O absurdo e a Graça

Na vida hoje caminhamos entre uma fome que condena ao sofrimento uma enorme parcela da humanidade e uma tecnologia moderníssima que garante um padrão de conforto e bem estar nunca antes imaginado. Um bilhão de seres humanos estão abaixo da linha da pobreza, na mais absoluta miséria, passam FOME ! Com a tecnologia que foi inventada seria possível produzir alimentos e acabar com TODA a fome no mundo, não fossem os interesses de alguns grupos detentores da tecnologia e do poder. "Para mim, o absurdo e a graça não estão mais separados. Dizer que "tudo é absurdo" ou dizer que "tudo é graça " é igualmente mentir ou trapacear... "Hoje a graça e o absurdo caminham, em mim lado a lado, não mais estranhos, mas estranhamente amigos" A cada dia, nas situações que se nos apresentam podemos decidir entre perpetuar o absurdo, ou promover a Graça. (Jean Yves Leloup) * O Blog tem o mesmo nome do livro autobiográfico de Jean Yves Leloup, e é uma forma de homenagear a quem muito tem me ensinado em seus livros retiros, seminários e workshops *

27 de junho de 2013

JMJ 2013 - ENCONTRO COM O EPISCOPADO BRASILEIRO

ENCONTRO COM O EPISCOPADO BRASILEIRO
DISCURSO DO SANTO PADRE
Arcebispado do Rio de Janeiro
Sábado, 27 de Julho de 2013

Queridos Irmãos!
Como é bom e agradável encontrar-me aqui com vocês, Bispos do Brasil!
Obrigado por terem vindo, e permitam que lhes fale como amigos, pelo que prefiro usar o castelhano, para poder expressar melhor aquilo que levo no coração. Peço-lhes que me perdoem!
Retiramo-nos um pouco, neste lugar preparado por nosso irmão Dom Orani, para estar sozinhos e poder falar de coração a coração como Pastores a quem Deus confiou o seu Rebanho. Nas ruas do Rio, jovens de todo o mundo e muitas outras multidões estão esperando por nós, necessitados de serem envolvidos pelo olhar misericordioso de Cristo Bom Pastor, que nós somos chamados a tornar presente. Por isso, gozemos deste momento de descanso, de partilha, de verdadeira fraternidade.
Começando pela Presidência da Conferência Episcopal e do Arcebispo do Rio de Janeiro, quero abraçar a todos e cada um, especialmente aos Bispos eméritos.
Mais do que um discurso formal, quero compartilhar algumas reflexões com vocês.
A primeira veio à minha mente, quando da outra vez visitei o Santuário de Aparecida. Lá, ao pé da imagem da Imaculada Conceição, eu rezei por vocês, por suas Igrejas, por seus presbíteros, religiosos e religiosas, por seus seminaristas, pelos leigos e as suas famílias, em particular pelos jovens e os idosos, já que ambos constituem a esperança de um povo: os jovens, porque eles carregam a força, o sonho, a esperança do futuro, e os idosos, porque eles são a memória, a sabedoria de um povo.[1]
1. Aparecida: chave de leitura para a missão da Igreja
Em Aparecida, Deus ofereceu ao Brasil a sua própria Mãe. Mas, em Aparecida, Deus deu também uma lição sobre Si mesmo, sobre o seu modo de ser e agir. Uma lição sobre a humildade que pertence a Deus como traço essencial e que está no DNA de Deus. Há algo de perene para aprender sobre Deus e sobre a Igreja, em Aparecida; um ensinamento, que nem a Igreja no Brasil nem o próprio Brasil devem esquecer.
No início do evento que é Aparecida, está a busca dos pescadores pobres. Tanta fome e poucos recursos. As pessoas sempre precisam de pão. Os homens partem sempre das suas carências, mesmo hoje.
Possuem um barco frágil, inadequado; têm redes decadentes, talvez mesmo danificadas, insuficientes.
Primeiro, há a labuta, talvez o cansaço, pela pesca, mas o resultado é escasso: um falimento, um insucesso. Apesar dos esforços, as redes estão vazias.
Depois, quando foi da vontade de Deus, comparece Ele mesmo no seu Mistério. As águas são profundas e, todavia, encerram sempre a possibilidade de Deus; e Ele chegou de surpresa, quem sabe quando já não o esperávamos. A paciência dos que esperam por Ele é sempre posta à prova. E Deus chegou de uma maneira nova, porque Deus é surpresa: uma imagem de barro frágil, escurecida pelas águas do rio, envelhecida também pelo tempo. Deus entra sempre nas vestes da pequenez.
Veem então a imagem da Imaculada Conceição. Primeiro o corpo, depois a cabeça, em seguida a unificação de corpo e cabeça: a unidade. Aquilo que estava quebrado retoma a unidade. O Brasil colonial estava dividido pelo muro vergonhoso da escravatura. Nossa Senhora Aparecida se apresenta com a face negra, primeiro dividida mas depois unida, nas mãos dos pescadores.
Há aqui um ensinamento que Deus quer nos oferecer. Sua beleza refletida na Mãe, concebida sem pecado original, emerge da obscuridade do rio. Em Aparecida, logo desde o início, Deus dá uma mensagem de recomposição do que está fraturado, de compactação do que está dividido. Muros, abismos, distâncias ainda hoje existentes estão destinados a desaparecer. A Igreja não pode descurar esta lição: ser instrumento de reconciliação.
Os pescadores não desprezam o mistério encontrado no rio, embora seja um mistério que aparece incompleto. Não jogam fora os pedaços do mistério. Esperam a plenitude. E esta não demora a chegar. Há aqui algo de sabedoria que devemos aprender. Há pedaços de um mistério, como partes de um mosaico, que vamos encontrando. Nós queremos ver muito rápido a totalidade; eDeus, pelo contrário, Se faz ver pouco a pouco. Também a Igreja deve aprender esta expectativa.
Depois, os pescadores trazem para casa o mistério. O povo simples tem sempre espaço para albergar o mistério. Talvez nós tenhamos reduzido a nossa exposição do mistério a uma explicação racional; no povo, pelo contrário, o mistério entra pelo coração. Na casa dos pobres, Deus encontra sempre lugar.
Os pescadores agasalham: revestem o mistério da Virgem pescada, como se Ela tivesse frio e precisasse ser aquecida. Deus pede para ficar abrigado na parte mais quente de nós mesmos: o coração. Depois é Deus que irradia o calor de que precisamos, mas primeiro entra com o subterfúgio de quem mendiga. Os pescadores cobrem o mistério da Virgem com o manto pobre da sua fé. Chamam os vizinhos para verem a beleza encontrada; eles se reúnem à volta dela; contam as suas penas em sua presença e lhe confiam as suas causas. Permitem assim que possam implementar-se as intenções de Deus: uma graça, depois a outra; uma graça que abre para outra; uma graça que prepara outra. Gradualmente Deus vai desdobrando a humildade misteriosa de sua força.
Há muito para aprender nessa atitude dos pescadores. Uma Igreja que dá espaço ao mistério de Deus; uma Igreja que alberga de tal modo em si mesma esse mistério, que ele possa encantar as pessoas, atraí-las. Somente a beleza de Deus pode atrair. O caminho de Deus é o encanto que atrai. Deus faz-se levar para casa. Ele desperta no homem o desejo de guardá-lo em sua própria vida, na própria casa, em seu coração. Ele desperta em nós o desejo de chamar os vizinhos, para dar-lhes a conhecer a sua beleza. A missão nasce precisamente dessa fascinação divina, dessa maravilha do encontro. Falamos de missão, de Igreja missionária. Penso nos pescadores que chamam seus vizinhos para verem o mistério da Virgem. Sem a simplicidade do seu comportamento, a nossa missão está fadada ao fracasso.
A Igreja tem sempre a necessidade urgente de não desaprender a lição de Aparecida; não a pode esquecer. As redes da Igreja são frágeis, talvez remendadas; a barca da Igreja não tem a força dos grandes transatlânticos que cruzam os oceanos. E, contudo, Deus quer se manifestar justamente através dos nossos meios, meios pobres, porque é sempre Ele que está agindo.
Queridos irmãos, o resultado do trabalho pastoral não assenta na riqueza dos recursos, mas na criatividade do amor. Fazem falta certamente a tenacidade, a fadiga, o trabalho, o planejamento, a organização, mas, antes de tudo, você deve saber que a força da Igreja não reside nela própria, mas se esconde nas águas profundas de Deus, nas quais ela é chamada a lançar as redes.
Outra lição que a Igreja deve sempre lembrar é que não pode afastar-se da simplicidade; caso contrário, desaprende a linguagem do Mistério. E não só ela fica fora da porta do Mistério, mas, obviamente, não consegue entrar naqueles que pretendem da Igreja aquilo que não podem dar-se por si mesmos: Deus. Às vezes, perdemos aqueles que não nos entendem, porque desaprendemos a simplicidade, inclusive importando de fora uma racionalidade alheia ao nosso povo. Sem a gramática da simplicidade, a Igreja se priva das condições que tornam possível «pescar» Deus nas águas profundas do seu Mistério.
Uma última lembrança: Aparecida surgiu em um lugar de cruzamento. A estrada que ligava Rio, a capital, com São Paulo, a província empreendedora que estava nascendo, e Minas Gerais, as minas muito cobiçadas pelas cortes europeias: umaencruzilhada do Brasil colonial. Deus aparece nos cruzamentos. A Igreja no Brasil não pode esquecer esta vocação inscrita em si mesma desde a sua primeira respiração: ser capaz de sístole e diástole, de recolher e divulgar.
2. Apreço pelo percurso da Igreja no Brasil
Os Bispos de Roma tiveram sempre o Brasil e sua Igreja em seu coração. Um maravilhoso percurso foi realizado. Passou-se das 12 dioceses durante o Concílio Vaticano I para as atuais 275 circunscrições. Não teve início a expansão de um aparato governamental ou de uma empresa, mas sim o dinamismo dos «cinco pães e dois peixes» – de que fala o Evangelho – que, entrando em contato com a bondade do Pai, em mãos calejadas, tornaram-se fecundos.
Hoje, queria agradecer o trabalho sem parcimônia de vocês, Pastores, em suas Igrejas. Penso nos Bispos nas florestas, subindo e descendo os rios, nas regiões semiáridas, no Pantanal, na pampa, nas selvas urbanas das megalópoles. Amem sempre, com total dedicação, o seu rebanho! Mas penso também em tantos nomes e tantas faces, que deixaram marcas indeléveis no caminho da Igreja no Brasil, fazendo palpar com a mão a grande bondade de Deus por esta Igreja[2].
Os Bispos de Roma nunca lhes deixaram sós; seguiram de perto, encorajaram, acompanharam. Nas últimas décadas, o Beato João XXIII convidou com insistência os Bispos brasileiros a prepararem o seu primeiro plano pastoral e, daquele início, cresceu uma verdadeira tradição pastoral no Brasil, que fez com que a Igreja não fosse um transatlântico à deriva, mas tivesse sempre uma bússola. O Servo de Deus Paulo VI, para além de encorajar a recepção do Concílio Vaticano II, com fidelidade mas também com traços originais (veja-se a Assembleia Geral do CELAM, em Medellín), influiu decisivamente sobre a autoconsciência da Igreja no Brasil através do Sínodo sobre a evangelização e de um texto fundamental de referência que continua atual: a Evangelii nuntiandi.O Beato João Paulo II visitou o Brasil três vezes, percorrendo-o de cabo a rabo, de norte a sul, insistindo sobre a missão pastoral da Igreja, a comunhão e participação, a preparação do Grande Jubileu, a nova evangelização. Bento XVI escolheu Aparecida para realizar a V Assembleia Geral do CELAM e isso deixou uma grande marca na Igreja de todo o Continente.
A Igreja no Brasil recebeu e aplicou com originalidade o Concílio Vaticano II e o percurso realizado, embora tenha tido de superar determinadas doenças infantis, levou a uma Igreja gradualmente mais madura, aberta, generosa, missionária.
Hoje estamos em um novo momento. Segundo a feliz expressão do Documento de Aparecida, não é uma época de mudança, mas uma mudança de época. Sendo assim, hoje é cada vez mais urgente nos perguntarmos: O que Deus pede a nós? A esta pergunta, queria tentar oferecer qualquer linha de resposta.
3. O ícone de Emaús como chave de leitura do presente e do futuro
Antes de mais nada, não devemos ceder ao medo, de que falava o Beato John Henry Newman: «O mundo cristão está gradualmente se tornando estéril, e esgota-se como uma terra profundamente explorada que se torna areia».[3] Não devemos ceder ao desencanto, ao desânimo, às lamentações. Nós trabalhamos duro e, às vezes, nos parece acabar derrotados: apodera-se de nós o sentimento de quem tem de fazer o balanço de uma estação já perdida, olhando para aqueles que nos deixam ou já não nos consideram credíveis, relevantes.
Vamos ler a esta luz, mais uma vez, o episódio de Emaús (cf. Lc 24, 13-15). Os dois discípulos escapam de Jerusalém. Eles se afastam da «nudez» de Deus. Estão escandalizados com o falimento do Messias, em quem haviam esperado e que agora aparece irremediavelmente derrotado, humilhado, mesmo após o terceiro dia (cf. vv. 17-21). O mistério difícil das pessoas que abandonam a Igreja; de pessoas que, após deixar-se iludir por outras propostas, consideram que a Igreja – a sua Jerusalém – nada mais possa lhes oferecer de significativo e importante. E assim seguem pelo caminho sozinhos, com a sua desilusão. Talvez a Igreja lhes apareça demasiado frágil, talvez demasiado longe das suas necessidades, talvez demasiado pobre para dar resposta às suas inquietações, talvez demasiado fria para com elas, talvez demasiado auto-referencial, talvez prisioneira da própria linguagem rígida, talvez lhes pareça que o mundo fez da Igreja uma relíquia do passado, insuficiente para as novas questões; talvez a Igreja tenha respostas para a infância do homem, mas não para a sua idade adulta.[4] O fato é que hoje há muitos que são como os dois discípulos de Emaús; e não apenas aqueles que buscam respostas nos novos e difusos grupos religiosos, mas também aqueles que parecem já viver sem Deus tanto em teoria como na prática.
Perante esta situação, o que fazer?
Faz falta uma Igreja que não tenha medo de entrar na noite deles. Precisamos de uma Igreja capaz de encontrá-los no seu caminho. Precisamos de uma Igreja capaz de inserir-se na sua conversa. Precisamos de uma Igreja que saiba dialogar com aqueles discípulos, que, fugindo de Jerusalém, vagam sem meta, sozinhos, com o seu próprio desencanto, com a desilusão de um cristianismo considerado hoje um terreno estéril, infecundo, incapaz de gerar sentido.
A globalização implacável e a intensa urbanização, frequentemente selvagem, prometeram muito. Muitos se enamoraram das suas potencialidades e, nelas, existe algo de verdadeiramente positivo, como, por exemplo, a diminuição das distâncias, a aproximação das pessoas à cultura, a difusão da informação e dos serviços. Mas, por outro lado, muitos vivem os seus efeitos negativos sem dar-se conta de quanto esses prejudicam a própria visão do homem e do mundo, gerando maior desorientação e um vazio que não conseguem explicar. Alguns destes efeitos são a confusão acerca do sentido da vida, a desintegração pessoal, a perda da experiência de pertencer a um «ninho», a carência de um lugar e de laços profundos.
E, como não há quem lhes faça companhia e mostre com a própria vida o caminho verdadeiro, muitos buscaram atalhos, porque se apresenta demasiado alta a «medida» da Grande Igreja. Também existem aqueles que reconhecem o ideal do homem e de vida proposto pela Igreja, mas não têm a audácia de abraçá-lo. Pensam que este ideal seja grande demais para eles, esteja fora das suas possibilidades; a meta a alcançar é inatingível. Todavia não podem viver sem ter pelo menos alguma coisa  nem que seja uma caricatura  daquilo que é parece demasiado alto e distante. Com a desilusão no coração, partem à procura de qualquer coisa que lhes iludirá uma vez mais, ou resignam-se a uma adesão parcial que, em última análise, não consegue dar plenitude à sua vida.
A grande sensação de abandono e solidão, de não pertencerem sequer a si mesmos que muitas vezes surge dessa situação, é dolorosa demais para ser silenciada. Há necessidade de desabafar, restando-lhes então a via da lamentação. Mas a própria lamentação torna-se, por sua vez, como um bumerangue que regressa e acaba aumentando a infelicidade. Ainda poucas pessoas são capazes de ouvir a dor: é preciso pelo menos anestesiá-lo.
Perante este panorama, precisamos de uma Igreja capaz de fazer companhia, de ir para além da simples escuta; uma Igreja, que acompanha o caminho pondo-se em viagem com as pessoas; uma Igreja capaz de decifrar a noite contida na fuga de tantos irmãos e irmãs de Jerusalém; uma Igreja que se dê conta de como as razões, pelas quais há pessoas que se afastam, contém já em si mesmas também as razões para um possível retorno, mas é necessário saber ler a totalidade com coragem. Jesus deu calor ao coração dos discípulos de Emaús.
Eu gostaria que hoje nos perguntássemos todos: Somos ainda uma Igreja capaz de aquecer o coração? Uma Igreja capaz de reconduzir a Jerusalém? Capaz de acompanhar de novo a casa? Em Jerusalém, residem as nossas fontes: Escritura, Catequese, Sacramentos, Comunidade, amizade do Senhor, Maria e os Apóstolos... Somos ainda capazes de contar de tal modo essas fontes, que despertem o encanto pela sua beleza?
Muitos se foram, porque lhes foi prometido algo de mais alto, algo de mais forte, algo de mais rápido.
Mas haverá algo de mais alto que o amor revelado em Jerusalém? Nada é mais alto do que o abaixamento da Cruz, porque lá se atinge verdadeiramente a altura do amor! Somos ainda capazes de mostrar esta verdade para aqueles que pensam que a verdadeira altura da vida esteja em outro lugar?
Porventura se conhece algo de mais forte que a força escondida na fragilidade do amor, do bem, da verdade, da beleza?
A busca do que é cada vez mais rápido atrai o homem de hoje: internet rápida, carros velozes, aviões rápidos, relatórios rápidos... E, todavia, se sente uma necessidade desesperada de calma, quero dizer , de lentidão. A Igreja sabe ainda ser lenta: no tempo para ouvir, na paciência para costurar novamente e reconstruir? Ou a própria Igreja já se deixa arrastar pelo frenesi da eficiência? Recuperemos, queridos Irmãos, a calma de saber sintonizar o passo com as possibilidades dos peregrinos, com os seus ritmos de caminhada, recuperemos a capacidade de estar lhes sempre perto para permitir a eles abrirem uma brecha no desencanto que existe nos corações, para que possam entrar. Eles querem esquecer Jerusalém onde residem as suas fontes, mas assim acabarão por sentir sede. Faz falta uma Igreja ainda capaz de acompanhar o regresso a Jerusalém! Uma Igreja, que seja capaz de fazer descobrir as coisas gloriosas e estupendas que se dizem de Jerusalém, de fazer entender que ela é minha Mãe, nossa Mãe, e não somos órfãos! Nela nascemos. Onde está a nossa Jerusalém em que nascemos? No Batismo, no primeiro encontro de amor, na chamada, na vocação![5] Precisamos de uma Igreja que volte a dar calor, a inflamar o coração.
Precisamos de uma Igreja capaz ainda de devolver a cidadania a muitos de seus filhos que caminham como em um êxodo.
4. Os desafios da Igreja no Brasil
À luz do que eu disse, quero sublinhar alguns desafios da amada Igreja que está no Brasil.
A prioridade da formação: Bispos, sacerdotes, religiosos, leigos
Queridos irmãos, senão formarmos ministros capazes de aquecer o coração das pessoas, de caminhar na noite com elas, de dialogarem com as suas ilusões e desilusões, de recompor as suas desintegrações, o que poderemos esperar para o caminho presente e futuro? Não é verdade que Deus se tenha obscurecido nelas. Aprendamos a olhar mais profundamente: falta quem lhes aqueça o coração, como sucedeu com os discípulos de Emaús (cf. Lc 24,32).
Por isso, é importante promover e cuidar uma formação qualificada que crie pessoas capazes de descer na noite sem ser invadidas pela escuridão e perder-se; capazes de ouvir a ilusão de muitos, sem se deixar seduzir; capazes de acolher as desilusões, sem desesperar-se nem precipitar na amargura; capazes de tocar a desintegração alheia, sem se deixar dissolver e decompor na sua própria identidade.
Precisamos de uma solidez humana, cultural, afetiva, espiritual, doutrinal.[6] Queridos Irmãos no Episcopado, é preciso ter a coragem de levar a fundo uma revisão das estruturas de formação e preparação do clero e do laicato da Igreja que está no Brasil. Não é suficiente uma vaga prioridade da formação, nem documentos ou encontros. Faz falta a sabedoria prática de levantar estruturas duradouras de preparação em âmbito local, regional, nacional e que sejam o verdadeiro coração para o Episcopado, sem poupar forças, solicitude e assistência. A situação atual exige uma formação qualificada em todos os níveis. Vocês, Bispos, não podem delegar este dever, mas devem assumi-lo como algo de fundamental para o caminho das suas Igrejas.
Colegialidade e solidariedade da Conferência Episcopal
Para a Igreja no Brasil, não basta um líder nacional; precisa de uma rede de «testemunhos» regionais, que, falando a mesma linguagem, assegurem em todos os lugares, não a unanimidade, mas a verdadeira unidade na riqueza da diversidade.
A comunhão é uma teia que deve ser tecida com paciência e perseverança, que vai gradualmente «aproximando os pontos» para permitir uma cobertura cada vez mais ampla e densa. Um cobertor só com poucos fios de lã não aquece.
É importante lembrar Aparecida, o método de congregar a diversidade; não tanto a diversidade de ideias para produzir um documento, mas a variedade de experiências de Deus para pôr em movimento uma dinâmica vital.
Os discípulos de Emaús voltaram para Jerusalém, contando a experiência que tinham feito no encontro com o Cristo Ressuscitado (cf. Lc 24, 33-35). E lá tomaram conhecimento das outras manifestações do Senhor e das experiências dos seus irmãos. A Conferência Episcopal é justamente um espaço vital para permitir tal permuta de testemunhos sobre os encontros com o Ressuscitado, no norte, no sul, no oeste... Faz falta, pois, uma progressiva valorização do elemento local e regional. Não é suficiente a burocracia central, mas é preciso fazer crescer a colegialidade e a solidariedade; será uma verdadeira riqueza para todos.[7]
Estado permanente de missão e conversão pastoral
Aparecida falou de estado permanente de missão[8] e da necessidade de uma conversão pastoral.[9] São dois resultados importantes daquela Assembleia para a Igreja inteira da região, e o caminho realizado no Brasil a propósito destes dois pontos é significativo.
Quanto à missão, há que lembrar que a urgência deriva de sua motivação interna, isto é, trata-se de transmitir uma herança, e, quanto ao método, é decisivo lembrar que uma herança sucede como na passagem do testemunho, do bastão, na corrida de estafeta: não se joga ao ar e quem consegue apanhá-lo tem sorte, e quem não consegue fica sem nada. Para transmitir a herança é preciso entregá-la pessoalmente, tocar a pessoa para quem você quer doar, transmitir essa herança.
Quanto à conversão pastoral, quero lembrar que «pastoral» nada mais é que o exercício da maternidade da Igreja. Ela gera, amamenta, faz crescer, corrige, alimenta, conduz pela mão... Por isso, faz falta uma Igreja capaz de redescobrir as entranhas maternas da misericórdia. Sem a misericórdia, poucas possibilidades temos hoje de inserir-nos em um mundo de «feridos», que têm necessidade de compreensão, de perdão, de amor.
Na missão, mesmo continental,[10] é muito importante reforçar a família, que permanece célula essencial para a sociedade e para a Igreja; os jovens, que são o rosto futuro da Igreja; as mulheres, que têm um papel fundamental na transmissão da fé e constituem uma força quotidiana que faz evoluir uma sociedade e a renova. Não reduzamos o empenho das mulheres na Igreja,;antes, pelo contrário, promovamos o seu papel ativo na comunidade eclesial. Se a Igreja perde as mulheres, na sua dimensão global e real, ela corre o risco da esterilidade. Aparecida põe em evidência também a vocação e a missão do homem na família, na Igreja e na sociedade, como pais, trabalhadores e cidadãos.[11] Tende isso em séria consideração!
A função da Igreja na sociedade
No âmbito da sociedade, há somente uma coisa que a Igreja pede com particular clareza: a liberdade de anunciar o Evangelho de modo integral, mesmo quando ele está em contraste com o mundo, mesmo quando vai contra a corrente, defendendo o tesouro de que é somente guardiã, e os valores dos quais não pode livremente dispor, mas que recebeu e deve ser-lhes fiel.
A Igreja afirma o direito de servir o homem na sua totalidade, dizendo-lhe o que Deus revelou sobre o homem e sua realização, e ela deseja tornar presente aquele patrimônio imaterial, sem o qual a sociedade se desintegra, as cidades seriam arrasadas por seus próprios muros, abismos e barreiras. A Igreja tem o direito e o dever de manter acesa a chama da liberdade e da unidade do homem.
Educação, saúde, paz social são as urgências no Brasil. A Igreja tem uma palavra a dizer sobre estes temas, porque, para responder adequadamente a esses desafios, não são suficientes soluções meramente técnicas, mas é preciso ter uma visão subjacente do homem, da sua liberdade, do seu valor, da sua abertura ao transcendente. E vocês, queridos Irmãos, não tenham medo de oferecer esta contribuição da Igreja que é para bem da sociedade inteira e de oferecer esta palavra «encarnada» também com o testemunho.
A Amazônia como teste decisivo, banco de prova para a Igreja e a sociedade brasileiras
Há um último ponto sobre o qual gostava de deter-me e que considero relevante para o caminho atual e futuro não só da Igreja no Brasil, mas também de toda a estrutura social: a Amazônia. A Igreja está na Amazônia , não como aqueles que têm as malas na mão para partir depois de terem explorado tudo o que puderam. Desde o início que a Igreja está presente na Amazônia com missionários, congregações religiosas, sacerdotes, leigos e bispos, e lá continua presente e determinante no futuro daquela área. Penso no acolhimento que a Igreja na Amazônia oferece hoje aos imigrantes haitianos depois do terrível terremoto que devastou o seu país.
Queria convidar todos a refletirem sobre o que Aparecida disse a propósito da Amazônia,[12] incluindo o forte apelo ao respeito e à salvaguarda de toda a criação que Deus confiou ao homem, não para que a explorasse rudemente, mas para que tornasse ela um jardim. No desafio pastoral que representa a Amazônia, não posso deixar de agradecer o que a Igreja no Brasil está fazendo: a Comissão Episcopal para a Amazônia, criada em 1997, já deu muitos frutos e tantas dioceses responderam pronta e generosamente ao pedido de solidariedade, enviando missionários, leigos e sacerdotes. Agradeço a Dom Jaime Chemelo, pioneiro deste trabalho, e ao Cardeal Hummes, atual presidente da Comissão. Mas eu gostava de acrescentar que deveria ser mais incentivada e relançada a obra da Igreja. Fazem falta formadores qualificados, especialmente formadores e professores de teologia, para consolidar os resultados alcançados no campo da formação de um clero autóctone, inclusive para se ter sacerdotes adaptados às condições locais e consolidar por assim dizer o «rosto amazônico» da Igreja. Nisto lhes peço, por favor, para serem corajosos, para terem parresia! No modo «porteño» [de Buenos Aires] de falar, lhes diria para serem destemidos.
Queridos Irmãos, procurei oferecer-lhes fraternalmente reflexões e linhas de ação em uma Igreja como a que está no Brasil, que é um grande mosaico de pequeninas pedras, de imagens, de formas, de problemas, de desafios, mas que por isso mesmo é uma enorme riqueza. A Igreja não é jamais uniformidade, mas diversidades que se harmonizam na unidade, e isso é válido em toda a realidade eclesial.
Que a Virgem Imaculada Aparecida seja a estrela que ilumina o compromisso e o caminho de vocês levarem Cristo, como Ela o fez, a cada homem e cada mulher de seu imenso país. Será Ele, como fez com os dois discípulos extraviados e desiludidos de Emaús, a aquecer o coração e a dar nova e segura esperança.


[1] O Documento de Aparecida sublinha como as crianças, os jovens e os idosos constroem o futuro dos povos (cf. n. 447).


22 de maio de 2013

Algumas opiniões do papa Francisco


Nunca pensei que um dia publicasse algo da Revista Veja, mas aprendi que   nunca se pode dizer "nunca ".



Trechos das Opiniões descritas pelo papa Francisco em 
dialogo publicado pela revista VEJA de abril, ano 46 numero 15


              Sobre Ateísmo:
 “Quando me encontro com pessoas ateias, compartilho com elas as questões humanas, mas não toco de cara no problema de Deus, exceto no caso de falarem comigo sobre o assunto. Quando isso acontece, eu lhes conto por que acredito. O humano é tão rico para compartilhar, para trabalhar, que tranquilamente podemos complementar mutuamente nossas riquezas... Não tenho nenhum tipo de reticencia, não diria que sua vida esta condenada, porque tenho certeza de que não tenho direito de julgar a honestidade dessa pessoa. Muito menos quando me mostra virtudes humanas, essas que engrandecem as pessoas e me fazem bem... temos de ser coerentes com a mensagem que recebemos da Bíblia: todo homem é a imagem de Deus, seja crente ou não. Por essa única razão, ele conta com uma serie de virtudes, qualidades, grandezas. E caso tenha baixezas, como eu também as tenho, podemos compartilha-las para nos ajudar mutuamente e supera-las”.


Sobre o Celibato:
 “Faço um esclarecimento: o sacerdote católico não se casa na tradição ocidental, mas pode fazê-lo na oriental”. Ali, casa-se antes de receber a ordenação; se já foi ordenado, então não pode se casar... Eu, pelo menos vivo assim (no celibato), o que não impede que se conheça uma garota ai. Quando eu era seminarista, fiquei deslumbrado por uma garota que conheci no casamento de um tio... e bem, andei confuso um bom tempo, pensava sem parar. Quando voltei ao seminário, depois do casamento, não conseguia rezar ao longo de uma semana inteira, porque, quando me dispunha a orar, a garota aparecia em minha cabeça... Ainda era livre porque era seminarista, podia voltar para casa e tchau... Tornei a escolher, ou me deixar escolher, o caminho religioso... Por hora, sou a favor que se mantenha o celibato, com seus pros e contras, porque são dez séculos de boas experiências, mais do que falhas... Os ministros católicos foram escolhendo o celibato pouco a pouco. Ate o ano de 1100 havia quem optasse por ele e quem não. Depois no oriente se seguiu a tradição não celibatária como uma opção pessoal, e no ocidente o contrario. É uma questão de disciplina, não de fé. Isso pode mudar...


Sobre Culpa
·... Algumas pessoas são culpogênias, porque precisam viver em culpa, esse sentimento psicológico é doentio.... Transformam o encontro com a misericórdia de Deus em algo como ir à tinturaria, é só limpar a mancha. E assim vão degradando as coisas


Sobre Aborto
·... separo o tema do aborto de qualquer concepção religiosa. É um problema cientifico. Não deixar avançar o desenvolvimento de um ente que já tem todo o código genético de um ser humano não é ético. O direito a vida é o primeiro dos direitos humanos. Abortar é matar quem não pode se defender.


 Sobre homossexualismo
 “A religião tem direito de opinar, pois está a serviço das pessoas”. Se alguém pede um conselho, tenho direito de dá-lo. O ministro religioso às vezes chama a atenção de certos pontos da vida privada ou publica porque é o condutor dos fieis. Mas NAO tem direito de forçar nada na vida privada de ninguém. Se Deus, na criação correu o risco de nos fazer livres, quem sou eu para me meter?
Nós condenamos o assedio espiritual, que acontece quando um ministro impõe de tal modo às normas, as condutas, as exigências, que priva a liberdade do outro. Deus deixou em nossas mãos até a liberdade de pecar. Temos de falar muito claro dos valores, dos limites, dos mandamentos, mas assedio espiritual, pastoral, não é permitido. ... Há cinquenta anos, o concubinato não era uma coisa socialmente tão comum como agora. Era até uma palavra claramente pejorativa. Depois, a situação foi mudando. Hoje coabitar antes de se casar, embora não seja o correto no ponto de vista religioso, não tem o peso social
Pejorativo de cinquenta anos atrás... Sempre houve homossexuais. A ilha de lesos era conhecida porque ali viviam mulheres homossexuais. Mas nunca ocorreu na historia que se tentasse dar a essa relação o mesmo status do casamento. “Era tolerada ou não, admirada ou não, mas nunca equiparada”.


            Sobre divorcio
O tema divorcio é diferente daquele do caso e do de pessoas do mesmo sexo. A igreja sempre repudiou a Lei do Divorcio Vincular, mas é verdade que há antecedentes antropológicos diferentes nesse caso. Nessa oportunidade, nos anos 1980, deu-se um debate mais religioso, porque o casamento ate que a morte os separe é um valor mito forte no catolicismo. Hoje, entretanto, na doutrina católica recordamos a nossos fieis divorciados e casados de novo que não estão excomungados, emboré vivam em uma situação a margem daquilo que a indissolubilidade matrimonial e o sacramento do matrimonio exigem, e lhes pedimos que se integrem a vida Paroquial.
            As igrejas ortodoxas ainda tem uma abertura maior em relação ao divórcio. Naquele debate houve oposição, mas com matizes. Houve posições extremas que nem todos compartilhavam. Alguns diziam que era melhor que não se aprovasse o divorcio, mas também havia outros mais abertos ao dialogo do ponto de vista politico.


              O  texto integral está em parte na revista Veja, foi extraído de trechos dos diálogos entre Jorge Mario  Bergoglio (papa Francisco) quando era arcebispo de Buenos Aires e o rabino Abraham Sora. 
            Os textos  foram originalmente publicados em um livro chamado "Sobre o Céu e a Terra".

13 de maio de 2013

Não deixem a Primavera virar Inverno

Hans Küng  (teólogo)




Quando Jorge Bergoglio tomou o nome de Francisco como Papa, ele fez algo que nenhum pontífice tinha feito antes: colocou-se a si mesmo na tradição do Poverello. Isto é, diz este grande teólogo, um desafio para o sistema romano, em termos de reforma espiritual e institucional.

Quando Jorge Bergoglio tomou o nome de Francisco como Papa, ele fez algo que nenhum pontífice tinha feito antes: colocou-se a si mesmo na tradição do Poverello. Isto é, diz este grande teólogo, um desafio para o sistema romano, em termos de reforma espiritual e institucional.

Quem teria imaginado o que aconteceu nas últimas semanas? Quando eu decidi, há alguns meses atrás, me demitir de todos as minhas funções oficiais, por ocasião do meu 85° aniversário, eu assumi que na minha vida eu nunca iria ver cumprido o meu sonho de longas décadas, depois de todos os contratempos após o Vaticano II: a Igreja Católica mais uma vez experimentar o tipo de rejuvenescimento que teve sob o Papa João XXIII.

E agora meu companheiro teológica de muitas décadas, Joseph Ratzinger - ambos agora com 85 anos- de repente anunciou sua renúncia de seu múnus papal eficaz a partir do final de fevereiro. E, no dia 19 de março (onomástico dele dia e meu aniversário), um novo Papa com o nome surpreendente e programático de Francisco, assumiu este cargo.

Será que Jorge Mario Bergoglio se perguntou por que nenhum Papa se atreveu a escolher o nome de Francis até agora? De qualquer forma, o Argentino estava ciente de que com o nome de Francisco, ele estava conectando-se a Francisco de Assis - o play-boy do século XIII, que tinha passado a vida a se divertir, o filho mundano de um rico comerciante de tecidos em Assis até à idade de 24 anos, quando ele desistiu de sua família, riqueza e carreira, devolvendo até suas roupas esplêndidas a seu pai.

É espantoso como, desde o primeiro minuto de sua posse, o papa Francisco escolheu um novo estilo: ao contrário de seu predecessor, ele não usa mitra com ouro e jóias, capa enfeitada com arminho, nem sapatos vermelhos os chapeus feitos sob medida, nem usa trono magnífico. É surpreendente, também, como o novo Papa, deliberadamente, se abstém de gestos solenes e retórica bombástica e fala na língua do povo, como faria um pregador leigo.

E é impressionante como o novo Papa enfatiza sua humanidade: ele pediu as orações do povo, antes que ele lhes desse a sua bênção, ele pagou sua própria conta do hotel como qualquer outra pessoa; mostrou sua simpatia aos cardeais no ônibus em que viajavam para a sua residência coletiva e durante a despedida oficial; e na Quinta-feira Santa lavou os pés dos jovens reclusos, inclusive os de uma garota muçulmana.

Este é o Papa que está demonstrando que é um homem com os pés no chão.

Tudo isso teria agradado Francisco de Assis e é o oposto do que o papa Inocêncio III (1198-1216) representou em sua época. Em 1209, Francisco e 11 Frades Menores viajaram para Roma a fim de apresentar ao Papa Inocêncio sua curta Regra que consistia inteiramente de citações da Bíblia, e para pedir a aprovação papal para seu modo de vida, pregando como pregadores leigos "de acordo com a forma do Santo Evangelho "e vivendo na pobreza.

Inocêncio III, o Duque de Segni, que tinha apenas 37 quando foi eleito papa, foi um governante nato - ele era um teólogo educado em Paris, um advogado astuto, um orador inteligente, um administrador capaz e um diplomata sofisticado. Nenhum papa antes dele ou depois teve tanto poder. A revolução a partir do topo iniciada por Gregório VII, no século XI, conhecida como a Reforma Gregoriana, foi completado por Inocêncio. Em vez do título de "Sucessor de São Pedro", ele preferia o título de "Vigário de Cristo", como o usado por todos os bispo e padres até ao século XII. O papa, ao contrário do primeiro milênio, nunca foi reconhecido pelas Igrejas apostólicas do Oriente, desde então vinha agindo como o governante absoluto, legislador e juiz do Cristianismo - até hoje.

Mas o triunfal pontificado de Inocêncio III provou ser não só o ponto alto do papado, mas também o ponto de virada. Já em sua época, havia sinais de decadência que, em parte, até em nosso próprio tempo, se mantiveram como características do sistema da Cúria Romana: o nepotismo e o favoritismo concedido aos familiares, ganância, corrupção e transações financeiras duvidosas. Até ao final do século XII, no entanto, poderosos movimentos de penitentes e mendicantes não-conformistas, como os cátaros e os valdenses, foram surgindo. Mas papas e bispos agiram contra essas correntes perigosas, proibindo pregação leiga, condenando "hereges" pela Inquisição e até mesmo pelas Cruzadas albigenses.

No entanto, foi o próprio Inocêncio III que tentou integrar na Igreja as evangélicas, as apostólicas ordens mendicantes durante todas as campanhas de erradicação contra obstinados "hereges", como os Cátaros. Mesmo Inocêncio sabia que era necessária uma reforma urgente da Igreja, e foi por esta reforma, que ele convocou o IV Concílio de Latrão. Então, depois de um longo admoestação, ele deu a Francisco de Assis a permissão para pregar.

Quanto ao ideal de pobreza absoluta, conforme exigido pela regra,antes o papa buscou conhecer a vontade de Deus em oração. Com base em um sonho no qual um pequeno, insignificante membro de uma ordem salvou a Basílica papal de Latrão papal de entrar em colapso - como foi dito - o papa finalmente permitiu a Regra de São Francisco de Assis. Ele deixou isso ser conhecido no consistório de cardeais, mas nunca o declarou por escrito.

Na verdade, Francisco de Assis representou a alternativa ao Sistema Romano.

O que teria acontecido se Inocêncio e sua turma tivesse mais uma vez tomado o Evangelho a sério? Mesmo se eles tivessem entendido espiritualmente, em vez de literalmente, as exigências evangélicas de Francisco, isso significou - e ainda significa - um imenso desafio para o centralizador, legalizado, politizado e clerical sistema de poder que assumiu a causa de Cristo em Roma desde o século XI.

Inocêncio III foi, provavelmente, o único papa que, por causa de suas características incomuns, poderia ter dirigido a Igreja por um caminho completamente diferente, e isso teria salvo os papados do décimo quarto e décimo quinto séculos do cisma e do exílio, e a Igreja no século XVI da Reforma Protestante. Obviamente, isso teria significado uma mudança de paradigma para a Igreja Católica no século XIII, uma mudança que, em vez de dividir a Igreja teria renovado, e ao mesmo tempo reconciliado as Igrejas do Oriente e do Ocidente.

Assim, as primeiras preocupações básicas cristãs de Francisco de Assis ainda hoje permanecem perguntas para a Igreja Católica e, agora, para um Papa que, indicando suas intenções, se chamou Francisco. É, acima de tudo, sobre as três preocupações básicas do ideal franciscano, que tem que ser levado a sério hoje em dia: isto é sobre paupertas ou pobreza, sobre umilitas ou humildade, e sobre simplicitas, ou simplicidade. Isso provavelmente explica porque anteriormente nenhuma Papa teve a coragem de tomar o nome de Francisco: criaria expectativas grandes demais.

Isso levanta uma segunda pergunta: O que significa para um Papa hoje ele ter a coragem de assumir o nome de Francisco? É claro que o personagem de Francisco de Assis não deve ser idealizada - ele poderia ser sincera e excêntrico, e ele tinha suas fraquezas, também. Ele não é o padrão absoluto. Mas suas primordiais preocupações cristãs devem ser levadas a sério, mesmo que elas não precisem ser implementadas literalmente, mas, antes, traduzido para os tempos modernos pelo Papa e pela Igreja.

Paupertas, ou da pobreza: A Igreja no espírito de Inocêncio III significava Igreja de riqueza, pompa e circunstância, cobiça e escândalo financeiro. Diferentemente, a Igreja, no espírito de Francisco significa práticas financeiras transparentes e modesta frugalidade.

Diferentemente, a Igreja no espírito de Francisco significa uma Igreja de políticas financeiras transparentes e modesta frugalidade. Uma Igreja que se preocupa acima de tudo com os pobres, os fracos, os marginalizados. Uma Igreja em que não se acumulam riqueza e capital mas, pelo contrário, se luta ativamente contra a pobreza e se oferece aos funcionários condições exemplares de emprego.

Humilitas, ou humildade: A Igreja no espírito do Papa Inocêncio significa uma igreja de poder e dominação, burocracia e discriminação, repressão e da Inquisição. Diferentemente, a Igreja no espírito de Francisco significa uma Igreja de humanidade, o diálogo, fraternidade e sororidade, hospitalidade até mesmo para os não-conformistas; isto quer dizer serviço despretensioso de seus líderes e solidariedade social, uma comunidade que não exclui novas forças religiosas forças e novas idéias, da Igreja, mas sim que lhes permite florescer e prosperar.

Simplicitas ou Simplicidade: A Igreja no espírito do Papa Inocêncio significa uma Igreja de imobilidade dogmática, censura moralista e cobertura legal, uma Igreja de direito canônico regulando tudo, uma Igreja do onisciente saber escolástico e do medo. Diferentemente, a Igreja no espírito de Francisco de Assis significa uma Igreja de Boas Notícias e de alegria, uma teologia baseada puramente no Evangelho, uma Igreja que escuta as pessoas em vez de doutrinar do alto, uma Igreja que não só ensina, mas constantemente aprende de novo.

À luz das preocupações e abordagens de Francisco de Assis, as opções e as políticas básicas podem ser formuladas hoje para a Igreja Católica, cuja fachada ainda brilha nas grandes ocasiões Romanas, mas cuja estrutura interna se mostra podre e frágil na vida cotidiana das paróquias em muitos países, razão pela qual muitas pessoas a têm abandonado, em espírito e, muitas vezes, também de fato.

Embora nenhuma pessoa razoável espere que todas as reformas possam ser efetuadas por um homem durante a noite, uma mudança seria possível em cinco anos: isto foi mostrado pelo alsaciano Papa Leão IX (1049-1054), que elaborou as reformas de Gregório VII, e no século XX, pelo italiano João XXIII (1958-1963), que chamou o Concílio Vaticano II. Mas hoje o direcionamento tem de ser aclarado novamente: não uma restauração rumo aos tempos pré-conciliares, como houve com o Papa João Paulo II e de Bento XVI, mas, pelo contrário, com medidas consideradas, planejadas e bem comunicadas para reformar segundo as linhas do Concílio Vaticano II .

Mas será que a reforma da Igreja não vai encontrar séria oposição? Sem dúvida, o Papa Francisco vai despertar poderosa hostilidade, acima de tudo, na poderosa Cúria Romana, oposição que vai ser difícil suportar. Quem está no poder no Vaticano, provavelmente não estão com vontades de abandonar o poder que tem sido acumulada desde a Idade Média.

Francisco de Assis também experimentou a força de tais pressões da Cúria. Ele, que queria libertar-se de tudo, vivendo na pobreza, agarrou-se cada vez mais de perto à "Santa Madre Igreja". Ao invés de estar em confronto com a hierarquia, ele queria ser obediente ao Papa e à Cúria, vivendo à imitação de Jesus: em uma vida de pobreza, e de pregadores leigos. Ele e seus seguidores tinham até se tonsurado, a fim de entrar no estado clerical. Na verdade, isso fez a pregação mais fácil, mas, por outro lado, incentivou a clericalização da comunidade jovem, que incluiu mais e mais sacerdotes.

Portanto, não é surpreendente que a comunidade franciscana se tenha tornado cada vez mais integrado no Sistema Romano. Os últimos anos de Francisco foram ofuscados pelas tensões entre os ideais originais dos seguidores de Jesus e a adaptação de sua comunidade com o tipo existente de vida monástica.

Em 3 de outubro 1226, com idade de apenas 44, Francisco morreu tão pobre como ele tinha vivido. Apenas 10 anos antes, o Papa Inocêncio III morreu de maneira completamente inesperada com a idade de 56 anos, um ano após o IV Concílio de Latrão. Em 16 de Junho 1216, o corpo de Inocêncio foi encontrado na Catedral de Perugia: este papa que tinha sabido como nenhum outro antes dele, aumentar o poder, a prosperidade e a riqueza da Santa Sé, foi encontrado abandonado por todos, completamente nu, roubado por seu próprios servos. Era como trombeta sinalizando a transição de dominação mundial papal à impotência papal: no início do século XIII houve Inocêncio III reinando em glória, no final do século, houve o megalomaníaco Bonifácio VIII (1294-1303) preso pelos franceses, e, em seguida, um longo exílio de 70 anos em Avinhão e o Grande Cisma do Ocidente, com dois e, finalmente, três papas.

Apenas duas décadas após a morte de Francisco, o movimento franciscano se espalhando rapidamente na Itália parecia estar quase completamente domesticado pela Igreja Romana pelo que rapidamente se tornou uma ordem normal ao serviço da política papal, e até mesmo se tornou uma ferramenta da Inquisição. Se, então, era possível que Francisco de Assis e seus seguidores foram finalmente domesticado pelo sistema romano, então, obviamente, não pode ser excluída, que um papa Francisco também poderia ser preso no sistema romano, que ele deve deveria reformar. Papa Francisco: um paradoxo? É possível que um Papa e um Francisco, obviamente opostos, jamais poderão se reconciliar? Só por uma mente evangélica que reforme o Papa.

Para concluir, tenho uma última pergunta: o que deve ser feito se as nossas expectativas de reforma forem frustradas? Já passou o tempo em que o Papa e os bispos poderiam contar com a obediência dos fiéis. Um certo misticismo de obediência também foi introduzida pela reforma gregoriana do século XI: obedecer a Deus significa obedecer a Igreja e isso significa obedecer ao Papa e vice-versa. Desde essa altura, tem sido martelada em católicos que a obediência de todos os cristãos ao o Papa é uma virtude cardeal, comandar e impor obediência - por qualquer meio - tornou-se o estilo o Conselho Superior, em Jerusalém: "O homem deve obedecer mais a Deus do que aos homens".

Não devemos, então, de modo algum, cair numa aceitação resignada. Em vez disso, confrontados com a falta de impulso para a reforma da hierarquia, devemos tomar a ofensiva, pressionando pela a reforma de baixo para cima. Se o papa Francisco iniciar as reformas, ele vai descobrir que ele tem a grande aprovação de pessoas que vão muito além da Igreja Católica. No entanto, se ele permitir que as coisas continuem como estão, sem limpar a confusão das reformas em andamento, como o da Leadership Conference of Women Religious, então o chamado de "Tempo de indignação! Indignez-vous! ", vai tocar mais e mais alto na Igreja Católica, provocando reformas de baixo para cima.

Estas seriam implementadas sem a aprovação da hierarquia e, frequentemente, mesmo a despeito das tentativas de evasão da hierarquia. Na pior das hipóteses - como escrevi antes da recente eleição papal - a Igreja Católica vai experimentar uma nova Era do Gelo em vez de uma primavera e vai correr o risco de diminuir e virar apenas uma grande seita irrelevante.

Dr. Hans Küng - presidente honorário da Fundação Ética Global. Perito do Vaticano II. Teólogo. Escritor

Seu livro mais recente, Nós podemos salvar a Igreja Católica! Podemos salvar a Igreja Católica? -Publicado por Collins.

11 mai 2013



Tradução do inglês: João Tavares 


4 de maio de 2013

Uma brasileira, negra, filha de escravos, será venerada num altar.


"Nhá Chica "



Uma mulher negra, filha de escravos sobe hoje aos altares, Nhá Chica como é mais conhecida Francisca de Paula de Jesus, que nasceu por volta de 1810 no distrito de Santo Antônio do Rio das Mortes, em São João Del Rei (MG). O primeiro registro que consta da sua vida é um atestado de batismo de Francisca, em 26 de abril de 1810. Um inventário do irmão dela, seu testamento e atestado de óbito completam os registros oficiais da vida da Nhá Chica.
Santa defensora dos pobres como ela, uma santa brasileira de origem muito humilde que tinha sua devoçãop voltada par Maria, N.ª S.ª da Conceição que "Nhá chica" Chama de Minha sinhá.


Que Nhá Chica possa interceder por todos os pobres e excluídos deste nosso imenso país.






27 de abril de 2013

Fora da igreja não há salvação ?

A necessidade da Igreja para a salvação

       Pe. Antônio Piber
O tema da necessidade da Igreja para a salvação impõe-se com urgência quando alguns usam o axioma “Extra Ecclesiamnullasalus”(escrevendo errado o latim e atribuindo-o, com equivoco, a Santo Agostinho) numa perspectiva excludente e negativa, o que é surpreendente, pois se compreendermos de fato que “fora da Igreja não há salvação”, cabe a pergunta: onde está a verdadeira Igreja que salvaria?Nos ortodoxos? Nos romanos? Nos Brasileiros? Nos Reformados? Se é um fato, como fica o “onde dois ou mais estiverem reunidos em meu nome eu estarei no meio deles” (Mt 18,20)?
E qual igreja é a tal que fora dela não há salvação? Já que são muitas as denominações (mesmo católicas), cada uma se arvorando a mais “única” e a mais “verdadeira”. Jesus disse que viriam alguns “falsos profetas” que diriam que “o Reino de Deus está aqui, o Reino de Deus está ali”, mas o que não compreendem, não querem perceber, na sua soberba e egoísmo, é que “o Reino de Deus está no meio de vós” (Lc 17,20-25).
Importa perguntar-nos se, de fato, compreendemos Jesus como pleno e suficiente Salvador, ou se continuamos buscando subterfúgios idolátricos para não O aceitarmos de fato? Importa também nos interrogarmos sobre a posição da cristandade em face do mundo que a rodeiae que serviço ela, e nós, como Seus ministros, queremos ou não prestar, se estamos no mundo imitando Jesus “como aquele que serve” (Lc 22,26) ou se queremos nos servir, condenando-nos nós mesmos ao inferno?
Este é um problema teológico que suscita um inquérito histórico positivo. Assim que, ao citarmos “extra Ecclesiamnullasalus”, deveríamos ser levados a interrogar-nos sobre o seu sentido e contexto original, se não correremos o risco de que nos seja imputada a pecha da ignorância, da arrogância e da má vontade e de usarmos um dos Santos Padres, um dos Bispos Mártires da maior grandeza, para apenas tentar justificar nossos preconceitos anti-ecumênicos.
Pois bem, vamos a São Cipriano: esta fórmula surgiu no contexto das perseguições, das provações infligidas pelo Impero Romano aos cristãos e às cristãs, e ela se situa na perspectiva da parusia iminente. O contexto é o conflito entre a igreja do Norte da África e a igreja de Roma a proposito da validade dos Sacramentos administrados por hereges e cismáticos. São Cipriano defende firmemente a não validade destes Batismos e o dos “relapsos” e justifica sua posição, declarando que “fora da Igreja não há salvação”. Logo, como se poderia pôr o problema dum Batismo válido fora da Igreja? Essa atitude rigorista apoia-se, no entanto, a despeito da formula, sobre um elemento positivo: foi em Cristo que Deus deu a salvação ao mundo; Cristo prolongou esta salvação com a fundação da Igreja; a unidade e a comunhão da Igreja reunida em volta do Bispo é o instrumento da salvação, porque a comunidade dos cristãos é precisamente o local onde se comunicam o Pai, o Filho e o Espirito Santo. Fora dessa unidade, também constituída pela fides integra, não há lugar senão para a obra do anti-Cristo, que semeia a desunião, a discórdia, o ódio, a arrogância e o egoísmo, semeando assim a perdição e anunciando a proximidade do fim do mundo.
A reconstituição exata da origem histórica de um adagio patrístico não traz ainda a clareza desejada, se ao mesmo tempo não se alargar o inquéritoà sua base escriturística e a sua proclamação pelo Magistério. Não basta um dos Santos Padres ter falado, para que tal coisa se torne uma verdade de fé. No que diz respeito a Escritura, ela diz claramente da necessidade da fé e do Batismo, mas também da Vontade salvífica de Deus. O próprio São Paulo ensina que, embora a salvação nunca seja proposta independentemente da Igreja, os não batizados podem misteriosamente participar da redenção de Cristo. Além disso, saliento queexiste uma espécie de pertença anônima a Cristo, pois em Mateus 25,34-40 o Juiz diz àqueles que se encontram à Sua direita: “Vinde benditos de meu Pai, e recebei o reino que foi preparado para vós desde a fundação do mundo. Porque eu tive fome e vós me destes de comer”. A reação dos eleitos merece ser sublinhada: “Senhor, quando foi que o vimos com fome?”. Eles não se lembraram de ter encontrado o Cristo. Então o Rei responde: “Àquilo que fizestes aos mais humildes dos meus irmãos, foi a mim que o fizestes”. Existe, pois, um encontro não explicito, de Cristo, que se produz no momento do encontro com o próximo”. A favor deste cristianismo “implícito”, citamos também o discurso de São Paulo no Aerópago “Venho vos anunciar aquele a quem honrais, sem o conhecerdes” (At 17,23).
A necessidade da igreja romana para a salvação foi formalmente declarada pelo papa Inocêncio III (cf. Denz. 423), mas alguém, em sadia consciência considera válido ou relevante o que este Papa declarou? Também o concilio do Latrão IV (cf. Dens. 430) e Bonifácio VIII, na bula Unam Sanctam, ondeafirmou que quem não se sujeitasse a ele, não iria para o Céu... O concílio de Florença (Denz 570b) afirma: “Nem os pagãos, nem também os judeus, os heréticos, os cismáticos possuirão a vida eterna”, no entanto, Jesus Cristo afirmou: “Bem aventurado os misericordiosos porque alcançarão misericórdia. Bem aventurado os puros de coração, porque varão a Deus. Bem aventurado os pacíficos, porque serão chamados filhos de Deus. Bem aventurados os que são perseguidos por causa da justiça, porque deles é o Reino dos Céus” (Mt 5,7-10). Não é uma questão de opinião, mas sim de opção...
Para São Cipriano, não havia validade dos Sacramentos ministrados pelos que não estavam em comunhão com a Igreja Católica que ele representava e que era, naquele tempo, a do Norte da África; o Bispo de Roma, para ele, era o lado oposto, a não ortodoxia liberal e moderna. Um clérigo de qualquer denominação separada das outras, que publica esta frase, é no mínimo um equivocado..., se aceitarmos (e publicarmos) o axioma de São Cipriano, devemos aceitar (e publicar) que, de fato, os Sacramentos que ministramos são inválidos e ilícitos e que não somos a Igreja, mas sim um arremedo e que, decididamente, não estamos na salvação...
É preciso com urgência que se coloque a lume a doutrina do Evangelho, que os novos tenham humildade para aprender dos mais velhos e que todos estudemos, estudemos a sadia Teologia e, sobretudo, que tenhamos uma radical experiência ecumênica e arregacemos as mangas, colocando os pés no chão na pastoral e na missão, parando de perder tempo com picuinhas na internet... Que façamos sempre de novo, diuturnamente, uma leitura orante da Bíblia, como lectio divina, principalmente dos Escritos Apostólicos. E que no estudo da Teologia, se tome muito a serio a teologia do Batismo como incorporação em Cristo, na Ireja de Cristo, independente do nome que ela assuma.
Ora, todos os batizados em Cristo, ficam incorporados á Igreja de Cristo, independente do nome que ela tenha. Isto alarga a perspectiva da problemática respeitante aos membros da Igreja e á salvação “fora” da Igreja, se não for assim, somos obrigados a reconhecer que as Igrejas não romanas, não são verdadeiramente a Igreja, mas sim, para usar uma expressão do então cardeal Ratzinger: “São apenas comunidades religiosas” (Dominus Iesus, 3).Cito aqui a feliz expressão do papa Pio XI, quando em alocução a 9 de janeiro de 1927, lembrava que “os pedaços arrancados a uma rocha aurífera, contém também ouro” (Osserv. Romano, 10-11, jan. 1927).
Convido a que reconheçamos o agir de Deus nas outras Igrejas e nas outras religiões, e a sabermos que “o Espirito sopra onde quer” (Jo 3,8).
Mas o que a Bíblia diz exatamente sobre os aspectos subjetivos exigidos pela obtenção da salvação? Em primeiro lugar, aquele e aquela que possui o amor e a caridade, possui tudo, conforme Mateus 22, 35-40; Romanos 13,9ss; Mateus 25,31-46, Primeira aos Corintos 13 (sobretudo o versículo 13) e a Primeira Joao 4. A atitude para com o próximo é decisiva para a salvação, este é o maior ensinamento da Parábola do Bom Samaritano (cf .Lc 10,30-37). Mas a Escritura ensina que nenhum homem ou mulher possui realmente esta caridade, por que todos somos prisioneiros de nosso egoísmo. É esta a razão porque todos e todas deveríamos ser condenados (cf. Rm 3,23). Contudo, isto só não acontece devido a superabundância da graça de Cristo, de Seu amor incondicional por nós todos e todas, os pecadores e as pecadoras. A caridade é, pois, determinante, e quem não tiver amor no coração e não tiver uma caridade prática, não se salva, independente de estar nessa ou naquela Igreja, nessa ou naquela religião; mas como ela, a caridade, não é suficiente, devemos crer, devemos ter fé em Jesus e o aceitarmos como Nosso Salvador. Esta fé é o reconhecimento cheio de amor da impotência do homem e da mulher e é, consequentemente, a abertura à ajuda de um Outro. Toda a humanidade vive desse serviço de complementariedade realizado por Jesus Cristo. A vocação da Igreja é também participar nele, servindo. Ela não é um clube de salvação fechado em sim mesmo, mas sim a comunidade daquelese daquelas que são chamados e chamadas a colocar-se ao serviço da multidão. É isto que São Paulo, os Santos Padres, e os Teólogos da Libertação, tão incompreendidos, tentaram nos ensinar... É impossível negar o discurso inaugural do Evangelho na sinagoga de Nazaré: “O Espirito de Deus está sobre mim, para anunciar uma boa nova de libertação aos pobres” (Lc 4,16-30).
“A religião pura e sem mácula aos olhos de Deus e nosso Pai”, afirma o Apóstolo Tiago “é esta: visitar os órfãos e as viúvas nas suas aflições, e conservar-se puro da corrupção do mundo” (Tg 1,27), “porque os olhos do Senhor estão sobre os justos e seus ouvidos, atentos a seus rogos; mas a força do Senhorestá contra os que fazem o mal” (Tg 3,12). E o que é a salvação? É livrar-se dos pecados? Se é, “a caridade cobre a multidão dos pecados”( Tg 4,8).
A graça proveniente de Deus não atua só ocasionalmente e para uns privilegiados, Deus não têm preferidos, pois “reconhecemos que Deus não faz acepção de pessoas, mas sim que em todas as nações lhe é agradável aquele que pratica a justiça” (At 10,34). Praticar a justiça é o que a Deus lhe agrada? Isto resolve radicalmente a questão da salvação dos e das que estão “fora” da Igreja e daqueles e daquelas que ignoram a mensagem evangélica. Sim, ele ou ela não é desta nação/igreja, mas “pratica a justiça”, pois bem, ele ou ela agrada mais a Deus do que os e as que dizem “Senhor, Senhor”, “pois não é o que diz Senhor, Senhor que irá para o Céu, mas o que faz a vontade de Deus” (Mt 7,21-23)... Quando uma mulher do povo exclama que “os seios que amamentaram” Jesus são benditos, ele contesta que “mais feliz é quem houve a Vontade de Deus e a pratica” (Lc 8,21). “Quem observa os Seus Mandamentospermanece em Deus e Deus nele. É nisto que reconhecemos que ele permanece em nós: pelo Espirito Santo” (1Jo 3,24b).
Naturalmente que a distinção (e não a separação, pois ela não há) entre a ordem natural e a ordem sobrenatural, fica preservada. A salvação é uma graça oferecida, não pela própria existência humana, mas em virtude da Vontade de salvação de Deus, absolutamente livre, mas real, que se estende a todos os homens e a todas as mulheres, sem exceção. Com a morte de Jesus Cristo “o véu do templo se rasgou de cima abaixo” (Mc 15,37-38), demonstrando que não há mais separação entre o Santo dos Santos e o “pátio dos gentios”.
Se não, estão condenadas as crianças mortas sem batismo? E os Profetas e as Santas Mulheres do Antigo Testamento?
Compreendo que a dificuldade em ter um espirito ecumênico e liberto, misericordioso e solidário e usam estas frases isoladas, fora do contexto e da intenção do autor, leva a estes erros. No entanto, peço que tomemos cuidado, pois um dia esta prática poderá se voltar contra nós e poderemos ouvir de Jesus o “afastai-vos de mim, malditos, ide para o fogo eterno, destinado ao demônio e aos seus anjos”... (Mt 25, 41), pois ao “bom ladrão” Jesus disse: “ainda hoje estarás comigo no paraíso” (Lc 23,43) e perturbadoramente afirmou que “Sodoma, no dia do juízo, será tratada com menos rigor do que Cafarnaum” (cf. Mt 11,24), Sodoma, a que “será tratada com menos rigor”, nós sabemos o que é, mas e Cafarnaum? Além de ser a cidade de São Pedro (cf. Mc 1,29), é a dos “fariseus hipócritas” (cf. Lc 10,13-15). Se os nossos critérios de salvação são esses, estejamos atentos, pois não seria de nós que Jesus Cristo teria dito que “os ladrões e as prostitutas os precederão nos reino dos Céus” (Mt 21,31)?
Penso que Jesus Misericordioso está querendo abrir largamente as portas do Reino, a “Casa do Pai” mas alguns, infiéis porteiros e maus pastores, “servos inúteis” (cf. Lc 17,5-10)insistem em fechá-la... “ai de vós hipócritas, que não entram e não deixam ninguém entrar” (Mt 23,13).
“O amor vem de Deus e todo o que ama conhece a Deus e é nascido de Deus” (1Jo 4,7).
“Caríssimos, se a nossa consciência não nos censura, temos confiança diante de Deus” (1Jo 3,21).

Nossa Senhora, Mãe da Igreja, rogai por nós!

19 de abril de 2013

Das trevas para a Luz

J. Ricardo A. de Oliveira.


Ó Noite de Alegria verdadeira,
uniu de novo o céu e a terra inteira !
.
Na natureza tudo parece estar em vias de mudança,
as folhas mais amareladas, caem das árvores.
 A temperatura é mais amena, 
os dias um pouco mais curtos...
Momentos de transição.


A passagem do verão para o inverno parece nos lembrar que a vitalidade do verão 
precisa passar por uma transformação 
para que possa, mais adiante voltar a ser verão.

A Páscoa é também uma lembrança de passagem. 

A constatação, de que tudo é impermanente. 
Assim como na primeira páscoa 
o povo judeu conquistou a libertação 
de seu cativeiro no Egito, 
os cristãos rememoram a mensagem de libertação 
que Jesus veio nos trazer.

A morte não é o final da vida, é apenas uma etapa, uma transição necessária para atingirmos escalas mais altas, mais próximas daquele que nos criou.




Naquela manhã, diante do túmulo vazio, 
Maria de Magdala encontra-se com Jesus.

É a ela que Ele pede que avisem a Pedro e aos outros.



Foi ela que junto com Maria permaneceu até o fim aos pés da cruz.


Foi a ela que ele escolheu dar primerio esta notícia:
Estou aqui !

eu vencí !





Da mesma forma que os apóstolos acreditaram
no que parecia impossível,
é preciso manter sempre acesa a esperança,
manter firme o sonho
de que uma nova maneira de viver é possível:
mais fraterna, igualitária e amorosa. 





Jesus Ressuscitou!

O AMOR venceu!



É tempo de ressuscitar os sorrisos,
 o amor, a certeza de novos e melhores dias
Ressuscitar a Alegria e a esperança.
Ressuscitar a vontade de lutar
por um mundo que tenha a face do nosso mestre.










Que a nossa páscoa seja a certeza de que caminhamos todos para a luz, 
para a igualdade, para o renascimento da Paz, da justiça 
e da alegria para todos, sem exceções.





Feliz Páscoa !


25 de março de 2013

Um Papa fora do comum



" Jesus é Deus, mas desceu a caminhar conosco como nosso amigo, como nosso irmão; e aqui nos ilumina ao longo do caminho. E assim hoje O acolhemos. E aqui temos a primeira palavra que vos queria dizer: alegria! Nunca sejais homens e mulheres tristes: um cristão não o pode ser jamais! Nunca vos deixeis invadir pelo desânimo! A nossa alegria não nasce do facto de possuirmos muitas coisas, mas de termos encontrado uma Pessoa: Jesus, que está no meio de nós; nasce do facto de sabermos que, com Ele, nunca estamos sozinhos, mesmo nos momentos difíceis, mesmo quando o caminho da vida é confrontado com problemas e obstáculos que parecem insuperáveis… e há tantos! "
(Papa Francisco)


Demorei para me decidir a escrever sobre o novo papa Francisco. Confesso que fiquei com os dois pés atrás, mas há mais de 40 anos não se via um papa assim, tão humano e tão despojado dos vícios da corte. Mas agora depois de uma série de eventos e situações bastante esclarecedoras, que me fizeram querer acreditar e empenhar nele aposta de esperança e de mudanças.
Desde que chegou o Papa Francisco tem nos feito reacender uma esperança que a ,maioria de nós já tinha guardado na prateleira mais alta, junto com aqueles sonhos que vão ficar para uma outra vida...
Por é, ele faz o que  sempre imaginei ser o certo, pensa e diz aquilo que eu sempre repeti. É uma figura carismática ( sem ter nada com a RCC) e parece que está disposto a fazer correções imprescindíveis no curso da história da igreja. Ele fala nos pobres, celebra para  jardineiros e serventes, senta-se junto deles, escolhe o lugar na ultima fila da igreja, rejeita o trono...  
Sei que posso levar uma grande rasteira, as coisas certamente podem mudar mas tenho uma certeza estranha  de que Francisco  já está engajado em nosso meio, sabe todos os nossos defeitos, não acredito que possa ser um ator a este ponto. 
A favor dele falam nomes de muita responsabilidade: Boff, Betto, Casaldáliga, Esquivel, Dom Cláudio seu cabo eleitoral e mentor da escolha do nome Francisco.
Chico, Papa Chico !
Que ele tome para si a tarefa de um outro Francisco que muito lutou para atender ao pedido de seu Pai -Jesus. Morreu triste e de certa forma frustrado por ter escrito e reescrito sua regra e ter que ao final aprovar uma regra que não era a que queria, e mais ainda, por terem obrigado a que assumisse o diaconato.
Acho que ambos, o de Assis e o de Buenos Aires, tem em sua frente uma missão de grande envergadura :  reconstruir uma igreja em ruínas.

 Que o Espírito Santo o conduza como o conduziu ao Papado.

24 de março de 2013

24 de Março: 33 anos sem São Oscar Romero

SÃO ROMERO DA AMÉRICA

..

"Tenho sido freqüentemente ameaçado de morte.
Devo dizer a eles que, como cristão,
não creio na morte sem ressurreição:
se me matarem, ressuscitarei no povo salvadorenho".
(Dom Óscar A. Romero)


Na homilia de 11 de novembro de 1977, Monsenhor Romero afirmou:

"a missão da Igreja é identificar-se com os pobres.

Assim a Igreja encontra sua salvação."

Óscar Romero foi assassinado em 24 de março 1980 por um atirador de elite do exército salvadorenho, treinado nas Escola das Américas, enquanto celebrava a missa.

Sua morte provocou uma onda de protestos em todo o mundo e pressões internacionais

por reformas em El Salvador.

Foi declarado servo de Deus pelo Papa João Paulo II.




Na Galeria dos mártires do século XX da Abadia deWestminster: Madre Elisabeth da Rússia, 
o Rev. Martin Luther King, 
o Arcebispo Óscar Romero 
e o Pastor Dietrich Bonhoeffer


SÃO ROMERO DE AMÉRICA PASTOR E MÁRTIR
O anjo do Senhor anunciou na véspera...
O coração de El Salvador marcava
24 de março e de agonia
Tu ofertavas o Pão, o Corpo Vivo
o triturado Corpo de teu Povo:
Seu derramado Sangue vitorioso
O sangue "campesino" de teu Povo em massacre
que há de tingir em vinhos e alegria a Aurora conjurada!
E soubeste beber o duplo cálice
do Altar e do Povo,
com uma só mão consagrada ao Serviço.
O anjo do Senhor anunciou na véspera
e o verbo se fez morte, outra vez, em tua morte.
Como se faz morte, cada dia, na carne desnuda de teu Povo.
E se fez vida Nova
Em nossa velha Igreja!
Estamos outra vez em pé de Testemunho,
São Romero de América, pastor e mártir nosso!
Romero de uma Paz quase impossível, nesta Terra em guerra.
Romero em roxa flor morada da Esperança incólume de todo Continente
Romero desta Páscoa latino-americana.
Pobre pastor glorioso,
assassinado a soldo, a dólar, a divisa.
Como Jesus, por ordem de Império.
Pobre pastor glorioso, abandonado
por teus próprios irmãos de Báculo e de Mesa.


(As Cúrias não podiam entender-te:
Nenhuma Sinagoga bem montada pode entender a Cristo)
(Poema "São Romero de América" de Dom Pedro Casaldáliga, 
bispo emérito da Prelazia de São Félix do Araguaia).

5 de março de 2013

Os 42 anos mais sórdidos do catolicismo


Teólogo revela como os papas Ratzinger e Wojtyla reintroduziram a Inquisição, perseguiram divergentes e tornaram quase impossível a renovação da Igreja.

Entrevista a Amy Goodman e Juan Gonzalez, no DemocracyNow

Desde que o Papa Bento XVI formalmente se retirou, na quinta-feira, as especulações passaram a ser sobre quem vai substitui-lo. Na quarta, Bento deu um adeus emotivo em sua última audiência geral, dizendo que compreendia a gravidade de sua decisão de tornar-se o primeiro pontífice a renunciar, em um período de cerca de 600 anos. Com 85 anos de idade, apontou sua saúde frágil como razão para a partida. Dirigindo-se a cerca de 150 mil fiéis na Praça de São Pedro, disse que está renunciando pelo bem da Igreja.

O mandato do papa Bento foi marcado por muitos escândalos, talvez mais notadamente por sua postura diante dos abusos sexuais. Há alegações de que ignorou ao menos um caso assim, quando era cardeal. Documentos mostram que, em 1985, o estão cardeal Ratzinger adiou esforços para afastar um padre condenado por abusar de crianças.

Enquanto isso, Bento supervisionou, no ano passado, uma sentença do Vaticano segundo a qual o maior e mais influente grupo de freiras católicas norte-americanas sofria “sérios problemas doutrinários”, por ter questionado os ensinamentos da Igreja sobre pontos como homossexualidade e a proibição das mulheres exercerem o sacerdócio. Mais recentemente, novas fontes italianas revelam que três cardeais foram investigados por terem vazado documentos que mostram a corrupção sem limites nos postos do Vaticano.

Para saber mais, fomos a San Francisco, onde entrevistamos o teólogo Matthew Fox. Ele é autor de mais de vinte livros, o mais recente dos quais é The Pope’s War: Why Ratzinger’s Secret Crusade Has Imperiled the Church and How It Can Be Saved (tradução livre: A guerra do Papa: Por que a cruzada secreta de Ratzinger ameaçou a Igreja e como ela pode ser salva). Fox é um ex-padre católico, que foi primeiro impedido de ensinar a Teologia da Libertação e Espiritualidade da Criação pelo então cardeal Ratzinger. Mais tarde, foi expulso pela Ordem Dominicana, à qual pertenceu por 34 anos. Hoje é padre na Igreja Episcopal. Eis sua entrevista:

Amy Goodman: Bem vindo ao Democracy Now! Você pode começar respondendo sobre a renúncia do Papa e seu significado?

Matthew Fox:
 Obrigado. Eu realmente aprecio o jornalismo de vocês. Ele significa muito, para muitos de nós.

Penso que eu vou acreditar na palavra do Papa, quando ele diz que está cansado. Eu estaria cansado também, se tivesse deixado atrás de meu mandato tanta devastação, como ele fez, primeiro como inquisidor-geral durante o papado anterior. Bento trouxe de volta a Inquisição. É verdade que fui um dos teólogos expulsos por ele, mas relaciono outros 104 em meu livro, e a lista continua crescendo. É assim que a História vai lembrar deste homem: como quem trouxe a Inquisição de volta, o que é o completo oposto do espírito e dos ensinamentos do Segundo Conselho do Vaticano. Portanto, acredito realmente que o papa está deixando seu posto porque não o suporta mais.

O Vaticano tornou-se um ninho de serpentes. Como teólogo, vejo o trabalho do Espírito Santo em tudo isso. A Igreja Católica como a conhecemos, a estrutura do Vaticano, está obsoleta. Estamos nos movendo para além dela. O que está ocorrendo é doentio e me refiro, por exemplo, à proteção dos padres pedófilos. Você pode ver este fenômeno em muitos lugares: com o cardeal Mahony em Los Angeles; o cardeal escocês que acaba de renunciar; o cardeal Law, que foi elevado após ter saído de Boston, promovido para dirigir uma basílica do século 4, em Roma; e o próprio papa, segundo informações recentes.

Estamos tomando conhecimento das coisas horríveis que ocorreram em uma escola para surdos em Milwaukee, onde mais de 200 garotos, garotos surdos, foram abusados por um padre, e Ratzinger sabia disso. O padre Maciel, que era tão próximo do último papa que o levou para passeios de avião, abusou de 20 seminaristas; tinha duas esposas e abusou de quatro de seus próprios filhos. Ratzinger soube sobre esse caso por dez anos. Os documentos estavam em sua mesa, e ele não fez nada até 2005.

A história e a bajulação dos papas, que chamo de papolatria, não vão encobrir os fatos. Foram os 42 anos mais sórdidos do catolicismo, desde o Borgias. Acho que é algo realmente relacionado ao fim dessa Igreja, como a conhecemos. Acredito que o protestantismo também necessita de um reinício. Acho que o cristianismo pode voltar mais atrás, e se aproximar dos ensinamentos de Jesus, um revolucionário do amor e da justiça. É disso que se trata. E é por isso que tem havido uma resistência tão feroz, na ala direita.

A própria CIA esteve envolvida, especialmente com o papa João Paulo II, no esmagamento da Teologia da Libertação em toda a América do Sul, substituindo líderes heroicos, inclusive bispos e cardeais, por integrantes da Opus Dei, uma organização fascista. Tudo reduziu-se a uma questão de obediência: não se trata de ideias ou teologia. Eles não produziram um teólogo em 40 anos. Produziram advogados canônicos e pessoas que se infiltram onde o poder está: na mídia, na Suprema Corte, no FBI, na CIA e nas finanças, especialmente na Europa.

Juan González: Em alguns de seus escritos, você sustenta que, no fundo, os dois últimos papas – Bento XVI e João Paulo II – lideram um cisma e que, na realidade, agiram para burlar as decisões do Concílio Vaticano 2º. Você poderia detalhar este movimento histórico?


Matthew Fox: O papa João XXIII convocou o concílio no começo dos anos 1960. O encontro reuniu todos os bispos do mundo e todos os teólogos, muitos dos quais haviam vivido sob fogo no papado anterior, de Pio XII. Foi certamente um movimento de reforma. Inspirou os mais pobres, especialmente na América do Sul. Depois deste concílio, o movimento da Teologia da Libertação e a opção preferencial pelos pobres decolaram, criaram comunidades de base. Eram um novo jeito de fazer a Igreja, onde todos tinham voz, não apenas as pessoas no altar.

Esta aproximação não-hierárquica ao cristianismo e ao culto, muito mais horizontal e circular, foi uma grande ameaça a certas pessoas em Roma – ameaçou ainda mais à CIA. Dois meses depois de elito, o presidente Ronald Reagan convocou uma reunião de seu Conselho Nacional de Segurança em Santa Fé, Novo México, para discutir um ponto específico: como destruir a Teologia da Libertação na América Latina. Concluíram que não poderiam destruir a Igreja, mas conseguiriam dividi-la. Foram ao papa. Deram imensas somas de dinheiro ao sindicato Solidariedade, na Polônia, ao qual ele estava ligado. E em troca, conseguiram permissão ou – se você prefere assim – o compromisso do papado em destruir a Teologia da Libertação.

Isso está muito documentado. Por exemplo, por Carl Bernstein, num artigo de capa da revista Time, onde ele cria algo como uma hagiografia de Reagan e do papa juntos. Bernstein foi muito ingênuo sobre o que realmente estava acontecendo na própria Igreja. Parte importante do Concílio Vaticano 2º era declarar a liberdade de consciência, considerá-la um direito de todos os cristãos. Tudo isso foi destruído pelo papa João Paulo II e pelo cardeal Ratzinger.

As reformas do Concílio Vaticano 2º estavam se concretizando. Falo de um cisma porque, na tradição católica, um Concílio é superior a um papa. Mas nos últimos 42 anos, os dois últimos papados foram desfazendo todos os valores que o Vaticano 2º sustentou. É isso que as freiras estão sofrendo agora. Assim como o Vaticano atacou 105 teólogos, agora acusa as freiras de, digamos, não participar da Inquisição. E Deus abençoe essas freiras, as Nuns on the Bus. Muitos de nós as conhecemos porque elas têm estado nas linhas de frente, sustentando os valores do Vaticano 2º, especialmente os de justiça e paz, e trabalhando com os marginalizados.

Amy Goodman: Matthew Fox, por que você foi expulso da Igreja Católica? Você diz que é por causa da Teologia da Libertação. Explique.


Matthew Fox: Bem, primeiro eu fui silenciado por 14 anos, por Ratzinger. Em seguida, tive permissão para falar de novo e então, três anos depois, fui expulso. Mas ele construiu uma lista de reclamações. Primeira: eu seria um teólogo feminista. Não imaginava que este fato pudesse constituir uma heresia…

Número dois, eu chamava Deus de “Mãe”. Bem, provei que todos os místicos medievais chamavam Deus assim; e que a Bíblia também o faz, apesar de forma menos frequente.

Número três, eu prefiro a expressão “bênção original” a “pecado original”. Escrevi um livro chamado Original Blessing (Bênção Original, em inglês), no qual provo que nem Jesus, nem judeu algum, jamais ouviu falar de “pecado original”. Como você pode construir uma igreja, em nome de Jesus, a partir de um conceito que é do século 4 d.C.?

Sabe o que mais aconteceu no século 4, além da ideia do pecado original? Foi a conversão do Império Romano ao catolicismo. Se você passa a comandar um império, o pecado original é um ótimo dogma a difundir. Faz com que todos fiquem confusos sobre por que estão aqui. Nessa condição, é muito mais fácil colocá-los sob comando.

Acusaram-me por não condenar homossexuais, o que é claro que não faço. Obviamente Deus quer homossexuais, ou não haveria entre 8% e 10 % da população de todo o planeta com essa graça especial.

Disseram que trabalho muito perto dos índios norte-americanos. Bem, realmente trabalho com eles. Aprendi muito com os professores índios e seus rituais, tais como saunas, danças do sol, busca de visões. Não sei se isso é heresia também – eu não sei o que significa “trabalhar perto demais”.

Essas eram algumas das objeções. E realmente, nenhuma delas se sustentava. São testes de Rorschach sobre o que apavora o Vaticano. E acima de tudo, é claro, sobre mulheres e sexo. Essa é a agenda. Em qualquer situação onde há fundamentalismo e fascismo, existe controle. É por isso que o Vaticano, o Talibã e o pastor Pat Robertson têm algo em comum: estão todos apavorados com a possibilidade de trazer a divindade feminina de volta, e com isso, é claro, os direitos iguais para as mulheres.

Juan González: Além da pedofilia, que tem sacudido o Vaticano e toda a Igreja, há também os escândalos de corrupção no próprio Vaticano. Fala-se da denúncia produzida por um grupo de cardeais, que investigaram parte da corrupção mas não vão divulgar nada até o próximo papa ser nomeado. Você sabe quanto qualquer desses temas tem a ver com a renúncia de Bento XVI?

Matthew Fox: Tenho certeza que tiveram. Eu fui informado de que ele recebeu a denúncia, examinou-a e, seis horas depois, anunciou que estava renunciando. Pôs-se a salvo e encarregou o próximo papa de lidar com o tema. Penso ser muito claro que há uma conexão. Há muito mais nos bastidores do que a imprensa já anunciou, posso assegurar.

Quando Ratzinger fez-se papa, fui a Wittenberg e preguei as 95 Teses [de Martinho Lutero] na porta. Um ano e meio atrás, estava em Roma, e as traduzi para o latim – quer dizer, italiano, e entreguei-as para a basílica do cardeal Law numa manhã de domingo. Foi muito interessante. Um homem de 40 anos de idade veio a mim, um romano. Ele me disse, muito simplesmente: “Eu costumava me dizer um católico. Agora, só me chamo de cristão”. Foi um golpe para mim. Logo embaixo do nariz do papa, italianos, também, estão começando a compreender a verdade, estamos em um ótimo momento histórico. Uma instituição ocidental de 1.800 anos está derretendo diante dos nossos olhos. É doloroso e feio. Por outro lado, é também um momento de avanço e para apertar o botão de reiniciar no cristianismo, retornando à mensagem realmente poderosa de Jesus e seus seguidores através dos séculos: os místicos e os profetas.

Susan Sontag define “fascismo” como violência institucionalizada. Os católicos têm passado por violência institucionalizada há 42 anos. Pergunte a qualquer um desses teólogos que foram afastados de seu trabalho. Alguns morreram de ataque cardíaco. Outros, na pobreza das ruas, porque não conseguiram arrumar emprego. Mas, é claro, fale com os jovens que foram abusados por padres e acobertados por Ratzinger, que “protegeu” a instituição às custas de cada uma dessas crianças.

Juan González: Vamos às especulações sobre quem vai ser o sucessor do papa Bento XVI, Fala-se muito sobre a possível escolha, pela primeira vez, de um papa do hemisfério sul. Você ve alguma possibilidade de mudança real e substantiva na política da Igreja, seja quem for seu sucessor?

Matthew Fox: É triste dizer isso, mas eu não acredito, porque todos os que vão votar foram nomeados com aprovação do Ratzinger. Pensam como ele. O emburrecimento da igreja veio com toda essa crise pedófila. Quando você não tem líderes inteligentes e com consciência por 42 anos, mas apenas gente que diz sim, não é possível responder de modo inteligente à crise que emerge quando se acha um pedófilo em seu meio. Há um arcebispo norte-americano – não vou nomeá-lo – que, vinte anos atrás, chorou na presença de um amigo meu e lhe disse: “Não há um único bispo nomeado nos últimos vinte anos que eu consiga respeitar”. Bem, agora nós podemos dizer 42 anos.

Por isso, francamente, poucos nomes me vêm à cabeça. Existe este na África, que por azar é um completo homofóbico, e está endossando todas as leis recentes de violência homofóbica na África. É o chefe da Comissão de Justiça e Paz no Vaticano. Seria de esperar que não chegasse tão longe. Existe o cardeal austríaco, que é dominicano e mostrou um pouquinho de independência uma ou duas vezes. Há esse O’Malley, de Boston, que é franciscano, e portanto não quer ser papa.

Fonte: Blog Outras Palavras. Tradução: Gabriela Leite