O absurdo e a Graça

Na vida hoje caminhamos entre uma fome que condena ao sofrimento uma enorme parcela da humanidade e uma tecnologia moderníssima que garante um padrão de conforto e bem estar nunca antes imaginado. Um bilhão de seres humanos estão abaixo da linha da pobreza, na mais absoluta miséria, passam FOME ! Com a tecnologia que foi inventada seria possível produzir alimentos e acabar com TODA a fome no mundo, não fossem os interesses de alguns grupos detentores da tecnologia e do poder. "Para mim, o absurdo e a graça não estão mais separados. Dizer que "tudo é absurdo" ou dizer que "tudo é graça " é igualmente mentir ou trapacear... "Hoje a graça e o absurdo caminham, em mim lado a lado, não mais estranhos, mas estranhamente amigos" A cada dia, nas situações que se nos apresentam podemos decidir entre perpetuar o absurdo, ou promover a Graça. (Jean Yves Leloup) * O Blog tem o mesmo nome do livro autobiográfico de Jean Yves Leloup, e é uma forma de homenagear a quem muito tem me ensinado em seus livros retiros, seminários e workshops *

12 de fevereiro de 2020

EXORTAÇÃO APOSTÓLICA PÓS-SINODAL QUERIDA AMAZONIA DO SANTO PADRE FRANCISCO



EXORTAÇÃO APOSTÓLICA PÓS-SINODAL
QUERIDA AMAZONIA

DO SANTO PADRE    FRANCISCO
AO POVO DE DEUS E A TODAS AS PESSOAS DE BOA VONTADE


ÍNDICE


1. A Amazónia querida apresenta-se aos olhos do mundo com todo o seu esplendor, o seu drama e o seu mistério. Deus concedeu-nos a graça de a termos presente de modo especial no Sínodo que se realizou em Roma de 6 a 27 de outubro de 2019, concluindo com o Documento Amazónia: Novos Caminhos para a Igreja e para uma Ecologia Integral.
O sentido desta Exortação
2. Ouvi as intervenções ao longo do Sínodo e li, com interesse, as contribuições dos Círculos Menores. Com esta Exortação, quero expressar as ressonâncias que provocou em mim este percurso de diálogo e discernimento. Aqui, não vou desenvolver todas as questões amplamente tratadas no Documento conclusivo; não pretendo substitui-lo nem repeti-lo. Desejo apenas oferecer um breve quadro de reflexão que encarne na realidade amazónica uma síntese de algumas grandes preocupações já manifestadas por mim em documentos anteriores, que ajude e oriente para uma receção harmoniosa, criativa e frutuosa de todo o caminho sinodal.
3. Ao mesmo tempo, quero apresentar de maneira oficial o citado Documento, que nos oferece as conclusões do Sínodo e no qual colaboraram muitas pessoas que conhecem melhor do que eu e do que a Cúria Romana a problemática da Amazónia, porque vivem lá, por ela sofrem e a amam apaixonadamente. Nesta Exortação, preferi não citar o Documento, convidando a lê-lo integralmente.
4. Deus queira que toda a Igreja se deixe enriquecer e interpelar por este trabalho, que os pastores, os consagrados, as consagradas e os fiéis-leigos da Amazónia se empenhem na sua aplicação e que, de alguma forma, possa inspirar todas as pessoas de boa vontade.
Sonhos para a Amazónia
5. A Amazónia é um todo plurinacional interligado, um grande bioma partilhado por nove países: Brasil, Bolívia, Colômbia, Equador, Guiana, Perú, Suriname, Venezuela e Guiana Francesa. Todavia dirijo esta Exortação ao mundo inteiro. Faço-o, por um lado, para ajudar a despertar a estima e solicitude por esta terra, que também é «nossa», convidando-o a admirá-la e reconhecê-la como um mistério sagrado; e, por outro, porque a atenção da Igreja às problemáticas deste território obriga-nos a retomar brevemente algumas questões que não devemos esquecer e que podem servir de inspiração para outras regiões da terra enfrentarem os seus próprios desafios.
6.  Tudo o que a Igreja oferece deve encarnar-se de maneira original em cada lugar do mundo, para que a Esposa de Cristo adquira rostos multiformes que manifestem melhor a riqueza inesgotável da graça. Deve encarnar-se a pregação, deve encarnar-se a espiritualidade, devem encarnar-se as estruturas da Igreja. Por isso, nesta breve Exortação, ouso humildemente formular quatro grandes sonhos que a Amazónia me inspira:
7. Sonho com uma Amazónia que lute pelos direitos dos mais pobres, dos povos nativos, dos últimos, de modo que a sua voz seja ouvida e sua dignidade promovida.
Sonho com uma Amazónia que preserve a riqueza cultural que a carateriza e na qual brilha de maneira tão variada a beleza humana.
Sonho com uma Amazónia que guarde zelosamente a sedutora beleza natural que a adorna, a vida transbordante que enche os seus rios e as suas florestas.
Sonho com comunidades cristãs capazes de se devotar e encarnar de tal modo na Amazónia, que deem à Igreja rostos novos com traços amazónicos.

Capítulo I
UM SONHO SOCIAL
8. O nosso é o sonho duma Amazónia que integre e promova todos os seus habitantes, para poderem consolidar o «bem viver». Mas impõe-se um grito profético e um árduo empenho em prol dos mais pobres. Pois, apesar do desastre ecológico que a Amazónia está a enfrentar, deve-se notar que «uma verdadeira abordagem ecológica sempre se torna uma abordagem social, que deve integrar a justiça nos debates sobre o meio ambiente, para ouvir tanto o clamor da terra como o clamor dos pobres»[1]. Não serve um conservacionismo «que se preocupa com o bioma, porém ignora os povos amazónicos»[2].
Injustiça e crime
9. Os interesses colonizadores que, legal e ilegalmente, fizeram – e fazem – aumentar o corte de madeira e a indústria minerária e que foram expulsando e encurralando os povos indígenas, ribeirinhos e afrodescendentes, provocam um clamor que brada ao céu:
«São muitas as árvores
onde morou a tortura
e vastas as florestas
compradas entre mil mortes»[3].
«Os madeireiros têm parlamentares
e nossa Amazónia não tem quem a defenda (…)
Mandam em exílio os papagaios e os macacos (…)
Já não será igual a colheita da castanha»[4].
10. Isto favoreceu os movimentos migratórios mais recentes dos indígenas para as periferias das cidades. Aqui não encontram uma real libertação dos seus dramas, mas as piores formas de escravidão, sujeição e miséria. Nestas cidades caraterizadas por uma grande desigualdade, onde hoje habita a maior parte da população da Amazónia, crescem também a xenofobia, a exploração sexual e o tráfico de pessoas. Por isso o clamor da Amazónia não brota apenas do coração das florestas, mas também do interior das suas cidades.
11. Não é necessário repetir aqui as análises tão abrangentes e completas que foram apresentadas antes e durante o Sínodo. Mas lembremos ao menos uma das vozes ouvidas: «Estamos sendo afetados pelos madeireiros, criadores de gado e outros terceiros. Ameaçados por agentes económicos que implementam um modelo alheio em nossos territórios. As empresas madeireiras entram no território para explorar a floresta, nós cuidamos da floresta para nossos filhos, dispomos de carne, pesca, remédios vegetais, árvores frutíferas (…). A construção de hidroelétricas e o projeto de hidrovias têm impacto sobre o rio e sobre os territórios (…). Somos uma região de territórios roubados»[5].
12. Já o meu antecessor, Bento XVI, denunciava «a devastação ambiental da Amazónia e as ameaças à dignidade humana das suas populações»[6]. Desejo acrescentar que muitos dramas tiveram a ver com uma falsa «mística amazónica»: é sabido que, desde os últimos decénios do século passado, a Amazónia tem sido apresentada como um enorme vazio que deve ser preenchido, como uma riqueza em estado bruto que se deve aprimorar, como uma vastidão selvagem que precisa de ser domada. E, tudo isto, numa perspetiva que não reconhece os direitos dos povos nativos ou simplesmente os ignora como se não existissem e como se as terras onde habitam não lhes pertencessem. Nos próprios programas educacionais de crianças e jovens, os indígenas apareciam como intrusos ou usurpadores. As suas vidas e preocupações, a sua maneira de lutar e sobreviver não interessavam, considerando-os mais como um obstáculo de que nos temos de livrar do que como seres humanos com a mesma dignidade que qualquer outro e com direitos adquiridos.
13. Para aumentar esta confusão, contribuíram alguns slogans, nomeadamente o de «não entregar»[7], como se a citada sujeição fosse provocada apenas por países estrangeiros, quando os próprios poderes locais, com a desculpa do progresso, fizeram parte de alianças com o objetivo de devastar, de maneira impune e indiscriminada, a floresta com as formas de vida que abriga. Os povos nativos viram muitas vezes, impotentes, a destruição do ambiente natural que lhes permitia alimentar-se, curar-se, sobreviver e conservar um estilo de vida e uma cultura que lhes dava identidade e sentido. A disparidade de poder é enorme, os fracos não têm recursos para se defender, enquanto o vencedor continua a levar tudo, «os povos pobres ficam sempre pobres e os ricos tornam-se cada vez mais ricos»[8].
14. Às operações económicas, nacionais ou internacionais, que danificam a Amazónia e não respeitam o direito dos povos nativos ao território e sua demarcação, à autodeterminação e ao consentimento prévio, há que rotulá-las com o nome devido: injustiça e crime. Quando algumas empresas sedentas de lucro fácil se apropriam dos terrenos, chegando a privatizar a própria água potável, ou quando as autoridades deixam mão livre a madeireiros, a projetos minerários ou petrolíferos e outras atividades que devastam as florestas e contaminam o ambiente, transformam-se indevidamente as relações económicas e tornam-se um instrumento que mata. É usual lançar mão de recursos desprovidos de qualquer ética, como penalizar os protestos e mesmo tirar a vida aos indígenas que se oponham aos projetos, provocar intencionalmente incêndios florestais, ou subornar políticos e os próprios nativos. A acompanhar tudo isto, temos graves violações dos direitos humanos e novas escravidões que atingem especialmente as mulheres, a praga do narcotráfico que procura submeter os indígenas, ou o tráfico de pessoas que se aproveita daqueles que foram expulsos de seu contexto cultural. Não podemos permitir que a globalização se transforme num «novo tipo de colonialismo»[9].
Indignar-se e pedir perdão
15. É preciso indignar-se[10], como se indignou Moisés (cf. Ex 11, 8), como Se indignava Jesus (cf. Mc 3, 5), como Se indigna Deus perante a injustiça (cf. Am 2, 4-8; 5, 7-12; Sal 106/105, 40). Não é salutar habituarmo-nos ao mal; faz-nos mal permitir que nos anestesiem a consciência social, enquanto «um rasto de delapidação, inclusive de morte, por toda a nossa região, (…) coloca em perigo a vida de milhões de pessoas, em especial do habitat dos camponeses e indígenas»[11]. Os casos de injustiça e crueldade verificados na Amazónia, ainda durante o século passado, deveriam gerar uma profunda repulsa e ao mesmo tempo tornar-nos mais sensíveis para também reconhecer formas atuais de exploração humana, violência e morte. Por exemplo, a propósito do passado vergonhoso, recolhamos uma narração dos sofrimentos dos indígenas da época da borracha na Amazónia venezuelana: «Os nativos não recebiam dinheiro, mas apenas mercadorias, e caras, que nunca acabavam de pagar. (...) Pagava, mas diziam ao indígena: “Ainda estás a dever tanto” e o indígena tinha que voltar a trabalhar (...). Mais de vinte aldeias ye’kuana foram completamente arrasadas. As mulheres ye’kuana foram violadas e seus seios cortados; as grávidas desventradas. Aos homens, cortavam-lhes os dedos das mãos ou os pulsos, para não poderem navegar (...), juntamente com outras cenas do sadismo mais absurdo»[12].
16. Esta história de sofrimento e desprezo não se cura facilmente. E a colonização não para; embora em muitos lugares se transforme, disfarce e dissimule[13], todavia não perde a sua prepotência contra a vida dos pobres e a fragilidade do meio ambiente. Os bispos da Amazónia brasileira recordaram que «a história da Amazónia revela que foi sempre uma minoria que lucrava à custa da pobreza da maioria e da depredação sem escrúpulos das riquezas naturais da região, dádiva divina para os povos que aqui vivem há milénios e os migrantes que chegaram ao longo dos séculos passados»[14].
17. Ao mesmo tempo que nos deixamos tomar por uma sã indignação, lembremo-nos de que sempre é possível superar as diferentes mentalidades de colonização para construir redes de solidariedade e desenvolvimento: «o desafio é assegurar uma globalização na solidariedade, uma globalização sem marginalização»[15]. Podem-se encontrar alternativas de pecuária e agricultura sustentáveis, de energias que não poluem, de fontes dignas de trabalho que não impliquem a destruição do meio ambiente e das culturas. Simultaneamente é preciso garantir, para os indígenas e os mais pobres, uma educação adequada que desenvolva as suas capacidades e empoderamento. É precisamente nestes objetivos que se mede a verdadeira solércia e a genuína capacidade dos políticos. Não servirá para devolver aos mortos a vida que lhes foi negada, nem para compensar os sobreviventes daqueles massacres, mas ao menos para hoje sermos todos realmente humanos.
18. Anima-nos recordar que, no meio dos graves excessos da colonização da Amazónia, cheia de «contradições e lacerações»[16], muitos missionários chegaram lá com o Evangelho, deixando os seus países e aceitando uma vida austera e desafiadora junto dos mais desprotegidos. Sabemos que nem todos foram exemplares, mas o trabalho de quantos se mantiveram fiéis ao Evangelho também inspirou «uma legislação, como as Leis das Índias, que protegiam a dignidade dos indígenas contra as violações de seus povos e territórios»[17]. E dado que frequentemente eram os sacerdotes que protegiam os indígenas de ladrões e abusadores, aqueles «pediam-nos insistentemente – contam os missionários – que não os abandonássemos e faziam-nos prometer que voltaríamos novamente»[18].
19. E, nos dias de hoje, a Igreja não pode estar menos comprometida, chamada como está a ouvir os clamores dos povos amazónicos, «para poder exercer com transparência o seu papel profético».[19] Entretanto como não podemos negar que o joio se misturou com o trigo, pois os missionários nem sempre estiveram do lado dos oprimidos, deploro-o e mais uma vez «peço humildemente perdão, não só pelas ofensas da própria Igreja, mas também pelos crimes contra os povos nativos durante a chamada conquista da América»[20] e pelos crimes atrozes que se seguiram ao longo de toda a história da Amazónia. Aos membros dos povos nativos, agradeço e digo novamente que, «com a vossa vida, sois um grito lançado à consciência (…). Vós sois memória viva da missão que Deus nos confiou a todos: cuidar da Casa Comum».[21]
Sentido comunitário
20. A luta social implica capacidade de fraternidade, um espírito de comunhão humana. Então, sem diminuir a importância da liberdade pessoal, ressalta-se que os povos nativos da Amazónia possuem um forte sentido comunitário. Vivem assim «o trabalho, o descanso, os relacionamentos humanos, os ritos e as celebrações. Tudo é compartilhado, os espaços particulares – típicos da modernidade – são mínimos. A vida é um caminho comunitário onde as tarefas e as responsabilidades se dividem e compartilham em função do bem comum. Não há espaço para a ideia de indivíduo separado da comunidade ou de seu território»[22]. Estas relações humanas estão impregnadas pela natureza circundante, porque a sentem e percebem como uma realidade que integra a sua sociedade e cultura, como um prolongamento do seu corpo pessoal, familiar e de grupo:
«Aquele luzeiro se aproxima
revolteiam os beija-flores
mais do que a cascata troa meu coração
com esses teus lábios regarei a terra
possa o vento jogar em nós»[23].
21. Isto multiplica o efeito desintegrador do desenraizamento que vivem os indígenas forçados a emigrar para a cidade, procurando sobreviver, por vezes de forma não digna, no meio dos costumes urbanos mais individualistas e dum ambiente hostil. Como sanar um dano tão grave? Como reconstruir estas vidas desenraizadas? À vista desta realidade, é preciso valorizar e acompanhar todos os esforços que fazem muitos destes grupos para preservar os seus valores e estilo de vida e integrar-se nos contextos novos sem os perder, antes pelo contrário oferecendo-os como uma própria contribuição para o bem comum.
22.   Cristo redimiu o ser humano inteiro e deseja recompor em cada um a sua capacidade de se relacionar com os outros. O Evangelho propõe a caridade divina que brota do Coração de Cristo e gera uma busca da justiça que é inseparavelmente um canto de fraternidade e solidariedade, um estímulo à cultura do encontro. A sabedoria do estilo de vida dos povos nativos – mesmo com todos os limites que possa ter – estimula-nos a aprofundar tal anseio. Por esta razão, os bispos do Equador solicitaram «um novo sistema social e cultural que privilegie as relações fraternas, num quadro de reconhecimento e valorização das diferentes culturas e dos ecossistemas, capaz de se opor a todas as formas de discriminação e domínio entre os seres humanos»[24].
Instituições degradadas
23. Na Encíclica Laudato si’, lembramos que, «se tudo está relacionado, também o estado de saúde das instituições duma sociedade tem consequências no ambiente e na qualidade de vida humana (…). Dentro de cada um dos níveis sociais e entre eles, desenvolvem-se as instituições que regulam as relações humanas. Tudo o que as danifica comporta efeitos nocivos, como a perda da liberdade, a injustiça e a violência. Vários países são governados por um sistema institucional precário, à custa do sofrimento do povo»[25].
24. Como estão as instituições da sociedade civil na Amazónia? O Instrumentum laboris do Sínodo, que reúne muitas contribuições de pessoas e grupos da Amazónia, refere-se a «uma cultura que envenena o Estado e suas instituições, permeando todos os estratos sociais, inclusive as comunidades indígenas. Trata-se de um verdadeiro flagelo moral; como resultado, perde-se a confiança nas instituições e em seus representantes, o que desacredita totalmente a política e as organizações sociais. Os povos amazónicos não são alheios à corrupção e tornam-se suas principais vítimas»[26].
25. Não podemos excluir que membros da Igreja tenham feito parte das redes de corrupção, por vezes chegando ao ponto de aceitar manter silêncio em troca de ajudas económicas para as obras eclesiais. Por isso mesmo, chegaram ao Sínodo propostas que convidavam a «prestar uma atenção especial à procedência de doações ou outro tipo de benefícios, assim como aos investimentos realizados pelas instituições eclesiásticas ou pelos cristãos»[27].
Diálogo social
26. A Amazónia deveria ser também um local de diálogo social, especialmente entre os diferentes povos nativos, para encontrar formas de comunhão e luta conjunta. Os demais, somos chamados a participar como «convidados», procurando com o máximo respeito encontrar vias de encontro que enriqueçam a Amazónia. Mas, se queremos dialogar, devemos começar pelos últimos. Estes não são apenas um interlocutor que é preciso convencer, nem mais um que está sentado a uma mesa de iguais. Mas são os principais interlocutores, dos quais primeiro devemos aprender, a quem temos de escutar por um dever de justiça e a quem devemos pedir autorização para poder apresentar as nossas propostas. A sua palavra, as suas esperanças, os seus receios deveriam ser a voz mais forte em qualquer mesa de diálogo sobre a Amazónia. E a grande questão é: Como imaginam eles o «bem viver» para si e seus descendentes?
27. O diálogo não se deve limitar a privilegiar a opção preferencial pela defesa dos pobres, marginalizados e excluídos, mas há de também respeitá-los como protagonistas. Trata-se de reconhecer o outro e apreciá-lo «como outro», com a sua sensibilidade, as suas opções mais íntimas, o seu modo de viver e trabalhar. Caso contrário, o resultado será, como sempre, «um projeto de poucos para poucos»[28], quando não «um consenso de escritório ou uma paz efémera para uma minoria feliz»[29]. Se tal acontecer, «é necessária uma voz profética»[30] e, como cristãos, somos chamados a fazê-la ouvir.
Daqui nasce o sonho sucessivo...
Capítulo II
UM SONHO CULTURAL
28. O objetivo é promover a Amazónia; isto, porém, não implica colonizá-la culturalmente, mas fazer de modo que ela própria tire fora o melhor de si mesma. Tal é o sentido da melhor obra educativa: cultivar sem desenraizar, fazer crescer sem enfraquecer a identidade, promover sem invadir. Assim como há potencialidades na natureza que se poderiam perder para sempre, o mesmo pode acontecer com culturas portadoras duma mensagem ainda não escutada e que estão ameaçadas hoje mais do que nunca.
O poliedro amazónico
29. Na Amazónia, vivem muitos povos e nacionalidades, sendo mais de cento e dez os povos indígenas em isolamento voluntário (PIAV)[31]. A sua situação é fragilíssima; e muitos sentem que são os últimos depositários dum tesouro destinado a desaparecer, como se lhes fosse permitido sobreviver apenas sem perturbar, enquanto avança a colonização pós-moderna. Temos que evitar de os considerar como «selvagens não-civilizados»; simplesmente criaram culturas diferentes e outras formas de civilização, que antigamente registaram um nível notável de desenvolvimento[32].
30. Antes da colonização, os centros habitados concentravam-se nas margens dos rios e lagos, mas o avanço da colonização expulsou os antigos habitantes para o interior da floresta. Hoje, a crescente desertificação obriga a novas deslocações muitos, que acabam por ocupar as periferias ou as calçadas das cidades por vezes numa situação de miséria extrema, mas também de dilaceração interior devido à perda dos valores que os sustentavam. Neste contexto, habitualmente perdem os pontos de referência e as raízes culturais que lhes conferiam uma identidade e um sentido de dignidade e vão alongar a fila dos descartados. Assim interrompe-se a transmissão cultural duma sabedoria que, durante séculos, foi passando de geração em geração. As cidades, que deveriam ser lugares de encontro, enriquecimento mútuo e fecundação entre diferentes culturas, tornam-se palco dum doloroso descarte.
31. Cada povo, que conseguiu sobreviver na Amazónia, possui a sua própria identidade cultural e uma riqueza única num universo multicultural, em virtude da estreita relação que os habitantes estabelecem com o meio circundante, numa simbiose – de tipo não determinista – difícil de entender com esquemas mentais alheios:
«Havia outrora uma paisagem que despontava com seu rio,
seus animais, suas nuvens e suas árvores.
Às vezes, porém, quando não se via em lado nenhum
a paisagem com seu rio e suas árvores,
competia a tais coisas assomar à mente dum
garotinho»[33].
«Do rio, fazes o teu sangue (…).
Depois planta-te,
germina e cresce
que tua raiz
se agarre à terra
mais e mais para sempre
e, por último,
sê canoa,
barco, jangada,
solo, jarra,
estábulo e homem»[34].
32. Os grupos humanos, seus estilos de vida e cosmovisões são tão variados como o território, pois tiveram que se adaptar à geografia e aos seus recursos. Não são iguais as aldeias de pescadores às de caçadores, nem as aldeias de agricultores do interior às dos cultivadores de terras sujeitas a inundações. Além disso, na Amazónia, encontram-se milhares de comunidades de indígenas, afrodescendentes, ribeirinhos e habitantes das cidades que, por sua vez, são muito diferentes entre si e abrigam uma grande diversidade humana. Deus manifesta-Se, reflete algo da sua beleza inesgotável através dum território e das suas caraterísticas, pelo que os diferentes grupos, numa síntese vital com o ambiente circundante, desenvolvem uma forma peculiar de sabedoria. Quantos de nós observamos de fora deveríamos evitar generalizações injustas, discursos simplistas ou conclusões elaboradas apenas a partir das nossas próprias estruturas mentais e experiências.
Cuidar das raízes
33. Quero lembrar agora que «a visão consumista do ser humano, incentivada pelos mecanismos da economia globalizada atual, tende a homogeneizar as culturas e a debilitar a imensa variedade cultural, que é um tesouro da humanidade»[35]. Isto afeta muito os jovens, quando se tende a «dissolver as diferenças próprias do seu lugar de origem, transformá-los em sujeitos manipuláveis feitos em série»[36]. Para evitar esta dinâmica de empobrecimento humano, é preciso amar as raízes e cuidar delas, porque são «um ponto de enraizamento que nos permite crescer e responder aos novos desafios»[37]. Convido os jovens da Amazónia, especialmente os indígenas, a «assumir as raízes, pois das raízes provém a força que [os] fará crescer, florescer e frutificar»[38]. Para quantos deles são batizados, incluem-se nestas raízes a história do povo de Israel e da Igreja até ao dia de hoje. Conhecê-las é uma fonte de alegria e sobretudo de esperança que inspira ações válidas e corajosas.
34. Durante séculos, os povos amazónicos transmitiram a sua sabedoria cultural, oralmente, através de mitos, lendas, narrações, como sucedia com «aqueles primitivos jograis que percorriam as florestas contando histórias de aldeia em aldeia, mantendo assim viva uma comunidade que, sem o cordão umbilical destas histórias, a distância e a falta de comunicação teriam fragmentado e dissolvido»[39]. Por isso, é importante «deixar que os idosos contem longas histórias»[40] e que os jovens se detenham a beber desta fonte.
35. Enquanto o risco de perder esta riqueza cultural é cada vez maior, nos últimos anos – graças a Deus – alguns povos começaram a escrever para contar as suas histórias e descrever o significado dos seus costumes. Assim, eles próprios podem reconhecer explicitamente que há algo mais do que uma identidade étnica e que são depositários de preciosas memórias pessoais, familiares e coletivas. Alegra-me ver aqueles que perderam o contacto com as suas raízes tentarem recuperar a memória danificada. Por outro lado, nos próprios setores profissionais, começou a desenvolver-se uma maior perceção da identidade amazónica, tornando-se a Amazónia – mesmo para eles, muitas vezes descendentes de imigrantes – fonte de inspiração artística, literária, musical, cultural. As várias expressões artísticas, particularmente a poesia, deixaram-se inspirar pela água, a floresta, a vida que se agita, bem como pela diversidade cultural e os desafios ecológicos e sociais.
Encontro intercultural
36. As culturas da Amazónia profunda, como aliás toda a realidade cultural, têm as suas limitações; as culturas urbanas do Ocidente também as têm. Fatores, como o consumismo, o individualismo, a discriminação, a desigualdade e muitos outros, constituem aspetos frágeis das culturas aparentemente mais evoluídas. As etnias que desenvolveram um tesouro cultural em conexão com a natureza, com forte sentido comunitário, apercebem-se facilmente das nossas sombras, que não reconhecemos no meio do suposto progresso. Assim, far-nos-á bem recolher a sua experiência da vida.
37. É a partir das nossas raízes que nos sentamos à mesa comum, lugar de diálogo e de esperanças compartilhadas. Deste modo a diferença, que pode ser uma bandeira ou uma fronteira, transforma-se numa ponte. A identidade e o diálogo não são inimigos. A própria identidade cultural aprofunda-se e enriquece-se no diálogo com os que são diferentes, e o modo autêntico de a conservar não é um isolamento que empobrece. Por isso, não é minha intenção propor um indigenismo completamente fechado, a-histórico, estático, que se negue a toda e qualquer forma de mestiçagem. Uma cultura pode tornar-se estéril, quando «se fecha em si própria e procura perpetuar formas antiquadas de vida, recusando qualquer mudança e confronto com a verdade do homem»[41]. Isto poderia parecer pouco realista, já que não é fácil proteger-se da invasão cultural. Por isso, cuidar dos valores culturais dos grupos indígenas deveria ser interesse de todos, porque a sua riqueza é também a nossa. Se não progredirmos nesta direção de corresponsabilidade pela diversidade que embeleza a nossa humanidade, não se pode pretender que os grupos do interior da floresta se abram ingenuamente à «civilização».
38. Na Amazónia, mesmo entre os distintos povos nativos, é possível desenvolver «relações interculturais onde a diversidade não significa ameaça, não justifica hierarquias de um poder sobre os outros, mas sim diálogo a partir de visões culturais diferentes, de celebração, de inter-relacionamento e de reavivamento da esperança»[42].
Culturas ameaçadas, povos em risco
39. A economia globalizada danifica despudoradamente a riqueza humana, social e cultural. A desintegração das famílias, que resulta das migrações forçadas, afeta a transmissão dos valores, porque «a família é, e sempre foi, a instituição social que mais contribuiu para manter vivas as nossas culturas»[43]. Além disso, «diante duma invasão colonizadora maciça dos meios de comunicação», é necessário promover para os povos nativos «comunicações alternativas, a partir das suas próprias línguas e culturas», e que «os próprios indígenas se façam protagonistas presentes nos meios de comunicação já existentes»[44].
40. Em qualquer projeto para a Amazónia, «é preciso assumir a perspetiva dos direitos dos povos e das culturas, dando assim provas de compreender que o desenvolvimento dum grupo social (...) requer constantemente o protagonismo dos atores sociais locais a partir da sua própria cultura. Nem mesmo a noção da qualidade de vida se pode impor, mas deve ser entendida dentro do mundo de símbolos e hábitos próprios de cada grupo humano»[45]. E se as culturas ancestrais dos povos nativos nasceram e se desenvolveram em estreito contacto com o ambiente natural circundante, dificilmente podem ficar ilesas quando se deteriora este ambiente.
Isto abre passagem ao sonho sucessivo...
Capítulo III
UM SONHO ECOLÓGICO
41. Numa realidade cultural como a Amazónia, onde existe uma relação tão estreita do ser humano com a natureza, a vida diária é sempre cósmica. Libertar os outros das suas escravidões implica certamente cuidar do seu meio ambiente e defendê-lo[46] e – mais importante ainda – ajudar o coração do homem a abrir-se confiadamente àquele Deus que não só criou tudo o que existe, mas também Se nos deu a Si mesmo em Jesus Cristo. O Senhor, que primeiro cuida de nós, ensina-nos a cuidar dos nossos irmãos e irmãs e do ambiente que Ele nos dá de prenda cada dia. Esta é a primeira ecologia que precisamos. Na Amazónia, compreendem-se melhor as palavras de Bento XVI, quando dizia que, «ao lado da ecologia da natureza, existe uma ecologia que podemos designar “humana”, a qual, por sua vez, requer uma “ecologia social”. E isto requer que a humanidade (…) tome consciência cada vez mais das ligações existentes entre a ecologia natural, ou seja, o respeito pela natureza, e a ecologia humana»[47]. Esta insistência em que «tudo está interligado»[48] vale especialmente para um território como a Amazónia.
42. Se o cuidado das pessoas e o cuidado dos ecossistemas são inseparáveis, isto torna-se particularmente significativo lá onde «a floresta não é um recurso para explorar, é um ser ou vários seres com os quais se relacionar»[49]. A sabedoria dos povos nativos da Amazónia «inspira o cuidado e o respeito pela criação, com clara consciência dos seus limites, proibindo o seu abuso. Abusar da natureza significa abusar dos antepassados, dos irmãos e irmãs, da criação e do Criador, hipotecando o futuro»[50]. Os indígenas, «quando permanecem nos seus territórios, são quem melhor os cuidam»,[51] desde que não se deixem enredar pelos cantos das sereias e pelas ofertas interesseiras de grupos de poder. Os danos à natureza preocupam-nos, de maneira muito direta e palpável, porque – dizem eles – «somos água, ar, terra e vida do meio ambiente criado por Deus. Por conseguinte, pedimos que cessem os maus-tratos e o extermínio da “Mãe Terra”. A terra tem sangue e está sangrando, as multinacionais cortaram as veias da nossa “Mãe Terra”»[52].
Esse sonho feito de água
43. Na Amazónia, a água é a rainha; rios e córregos lembram veias, e toda a forma de vida brota dela: «Ali, no pleno dos estios quentes, quando se diluem, mortas nos ares parados, as últimas lufadas de leste, o termómetro é substituído pelo higrómetro na definição do clima. As existências derivam numa alternativa dolorosa de vazantes e enchentes dos grandes rios. Estas alteiam-se sempre de um modo assombrador. O Amazonas referto salta fora do leito, levanta em poucos dias o nível das águas. A enchente é uma paragem na vida. Preso nas malhas dos igarapés, o homem aguarda, então, com estoicismo raro ante a fatalidade incoercível, o termo daquele inverno paradoxal, de temperaturas altas. A vazante é o verão. É a revivescência da atividade rudimentar dos que ali se agitam, do único modo compatível com uma natureza que se excede em manifestações dispares tornando impossível a continuidade de quaisquer esforços»[53].
44. A água encanta no grande Amazonas, que abraça e vivifica tudo ao seu redor:
«Amazonas,
capital das sílabas d'água,
pai patriarca, és
a eternidade secreta
das fecundações,
chegam-te rios como pássaros»[54].
45. Além disso é a coluna vertebral que harmoniza e une: «O rio não nos separa; mas une-nos, ajudando-nos a conviver entre diferentes culturas e línguas»[55]. Embora seja verdade que, neste território, há muitas «Amazónias», o seu eixo principal é o grande rio, filho de muitos rios: «Da altura extrema da cordilheira, onde as neves são eternas, a água se desprende, e traça trémula um risco na pele antiga da pedra: o Amazonas acaba de nascer. A cada instante ele nasce. Desce devagar, para crescer no chão. Varando verdes, faz o seu caminho e se acrescenta. Aguas subterrâneas afloram para abraçar-se com a água que desceu dos Andes. De mais alto ainda, desce a água celeste. Reunidas elas avançam, multiplicadas em infinitos caminhos, banhando a imensa planície (...). É a Grande Amazónia, toda ela no trópico húmido, com a sua floresta compacta e atordoante, onde ainda palpita, intocada pelo homem, a vida que se foi urdindo nas intimidades da água (...). Desde que o homem a habita, ergue-se das funduras das suas águas e dos altos centros de sua floresta um terrível temor: a de que essa vida esteja, devagarinho, tomando o rumo do fim»[56].
46. Os poetas populares, enamorados da sua imensa beleza, procuraram expressar o que este rio lhes fazia sentir e a vida que ele oferece à sua passagem, com uma dança de delfins, anacondas, árvores e canoas. Mas lamentam também os perigos que a ameaçam. Estes poetas, contemplativos e proféticos, ajudam a libertar-nos do paradigma tecnocrático e consumista que sufoca a natureza e nos deixa sem uma existência verdadeiramente digna: «Sofre o mundo da transformação dos pés em borracha, das pernas em couro, do corpo em pano e da cabeça em aço (...). Sofre o mundo da transformação da pá em fuzil, do arado em tanque de guerra, da imagem do semeador que semeia na do autómato com seu lança-chamas, de cuja sementeira brotam solidões. A esse mundo, só a poesia poderá salvar, e a humildade diante da sua voz»[57].
O grito da Amazónia
47. A poesia ajuda a expressar uma dolorosa sensação que muitos compartilhamos hoje. A verdade ineludível é que, nas condições atuais, com este modo de tratar a Amazónia, tanta riqueza de vida e de tão grande beleza estão «tomando o rumo do fim», embora muitos pretendam continuar a crer que tudo vai bem, como se nada acontecesse:
«Aqueles que pensavam que o rio fosse uma corda para jogar, enganavam-se.
O rio é uma veia muito subtil sobre a face da terra. (…)
O rio é uma corda onde se agarram os animais e as árvores.
Se o puxarem demais, o rio poderia rebentar.
Poderia explodir e lavar-nos a cara com a água e com o sangue»[58].
48. O equilíbrio da terra depende também da saúde da Amazónia. Juntamente com os biomas do Congo e do Bornéu, deslumbra pela diversidade das suas florestas, das quais dependem também os ciclos das chuvas, o equilíbrio do clima e uma grande variedade de seres vivos. Funciona como um grande filtro do dióxido de carbono, que ajuda a evitar o aquecimento da terra. Em grande parte, o solo é pobre em húmus, de modo que a floresta «cresce realmente sobre o solo e não do solo»[59]. Quando se elimina a floresta, esta não é substituída, ficando um terreno com poucos nutrientes que se transforma num território desértico ou pobre em vegetação. Isto é grave, porque, nas entranhas da floresta amazónica, subsistem inúmeros recursos que poderiam ser indispensáveis para a cura de doenças. Os seus peixes, frutos e outros dons sobreabundantes enriquecem a alimentação humana. Além disso, num ecossistema como o amazónico, é incontestável a importância de cada parte para a conservação do todo. As próprias terras costeiras e a vegetação marinha precisam de ser fertilizadas por aquilo que o rio Amazonas arrasta. O grito da Amazónia chega a todos, porque a «conquista e exploração de recursos (...) hoje chega a ameaçar a própria capacidade acolhedora do ambiente: o ambiente como “recurso” corre o perigo de ameaçar o ambiente como “casa”»[60]. O interesse de algumas empresas poderosas não deveria ser colocado acima do bem da Amazónia e da humanidade inteira.
49. Não basta prestar atenção à preservação das espécies mais visíveis em risco de extinção. É crucial ter em conta que, «para o bom funcionamento dos ecossistemas, também são necessários os fungos, as algas, os vermes, os pequenos insetos, os répteis e a variedade inumerável de micro-organismos. Algumas espécies pouco numerosas, que habitualmente nos passam despercebidas, desempenham uma função censória fundamental para estabelecer o equilíbrio dum lugar»[61]. E isto facilmente se ignora na avaliação do impacto ambiental dos projetos económicos de indústrias extrativas, energéticas, madeireiras e outras que destroem e poluem. Além disso a água, que abunda na Amazónia, é um bem essencial para a sobrevivência humana, mas as fontes de poluição vão aumentando cada vez mais[62].
50. Com efeito, além dos interesses económicos de empresários e políticos locais, existem também «os enormes interesses económicos internacionais»[63]. Por isso, a solução não está numa «internacionalização» da Amazónia[64], mas a responsabilidade dos governos nacionais torna-se mais grave. Pela mesma razão, «é louvável a tarefa de organismos internacionais e organizações da sociedade civil que sensibilizam as populações e colaboram de forma crítica, inclusive utilizando legítimos sistemas de pressão, para que cada governo cumpra o dever próprio e não-delegável de preservar o meio ambiente e os recursos naturais do seu país, sem se vender a espúrios interesses locais ou internacionais»[65].
51. Para cuidar da Amazónia, é bom conjugar a sabedoria ancestral com os conhecimentos técnicos contemporâneos, mas procurando sempre intervir no território de forma sustentável, preservando ao mesmo tempo o estilo de vida e os sistemas de valores dos habitantes[66]. A estes, especialmente aos povos nativos, cabe receber, para além da formação básica, a informação completa e transparente dos projetos, com a sua amplitude, os seus efeitos e riscos, para poderem confrontar esta informação com os seus interesses e com o próprio conhecimento do local e, assim, dar ou negar o seu consentimento ou então propor alternativas[67].
52. Os mais poderosos nunca ficam satisfeitos com os lucros que obtêm, e os recursos do poder económico têm aumentado muito com o desenvolvimento científico e tecnológico. Por isso, todos deveríamos insistir na urgência de «criar um sistema normativo que inclua limites invioláveis e assegure a proteção dos ecossistemas, antes que as novas formas de poder derivadas do paradigma tecno-económico acabem por arrasá-los não só com a política, mas também com a liberdade e a justiça»[68]. Se a chamada por Deus exige uma escuta atenta do grito dos pobres e ao mesmo tempo da terra[69], para nós «o grito da Amazónia ao Criador é semelhante ao grito do Povo de Deus no Egito (cf. Ex 3, 7). É um grito desde a escravidão e o abandono, que clama por liberdade»[70].
A profecia da contemplação
53. Muitas vezes deixamos que a consciência se torne insensível, porque «a constante distração nos tira a coragem de advertir a realidade dum mundo limitado e finito»[71]. Se nos detivermos na superfície, pode parecer «que as coisas não estejam assim tão graves e que o planeta poderia subsistir ainda por muito tempo nas condições atuais. Este comportamento evasivo serve-nos para mantermos os nossos estilos de vida, de produção e consumo. É a forma como o ser humano se organiza para alimentar todos os vícios autodestrutivos: tenta não os ver, luta para não os reconhecer, adia as decisões importantes, age como se nada tivesse acontecido»[72]-
54. Além de tudo isso, quero lembrar que cada uma das diferentes espécies tem valor em si mesma. Ora, «anualmente, desaparecem milhares de espécies vegetais e animais, que já não poderemos conhecer, que os nossos filhos não poderão ver, perdidas para sempre. A grande maioria delas extingue-se por razões que têm a ver com alguma atividade humana. Por nossa causa, milhares de espécies já não darão glória a Deus com a sua existência, nem poderão comunicar-nos a sua própria mensagem. Não temos direito de o fazer»[73].
55. Aprendendo com os povos nativos, podemos contemplar a Amazónia, e não apenas analisá-la, para reconhecer esse precioso mistério que nos supera; podemos amá-la, e não apenas usá-la, para que o amor desperte um interesse profundo e sincero; mais ainda, podemos sentir-nos intimamente unidos a ela, e não só defendê-la: e então a Amazónia tornar-se-á nossa como uma mãe. Porque se «contempla o mundo, não como alguém que está fora dele, mas dentro, reconhecendo os laços com que o Pai nos uniu a todos os seres»[74].
56.   Despertemos o sentido estético e contemplativo que Deus colocou em nós e que, às vezes, deixamos atrofiar. Lembremo-nos de que, «quando não se aprende a parar a fim de admirar e apreciar o que é belo, não surpreende que tudo se transforme em objeto de uso e abuso sem escrúpulos»[75]. Pelo contrário, se entrarmos em comunhão com a floresta, facilmente a nossa voz se unirá à dela e transformar-se-á em oração: «Deitados à sombra dum velho eucalipto, a nossa oração de luz mergulha no canto da folhagem eterna»[76]. Tal conversão interior é que nos permitirá chorar pela Amazónia e gritar com ela diante do Senhor.
57. Jesus disse: «Não se vendem cinco passarinhos por duas pequeninas moedas? Contudo, nenhum deles passa despercebido diante de Deus» (Lc 12, 6). Deus Pai, que criou com infinito amor cada ser do universo, chama-nos a ser seus instrumentos para escutar o grito da Amazónia. Se acudirmos a este clamor angustiado, tornar-se-á manifesto que as criaturas da Amazónia não foram esquecidas pelo Pai do céu. Segundo os cristãos, o próprio Jesus nos chama a partir delas, «porque o Ressuscitado as envolve misteriosamente e guia para um destino de plenitude. As próprias flores do campo e as aves que Ele, admirado, contemplou com os seus olhos humanos, agora estão cheias da sua presença luminosa»[77]. Por todas estas razões, nós, os crentes, encontramos na Amazónia um lugar teológico, um espaço onde o próprio Deus Se manifesta e chama os seus filhos.
Educação e hábitos ecológicos
58. Assim, podemos dar mais um passo e lembrar que uma ecologia integral não se dá por satisfeita com ajustar questões técnicas ou com decisões políticas, jurídicas e sociais. A grande ecologia sempre inclui um aspeto educativo, que provoca o desenvolvimento de novos hábitos nas pessoas e nos grupos humanos. Infelizmente, muitos habitantes da Amazónia adquiriram costumes próprios das grandes cidades, onde já estão muito enraizados o consumismo e a cultura do descarte. Não haverá uma ecologia sã e sustentável, capaz de transformar seja o que for, se não mudarem as pessoas, se não forem incentivadas a adotar outro estilo de vida, menos voraz, mais sereno, mais respeitador, menos ansioso, mais fraterno.
59. De facto, «quanto mais vazio está o coração da pessoa, tanto mais necessita de objetos para comprar, possuir e consumir. Em tal contexto, parece não ser possível, para uma pessoa, aceitar que a realidade lhe assinale limites; (…) não pensemos só na possibilidade de terríveis fenómenos climáticos ou de grandes desastres naturais, mas também nas catástrofes resultantes de crises sociais, porque a obsessão por um estilo de vida consumista, sobretudo quando poucos têm possibilidades de o manter, só poderá provocar violência e destruição recíproca».[78]
60. A Igreja, com a sua longa experiência espiritual, a sua consciência renovada sobre o valor da criação, a sua preocupação com a justiça, a sua opção pelos últimos, a sua tradição educativa e a sua história de encarnação em culturas tão diferentes de todo o mundo, deseja, por sua vez, prestar a sua contribuição para o cuidado e o crescimento da Amazónia.
Isso dá lugar ao novo sonho, que pretendo partilhar mais diretamente com os pastores e os fiéis católicos.

Capítulo IV
UM SONHO ECLESIAL
61. A Igreja é chamada a caminhar com os povos da Amazónia. Na América Latina, esta caminhada teve expressões privilegiadas, como a Conferência dos Bispos em Medellín (1968) e a sua aplicação à Amazónia em Santarém (1972)[79]; e, depois, em Puebla (1979), Santo Domingo (1992) e Aparecida (2007). O caminho continua e o trabalho missionário, se quiser desenvolver uma Igreja com rosto amazónico, precisa de crescer numa cultura do encontro rumo a uma «harmonia pluriforme»[80]. Mas, para tornar possível esta encarnação da Igreja e do Evangelho, deve ressoar incessantemente o grande anúncio missionário.
O anúncio indispensável na Amazónia
62. Perante tantas necessidades e angústias que clamam do coração da Amazónia, é possível responder a partir de organizações sociais, recursos técnicos, espaços de debate, programas políticos… e tudo isso pode fazer parte da solução. Mas, como cristãos, não renunciamos à proposta de fé que recebemos do Evangelho. Embora queiramos empenhar-nos lado a lado com todos, não nos envergonhamos de Jesus Cristo. Para quantos O encontraram, vivem na sua amizade e se identificam com a sua mensagem, é inevitável falar d’Ele e levar aos outros a sua proposta de vida nova: «Ai de mim, se eu não evangelizar!» (1 Cor 9, 16).
63. A autêntica opção pelos mais pobres e abandonados, ao mesmo tempo que nos impele a libertá-los da miséria material e defender os seus direitos, implica propor-lhes a amizade com o Senhor que os promove e dignifica. Seria triste se recebessem de nós um código de doutrinas ou um imperativo moral, mas não o grande anúncio salvífico, aquele grito missionário que visa o coração e dá sentido a todo o resto. Nem podemos contentar-nos com uma mensagem social. Se dermos a vida por eles, pela justiça e a dignidade que merecem, não podemos ocultar-lhes que o fazemos porque reconhecemos Cristo neles e porque descobrimos a imensa dignidade a eles concedida por Deus Pai que os ama infinitamente.
64. Eles têm direito ao anúncio do Evangelho, sobretudo àquele primeiro anúncio que se chama querigma e «é o anúncio principal, aquele que sempre se tem de voltar a ouvir de diferentes maneiras e aquele que sempre se tem de voltar a anunciar duma forma ou doutra»[81]. É o anúncio de um Deus que ama infinitamente cada ser humano, que manifestou plenamente este amor em Cristo crucificado por nós e ressuscitado na nossa vida. Proponho voltar a ler um breve resumo deste conteúdo no capítulo IV da Exortação Christus vivit. Este anúncio deve ressoar constantemente na Amazónia, expresso em muitas modalidades distintas. Sem este anúncio apaixonado, cada estrutura eclesial transformar-se-á em mais uma ONG e, assim, não responderemos ao pedido de Jesus Cristo: «Ide pelo mundo inteiro, proclamai o Evangelho a toda a criatura» (Mc 16, 15).
65. Qualquer proposta de amadurecimento na vida cristã precisa de ter este anúncio como eixo permanente, porque «toda a formação cristã é, primariamente, o aprofundamento do querigma que se vai, cada vez mais e melhor, fazendo carne»[82]. A reação fundamental a este anúncio, quando o mesmo consegue provocar um encontro pessoal com o Senhor, é a caridade fraterna, aquele «mandamento novo que é o primeiro, o maior, o que melhor nos identifica como discípulos»[83]. Deste modo, o querigma e o amor fraterno constituem a grande síntese de todo o conteúdo do Evangelho, que não se pode deixar de propor na Amazónia. É o que viveram grandes evangelizadores da América Latina como São Toríbio de Mogrovejo ou São José de Anchieta.
A inculturação
66. Ao mesmo tempo que anuncia sem cessar o querigma, a Igreja deve crescer na Amazónia. Para isso, não para de moldar a sua própria identidade na escuta e diálogo com as pessoas, realidades e histórias do território. Desta forma, ir-se-á desenvolvendo cada vez mais um processo necessário de inculturação, que nada despreza do bem que já existe nas culturas amazónicas, mas recebe-o e leva-o à plenitude à luz do Evangelho[84]. E também não despreza a riqueza de sabedoria cristã transmitida ao longo dos séculos, como se pretendesse ignorar a história na qual Deus operou de várias maneiras, porque a Igreja possui um rosto pluriforme, vista «não só da perspetiva espacial (…), mas também da sua realidade temporal»[85]. Trata-se da Tradição autêntica da Igreja, que não é um depósito estático nem uma peça de museu, mas a raiz duma árvore que cresce[86]. É a Tradição milenar que testemunha a ação divina no seu povo e cuja «missão é mais a de manter vivo o fogo, do que conservar as suas cinzas»[87].
67. São João Paulo II ensinou que a Igreja, ao apresentar a sua proposta evangélica, «não pretende negar a autonomia da cultura. Antes pelo contrário, nutre por ela o maior respeito», porque a cultura «não é só sujeito de redenção e de elevação; mas pode ter também um papel de mediação e de colaboração»[88]. E, dirigindo-se aos indígenas do Continente Americano, lembrou que «uma fé que não se torna cultura é uma fé não de modo pleno acolhida, não inteiramente pensada, nem com fidelidade vivida»[89]. Os desafios das culturas convidam a Igreja a uma «atitude de prudente sentido crítico, mas também de atenção e confiança»[90].
68. Vale a pena lembrar aqui o que afirmei na Exortação Evangelii gaudium a propósito da inculturação: esta baseia-se na convicção de que «a graça supõe a cultura, e o dom de Deus encarna-se na cultura de quem o recebe»[91]. Notemos que isto implica um duplo movimento: por um lado, uma dinâmica de fecundação que permite expressar o Evangelho num lugar concreto, pois «quando uma comunidade acolhe o anúncio da salvação, o Espírito Santo fecunda a sua cultura com a força transformadora do Evangelho»[92]; por outro, a própria Igreja vive um caminho de receção, que a enriquece com aquilo que o Espírito já tinha misteriosamente semeado naquela cultura. Assim, «o Espírito Santo embeleza a Igreja, mostrando-lhe novos aspetos da Revelação e presenteando-a com um novo rosto»[93]. Trata-se, em última instância, de permitir e incentivar a que o anúncio do Evangelho inexaurível, comunicado «com categorias próprias da cultura onde é anunciado, provoque uma nova síntese com essa cultura»[94].
69. Por isso, «como podemos ver na história da Igreja, o cristianismo não dispõe de um único modelo cultural»[95] e «não faria justiça à lógica da encarnação pensar num cristianismo monocultural e monocórdico»[96]. Entretanto, o risco dos evangelizadores que chegam a um lugar é julgar que devem não só comunicar o Evangelho, mas também a cultura em que cresceram, esquecendo que não se trata de «impor uma determinada forma cultural, por mais bela e antiga que seja»[97]. É necessário aceitar corajosamente a novidade do Espírito capaz de criar sempre algo de novo com o tesouro inesgotável de Jesus Cristo, porque «a inculturação empenha a Igreja num caminho difícil mas necessário»[98]. É verdade que, «embora estes processos sejam sempre lentos, às vezes o medo paralisa-nos demasiado» e acabamos como «espectadores duma estagnação estéril da Igreja»[99]. Não tenhamos medo, não cortemos as asas ao Espírito Santo.
Caminhos de inculturação na Amazónia
70. Para conseguir uma renovada inculturação do Evangelho na Amazónia, a Igreja precisa de escutar a sua sabedoria ancestral, voltar a dar voz aos idosos, reconhecer os valores presentes no estilo de vida das comunidades nativas, recuperar a tempo as preciosas narrações dos povos. Na Amazónia, já recebemos riquezas que provêm das culturas pré-colombianas, tais «como a abertura à ação de Deus, o sentido da gratidão pelos frutos da terra, o caráter sagrado da vida humana e a valorização da família, o sentido de solidariedade e a corresponsabilidade no trabalho comum, a importância do cultual, a crença em uma vida para além da terrena e tantos outros valores»[100].
71. Neste contexto, os povos indígenas da Amazónia expressam a autêntica qualidade de vida como um «bem viver», que implica uma harmonia pessoal, familiar, comunitária e cósmica e manifesta-se no seu modo comunitário de conceber a existência, na capacidade de encontrar alegria e plenitude numa vida austera e simples, bem como no cuidado responsável da natureza que preserva os recursos para as gerações futuras. Os povos aborígenes podem ajudar-nos a descobrir o que é uma sobriedade feliz e, nesta linha, «têm muito para nos ensinar»[101]. Sabem ser felizes com pouco, gozam dos pequenos dons de Deus sem acumular tantas coisas, não destroem sem necessidade, preservam os ecossistemas e reconhecem que a terra, ao mesmo tempo que se oferece para sustentar a sua vida, como uma fonte generosa, tem um sentido materno que suscita respeitosa ternura. Tudo isto deve ser valorizado e recebido na evangelização[102].
72. Enquanto lutamos por eles e com eles, somos chamados «a ser seus amigos, a escutá-los, a compreendê-los e a acolher a misteriosa sabedoria que Deus nos quer comunicar através deles»[103]. Os habitantes das cidades precisam de apreciar esta sabedoria e deixar-se «reeducar» quanto ao consumismo ansioso e ao isolamento urbano. A própria Igreja pode ser um veículo capaz de ajudar esta recuperação cultural numa válida síntese com o anúncio do Evangelho. Além disso, torna-se instrumento de caridade, na medida em que as comunidades urbanas forem não apenas missionárias no seu ambiente, mas também acolhedoras dos pobres que chegam do interior acossados pela miséria. É-o, igualmente, na medida em que as comunidades estiverem próximas dos jovens migrantes para os ajudarem a integrar-se na cidade sem cair nas suas redes de degradação. Tais ações eclesiais, que brotam do amor, são caminhos valiosos dentro dum processo de inculturação.
73. Mas, a inculturação eleva e dá plenitude. Sem dúvida, há que apreciar esta espiritualidade indígena da interconexão e interdependência de todo o criado, espiritualidade de gratuidade que ama a vida como dom, espiritualidade de sacra admiração perante a natureza que nos cumula com tanta vida. Apesar disso, trata-se também de conseguir que esta relação com Deus presente no cosmos se torne cada vez mais uma relação pessoal com um «Tu», que sustenta a própria realidade e lhe quer dar um sentido, um «Tu» que nos conhece e ama:
«Flutuam sombras de mim, madeiras mortas.
Mas a estrela nasce sem censura
sobre as mãos deste menino, especialistas
que conquistam as águas e a noite.
Bastar-me-á saber
que Tu me conheces
inteiramente, ainda antes dos meus dias»[104].
74. De igual modo, a relação com Jesus Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, libertador e redentor, não é inimiga desta visão do mundo marcadamente cósmica que carateriza estes povos, porque Ele é também o Ressuscitado que penetra todas as coisas[105]. Segundo a experiência cristã, «todas as criaturas do universo material encontram o seu verdadeiro sentido no Verbo encarnado, porque o Filho de Deus incorporou na sua pessoa parte do universo material, onde introduziu um gérmen de transformação definitiva»[106]. Ele está, gloriosa e misteriosamente, presente no rio, nas árvores, nos peixes, no vento, enquanto é o Senhor que reina sobre a criação sem perder as suas chagas transfiguradas e, na Eucaristia, assume os elementos do mundo dando a cada um o sentido do dom pascal.
Inculturação social e espiritual
75. Esta inculturação, atendendo à situação de pobreza e abandono de tantos habitantes da Amazónia, deverá necessariamente ter um timbre marcadamente social e caraterizar-se por uma defesa firme dos direitos humanos, fazendo resplandecer o rosto de Cristo que «quis, com ternura especial, identificar-Se com os mais frágeis e pobres»[107]. Pois, «a partir do coração do Evangelho, reconhecemos a conexão íntima que existe entre evangelização e promoção humana»[108], e isto exige das comunidades cristãs um claro empenho com o Reino de justiça na promoção dos descartados. Para isso, é sumamente importante uma adequada formação dos agentes pastorais na doutrina social da Igreja.
76. Ao mesmo tempo, a inculturação do Evangelho na Amazónia deve integrar melhor a dimensão social com a espiritual, para que os mais pobres não tenham necessidade de ir buscar fora da Igreja uma espiritualidade que dê resposta aos anseios da sua dimensão transcendente. Naturalmente, não se trata duma religiosidade alienante ou individualista que faça calar as exigências sociais duma vida mais digna, mas também não se trata de mutilar a dimensão transcendente e espiritual como se bastasse ao ser humano o desenvolvimento material. Isto convida-nos não só a combinar as duas coisas, mas também a ligá-las intimamente. Deste modo resplandecerá a verdadeira beleza do Evangelho, que é plenamente humanizadora, dá plena dignidade às pessoas e aos povos, cumula o coração e a vida inteira.
Pontos de partida para uma santidade amazónica
77. Assim poderão nascer testemunhos de santidade com rosto amazónico, que não sejam cópias de modelos doutros lugares, santidade feita de encontro e dedicação, de contemplação e serviço, de solidão acolhedora e vida comum, de jubilosa sobriedade e luta pela justiça. Chega-se a esta santidade «cada um por seu caminho»[109], e isto aplica-se também aos povos, onde a graça se encarna e brilha com traços distintivos. Imaginemos uma santidade com traços amazónicos, chamada a interpelar a Igreja universal.
78. Um processo de inculturação, que implica caminhos não só individuais, mas também comunitários, exige um amor ao povo cheio de respeito e compreensão. Em boa parte da Amazónia, este processo já começou. Há mais de quarenta anos, os bispos da Amazónia do Perú assinalavam que, em muitos dos grupos presentes naquela região, «o sujeito de evangelização, modelado por uma cultura própria, multiforme e mutável, está inicialmente evangelizado», pois possui «certos traços de catolicismo popular que, embora num primeiro tempo talvez tenham sido promovidos por agentes pastorais, atualmente são uma realidade que o povo assumiu e até mudou o seu significado transmitindo-os de geração em geração»[110]. Não nos apressemos a qualificar como superstição ou paganismo certas expressões religiosas que nascem, espontaneamente, da vida do povo. Antes, é necessário saber reconhecer o trigo que cresce no meio do joio, porque, «na piedade popular, pode-se captar a modalidade em que a fé recebida se encarnou numa cultura e continua a transmitir-se»[111].
79. É possível receber, de alguma forma, um símbolo indígena sem o qualificar necessariamente como idolátrico. Um mito denso de sentido espiritual pode ser valorizado, sem continuar a considerá-lo um extravio pagão. Algumas festas religiosas contêm um significado sagrado e são espaços de reunião e fraternidade, embora se exija um lento processo de purificação e maturação. Um verdadeiro missionário procura descobrir as aspirações legítimas que passam através das manifestações religiosas, às vezes imperfeitas, parciais ou equivocadas, e tenta dar-lhes resposta a partir duma espiritualidade inculturada.
80. Será, sem dúvida, uma espiritualidade centrada no único Deus e Senhor, mas ao mesmo tempo capaz de entrar em contacto com as necessidades diárias das pessoas que procuram uma vida digna, querem gozar as coisas belas da existência, encontrar a paz e a harmonia, resolver as crises familiares, curar as suas doenças, ver os seus filhos crescerem felizes. O pior perigo seria afastá-los do encontro com Cristo, apresentando-O como um inimigo da alegria ou como alguém que é indiferente às aspirações e angústias humanas[112]. Hoje é indispensável mostrar que a santidade não priva as pessoas de «forças, vida e alegria»[113].
A inculturação da liturgia
81. A inculturação da espiritualidade cristã nas culturas dos povos nativos encontra, nos Sacramentos, um caminho particularmente valioso, porque neles se unem o divino e o cósmico, a graça e a criação. Na Amazónia, os Sacramentos não deveriam ser vistos como separação da criação, pois «constituem um modo privilegiado em que a natureza é assumida por Deus e transformada em mediação da vida sobrenatural»[114]. São uma plenificação da criação, na qual a natureza é elevada para ser lugar e instrumento da graça, para «abraçar o mundo num plano diferente»[115].
82. Na Eucaristia vemos que, «no apogeu do mistério da Encarnação, o Senhor quer chegar ao nosso íntimo através dum pedaço de matéria. (…) [Ela] une o céu e a terra, abraça e penetra toda a criação»[116]. Por isso, a Eucaristia pode ser «fonte de luz e motivação para as nossas preocupações pelo meio ambiente, e leva-nos a ser guardiões da criação inteira»[117]. Assim, «não fugimos do mundo, nem negamos a natureza, quando queremos encontrar-nos com Deus».[118] Isto permite-nos receber na liturgia muitos elementos próprios da experiência dos indígenas no seu contacto íntimo com a natureza e estimular expressões autóctones em cantos, danças, ritos, gestos e símbolos. O Concílio Vaticano II solicitara este esforço de inculturação da liturgia nos povos indígenas[119], mas passaram-se já mais de cinquenta anos e pouco avançamos nesta linha[120].
83. No domingo, «a espiritualidade cristã integra o valor do repouso e da festa. O ser humano tende a reduzir o descanso contemplativo ao âmbito do estéril ou do inútil, esquecendo que deste modo se tira à obra realizada o mais importante: o seu significado. Na nossa atividade, somos chamados a incluir uma dimensão recetiva e gratuita»[121]. Os povos nativos conhecem esta gratuidade e este sadio lazer contemplativo. As nossas celebrações deveriam ajudá-los a viver esta experiência na liturgia dominical e encontrar a luz da Palavra e da Eucaristia que ilumina as nossas vidas concretas.
84. Os Sacramentos mostram e comunicam o Deus próximo que vem, com misericórdia, curar e fortalecer os seus filhos. Por isso, devem ser acessíveis, sobretudo aos pobres, e nunca devem ser negados por razões de dinheiro. Nem é admissível, face aos pobres e abandonados da Amazónia, uma disciplina que exclua e afaste, porque assim acabam descartados por uma Igreja transformada numa alfândega. Pelo contrário, «nas situações difíceis em que vivem as pessoas mais necessitadas, a Igreja deve pôr um cuidado especial em compreender, consolar e integrar, evitando impor-lhes um conjunto de normas como se fossem uma rocha, tendo como resultado fazê-las sentir-se julgadas e abandonadas precisamente por aquela Mãe que é chamada a levar-lhes a misericórdia de Deus»[122]. Segundo a Igreja, a misericórdia pode tornar-se uma mera expressão romântica, se não se manifestar concretamente no serviço pastoral[123].
A inculturação do ministério
85. A inculturação deve desenvolver-se e espelhar-se também numa forma encarnada de realizar a organização eclesial e o ministério. Se se incultura a espiritualidade, se se incultura a santidade, se se incultura o próprio Evangelho, será possível evitar de pensar numa inculturação do modo como se estruturam e vivem os ministérios eclesiais? A pastoral da Igreja tem uma presença precária na Amazónia, devido em parte à imensa extensão territorial, com muitos lugares de difícil acesso, grande diversidade cultural, graves problemas sociais e a própria opção de alguns povos se isolarem. Isto não pode deixar-nos indiferentes, exigindo uma resposta específica e corajosa da Igreja.
86. É necessário conseguir que o ministério se configure de tal maneira que esteja ao serviço duma maior frequência da celebração da Eucaristia, mesmo nas comunidades mais remotas e escondidas. Em Aparecida, convidou-se a ouvir o lamento de tantas comunidades na Amazónia «privadas da Eucaristia dominical por longos períodos de tempo»[124.] Mas, ao mesmo tempo, há necessidade de ministros que possam compreender a partir de dentro a sensibilidade e as culturas amazónicas.
87. O modo de configurar a vida e o exercício do ministério dos sacerdotes não é monolítico, adquirindo matizes diferentes nos vários lugares da terra. Por isso, é importante determinar o que é mais específico do sacerdote, aquilo que não se pode delegar. A resposta está no sacramento da Ordem sacra, que o configura a Cristo sacerdote. E a primeira conclusão é que este caráter exclusivo recebido na Ordem deixa só ele habilitado para presidir à Eucaristia[125] .Esta é a sua função específica, principal e não delegável. Alguns pensam que aquilo que distingue o sacerdote seja o poder, o facto de ser a máxima autoridade da comunidade; mas São João Paulo II explicou que, embora o sacerdócio seja considerado «hierárquico», esta função não equivale a estar acima dos outros, mas «ordena-se integralmente à santidade dos membros do corpo místico de Cristo»[126]. Quando se afirma que o sacerdote é sinal de «Cristo cabeça», o significado principal é que Cristo constitui a fonte da graça: Ele é cabeça da Igreja «porque tem o poder de comunicar a graça a todos os membros da Igreja»[127].
88. O sacerdote é sinal desta Cabeça que derrama a graça, antes de tudo, quando celebra a Eucaristia, fonte e cume de toda a vida cristã[128]. Este é o seu grande poder, que só pode ser recebido no sacramento da Ordem. Por isso, apenas ele pode dizer: «Isto é o meu corpo». Há outras palavras que só ele pode pronunciar: «Eu te absolvo dos teus pecados»; pois o perdão sacramental está ao serviço duma celebração eucarística digna. Nestes dois sacramentos, está o coração da sua identidade exclusiva[129].
89. Nas circunstâncias específicas da Amazónia, especialmente nas suas florestas e lugares mais remotos, é preciso encontrar um modo para assegurar este ministério sacerdotal. Os leigos poderão anunciar a Palavra, ensinar, organizar as suas comunidades, celebrar alguns Sacramentos, buscar várias expressões para a piedade popular e desenvolver os múltiplos dons que o Espírito derrama neles. Mas precisam da celebração da Eucaristia, porque ela «faz a Igreja»[130], e chegamos a dizer que «nenhuma comunidade cristã se edifica sem ter a sua raiz e o seu centro na celebração da Santíssima Eucaristia»[131]. Se acreditamos verdadeiramente que as coisas estão assim, é urgente fazer com que os povos amazónicos não estejam privados do Alimento de vida nova e do sacramento do perdão.
90. Esta premente necessidade leva-me a exortar todos os bispos, especialmente os da América Latina, a promover a oração pelas vocações sacerdotais e também a ser mais generosos, levando aqueles que demonstram vocação missionária a optarem pela Amazónia[132]. Ao mesmo tempo, é oportuno rever a fundo a estrutura e o conteúdo tanto da formação inicial como da formação permanente dos presbíteros, de modo que adquiram as atitudes e capacidades necessárias para dialogar com as culturas amazónicas. Esta formação deve ser eminentemente pastoral e favorecer o crescimento da misericórdia sacerdotal[133].
Comunidades cheias de vida
91. A Eucaristia é também o grande sacramento que significa e realiza a unidade da Igreja[134], celebrando-se «para que, de estranhos, dispersos e indiferentes uns aos outros, nos tornemos unidos, iguais e amigos»[135]. Quem preside à Eucaristia deve ter a peito a comunhão, que, longe de ser uma unidade empobrecida, acolhe a múltipla riqueza de dons e carismas que o Espírito derrama na comunidade.
92. Ora a Eucaristia, como fonte e cume, exige que se desenvolva esta riqueza multiforme. São necessários sacerdotes, mas isto não exclui que ordinariamente os diáconos permanentes – deveriam ser muitos mais na Amazónia –, as religiosas e os próprios leigos assumam responsabilidades importantes em ordem ao crescimento das comunidades e maturem no exercício de tais funções, graças a um adequado acompanhamento.
93. Portanto não se trata apenas de facilitar uma presença maior de ministros ordenados que possam celebrar a Eucaristia. Isto seria um objetivo muito limitado, se não procurássemos também suscitar uma nova vida nas comunidades. Precisamos de promover o encontro com a Palavra e o amadurecimento na santidade por meio de vários serviços laicais, que supõem um processo de maturação – bíblica, doutrinal, espiritual e prática – e distintos percursos de formação permanente.
94. Uma Igreja de rostos amazónicos requer a presença estável de responsáveis leigos, maduros e dotados de autoridade[136], que conheçam as línguas, as culturas, a experiência espiritual e o modo de viver em comunidade de cada lugar, ao mesmo tempo que deixem espaço à multiplicidade dos dons que o Espírito Santo semeia em todos. Com efeito, onde houver uma necessidade peculiar, Ele já infundiu carismas que permitam dar-lhe resposta. Isto requer na Igreja capacidade para abrir estradas à audácia do Espírito, confiar e concretamente permitir o desenvolvimento duma cultura eclesial própria, marcadamente laical. Os desafios da Amazónia exigem da Igreja um esforço especial para conseguir uma presença capilar que só é possível com um incisivo protagonismo dos leigos.
95. Muitas pessoas consagradas gastaram as suas energias e grande parte da sua vida pelo Reino de Deus na Amazónia. A vida consagrada, capaz de diálogo, síntese, encarnação e profecia, ocupa um lugar especial nesta configuração plural e harmoniosa da Igreja amazónica. Mas faz-lhes falta um novo esforço de inculturação, que ponha em jogo a criatividade, a audácia missionária, a sensibilidade e a força peculiar da vida comunitária.
96. As comunidades de base, sempre que souberam integrar a defesa dos direitos sociais com o anúncio missionário e a espiritualidade, foram verdadeiras experiências de sinodalidade no caminho evangelizador da Igreja na Amazónia. Muitas vezes «têm ajudado a formar cristãos comprometidos com a sua fé, discípulos e missionários do Senhor, como o testemunha a entrega generosa, até derramar o sangue, de muitos dos seus membros»[137].
97. Encorajo o aprofundamento do serviço conjunto que se realiza através da REPAM e outras associações com o objetivo de consolidar aquilo que solicitava Aparecida: «estabelecer, entre as Igrejas locais de diversos países sul-americanos que estão na bacia amazónica, uma pastoral de conjunto com prioridades diferenciadas»[138]. Isto vale especialmente para a relação entre as Igrejas confinantes.
98. Por fim, quero lembrar que nem sempre podemos pensar em projetos para comunidades estáveis, porque na Amazónia há uma grande mobilidade interna, uma migração constante, muitas vezes pendular, e «a região transformou-se efetivamente num corredor migratório»[139]. A «transumância amazónica não foi bem compreendida nem suficientemente elaborada do ponto de vista pastoral»[140]. Por isso devemos pensar em grupos missionários itinerantes e «apoiar a inserção e a itinerância dos consagrados e consagradas ao lado dos mais desfavorecidos e excluídos»[141]. Por outro lado, isto desafia as nossas comunidades urbanas, que deveriam cultivar com inteligência e generosidade, especialmente nas periferias, várias formas de proximidade e receção às famílias e jovens que chegam ao território.
A força e o dom das mulheres
99. Na Amazónia, há comunidades que se mantiveram e transmitiram a fé durante longo tempo, mesmo decénios, sem que algum sacerdote passasse por lá. Isto foi possível graças à presença de mulheres fortes e generosas, que batizaram, catequizaram, ensinaram a rezar, foram missionárias, certamente chamadas e impelidas pelo Espírito Santo. Durante séculos, as mulheres mantiveram a Igreja de pé nesses lugares com admirável dedicação e fé ardente. No Sínodo, elas mesmas nos comoveram a todos com o seu testemunho.
100. Isto convida-nos a alargar o horizonte para evitar reduzir a nossa compreensão da Igreja a meras estruturas funcionais. Este reducionismo levar-nos-ia a pensar que só se daria às mulheres um status e uma participação maior na Igreja se lhes fosse concedido acesso à Ordem sacra. Mas, na realidade, este horizonte limitaria as perspetivas, levar-nos-ia a clericalizar as mulheres, diminuiria o grande valor do que elas já deram e subtilmente causaria um empobrecimento da sua contribuição indispensável.
101. Jesus Cristo apresenta-Se como Esposo da comunidade que celebra a Eucaristia, através da figura de um varão que a ela preside como sinal do único Sacerdote. Este diálogo entre o Esposo e a esposa que se eleva na adoração e santifica a comunidade não deveria fechar-nos em conceções parciais sobre o poder na Igreja. Porque o Senhor quis manifestar o seu poder e o seu amor através de dois rostos humanos: o de seu divino Filho feito homem e o de uma criatura que é mulher, Maria. As mulheres prestam à Igreja a sua contribuição segundo o modo que lhes é próprio e prolongando a força e a ternura de Maria, a Mãe. Deste modo não nos limitamos a uma impostação funcional, mas entramos na estrutura íntima da Igreja. Assim compreendemos radicalmente por que, sem as mulheres, ela se desmorona, como teriam caído aos pedaços muitas comunidades da Amazónia se não estivessem lá as mulheres, sustentando-as, conservando-as e cuidando delas. Isto mostra qual é o seu poder caraterístico.
102. Não podemos deixar de incentivar os talentos populares que deram às mulheres tanto protagonismo na Amazónia, embora hoje as comunidades estejam sujeitas a novos riscos que outrora não existiam. A situação atual exige que estimulemos o aparecimento doutros serviços e carismas femininos que deem resposta às necessidades específicas dos povos amazónicos neste momento histórico.
103. Numa Igreja sinodal, as mulheres, que de facto realizam um papel central nas comunidades amazónicas, deveriam poder ter acesso a funções e inclusive serviços eclesiais que não requeiram a Ordem sacra e permitam expressar melhor o seu lugar próprio. Convém recordar que tais serviços implicam uma estabilidade, um reconhecimento público e um envio por parte do bispo. Daqui resulta também que as mulheres tenham uma incidência real e efetiva na organização, nas decisões mais importantes e na guia das comunidades, mas sem deixar de o fazer no estilo próprio do seu perfil feminino.
104. Frequentemente sucede que, num determinado lugar, os agentes pastorais vislumbram soluções muito diferentes para os problemas que enfrentam e, por isso, propõem formas aparentemente opostas de organização eclesial. Quando isto acontece, é provável que a verdadeira resposta aos desafios da evangelização esteja na superação de tais propostas, procurando outros caminhos melhores, talvez ainda não imaginados. O conflito supera-se num nível superior, onde cada uma das partes, sem deixar de ser fiel a si mesma, se integra com a outra numa nova realidade. Tudo se resolve «num plano superior que conserva em si as preciosas potencialidades das polaridades em contraste»[142]. Caso contrário, o conflito fecha-nos, «perdemos a perspetiva, os horizontes reduzem-se e a própria realidade fica fragmentada»[143].
105. Isto não significa de maneira alguma relativizar os problemas, fugir deles ou deixar as coisas como estão. As verdadeiras soluções nunca se alcançam amortecendo a audácia, subtraindo-se às exigências concretas ou buscando culpas externas. Pelo contrário, a via de saída encontra-se por «transbordamento», transcendendo a dialética que limita a visão para poder assim reconhecer um dom maior que Deus está a oferecer. Deste novo dom recebido com coragem e generosidade, deste dom inesperado que desperta uma nova e maior criatividade, brotarão, como que duma fonte generosa, as respostas que a dialética não nos deixava ver. Nos seus primórdios, a fé cristã difundiu-se admiravelmente seguindo esta lógica que lhe permitiu, a partir duma matriz judaica, encarnar-se nas culturas grega e romana e adquirir na sua passagem fisionomias diferentes. De forma análoga, neste momento histórico, a Amazónia desafia-nos a superar perspetivas limitadas, soluções pragmáticas que permanecem enclausuradas em aspetos parciais das grandes questões, para buscar caminhos mais amplos e ousados de inculturação.
A convivência ecuménica e inter-religiosa
106. Numa Amazónia plurirreligiosa, os crentes precisam de encontrar espaços para dialogar e atuar juntos pelo bem comum e a promoção dos mais pobres. Não se trata de nos tornarmos todos mais volúveis nem de escondermos as convicções próprias que nos apaixonam, para podermos encontrar-nos com outros que pensam de maneira diferente. Se uma pessoa acredita que o Espírito Santo pode agir no diverso, então procurará deixar-se enriquecer com essa luz, mas acolhê-la-á a partir de dentro das suas próprias convicções e da sua própria identidade. Com efeito, quanto mais profunda, sólida e rica for uma identidade, mais enriquecerá os outros com a sua contribuição específica.
107. Nós, católicos, possuímos um tesouro nas Escrituras Sagradas que outras religiões não aceitam, embora às vezes sejam capazes de as ler com interesse e inclusive apreciar alguns dos seus conteúdos. Algo semelhante, procuramos nós fazer face aos textos sagrados doutras religiões e comunidades religiosas, onde se encontram «preceitos e doutrinas que (…) refletem não raramente um raio da verdade que ilumina todos os homens»[144]. Temos também uma grande riqueza nos sete Sacramentos, que algumas comunidades cristãs não aceitam na sua totalidade ou com idêntico sentido. Ao mesmo tempo que acreditamos firmemente em Jesus como único Redentor do mundo, cultivamos uma profunda devoção à sua Mãe. Embora saibamos que isto não se verifica em todas as confissões cristãs, sentimos o dever de comunicar à Amazónia a riqueza deste ardente amor materno, do qual nos sentimos depositários. De facto, terminarei esta Exortação com algumas palavras dirigidas a Maria.
108. Nada disto teria que nos tornar inimigos. Num verdadeiro espírito de diálogo, nutre-se a capacidade de entender o sentido daquilo que o outro diz e faz, embora não se possa assumi-lo como uma convicção própria. Deste modo torna-se possível ser sincero, sem dissimular o que acreditamos, nem deixar de dialogar, procurar pontos de contacto e sobretudo trabalhar e lutar juntos pelo bem da Amazónia. A força do que une a todos os cristãos tem um valor imenso. Prestamos tanta atenção ao que nos divide que, às vezes, já não apreciamos nem valorizamos o que nos une. E isto que nos une é o que nos permite estar no mundo sem sermos devorados pela imanência terrena, o vazio espiritual, o cómodo egocentrismo, o individualismo consumista e autodestrutivo.
109. Como cristãos, a todos nos une a fé em Deus, o Pai que nos dá a vida e tanto nos ama. Une-nos a fé em Jesus Cristo, o único Redentor, que nos libertou com o seu bendito sangue e a sua ressurreição gloriosa. Une-nos o desejo da sua Palavra, que guia os nossos passos. Une-nos o fogo do Espírito que nos impele para a missão. Une-nos o mandamento novo que Jesus nos deixou, a busca duma civilização do amor, a paixão pelo Reino que o Senhor nos chama a construir com Ele. Une-nos a luta pela paz e a justiça. Une-nos a convicção de que nem tudo acaba nesta vida, mas estamos chamados para a festa celeste, onde Deus enxugará as nossas lágrimas e recolherá o que tivermos feito pelos que sofrem.
110. Tudo isto nos une. Como não lutar juntos? Como não rezar juntos e trabalhar lado a lado para defender os pobres da Amazónia, mostrar o rosto santo do Senhor e cuidar da sua obra criadora?
Conclusão
A MÃE DA AMAZÓNIA
111. Depois de partilhar alguns sonhos, exorto todos a avançar por caminhos concretos que permitam transformar a realidade da Amazónia e libertá-la dos males que a afligem. Agora levantemos o olhar para Maria, a Mãe que Cristo nos deixou. E, embora seja a única Mãe de todos, manifesta-Se de distintas maneiras na Amazónia. Sabemos que «os indígenas se encontram vitalmente com Jesus Cristo por muitos caminhos; mas o caminho mariano contribuiu mais que tudo para este encontro»[145]. Perante a beleza da Amazónia, que fomos descobrindo cada vez melhor durante a preparação e o desenrolar do Sínodo, penso que o melhor será concluir esta Exortação dirigindo-nos a Ela:
Mãe da vida,
no vosso seio materno formou-Se Jesus,
que é o Senhor de tudo o que existe.
Ressuscitado, Ele transformou-Vos com a sua luz
e fez-Vos Rainha de toda a criação.
Por isso Vos pedimos que reineis, Maria,
no coração palpitante da Amazónia.
Mostrai-Vos como mãe de todas as criaturas,
na beleza das flores, dos rios,
do grande rio que a atravessa
e de tudo o que vibra nas suas florestas.
Protegei, com o vosso carinho, aquela explosão de beleza.
Pedi a Jesus que derrame todo o seu amor
nos homens e mulheres que moram lá,
para que saibam admirá-la e cuidar dela.
Fazei nascer vosso Filho nos seus corações
para que Ele brilhe na Amazónia,
nos seus povos e nas suas culturas,
com a luz da sua Palavra, com o conforto do seu amor,
com a sua mensagem de fraternidade e justiça.
Que, em cada Eucaristia,
se eleve também tanta maravilha
para a glória do Pai.
Mãe, olhai para os pobres da Amazónia,
porque o seu lar está a ser destruído
por interesses mesquinhos.
Quanta dor e quanta miséria,
quanto abandono e quanto atropelo
nesta terra bendita,
transbordante de vida!
Tocai a sensibilidade dos poderosos
porque, apesar de sentirmos que já é tarde,
Vós nos chamais a salvar
o que ainda vive.
Mãe do coração trespassado,
que sofreis nos vossos filhos ultrajados
e na natureza ferida,
reinai Vós na Amazónia
juntamente com vosso Filho.
Reinai, de modo que ninguém mais se sinta dono
da obra de Deus.
Em Vós confiamos, Mãe da vida!
Não nos abandoneis
nesta hora escura.
Amen
.

Dado em Roma, na Basílica de São João de Latrão, a 2 de fevereiro – Festa da Apresentação do Senhor – do ano 2020, sétimo do pontificado.

Franciscus



[1] Francisco, Carta enc. Laudato si’ (24/V/2015), 49: AAS 107 (2015), 866.
[2] Sínodo dos Bispos – Assembleia Especial para a Região Pan-AmazónicaInstrumentum laboris, 45.
[3] Ana Varela Tafur, «Timareo», in: Lo que no veo en visiones (Lima 1992).
[4] Jorge Vega Márquez, «Amazónia solitária», in: Poesía obrera (Cobija-Pando: Bolívia 2009), 39.
[5] Rede Eclesial Pan-Amazónica (REPAM), Brasil, Síntese da contribuição para o Sínodo, 120; cf. Sínodo dos Bispos – Assembleia Especial para a Região Pan-AmazónicaInstrumentum laboris, 45.
[6] Discurso no encontro com os jovens (São Paulo, Brasil 10/V/2007), 2: Insegnamenti III/1 (2007), 808.
[7] Cf. Alberto C. Araújo, «Imaginário amazónico», in: Amazónia real. Ver amazoniareal.com.br (29/I/2014).
[8] São Paulo VI, Carta enc. Populorum progressio (26/III/1967), 57: AAS 59 (1967), 285.
[9] São João Paulo II, Discurso à Academia Pontifícia das Ciências Sociais (27/IV/2001), 4: AAS 93 (2001), 600.
[10] Cf. Sínodo dos Bispos – Assembleia Especial para a Região Pan-AmazónicaInstrumentum laboris, 41.
[11] V Conferência Geral do Episcopado Latino-americano e do Caribe, Documento de Aparecida (29/VI/2007), 473.
[12] Ramón Iribertegui, Amazonas: El hombre y el caucho, ed. Vicariato Apostólico de Puerto Ayacucho – Venezuela, Monografia n.º 4 (Caracas 1987), 307ss.
[13] Cf. Amarílis Tupiassú, «Amazônia, das travessias lusitanas à literatura de até agora», in Estudos Avançados, vol. 19, n. 53 (São Paulo, janeiro/abril 2005): «De fato, depois de findar a primeira colonização, a Amazônia continuou seu trajeto de região açulada pela antiquíssima ganância, agora sob novas impostações retóricas (…) por agentes civilizatórios que nem precisam de corporificação para gerar e multiplicar as novas facetas da antiga dizimação, agora por via da morte devagar».
[14] Bispos da Amazónia do Brasil, Carta ao Povo de Deus (Santarém – Brasil 6/VII/2012).
[15] São João Paulo II, Mensagem para o Dia Mundial da Paz em 1998 (8/XII/1997), 3: AAS 90 (1998), 150.
[16] III Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano e do Caribe, Documento de Puebla (23/III/1979), 6.
[17] Sínodo dos Bispos – Assembleia Especial para a Região Pan-AmazónicaInstrumentum laboris, 6. O Papa Paulo III, com o Breve Veritas ipsa (2/VI/1537), condenou as teses racistas, reconhecendo aos índios, cristãos ou não, a dignidade de pessoa humana, reconheceu-lhes o direito aos seus bens e proibiu que fossem reduzidos à escravidão. Afirmava: «Sendo homens como os outros, (...) não podem de modo algum ser privados da sua liberdade e da posse dos seus bens, nem mesmo aqueles que estão fora da fé de Jesus Cristo». Este ensinamento foi reiterado pelos Papas Gregório XIV, com a Bula Cum Sicuti (28/IV/1591), Urbano VIII, com a Bula Commissum Nobis (22/IV/1639), Bento XIV, com a Bula Immensa Pastorum Principis, dirigida aos bispos do Brasil (20/XII/1741), Gregório XVI, com o Breve In Supremo (3/XII/1839), Leão XIII, na Epístola aos Bispos do Brasil sobre a escravatura (5/V/1888), São João Paulo II, na Mensagem aos indígenas da América (Santo Domingo 12/X/1992), 2: Insegnamenti XV/2 (1992), 341-347.
[18] Frederico Benício de Sousa Costa, Carta Pastoral (1909), ed. Imprensa do governo do Estado de Amazonas (Manaus 1994), 83.
[19] Sínodo dos Bispos – Assembleia Especial para a Região Pan-AmazónicaInstrumentum laboris, 7.
[20] Francisco, Discurso por ocasião do II Encontro Mundial dos Movimentos Populares (Santa Cruz da Serra – Bolívia 09/VII/2015): L’Osservatore Romano (ed. portuguesa de 16/VII/2015), 13.
[21] Francisco, Discurso no Encontro com os Povos da Amazónia (Puerto Maldonado – Perú 19/I/2018): L’Osservatore Romano (ed. portuguesa de 25/I/2018), 8.
[22] Sínodo dos Bispos – Assembleia Especial para a Região Pan-AmazónicaInstrumentum laboris, 24.
[23] Yana Lucila Lema, Tamyahuan Shamakupani (Com a chuva estou vivendo), 1. Ver http://siwarmayu.com/es/yana-lucila-lema-6-poemas-de-tamyawan-shamu-ku-pa-ni-con-la-lluvia-estoy-viviendo/
[24] Conferência Episcopal Equatoriana, Cuidemos nuestro planeta (20/IV/2012), 3.
[25] N. 142AAS 107 (2015), 904-905.
[26] N. 82.
[27] Sínodo dos Bispos – Assembleia Especial para a Região Pan-AmazónicaInstrumentum laboris, 83.
[28] Francisco, Exort. ap. Evangelii gaudium (24/XI/2013), 239: AAS 105 (2013), 1116.
[29] Ibid., 218: o. c., 1110.
[31] Cf. Sínodo dos Bispos – Assembleia Especial para a Região Pan-AmazónicaInstrumentum laboris, 57.
[32] Cf. Evaristo Eduardo de Miranda, Quando o Amazonas corria para o Pacífico (Petrópolis 2007), 83-93.
[33] Juan Carlos Galeano, «Paisajes», in: Amazonia y otros poemas (ed. Universidade Externato de Colômbia - Bogotá 2011), 31.
[34] Javier Yglesias, «Llamado», in: Revista peruana de Literatura, 6 (junho 2007), 31.
[35] Francisco, Carta enc. Laudato si’ (24/V/2015), 144: AAS 107 (2015), 905.
[36] Francisco, Exort. ap. pós-sinodal Christus vivit (25/III/2019), 186.
[37] Ibid., 200.
[38] Francisco, Mensagem em vídeo para o Encontro Mundial da Juventude Indígena, (Soloy – Panamá 17-21/I/2019): L’Osservatore Romano (ed. portuguesa de 22/I/2019), 4.
[39] Mario Vargas Llosa, Prólogo de El Hablador (Madrid 08/X/2007).
[40] Francisco, Exort. ap. pós-sinodal Christus vivit (25/III/2019), 195.
[41]São João Paulo II, Carta enc. Centesimus annus (1/V/1991), 50: AAS 83 (1991), 856.
[42] V Conferência Geral do Episcopado Latino-americano e do Caribe, Documento de Aparecida (29/VI/2007), 97.
[43] Francisco, Discurso no Encontro com os Povos da Amazónia (Puerto Maldonado – Perú 19/I/2018): L’Osservatore Romano (ed. portuguesa de 25/I/2018), 9.
[44] Sínodo dos Bispos – Assembleia Especial para a Região Pan-AmazónicaInstrumentum laboris, 123-e.
[45] Francisco, Carta enc. Laudato si’ (24/V/2015), 144: AAS 107 (2015), 906.
[46] Cf. Bento XVI, Carta enc. Caritas in veritate (29/VI/2009), 51 [AAS 101 (2009), 687]: «A natureza, especialmente no nosso tempo, está tão integrada nas dinâmicas sociais e culturais que quase já não constitui uma variável independente. A desertificação e a penúria produtiva de algumas áreas agrícolas são fruto também do empobrecimento das populações que as habitam e do seu atraso».
[47] Mensagem para o Dia Mundial da Paz em 2007 (8/XII/2006), 8: Insegnamenti, II/2 (2006), 776.
[48] Francisco, Carta enc. Laudato si’ (24/V/2015), 16.91.117.138.240AAS 107 (2015), 854.884.894.903.941.
[49] Documento Bolívia: Relatório do País. Consulta pré-sinodal (2019), 36; cf. Sínodo dos Bispos – Assembleia Especial para a Região Pan-AmazónicaInstrumentum laboris, 23.
[50] Sínodo dos Bispos – Assembleia Especial para a Região Pan-AmazónicaInstrumentum laboris, 26.
[51] Francisco, Carta enc. Laudato si’ (24/V/2015), 146: AAS 107 (2015), 906.
[52] Documento com contribuições para o Sínodo da Diocese de San José del Guaviare e da Arquidiocese de Villavicencio y Granada (Colombia); cf. Sínodo dos Bispos – Assembleia Especial para a Região Pan-AmazónicaInstrumentum laboris, 17.
[53] Euclides da Cunha, Os Sertões (São Paulo 2003), 110.
[54] Pablo Neruda, «Amazonas», in: Canto General (1938), I, IV.
[55] Rede Eclesial Pan-Amazónica (REPAM), Brasil, Documento Eixo da Fronteira. Preparação para o Sínodo da Amazónia (Tabatinga – Brasil 13/II/2019), 3; cf. Sínodo dos Bispos – Assembleia Especial para a Região Pan-AmazónicaInstrumentum laboris, 8.
[56] Amadeu Thiago de Mello, Amazonas, pátria da água.
[57] Vinícius de Moraes, «A transformação pela poesia», in: jornal A Manhã (Rio de Janeiro 1946).
[58] Juan Carlos Galeano, «Los que creyeron», in: Amazonia y otros poemas (ed. Universidade Externato de Colombia - Bogotá 2011), 44.
[59] Harald Sioli, A Amazônia (Petrópolis 1985), 60.
[60] São João Paulo II, Discurso aos participantes num Congresso Internacional sobre «Ambiente e saúde» (24/III/1997), 2: Insegnamenti XX/1 (1997), 521.
[61] Francisco, Carta enc. Laudato si’ (24/V/2015), 34: AAS 107 (2015), 860.
[62] Cf. ibid., 28-31: o. c., 858-859.
[63] Ibid., 38: o. c., 862.
[64] Cf. V Conferência Geral do Episcopado Latino-americano e do Caribe, Documento de Aparecida (29/VI/2007), 86.
[65] Francisco, Carta enc. Laudato si’ (24/V/2015), 38: AAS 107 (2015), 862.
[66] Cf. ibid.144.187o. c., 905-906.921.
[67] Cf. ibid., 183: o. c., 920.
[68] Ibid., 53: o. c., 868.
[69] Cf. ibid., 49: o. c., 866.
[71] Francisco, Carta enc. Laudato si’ (24/V/2015), 56: AAS 107 (2015), 869.
[72] Ibid., 59: o. c., 870.
[73] Ibid., 33: o. c., 860.
[74] Ibid., 220: o. c., 934.
[75] Ibid., 215: o. c., 932.
[76] Sui Yun, Cantos para o mendigo e o rei (Wiesbaden 2000).
[77] Francisco, Carta enc. Laudato si’ (24/V/2015), 100: AAS 107 (2015), 887.
[78] Ibid., 204: o. c., 928.
[79] Cf. Documentos de Santarém (1972) e Manaus (1997), in: Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, Desafio missionário. Documentos da Igreja na Amazônia (Brasília 2014), 9-28.67-84.
[80] Francisco, Exort. ap. Evangelii gaudium (24/XI/2013), 220: AAS 105 (2013), 1110.
[81] Ibid., 164: o. c., 1088-1089.
[82] Ibid., 165: o. c., 1089.
[83] Ibid., 161: o. c., 1087.
[84] Assim o refere o Concílio Vaticano II, no n. 44 da Constituição Gaudium et spes, quando diz: «[A Igreja] aprendeu, desde os começos da sua história, a formular a mensagem de Cristo por meio dos conceitos e línguas dos diversos povos, e procurou ilustrá-la com o saber filosófico. Tudo isto com o fim de adaptar o Evangelho à capacidade de compreensão de todos e às exigências dos sábios. Esta maneira adaptada de pregar a palavra revelada deve permanecer a lei de toda a evangelização. Deste modo, com efeito, suscita-se em cada nação a possibilidade de exprimir a mensagem de Cristo segundo a sua maneira própria, ao mesmo tempo que se fomenta um intercâmbio vivo entre a Igreja e as diversas culturas dos diferentes povos».
[85] Francisco, Carta ao Povo de Deus que peregrina na Alemanha (29/VI/2019), 9.
[86] Cf. São Vicente de Lerins, Commonitorium primum, cap. 23: PL 50, 668: «Ut annis scilicet consolidetur, dilatetur tempore, sublimetur aetate – fortalece-se com o decorrer dos anos, desenvolve-se com o andar dos tempos, cresce através das idades».
[87] Francisco, Carta ao Povo de Deus que peregrina na Alemanha (29/VI/2019), 9; cf. a expressão atribuída a Gustav Mahler: «A tradição é a salvaguarda do futuro, não a conservação das cinzas».
[88] Discurso no encontro com os professores universitários e os homens de cultura (Coimbra 15/V/1982), 5: Insegnamenti V/2 (1982), 1702-1703.
[89] Mensagem aos indígenas do Continente Americano (Santo Domingo 12/X/1992), 6: Insegnamenti, XV/2 (1982), 346; cf. Discurso aos participantes no I Congresso Nacional do Movimento Eclesial de Empenho Cultural (16/I/1982), 2: Insegnamenti, V/1 (1982), 131.
[90] São João Paulo II, Exort. ap. pós-sinodal Vita consecrata (25/III/1996), 98: AAS 88 (1996), 474-475.
[91] N. 115AAS 105 (2013), 1068.
[92] Ibid., 116: o. c., 1068.
[94] Ibid., 129: o. c., 1074.
[95] Ibid., 116: o. c., 1068.
[96] Ibid., 117: o. c., 1069.
[98] São João Paulo II, Discurso à Assembleia Plenária do Pontifício Conselho para a Cultura (17/I/1987), 5: Insegnamenti X/1 (1987), 125.
[99] Francisco, Exort. ap. Evangelii gaudium (24/XI/2013), 129: AAS 105 (2013), 1074.
[100] IV Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano e do Caribe, Documento de Santo Domingo (12-28/X/1992), 17.
[101] Francisco, Exort. ap. Evangelii gaudium (24/XI/2013), 198: AAS 105 (2013), 1103.
[102] Cf. Joseph Ratzinger, Diálogos sobre a Fé, apresentados por Vittorio Messori (Ed. Verbo – Lisboa 2005), 159-165.
[103] Francisco, Exort. ap. Evangelii gaudium (24/XI/2013), 198: AAS 105 (2013), 1103.
[104] Pedro Casaldáliga, «Carta de navegar (pelo Tocantins amazónico)», in: El tiempo y la espera (Santander 1986).
[105] Como explica São Tomás de Aquino, «a maneira como Deus está nas coisas é tríplice: uma é comum, por essência, presença e poder; outra, pela graça nos seus santos; a terceira, singular de Cristo, pela união» (Ad Colossenses, c. II, lectio 2).
[106] Francisco, Carta enc. Laudato si’ (24/V/2015), 235: AAS 107 (2015), 939.
[107] III Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano e do Caribe, Documento de Puebla (23/III/1979), 196.
[108] Francisco, Exort. ap. Evangelii gaudium (24/XI/2013), 178: AAS 105 (2013), 1094.
[109] Conc. Ecum. Vat. II, Const. dogm. sobre a Igreja Lumen gentium, 11; cf. Francisco, Exort. ap. Gaudete et exsultate (19/III/2018), 10-11.
[110] Vicariatos Apostólicos da Amazónia Peruana, «Segunda asamblea episcopal regional de la selva» (San Ramón – Perú 05/X/1973), in: Éxodo de la Iglesia en la Amazonia. Documentos pastorales de la Iglesia en la Amazonia peruana (Iquitos 1976), 121.
[111] Francisco, Exort. ap. Evangelii gaudium (24/XI/2013), 123: AAS 105 (2013), 1071.
[112] Cf. Francisco, Exort. ap. Gaudete et exsultate (19/III/2018), 126-127.
[113] Ibid., 32.
[114] Francisco, Carta enc. Laudato si’ (24/V/2015), 235: AAS 107 (2015), 939.
[116] Ibid., 236: o. c., 940.
[118] Ibid., 235: o. c., 939.
[119] Cf. Const. sobre a Liturgia Sacrosanctum Concilium, 37-40.65.77.81.
[120] No Sínodo, surgiu a proposta de se elaborar um «rito amazónico».
[121] Francisco, Carta enc. Laudato si’ (24/V/2015), 237: AAS 107 (2015), 940.
[122] Francisco, Exort. ap. pós-sinodal Amoris laetitia (19/III/2016), 49: AAS 108 (2016), 331; cf. ibid., 305: o. c., 436-437.
[123] Cf. ibid., 296.308: o. c., 430-431.438.
[124] V Conferência Geral do Episcopado Latino-americano e do Caribe, Documento de Aparecida (29/VI/2007), 100-e.
[125] Cf. CONGREGAÇÃO PARA A DOUTRINA DA FÉ, Carta aos Bispos da Igreja Católica sobre algumas questões concernentes ao Ministro da Eucaristia Sacerdotium ministeriale (6/VIII/1983): AAS 75 (1983), 1001-1009.
[126] Carta ap. Mulieris dignitatem (15/VIII/1988), 27: AAS 80 (1988), 1718.
[127] São Tomás de Aquino, Summa Theologiae III, q. 8, a. 1, resp.
[128] Cf. Conc. Ecum. Vat. II, Decr. sobre o ministério e a vida dos sacerdotes Presbyterorum ordinis, 5; São João Paulo II, Carta enc. Ecclesia de Eucharistia (17/IV/2003), 22: AAS 95 (2003), 448.
[129] Também é próprio do sacerdote administrar a Unção dos Enfermos, por estar intimamente ligada ao perdão dos pecados: «E, se tiver cometido pecados, ser-lhe-ão perdoados» (Tg 5, 15).
[130] Catecismo da Igreja Católica, 1396; cf. São João Paulo II, Carta enc. Ecclesia de Eucharistia (17/IV/2003), 26: AAS 95 (2003), 451; Henry de Lubac, Meditation sur l’Église (Paris 1968), 101.
[131] Conc. Ecum. Vat. II, Decr. sobre o ministério e a vida dos sacerdotes Presbyterorum ordinis, 6.
[132] Impressiona o facto de haver, em alguns países da bacia amazónica, mais missionários para a Europa ou os Estados Unidos do que para ajudar nos próprios Vicariatos da Amazónia.
[133] No Sínodo, falou-se também da falta de Seminários para a formação sacerdotal de pessoas indígenas.
[134] Cf. Conc. Ecum. Vat. II, Const. dogm. sobre a Igreja Lumen gentium, 3.
[135] São Paulo VI, Homilia na Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo (17/VI/1965): Insegnamenti III (1965), 358.
[136] É possível, por escassez de sacerdotes, que o Bispo confie uma «participação no exercício do serviço pastoral da paróquia (…) a um diácono ou a outra pessoa que não possua o caráter sacerdotal, ou a uma comunidade» (Código de Direito Canónico, 517-§ 2.
[137] V Conferência Geral do Episcopado Latino-americano e do Caribe, Documento de Aparecida (29/VI/2007), 178.
[138] Ibid., 475.
[139] Sínodo dos Bispos – Assembleia Especial para a Região Pan-AmazónicaInstrumentum laboris, 65.
[140] Ibid., 63.
[141] Ibid., 129-d 2.
[142] Francisco,Exort. ap. Evangelii gaudium (24/XI/2013), 228: AAS 105 (2013), 1113.
[143] Ibid., 226: o. c., 1112.
[144] Conc. Ecum. Vat.  II, Decl. sobre as relações da Igreja com as religiões não-cristãs Nostra aetate, 2.
[145] CELAM, III Simposio latinoamericano sobre Teología india (Cidade de Guatemala 23-27/X/2006).


8 de fevereiro de 2020

Até qualquer hora meu caro Max


É curioso como o passado às vezes nos encontra de repente e se faz vivo na memória, misturando a saudade com as lembranças de um tempo que ficou perdido lá atrás.
Hoje, o amigo Bruno me deu há pouco a notícia de que o ex-padre Max voou para a eternidade.
Max fez parte de minha adolescência naqueles atribulados anos sessenta, especialmente no final da década, quando politicamente as coisas eram bem quentes, até o AI-5 vir nos golpear de morte. Na época ela era seminarista e estagiava na Matriz da Tijuca onde tínhamos o nosso grupo de jovens. Algo meio clandestino, no porão da Igreja, a despeito de existir um grupo de jovens oficial da paróquia que acontecia na igreja o mesmo horário. Max se dividia nos dois grupos. Mas era lá ,na naquele misto de capela e “catacumba cristã”, que nos reuníamos todo domingo para celebrar uma missa, da qual até hoje, cinquenta anos depois, eu sinto uma enorme saudade, pela profundidade da mística espiritual que tínhamos lá. Assessorados pelo padre Bruno Trombetta, que também já não está entre nós, e pelo padre Max trabalhávamos para como dizia o Dom, para não deixar a profecia cair.
Lembro até hoje do dia que juntos choramos com a decretação do AI-5, da revpolta por saber da prisão do Frei Betto e da morte dos irmãos da Fátima pela ditadura, no episódio que ficou conhecido como a chacina de Quintino.
Max sofreu bastante depois de ordenado com D. Eugenio. Foi envolvido num escândalo da época com a filha de um investigador, porque se recusou a revelar um segredo de confissão. O investigador tentou envolve-lo e ele quis processar o investigador, mas foi proibido pelo bispo que ainda o transferiu para uma paróquia no subúrbio. Mas ele logo virou notícia porque resolveu cuidar da terceira idade com aulas de dança e mais uma vez o bispo não gostou e o mandou para uma outra paróquia.
Nunca mais soube dele, lamentavelmente a vida nos dispersou.
Muito tempo depois soube por amigos que ele havia abandonado o sacerdócio.
Há poucos anos atrás encontrei o vídeo abaixo, na internet,  em que ele fala daquela época e relembra alguns fatos e pessoas.
Max junto com o padre Bruno foram pessoas que considero formadores de minha vida pessoal e espiritual, a quem sou infinitamente grato. Peço ao bom Deus que o Max possa encontrar o caminho de casa e lá se reunir com os que já foram e festejar, como ele gostava.
Uma das coisas que jamais esqueci, é uma frase que ele sempre nos dizia, em meio a uma gostosa gargalhada, quando nos reuníamos, muitas vezes num bar, após a missa.
“ Voces são jovens muito revolucionários, a maioria de seus pais são extremamente reacionários, mas  não se enganem, a história é cíclica e no futuro, vocês vão ver jovens tão reacionários como seus país” E não é que ele estava certo.

Vá em paz meu caro amigo Max e de lá do alto reze por nós e pelo nosso Brasil por quem tanto sonhamos e lutamos.
Um grande e saudoso abraço.



 

26 de janeiro de 2020

Significado do nome dos Bairros do Rio de Janeiro


Por 
Rio de Janeiro tem dezenas de bairros, alguns com nomes curiosos (como Piedade), outros cercados de lendas (Urca, Realengo, Valqueire), fora homenagens a grandes proprietários de terras, famílias antigas e nobres. A maior curiosidade é a história do Leblon, Flamengo e Urca, que teria o nome devido ao mesmo homem… um holandês, que pensam que é francês ou flamengo, se chamava Olivier van Noort, o apelido é Charles LeBron,  ou LeBlond e chegou ao Rio em seu navio URCA. Pode até ser mentira, mas deve ser bem mais interessante que a verdade. O post é de 2008,mas desde aquela época vem sendo atualizado.

Abolição
O nome provavelmente tem origem na antiga alcunha da Rua da Abolição, 13 de maio, dia da abolição dos escravos no Brasil.

Acari
O nome do bairro vem do Rio Acari. Acari, por sua vez, é um tipo de peixe. Hoje chamada de Favela de Acari, a região é a junção do Conjunto Amarelinho, construído no final dos anos 50 na beira da Avenida Brasil, e mais quatro localidades: Parque (Proletário) Acari, Vila Rica de Irajá, Coroado e Vila Esperança.

Água Santa
Água mineral jorrava de uma fonte localizada nessa área. Ela era engarrafada e vendida na região.
Alto da Boa Vista
O nome tem origem na bela paisagem que se admira das encostas do Maciço da Tijuca. No início era a serra, depois vieram as plantações de café que desmataram os morros e alteraram a vazão de rios da região. D. Pedro II determinou em 1861 o reflorestamento de toda a área, feito pelo Major Archer.

Andaraí
Seu nome provém da expressão indígena “Andirá-y Açu”, que significa “Rio Grande dos Morcegos”, na linguagem dos índios tamoios que habitavam a região. O “Rio dos Morcegos” hoje é denominado Rio Joana, que atravessa o bairro, dividindo as duas pistas da Rua Maxwell. Outra versão diz que vem do Pico do Andaraí, cuja tradução do tupi para o português seria “empinado para cima”

Anil
No local, existiram arbustos nativos cujos frutos eram o anil. Inicialmente, a região era ocupada por engenhos. Depois vieram as fazendas onde se plantava café.

Bangu
Corruptela de u bang ú (“a barreira negra”) ou bang ú (“cercado por morros”) na linguagem dos índios. Outra possibilidade está relacionada à palavra africana bangüê, utilizada pelos escravos para se referir ao local do engenho onde se guardava o bagaço da cana-de-açúcar que, após moída, alimentava o gado. O termo ficou consagrado ainda, como denominação de uma espécie de padiola feita de tiras de couro ou fibras trançadas, usada para transportar cana-de-açúcar e outros materiais de forma improvisada. Daí nasceu a expressão “fazer à bangu”, ou seja, sem cuidado, de qualquer jeito.possui 2 versões para o nome: “paredão negro ou escurecido”, numa referência à grande sombra projetada pelo Maciço da Pedra Branca sobre o vale onde Bangu se localiza. A segunda versão atribuí a palavra “banguê” (corruptela de bangu), vocábulo africano, simbolizando uma espécie de padiola construída de couro ou trançado de fibras, amarrada a dois varais e conduzida por dois homens, usada para transporte de cana-de-açúcar, tijolos e outros materiais. É possível, inclusive, que desse processo meio desordenado de transporte tenha surgido a conhecida expressão “à bangu”, que é “fazer alguma coisa sem a menor técnica, de improviso”.

Barra da Tijuca
Depósitos de aluvião formados nas desembocaduras de rios e canais são o que se chama de barra. No caso do bairro, o depósito é formado pelo encontro das águas do conjunto de lagoas da região (entre as quais, a Lagoa da Tijuca) com o Oceano Atlântico, através do Canal da Joatinga. Tijuca, por sua vez, significa “água podre” em tupi.

Barra de Guaratiba
Na cartografia do século 17, a área já tinha esse nome, que vem do tupi e significa “sítio em que abundam as garças”. O bairro se encontra na faixa entre manguezais e a Serra Geral de Guaratiba.

Barros Filho
A família Costa Barros era proprietária dos latifúndios na região. O pai passou toda a área para seu herdeiro, Barros Filho. Entre os anos de 1892 e 1898 foi instalada a estação de trem que deu nome ao bairro atravessado pela Avenida Brasil.

Benfica
Antigamente, os moradores chamavam a região de Praia Pequena e Praia Grande devido às praias que existiam no local. A partir de determinado momento, não se sabe ao certo quando, começaram a chamar o local de Benfica. Estudiosos apostam na influência de moradores portugueses, população em massa do local (existe em Lisboa, Portugal, uma região que leva o mesmo nome).

Bento Ribeiro
Homenagem a Bento Manuel Ribeiro Carneiro Monteiro, general e prefeito do Rio de 1910 a 1914, no governo do Marechal Hermes da Fonseca.

Bonsucesso
O nome “Bonsucesso” vem de D. Cecília Vieira de Bonsucesso, que, em 1754, reformou a capela da região, cortada pelo Rio Faria.

Brás de Pina
Brás de Pina era, no século 18, o proprietário da região que originou o bairro. Era, também, contratante da pesca da baleia e mantinha um engenho de açúcar e aguardente.

Botafogo
Acabou sendo batizado em 1590, quando Antônio Francisco Velho vendeu suas terras para um amigo, João Pereira de Souza Botafogo. O sobrenome era dado em Portugal aos especialistas em armas de fogo manuais. Brás de Pina – deve-se ao antigo proprietário de suas terras, Brás de Pina, que aqui mantinha um engenho de açúcar no século XVIII.

Cachambi
Caxamby, de origem indígena, significa feixo, laço que amarra o capim ou mato trançado. Suas terras eram formadas por vastos capinzais, muito procurados para alimentar os animais, o que valorizava o terreno.

Camorim
Derivado do tupi camury, que significa “mata com muitos mosquitos”, o nome designa o bairro e sua principal estrada de acesso. Toda essa região pertencia a Gonçalo Correia de Sá, onde, em 1625, mandou levantar a capela de São Gonçalo de Amarante, padroeiro do lugar, que existe até hoje.

Campinho
No cruzamento das atuais ruas Intendente Magalhães e Ernani Cardoso com a Cândido Benício e a Domingos Lopes havia um local em que os viajantes costumavam descansar, próximo a um pequeno campo onde havia uma feira de gado – o campinho, como era chamada -, que acabou dando nome ao lugar.

Campo dos Afonsos
A área era ocupada pelo Engenho dos Afonsos, um vasto campo onde se produzia açúcar e se criava gado. Antes da 1ª Guerra Mundial, o Campo dos Afonsos foi ocupado pela Aeronáutica Civil e Militar e lá foi instalada a primeira escola de aviação do Rio de Janeiro, em 1913.

Campo Grande
As terras que iam do atual bairro de Deodoro, passavam por Bangu e iam até Cosmos faziam parte das paragens conhecidas como o “campo grande”.

Cascadura
A origem do nome do bairro tem três versões: a primeira está ligada à inglesa Maria Graham, que relatou, em 1824, um passeio à Fazenda Real de Santa Cruz, fazendo referência ao local como “Casca D’Ouro”. A segunda remonta à dificuldade que os operários tiveram para abrir, com picaretas, a pedreira na construção da estrada de ferro – o conjunto de pedras ganhou o apelido de “casca dura”. A terceira, por fim, diz respeito a um dos primeiros moradores da região, um comerciante bastante difícil, fechado para negociações e doações.

Caju
As chácaras e sítios da região tinham muitos cajueiros, daí o nome do bairro. Mas há outra versão que diz ser devido  a um morro localizado no bairro que tinha o formato de uma castanha de caju

Catete
Significa, em tupi, “mato fechado”, e correspondia a um braço do Rio Carioca que contornava o outeiro da Glória e desembocava no mar.

Catumbi
A origem do bairro é um arraial às margens do Rio Catumbi (“água do mato escuro” ou “rio sombreado”) habitado por ricos proprietários de terras e escravos.

Cavalcanti
Com a construção da antiga Estrada de Ferro Melhoramentos do Brasil, em 1892, foi implantada na região a estação Cavalcanti, uma homenagem a Matias Cavalcanti, encarregado do tráfego da Central.

Centro
Após a derrota imposta aos franceses invasores em 1567, o núcleo original da Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro foi transferido da Urca para o Morro do Castelo, um local mais protegido dos ataques de estrangeiros e nativos hostis. Aos poucos, a população começou a ocupar a planície localizada entre os morros do Castelo, de Santo Antônio, de São Bento e da Conceição e a aterrar os pântanos e lagoas existentes nesta área central, portanto centro da cidade. O Governador-geral Mem de Sá administrou o Rio até junho de 1568, quando então nomeou seu sobrinho, Salvador Correia de Sá, capitão e governador. Começaram aí, de fato, as atividades econômicas, sociais e o início do desenvolvimento urbano carioca.

Cidade de Deus
Na década de 1960, o governador Carlos Lacerda implementou uma política de remoção das favelas situadas na Zona Sul da cidade. Para isso, autorizou a construção de um grande conjunto habitacional na baixada de Jacarepaguá. Surgiu assim a Cidade de Deus. Desde o planejamento do conjunto, a ideia era usar nomes bíblicos em logradouros. Sendo assim, suas ruas têm nomes de personagens e cidades bíblicas, principalmente do Antigo Testamento.

Cidade Nova
Tem registros que remontam ao período do reinado de D. João VI. Até o início do século XIX, a região era um alagadiço que servia de rota de passagem entre o Centro e as zonas rurais da Tijuca e São Cristóvão. Com os aterros feitos com a intenção de melhorar esta travessia, surgiu o projeto de impulsionar o crescimento da cidade para a área, daí o nome.

Coelho Neto
Originalmente, a região era denominada Areal. A família Amaral era a principal proprietária das terras. Com a implantação da Estrada de Ferro Rio D’Ouro, foi construída a estação do Areal, que depois passou a se chamar Coelho Neto, uma homenagem a Henrique Maximiano Coelho Neto (1864-1934), famoso escritor, jornalista e membro da Academia Brasileira de Letras que ocupou a cadeira 2.

Colégio
Na região onde hoje está o bairro havia apenas um professor público, José Teodoro Burlamaqui. O seu colégio, de 1860, ficava no cruzamento das estradas da Pavuna e Barro Vermelho, cuja continuação ganharia o nome de Estrada do Colégio.

Complexo do Alemão
A ocupação da Serra da Misericórdia ocorreu no início do século 19 com Francisco José Ferreira Rego. Seus herdeiros venderam as terras para Joaquim Leandro da Motta, que dividiu a propriedade em grandes lotes. Um deles foi vendido para Leonard Kacsmarkiewiez, polonês refugiado da Primeira Guerra Mundial que ficou conhecido pelo apelido de “Alemão”, nome depois dado ao morro que lhe pertencia.

Copacabana
Significa mirante do azul, na língua Inca Quichua. Também existe uma cidade boliviana nas margens do Lago Titicaca com o nome de Copacabana. Originalmente, o nome do bairro era Sacopenapã que  era um areal deserto quando pescadores ergueram uma capelinha no extremo sul da praia. Nela foi colocada a cópia de uma imagem de Nossa Senhora de Copacabana, trazida por mercadores de prata bolivianos. A igreja foi destruída para dar lugar ao Forte de Copacabana.

Cordovil
No século 17, as terras pertenciam a Bartolomeu de Siqueira Cordovil. O Engenho dos Cordovil possuía extensos canaviais que se espalhavam pela planície em direção a Irajá..

Cosme Velho
É uma homenagem ao comerciante português Cosme Velho Pereira que, no século XVI, habitava a parte mais alta do vale do Carioca. Na parte mais baixa do vale havia grande número de laranjeiras, também originando o nome do bairro vizinho, “Laranjeiras”.

Cosmos
Nas terras que pertenceram ao Engenho da Paciência, a Companhia Imobiliária Cosmos construiu um grande loteamento, a Vila Igaratá. Quando foi implantado o ramal ferroviário de Mangaratiba, uma área foi cedida para a construção da Estação Cosmos, inaugurada em 1928, que deu nome ao bairro.

Costa Barros
A região abrigava as fazendas da família Costa Barros, daí o nome do bairro.

Curicica
Corruptela de ya-cury-ycica, “a árvore que baba”, da família das palmáceas, o nome designou também a antiga Estrada de Jacarepaguá que dava acesso à baixada fronteiriça ao Morro Dois Irmãos e limitada pela Estrada de Guaratiba (atual Bandeirantes).

Del Castilho
Com a construção da Estrada de Ferro Melhoramentos do Brasil (depois Linha Auxiliar) em 1892, foi implantada na região a estação Del Castilho, em homenagem a um engenheiro amigo de Paulo de Frontin.

Deodoro
A região era ocupada pelo Engenho Sapopemba (raiz achatada e trançada), fundado por Gaspar da Costa em 1612, e pela fazenda do Gericinó, na extensa baixada do Maciço do Gericinó. Com a chegada da Estrada de Ferro Central do Brasil, foi inaugurada, em 1859, a estação Sapopemba que, depois da instauração da República, passou a se chamar Deodoro em homenagem ao Marechal Deodoro da Fonseca. Ela se tornou uma das maiores do subúrbio.

Encantado
Segundo a tradição local, a origem do nome está relacionada ao rio que corria em suas redondezas, o Rio Faria. Dizia-se que suas águas encantadas tragavam tudo que nelas caíssem, até uma carroça com condutor, cargas e burro.

Engenheiro Leal
Este pequeno bairro situado no sopé do morro do Dendê era terra do Engenho da Portela, da família Cardoso Quintão. Sua origem é a implantação da Estrada de Ferro Melhoramentos do Brasil, depois chamada de Linha Auxiliar, em 1892. Nela, foi instalada a Estação Engenheiro Leal, companheiro de Paulo de Frontin e Magno de Carvalho, no início do século 20.

Engenho da Rainha
As terras pertenciam inicialmente ao Engenho da Pedra ou de Bonsucesso, e se expandiam desde a orla da Baía de Guanabara até Inhaúma. A rainha Dona Carlota Joaquina, esposa de Dom João VI, comprou uma quarta parte do engenho onde havia uma casa de 15 quartos, próxima à atual Rua Dona Luísa. Por isso o nome do bairro.

Engenho de Dentro
O nome surgiu de um engenho de açúcar existente no local, que pertencia ao mestre de campos João Árias de Aguirre, no século XVIII.  A abertura da Estrada de Ferro Dom Pedro II, depois Central do Brasil, trouxe ao bairro grandes oficinas ferroviárias, consideradas as mais importantes da América Latina em 1881. A estação do Engenho de Dentro foi inaugurada em 1873 e, mais tarde, foi demolida. Em 1937, foi construída a atual.

Engenho Novo
O nome tem origem no Engenho Novo dos Jesuítas, construído em 1707.

Estácio
A região era um matagal onde se refugiavam os porcos dos matadouros próximos, daí seu antigo nome de Mata-Porcos. Quando foi se firmando como bairro, com a chegada de cada vez mais moradores, a área passou a se chamar Estácio em homenagem ao fundador da Cidade, Estácio de Sá.

Flamengo
uma homenagem ao navegador flamengo, na verdade holandês, Olivier Van Noort, também conhecido como LeBlond. Há outras duas versões, que vem dos prisioneiros holandeses da região, ou os flamengos. Ou mesmo relacionado aos flamingos que frequentavam a região na época.

Gamboa
A alcunha deste bairro, que tinha uma das mais antigas praias do litoral carioca urbano, está ligada às gamboas ou camboas, pequenas represas feitas pelos pescadores locais para prender os peixes que entravam nas águas calmas entre a Praia da Saúde e o Saco do Alferes.

Gardênia Azul
O bairro fica nas terras do antigo Engenho D’Água de Jacarepaguá, fundado pelo filho do Barão da Taquara, o médico e vereador Francisco Pinto da Fonseca. Na década de 1960, foi implantado o loteamento que deu nome ao bairro, com acesso pelas estradas do Capão (atual Avenida Tenente Coronel Muniz de Aragão) e do Engenho D’Água.

Gávea
Devido à vista privilegiada da Pedra da Gávea (embora esta se localize em São Conrado, outro bairro), que por sua vez foi assim batizada por ter em seu topo uma formação rochosa semelhante à gávea dos navios.

Gericinó
Corruptela de Iarí-Airy (“em cima, no alto”) e Cin-ó (“liso e fechado”), ou seja, “morro liso e fechado”, Gericinó levou o nome do morro homônimo de 889 metros de altura na divisa com o município de Mesquita. O novo bairro foi desmembrado de Bangu oficialmente em 2004.

Glória
O bairro deve seu nome à Igreja de Nossa Senhora da Glória do Outeiro, uma das primeiras construídas na cidade no século XVIII, em torno da qual se consolidou o povoamento da região.

Grajaú
Foi dado em homenagem a cidade de Grajaú, terra natal do engenheiro que projetou, em 1920, o bairro, Antônio Eugênio Richard Júnior, no interior do Maranhão. Várias ruas do bairro tem nome de cidades e rios maranhenses. Richard vem a ser avô de Sergio Castro, empresário do ramo imobiliário e fundador da Sergio Castro Imóveis, logo Richard é bisavô do atual diretor da empresa, Claudio Castro.

Grumari
Do indígena “curu” (seixos, pedras soltas) e “mari” (que produz água), também designa uma árvore encontrada nas encostas da região. Cercada pelas serras do Grumari, de Guaratiba e de Piabas, é a última área natural e preservada do litoral carioca, incluindo a praia do Grumari, a vegetação de restinga e as praias selvagens acessíveis por trilhas.

Guadalupe
O nome do bairro foi uma sugestão de Dona Darcy Vargas, esposa do presidente Getúlio Vargas, em homenagem à padroeira da América Latina, Nossa Senhora de Guadalupe.

Guaratiba
Em indígena, significa “abundância de guarás”, aves aquáticas pernaltas. A Freguesia de Guaratiba foi criada em 1755, por iniciativa de Dom José de Barros Alarcão, com terras desmembradas da Freguesia de Irajá.

Higienópolis
Originalmente, a área era ocupada por uma fazenda com lavouras. Foi, mais tarde, convertida pela família Darke de Matos, proprietária do Café Globo, no bairro “Cidade Jardim Higienópolis”. O projeto é de 1934, durante a gestão do prefeito Pedro Ernesto.

Honório Gurgel
Com a inauguração da Estrada de Ferro Melhoramentos do Brasil (depois Linha Auxiliar), em 1892, a região passou a abrigar a Estação de Munguengue. Mais tarde, ela teve o nome alterado para Honório Gurgel em homenagem ao Tenente Honório Gurgel do Amaral, vereador cujo pai possuía uma fazenda em Irajá.

Humaitá
Seu nome provém da batalha do Humaitá, travada na Guerra do Paraguai. Os índios chamavam a região de Itaóca, devido à gruta que existia naquela área.

Inhaúma
Vem de “i” (água) e “n-hdú” (lodo, lama, barro), ou seja, “água suja”. Designava a extensa planície entre a Baía de Guanabara, a Serra da Misericórdia, e os morros dos Urubus e Juramento. Originalmente existia na região uma aldeia de índios tamoios.

Inhoaíba
O nome é uma corruptela de “nhu” (campo), “ahyba” (ruim), denominação dada pelos indígenas à baixada entre a serra de mesmo nome e Campo Grande. Com a implantação do ramal ferroviário de Mangaratiba, atual ramal de Santa Cruz, foi inaugurada em 1912 a estação Engenheiro Trindade, depois chamada de Inhoaíba. Ficou assim consolidado o nome do bairro. Porém, há quem diga que venha de “Terras do Senhor Aníbal”. Como se falava Nhô Anibal, pegou, foi indo até chegar ao Inhoaíba.

Itanhagá
Este nome tem origem na grande pedra situada à beira da Lagoa da Tijuca: Ita (pedra) e Anhangá (fantasmagórica), ou ”pedra que fala”. Os ventos produziam sons que apavoravam os indígenas.

Ipanema
Significa “águas perigosas” em tupi. Mas o nome não se refere ao bairro e sim a um rio paulista, em Iperó. O bairro recebeu esse em homenagem ao primeiro Barão Conde de Ipanema (não por acaso nome de uma rua em Copacabana), por seu filho o 2º Barão de Ipanema, o Comendador José Antonio Moreira Filho, que adquiriu um dos dois lotes da antiga Fazenda Copacabana. Em 1883 o Barão de Ipanema criou o Loteamento Villa Ipanema, tendo como sócio Antonio José Silva e o autor do projeto, o engenheiro Luís Raphael Vieira Souto, no que viria a ser Ipanema.

Irajá
A origem deste nome tem duas versões. Na primeira, Irajá significa “o mel brota”, nome dado pelos índios Muduriás que habitavam a região. Na segunda, o nome viria de “Aribo” (rio que brota do alto do morro e cai abaixo), referindo-se ao Rio Irajá, que nasce no Morro do Juramento e deságua na Baía de Guanabara..

Jacaré
É uma corruptela de “yacaré” (torto, sinuoso), em alusão às voltas que o Rio Jacaré dá.

Jacarepaguá
Deriva-se de três palavras da língua Tupi-Guarani: YACARE (jacaré), UPÁ (lagoa) e GUÁ (baixa) – A “Baixa lagoa dos jacarés”. Na época da colonização, as lagoas da baixada de Jacarepaguá eram repletas de jacarés.

Jacarezinho
Na região do atual bairro Jacaré existia uma chácara entre o rio e a antiga fábrica Cruzeiro (depois substituída pela General Eletric), ocupada por casebres. Os moradores eram considerados invasores e, a partir da década de 1920, a população foi aumentando devido à instalação de indústrias na região e na Avenida Suburbana (atual Dom Helder Câmara). Com as migrações dos anos 50, a área sofreu adensamento considerável, com consequente valorização da terra, o que levou um de seus donos à justiça para remover os moradores. A população residente reagiu e conseguiu permanecer no local fazendo com que as terras fossem restituídas ao governo. Em 1980, foram realizadas obras de infraestrutura na comunidade (ou favela) do Jacarezinho. Seis anos depois, foi criada a XXVIII Região

Jardim América
Originou-se no Projeto de Arruamento e Loteamento Proletário denominado “Jardim América” em terreno situado à Rodovia Presidente Dutra. O loteamento, de 1957, resultou em 39 logradouros, 2782 lotes residenciais, 124 comerciais e 90 industriais atravessados pelo Rio dos Cachorros e pela faixa das linhas de transmissão elétrica da Light.

Ilha do Governador
Habitada pelos índios Temiminós, que a abandonaram em conseqüência dos ataques de inimigos Tamoios e traficantes franceses de pau-brasil, os quais foram definitivamente expulsos em 1567, pelos portugueses foi doada a 5 de setembro desse ano por Mem de Sá a seu sobrinho Salvador Correia de Sá (o Velho), futuro governador (daí o nome do bairro) da capitania. Ele se instalou na ilha em posição privilegiada, na elevação acima da atual Praia do Engenho Velho, de onde tinha o controle da Baía de Guanabara.

Jardim Botânico
Leva esse nome por ser a localização do Jardim Botânico do Rio de Janeiro, fundado por Dom João VI.

Jardim Sulacap
Tem como origem o projeto de arruamento e loteamento feito em 1951 pela Cia Sul América Capitalização S.A. (daí o nome), junto à estrada Intendente Magalhães e ao Campo dos Afonsos. O bairro é predominantemente residencial e sua população é formada, em sua maioria, por famílias de militares.

Joá
A denominação do bairro é originária do nome de um antigo morador, o francês Laurence Anchois, cujo sobrenome era pronunciado “Chuá”. Outra versão diz respeito ao morro da região, o Joatinga, que vem de yuá-tinga e significa “limoso, esbranquiçado”

Lagoa
A região tem como referencial histórico e atual a Lagoa de Sacopenapã, nome dado pelos índios Tupinambás, que significava “local ou caminho dos socós”, aves pernaltas comuns nessas paragens. Também a denominavam de Capopenipem, local de raízes chatas do fundo lamacento da lagoa.

Laranjeiras
Na época do Rio Colonial, havia sítios e chácaras com muitas laranjeiras nesta região, o que acabou dando nome ao bairro.

Largo do Pechincha
Recebeu o nome devido ao comércio tradicional e forte, onde funcionava um grande mercado, frequentado por pessoas de todas as partes da cidade que barganhavam na hora de comprar as mercadorias. Então, quando se queria comprar alguma coisa, as pessoas diziam que iam pechinchar no largo.

Leblon
O nome teve sua origem numa chácara pertencente ao holandês Charles Le Blon que existia no local em meados do Século XIX e passou a ser chamado de Campo do Leblon. Em 1845 virou uma fazenda de gado.

Leme
Por causa da Pedra do Leme, contornada pelas praias da Urca e Botafogo e cujo formato, visto de cima, se assemelha ao do leme de um navio.

Lins de Vasconcelos
Médico-Major Modesto Benjamim Lins de Vasconcelos possuía propriedade no alto da Estrada da Serra do Matheus, que depois levou o nome de sua tradicional família, Lins de Vasconcelos.

Madureira
O nome do bairro vem de Lourenço Madureira, que, no século 19, era lavrador e criador de gado em terras da antiga Fazenda do Campinho, existente desde o início do século 17.

Magalhães Bastos
Originalmente, o local era conhecido como Fazenda das Mangueiras e, depois, Vila São José. Com a inauguração do ramal ferroviário de Mangaratiba, em 1878, foi implantada a estação Coronel Magalhães Bastos em homenagem a Antonio Leite de Magalhães Bastos Filho, comandante do primeiro batalhão de engenharia, que deu nome ao bairro.

Mangueira
As terras pertenciam ao Visconde de Niterói e ficavam juntas ao Morro do Telégrafo, assim chamado pela inauguração, em 1852, do primeiro telégrafo aéreo do Brasil, próximo à Quinta da Boa Vista. Ali foi instalada a Fábrica de Fernando Fraga, que produzia chapéus e passou a ser conhecida como Fábrica das Mangueiras pela intensa produção de mangas na região. A indústria acabou adotando o nome de Fábrica de Chapéus Mangueira. A Central do Brasil aproveitou a popularização da alcunha e batizou de Mangueira a estação de trem inaugurada em 1889.

Manguinhos
Como o próprio nome diz, tratava-se de uma grande região alagadiça, repleta de mangues, situada entre o Caju, a Praia Pequena de Benfica e as terras do Engenho da Pedra, prolongamento do antigo Saco de Inhaúma, na Baía de Guanabara. Incluía a ilha do Pinheiro e a ilha do Bom Jardim.

Maracanã
Vem do tupi maraka’nã, que significa papagaio. Provavelmente o rio homônimo recebeu este nome por ter suas cercanias habitadas por uma ou mais espécies destes pássaros.

Maré
Toda a região era constituída por pântanos e manguezais junto à orla da Baía de Guanabara. O termo “maré” tem origem no fenômeno natural que afligia os moradores das palafitas da região a partir da década de 1940.

Marechal Hermes
Fundado em 1913, o bairro foi o primeiro no Brasil implantado como uma vila proletária e planejado para ser estritamente residencial, com direito à infraestrutura de serviços públicos. Foi idealizado pelo então presidente Marechal Hermes da Fonseca para suprir a carência de moradias populares.

Maria da Graça
Na região ficava a Fazenda Maria da Graça, da família Cardoso Martins. Foi adquirida, mais tarde, pela Companhia Imobiliária Nacional que, em 1934, fez o arruamento e loteamento do bairro.

Méier
As terras abrigavam, no início do século 19, a extensa Quinta dos Duques, de José Paulo da Mata Duque Estrada e Dulce de Castro Azambuja. A filha do casal, Jerônima Duque Estrada, casou-se com o guarda-roupas do Paço, o Comendador Miguel João Meyer, descendente de alemães. O primogênito dos nove filhos, Augusto Duque Estrada Meyer, se destacou como acompanhante do Imperador Dom Pedro II, recebendo o título de Camarista e extensas terras abrangendo desde a Estrada Grande (atual Dias da Cruz) até a Serra dos Pretos Forros. O Camarista Meyer abriu várias ruas em suas propriedades, dando a elas nomes de seus familiares, como Carolina MeyerFrederico Meyer e Joaquim Meyer. Formava-se o atual bairro do Méier, versão aportuguesada do sobrenome.

Olaria
Em 1820, Francisco José Pereira Rego comprou terras entre o Caminho da Matriz (Itararé) e o Morro da Penha. Ali, a família Rego viria a instalar várias olarias para atender a vizinhança, aproveitando o terreno de barro vermelho. Outras fábricas de tijolos surgiram fazendo com que o local ficasse conhecido como “região das olarias”.

Oswaldo Cruz
Com a implantação da Estrada de Ferro Dom Pedro II, depois Central do Brasil, foi fundada na região, em 1898, a Estação Rio das Pedras. Mais tarde, o nome mudou para Oswaldo Cruz em homenagem ao grande médico sanitarista que erradicou a febre amarela no Rio de Janeiro e implantou o Instituto em Manguinhos.

Paciência
Deve seu nome ao Engenho da Paciência, de João Francisco da Silva, a mais antiga e importante fazenda de cana existente no Brasil. Ficava na Estrada Real de Santa Cruz, onde, no início do século 19, se hospedavam príncipes e nobres nas excursões à Fazenda Real.

Padre Miguel
O nome homenageia o Padre e Monsenhor Miguel de Santa Maria Mochon, espanhol de Andaluzia e vigário de Realengo. Nascido em 1879, Padre Miguel foi o reformador da Igreja Nossa Senhora da Conceição e o criador da primeira Escola Regular da Região, estendendo suas viagens de catequização aos engenhos de Nossa Senhora da Conceição da Pavuna e do Botafogo. Além de incentivar o teatro amador, foi o segundo personagem da cidade a exibir filmes de curta duração – sua casa paroquial se transformou em sala de projeção e cinema de referência local.

Parada de Lucas
O nome se refere a José Lucas de Almeida, um próspero agricultor que morreu aos 94 anos de idade. Quando da implantação da Estrada de Ferro Leopoldina (antiga Estrada de Ferro Norte), José Lucas doou parte de suas terras para uma parada de trens que, em 1949, tornou-se a estação Parada de Lucas.

Parque Anchieta
Parque Anchieta é um desmembramento do bairro de Anchieta que tem como origem loteamento de 1969 compreendendo 1639 lotes, 27 ruas e quatro praças.

Parque Colúmbia
Em 1956 surgiu um Projeto de Arruamento e Loteamento Misto, Proletário e Industrial, a 229 metros da rodovia Presidente Dutra, entre o Rio Acari e a Rua Embaú, resultando em sete ruas. O projeto foi implantado na propriedade da empresa Ferrometais Colombo Comércio e Indústria S.A., daí o nome Parque Colúmbia.

Paquetá
A ilha foi descoberta em 1556 por André Thevet, cartógrafo de Villegagnon, durante a invasão francesa ao Rio de Janeiro. Nome dado pelos Tamoios, Paquetá vem de “Pac” (paca) e “eta” (muitas), significando “lugar de muitas pacas”. Outros dizem que pode significar muitas conchas, ou muitas pedras. Mas escritos de André Thevet  narra a abundância na ilha do animal Pacarana, parente próximo da paca.

Pavuna
Vem do indígena “pabuna” ou “ypabuna”, que significa lugar ou região escura, sombria. A palavra deu nome ao bairro e ao rio de 14 quilômetros de curso que separa o Rio dos municípios da Baixada Fluminense. No século 16, os franceses registraram aldeias de índios Tupis em seus mapas, e uma delas, a aldeia de Upabuna, estaria às margens do referido rio.

Pedra de Guaratiba
Sua denominação teve origem na partilha das terras da região de Guaratiba entre os herdeiros de seu primeiro donatário, Manoel Velloso Espinha. Com a sua morte, seus dois filhos Jerônimo Velloso Cubas e Manoel Espinha Filho herdaram a freguesia de Guaratiba. Através de mútuo entendimento, dividiram entre eles as terras herdadas do pai, ficando Jerônimo com a parte norte e Manoel com a leste, tendo o Rio Piraquê como marco divisório.

Penha
Em homenagem à Nossa Senhora da Penha, por causa de uma lenda de um viajante francês que percorria o Brasil e estava em São Paulo. Uma noite pernoitou lá pelos lados de onde hoje é o bairro. Amarrada ao cavalo estava uma imagem de Nossa Senhora. Ele acordou no outro dia e pôs-se a caminho. Léguas mais tarde deu pela falta da santa, voltou e encontrou a imagem no mesmo lugar onde estava dormindo. Colocou-a de volta no alforje e partiu. Horas depois o viajante descobre que a Nossa Senhora não está mais com ele. Volta novamente, e lá está ela, no mesmo lugar. Aí chegou à conclusão que a santa escolhera aquele lugar para ficar. Assim o francês construiu ali uma capela. Já a história oficial diz quea  primeira capela em louvor a Nossa Senhora da Penha foi erguida em Vila Velha, antiga capitania do Espírito Santo, entre 1558 e 1570. A segunda surgiu no Rio de Janeiro após a fundação da Fazenda de Nossa Senhora da Ajuda, propriedade do capitão português Baltazar de Abreu Cardoso. Por volta do ano de 1635, o Capitão Baltazar, ao ser atacado por uma cobra, pediu auxilio a Nossa Senhora da Penha. Agradecido por ter se livrado do perigo, construiu uma pequena capela no alto de suas terras, onde colocou uma imagem da santa. Pessoas que viam a pequena capela à distância logo passaram a subir a grande pedra para rezar e agradecer.

Penha Circular
As origens do bairro coincidem com a história do bairro da Penha. Seu nome vem da existência, no início da década de 1930, de uma linha circular destinada a permitir o retorno dos trens de subúrbios. A linha circular da Penha foi desativada na década de 40, sendo construída a estação de Penha Circular, que deu nome ao bairro.

Piedade
O nome do bairro era “Terra dos Gambás” (por existirem gambás aos montes) e os moradores se reuniram e escreveram uma cartinha para o diretor da Estrada de Ferro Central do Brasil, no fim do século 19, quem teria escrito foi a esposa de Assis Carneiro, leiloeiro e dono de chácara. O texto era o seguinte: “Por piedade, doutor, troque o nome da nossa estaçãozinha”. O apelo acabou dando certo. “O diretor respondeu: “Perfeitamente minha senhora, ela se chamará Piedade”.

Pilares
Em 1873, as fazendas da região pertenciam a Francisca Carolina de Mendonça Zieze e a seu genro Gaspar Augusto Nascente Zieze. Eles doaram o terreno no qual a Irmandade de São Benedito dos Pilares levantaria a sua capela, remodelada mais tarde pelo Padre José Corrêa. Mas o nome Pilares tem duas versões: viria da Venda dos Pilares, devido aos adornos de pedra destacados na edificação, ou do largo do bairro, uma das paradas da Estrada Real de Santa Cruz (depois Avenida Suburbana e, hoje, Avenida Dom Hélder Câmara), onde havia pequenos pilares que serviam para amarrar cavalos, rodeando uma fonte d’água..

Praça da Bandeira
Em 1853, exatamente no local onde hoje está a praça, foi construído o antigo Matadouro da Cidade. Evoluiu em volta dele o Largo do Matadouro, que se tornou o centro de gravidade para o adensamento das cercanias. A região foi urbanizada no início do século 20, após transferência do Matadouro, em 1881, para Santa Cruz. A construção da Avenida Radial Oeste (atual Oswaldo Aranha) e do Trevo das Forças Armadas alterou a área nas décadas de 60/70, assim como a abertura do metrô. A antiga Estação Lauro Müller da Supervia passou a se chamar Praça da Bandeira.

Praça Seca
general Salvador Correia de Sá e Benevides (1601-1688) lutou contra os holandeses em Angola, defendendo os interesses portugueses. Foi governador do Rio de Janeiro por três períodos (1637-1642, 1648-1649 e 1659-1660), levando desenvolvimento à região. Faleceu em Lisboa em 1688, deixando suas terras para o filho, Martim Correia de Sá e Benevides, que se tornou o primeiro Visconde de Asseca e Alcaide-Mór do Rio de Janeiro. Dessa linhagem nobre dos Assecas, o quarto Visconde (1698-1777) foi o responsável pelos primeiros vestígios de povoamento mais efetivos em torno da Praça Seca (corruptela de Praça Asseca, ou Praç’Asseca).

Quintino Bocaiúva
A abertura da Estrada de Ferro Dom Pedro II, depois Central do Brasil, deu ao local a Estação Cupertino (dono de grande pedreira fornecedora para construções na cidade), inaugurada em 1o de maio de 1876. O nome foi mudado em 1912 para Quintino Bocaiúva em homenagem ao parlamentar, jornalista e comandante civil da Proclamação da República, que morou numa chácara nas proximidades.

Ramos
Dona Leonor Mascarenhas de Oliveira deixou, em meados do século 19, treze lotes da Fazenda de Nossa Senhora de Bonsucesso para serem divididos entre parentes e amigos. João Torquato de Oliveira herdou a casa e a fazenda-sede, região dos atuais núcleos de Bonsucesso e Ramos. Em 1870, sua viúva, Francisca Hayden, vendeu ao Capitão Luiz José Fonseca Ramos terras que abrangiam o Sítio dos Bambus, onde Ramos começou a prosperar. O bairro surgiu por obra dos descendentes do Capitão Ramos, quando os trilhos da Estrada de Ferro do Norte (Leopoldina) chegaram à área, onde foi construída a Parada de Ramos.

Realengo
O nome teria como origem o termo Campos Realengos, usado para nomear os campos de serventia pública que eram utilizados, principalmente, para a pastagem do gado por parte dos que não possuíam terra própria. Há uma versão, mais lendária, que diz que significa ‘Real Engenho’, que abreviado lia-se ‘Real Engo.’

Recreio dos Bandeirantes
As terras pertenciam ao Banco de Crédito Móvel, que as loteou em duas glebas. Joseph Weslley Finch comprou, nos anos 20, umas delas e costumava promover visitas de fim de semana para interessados na compra de seus lotes. Muitos paulistas adquiriram terrenos à beira-mar e construíram casas de veraneio. Por isso, a gleba de Finch passou a ser conhecida como Recreio dos Bandeirantes, e foi registrada como Jardim Recreio dos Bandeirantes. Mais tarde, todo o bairro passou a ter o mesmo nome.

Riachuelo
Surgiu nas terras da antiga fazenda do Engenho Novo, desmembrada em chácaras e, depois, ocupadas por loteamentos. A Estação Ferroviária, de 1869, se chamava Riachuelo do Rio em homenagem a uma batalha naval.

Ricardo de Albuquerque
A estação de Ricardo de Albuquerque, inaugurada em 1913, deve seu nome a José Ricardo de Albuquerque, antigo diretor da ferrovia e poeta.

Rio Comprido
É uma referência ao longo Rio Iguaçu, que cruzava a região conhecida como Catumbi Pequeno (compreende atualmente o Rio Comprido e parte do Estácio). A área abrigou o Quartel General do Exército na época de Dom João VI, se tornando um bairro agradável para os ingleses, que nele habitavam em casas próprias ou propriedades cercadas de amplos quintais. A chácara mais famosa foi a do Bispo Frei Antonio do Desterro, erguida no século 17, também conhecida como Casa do Bispo, que serviu de residência episcopal até 1873, quando ali se instalou o Seminário São José. O prédio foi tombado pelo patrimônio histórico.

Rocha
A estação de trem inaugurada em 1885 e extinta em 1960 recebeu o nome de um guarda-cancela da ferrovia, que também batizou o bairro.

Rocha Miranda
As terras pertenciam à Fazenda do Sapê, cujo proprietário, no século 19, era o Barão de Mesquita. Em 1916, a fazenda seria adquirida pela família Rocha Miranda, que promoveu o loteamento da região com a abertura de várias ruas com nomes de pedras preciosas: dos Topázios, das Esmeraldas, dos Rubis, dos Diamantes, Ametistas, Ônix, Turquesas etc.

Rocinha
Sitiantes passaram a ocupar as terras da antiga fazenda Quebra-Cangalha por volta de 1930. Elas foram divididas em pequenas chácaras em que cultivavam hortaliças vendidas na feira do Largo das Três Vendas (atual Praça Santos Dumont, na Gávea). Os comerciantes diziam para os fregueses que seus produtos vinham de suas “rocinhas” no Alto da Gávea e, a partir daí, o nome Rocinha se popularizou.

Sampaio
A estação de trem homônima da região é uma homenagem ao Coronel Sampaio, Patrono da Infantaria.

Santa Cruz
A terra foi a princípio doada a Cristovão Monteiro, depois passou a pertencer a Companhia de Jesus, os jesuítas que colocaram uma grande cruz de madeira, pintada de preto, encaixada em uma base de pedra sustentada por um pilar de granito. Mais tarde, já durante o Império, o cruzeiro seria substituído por outro de dimensões menores. E, atualmente existe uma cruz no mesmo local, mas não é o cruzeiro histórico, e sim uma réplica que foi erigida durante o comando do então Coronel Carlos Patrício Freitas Pereira. O cruzeiro deu nome à Santa Cruz. A poderosa fazenda de Santa Cruz, um imenso latifúndio, se tornou a mais desenvolvida da Capitania, com milhares de escravos, cabeças de gado e variados tipos de cultivo.

Santa Teresa
Antigamente, o bairro se chamava Morro do Desterro, com acesso pela atual Ladeira de Santa Teresa, onde foi construída a capelinha de Nossa Senhora do Desterro, em 1629. Depois, em 1750, o Governador Gomes Freire de Andrade construiu o Convento de Santa Teresa para abrigar a ordem de religiosas.

Santo Cristo
Em 1879, o bairro teve grande parte aterrada pela Empresa de Melhoramentos do Brasil. As Ilhas dos Melões e das Moças, localizadas no antigo Saco do Alferes próximas à atual Rodoviária Novo Rio, foram extintas para a construção do Cais do Porto, no início do século 20. Esses aterros deram origem ao atual bairro de Santo Cristo, cuja Igreja de Santo Cristo dos Milagres, erguida em 1872, localiza-se no atual Largo de Santo Cristo, antigo Largo do Gambá.

Santíssimo
Nesta localidade ficava o Engenho do Lameirão, de Manuel Suzano, com sua capela de Nossa Senhora da Conceição do Lameirão, o templo mais importante das redondezas. Em 1750, a capela teve permissão para manter em sacrário o Santíssimo Sacramento e, para isso, foi criada uma irmandade. Este acontecimento passou a designar de Santíssimo toda a região situada entre Bangu e Campo Grande, batizando o atual bairro.

São Clemente
Por causa de um grande proprietário de terrenos naquela parte da cidade, o Sr. Clemente de Matos, muito devoto do santo do qual havia herdado o nome.

São Conrado
No início do século 20, o Comendador Conrado Jacob Niemeyer possuía grande fazenda na região e nela ergueu uma pequena igreja, em 1916, em devoção a São Conrado.

São Cristovão
O nome se deve à igrejinha dedicada ao santo erguida pela Companhia de Jesus junto à praia habitada apenas por alguns pescadores. Com a expulsão dos jesuítas em 1759 e a chegada da Família Real em1808, a região antes destinada à agricultura e à pecuária foi retalhada e dividida em chácaras, então adquiridas por ricos comerciantes.

São Francisco Xavier
O bairro é um dos menores do Rio. As terras pertenciam ao Engenho Novo dos Jesuítas, construído a partir de 1707. Daí o nome em homenagem a um santo.

Saúde
Recebeu este nome por origem de uma promessa religiosa a Nossa Senhora da Saúde, que salvou a esposa de um rico comerciante português, Manuel Negreiros, que ergueu em 1742 a Capela de Nossa Senhora da Saúde, sobre um morro rochoso de frente ao mar. No século 17, seus trechos eram conhecidos como Valongo e Valonguinho.

Senador Camará
O trem chegou à região por intermédio do ramal de Mangaratiba, sendo inaugurada a estação Senador Camará em 1923, uma homenagem a Otacílio de Carvalho Camará, gaúcho, deputado pelo Distrito Federal (1915) e senador em 1919.

Senador Vasconcelos
Pela região passou a antiga estrada Rio-São Paulo, onde foi instalada, em 1914, a Estação Senador Augusto Vasconcelos. Trata-se de uma homenagem a um senador federal que também deu nome ao bairro.

Sepetiba
Em tupi, significa sítio dos sapês. A região já foi coberta de florestas.

Tanque
No final do século XIX havia grande circulação de bondes com tração animal pela região e esse local fazia parte do trajeto entre a “Porta D’Água”, na Freguesia, e a Taquara. Por isso, em 1875, foi construído um grande reservatório para cavalos e burros matarem a sede. Desde então, passou a ser chamado de Largo do Tanque..

Taquara
É uma espécie de bambu abundante na região, utilizado em cercas e na fabricação de cestos.

Tijuca
O nome Tijuca, de origem indígena, significa água podre, charco ou brejo. Referia-se às lagoas da atual Barra, depois passou para as montanhas, floresta e vertente oposta, correspondendo à antiga região do Andaraí Pequeno que, entre os séculos 19 e 20, transformou-se no atual bairro da Tijuca. Na década de 70, parte do Andaraí Grande foi incorporada a ele.

Todos os Santos
Era inicialmente um prolongamento do Méier. A Estação Ferroviária de Todos os Santos (daí o nome), inaugurada em 1868, foi extinta no final da década de 1960.

Tomás Coelho
Servido pelos trens da antiga Estrada de Ferro Melhoramentos do Brasil (mais tarde Linha Auxiliar), a região ganhou a Estação Tomás Coelho. O nome é uma homenagem ao Conselheiro Thomaz Coelho, Ministro da Guerra no Segundo Reinado que instalou o Colégio Militar na Tijuca, em 1889.

Turiaçu
Corruptela de “tury” ou “tory” (facho) e “açú”, (grande, extenso), significa “fogaréu” ou ainda “fogaréu feito de sapê”. Na região, atravessada pela Estrada do Otaviano, ficava o Engenho do Vira-Mundo, último grande fabricante de rapadura e cachaça depois da decadência do Engenho de Portela.

Urca
Há lendas sobre o nome, tem quem diga que era o nome do navio do holandês Olivier Van Noort, o LeBlond. Outras que é por causa do morro rochoso que lembra um tipo de embarcação antiga usada pelos holandeses para transporte de carga.

Vargem Grande
As terras pertenciam à sesmaria de Gonçalo Correia de Sá. Sua filha, Dona Vitória de Sá, as doaria mais tarde aos Monges Beneditinos. Ali, Frei Lourenço da Expectação Valadares criou, no século 18, a fazenda Vargem Grande, cujas ruínas ainda existem no Sítio Petra, número 10636 da atual Estrada dos Bandeirantes.

Vargem Pequena
A região era parte da enorme sesmaria de Gonçalo Correia de Sá e foi dada em 1628, como dote, a Dom Luiz de Céspedes (governador geral do Paraguai), marido de sua filha, Dona Vitória de Sá. Com a morte dela, em 1667, a propriedade seria deixada para os Monges Beneditinos, que dividiram o Engenho do Camorim da família, criando a fazenda de Vargem Pequena.

Vasco da Gama
Em 1998, ano do centenário do Clube de Regatas Vasco da Gama, um projeto transformou a área onde fica a sede / estádio do clube e suas adjacências, incluindo a Comunidade Barreira do Vasco, no bairro Vasco da Gama.

Vaz Lobo
Grandes chácaras onde se cultivava café, aipim e batata doce, entre os morros do Sapê e da Serrinha, ocupavam a área. Uma delas, a do Capitão-Tenente José Maria Vaz Lobo, no cruzamento com a Estrada de Irajá (atual Avenida Monsenhor Félix), deu nome ao bairro.

Vicente de Carvalho
O nome do bairro se refere a um fazendeiro local, Vicente de Carvalho, que batizaria também a estrada e a estação da Estrada de Ferro Rio D’ Ouro, implantada na segunda metade do século 19.

Vidigal
O major de milícias e intendente da polícia Miguel Nunes Vidigal, de grande influência no Primeiro Império, recebeu dos monges beneditinos, em 1820, extensas terras que iam das encostas da Pedra Dois Irmãos até o mar, onde construiu a Chácara do Vidigal. Em 1886, seus herdeiros venderam a propriedade ao engenheiro João Dantas.

Vigário Geral
Nas terras pantanosas da região havia a Fazenda Nossa Senhora das Graças, que abrigava o Engenho do Vigário Geral, também conhecido como Engenho Velho. O tal vigário geral seria o Cônego Dr. Luiz Borges da Silva Oliveira, dono do Engenho Nossa Senhora das Graças na segunda metade do século 18. No entanto, existem fontes citando o monsenhor Félix de Albuquerque ou o Padre Dr. Clemente de Matos, ambos donos do Engenho de Irajá, como o “Vigário Geral” que deu nome ao bairro.

Vila Cosmos
A Companhia Urbanizadora Imobiliária Kosmos (daí o nome), que algumas vezes é grafado assim com K, construiu o loteamento Vila Florença, implantado em 1930 nas terras de Guilherme Guinle. Atualmente, é um bairro essencialmente residencial, atravessado pela Avenida Meriti.

Vila da Penha
O Projeto de Arruamento e Loteamento da Vila Penha, de propriedade da Empresa Industrial de Melhoramentos do Brasil, elaborado em 1927/1930 e alterado em 1936, consolidou a urbanização do bairro.

Vila Militar
No início do século 20, os batalhões e regimentos da cidade se concentravam próximos ao Centro, em São Cristóvão, no Campo de Santana, no antigo Arsenal de Guerra (atual Museu Histórico), na Fortaleza de São João e na Praia Vermelha. O Marechal Hermes da Fonseca resolveu então transferi-los para uma nova vila militar na zona suburbana, que pudesse se interligar com as unidades de Realengo. No governo Afonso Pena, as fazendas e engenhos da região entre Deodoro e os limites com a Baixada Fluminense começaram a ser desapropriados.

Vila Isabel
Todas as terras do bairro eram da Fazenda do Macaco, limitada pelo Rio Joana, pelo Caminho do Cabuçu (atual Rua Barão do Bom Retiro) e pela Serra do Engenho Novo. Dom Pedro I a presenteou à Imperatriz D. Amélia de Beauharnais, Duquesa de Bragança, sendo frequentes os passeios do casal no local. Com a volta de Dom Pedro a Portugal, a fazenda ficou abandonada, sendo atingida pela epidemia de cólera em meados do século 19. Em 1872, o Barão João Batista de Viana Drummond (mais conhecido por ter inventado o jogo do bicho) comprou a fazenda e montou a Companhia Arquitetônica de Villa Izabel, em homenagem à Princesa Isabel, para a promoção de loteamento. Assim, em 1873, nascia o primeiro bairro planejado da cidade.

Vila Valqueire
No passado, o bairro era ocupado pelo Engenho Valqueire. A origem do nome se deve ao proprietário das terras em meados do século 18, Antonio Fernandes Valqueire. A sede do engenho ainda existe, em ruínas. Sua mais antiga construção é a Igreja São Roque, próxima à Rua Quiririm. Dizia a lenda que o engenho tinha este nome porque era um terreno que media 5 alqueires. Como a placa fazia a indicação com algarismos romanos, V Alqueire virou Valqueire.

Vista Alegre
O projeto imobiliário com o nome de Jardim Vista Alegre (1954) levou à construção de 400 casas na região. Em sua periferia existiam chácaras com hortas, verduras, fazendolas e um grande pântano, repleto de rãs, onde foi construído o chamado Bairrinho. Vista Alegre é um dos menores bairros da cidade.