. Por fim, o desinteresse do Vaticano com relação à política italiana e, portanto, a autonomia dos católicos comprometidos.

Mas em um ponto os curiais estavam certos: no seu quarto ano de pontificado, o papa adoeceu e, no quinto ano, morreu.

Ainda me lembro do funeral: uma multidão imensa que, da praça, chegava ao Tibre e além, todas as ruas apinhadas, desde a Piazza Cavour e a Villa Pamphili, todo o Borgo Pio. Não se via um papa como ele há muito tempo e não se viu desde então.
* * *
Depois, veio Montini. Dizer que ele teve qualidades pastorais seria pouco. Diplomático, certamente. Nenhuma sombra de populismo. Foi um político, talvez até demais. Mas não conservador.

Ele não levou adiante o confronto com a modernidade, mas impediu que houvesse novos retrocessos. Foi um pontificado com fases dramáticas naqueles anos de chumbo que culminaram com o assassinato de Aldo Moro, do qual que ele oficiou a missa fúnebre em Latrão.

Foi um papa de interregno.

Talvez, o Papa Luciani tinha alguma semelhança distante com o Papa João, mas morreu depois de apenas um mês. Depois dele, subiu à cátedra um cavalo de raça, uma grande, grandíssimo ator. Não sei se a Igreja precisava de um ator, mas ele o foi da cabeça aos pés, no momento da eleição, no momento do atentado, no momento da revolução na Polônia, no momento da queda do Muro, nas suas viagens contínuas ao redor do globo, no Jubileu do ano 2000 e na longa fase da doença e depois da morte.

Quando o Camerlengo pronunciou o seu nome depois da fumaça branca da chaminé da Capela Sistina, toda a praça pensou que haviam eleito um papa africano. Só quando ele se assomou, entendeu-se que era um branco, mas não italiano. "Se eu me equivocar, corrijam-me": recebeu uma ovação de estádio e assim começou.

Até o Solidarnosc e depois da queda do Muro de Berlim,Wojtyla foi o papa da liberdade religiosa contra o totalitarismo comunista. No Ocidente, ele teve o apoio dos conservadores, dos liberais, dos democratas. Derrubado o comunismo, ele acentuou a sua crítica contra o capitalismo, mas, ao mesmo tempo, reprimiu a "nova teologia" e a experiência dos padres operários. A indiferença com relação aoassassinato do bispo Romero enquanto rezava a missa em El Salvador foi uma das páginas desagradáveis do seu pontificado, compensada, contudo, pela sua peregrinação ininterrupta a todos os cantos do mundo onde lhe foi possível chegar.

Ele tentou iniciar a reunificação das Igrejas cristãs, mas sem dar passos significativos. Ele reconheceu a culpa histórica da Igreja, começando pela acusação de deicídio contra os judeus e pela condenação de Galileu e de Giordano Bruno.

A agonia foi muito longa e cenicamente grandiosa. Certamente não por cálculo, mas por autêntica vocação. "Santo subito" foi a invocação da multidão imensa que, também para ele, ocupou meia cidade.

Um balanço? Os problemas da Igreja na sua morte eram os mesmos: poder da hierarquia, marginalização do povo de Deus, crise das vocações, crise da fé em todo o Ocidente, nenhuma modernização dentro da Igreja. Mas uma modificação, sim, havia sido verificada nesse meio tempo: a mensagem do Vaticano II não só não dera passos à frente, mas havia dado passos para trás. Não por acaso, no Conclave, os martinianos foram marginalizados desde a primeira votação, e, a partir da segunda, emergiu Ratzinger, enquanto Ruini estava pronto para intervir se Ratzingerfosse derrotado.
* * *
Bento XVI não é um grande papa, embora o talento e a doutrina não lhe faltem. Não é um ator, ao invés, é o seu contrário. Wojtyla tinha um guarda-roupa grandioso, porque tudo era grandioso nnele. O guarda-roupa de Ratzinger, ao contrário, é lânguido, porque o próprio papa é lânguido, como se veste, como fala, como caminha. Escreve bem, isso sim. Os seus livros sobre Cristo são bons de ler, as suas encíclicas possuem aberturas, assim como alguns de seus discursos. A sua reavaliação de Lutero causou surpresa e alguma esperança de progresso em direção à modernidade, contrariadas, no entanto, pelas suas escolhas operativas, da confirmação de Sodano na Secretaria e, depois, à substituição por Bertone: do medíocre ao pior. Bertone: um Ruini sem a inteligência e a flexibilidade do ex-vigário e ex-presidente daCEI [Conferência dos Bispos da Itália]. A hierarquia se tornou novamente todo-poderosa, mas dividida em muitos pedaços. O ecumenismo já é uma flor murcha antes do tempo.

Bento XVI re-exumou plenamente a tomística de Tomás de Aquino com tantas saudações a Orígenes, Anselmo de Aostae Bernardo. Agostinho parecia ser um dos inspiradores deRatzinger, mas qual Agostinho? O maniqueísta, o coadjutor deAmbrósio ou o autor das Confissões? Agostinho foi muitas coisas ao mesmo tempo, chegando até Calvino, a Jansen e aPascal. Se quisesse dizer algo verdadeiramente atual, o Papa Ratzinger deveria dar início à beatificação de Pascal, mas me dou conta de que, no mundo dos Bertone, da Cúria Romana e das atuais Congregações, isso sim seria um gesto radical rumo à modernidade. Nunca o farão.

O pontificado lânguido seguirá adiante enquanto puder, depois não haverá o dilúvio, mas sim uma chuva de pântano cheio de rãs, mosquitos e alguns patos selvagens. O que há de pior para todos.

''O Vaticano continua sendo uma corte medieval''. Entrevista com Hans Küng

Hans Küng



"É uma situação muito grave e dolorosa e, como dizemos em alemão, faltam cinco minutos para a meia-noite: o tempo máximo ainda não terminou para salvar a Igreja e a Fé do sistema da Cúria Romana". O professor Hans Küng, talvez o teólogo mais rebelde do nosso tempo, foi, em sua juventude, amigo e companheiro de estudos de Bento XVI. Aqui, ele analisa o escândalo do Vaticano.

A reportagem é de Andrea Tarquini, publicada no jornal La Repubblica, 28-05-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis a entrevista.

Professor Küng, o quão grave é, segundo o senhor, a situação criada no Vaticano com o escândalo do vazamento de notícias?


É triste quando, justamente coincidindo com a festa do Espírito Santo, ficamos sabendo, no Vaticano, de tantos eventos e comportamentos ocorridos lá, que na verdade não são exatamente algo santo nem sagrado. Os escândalos relacionados ao vazamento de notícias confidenciais por obra do ajudante de quarto, as questões que atingiram o banco IOR e também, ao mesmo tempo, a intenção aparente do Papa Bento XVI de ir rumo à reconciliação com a Fraternidade de São Pio X [os seguidores ultraconservadores de Dom Lefebvre], em minha opinião, tudo isso, infelizmente, é um conjunto de eventos, escolhas, tendências que fazem parte de um todo. Não são casos isolados uns dos outros.

E que opinião o senhor amadureceu dessa situação, que o senhor descreve justamente como uma coincidência de eventos relacionados uns aos outros?

Todos esses eventos parecem ser sintomas da crise de um sistema inteiro em seu conjunto. Eu falo do sistema daCúria Romana, do sistema romano, de cujas características negativas toda a Igreja Católica sofre, no mundo inteiro. E, naturalmente, esses eventos contemporâneos dão a impressão de uma incapacidade papal. De um pontífice incapaz. A respeito disso, recém escrevi um livro, Salviamo la Chiesa, que está para ser lançado na Itália. O que me preocupa é aprofundar a problemática da indispensável reforma da Igreja.

O senhor também entrevê, como pano de fundo, um problema pessoal para Bento XVI?

Seguramente sim. Há também isso. Ele dedica horas e horas, todos os dias, à escrita de livros, em vez de governar a Igreja. E, nas fileiras da Cúria, está difundida a opinião de que ele não governa. Se queria escrever livros, o melhor era ter permanecido como um grande professor e teórico.

Por que o senhor fala ao mesmo tempo de crise estrutural, de sistema?

Porque a estrutura e a organização da Cúria Romana busca facilmente, mas em vão, nos enganar, esconder o fato-chave: que o Vaticano, em seu núcleo, continua sendo, ainda hoje, uma Corte. Uma Corte em cuja cúpula ainda se senta um reinante absoluto, com trajes e ritos medievais, barrocos e às vezes modernos e tradições cristalizadas, costumes. No seu coração, o Vaticano continua sendo uma sociedade de Corte, dominada e marcada pelo celibato masculino, que se governa com um código próprio de etiquetas e atmosferas. E, quanto mais você se aproxima do príncipe reinante subindo na carreira eclesiástica, menos valem ou contam, na primeira linha, a sua competência, a sua força de caráter, as suas capacidades e talentos, mas conta, ao contrário, que você tem um caráter maleável, com uma capacidade de se adaptar sobretudo aos desejos do reinante. É só ele, o reinante, estabelece se você é persona grata ou, ao invés, persona non grata.

E, mais especificamente, os problemas do Banco Vaticano?

O Vaticano vive em grande parte de doações dos fiéis, das receitas das dioceses. E ele administra bilhões de euros de economias de instituições eclesiásticas, de ordens e de dioceses de todo o mundo, e coloca os lucros à disposição do papa. O que foi pedido ao Kremlin pode ser pedido também ao Vaticano: primeiro, a glasnost, isto é, transparência. O Vaticano deveria se preocupar, em primeiro lugar, com a transparência dos negócios financeiros perante a opinião pública. E, segundo, a perestroika, reconstrução, reestruturação. O Vaticano deveria reestruturar as suas finanças e reorientar os fins da sua política financeira. E, por fim mas não por último, a reconciliação com a ordem de Pio X. O papa acolheria definitivamente na Igreja bispos e sacerdotes cuja consagração não é válida. Com base na Constituição Apostólica de Paulo VI Pontificalis romani recognitio, do dia 18 de julho de 1968, as ordenações sacerdotais e episcopais realizadas por Lefebvre são não só ilícitas, mas também nulas. Em vez de se reconciliar com essa irmandade ultraconservadora, antidemocrática e antissemita, o papa deveria se preocupar com a maioria dos católicos que está pronta para as reformas e com a reconciliação com todas as Igrejas reformadas e com todo o âmbito ecumênico. Assim, ele uniria ao invés de dividir.

De acordo com uma análise tão pessimista, não é tarde para salvar esse pontificado e a credibilidade do Vaticano?

Faltam apenas cinco minutos para a meia-noite, mas ainda não bateu a meia-noite. Um único ato construtivo de reformas lançado por esse papa ajudaria a restabelecer a confiança. Eu espero que o meu ex-colega Joseph Ratzinger não fique na História da Igreja como um papa que não fez nada pela reformar a Igreja.

26 de maio de 2012

A força do Espírito rompe barreiras e renova o mundo! PENTECOSTES

 Frei Jacir de Freitas Faria, OFM (*)



I. INTRODUÇÃO GERAL

Na era da internet, uma notícia chega aos quatro cantos do mundo em frações de segundos. Através das teclas do computador, vemos o mundo e nos comunicamos com ele, nos mobilizamos para coisas boas e ruins. Tudo se parece a um espírito que corre veloz nas ondas invisíveis e nas fibras óticas de um mundo globalizado, que, apesar dos avanços tecnológicos, persiste ainda em mostrar o incômodo da miséria, do racismo, da exploração sexual e das injustiças sociais que assolam grande parte do nosso planeta. A globalização ainda não acontece satisfatoriamente na promoção da solidariedade, da cultura da paz, do acesso aos bens necessários à vida, da promoção da justiça.
É nesse contexto de século XXI que continuamos celebrando Pentecostes como acontecimento profundamente aglutinador, pois nele todos os povos são reunidos por Deus para desfrutar da páscoa de seu Filho, fonte de paz, salvação e vida plena para todos. Pentecostes não é o oposto de Babel (Gn 11,1-9), pois ali não se trata de multiplicação de línguas, mas é a plenitude da comunicação entre o divino e o humano e  evento basilar do cristianismo primitivo, ao reler a manifestação de Deus no monte Sinai. É o que veremos nas leituras de hoje.
II. COMENTÁRIOS DOS TEXTOS BÍBLICOS
1.    I leitura (At 2,1-11): Pentecostes é a releitura simbólica do Sinai
Haviam se passado os cinquenta dias entre as festas da Páscoa e Pentecostes. Era o quinquagésimo dia da festa das semanas, daí o nome hebraico da festa: pentecostes. Era o dia 06 do mês de Sivan – 22 de maio no nosso calendário. Jerusalém estava repleta de peregrinos. Todos teriam trazido as primeiras colheitas para serem ofertadas no templo. A peregrinação até Jerusalém teria sido linda. Imagine grupos de pessoas caminhando juntos com cestos de uva, trigo, azeitonas, tâmaras, mel… Imagine o povo sendo acolhido em Jerusalém ao som de harpa, flauta e recitação de Salmos. Todos carregavam dentro de si o desejo de agradecer a Deus pelas primeiras colheitas e de comemorar o “dom da Torá”, da Lei dada ao povo no monte Sinai tantos séculos atrás. Nisso consistia a festa judaica de Pentecostes: comemorar o recebimento da Torá no monte Sinai e afirmar, com isso, que no dia de sua revelação “Eu também estava lá” (Dt 5, 24). O ontem se torna hoje (Lc 4).
Em Jerusalém estavam todos. E todos presenciaram a vinda do Espírito Santo. Como podemos interpretar esse episódio narrado por Lucas em Atos? Não estaria aí uma releitura do evento Sinai? Lucas descreve o acontecido em Pentecostes tendo na memória a narrativa do Sinai. Era preciso demonstrar que um novo Sinai estava acontecendo para legitimar a ação da comunidade de Jerusalém. Jesus teria dito para voltar a Jerusalém e lá eles receberiam o Espírito Santo. Pentecostes passa a ser o batismo da comunidade cristã, o qual a confirma na missão de ir para o mundo e evangelizar. Mais do que um dado histórico, estamos diante de uma profissão de fé. Sem Pentecostes, a Páscoa (passagem) em Jesus para uma nova vida não estaria completa. É belíssima a simbologia usada por Lucas para falar de uma experiência tão importante que marca o início da missão das comunidades cristãs.
Em At 2,1-13 temos dois relatos unidos: um mais antigo (vv. 1-4 + 12-13) e um mais desenvolvido redacionalmente (vv.5-11). O objetivo do primeiro é chamar a atenção para o fato carismático e apocalíptico de Pentecostes, e o segundo, demonstrar o caráter profético e missionário do evento. Vamos considerar o texto como um todo e interpretá-lo simbolicamente e como releitura do Sinai (cf. Faria, Jacir de Freitas, In.: O Espírito de Jesus rompe as barreiras, São Leopoldo: CEBI, 2001 p.13-16).
Eis os símbolos:
a)  Casa em Jerusalém: a vinda do Espírito Santo ocorre, segundo a tradição, em uma casa de dois andares na cidade de Jerusalém, que está situada sobre o monte Sião. Esses dois detalhes evocam claramente o monte Sinai, local onde Moisés recebeu as Dez Palavras de Deus. No Primeiro Testamento, os montes eram considerados lugares privilegiados da manifestação de Deus.
a)  Língua/linguagem: Lucas substitui o termo voz, que aparece na narrativa do Sinai, para língua. Esses termos são semelhantes e ambos se referem à Palavra. E cada um entende na sua própria língua. A Palavra é a presença de Deus. Língua (idioma) e linguagem (modo de se comunicar) têm o mesmo sentido no texto. O milagre de Pentecostes consiste no fato de os presentes poderem entender os apóstolos a  partir de sua própria cultura. É o mesmo que dizer: a evangelização está sendo realizada com sucesso. Por isso, esse fenômeno de “falar em línguas” – também encontrado em At 10,46; 19,6; 1Cor 12,10.28.30; 14,2.4-6.9 -, aparece nessa leitura com o acréscimo de “outras línguas”, com a intenção de demonstrar que a evangelização era para “todos no mundo todo”. Evangelizar não é falar em língua que ninguém entende, mas justamente o contrário. Não importa o idioma (língua mãe), mas a linguagem comum, o modo como é transmitida a proposta do reino.
b) De fogo: representa a manifestação de Deus; é um modo apocalíptico para dizer que Deus se manifestou – Ex 3,2-3; 13,21; 19,18) -,  (Cf. Comblin, José, Atos dos Apóstolos vol. 1:1-12. Petrópolis: Vozes, 1988, p.89). Deus acompanha o povo pelo deserto numa coluna de fogo que iluminava a noite (Ex 13,20-22). Deus desce para falar com o povo e Moisés no Sinai por meio de um fogo (Ex 19,18). A comunidade de Mateus conservou a memória da fala de João Batista que anuncia o batismo no Espírito Santo e no fogo que Jesus deveria realizar (Mt 3,11). E é isto que ocorre em Pentecostes, segundo a interpretação da comunidade de Atos dos Apóstolos. O Espírito Santo é o fogo da Palavra de Jesus que deve ser anunciada pelos seus seguidores. Também a tradição rabínica associa a palavra de Deus com o fogo. O comentário rabínico da passagem de Ex 20,18 “todo o povo ouviu trovões” diz: “Note-se que não é dito o trovão, mas ‘trovões’. Por isso, Rabi Johanan disse que a voz de Deus, apenas pronunciada, dividiu-se em 70 vozes, em 70 línguas, para que todas as nações pudessem compreender. Quando cada nação entendeu a voz na própria língua, a sua alma desfaleceu, salvo Israel que a ouviu, mas não ficou perturbado”( Cf. FABRIS, Rinaldo, Os Atos dos Apóstolos,São Paulo: Loyola, 1991, p.62. ). Falar em línguas, então, significa anunciar a palavra comprometedora de Jesus e não, balbuciar palavras indecifráveis.
c)  Multidão: simboliza o povo no deserto que recebeu as tábuas da Lei. No dia de Pentecostes, três mil pessoas estavam em Jerusalém. Não se trata aqui de uma cifra exata. A comunidade de Atos quis, com isso, afirmar que a comunidade dos convertidos era uma multidão, proveniente de doze povos e três regiões. Basicamente, estavam em Jerusalém três grupos: a) nativos do oriente (partos, medos e elamitas); 2) habitantes do leste (Mesopotâmia), norte (Ásia), sul (Líbia) e os da Judeia, Capadócia, Ponto, Frígia, Panfília e Egito; 3) estrangeiros (romanos, judeus e prosélitos, cretenses – povo marítimo – e árabes – povos do deserto). Curioso é o fato de que Lucas não menciona o território das igrejas paulinas (Síria, Macedônia e Grécia). Na menção aos povos, Roma está em último lugar. De onde Lucas herdou essa lista? Questão debatida. A lista dos vv. 9-10 Lucas herdou de uma fonte, mas a modificou, provavelmente. “Judeia” fora do lugar, no meio da Mesopotâmia e “Creta e arábia” parecem ser composição lucana.
d) Vendaval impetuoso: simboliza a manifestação de Deus. É a “violência” do Espírito que leva a comunidade a ser profética e missionária. Deus fala no Primeiro e Segundo Testamentos.
e)  Estão cheios do vinho doce: essa acusação simboliza os que não estão abertos ao novo da comunidade cristã. Segundo os Rolos do Templo (Cf. FITZMYER, J., The Acts of the Apostles, The Anchor Bible, vol. 31, p.235.), gruta 11, os judeus de Qumrã celebravam três pentecostes: a) Festa das Semanas e do Novo Trigo (50 dias após a Páscoa); b) Festa do Novo Vinho (50 dias após a festa do Novo Trigo); c) Festa do Novo Óleo (50 dias após a Festa do Novo Vinho). Essa sequencia de festas nos mostra que, depois da Páscoa, de cinquenta em cinquenta dias, era celebrada uma festa. Sendo uma das festas a do Novo Vinho, podemos entender melhor essa zombaria no texto: “estão cheios de vinho doce”. Lucas pode ter conhecido múltiplos Pentecostes entre os contemporâneos Judeus e fez alusão ao Pentecostes do Novo Vinho, quando fala, mais propriamente, do Pentecostes do Novo Trigo.
f)  Discurso de Pedro: Como Moisés, Pedro faz um discurso para fortalecer na fé os que aceitaram a proposta de Jesus e desmascara os que não estão dispostos a seguir o novo. Pedro, como liderança do grupo dos apóstolos, convoca a comunidade a acreditar em Jesus de Nazaré que foi morto e ressuscitou dos mortos por intervenção divina. Diante da reação atônita da comunidade, só resta a conversão para obter a salvação.       
2. Evangelho (João 20,19-23): Pentecostes é a nova páscoa para os seguidores de Jesus, na paz e no anúncio do Espírito Santo.
A comunidade está reunida e com medo. O ressuscitado ultrapassa a barreiras físicas e aparece diante dela. Ele lhes diz: ‘a paz esteja convosco’. “Paz se diz em hebraico Shalom, o qual, por sua vez, tem sua origem no verbo Shlm que, no tempo verbal piel,significa pagar, devolver, ressarcir, indenizar, conservar. Da mesma raiz, o adjetivo Shalem significa estar completo, inteiro. Pagar em hebraico tem o sentido de completar o valor justo. É uma forma simbólica de completar o vazio deixado pelo objeto tirado. Quem compra e não paga mutila o outro. Paz é um eterno estar em harmonia com Deus, o outro e o universo. Os judeus acreditam que o Messias só virá, quando a justiça social estiver implantada em nosso meio. Jerusalém, a cidade (Yeru) da paz (Shalem), é protótipo desse sonho, dessa esperança. Jerusalém, em hebraico se escreve, na verdade, Ierushalaim. Duas vezes aparece o i(em hebraico yod), sendo que na segunda vez ele não é pronunciado, pois representa o nome de Deus, Iahweh. Os outros povos, não compreendendo o significado do i no nome dessa cidade santa, traduziram o seu nome para Jerusalém. O yod representa, para o semita, a esperança. E é nesse contexto que podemos entender a fala de Jesus: “Nem um i sequer será tirado da Lei” (Mt 5,18). A esperança de paz, de voltar ao tempo de Deus, jamais acabará para quem sabe esperar. Jesus pôde dizer Paz a vós, pois ele é a paz. A sua presença já é paz e esperança. Quando, na missa, saudamos o outro com a expressão paz de Cristo, desejamos que Cristo esteja dentro dele e que ele seja qual outro ressuscitado. A expressão “Paz de Cristo” reúne os elementos do ser completo, da harmonia e, mais do que isso, da presença duradoura de Deus transmitida por Jesus aos seus” (Cf. Faria, Jacir de Freitas, As origens apócrifas do cristianismo, comentários aos evangelhos de Maria Madalena e Tomé. 2 ed. São Paulo: Paulinas, 2003, p.??).
Para as comunidades joaninas, Pentecostes, como dom do Espírito, se realiza na Páscoa. Jesus, na sua morte de cruz, entrega o Espírito (Jo 19,30). Jesus ressuscitado aparece aos discípulos e lhes oferece o Espírito Santo, como nos atesta o evangelho de hoje (v.22). A comunidade pascal é portadora da paz e da força do Espírito do Ressuscitado que deve ser levado ao mundo. Ela é sinal da ação do Espírito que faz passar da morte para a vida todo o universo. Por isso, Jesus envia a comunidade ao mundo, com a missão de reconciliá-lo com Deus, combatendo as forças do mal. A nova comunidade dos judeus cristãos é portadora do projeto de Deus para a verdadeira unificação do mundo. Esse segredo chama-se: páscoa do ressuscitado. Sua força é a mesma de Pentecostes: reunir a diversidade na unidade. O desafio da comunidade é abrir as portas da ‘casa’: sair de si para reconhecer no universo o “vendaval” do Espírito que tudo renova, tudo recria e que sopra onde quer.
3. II leitura (I Coríntios 12,3b -7.12-13): O Espírito, fonte de diversidade e de  comunhão
Tendo aprofundado o caráter simbólico da solenidade de Pentecostes, nos deparamos com a segunda leitura de hoje, a qual é um desafio proposto à comunidade de Corinto, em meio às divisões que ela sofria. Paulo insiste na comunhão no mesmo Espírito, na diversidade de ministérios, atividades, raças, culturas e povos. Diversidade é sinal da riqueza do único corpo de Cristo e condição para a unidade. O Espírito distribui os dons e reúne tudo e todos em Cristo. Assim, todos devem ser responsáveis e contribuir para o crescimento da comunidade, o Corpo do Senhor. Essa unidade só é possível porque envolve três realidades: 1) a ressurreição de Jesus que reúne o corpo e a comunidade; 2) a força do Espírito que impulsiona esse corpo e 3) a diversidade de dons necessários à vida do corpo.
Na Comunidade de Corinto e nas de hoje, reconhecer Jesus como Senhor, título do Ressuscitado, é abandonar toda e qualquer divisão entre os irmãos. É ser sinal do amor de Deus para o mundo, deixando a energia do Espírito nos conduzir ao diferente, ao novo, manifestando a todos a vida que Deus dá. É o que expressa o prefácio litúrgico de Pentecostes: “…é ele quem dá a todos os povos o conhecimento do verdadeiro Deus e une, numa só fé, a diversidade das raças e línguas”. A unidade dos cristãos é um desafio constante para todos nós. É nesse espírito que somos convidados a viver a Páscoa do Senhor como fator de unidade entre todas as Igrejas e entre todo o gênero humano. Pentecostes, assumido pela tradição cristã como plenitude da Páscoa de Jesus, é a força capaz de nos fazer compreender e viver em profundidade o projeto universal de vida para todos. Faz-nos enxergar no diferente, e até no estranho, a força da vida divina. A vida nova em Cristo tem força “simbólica”, unificadora: supõe abandonar tudo o que divide, afasta e cria abismos na convivência humana e ecológica, para abraçar outra norma de vida: o amor que reúne, aproxima e refaz a convivência na humanidade. É o Espírito, força de vida e de unidade, o único capaz de nos conectar com todo o universo e com a fonte da vida.
III.  PISTAS PARA REFLEXÃO
1. Demonstrar que o Espírito Santo é o coração palpitante que animou a vida das primeiras comunidades cristãs no anúncio do evangelho e na fé em Jesus ressuscitado. Somos herdeiros dessa fé intrépida que rompeu barreiras e ganhou o mundo.
2. Demonstrar que a grande mensagem de Pentecostes é a evangelização e não o falar línguas. A vivacidade de nossas comunidades é um exemplo de um novo Pentecostes acontecendo.
3. O Espírito de Deus em Pentecostes enche todo o universo e mantém unidas todas as coisas; gera novas relações na comunidade e no mundo; realiza a plenitude da Aliança do Sinai: o amor sem fronteiras.


Frei Jacir de Freitas Faria, OFM é Padre franciscano, escritor, mestre em Ciências Bíblicas pelo Pontifício Instituto Bíblico, de Roma, especialista em evangelhos apócrifos, professor de exegese bíblica no Instituto Santo Tomás de Aquino – ISTA, em Belo Horizonte e em cursos de Teologia para leigos. Autor de uma centena de artigos. Autor e coautor de quinze livros, sendo o último: Infância apócrifa do menino Jesus. Histórias de ternura e travessura. Petrópolis: Vozes, 2010. Diretor Geral e Pedagógico dos Colégios Santo Antônio e Frei Orlando, ambos em Belo Horizonte.
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