O absurdo e a Graça

Na vida hoje caminhamos entre uma fome que condena ao sofrimento uma enorme parcela da humanidade e uma tecnologia moderníssima que garante um padrão de conforto e bem estar nunca antes imaginado. Um bilhão de seres humanos estão abaixo da linha da pobreza, na mais absoluta miséria, passam FOME ! Com a tecnologia que foi inventada seria possível produzir alimentos e acabar com TODA a fome no mundo, não fossem os interesses de alguns grupos detentores da tecnologia e do poder. "Para mim, o absurdo e a graça não estão mais separados. Dizer que "tudo é absurdo" ou dizer que "tudo é graça " é igualmente mentir ou trapacear... "Hoje a graça e o absurdo caminham, em mim lado a lado, não mais estranhos, mas estranhamente amigos" A cada dia, nas situações que se nos apresentam podemos decidir entre perpetuar o absurdo, ou promover a Graça. (Jean Yves Leloup) * O Blog tem o mesmo nome do livro autobiográfico de Jean Yves Leloup, e é uma forma de homenagear a quem muito tem me ensinado em seus livros retiros, seminários e workshops *

14 de abril de 2019

Um fenomeno chamado Francisco

Ele é sem dúvida alguém que ficará gravado na memória da humandade.
Ele é maior até do que a posição que ocupa,
consegue o feito de sendo uma figura máxima de uma religião,
ser amado por todas as religioes e por inúmeros ateus.
 Na verdade Francsico é um presente de Deus para a humanidade nestes momentos conturbados que atravessamos.
 Vida longa a Francisco de Roma!






























































6 de abril de 2019

Católicos queimam livros na Polônia !

Catolicos poloneses parece que querem reeditar o Index...


Hoje estava meditando sobre essas coisas que vem acontecendo e acabei concluindo que devo agradecer a Deus por tudo isso.
Na verdade ele está nos permitindo ver a realidade que por séculos esteve encoberta e dissimulada por um véu de santidade que nunca existiu.
Sim há sacerdotes e padres que são dignos , sérios e cristãos verdadeiros, mas convenhamos a maioria destes sempre foi perseguida pela igreja oficial ou por pregadores da ala fundamentalista. Se não, o que dizer do "D
om" ser chamado de bispo vermelho ? Do Irmão Pedro Casaldáliga ser até hoje chamado de bispo comunista por boa parte da igreja no Brasil, dos padres operários e do proprio papa Francisco que sofre ataques sistemáticos de padres, bispos e cardeais desta igreja que parece estar apodrecendo.
Deus é muito bom ele está fazendo a máscara dessa gente hipócria cair e daqui pra frente só se manterá fiel a essa gente, aqueles que se identificarem com eles.

Acho que comecei a etender a pedagogia divina, se eu creio que Deus é amor, tudo o que existe está imerso neste amor, logo, tudo faz parte do plano de Deus, até mesmo aquilo que nos parece completamente fora de propósito.

Pra que uma nova arvore nasça, o fruto precisa cair na terra, apodrecer para que a semente seja liberada. e aí então germinar e dar lugar a uma NOVA planta.

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5 de abril de 2019

A vaca voadora


Como os tempos mudaram desde o tempo de S. Tomás de Aquino !!!
Tomás de Aquino estava mergulhado em seus livros quando
foi interrompido por um aluno que gritava:
"Mestre, venha até aqui. Há uma vaca voando lá fora!"
Tomás levantou-se depressa, foi correndo até a janela e olhou para o céu.
No mesmo instante o jovem soltou uma sonora gargalhada
e disse em tom zombeteiro:
"Como pode alguém acreditar que uma vaca está voando?"
Então, Tomás de Aquino o olhou e respondeu:
"é mais fácil crer que uma vaca está voando
do que acreditar que um cristão está mentindo.

2 de abril de 2019

Católico, será que ainda sou?



Eu um dia fui católico. Acho que não sou mais.
 Até bem pouco tempo caso alguém me perguntasse eu responderia que minha religião era católica. Tive um longo percurso na igreja, dos meus 68 anos, 59 foram na igreja. Missionário Leigo, coordenador pastoral, conselheiro paroquial, ministro extraordinário da comunhão, fundei junto com a saudosa Maria Pia, a associação dos psicólogos católicos do RJ. Mas é difícil remar contra a corrente o tempo todo. Como me submeter à confissão auricular, conhecendo algumas intimidades de alguns sacerdotes que se comportam com valores éticos e morais de forma oposta ao que eu acredito e pratico em a minha vida? Como expor a minha intimidade para alguém que não consigo ter respeito e confiança? Como seguir adiante quando se ouve um bispo encher a boca para dizer que gostaria de assassinar alguém, com veneno de rato? 
Que tipo de mágica fará um padre para transubstanciar as espécies sagradas quando ele pratica pedofilia, ou assédio moral ou defende a tortura, a pena de morte, e conspira contra o sucessor de Pedro e deseja assassinar alguém?
Não! Ficou muito difícil, a hipocrisia parece que tomou conta. Os "votos" hoje são mera aparência: obediência X conspiração contra o Papa, Pobreza X Ostentação e esbanjamento. Caridade X seguranças nas igrejas para impedir pobres de entrarem...
É muito triste o que as instituições ditas cristãs fizeram com o Cristo, Foi uma verdadeira traição viver em desacordo com o evangelho e agir colocando um cristo falso no lugar do verdadeiro.
Volto a lembrar o poeta e essa poesia que parece me seguir, e em vários de seus trechos, revelar em diferentes situações uma sintetize do que sinto e penso.
"...Melancolias, mercadorias, espreitam-me.
Devo seguir até o enjoo? " ( A flor e a náusea - C. Drumond de Andrade)
Eu decidi que não vou até o enjoo. Na verdade Jesus nunca criou uma religião, pregava um reino de amor, pediu que fizéssemos memória de seus gestos de humildade e partilha: Lavar os pés dos discípulos e partilhar o pão e o vinho, a partilha de sua vida para o bem de toda a humanidade. Explicou que os verdadeiros adoradores, os que mais agradam ao Pai, não deviam adorá-Lo nem no templo e nem no monte sagrado, mas em espírito e em verdade. Salmista já havia dito que Deus não habita tendas nem templos feitos por mãos humanas.
Sobra disto tudo, a verdadeira flor que brota do absurdo asfalto.
“... é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio. ”
Essa flor na verdade é a presença que vive em mim, o “Eu Sou”
que só me exige que sem tédio, sem nojo e sem ódio eu seja capaz de exercitar a melhor forma de transmitir com meus atos, Amor.

14 de fevereiro de 2019

Sem tesão não há solução


Procurando um livro hoje na minha estante, me deparei com o livro do Roberto Freire da Somaterapia, coisa da década de 80, num tempo de liberdades que hoje nem em sonhos temos, tal a repressão e o retrocesso que este país adentrou. O livro, com o sugestivo nome
"Sem tesão não há solução", era um dos hits daquela época. Junto com alguns outros como “Cléo e Daniel”, “Ame e dê vexame” e “Coiote”.


No Livro, Roberto sentencia em um trecho:
“Descobri que é chegada a hora de acrescentarmos ao tempo e ao espaço mais uma dimensão fundamental à vida no universo: o tesão. Para mim esse tesão não habita dicionários oficiais; entretanto, é o que anima e encanta os poetas tropicais. Tesão sem passado, apenas contemporâneo e vertical, ele é produto semântico e romântico dos que sentem desejo pelo desejo, alegria pela alegria e beleza pela beleza. Mas pode ser ainda tesão de quem sente desejo pela alegria, beleza pelo desejo e alegria pela beleza. Sem tesão não há solução”

Certamente hoje Roberto não seria chamado de anarquista, mas seria enquadrado como ”de esquerda”, comunista, petralha...
Polêmico e muito criticado Ele mantinha grupos de terapia libertária que propunha como solução a liberdade e o prazer, coisa que nestes nossos tempos de pseudo-evangelismo crescente soa como um grave pecado, com passaporte sem escalas, para o inferno. Era sem dúvida uma figura bastante controvertida, muito criticada. Tivemos oportunidade de sediar alguns de seus grupos em nosso espaço cultural, o “ENCONTRARTE”, que existiu na Tijuca/RJ, durante toda a década de 80.

Confesso que fiquei com uma ponta de saudosismo daquele tempo em que estávamos num extremo oposto ao que estamos hoje. Estávamos nos livrando da ditadura, encontrando caminhos libertários, tudo era lindo e maravilhoso no dizer do Caetano, nem o partido comunista ainda tinha sido legalizado e se chamava movimente Pró Cultura.

Hoje com o livro do Roberto nas mãos fiquei pensando o quanto já retrocedemos, como aos poucos, sem perceber, alguns conceitos se tornaram proibidos, e como a cada dia, se tenta restringir mais e mais qualquer coisa que possa nos dar justamente Tesão, Prazer e alegria.
Não é à toa que a doença mais frequente, no momento, inclusive entre os jovens, é lamentavelmente a depressão; e ela  não é justamente a falta de tesão? Tesão pela vida, pela realização dos sonhos?

Precisamos recuperar o tesão, sem ele, definitivamente não haverá solução.

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27 de janeiro de 2019

Alguma coisa está fora da ordem, fora da nova ordem mundial...


Acho que já é tempo de olhar a realidade como ela é. 
Alguma coisa mudou, aliás, o poeta/profeta Caetano já tinha cantado: 
“ alguma coisa está fora da ordem, fora da nova ordem mundial...”
 Mas nem precisa ser muito perspicaz para perceber que quem manda nestes nossos tempos é o “EGO”. 


Sabe aquele ditado, “farinha pouca meu pirão primeiro”? Pois é esse mesmo é que está valendo. Seja no trânsito, em plena preferencial, o sujeito acha que ele, e não o outro é quem tem a preferência é quem tem que passar. Em filas, se você se descuida sempre aparece um engraçado, que a título de distraído, tenta passar à frente. Nos supermercados então é comum... a pessoa se encosta, começa a conversar, faz parecer que está junto, e se ninguém percebe, ele passa...
É daí que surge esse tipo de personalidade que consegue fazer com que bondade e caridade pareçam coisa de gente retardada. Essas pessoas são movidas a um tipo de percepção que elas só enxergam a si mesmas. Não hesitam em comer a última porção da travessa, mesmo que haja outra pessoa ou várias outras para comer. São pessoas que não tem dúvidas em lançar mão do que não é seu, porque se acham no direito de usufruir o que está aparentemente disponível.  O pior é que jamais percebem este seu comportamento.

Há dias no metrô vi uma cena que me assustou. O vagão estava cheio, muitas pessoas em pé inclusive uma senhora de seus 60 anos, nisso vaga um lugar bem na frente da senhora, e ela se preparava para sentar, mas precisava esperar a pessoa sair. Vem então uma adolescente e rapidamente senta no banco pelo lado, antes mesmo da pessoa que estava sentada sair, deixando a senhora com cara de idiota. A adolescente ainda olhou para trás para uma mulher, aparentemente sua mãe, sentada mais atrás e riu. Imaginei que esta mulher diria para ela se levantar ou qualquer outro tipo de coisa, mas no entanto, ela também riu e nada aconteceu.


 Não sei se é a velhice que me fez mais observador, mas tenho notado muito esse comportamento, que na verdade é a mais pura expressão daquilo que ficou conhecido no Brasil como “ Lei de Gerson”.  Para os mais novos, que porventura não saibam do que se trata, eu explico: na década de 70 um comercial de cigarros, se popularizou com o jogador Gerson da seleção Brasileira dizendo: “ temos que levar vantagem em tudo, certo?”  A partir daí o jargão se popularizou e essa prática passou a ser chamada de “Lei de Gerson”. (Qualquer visita ao Google pode esclarecer)
 Mas esta praga parece ter se infiltrado na alma das pessoas e não me assustaria se alguém achasse normal usufruir do que não é seu nas mais diversas situações, afinal muitos acham que isso é levar vantagem.



“Levar vantagem” também está associado a TER mais que o semelhante.
Esta grande preponderância do TER, também foi muito incentivada pelo tal milagre econômico no início dos anos 70. Até então nem todo mundo tinha carro ou trocava de carro todo ano, ar condicionado isso é luxo para poucos. A partir do tal milagre o capitalismo entrou de sola e o critério de felicidade passou a ser o TER. As campanhas publicitárias passaram a enfatizar justamente esse aspecto e passaram a apresentar o que seria o padrão de felicidade: carrões, belas casas, mulheres (tratadas como bem material), ambientes luxuosos, hotéis, restaurantes. A ênfase passou a valorizar o TER em detrimento do SER.
Mas esta mudança não veio acompanhada de uma melhor distribuição de renda e alguns inconformados com a impossibilidade de alcançar o tal padrão de felicidade passaram a usar o caminho paralelo do crime.


Esse é um assunto que poderia virar um livro tal a complexidade e os desdobramentos, o que não é o objetivo aqui. Mas é importante atentar para o fato de que essa transformação de parâmetros promoveu profundas mudanças na sociedade, abriu um abismo entre as classes, gerou uma grande inconformidade nos menos favorecidos pela falta de oportunidade e fez com que o desejo da classe média, espremida entre a pobreza e a classe dominante, passasse imitar pensamentos e hábitos da classe “A” na ilusão de que assim se sentiria pertencendo à esta “elite”. Vem daí talvez esse egoísmo exacerbado, essa identificação e tomada de posições que na maioria das vezes, são contra ela mesma.

Vem desta situação as duas máximas, já citadas acima, que parecem nortear o comportamento da maioria das pessoas atualmente: “Farinha pouca, meu pirão primeiro” e a própria lei de Gerson, que incentiva a “levar vantagem em tudo”.

Neste caldo de cultura, não é de admirar que esteja havendo uma grande desavença entre os que se identificam com a classe dominante, mesmo sem a ela pertencer e os que se identificam com os menos favorecidos, mesmo que não estejam nesta situação. Nisto, sem que quase ninguém perceba, a classe dominante, os poderosos, detentores do capital, são os maiores beneficiados, porque seguem sempre levando vantagem.

Na verdade, os valores estão completamente fora da lógica. Ninguém é feliz pelo fato de acumular bens materiais, todos sabemos disso, mas o bombardeio publicitário cotidiano de toda sorte de bens e situações maravilhosas é um convite a continuar perseguindo essa falsa felicidade. É como na fábula do cavalo e a cenoura, onde uma cenoura amarrada à frente do cavalo, faz com que ele não pare de galopar embora a distância entre ele e a cenoura se mantenha sempre a mesma, independente do que ele faça.



A maioria de nós hoje funciona como androides, programados pela mídia e pelo conteúdo das redes sociais. Usa-se de tudo, desde mentiras, apelidadas de pós-verdades, as famosas fake News, até depoimentos claramente mentirosos, ditos com a maior seriedade, como se fosse a maior das verdades.
Não sei como sair deste labirinto, sinto que esse caminho só nos leva para a extinção de nossa civilização e talvez da própria espécie humana. Toda esta animosidade dificilmente não resultará em guerras, toda essa ganância não tardará a destruir o meio ambiente, já bem degradado. Possivelmente a ordem de extinção deverá seguir a pirâmide, os menos favorecidos primeiro, já que são os mais frágeis e carentes de recursos, a classe média que sempre conseguiu dar “nó em pingo d’agua” para se manter e por último os donos de tudo que tardiamente descobrirão que que o dinheiro nesta situação não compra mais nada e lamentavelmente não serve como alimento.
Não será a primeira vez na terra, o exemplo dos dinossauros é um fato. O planeta certamente se recuperará depois de ter se livrado da praga destruidora chamada humanidade. O que virá depois, só o tempo revelará.


Enquanto isso não acontece, talvez possamos tentar reverter ou quem sabe retardar um pouco estes tristes acontecimentos, a fórmula não é complexa, na verdade é bem simples. Podemos começar retomando uma antiga prática de cumprimentar as pessoas: Bom Dia, Boa tarde, Boa Noite. Nunca é demais lembrar que vizinhos não são inimigos. Talvez tentar exercitar a pratica de analisar a situação antes de partir para a agressão gratuita, para um confronto. Ter a consciência de que não estamos sozinhos, nunca em nenhuma situação, portanto se for comer, veja se há mais alguém e divida, mesmo que seja pouco. Seja caridoso, doe o que lhe sobra. Se estiver sentado nos transportes públicos, veja se não há alguém mais necessitado á  sua volta. Peça licença, dê a vez, agradeça, peça por favor, não saia usando o que não lhe pertence.
Não é sem razão que essas práticas simples são chamadas de boas maneiras, elas por uma infinidade de anos mantiveram a harmonia entre as pessoas, não é porque elas caíram em desuso que vamos deixar de usá-las.
Agradeça ao acordar e agradeça quando for deitar, independente de religião, até ateus certamente tem razões para agradecer.

Tente perceber que alguma força misteriosa nos mantém vivos e saudáveis, independente do nome que você queira chamar essa força, seja sempre grato a ela, não esqueça que esta mesma força age em você e em todos os seus semelhantes humanos, animais ou vegetais, por isso nunca esqueça de que todos fazemos parte de algum estranho mistério que nos trouxe a esse planeta, e o segredo de uma vida feliz e plena, é justamente a nossa capacidade de nos harmonizar com esse todo. 
SOMOS A UNIDADE NA DIVERSIDADE
Somos a "HumanaUNIDADE" 

25 de janeiro de 2019

Acorda Brasil !




Quando será que nós brasileiros vamos acordar deste pesadelo?
Quando vamos deixar de apoiar os que recebem somente o lucro e deixam para nós a lama, a morte e o desamparo?
Não é questão de direita ou de esquerda, deste ou daquele partido, de acabar com a corrupção ou trocar de corruptos.
O Brasil está sendo sucateado há anos, estas privatizações nunca privilegiaram o Brasil ou os brasileiros. Qual a privatização que melhorou a vida dos brasileiros?
Chega de salvadores da Pátria! Todos, em pouco tempo, se mostraram oportunistas e enganadores.
Quando vamos acordar? 
Quando não restar mais nada no Brasil, quando a fome tomar conta ou matarem o ultimo índio, soterrarem o último pobre, devastarem a última floresta?
Hoje a tristeza toma conta do meu peito, são muitos os absurdos, é irracional que alguém continue a defender o indefensável, a usar mentiras para maquiar ou distorcer a realidade.
Vai ser difícil dormir, talvez, alguns consigam, como me lembrou um amigo João, em um trecho do livro "Fragmentos de um Ensinamento Desconhecido" do Peter D. Ouspensky:
“Uma porcentagem considerável das pessoas que encontramos nas ruas, são pessoas que estão vazias por dentro, isto é, elas estão de fato já mortas.
É uma sorte nossa que nós não vemos e não sabemos a respeito disto.
Se soubéssemos que um grande número de pessoas já está de fato morta, e que um grande número destas pessoas mortas governa nossas vidas, nós ficaríamos loucos com esta situação de horror.
 Talvez essas pessoas consigam dormir e nem se sentirem abaladas ou pesarosas, alguns dirão: coitados, mas não foi comigo ou com algum parente ou conhecido meu, paciência...
Enquanto a consciência de que todos fazemos parte de uma grande unidade, de que o que habita em mim, também habita em todos os demais, não conseguiremos evoluir um centímetro.
Cabe aqui lembrar o mantra da unidade que Annie Besant nos deixou que diz:
"Ó vida oculta que vibras em cada átomo,
Ó luz oculta que brilhas em cada criatura,
Ó amor oculto que tudo abranges na unidade,
Saiba todo aquele que se sente uno contigo,
Que ele é, por isso mesmo, uno com todos os outros."

Não se pode deixar a profecia cair como nos pediu D. Helder, mas há dias em que mesmo sabendo que é preciso “ter força”, “ter raça” e gana sempre, nem sempre se consegue fazer da mistura de dor e alegria, a persistência no sonho e na fé nesta vida.

Só me resta então me refugiar no silêncio, no sopro e na atenção, quem sabe a minha mudança provoque outras tantas mudanças como o efeito borboleta do Edward Lorenz.
Sigamos...

2 de janeiro de 2019

Impermanência

Viu? Estamos já em 2019, toda a expectativa, contagem regressiva, os preparativos, tudo já é passado. O que nos lembramos, e o que esquecemos, o que nos irritou e o que nos alegrou, Passou...
Quando eu tinha 11 anos, eu vi um salvador da pátria, com uma vassoura na mão ser eleito. Não durou muito desiludiu o povo.  Vi depois seu vice acenar para as massas e reestabelecer a esperança de quem nada tinha, durou muito menos, logo o tiraram pela ousadia de dar vez, aos que não tem voz.
Um longo, escuro e sofrido inverno se sucedeu. Quando o povo já não suportava mais e foi para as ruas exigir direitos e liberdade, veio então o golpe mortal. Eu era então um adolescente e me descobri naquele ano, que segundo o Zuenir, nunca terminou. Foi um longo ano com muitas lagrimas nos olhos e um grande aperto no coração, uma noite de trevas...
Demorou a passar, mas passou. Depois de longos 16 anos que tivemos que esperar, veio um presidente eleito, não pelo povo, mas de forma indireta. Ilusão quem pensou que iria governar, nem chegou a tomar posse, morreu de véspera. Mais frustração.
E foi então que algum tempo depois, um novo salvador da pátria surgiu com proposta de caçar marajás. O povo que andava mais sofrido ainda pensou que era verdade e não percebeu que o maior marajá era ele próprio. Mais uma vez o sonho foi ao chão...
Até que um dia alguém que também não tinha vez, conseguiu chegar ao topo e mesmo fazendo concessões além do esperado, conseguiu começar a repartir um tal do bolo que sempre ficava no forno, esperando crescer para ser dividido.
Mas a divisão do bolo, ou melhor as migalhas jogadas ao povo, não agradou a quem achava ser dono do bolo. Solaram o bolo, e até as migalhas foram requisitadas e confiscadas. Tempos tenebrosos de grande temeridade.
O Povo, essa entidade facilmente iludível descobriu um novo salvador da pátria, que fazendo um discurso abertamente contra esse mesmo povo conseguiu mais uma vez chegar no alto da rampa do planalto central.
Eu não me iludo, sei que na vida tudo passa. Ora se passa bem, outras horas se passa muito mal. A roda do destino virou de ponta a cabeça e lá vamos nós outra vez olhar o mundo como se ele estivesse de cabeça para baixo. Vai passar tenho certeza, sempre passou...
Sentado na beirada da história, com a consciência de que mais uma vez a arte e a cultura serão pisoteadas como vilãs, porque elas ampliam os horizontes e permitem a eclosão de perigosos sonhadores. Aqui sentado à beira do caminho, eu vou, só prá contrariar, mais uma vez poetizar:

Impermanência

Há dias em que a vida passa...
em outros passo eu pela vida.
Há momentos que nem vontade
se tem mais de passar.

Há estradas que nos levam
e outras que nos trazem.
Há vidas que nunca passaram
há mortes que chegam
sem nem mesmo avisar.
Vida, morte, vontade de caminhar,
caminhos de mais chegar.
Chegança que traz a vontade
de sempre mais caminhar.

Há tempos em que se busca a vida.
Noutros o sinistro nos acompanha.
Esperança por vezes nos deixa
Com uma saudade do feliz  esperançar.
Há muito que a vida passa,
mas há bem pouco que me dei conta
que por este caminho de vida,
meu passo é que faz o caminho
para o meu caminhar.
Com isso a sabença da vida
é nunca des-esperançar.
Porque a vida, nunca vai deixar de passar, 
mudar, transformar.
O que não é, pode vir a ser,
e o que é, pode deixar de estar.



18 de dezembro de 2018

É Natal, de mãos dadas seguiremos construindo a Paz

J. Ricardo A. de Oliveira



Neste momento em que sento para escrever esta mensagem de Natal para meus amigos uma música surge clara e me faz pensar.
“Este ano quero paz no meu coração
Quem quiser ter um amigo que me dê a mão...”

Quem será que me estederá a sua mão, exatamente neste momento em que precisaremos estar de mãos dadas, e não largar a mão de ninguém?

 Tenho consciência de que foi um ano muito difícil, um ano em que as esperanças foram brutalmente ameaçadas. Um ano de muitas apreensões e pesadelos. Mas continuamos firmes e com o propósito, de como fez Maria, sermos propiciadores do nascimento do menino Luz.
Sim Luz!
Precisaremos muito de Luz para guiar nossos passos. Vivemos tempos de que não podemos mais nos perder nas aparências, nas formalidades de um cristianismo pouco comprometido como o jovem Galileu. Não é possível mais nos deixar levar por sofismas e subterfúgios que só nos distanciam da verdadeira mensagem expressa no evangelho. Não é possível mais continuar anunciando um Jesus omisso com relação às necessidades de seus pequeninos, como se ele não tivesse destruído literamente o absurdo dos vendilhões do templo. Ou não tivesse chamado os poderosos da época, de raça de víboras e de fariseus hipócritas. Não, esse Jesus de cabeleira loura escovada em salão de beleza, de olhos azuis e pele alva não condiz com o palestino que disse não ter onde repusar sua cabeça. Um jovem rebelde que por ousar pregar o amor e denunciar as injustiças, acabou pendurado numa cruz, para vergonha de uma humanidade que não conseguiu, e até hoje tem dificuldades de aceitar que Deus possa ter querido se fazer humano.


A cena da manjedoura revela um Deus encarnado na humanidade, mas não podemos ser hipócritas ao contemplar o presépio e fingir que não estamos vendo um casal que não encontrou pousada em nenhum lugar e foi se refugiar em um estábulo, junto com animais. Um casal que precisou usar um cocho de animais, como berço para Deus. Nosso romantismo parece eclipsar a realidade dura de um casal pobre de forasteiros, uma mulher grávida e que por ter estado grávida antes de casar, pode ter sido mal falada, mal vista e mal dita.
Sim, este é o Jesus real da cristandade, o mesmo que nasce nas muitas favelas do mundo, que chora de fome, que de outra forma é rejeitado por Marias de classe media e de classe  mais abastada, grávidas antes de casar e que são também rejeitadas pela hipocrisia da sociedade.
É este o menino da manjedoura, que ao crescer nos indicou o caminho aos que quisessem o seguir, no trecho das Bem Aventuranças (Mt 5), e  que nos advertiu com os “ Ai de vós” ( Mt 23, 23-39).

Impossível dizer Feliz Natal sem estar comprometido com a construção do Reino e com  o critério que ele disse que usará para nos julgar ( Mt25, 31-ss).
Para que o Natal seja de Paz, será preciso que seja restabelecida a justiça, a compaixão, a caridade, todas estas resumidas naquilo que ele nos deixou como lei: Amar como ele amou.
Se for assim, desta maneira, se comungamos deste mesmo propósito, aceito  o seu abraço amigo, a sua mão estendida e prometo fazer de tudo para não soltá-la. Juntos, estaremos construindo um Natal Feliz.
“O tempo passa e com ele caminhamos todos juntos, sem parar,
Como todo dia nasce, novo em cada amanhecer.”

15 de dezembro de 2018

Absurdos e mais absurdos.

"Caía a tarde como um viaduto, e um bêbado trajando Luto me lembrou Carlitos...”
Mas além de Carlitos, esse bêbado enlutado me lembrou de muitas outras coisas que desfilam na minha mente, enquanto ouço essa música na voz da saudosa Elis. Ouvi mentalmente o novo presidente dizer em vídeo que os grupos de extermínio são muito bem vindos, que Jesus subiu na goiabeira, que o STF não viu irregularidades no fato do Prefake do Rio de Janeiro fazer reunião para pastores de sua igreja e oferecer facilidades e prioridades no tratamento de saúde pública, soube que o médium está foragido e que as mulheres que o denunciaram estão sob proteção tendo em vista o risco de serem assassinadas, vi que o Brasil não vai mais se fazer simpático à migração, aos refugiados, que a preocupação com a preservação ambiental é coisa de esquerdistas, que a Amazônia deve ser dividida e desmatada e uma série interminável de situações completamente absurdas. Mas o que realmente veio coroar essas minhas observações e perplexidade diante delas, foi uma entrevista com Mino Carta onde ele diz literalmente: ”O Brasil estabeleceu a demência como forma de governo” e nesta entrevista ele diz que o IBOP fez uma pesquisa de satisfação, e que 75% dos brasileiros estão esperançosos e otimistas com o próximo governo.
De minha parte, nada mais me espanta, não acho que a demência seja só a forma de governo do Brasil, acho que vai muito além disso, acho que a demência se tornou o modo de vida em nosso país, uma rápida passada pelo noticiário iremos encontrar notícias de acontecimentos que ultrapassam esta linha, indicam que a frágil linha da normalidade está comprometida, completamente desligada da verdade, da ética. Vivemos o tempo da Demência, da Lei de Gerson e da Razão Cínica. Nada do que se ouve, lê ou vê, pode deixar de ser muito bem checado, tal a quantidade de fakes, pós verdades ou no popular, mentiras, que abundam as redes sociais, o noticiário e até as conversas entre amigos. Perdemos muito da sanidade que tínhamos, perdemos a seriedade e a capacidade de investigar o que existe por trás de cenários bem montados para nos enganar.
Vivemos tempos de guerra, de abuso coletivo, de predomínio da SOMBRA. Em tempos assim só há uma saída, silenciar e olhar para dentro, buscar lá no interior do interior a chama que arde e nos mantém, e, uma vez encontrada, deixar que ela guie nosso caminho, e nossa vida. Nada além dessa voz interior é merecedora de crédito. Nas horas mais difíceis, quando o desespero, o medo ou a revolta estiverem rondando, é lá, na intimidade, na sala interior, onde habita a chama da vida que encontraremos refúgio e paz. Só assim não seremos contaminados pela demência que parece imperar em todo o mundo.



26 de setembro de 2018

Jean-Yves Leloup: "É um longo caminho aprender a doçura"


Jean Yves, tem sido nos ultimos quase 20 anos, um mestre, um mentor, seja por seus inúmeros livros, ou nos retiros de silencio que promove, tem me feito desenvolver uma mística e uma espiritualidade incômoda, que  me desinstala e me coloca em marcha.


Entrevista realizado por
 Tatiana Mendonça 
(http://atarde.uol.com.br/muito/noticias/1996608-jeanyves-leloup-e-um-longo-caminho-aprender-a-docura)



Antes Deus era uma ideia, depois passou a ser uma imagem, agora é um silêncio. Talvez por isso o francês Jean-Yves Leloup, 68, use tantas metáforas para falar dele, num esforço de traduzir o intraduzível. A relação cambiante entre os dois começou num hospital em Istambul. Leloup, até então ateu, estava entre a vida e a morte, vítima de uma grave intoxicação alimentar, quando reparou, num relance, que a consciência podia habitar fora do corpo. Desperto, saiu em busca de entender este além. Tornou-se doutor nas áreas de psicologia, filosofia e teologia e também padre da Igreja Ortodoxa. Mas ele não acredita que o cristianismo seja melhor que qualquer outra religião. “Todos os caminhos são bons. A condição é que a gente não pare no meio do caminho”, ri.  Presidente da Universidade Holística Internacional de Paris e autor de mais de 50 livros, Leloup vem frequentemente ao Brasil participar de palestras e seminários. Este mês, ele esteve em Salvador na abertura do 13º Simpósio Internacional sobre Consciência e Autoconhecimento: Nada Ocorre, promovido pela Fundação Ocidemnte – Organização Científica de Estudos Materiais, Naturais e Espirituais e pelo Instituto Superior de Educação Ocidemnte (Iseo). Antes do evento, Leloup conversou com a Muito – com tradução de Lucinei Caroso – sobre meditação, espiritualidade, sexo e política. Em tempos tumultuados de polarização, ele defende que é preciso investigar a real intenção dos políticos. Saber se são cordeiros ou dragões.
O senhor teve uma experiência de quase-morte em Istambul e depois enveredou por um caminho espiritual. Essa trajetória se repete com outras pessoas, talvez de modo não tão extremo... Quando estão num momento muito difícil da vida, vivendo uma situação-limite, é que passam a buscar algo ‘maior’ que a vida cotidiana. Por que isso acontece, na opinião do senhor?
Não é necessário beber o vinagre para saber que o vinho é bom. Não é necessário morrer para saber que a vida é boa. Alguém como eu precisava de uma situação extrema. Deus fala para cada um a linguagem que seja capaz de entender. Para alguns, é a linguagem da beleza e da natureza, para outros, é através de um acidente. Quando temos o ouvido entupido, é necessário falar mais alto. Quando temos o coração fechado, Deus precisa falar uma linguagem mais dura. Mas é sempre com o objetivo de nos despertar.
Ainda sobre este tema, fiquei impressionada com uma frase que o senhor escreveu: “Minha vida está em ruínas, não há obstáculo à visão daquilo que é”. E no entanto a gente vai num sentido contrário, lutando com todos os meios para que essa ruína nunca chegue, tentando a todo custo fugir da dor e do sofrimento...
Quanto mais nós procuramos o prazer, mais ele nos foge. Quanto mais a gente foge da dor, mais ela consegue nos alcançar. A morte faz parte da vida. Tentar negar a morte não impede que ela chegue. Isso faz com que a morte seja dolorosa. Eu amo muito o livro do Apocalipse, porque ele mostra que através da desintegração, seja no nível econômico, social ou cósmico, a vida se revela. O Apocalipse não é um livro dedicado às catástrofes, mas às revelações através das catástrofes. A grande questão é o que nós fazemos dos nossos fracassos. No cristianismo, acho muito interessante a imagem da cruz ser o caminho da ressurreição. A cruz não é o fim do caminho. A destruição não é o fim do caminho. O objetivo é a ressurreição. Mas quando nós estamos no sofrimento e na dor, a gente não sabe disso ainda. É necessário atravessar o caminho. Jesus não explica o sofrimento como um filósofo. Como uma criança, ele recebe, vive nele o sofrimento. Ele o atravessa, sem concessões. Não existe prazer em sofrer. É necessário atravessar o sofrimento.
O senhor é vinculado à Igreja Ortodoxa. Acredita que para desenvolver a espiritualidade é preciso estar conectado a uma religião, qualquer que seja ela, ou pelo menos à ideia de Deus, de uma força maior na qual se possa confiar?
Cada religião é como um poço. Podemos ficar na superfície e fazer uma publicidade para dizer que a nossa água é a melhor, mas o importante é ter sede. E beber na fonte. Não importa qual seja o poço que você vá beber. Existe um momento onde a forma é importante, mas são formas exteriores. Mas no fundo do fundo tem a fonte. E nesse caso, quando nós estamos no fundo, nós estamos além da forma, e fora inclusive do próprio poço, para além da religião. Mas cada um deve procurar o seu poço para ir na direção da fonte.
Mas o senhor acredita que esse poço precise ser religioso, necessariamente? Um ateu pode desenvolver sua espiritualidade? De que modo?
Sim, o importante é cavar (risos). No Evangelho de João, ele diz que a luz habita todos os homens vindos ao mundo. E todos os homens que procuram a luz, que procuram a fonte da vida, podem encontrá-la. O importante não é a forma do poço, mas a sede daquele que cava, que se aproxima da fonte. 

em salvador com crianças que meditam na escola
Para o senhor, a meditação é uma forma de reconectar-se com o divino. E muitas pessoas reclamam que é difícil meditar, apesar da popularização desta prática nos últimos anos. Estão lá sentadas brigando com seus pensamentos... Entre tantas técnicas, qual é a que o senhor prefere?
Meditar é estar consciente, estar atento, estar presente, quer estejamos em pé, sentados ou deitados. O que pode nos colocar na direção do interior é a atenção à respiração. Com a respiração, nós podemos nos aproximar do mistério da vida. Nossa vida se mantém através deste sopro. Este sopro é o fio que nos interliga à fonte. O sopro é uma maneira muito simples de estar atento, de estar presente. Eu gosto também muito de meditar estando na natureza, meditar como uma montanha, com todo meu peso, meditar como uma árvore, interligada ao céu e à terra. Meditar como um oceano... A meditação não é nem laica nem religiosa. Ela é natural. E é necessário reencontrar a oração primeira, a meditação original, a meditação de todos os elementos. É necessário aprender a orar como o pássaro que canta. Respirar com consciência. É importante não tentar controlar os pensamentos, mas abandonar-se.
O senhor é um ativista da paz, um dos criadores da Unipaz. O Brasil regista um dos maiores índices de violência do mundo. Foram 63 mil assassinatos no ano passado. Como promover de modo prático uma cultura da paz num cenário como este que vivemos?
É necessário não ter medo. O medo cria a violência. A violência é uma energia. A questão é como transformar essa energia de uma maneira criadora. Com a mesma força que nós carregamos as malas de alguém, nós podemos golpeá-lo na cabeça. Acredito que o esporte possa desempenhar um papel importante nessa transformação, como prática de energia. Mas isso não é o suficiente. É necessário introduzir a consciência, para que a gente possa saber o que fazer com a nossa energia, descobrir que existe mais prazer em construir do que em demolir. Mas a situação do Brasil é, de fato, um grande problema. É preciso se debruçar nas causas desta violência, nas suas origens, na desigualdade econômica, social que existe no país, mas também nas causas psicológicas e interiores. É preciso transformar a violência que está em nós. Antes de fazer grandes discursos contra a violência, é necessário aprender a transformá-la em si mesmo. Muitas vezes, são os nossos pensamentos que são violentos, nossos julgamentos. E é um longo caminho aprender a doçura. Jesus disse: ‘Aprendam de mim porque sou doce e humilde de coração’. E é o único momento que ele diz ‘aprendam de mim’. Como se fosse a coisa mais importante... E também é a coisa mais difícil. É necessário ser muito forte para ser doce. É necessário muita energia e muito autocontrole.
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É necessário ser muito forte para ser doce. É necessário muita energia e muito autocontrole.
Jean-yves Leloup
Nós estamos às vésperas das eleições, e o país vive uma polarização exacerbada. É como se as pessoas fossem votar contra algo e não a favor de algo. Como podemos alimentar a serenidade nestes momentos de conflitos ideológicos?
Lembro das crianças com quem estive meditando na escola Ananda. No momento da meditação, se nós olhássemos de fora, havia crianças de diferentes cores. Quando olhamos para dentro, a consciência não tem cor, e nem tampouco tamanho. Não existe grande ou pequeno. Quando a gente olha para fora, existem diferentes partidos políticos, como existem diferentes religiões. Quando a gente olha para dentro, existem apenas seres humanos, procurando a justiça e a paz. E se os homens políticos meditassem juntos e descobrissem essa consciência interior? (Risos). Talvez nós pudéssemos ir na direção da justiça e da paz. O problema é a vontade de poder, de dominar. A vontade de poder te leva à vontade de apropriação, e a vontade de apropriação te leva à guerra, à fome. Dessa maneira, a gente encontra os quatro cavaleiros do Apocalipse. O cavaleiro branco representa a perversão da inteligência, que procura a dominação do outro. O cavaleiro vermelho é a guerra, a apropriação da terra, a possessão, que leva ao cavaleiro negro. O cavaleiro negro é a consumação, que leva na direção do cavaleiro verde, que é a cor da morte. É uma visão simbólica, mas é importante poder adaptá-la ao momento da atualidade. Esses quatro cavaleiros estão a serviço do dragão, e o dragão é o ego, que quer dominar, que quer devorar... A única força que pode vencer o dragão é a força do cordeiro, que simboliza a força invulnerável do amor. Somente o amor é mais forte do que a morte. Mas não sei como poderia traduzir isso em termos políticos... O importante é prestar atenção na intenção dos políticos. Se é o dragão ou o cordeiro que habita dentro deles.
O senhor já falou, em outras oportunidades, que a paz, na verdade, é a “grande paciência”. Vivemos hoje com as redes sociais uma era de imediatismos. Como conciliar tantas demandas com o silêncio interior?
A importância é estar livre. Livre com relação a qualquer tipo de tecnologia. E o momento de silêncio e de retraimento nos conduz à nossa liberdade. Nós não somos escravos das nossas máquinas. Mas existe um perigo, realmente.
O senhor já declarou que o sexo é um ritual divino, “fundamental para reconquistar a inteireza de corpo, mente e coração”. E no catolicismo ele permanece como um tabu. Por que isso acontece, na sua opinião?
Na origem, os rabinos perguntavam por que o homem não tinha sido criado redondo. A resposta era: para que não seja feliz sozinho. Para que não seja inteiro sozinho. Para que ele se torne inteiro com outra pessoa. Porque é na relação que está a imagem de Deus. Não é nem o homem, nem a mulher, mas é a relação entre eles. A sexualidade é o lugar do outro em si. E muitas vezes, é um lugar doloroso. Muitas vezes é difícil achar um local para o outro em si mesmo, aceitar não ser autossuficiente. O ser humano se completa através da relação. É por isso que a sexualidade é da ordem do sagrado. É por isso que essa parte do nosso corpo chama-se sacro. É nessa região que a vida é criada, que nós nascemos à imagem do Criador. E é por essa razão que é uma pena que essa dimensão não seja vivida de uma maneira espiritual e sagrada. Porque, de novo, é a consumação. A gente pode fazer do outro um objeto de consumo. E, dessa maneira, a gente passa ao largo da relação, ao largo da dimensão divina, do amor que transforma a sexualidade. Na tradição ortodoxa do primeiro milenário, é demandada à sexualidade essa transfiguração. É mais difícil transfigurar do que renunciar. Transfigurar quer dizer assumir, introduzindo a consciência e o amor em todos os nossos atos e, particularmente, nesse ato. Para algumas pessoas, pode parecer difícil. Preferem renunciar ou consumir, mas não conseguem transfigurar. Isso é um problema no cristianismo. A sexualidade não foi assumida e transfigurada. Ela se torna, dessa maneira, um assunto de idolatria ou desprezo. E esse assunto não deve ser tratado nem com idolatria, nem com desprezo, mas com respeito. O respeito é um belo nome do amor. Respeitar o próprio corpo e respeitar o corpo do outro. Nesse momento, se torna interessante.
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O respeito é um belo nome do amor. Respeitar o próprio corpo e respeitar o corpo do outro.
Jean-yves Leloup
O senhor costuma visitar o Brasil para seminários e outros eventos. Já esteve em algum terreiro de candomblé? O que o senhor pensa sobre tradições politeístas?
Sim. Acho que é uma bela maneira de entrar em contato com as energias da natureza, que são personalizadas ali. De novo, é a mesma coisa. Não se trata de ideolatria. Para alguns, é um caminho, e um caminho muito sensível. Todos os caminhos são bons. A condição é que a gente não pare no meio do caminho (risos). Todos os poços são bons, se a gente não ficar na metade do poço. É preciso descer até a fonte.
O senhor cunhou há alguns anos o termo normose. Acredita que hoje estamos sofrendo mais ou menos desse mal?
A normose é querer ser como todo mundo. Com a incitação da mídia, todo mundo procura se parecer. Muitas vezes, no nível do pensamento, mas também na maneira de se vestir. Para muitos, é difícil aceitar as suas diferenças. No entanto, cada um de nós é único e diferente. Quando visitei a Ananda, eu dizia às crianças: a rã e os macacos são iguais, são animais, mas se a rã quiser se tornar tão grande quanto o macaco, ela vai explodir e não será nem uma rã, nem um macaco. É preciso aceitar a si próprio, aceitar que nós somos iguais uns aos outros, e ao mesmo tempo diferentes. Um elefante não é um gato. Não se deve procurar comparações, e sim ser você mesmo. O fato de sermos diferente nos faz ter medo de sermos rejeitados. É um sentimento muito forte o medo do ostracismo, medo de ser rejeitado pela família, pelos amigos, pelo partido, pela religião. É um longo caminho tornar-se livre.
Sua autobiografia, O Absurdo e a Graça, foi lançada em 1990 na França, quando o senhor estava com 40 anos. O senhor já disse que mudamos nossa forma de entender o que é divino em momentos diferentes da vida. De que maneira percebia Deus antes e como o percebe agora?
Antes, eu apreendia Deus de uma maneira muito mental, como sendo a causa primeira, como sendo uma abstração. Hoje em dia, eu tenho menos ideias ou imagens sobre Deus. É como Jó. Em determinado momento, Jó perde tudo: sua saúde, sua família, sua riqueza. E ele perde principalmente o bom Deus, porque ele acreditava que Deus era bom e justo. Mas apesar de tudo que acontece com ele, algo injusto e inaceitável, o sofrimento do inocente, ali ele descobre que talvez Deus não seja a imagem que ele tinha de Deus. Ele perde os conceitos, as representações que tinha de Deus, mas não a fé. Ele descobre que Deus é mais do que Deus. Está além do que nós chamamos do bem e do mal, além dos contrários. E para isso não existe um nome. Porque nosso cérebro funciona sempre em binários, positivo e negativo. E nesse momento, Jó entra no silêncio. E Deus existe nesse silêncio. Hoje em dia, para mim, Deus está no silêncio, além de todas as qualidades ou representações que a gente possa dar. É apenas o silêncio que pode conhecer o silêncio. Somente o silêncio que pode falar com o silêncio. E agora eu me calo.

28 de agosto de 2018

Como um Rio (aos 67)



Segue como um rio.
Em seu eterno passar
O rio da vida me leva.
Hora em calmaria,
Em momentos outros em corredeiras...
Contorna algumas pedras, afoga outras,
E muitas, simplesmente as faz rolar...
Mas sempre seguindo.
Num caminho sinuoso,
Limitado pelas margens
Abriga sonhos de transbordamento.
A natureza revolta das aguas
Vez por outra, denuncia que nem tudo é tranquilidade.
E segue.
Da nascente à grande vazão,
A novidade é a constante,
Nenhuma gota repete um caminho já feito.
Tudo é novo, similar, parecido talvez, mas sempre novo.

Numa curvam como agora,
O murmurar das aguas ansioso se pergunta:
Quanto ainda falta para ao grande mar chegar?
Loucuras de rio afoito
que não percebe que o melhor do trajeto
é a simplicidade do suave marulhar.

Que eu continue a agradecer esse fluir de energia, que há 67 primaveras, me presenteia sempre com um novo, simples e desafiante marulhar cotidiano.