O absurdo e a Graça

Na vida hoje caminhamos entre uma fome que condena ao sofrimento uma enorme parcela da humanidade e uma tecnologia moderníssima que garante um padrão de conforto e bem estar nunca antes imaginado. Um bilhão de seres humanos estão abaixo da linha da pobreza, na mais absoluta miséria, passam FOME ! Com a tecnologia que foi inventada seria possível produzir alimentos e acabar com TODA a fome no mundo, não fossem os interesses de alguns grupos detentores da tecnologia e do poder. "Para mim, o absurdo e a graça não estão mais separados. Dizer que "tudo é absurdo" ou dizer que "tudo é graça " é igualmente mentir ou trapacear... "Hoje a graça e o absurdo caminham, em mim lado a lado, não mais estranhos, mas estranhamente amigos" A cada dia, nas situações que se nos apresentam podemos decidir entre perpetuar o absurdo, ou promover a Graça. (Jean Yves Leloup) * O Blog tem o mesmo nome do livro autobiográfico de Jean Yves Leloup, e é uma forma de homenagear a quem muito tem me ensinado em seus livros retiros, seminários e workshops *

11 de setembro de 2016

13 de Setembro - São João Crisóstomo

.
O doutor da Igreja São João Crisóstomo
disse um dos mais profundos gritos de libertação:




"Queres honrar o Corpo de Cristo? Não permitas que seja desprezado nos seus membros, isto é, nos pobres que não têm que vestir, nem O honres aqui no templo com vestes de seda, enquanto lá fora o abandonas ao frio e à nudez. Aquele que disse: « Isto é o meu Corpo », [...] também afirmou: « Vistes-Me com fome e não me destes de comer », e ainda: « Na medida em que o recusastes a um destes meus irmãos mais pequeninos, a Mim o recusastes. [...] De que serviria, afinal, adornar a mesa de Cristo com vasos de ouro, se Ele morre de fome na pessoa dos pobres? Primeiro dá de comer a quem tem fome, e depois ornamenta a sua mesa com o que sobra »
S. João Crisóstomo: Fonte: Homilias sobre o Evangelho de Mateus, 50, 3-4: PG 58, 508-509; cf. João Paulo II, Carta enc. Sollicitudo rei socialis (30 de Dezembro de 1987), 31: AAS 80 (1988), 553-556."






S. João Crisóstomo, em grego Ιωάννης ο Χρυσόστομος, (349, Antioquia da Síria, hoje Antakya, no sul da Turquia - 14 de Setembro de 407) foi um teólogo e escritor cristão, Patriarca de Constantinopla no fim do século IV e início do V. Sua deposição em 404 produziu uma crise entre a Santa Sé e a Sé Patriarcal. Pela sua inflamada retórica, ficou conhecido como Crisóstomo (que em grego significa «boca de ouro»).
"Como verdadeiro pastor, tratava a todos com cordialidade, (...) em particular nutria uma ternura especial pela mulher e dedicava uma atenção particular ao matrimônio e à familia" e "convidava aos fiéis a participar na vida litúrgica, que fez esplêndida e atractiva com criatividade genial". Mas "apesar de sua bondade (...) se viu envolto em freqüentes intrigas políticas, por suas contínuas relações com as autoridades e as instituições civis (...) e foi condenado ao exílio".
A atenção de João Crisóstomo para com os mais desfavorecidos é uma das suas mais relevantes características, a ponto de ter sido ele a celebrizar a expressão «o pobre é um "Alter Christus"». Para ele, de facto, oferecer atenção e dedicação a um pobre é dar ao próprio Cristo: «Não há diferença alguma em dar ao Senhor e dar ao pobre, pois Ele mesmo disse "quem dá a estes pequenos é a mim que dá."» ("Sobre o Evangelho de Mateus", LXXXVIII, 2-3)
Comentando os Atos dos Apóstolos, São João Crisóstomo propõe "o modelo da Igreja primitiva, como modelo da sociedade, desenvolvendo uma "utopia social", a idéia de uma cidade ideal, tratando de dar uma alma e um rosto cristão à cidade. Em outras palavras, Crisóstomo entendeu que não era suficiente dar esmolas, ajudar aos pobres, caso a caso, mas que era necessário criar uma estrutura, um novo modelo de
É considerado santo pelas Igrejas Ortodoxa e Romana; é, a par de Gregório de Nanzianzo, de Gregório de Nissa e de Basílio de Cesareia, um dos quatro grandes Padres da Igreja Oriental; é ainda um dos Doutores da Igreja Católica.

Natural de Antioquia, filho de uma família cristã, estudou, na sua cidade natal sob Libânio, filosofia e retórica. Com a idade de vinte e um anos, depois de estar três anos a colaborar com o bispo Melécio de Antioquia, e de ter recebido o baptismo, foi ordenado leitor. Contra a oposição familiar, viveu alguns anos como ermitão no deserto.
Ao longo deste tempo continuou o estudo das escrituras sagradas e, quando regressou a Antioquia foi ordenado Diácono por Melécio e Sacerdote pelo bispo Flaviano em 386. Acto contínuo, este último encarregou João Crisóstomo das pregações na principal igreja da cidade, cargo que desempenhou até 397. Este período de doze anos, foi o mais fecundo da sua vida e nele proferiu as sua homilias mais conhecidas e que, no século VI, lhe valeriam o qualificativo que passou a fazer parte inseparável do nome com que passou para a posteridade: crisóstomo, isto é, boca de ouro.
Os últimos anos de sua vida foram tumultuosos. Foi eleito bispo de Constantinopla em 397 e Teófilo de Alexandria foi, contra a vontade deste, obrigado a consagrá-lo bispo, coisa que não perdoaria jamais a João. Uma vez bispo, quis começar uma restauração eclesiástica na qual - quiçá por falta de habilidade - a sua boa, e decidida, vontade se deparou com os obstáculos existentes e com os muitos interesses de alguns privilegiados. Pouco a pouco entrou em conflito com parte do clero, e, pouco depois, com a imperatriz Eudoxia.
Nesta situação, Teófilo de Alexandria conseguiu reunir aquele que depois viria a ser chamado o Sínodo da Encina, perto de Calcedónia, onde, com acusações falsas, conseguiu que Crisóstomo fosse deposto e desterrado pelo Imperador. O povo de Constantinopla, em especial os mais desfavorecidos - por quem João tanto havia feito - amotinou-se e João, no dia seguinte ao da sua saída, voltou para a sua sé episcopal.
Contudo, poucos meses depois, a situação voltou a piorar e acabou por ser desterrado para a Arménia em 404, de onde, a pedido próprio - por causa do perigo que podia representar para a sua vida a inveja de seus inimigos face às multidões que a ele acudiam -, foi de novo desterrado para um lugar mais distante, na extremidade oriental do Mar Negro. A caminho deste seu último desterro, morreria no ano de 407. Os seus restos mortais foram levados para Constantinopla em 438, e o Imperador Teodósio II, filho de Eudoxia, pediu publicamente perdão em nome de seus pais.Desde o dia 1 de maio de 1626 o seu corpo repousa na Basílica de São Pedro .






28 de agosto de 2016

A terceira das idades, ou quando o mundo passa a nos considerar idosos.



A verdade é que sempre será uma questão de referência.
Ou seria preferência?

A verdade é que cheguei na tal idade...
Não é de hoje aprendi que o melhor mesmo é viver.
Deixar a vida me viver, sem impedir seu fluxo.
Alcanço agora não a primeira, nem a segunda,
Mas a terceira das idades.
Para muitos a pior, para outros a melhor.
Quanto a mim, acho ótimo ser jovem, cada vez há mais tempo.


Da calmaria meio insossa dos primeiros anos,
Cheguei rápido  à primavera que antecede os anos tórridos.

E daí, passei aos anos, nem quentes nem frios,
Mormaço úmido, numa sequência outonal
Como céus sem nuvens, expectantes;
Tempo de dúvida de como serão as noites frias de inverno.
O que estará por vir, amiga vida?

Feliz percebo a esperança, teimosa e insistente.

Peço a Deus que ela me seja sempre companheira.
Que Ele não permita que ela e os sonhos,
 Sejam derrotados e sucumbam às lembranças,
Que os sonhos não desanimem, 
Diante dos desafios de uma nova infância, a segunda.


Por fim,
Quero muito poder recuperar a simplicidade e a ingenuidade,
Mesmo depois de tanta experiência e de ter sido merecedor da sabedoria,
ter provado da maldade alheia e saboreado o gosto amargo do sofrimento.
Diz o poeta que sonhos, não envelhecem... confio nele.

Quero então estar preparado minha amiga vida,
Para daqui há alguns anos, muitos, eu imagino e espero,
Saborear o momento feliz de me entregar 
E no fim, te agradecer a companhia.






18 de agosto de 2016

CANTO PARA AS TRANSFORMAÇÕES DO HOMEM *

Moacyr Felix


A todos os que sonham e trabalham por um mundo melhor, libertado dos obscurantismos e dos dogmas, do apodrecimento da própria existência pela
miséria física e da perda dos valores dos humanismo pela miséria moral.


(I) INICIAÇÃO

- Meu pai, o que é a liberdade?

- É o seu rosto, meu filho,
o seu jeito de indagar
o mundo a pedir guarida
no brilho do seu olhar.
A liberdade, meu filho,
é o próprio rosto da vida
que a vida quis desvendar.
É sua irmã numa escada
iniciada há milênios
em direção ao amor,
seu corpo feito de nuvens
carne, sal, desejo, cálcio
e fundamentos de dor.
A liberdade, meu filho,
é o próprio rosto do amor.

- Meu pai, o que é a liberdade?

A mão limpa, o copo d’água
na mesa qual num altar
aberto ao homem que passa
com o vento verde do mar.
É o ato simples de amar
o amigo, o vinho, o silêncio
da mulher olhando a tarde
- laranja cortada ao meio,
tremor de barco que parte,
esto de crina sem freio.

- Meu pai, o que é a liberdade?

È um homem morto na cruz
por ele próprio plantada,
é a luz que sua morte expande
pontuda como uma espada.
É Cuauhtemoc a criar
sobre o brasileiro que o mata
uma rosa de ouro e prata
para altivez mexicana.
São quatro cavalos brancos
quatro bússolas de sangue
na praça de Vila Rica
e mais Felipe dos Santos
de pé a cuspir nos mantos
do medo que a morte indica.
É a blusa aberta do povo
bandeira branca atirada
jardim de estrelas de sangue
do céu de maio tombadas
dentro da noite goyesca.
É a guilhotina madura
cortando o espanto e o terror
sem cortar a luz e o canto
de uma lágrima de amor.
É a branca barba de Karl
a se misturar com a neve
de Londres fria e sem lã,
seu coração sobre as fábricas
qual gigantesca maçã.
É Van Gogh e sua tortura
de viver num quarto em Arles
com o sol preso em sua pintura.
É o longo verso de Whitman
fornalha descomunal
cozendo o barro da Terra
para o tempo industrial.
É Federico em Granada.
É o homem morto na cruz
por ele próprio plantada
e a luz que sua morte expande
pontuda como uma espada.

- Meu pai, o que é a liberdade?

A liberdade, meu filho,
é coisa que assusta:
visão terrível (que luta!)
da vida contra o destino
traçado de ponta a ponta
como já contada conta
pelo som dos altos sinos.
É o homem amigo da morte
Por querer demais a vida
- a vida nunca podrida.
É sonho findo em desgraça
desta alma que, combalida,
deixou suas penas de graça
na grade em que foi ferida...
a liberdade, meu filho,
é a realidade do fogo
do meu rosto quando eu ardo
na imensa noite a buscar
a luz que pede guarida
nas trevas do meu olhar.



(II) ENREDO


I

Onde se destrói o mundo em que vivo
aí estou.
Onde há destruição, aí se define o meu caminho.
Onde os deuses se desmoronam é que apareço
sem rosto
atrás de suas formas feitas de noite e de medo.
Onde se morre, onde se nasce.
Onde se morre é que eu renasço.

- Stirb und werde!
- “Morre e transmuda-te!”
Está não é, meu velho Goethe, a verdade das verdades, a ignorada
pelos que apenas
“um hóspede triste sobre a escura terra”?!
A morte e o fogo e a humilhação e o ódio
em vida e verde devem ser devolvidos.


II


Depois de silenciar o vozerio das cores
nas coisas cinzas que não dizem mais
do olhar humano que as fizera humanas,
a chama desce, e em rodopios tontos
retorna ao calor íntimo da terra,
ao berço rubro, à causa que realiza
este mistério grande de existir
o peixe e a estrela, o movimento e a cor
e o som do homem a se querer de amor.
Medo e humilhação e ódio
Assim alimentados serão devolvidos.


III


Medo e humilhação e ódio
devem ser devolvidos:
infenso ao homem é guardá-los em sua alma
receptáculo de coisas maiores
(como as águas da lua a perlavar a noite
num rosto de criança que dorme
ou numa anca macia de mulher nua).
Porque emudeceu a voz mais alta de minha infância?
Que ternura imunda rouba
A fala do mar dos pés de uma criança?
Que nos faz sobreviver, adultos
somente em medo e humilhação e ódio?
Querer-me novo é querer-me mais que morto
em mim ou nesta existência que me olha.
É querer-me outro que não este em que me instalaram.
É não parar, não querer parar os eixos
desta roda de luz
- plural de eternidades
a dissolver o bronze entre os escombros do que eu era.
Nesta banda podre do tempo
A água não inventa rios
nem ouve os cantos do mar.
Nestas escarpa onde habitam os dourados senhores do sul
ninguém nasce, ninguém agoniza mais de uma vez.
Aqui o sangue se enclausura
numa ordem arrumada como a das geladeiras.
E não sabe mais a ciência do orvalho numa alegria de flor.
Aqui a morte interrompe apenas o esforço de durar.
Aqui
Medo e humilhação e ódio
não devem ser recebidos
Muitas vezes essa é a única forma concreta de amar
aqui.


IV


Quando ensolarada pelas raízes do fogo, a vida
é o coração ligado ao velocíssimo novelo das galáxias
e na fúria de uma lágrima, senhores, e no desejo
de todo amor que se descobre
fogo e movimento e transformação
eu poderia doar-vos o acontecimento ilimitado,
o reinado da ordem e do caos anteriores a todos os deuses.


Porém a treva, a treva deste mundo em que eu escuto
estilhaçar-se a vida em seu cristal escuro,
a treva
só me permite em vossas mãos (e nas minhas)
apenas com esses parcos cacos de mim próprio...


Os vossos mitos são fortes, senhores, muito fortes.


V


Nos álbuns de família quem ganha e perde
és tu, sombra de Heráclito,
a transformar em chuva o sol em nossos rios.


Nos álbuns de família com brasões, a sepultura ideal
dos que já morreram
tantas vezes
quantas as que se deixaram fotografar
singulares
sobre uma data, uma conquista ou uma verdade
que pensaram imóveis.
Se o camponês não possui maquinas
Fotográficas
Para re-saltar o instante de sua morte como servo,
que família imóvel é essa que se quer sagrada?
Ignora ela a vazia tristeza dos seus domingos,
quando os cupins também a devoram ao lado da Casa Grande?
Nos álbuns de família, qual a vida que está neles?

Se em cada página o tempo ri
velho devasso, avô caduco
a negar ajuda e mão
estranha-mente
aos netos acordados pelo dor em fundo chão.

Nos álbuns de família quem ganha e perde
és tu, sombra de Heráclito,
a transformar em chuva o sol de nossos rios.


VI


De repartição em repartição a poesia
fugiu, tentou fugir
do engavetado mundo das mesas
alinhadas
como leitos fúnebres
à disposição das
necrófilas orgias de generais e beatas e banqueiros
e exporta-dores.
Ah, o clima de cemitério que reina nos ministérios!
Ah, a essencial recusa da poesia,
suas explosões de sangue naufragando
o destino e a infiníta infância da vida
entre os ruídos do mar e a rouquidão dos homens
agachados.
Agachados
sob o pensamento natimorto dos que divinizam
o Poder, o Estado, e a Política.
Ah, a aurora guardada no tinteiro dos poetas
em que o amor apenas autoriza o dia
na praça
sem o discurso hipócrita
ou na cidade sem bancos e sem forças armadas.


VII


Assim como defende
a perfeição da flor
acabada
e em si mesma fechada,
o poeta não defende
até hoje governo algum:

seu lado é o lado do povo
sempre e sempre roubado
por mil, por cem ou por um.

O pelego se untou
nas banhas do negocista
e engordou engordou
tanto
que a sua barriga tão grande
esmagou

a menina do povo
que vinha com a flor,
que vinha com a flor.

O poeta defende
o direito de andar

até o outro lado da vida
em que o homem é o seu avesso
o chão de seu próprio mar
e a verdade a rosa nua
solta na praia e na rua
como um convite a bailar.

O poeta defende
o direito de amar.


VIII


Do princípio e do fim das horas que o dinheiro envilece
foi então que chegaram os matadores de pássaros,
os que invadiram a minha ilimitada gaiola de ossos
e arrastaram de lá o poeta
para os depósitos de preços ou de presos.

A roda dos olhos quebrada ou o acanalhamento.
O mundo, ou o interior do exterior, tinha que ser quebrado
alguma coisa, a vida, tinha que ser quebrada
já que os homens inteiros estavam ainda no ventre
dos que reivindicavam uma história nova
nos campos e nas fábricas.
Ou no pensamento daqueles que sabiam escutar, mas
com um punhal na cintura,
o abraço das coisas e dos seres.

De re-partição em re-partição a poesia
Comprimiu o poeta no coração de uma bala.


IX


Segregada pelos amiantos do medo nos comutadores
e nos lustres, a luz
despe-se de todo berro e toda flama,
enquanto no morno ritual da sala
a saltar de colarinhos e colares
a palavra do homem assassina o homem: repetição de quando
o sílex, afiado, trazia a morte para as suas carótidas.
Os antigos porém, desconheciam os terríveis cortejos
a enterrar na tarde movida pela fala inglesa
a mudez de um Cristo sempre de madeira
e a histórica possibilidade de liberdade na existência.
E não gelavam o sangue da palavra injustiça
Em fáceis copos de uísque.

Nem mediam também a construção do homem pelo número de suas latrinas

sabiam eles, os antigos, pelo menos a diferença
entre o conforto das jaulas e o fogo aceso no topo das montanhas.
Mais alto do que eles, o coração do povo tem que saber isso!
Mais alto do que eles, o carvão que faz a noite
vestir a chama do silêncio em chamas
escreve

na estupidez moderna destes nossos muros
indicações escritas pelo sol nos mapas do futuro.


X


O homem, os homens
São vitórias da morte a circular as vidas
ou sombras opacas de uma Vida
em que esse anti-salto, a morte
não existe e nem nunca existiu
a não ser em seu não-ser de ser
desvão ao lado de desvão na ponte?

Se os câes falassem, ah, como ririam
(em frente ao sol)
dos nossos medrosos altares.


(III) CONCLUSÃO

É inútil querer parar o Homem,
o que transforma a pedra em piso,
o piso em casa e a casa em fonte
de novas músicas da carne
sob as velocidades da luz e da sombra.
É inútil querer parar o Homem
acolher sempre um pouco de si próprio
no mistério da vida a cavalgar
os cavalos aéreos da semântica
sob uma indeferida eternidade.
É inútil querer parar o Homem
e o impulso que o transforma sempre
na pátria sem fim do ato livre
que arranca a vida e o tempo e as coisas
do espelho imóvel dos conceitos.
Ah, que mistério maior é este
que liga a liberdade e o homem
e une o homem a outros homens
como o curso de um rio ao mar!
(quando a noite é una e indivisível,
nos olhos da mulher que eu amo
acende-se o deus deste segredo
-e uma sombra só nos transporta
ao fundo sem nome da vida.)

É inútil querer parar o Homem.
Do que morre fica o gesto alto
a ser o germe de outro gesto
que ainda nem vemos no tempo.
Isto as crianças nos lembram
quando rodam em nossas portas
os ossos do dia que foi nosso
e agora são os eixos do pedalar
nas bicicletas com que os deuses
as vão levando para outros dias
do acaso, do desejo e do fazer
em que não seremos mais, eternamente.
É inútil querer parar o Homem
e o seu sonho a dar longas voltas
ou a inventar estradas no cárcere,
o seu sonho mais essencial
a destruir e a enferrujar
metais de qualquer ditadura.
É inútil querer parar o Homem
e o seu sonho, o mais de flor,
de apagar dos lábios da terra
o ricto do medo que estica
no céu de aço a bomba atômica;
o seu sonho, que é o seu movimento
onde a razão dança mais bela,
de ver no armário dos museus
o manual oco e sem asas
que aprisiona o corpo e o sexo
en desrazões dadas na infância
e os livros de Deve & Haver
dos poderosos de Manhattan
comerciando Deus e o mundo.

É inútil querer parar o Homem
e o seu sonho de enterrar
sob o verde passo de uma história livre
os dogmas do stalinismo
grudado como esparadrapo
sobra a boca múltipla da vida
(e a subdesenvolvida farda
dos tiranos que bebem uísque
pago com o sangue de sua pátria).
É inútil querer parar o Homem:
em tudo que de amor cantar
o seu sonho caminhará
a encaminhá-lo na direção dele próprio
inteirado quando históricamente liberto
do econômmico em que ora o algemam.
É inútil querer parar o Homem,
o que transforma a pedra em piso,
o piso em casa e a casa em fonte
de novas músicas de carne.
A andar em formas de palavras
sob os arvoredos da vida
o sonho do Homem caminhará
do pensamento para as mãos
e das mãos para o pensamento,
noite e dia caminhará.
até tornar as mãos em pássaros
livres, inteiramente livres, para amar
o azul ou as várias almas do céu
dentro do Homem que se movimenta
na liberdade, no amor e no desejo
em que a si próprio inventa.



____
* Deste poema, escrito em maio de 1964, o fragmemto inicial foi então publicado no Correio da Manhã. Diagramado com eficiência na seleção intelectual de cada fragmento do seu texto e no uso adequado das ilustrações feitas pelo talento criador de Poty, o célebre gráfico Rubens de Barros Lima, neste mesmo ano, armou também um livro de 84 páginas, no formato de 18x24 cm, e tão graficamente bonito, que à Editora foi concedida, por essa beleza gráfica, a Medalha de Ouro da Câmara Municipal do Livro em São Paulo.
Sendo um dos primeiros livros contra o golpe militar de 1964, a livrariada Civilização Brasileira, em gesto típico de Ênio Silveira, colocou-o no espaço total de suas estantes para a rua e sobre elas estendeu uma longa faixa onde estava escrito ”A poesia é a arma do povo contra a tirania”. O livro esgotou-se rapidamente. (N. do A.)

Moacyr Félix de Oliveira (Rio de JaneiroRJ, 11 de março de 1926 — Rio de JaneiroRJ, 25 de outubro de 2005) foi um poetaescritoreditor e intelectual brasileiro.

Começou sua trajetória como editor em 1954, quando integra a equipe de redação da revista literária Marco, e de 1954; em 1956 integrou a comissão de redação da revista Caderno do Nosso Tempo, do Ibesp. De 1956 e 1958, foi o responsável pela seção de poesia e escreveu artigos de crítica e balanços literários no Para Todos, jornal de cultura do antigo Partido Comunista Brasileiro (PCB), dirigido por Jorge Amado e Oscar Niemeyer, e redator-chefe Moacyr Werneck de Castro; de 1963 a 1971, diretor da Coleção Poesia Hoje, da editora Civilização Brasileira, que juntamente com as coleções Poesia Sempre e Poesia Viva; em 1965, faz parte do conselho de redação e depois secretário da famosa Revista Civilização Brasileira, editada por Ênio Silveira e em 1966, torna-se diretor. Como poeta, de 1955 a 1960, colaborou em vários jornais, como o Correio da Manhã, o Diário de Notícias, o Diário Carioca e Jornal do Brasil. Como jornalista, de 1955 a 1962, fez parte também do conselho de redatores e redator-chefe do Jornal de Letras. Em 1962, escrevia ao domingos, no Diário de Notícias, a seção "Radiografia de um livro", dedicada a autores de filosofiasociologiapolítica e economia. Como intelectual e ativista, foi um dos fundadores do Comando de Trabalhadores Intelectuais (CTI), que teve a adesão no Rio de Janeiro de mais de quatrocentos intelectuais de todas as áreas das artes, da literatura, da ciência e das profissões liberais. Em 1964, foi eleito membro do Conselho Deliberativo deste comando.
Obras
  • Cubo de Treva (1948);
  • Lenda e Areia (1950);
  • Itinerário de uma Tarde (1953);
  • O pão e o Vinho (1959);
  • Canto para as Transformações do Homem (1964);
  • Um Poeta na Cidade e no Tempo (1966);
  • Canção do Exílio Aqui (1977);
  • Neste Lençol (1977);
  • Invenção de Crença e Descrença (1978);
  • Em Nome da Vida (1981);
  • Encontros com a Civilização Brasileira (1981);
  • Singular Plural (1988);
  • Introdução a Escombros (1998);

18 de julho de 2016

JESUS o Mestre

J. Ricardo A de Oliveira


Penso que só passamos a ser realmente "humanos" depois da vinda de Jesus.
Ele veio trazer a possibilidade de uma etapa importante na evolução
da espécie humana, 
desenvolver a emoção,
abrir o "chacra cardíaco" da humanidade. 
Daí sua imagem tão popular com o coração aberto 
e sua mensagem de Amor incondicional.


Definitivamente Ele é um mestre.
Só Ele pode abrir para nós a capcidade de resolver conflitos
sem uma espada ou um punho fechado.
"Amai-vos uns aos outros como Eu vos amo ".


Não importa se é filho de Deus, o próprio Deus, ou um ser especial. Na verdade Ele é único, pena que tenhamos evoluido tão pouco desde sua vinda. Pena que tantos queiram aprisioná-lo em suas prisões/religiões, menores que Ele. Por ele tanto se matou e tantos se matam.Uma incoerência com a missão que ele veio cuprir e que pediu que o ajudássemos depois de sua volta para o Pai.Temos falhado muito neste aspecto, interpretamos errado seu pedido, nos entricheiramos em nossas pequenas verdades e esquecemos que nada pode limitar o Amor, nem mesmo rótulos poderosos ou pensamentos de maioria.

Jesus é meu irmão expresso em rostos como o Babalorixá, 
o Padre, o Pastor, o Rabino, o Aiatolá, o Lama 
e tantos outros sacerdotes de tantos rótulos regligiosos. 
Ele é o trabalhador, o professor, o médico, a enfermeira, 
a cozinheira e também o aluno, o funcionário, 
o cliente e toda a diversidade de pessoas, 
profissões, nacionalidades.
Ele é, em tudo e todos...

É o humilde e também o poderoso. 
E é aquele mesmo que me aponta o revolver, 
que furta a carteira no ônibus, ou que se prostitui nas ruas. 
É corrupto na política, 
é o que abusa de um menor 
usando sua capa de sacerdote, 
ou que preocupa-se mais com o dízimo 
do que com o amor dos irmãos.



Mas é também o sacerdote honesto, o pastor piedoso o político consciencioso.
É aquele que empresta seu corpo para uma entidade fazer caridade ou é o que finge receber uma entidade para tirar proveito da situação, 

ou simplesmente, o individuo honesto, pacato, sincero; 
a mulher dedicada, o marido, os filhos...

E como já disse o Raulzito é:
"o principio, o fim e o meio..."

Ele está no meio de nós, de Todos nós.
E prometeu estar sempre que pelo menos dois de nós 

nos reuníssemos em seu nome

E, todas as vezes que fizermos qualquer coisa 

a um de seus pequeninos, é a Ele que estaremos fazendo.

Que Ele nos traga a Paz inquieta 

e nos torne operários construtores do seu reino de amor.





21 de junho de 2016

Mudança Cósmica



No dia de  ontem tivemos uma iua Cheia às 11.03 da manhã e  o Solstício de inverno às 10.35 da noite.



 Vivemos, mesmo que muitos nem saibam,  um momento cósmico especial, o Solstício de Inverno (no hemisfério Sul), que  nos remete aos ciclos de “claro” e “escuro”, atividade e repouso.  Foi o dia mais curto e, claro, a noite mais longa do ano.
A Lua, coincidentemente, entrou em sua fase cheia e desde 1967 não tínhamos o solstício coincidindo com uma lua cheia.
A mãe natureza
 nos brinda com uma Luz adicional para  vermos  melhor o caminho.
Ela sempre nos mostra a lição a aprender , mesmo que para muitos de nós não esteja assim tão evidente , mas está sempre lá diante de nós, e  às vezes é ainda muito  difícil perceber as evidências cósmicas, da alternância do claro e escuro que maravilhosamente fazem com que  a Dança da Vida aconteça. Mesmo assim continuamos a ter medo do escuro, embora já tendo experienciado que  ele é somente a contra parte, o oposto complementar do claro.
Com o solstício iniciamos  o Inverno que nos convida  a hibernar, ao  recolhimento, à meditação, à interiorização para processar o que vivenciamos no último ciclo e nos preparar para o novo ciclo de Luz que logo retornará.
É preciso estar atento para o fato de que a partir de agora  as noites gradativamente irão diminuir e os dias irão aumentar até chegarmos na estação das flores, do desabrochar das consciências, que passaram o inverno meditando e revendo seus processos de vida.
Estar de acordo com os ciclos da natureza é uma sabedoria que foi sendo deixada de lado e precisa ser resgatada.


 Que nossos dias de inverno possam nos trazer o frio necessário para nos manter quietos e interiorizados, e por isso devemos agradecer por essa ajuda da natureza.
Que cada um de nós encontre a sua forma de meditar e refletir e que possamos celebrar sempre os ciclos cósmicos e resgatar a sabedoria de nossos ancestrais que foram se perdendo com o avanço da tecnologia e dos sistemas mais preocupados em valorizar o TER em detrimento do SER.
Feliz inverno!

15 de junho de 2016

O Poder do Silêncio

Jean-Yves Leloup

                                                 "Signs of Christ" de Nicholas Roerish - Jesus e mestre Morya

Aprenda com o silêncio a ouvir os sons interiores da sua alma, a calar-se nas discussões e assim evitar tragédias e desafetos... Aprenda com o silêncio a aceitar alguns fatos que você provocou, a ser humilde deixando o orgulho gritar lá fora, a evitar reclamações vazias e sem sentido...
Aprenda com o silêncio a reparar nas coisas mais simples, valorizar o que é belo, ouvir o que faz algum sentido... Aprenda com o silêncio que a solidão não é o pior castigo, existem companhias bem piores... Aprenda com o silêncio que a vida é boa, que nós só precisamos olhar para o lado certo, ouvir a música certa, ler o livro certo. Aprenda com o silêncio que tudo tem um ciclo, como as marés que insistem em ir e voltar, os pássaros que migram e voltam ao mesmo lugar. Como a Terra que faz a volta completa sobre o seu próprio eixo, complete a sua tarefa. Aprenda com o silêncio a respeitar a sua vida, valorizar o seu dia, enxergar em você as qualidades que você possui, equilibrar os defeitos que você tem e sabe que precisa corrigir, e enxergar aqueles que você ainda não descobriu.
Aprenda com o silêncio a relaxar, mesmo no pior trânsito, na maior das cobranças, na briga mais acalorada, na discussão entre familiares... Aprenda com o silêncio a respeitar o seu "eu", a valorizar o ser humano que você é, a respeitar o Templo que é o seu corpo, e o Santuário que é a sua vida. Aprenda hoje com o silêncio, que gritar não traz respeito, que ouvir ainda é melhor que muito falar...
Na natureza tudo acontece com poder e silêncio, com um silêncio poderoso; por vezes, o silêncio é confundido com fraqueza, apatia ou indiferença. Pensa-se que a pessoa portadora dessa virtude está impedida de reclamar seus direitos e deve tolerar com passividade todos os abusos. Acredita-se que o silêncio não combina com o poder, pois este tem-se confundido com prepotência e violência. Sempre que a palavra poder lhe vier à mente, lembre-se do Sol que nasce e se põe em profunda quietude; move gigantescos sistemas planetários, mas penetra suavemente pela vidraça de uma janela sem a quebrar. Acaricia as pétalas de uma rosa sem a ferir, e beija as faces de uma criança adormecida sem a acordar; vamos encontrar na natureza lições preciosas a nos dizer que o verdadeiro poder anda de mãos dadas com a quietude. As estrelas e galáxias descrevem as suas órbitas com estupenda velocidade pelas vias inexploradas do cosmos, mas nunca deram sinal da sua presença pelo mais leve ruído. O oxigênio, poderoso mantenedor da vida, penetra em nossos pulmões, circula discreto pelo nosso corpo, e nem lhe notamos a presença. A luz, a vida e o espírito, os maiores poderes do universo, atuam com a suavidade de uma aparente ausência. Como nos domínios da natureza, o verdadeiro poder do homem não consiste em atos de violência física. Quando um homem conquista o verdadeiro poder, toda a antiga violência acaba em benevolência.
A violência é sinal de fraqueza, a benevolência é indício de poder. Os grandes mestres sabem ser severos e rigorosos sem renegarem a mais perfeita quietude e benevolência. Deus, que é o supremo poder, age com tamanha quietude que a maioria dos homens nem percebe a Sua ação. Essa poderosa força, na qual todos estamos mergulhados, mantém o Universo em movimento, faz pulsar o coração dos pássaros, dos bandidos e dos homens de bem, na mais perfeita leveza. Até mesmo a morte chega de mansinho e, como hábil cirurgiã, rompe os laços que prendem a alma ao corpo, libertando-a do cativeiro físico.
O verdadeiro poder chega: sem ruído, sem alarde e sem violência. "Bem aventurados os mansos, porque eles possuirão a Terra".
"Boa Terra em teus pés, Água o bastante em tua semente, bom Vento para o teu sopro, Fogo em teu coração e muito Amor em teu ser.”
"O êxito ou o fracasso de sua vida não depende de quanta força você põe em uma tentativa, mas da persistência no que fizer."

4 de junho de 2016

Mariama protege o Teu Brasil !




Mariama,
Nossa Senhora, mãe de Cristo e mãe dos homens!
Mariama,
mãe dos homens de todas as raças, de todas as cores, de todos os cantos da Terra.
Pede a teu filho que esta festa não termine aqui, a marcha final vai ser linda de viver. Mas é importante, Mariama, que a igreja de teu filho não fique em palavras, não fique em aplausos. O importante é que a CNBB, a Conferência dos Bispos, embarque de cheio na causa dos negros. Como entrou de cheio na pastoral da terra e na pastoral dos índios.
Não basta pedir perdão pelos erros de ontem. É preciso acertar o passo de hoje sem ligar ao que disserem.
Claro que dirão, Mariama, que é política, que é subversão, que é comunismo. É Evangelho de Cristo, Mariama!
Mariama, mãe querida, problema de negro acaba se ligando com todos os grandes problemas humanos. Com todos os absurdos contra a humanidade, com todas as injustiças e opressões.
Mariama, que se acabe, mas se acabe mesmo a maldita fabricação de armas. O mundo precisa fabricar é paz.
Basta de injustiças!
Basta de uns sem saber o que fazer com tanta terra e milhões sem um palmo de terra onde morar.
Basta de uns tendo que vomitar para comer mais e 50 milhões morrendo de fome num só ano.
Basta de uns com empresas se derramando pelo mundo todo e milhões sem um canto onde ganhar o pão de cada dia.
Mariama, Nossa Senhora, mãe querida, nem precisa ir tão longe, como no teu hino. Nem precisa que os ricos saiam de mãos vazias e os pobres de mãos cheias.
Nem pobre, nem rico!
Nada de escravo de hoje ser senhor de escravos amanhã.
Basta de escravos!
Um mundo sem senhores e sem escravos.
Um mundo de irmãos.
De irmãos não só de nome e de mentira.
De irmãos de verdade, Mariama!"  
Dom Hélder Câmara

3 de junho de 2016

Imagens do Incosciente - Nise da Silveira

Drª Nise da Silveira (Maceió15 de fevereiro de 1905 - Rio de Janeiro30 de outubro de 1999)
Médica psiquiatra brasileira, aluna de Carl Jung. Dedicou sua vida à psiquiatria e manifestou-se radicalmente contrária às formas agressivas de tratamento de sua época, tais como o confinamento em hospitais psiquiátricos, eletrochoqueinsulinoterapia e lobotomia
Drª Nise da Silveira é uma referência da luta anti-manicomial e mais do que isso é a própria revolução da psiquiatria, é alguém que transformou absurdo em graça.
Ela é uma libertadora, trouxe para vida quem estava condenado a uma vida proticamente anulada pelos eletrochoques e pal lobotomia 
Os filmes aqui apresentados são bastante antigos, mas nos mostram com absoluta clareza o trabalho desta mulher que enfrentou a máquina e o sistema em defesa de seres humanos tratados com imprestáveis. 

Imagens do Incosciente
Leon Hirszman
Parte 1/2




Parte 2/2







Posfácio: Imagens do Inconsciente (Leon Hirszman, 1986-2014)