O absurdo e a Graça

Na vida hoje caminhamos entre uma fome que condena ao sofrimento uma enorme parcela da humanidade e uma tecnologia moderníssima que garante um padrão de conforto e bem estar nunca antes imaginado. Um bilhão de seres humanos estão abaixo da linha da pobreza, na mais absoluta miséria, passam FOME ! Com a tecnologia que foi inventada seria possível produzir alimentos e acabar com TODA a fome no mundo, não fossem os interesses de alguns grupos detentores da tecnologia e do poder. "Para mim, o absurdo e a graça não estão mais separados. Dizer que "tudo é absurdo" ou dizer que "tudo é graça " é igualmente mentir ou trapacear... "Hoje a graça e o absurdo caminham, em mim lado a lado, não mais estranhos, mas estranhamente amigos" A cada dia, nas situações que se nos apresentam podemos decidir entre perpetuar o absurdo, ou promover a Graça. (Jean Yves Leloup) * O Blog tem o mesmo nome do livro autobiográfico de Jean Yves Leloup, e é uma forma de homenagear a quem muito tem me ensinado em seus livros retiros, seminários e workshops *

15 de outubro de 2010

Aborto. assunto sério, virou um ''samba do teólogo doido'. Entrevista especial com Gedeon Freire de Alencar

“Eu não sou a favor do aborto, e, teoricamente, creio que ninguém é a favor disso. Mas precisamos discutir isso porque aborto ainda é uma questão de pobre nesse país. Os ricos continuam abortando e não morrem, porque fazem em clínicas bem aparelhadas”, ressalta o sociólogo e presbítero da Igreja Assembleia de Deus, Gedeon Freire de Alencar, durante a entrevista que concedeu por telefone à IHU On-Line. Ele discute a importância do voto evangélico para definição do primeiro turno e analisa seus caminhos para o segundo. Gedeon vibra ao apontar que, finalmente, a política esteja na pauta das igrejas e instituições religiosas, mas afirma que o “tiro pode sair pela culatra” dos conservadores que estão levantando essas questões: “se a nova geração se acostuma a discutir isso, vai também querer discutir outras coisas”.

Gedeon Freire de Alencar é presbítero da Igreja Assembleia de Deus Betesda em São Paulo, mestre em Ciências da Religião pela Universidade Metodista, diretor pedagógico do Instituto Cristão de Estudos Contemporâneos (ICEC). É membro da Associação Brasileira de História da Religião. É autor de Protestantismo Tupiniquim: Hipóteses Sobre a (não) Contribuição Evangélica à Cultura Brasileira (Arte Editorial).

Confira a entrevista.


Confira a entrevista.

IHU On-Line – Dilma ganhou nas regiões onde o Bolsa Família tem mais abrangência. Conforme uma entrevista que o senhor nos deu, nas regiões mais pobres da sociedade aonde o pentecostalismo chegou, houve uma melhora na questão da alfabetização. Como o senhor vê a relação que se dará entre Dilma e os evangélicos neste segundo turno?

Gedeon Freire de Alencar –
Uma coisa que tenho dito nessas últimas semanas é que, ironicamente, nós nos tornamos atores políticos no Brasil. Os evangélicos sempre viveram na marginalidade em quase todos os aspectos. Entramos quase pela porta dos fundos na política e agora, plagiando uma expressão, “nunca na história desse país” se falou tanto em religião na época de eleição. Segundo as pesquisas e analistas, a questão religiosa foi fundamental, principalmente, em função de o pleito ter chegado ao segundo turno. Agora, eu queria que fosse realizada uma pesquisa mais específica sobre essa questão do voto dos pobres e da religião, porque não estou muito convencido de que obrigatoriamente o pessoal vota ou não vota naquele candidato por alguma razão religiosa.

Sei que, quanto mais escolarizadas, as pessoas têm mais informação e o voto se torna mais complexo. Eu presumo que nas classes mais baixas, o voto se dá de forma muito instrumental e pelo meu interesse imediato. Nesse caso, a votação da Dilma na periferia se deu basicamente em função das necessidades imediatas que estavam sendo alcançadas, inclusive pelo Bolsa Família. Bom, aí você tem o recorte de evangélicos nessa região. Eu vi uma senhora de uma região muito pobre do nordeste sendo entrevistada e a repórter pergunta: “Você não vai votar na Marina que é evangélica?” E ela responde: “Pois é, na minha igreja todo mundo está falando nisso, mas eu vou votar no Lula porque tenho Bolsa Família”. Ou seja, para além das questões mais religiosas, as pessoas votam de fato em função de suas questões imediatas que estão sendo respondidas.

Nesse caso, como vai continuar a questão da eleição? A questão do aborto, ou do moralismo do aborto, esteve muito presente nessas eleições e isso pesou muito na decisão dos evangélicos. Porém, segundo tenho visto nos jornais, foi um fenômeno de internet. E poucas pessoas das classes C e D têm acesso à internet. As classes A e B do Brasil já têm acesso 100% à internet. Eu tenho minhas dúvidas em relação ao fato de as classes C e D estarem formando suas opiniões em função da discussão de internet. Tem algumas coisas que precisam ficar mais claras em relação a isso.

IHU On-Line – Teoricamente, vivemos num Estado laico. Como o senhor vê a dimensão que a religião está tomando nesse debate para o segundo turno?

Gedeon Freire de Alencar –
Apesar de todos os males e problemas do “talismã gospel” que existe por aí, eu acho muito interessante porque, antes, exercitávamos o nosso evangelho dentro de quatro paredes e as questões do mundo não diziam respeito a nossa espiritualidade. Os pessimistas diziam que estava sendo algo muito confuso, muito ridículo essa relação entre religião e política, mas acho muito válido. Isso porque mal ou bem as igrejas começaram a discutir a eleição, mal ou bem os pastores se envolveram e as novas gerações começam a discutir esse negócio. Quem sabe as pessoas, com isso, se entusiasmam e começam a discutir esse negócio? Por mais que seja uma discussão moralista, conservadora, truncada, cheia de ressalvas e mentiras, eu vejo como algo muito interessante essa nova geração evangélica se inserindo na sociedade dessa forma.

Claro, há dois tipos de interesses envolvidos: uma coisa é pastor-deputado, senador-deputado, entre outros, que entram na discussão de disputa de poder. Estes não estão se esforçando para que a figura da Dilma ou do Serra seja digerida. Está se "cacifando" para que, quando um deles for eleito, se leve a nota promissória do que ele ganhou com isso. O povão está se entusiasmando com a discussão. E o tiro pode sair pela culatra das lideranças conservadoras, porque grandes pastores conservadores desse país (e é quase redundante falar em pastor conservador) têm trazido a questão do aborto e da homossexualidade para o debate das eleições e, se a nova geração se acostuma a discutir isso, vai também querer discutir outras coisas. Se entrar na moda, isto é, discutir todas as questões nacionais, isso vai ser muito bom, mas vai fazer com que as lideranças conversadoras percam o trem da história. Talvez eu esteja sendo ingênuo por achar isso maravilhoso, mas prefiro assim a ser pessimista em absoluto.

IHU On-Line – As diferentes igrejas deveriam, então, se posicionar em relação a um ou outro candidato?

Gedeon Freire de Alencar –
Ao candidato não, porque fica muito corporativista. As igrejas e instituições deveriam se posicionar propositivamente. Alguém vai dizer que isso é muito ingênuo e idealista. Mas quantas eleições passaram e se discutiram essas questões e nós não tomamos partido algum. Transposição do São Francisco, privatização dos meios de comunicação entre outras questões foram debatidas e a igreja não se envolveu. Mas agora, a igreja está tendo a ver e tem uma resposta para dar. Portanto, as igrejas deveriam, de fato, se posicionar de forma prepositiva sobre, por exemplo, saneamento básico, remédios nos postos de saúde. Nós somos cidadãos desse país e do mundo, então podemos e devemos nos posicionar.

IHU On-Line – O que diferencia o posicionamento de Dilma e Serra em relação ao aborto e ao casamento gay?

Gedeon Freire de Alencar –
Eu troco um pelo outro e não quero volta. Deixo bem claro que vou anular meu voto no segundo turno. Votei na Marina não achando que ela seria solução da lavoura e a salvação para o país, mas eu não opto por Dilma ou Serra porque eles são, para mim, absolutamente iguais e ambos estão fazendo uma política interesseira. Estão fazendo agora todo um discurso religioso, cristão, de quem teme a Deus, a favor da vida, quando ambos são a favor da descriminalização do aborto. O problema é que nessa discussão há uma mistura do que vem a ser descriminalização do aborto e legalização. São duas coisas completamente diferentes, mas é pedir muito que no debate político essas questões fiquem claras.

IHU On-Line – Os evangélicos podem mesmo ser os responsáveis pela definição deste segundo turno?

Gedeon Freire de Alencar –
Pois não é. Não sei se a resposta é sim ou não. É lamentável que nem o Datafolha e nem o Ibope, nas últimas pesquisas, tenham colocado a questão religiosa na pergunta. Não dá para saber de fato se a maioria evangélica aderiu mesmo à Marina que teve toda essa simpatia dentro do universo religioso. Agora, afirmar que o universo evangélico será o grande diferencial, não é algo que tenho tanta certeza assim.

IHU On-Line – Então, que motivos vão conduzir os votos dos evangélicos?

Gedeon Freire de Alencar –
O voto do evangélico, na média, é conservador. Nessa altura do campeonato, portanto, o PT está sofrendo do mal do veneno que plantou. O PT expulsou deputado que é contra o aborto e colocou isso no projeto de governo, o que é uma bobagem porque poderia ter deixado a questão para ser discutida depois. Isso não é projeto de governo. O mais lastimável em toda essa campanha é que o aborto virou a grande questão a ser discutida e esqueceu-se de debater o problema da Receita, da Casa Civil e corrupções gravíssimas. Está sendo muito conveniente para o governo Lula e para o próprio Serra que a discussão do aborto se torne fundamental e, com isso, se esqueça das questões econômicas e corrupção que estão por aí.

IHU On-Line – O possível apoio de Marina pode mudar esse cenário atual?

Gedeon Freire de Alencar –
Espero que ela não apoie qualquer um dos dois. Se fizesse isso seria incoerente. Espero que ela permaneça neutra, continue fazendo o discurso da economia sustentável, levantando questões que Dilma e Serra não discutiram e se mantenha íntegra no seu posicionamento de questionamento. Eu acredito que ela não fará isso, embora a estrutura do PV possa se posicionar para ganhar alguns carguinhos.

IHU On-Line – Qual a importância dos valores religiosos na sociedade de hoje?

Gedeon Freire de Alencar –
São muito importantes. Mas, para além disso, é preciso que pensemos no que são esses valores, quem está estabelecendo-os e quem está lucrando com isso. Ser visceralmente contra o aborto, em quaisquer circunstâncias, é também não pensar na vida da mulher, da família e da própria criança depois que é vítima ou fruto de, por exemplo, um estupro. Ou seja, que valor é esse que é tão absurdamente a favor de uma vida que nem existe ainda e é tão contra outras vidas que já estão existindo ou, no futuro, da vida que será problematizada? Eu não sou a favor do aborto, e, teoricamente, creio que ninguém é a favor disso. Mas precisamos discutir isso porque aborto ainda é uma questão de pobre nesse país. Os ricos continuam abortando e não morrem, porque fazem em clínicas bem aparelhadas. Meninas da periferia abusadas e mulheres pobres vão fazer aborto em clínicas que estão mais para açougues e morrem, mas morte de pobre em periferia não importa. Nesse momento, estão deturpando essa questão fazendo um “samba do teólogo doido” em cima de um assunto muito sério.

‘A CNBB está vivendo um momento difícil’, diz Dom Demétrio

"Não foi, oficialmente, a CNBB que explorou eleitoralmente a questão do aborto”. É o que esclarece Dom Demétrio Valentini, numa breve entrevista por correio eletrônico ao Brasil de Fato, 13-10-2010. Segundo ele, certos episódios, como a distribuição de panfletos como o texto intitulado “Apelo aos fiéis”, distribuídos em algumas igrejas católicas paulistas, em plena campanha eleitoral, ameaçam seriamente a instituição.

Eis a entrevista.

Dom Demétrio, você achou legítima e democrática a distribuição de panfletos contra a candidatura de Dilma Roussef (PT) pela Regional Sul 1 da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB)? Por quê?

Já temos agora a declaração oficial da Presidência da CNBB, emitida no dia 08 de outubro, denunciando a manipulação feita, envolvendo indevidamente o nome daCNBB. Diz textualmente a Nota da Presidência da CNBB: "Lamentamos profundamente que o nome da CNBB - e da própria Igreja Católica, tenha sido usado indevidamente ao longo da campanha, sendo objeto de manipulação". A Nota da Presidência da CNBB se refere, evidentemente, à farta distribuição de folhetos, que usavam a "recomendação" feita pelo Sul 1, apresentando-a como se fosse uma recomendação oficial da própriaCNBB. É o caso típico de manipulação, com a clara intenção de enganar o eleitor. Infelizmente, foi o que a "recomendação" do Sul 1 proporcionou.

Essas eleições têm causado desconforto entre os bispos da CNBB?

A CNBB está vivendo um momento difícil, que certamente demandará uma profunda avaliação, passadas as eleições, para analisar com serenidade de espírito os episódios que estão ocorrendo nesta campanha eleitoral e que ameaçam seriamente a credibilidade desta instituição, que já deu no passado importante contribuição para a sociedade brasileira.

O senhor acredita que a questão do aborto, por exemplo, tem sido explorada de uma forma extremamente eleitoral por parte da CNBB e que, desse modo, alimenta enormemente os votos nos tucanos?

De novo é preciso reafirmar com clareza: não foi, oficialmente, a CNBB que explorou eleitoralmente a questão do aborto. É evidente que está havendo uma exploração eleitoral do questão do aborto. E para isto estão utilizando posicionamentos pessoais de alguns bispos e padres, para apresentar estes posicionamentos com se fossem daCNBB. Esta é a instrumentalização que está sendo feita. E os bispos e padres que usam a religião para manifestar publicamente sua opção partidária, deveriam se dar conta de quanto estão sendo explorados pelos partidários de uma determinada candidatura.

Alguns sociólogos afirmaram que o voto em Marina foi, sobretudo, uma resposta ao caráter antirreligioso da candidatura de Dilma Roussef, e denominaram isso como uma demonstração de uma face fascista do Brasil. Como o senhor analisa isso?

Pode ser que isto ajude a entender o resultado do primeiro turno. O fato evidente é que esta campanha está mostrando problemas muito sérios, existentes em nossa sociedade brasileira. Existem os saudosistas da ditadura militar, há ódios e rancores represados que começam perigosamente a se manifestar, há posturas religiosas fundamentalistas, que se aproximam perigosamente do fanatismo. Tudo isto nos desafia a todos e nos convoca para o bom senso e para a responsabilidade.

13 de outubro de 2010

MANIFESTO

“Se nos calarmos, até as pedras gritarão!”



Manifesto de Cristãos e cristãs evangélicos/as e católicos/as em favor da vida e da Vida em Abundânci
a!



Somos homens e mulheres, ministros, ministras, agentes de pastoral, teólogos/as, padres, pastores e pastoras, intelectuais e militantes sociais, membros de diferentes Igrejas cristãs, movidos/as pela fidelidade à verdade, vimos a público decla
rar:

1. Nestes dias, circulam pela internet, pela imprensa e dentro de algumas de nossas igrejas, manifestações de líderes cristãos que, em nome da fé, pedem ao povo que não vote em Dilma Rousseff sob o pretexto de que ela seria favorável ao aborto, ao casamento gay e a outras medidas tidas como “contrárias à mo
ral”.
A própria candidata negou a veracidade destas afirmações e, ao contrário, se reuniu com lideranças das Igrejas em um diálogo positivo e aberto. Apesar disso, estes boatos e mentiras continuam sendo espalhados. Diante destas posturas autoritárias e mentirosas, disfarçadas sob o uso da boa moral e da fé, nos sentimos obrigados a atualizar a palavra de Jesus, afirmando, agora, diante de todo o Brasil: “se nos calarmos, até as pedras gritarão!” (Lc 19,
40).
2. Não aceitamos que se use da fé para condenar alguma candidatura. Por isso, fazemos esta declaração como cristãos, ligando nossa fé à vida concreta, a partir de uma análise social e política da realidade e não apenas por motivos religiosos ou doutrinais. Em nome do nosso compromisso com o povo brasileiro, declaramos publicamente o nosso voto em Dilma Rousseff e as razões que nos levam a tomar esta ati
tude:
3. Consideramos que, para o projeto de um Brasil justo e igualitário, a eleição de Dilma para presidente da República representará um passo maior do que a eventualidade de uma vitória do Serra, que, segundo nossa análise, nos levaria a recuar em várias conquistas populares e efetivos ganhos sócio-culturais e econômicos que se destacam na melhoria de vida da população brasil
eira.
4. Consideramos que o direito à Vida seja a mais profunda e bela das manifestações das pessoas que acreditam em Deus, pois somos à sua Imagem e Semelhança. Portanto, defender a vida é oferecer condições de saúde, educação, moradia, terra, trabalho, lazer, cultura e dignidade para todas as pessoas, particularmente as que mais precisam. Por isso, um governo justo oferece sua opção preferencial às pessoas empobrecidas, injustiçadas, perseguidas e caluniadas, conforme a proclamação de Jesus na montanha (Cf. Mt 5, 1-
12).
5. Acreditamos que o projeto divino para este mundo foi anunciado através das palavras e ações de Jesus Cristo. Este projeto não se esgota em nenhum regime de governo e não se reduz apenas a uma melhor organização social e política da sociedade. Entretanto, quando oramos “venha o teu reino”, cremos que ele virá, não apenas de forma espiritualista e restrito aos corações, mas, principalmente na transformação das estruturas sociais e políticas deste m
undo.
6. Sabemos que as grandes transformações da sociedade se darão principalmente através das conquistas sociais, políticas e ecológicas, feitas pelo povo organizado e não apenas pelo beneplácito de um governante mais aberto/a ou mais sensível ao povo. Temos críticas a alguns aspectos e algumas políticas do governo atual que Dilma promete continuar. Motivo do voto alternativo de muitos companheiros e companheiras Entretanto, por experiência, constatamos: não é a mesma coisa ter no governo uma pessoa que respeite os movimentos populares e dialogue com os segmentos mais pobres da sociedade, ou ter alguém que, diante de uma manifestação popular, mande a polícia reprimir. Neste sentido, tanto no governo federal, como nos estados, as gestões tucanas têm se caracterizado sempre pela arrogância do seu apego às políticas neoliberais e pela insensibilidade para com as grandes questões sociais do povo mais empobre
cido.
7. Sabemos de pessoas que se dizem religiosas, e que cometem atrocidades contra crianças, por isso, ter um candidato religioso não é necessariamente parâmetro para se ter um governante justo, por isso, não nos interessa se tal candidato/a é religioso ou não. Como Jesus, cremos que o importante não é tanto dizer “Senhor, Senhor”, mas realizar a vontade de Deus, ou seja, o projeto divino. Esperamos que Dilma continue a feliz política externa do presidente Lula, principalmente no projeto da nossa fundamental integração com os países irmãos da América Latina e na solidariedade aos países africanos, com os quais o Brasil tem uma grande dívida moral e uma longa história em comum. A integração com os movimentos populares emergentes em vários países do continente nos levará a caminharmos para novos e decisivos passos de justiça, igualdade social e cuidado com a natureza, em todas as suas dimensões. Entendemos que um país com sustentabilidade e desenvolvimento humano – como Marina Silva defende – só pode ser construído resgatando já a enorme dívida social com o seu povo mais empobrecido. No momento atual, Dilma Rousseff representa este projeto que, mesmo com obstáculos, foi iniciado nos oito anos de mandato do presidente Lula. É isto que está em jogo neste segundo turno das eleições de
2010.
Com esta esperança e a decisão de lutarmos por isso, nos subscrev
emos:



Dom Thomas Balduino, bispo emérito de Goiás velho, e presidente honorário da CPT nacion
al.
Dom Pedro Casaldáliga, bispo emérito da Prelazia de São Feliz do Araguaia-MT.
Dom Demetrio Valentini, bispo de Jales-SP e presidente da Cáritas nacional.
Dom
Luiz Eccel - Bispo de Caçador-SC
Dom Anto
nio Possamai, bispo emérito da Rondônia.
Dom Sebastiã
o Lima Duarte, bispo de Viana- Maranhão.
Dom Xavier Gille
s, bispo emérito de Vina- Maranhão.
Padre Paulo Gabriel,
agente de pastoral da Prelazia de São Feliz do Araguaia /MT
Jether Ramalho, Rio de J
aneiro.
Marcelo Barros, monge benedi
tino, teólogo
Professor Candido Mendes, cientis
ta político e reitor
Luiz Alberto Gómez de Souza, cientista
político, professor
Zé Vicente, cantador popular. Ceará
Chico
césar. Cantador popular. Paraíba/são paulo
Revdo Roberto Zwetch, igreja IELCB e professor de teologia em São Leopoldo.
Pastora Nancy Cardoso, metodista, Vassouras / RJ
Antonio M
arcos Santos, Igreja Evangélica Assembléia de Deus - Juazeiro - Bahia
Maria Victoria Benevides, professora, da USP
Monge Joshin, Comunidad
e Zen Budista do Brasil, São Paulo
Antonio Cecchin
, irmão marista, Porto Alegre.
Ivone Gebara, religiosa católica
, teóloga e assessora de movimentos populares.
Fr
. Luiz Carlos Susin – Secretário Geral do Fórum Mundial de Teologia e Libertação
Frei
Betto, escritor, dominicano.
Luiza E. Tomita – Sec. Executiva EATWOT(Ecumenical Associa
tion of Third World Theologians)
Ir. Ir
io Luiz Conti, MSF. Presidente da Fian Internacional
Pe. João Pedro Baresi, pres. da Comissão Jus
tiça e Paz da CRB (Conferência dos religiosos do Brasil) SP
Frei
José Fernandes Alves, OP. – Coord. da Comissão Dominicana de Justiça e Paz
Pe. Oscar Beozzo, diocese de Lins
.
Pe. Inácio Neutzling – jesuíta, diretor do Instituto Humanitas Unisinos
Pe. Ivo P
edro Oro, diocese de Chapecó / SC
Pe. Igo
r Damo, diocese de Chapecó-SC.
Irmã Pompeia Bernasconi, cônegas de Santo Agos
t
inho
C
ibele Maria Lima Rodrigues, Pesquisadora.
Pe. John Caruana, Rondônia.
Pe. Julio Gota
rdo, São Paulo.
Toninho Kalunga, São Paulo,
Washingtonn L
uiz Viana da Cruz, Campo Largo, PR e membro do EPJ (Evangélicos Pela Justiça)
Rica
rdo Matense, Igreja Assembléia de Deus, Mata de São João/Bahia
Silva
nia Costa
Mercedez Lopes,
André Marmilicz
Raimundo Cesar Barreto Jr, Pastor Batista, Doutor em é
tica social
Pe. Arnildo Fritzen, Carazinho. RS.
Darciolei Volpato, RS
F
rei Ildo Perondi - Londrina PR
Ir. Inês W
eber, irmãs de Notre Dame.
Pe. Domingos Luiz Costa Curta, Coord. Dioc de Pastoral da Diocese
de Chapecó/SC.
Pe. Luis Sartorel,
Itacir
Gasparin
Célio Piovesan, Ca
noas.RS
Toninho Evangelista - Hortolâ
ndia/SP
Geter Borges de Sousa, Evangélicos
Pela Justiça (EPJ), Brasília.
Caio César Sousa Marçal - Missionário da Igreja de Cris
to - Frecheirinha/CE
Rod
inei Balbinot, Rede Santa Paulina
Pe. Cleto João Stu
lp, diocese de Chapecó.
Odja Barros Santos
- Pastora batista
Ricardo Aléssio, cristão de tradição presbiteriana,
professor universitário.
Maria Luíza Aléssio, professora universitária, ex-secre
tária de educação do Recife
Rosa Maria Go
mes
Roberto Cartaxo Machado Rios
Rute Maria Mon
teiro Machado Rios
Antonio Souto, Caucaia,
CE
Olidio Mangolim – PR
Joselita Alves Sampaio – PR
Kleber Jorge e silva, teologi
a – Passo Fundo - RS
Terezinha Albuquerque
PR. Marco Aurélio Alves Vicente - EPJ - Evangé
licos pela Justiça, pastor-auxiliar da Igreja Catedral da Família/Goiânia-GO
Padre Ferraro, Ca
mpinas.
Ir, Carmem Vedovatto
Ir.
Letícia Pontini, discípulas, Manaus.
Padre Manoel, PR
Maga
li Nascimento Cunha, metodista
Stela Maris da Silva
Ir.
Neusa Luiz, abelardo luz- SC
Lucia Ribeiro, socióloga
Marcelo Timotheo da Costa, historiador
Maria Helena Silva Timotheo da Costa
Ianete Sampaio
Ney Paiva
Chavez, professora educação visual, Rio de janeiro
Ant
onio Carlos Fester
Ana Lucia Alves, Brasília
I
vo Forotti, Cebs – Canoas - RS
Agnaldo da Silva Vieira - Pasto
r Batista. Igreja Batista da Esperança - Rio de Janeiro
Irmã Cl
audia Paixão, Rio de Janeiro
M
arlene Ossami de Moura, antropóloga / Goiânia.
Ir. Maria Celina Correia Leite, Recife
Pedro Henriques de Moraes Melo - UFC/ACEG
Fernanda Seibel, Caxias do Sul.
Benedito Cunh
a, pesquisador popular, membro do Centro Mandacaru - Fortaleza
Pe. Lino Allegri - Pastoral do P
ovo da Rua de Fortaleza, CE.
Juciano de Sousa Lacerda, Prof. Doutor de Comunicação Social da
UFRN
Pasqualino Toscan - Guaraciaba SC
Fr
ancisco das Chagas de Morais, Natal - RN.
Elida Araúj
o
Maria do Socorro Furtado Veloso - Natal, RN
Maria Letícia Ligneul Cotrim, educadora
Maria
das Graças Pinto Coelho/ professora universitária/UFRN
Ismael de Souza Maciel membro do CEBI - Centro de Estudos Bíbi
cos Recife
Xavier Uytdenbroek, prof. aposentado da UFPE e membro
da coordenação pastoral da UNICAP
Maria Mércia do Egito Souza agente da Pa
storal da Saúde Arquidiocese de Olinda e Recife
Leonardo Fernando de Barros Autran Gonça
lves Advogado e Analista do INSS
Karla Juliana Souza Uytdenbroek Ba
charel em Direito
Targelia de Souza Albuquerq
ue
Maria Lúcia F de Barbosa, Professora UFPE
Débora Costa-Maciel,
Profª. UPE
Maria Theresia Seewer
107. Ida Vicenzia Dias Maciel

108. Marcelo
Tibaes

109. Sergio Bernardoni, diretor da CARAVIDEO- Goiânia - Goiás

110. Claudio de Oli
veira Ribeiro. Sou pastor da Igreja Metodista em Santo André, SP.

104 . Pe. Paulo Sérgio Vail
lant - Presbítero da Arquidiocese de Vitória – ES

106. Roberto Fernandes de
Souza. RG 08539697-6 IFP RJ - Secretario do CEBI RJ

107
. Sílvia Pompéia.

108. Pe.
Maro Passerini - coordenador Past. Carcerária - CE

109. Dora Seibel – Pedagoga, caxias
do sul.

110. Mosara Barbosa
de M
elo

111. Maria de Fátim
a Pim
entel Lins

112
. Pr
of. Renato Thiel, UCB-DF

114 . Alexandre Brasil Fonseca
, Soc
logo, prof. da UFRJ, Ig. Presbiteriana e coordenador da Rede FALE)

115 Daniel
a Sa
nches Frozi, (Nutricionista, profa. da UERJ, Ig. Presbiteriana, conselheira do CONSEA Nacional e vice-presidente da ABUB)

116. Marcelo Ayres Camurça –
Prof
essor do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Religião – Universidade Federal de Juiz de Fora

117. Revd. Cônego Francisco
de Assis da Silva,Secretário Ger
al da IEAB e membro da Coordenação do Fórum Ecumênico Brasil

11
8.
Irene Maria G.F. da Silva Telles

119. Manfredo Araújo de Oliveira

120. Agnaldo da Silva Viei
ra -
Pedagogo e Pastor Auxiliar da Igreja Batista da Esperança-Centro do Rio de Janeiro

121. Pr. Marcos Dornel - Pastor Evangélico -
Igrej
a Batista Nova Curuçá - SP

122. Adriano Carvalho.

123. Pe. Sérgio Campos, Fundação Redentorista de Comunicações Sociais –
Para
naguá/Pr.

124. Eduardo Dutra Machado, pastor presbiteriano

125. Maria Gabriela Curubeto Godoy - médica psiquiatr
a - R
S

1
26. Genoveva Prima de Freitas- Professora – Goiânia

127. M. Ca
ndida
R. Diaz Bordenave

128. Ismael de Souza Maciel membro do CEBI - Centro de Estudos Bíbicos Recife

129.
Xavie
r Uytdenbroek prof. aposentado da UFPE e membro da coordenação pastoral da UNICAP

130. Maria Mércia do Egito Souza agente da Pastoral da Saúde Arquidiocese de Olinda e Recife

131. Le
onard
o Fernando de Barros Autran Gonçalves Advogado eAnalista do INSS

132. Karla Juliana Souza Uytdenbroek Bac
harel
em Direito

133. Targelia de Souza Albuquerque

134.
Maria Lúcia F de Barbosa (Professora - UFPE)

135. Paulo Teixeira, parlamentar, são paulo.

136. Alessandro M
olon,
parlamentar, Rio de janeiro.

137. Adjair Alves (Professor - UPE)

138. Luziano Pere
ira M
endes de Lima - UNEAL

139. Cláudia Maria Afonso de Castro-psicóloga- trabalha
dora
da Saúde-SMS Suzano-SP

140. Fátima Tavares, Coordenadora do Programa de Po
s-Gra
duação em Antropologia FFCH/UFBA

141. Carlos Caros
o, Pr
ofessor Associado do Departamento deAntropologia e Etrnologia da UFBA.

142. Isab
el To
oda

143. Joanildo Burity (Anglicano, c
ienti
sta político, pesquisador da Fundação Joaquim Nabuco,

14
4. Prof. Dr. Paulo Fernando Carneiro de Andrade, Doutor em Teologia pela Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma, Professor de Teologia PUC- Rio

145. Aristóteles R
odrig
ues - Psicólogo, Mestre em Ciência da Religião

146. Zwinglio Mota Dias - Profes
sor A
ssociado III – Universidade Federal de Juiz de Fora

147. Antonio Francisco Braga dos San
tos-
IFCE

148. Pa
ulo C
outo Teixeira, Mestrando em Teologia na EST/IECLB

149. Rev. Luis Omar Dominguez Espinoza


15
0. Anivaldo Padilha - Metodista, KOINONIA, líder ecumênico

151. Nercina Gonçalves

152. Hélio Rios, pastor presbiteriano

153. João Jos
é Sil
va Bordalo Coelho, Professor- RJ

154. Lucilia Ramalho. Rio de janei
ro.

155. Maria tereza Sartorio, educadora, ES

156. Maria jose Sartorio, saúde, ES

157.
Ni
lda Lucia sartorio, secretaria de ação social, Espírito santo

158. Ângela maria fernandes -Curitiba paraná

159. Lúcia Adélia Fernandes

160. Jeanne Nascimento - Advogada em São Paulo/SP

16
1,. Frei José Alamiro, franciscano, São Paulo, SP

162.Leonardo Boff, teólogo e escritor

163 Marcia M.M.Miranda, Centro de Defesa dos Direitos Humanos de Petropolis RJ

164 J. Ricardo A de Oliveira , Psicoterapeuta, RJ

2 de outubro de 2010

Esta é a Hora





Súplica a Deus brasileiro no tempo eleitoral

por Zé Vicente - poeta e cantor da caminhada popular.

Meu Deus Brasileiro concede que assim te chame e assim ti clame,
Ao contemplar a grandeza e a beleza que de ti emana em nossos mares e biomas,
Em nossa gente tão diversa e tal capaz,
em nossa Pátria tão grandiosa e graciosa, Brasil!
Eu sei que És a fonte e a origem da Vida, e que é pouco demais chamar-te com nossas palavras e títulos. E nenhuma intenção, por melhor que seja, pode reduzir-te ao nosso gênero homem ou mulher e às nossas intenções particulares! És tudo em todos e em todas as criaturas!
Ó Deus Brasileiro, que o teu Espírito sopro e luz, se faça presente nestes instantes em que estamos mergulhados na maior campanha eleitoral de nossa história.
Ilumine-nos e desarme-nos das ambições pessoais, de nossos medos e preconceitos, que nos aprisionam ao que já passou e não serve mais como sementes do futuro!
A presença das mulheres nesta campanha para Presidente é sinal e elemento de Esperança e afirmação de mudança, para o país que precisamos construir.
Que nada, ó Divina Estrela Guia, possa interromper essa caminhada rumo ao dia em que uma mulher possa assumir o posto de Servidora Pública Número 1 de nossa Pátria e de nossa gente, principalmente das grandes maiorias sem terra, sem teto, sem toda assistência que um Governo e um Estado devem ao seu povo!
Dá-nos, a nós homens, a humildade que nos livra de todo machismo!Cura as mulheres que também foram contaminadas por tal doença!
Liberta-nos de candidatos e candidatas que usam o dinheiro, as ameaças, as mentiras para confundir e entravar nosso caminho de amadurecimento na democracia popular!
Confunde, sim, a quem em teu nome sagrado, usa a palavra, a fé e os altares, numa falsa postura não partidária, para semear nos corações a dúvida, o medo e o preconceito, contra quem não reza de seu jeito!
Livra-nos dos poderosos escondidos na escuridão e nos bastidores do poder, criminosos e traficantes de interesses dos inimigos do Brasil!
Tua força esteja na nossa união, quando movida para o bem maior! Tua justiça brilhe em nossos sonhos e atos para criamos leis e instrumentos como a da Ficha Limpa e outras que precisamos para fazer da Política bons ensaios do teu Reino entre nós!
Bendito seja, ó Deus Brasileiro, pelos avanços conquistados, pelos homens e mulheres que não se venderam e nem se renderam ao poder das elites do dinheiro, do latifúndio, da grande mídia, do grande mercado!
Bendito és, pela juventude militante, que sabe distinguir onde está o rumo certo e segue adiante, sem medo de aprender com os possíveis erros, contando com tua luminosa presença!
Seremos vigilantes em teu nome! Seguiremos adiante, animados pelo firme exemplo de Maria, mãe de teu filho, que canta pelos séculos a derrota dos poderosos e a vitória dos humilhados em todas as nações da terra, também do nosso Brasil!
Assim seja!


1 de outubro de 2010

Padre Zezinho - ADORADORES RADICAIS

Pe. José Fernandes de Oliveira (Pe Zezinho)
Ouvi esses dias um pregador falar da “cultura de pentecostes” e do “povo de adoradores radicais”. Não se aprofundou, por isso não sei o que ele quis afirmar. Se explicasse em que consiste esta cultura dentro da cultura cristã e, dentro da Igreja Católica o que significa ser um “adorador radical” seria mais fácil dialogar com ele.
É que eu me considero pregador da cultura do coração solidário e penso que sou um adorador moderado. Sigo ou tento seguir Mt 5, 23. Já, Jesus diz que a oferta diante do altar espera. O radical é criar um clima de paz. A oferta pode vir depois. Mas o diálogo tem que vir agora, já.
Então, não acho que basta louvar e orar. Releio Mateus 7, 15-23 e vejo que Jesus põe a justiça em primeiro lugar. Primeiro o justo, depois adorador. Posso citar mais de 200 passagens dos evangelhos que apontam para a justiça, a fraternidade, a caridade e a ajuda aos irmãos como caminho de luz, de paz e de salvação. Sei também que há pelo menos outras mil passagens que mostram que a oração salva e liberta. Entendo, então, que é preciso agir e orar. Num caso nós abrimos a porta do lado de fora. No outro Deus a abre do lado de dentro.
Encaro o céu como o lado de dentro da vida. É como tudo começou e para onde tudo irá um dia. Deus está lá e também no lado de fora. Ele é onipresente. Somos apenas presentes aqui, mas somos convidados, pela justiça, pela compaixão e pela caridade a criar a paz ao nosso redor e, com isso, abrir nós mesmos as portas do céu do lado de fora. O céu tem dois tipos de fechaduras: as de dentro e as de fora.
Somos, pois, convidados a falar com o Pai e o Espírito Santo e pedir a intercessão
do Filho, sem esquecer de pedir aos salvos por ele que também orem por nós. De tanto orar e tocar a campainha do céu Deus nos abre as portas do lado de dentro. Então o céu se nos abre. Estou convencido que Jesus tem as chaves e que as portas são muitas. No céu espero ver muitos seres humanos bons que chegaram lá por outras portas. É minha forma de ser ecumênico. Jesus deu a entender que é assim. Releio Mateus 25, 31-46 e me torno cada dia mais ecumênico.


fonte: http://www.padrezezinhoscj.com/index.php
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28 de setembro de 2010

Padre Zezinho - A BOMBA NO SACRÁRIO

Pe. José Fernandes de Oliveira (Pe. Zezinho)

Estive, a convite, na abertura dos 50 anos da martirizada e marcante diocese de Nova Iguaçu. Fiz questão de ir. Cantei cantos de cruz, de dor e de esperança. Não será possível escrever a História da Igreja do Brasil das últimas décadas sem falar das igrejas da Baixada Fluminense: entre elas Volta Redonda e Nova Iguaçu, com destaque para Dom Adriano Hipólito e Dom Waldir Calheiros. Não esquecemos os outros bispos, que também os reverenciam. Mas o destaque é para falar de um momento de martírios.
É uma pena que jovens de agora não saibam do que ali aconteceu. Talvez nem mesmo seus catequistas o sabiam. Mas ali se viveu um dos pedaços cruciais da História do Catolicismo no Brasil. O bispo seqüestrado, deixado nu e amarrado à beira da estrada, o corpo pintado de vermelho, pichações nos muros, o carro do bispo explodido à frente da sede da CNBB, uma bomba que explodiu o altar e o sacrário revelaram o grau de ódio e desprezo que aqueles militantes da ditadura nutriam pela Igreja e pela fé católica. Fizeram o mesmo contra Dom Helder Câmara, Dom Paulo Arns e Dom Pedro Casaldáliga. Foram tempos de ir à rua, marchar em silêncio e em lágrimas numa diocese que nascia e já pagava um alto preço por ter escolhido por a ênfase no social e no resgate dos pobres, em região que hoje cresce e promete, mas que, então era dormitório do Rio de Janeiro e onde os pobres eram cada dia mais encurralados num processo de guetização.
Uma Igreja inteira organizou-se. Concordem ou não com sua pastoral, era uma igreja que seguia os documentos do Vaticano II, do Celam e da CNBB. Nada foi inventado ali. O que houve foi a coragem de por em prática o que estava no papel.
O filme dos 50 anos é uma lição de eclesialidade e de humildade. Não se citam nomes, não se pede vingança, não se busca revanche, apenas se lembra o que houve, as dores, o medo, a coragem e a resistência daqueles dias. Há perdão em cada relato, mas há verdade em cada frase. Bispos e padres, irmãs e leigos pagaram alto preço por quererem uma Igreja que ia ao povo lembrar que democracia é melhor do que ditadura. Estavam tão ocupados em ser igreja que não tinham tempo de ser nem de direita nem de esquerda, mas levaram a pecha de uma guerrilha e um terrorismo que nunca fizeram. Havia, sim, uma igreja de comunidades, uma das experiências pioneiras da nossa Igreja; certamente não a única, mas experiência altamente revelante. Em Nova Iguaçu, como de resto em muitas outras dioceses a pastoral saiu do papel e aconteceu.
E foi lá que explodiram Jesus...literalmente. Foi o jeito ateu de mostrar desprezo por uma Igreja que prezava os mais pobres e queria mais democracia. Cinqüenta anos depois, cheia de perdão ela floresce. Quem fez aquelas barbaridades caiu no esquecimento. De heróis não tinham nada. Oura vez venceu a Igreja que perdoa!


Fonte:http://www.padrezezinhoscj.com/index.php

21 de setembro de 2010

OS MEDOS DE JONAS E OS NOSSOS MEDOS

Jean Yves Leloup

Maslow e a psicologia humanista fazem de Jonas o arquétipo do homem que tem medo da realização. O homem que foge da sua vocação , da sua palavra exterior ou dos acontecimentos numinosos. Alguns de nós encontramos esta outra dimensão em determinadas circunstâncias, não somente por uma palavra, mas na natureza, durante duma doença, apos um acidente, através de uma experiência amorosa ou admirando uma obra de arte. Cada um sabe em que momento numinoso o tocou, o questionou, o inquietou, para convida-lo a se tornar um ser mais autêntico.

Antes de falar deste medo do numinoso e desta recusa provocada pelo convite à profundidade, a esta realização do Self por meio da superação do Eu, é preciso observar os diferentes medos que precedem este medo da transcendência.

O medo do sucesso

Em 1915, Freud observou, tratando as neuroses, um fenômeno inesperado em alguns de seus pacientes: o sucesso profissional provocava neles uma grande ansiedade. Freud explicou este fato através de um postulado: “Para algumas pessoas, o sucesso equivale a uma morte simbólica do genitor do mesmo sexo”. Quando conseguimos alguma coisa, temos medo de humilhar nossos pais.

Uma tal idéia vai criar, junto à ansiedade, um sentimento de culpa, produzindo um estado de melancolia que pode durar vários anos. Freud descrevia essas pessoas como aquelas a quem o sucesso destrói. Pelo medo de fazer melhor que os seus pais, de vencer onde eles não conseguiram, seja a nível profissional, seja a nível afetivo.

Este medo existe em crianças, mas frequentemente o encontramos em adultos também. Adultos que não se permitem ser felizes como casais porque na união de seus pais havia muito sofrimento ou adultos que se sentem culpados por ganhar dinheiro se em sua família não se ganha dinheiro.

Isso pode parecer curioso, porque nós sempre desejamos que nossos filhos sejam melhores do que nós fomos. É o que os pais geralmente dizem. Eles dizem... mas nem sempre dizem de todo o coração, pois se um filho torna-se mais rico ou mais feliz, ele lhes escapa, sai da família e inconscientemente (nós estamos na esfera do inconsciente, é claro) eles seguem seus filhos no mesmo estado social em que eles pararam e no mesmo estado de dificuldade afetiva em que eles pararam.

Enquanto o sucesso fica ao nível do sonho, do desejo, a neurose do sucesso não necessariamente se manifesta, mas desde que este sucesso se torna uma realidade, por exemplo, após uma promoção, pode ser que aquele que foi beneficiado não o suporte. Talvez vocês conheçam pessoas com este tipo de problema – que obtiveram uma promoção e, curiosamente, em vez de se alegrarem, adoeceram.

Freud dirá que as pessoas adoecem, porque um de seus sonhos, o mais profundo e duradouro, se realiza. Não é raro que o Ego tolere um sonho como inofensivo, enquanto sua existência for apenas uma projeção e que pareça nunca se realizar. É como quando sonhamos ter um homem ou uma mulher e, quando ele ou ela estão lá, nós achamos nosso sonho improvável e o ignoramos.

O Self pode, entretanto, defender-se arduamente desta situação, desde que a realização se aproxime e a concretização seja uma ameaça. Eu creio que este estudo é muito interessante porque existem entre nós muitas pessoas que sonham, que idealizam o sucesso, a plenitude. No entanto, por que estes sonhos jamais se realizam? Eu conheço homens e mulheres muito inteligentes que se organizam sempre e de tal maneira que fracassam em seus exames quando têm capacidade de vence-los. Por que? É o que nós chamamos de neurose do fracasso. No momento em que vamos vencer, no momento em que nosso sonho vai se realizar, inconscientemente nos arranjamos para falharmos. Podemos observar este mecanismo em algumas pessoas como um processo muito doloroso e incompreensível.

Neste contexto, poderíamos dizer que Jonas recusa a voz interior do Ser que o chama, que o chama para que se supere, porque desta maneira ele superará seu pai. Esta é uma explicação edipiana da neurose do fracasso. Tememos o sucesso e suas repercussões, pelo medo de ultrapassarmos nossos pais, seja em felicidade, em educação, em fortuna ou em status. Podemos, assim, nos tornarmos uma ameaça para nossos pais e sermos rejeitados por eles. Vocês percebem que é sempre a presença desta criança em nós que tem medo de não ser amada, que tem medo de não ser reconhecida.

Freud dá, igualmente, o exemplo de um professor universitário que durante muitos anos aspirara à cátedra do seu mestre. Quando seu sonho se realizou, pela aposentadoria do seu mestre, ele foi invadido por uma depressão da qual só saiu depois de longos anos.

Um psicólogo como Fenichel verá, como uma causa profunda do medo de vencer, o sentimento de indignidade. Temos, pois, de observar em nós a nossa relação com o sucesso. Nosso desejo do sucesso e nosso medo do sucesso. E neste medo do sucesso talvez esteja incluído um sentimento de indignidade – esta depreciação de si mesmo que talvez seja a herança de um certo número de julgamentos que nos foram dirigidos. Quando se repete a uma criança que ela nunca será nada, que ela não é inteligente ou que não sabe cantar, ela integrará esta programação. E se um dia ela chegar ao sucesso, inconscientemente, ela pensa que este sucesso não é justo.

Citando Finchel: “O sucesso pode significar a realização de alguma coisa imerecida, que acentua a inferioridade e a culpa. Um sucesso pode implicar não somente em castigo imediato, mas também em aumento de ambição, levando ao medo de futuros fracassos e de sua punição.”

Para Karen Horner, o medo do sucesso resulta do medo de suscitar inveja nos outros, com perda conseqüente do seu afeto. Alguns têm medo de vencer porque não querem que os outros sintam ciúmes dele, o que é muito arcaico. Os gregos expressavam isso da seguinte maneira: “Os deuses têm inveja do sucesso dos homens.” Porque eles consideravam que o sucesso dos homens retirava as suas prerrogativas.

A maioria dos primitivos pensa que muito sucesso atrai para o homem um perigo sobrenatural. Heródoto, em particular, vê em todos os lugares da história a obra da inveja divina. Quando os homens e mulheres são muito ambiciosos, atraem toda sorte de infelicidades. Só está seguro o homem que é obscuro. “Para viver feliz, viva escondido”, para viver feliz, viva deitado.

O medo da diferença

Neste momento reencontramos o arquétipo de Jonas. Talvez ele esteja buscando, através da sua fuga do chamado de Deus, o anonimato mais do que a afirmação da sua própria personalidade. É interessante observar nesta passagem, que alguns podem utilizar a mística, os ensinamentos espirituais para fugir da sua personalidade e regredir ao impessoal ao invés de supera-la. Neste aspecto, a espiritualidade pode servir de pretexto para fugir à afirmação do seu Eu.

Afirmar-se é afirmar-se como diferente. Afirmar-se diferente não quer dizer afirmar-se contra, mas afirmar-se no que temos de próprio, na missão particular que nos foi dada para servir a todos.

O que é pedido a Jonas é que ele não seja apenas um sábio que vive no anonimato de uma cabana no fundo do bosque, mas que seja também um profeta. O silêncio que está nele não é uma ausência de palavras, é a mãe da palavra. Antes de se calar, antes de saborear a beleza do silêncio, ele deverá dizer sua própria palavra.

Antes de chegar a este estado de não-desejo e não-medo, no cume do nosso “vir-a-ser”, do nosso tornar-se, neste estado de Paz integrada, devemos viver esse desejo. Só poderemos supera-lo após tê-lo realizado.

É preciso falar para ir além da palavra. É preciso desejar para ir além do desejo. Algumas vezes nós nos servimos da espiritualidade, nos refugiamos em um falso silêncio e em um não-desejo, que é uma ausência de vida, uma falta de vitalidade que está mais próxima da depressão do que do estar desperto, alerta, mais próximo da despersonalização do que da transpersonalização.

Jonas teme o ciúme e a incompreensão dos seus irmãos. Ele teme ser rejeitado e morto pelo ostracismo de seu povo. Ele teme ser um “colaborador”, um inimigo do seu povo.

O complexo de Jonas não é, apenas, um medo do sucesso, um sentimento de culpa diante do sucesso, um medo de suscitar inveja nos outros. O complexo de Jonas é, também, o medo de ser diferente, de ser rejeitado por aqueles que são diferentes.

Rollo May dizia: “Muitos fatores provam que a maior ameaça, a causa mais nítida da angústia do homem ocidental contemporâneo, não é a castração, mas o ostracismo.” Ou seja, a situação considerada como terrível e aterrorizante é a situação de ser rejeitado pelo grupo ao qual pertencemos.

Muitos de nossos contemporâneos passam por uma castração voluntária, isto é, renunciam ao seu poder, à sua originalidade, à sua independência, pelo medo da rejeição, do exílio. Eles adotam a impotência e o conformismo (para Rollo May o conformismo será a doença mais grave do nosso século) devido à ameaça eficaz e terrível do ostracismo.

O conformismo sempre foi considerado necessário à sobrevida de um grupo e à sua harmonia interna, mas este conformismo pode se tornar opressivo e provocar doenças. Estes fenômenos são observados, algumas vezes, em certos grupos espirituais. Tomam-se as mesmas atitudes, a mesma maneira de olhar mais ou menos inspirada, repetem-se as mesmas frases, sem verdadeiramente pensar em integra-las. Entra-se, assim, em uma atitude mais ou menos esquizóide.

Há aqueles que representam o papel que lhes é pedido, mas o Ser verdadeiro não está neles. Neste caso, ocorre uma espécie de mal-estar, que pode gerar uma doença. Um discípulo de São Tomas de Aquino um dia lhe perguntou: “Se minha consciência me pede para fazer alguma coisa e o Papa me pede para fazer outra, a quem eu devo obedecer?”

Esta questão é muito atual. No lugar do Papa você pode colocar o seu guru, o sol ou a lua, uma pessoa ou autoridade suprema, a referência que você busca quando coloca uma questão profunda. O que acontece se esta autoridade lhe diz para fazer alguma coisa e o seu desejo interior lhe manda fazer outra? A quem obedecer? A qual voz escutar?

Santo Tomas de Aquino dá uma resposta a seu discípulo que talvez surpreenda alguns. Ele não diz: “Obedeça ao Papa”, mas: “Obedeça à sua própria consciência, obedeça à sua consciência procurando esclarecê-la.” Não separe as duas partes da frase: “Obedeça à sua própria consciência” e, ao mesmo tempo, “procure esclarecê-la”.

Essa frase de São Tomas de Aquino é uma boa frase terapêutica. Se ele tivesse dito: “É preciso obedecer ao Papa”, ele teria feito dessa pessoa um hipócrita ou um esquizofrênico. Esta atitude pode ser observada em alguns católicos ou em pessoas que pertencem a outros grupos humanos. Obedecem à autoridade, mas uma personalidade interior se dissocia, pouco a pouco, dos seus atos. Neste divisão entre o que fazemos e o que pensamos vai se introduzir um mal-estar, ou um “estar mal” que gera a doença.

Podemos nos enganar, mas não podemos mais nos mentir. É preciso aceitar que podemos nos enganar, mas ao mesmo tempo devemos buscar esclarecer o nosso caminho, mantendo ambos unidos. Por vezes,ter a coragem de nos diferenciarmos do nosso meio e daqueles que, para nós, constituem uma autoridade. Caso contrário, descobriremos que estamos nos destruindo naquilo que temos de mais autêntico.

O medo de Jonas é o medo de ser diferente, de ser rejeitado por aqueles dos quais ele se diferenciou. O conformismo pode provocar um certo número de patologias. Quantos pássaros tiveram suas asas cortadas ou aparadas para que ficassem felizes e confortáveis em suas gaiolas douradas?

Na lenda do Grande Inquisidor de Dostoievski, esse diz ao Cristo, que retorna à terra: “Vai ser preciso suprimi-lo novamente, porque você vai tornar as pessoas muito infelizes, tornando-as muito livres. Nós queremos tornar os homens felizes. Nós dizemos: faça isto ou aquilo e tudo correrá bem. Ao invés, você quer que os homens sejam livres. Você não diz: façam isso, façam aquilo. O homem é infeliz na sua liberdade. Nós queremos libertar o homem do peso da sua liberdade.”

Este texto continua sendo atual. Estamos, incessantemente, à procura de alguém, de um ensinamento ou de uma instituição que nos diga o que é bom e o que é ruim e que nos isente do exercício da nossa liberdade. Um mestre verdadeiro não nos isenta da nossa liberdade. Ele nos dá elementos de reflexão, um certo número de exercícios ou de práticas a viver a fim de que nos tornemos livres por nós mesmos. Suas palavras não substituem as nossas palavras, elas nutrem nossas palavras. Seu desejo não substitui o nosso desejo. Não somos suas marionetes, seus soldadinhos ou discípulos fanáticos dos seus ensinamentos, mas nos tornamos pessoas livres, nutridas pelas luzes e pela riqueza que ele pode nos comunicar.

A vontade de ser como todo mundo traz um sentimento de impotência excepcional. Os psicólogos humanistas vão nos mostrar que a pressão social é tal e tão forte que a maior parte das pessoas tenta resolver os seus problemas pessoais adaptando-se cegamente, às normas e aos valores do grupo. Cortados da sua atenção primaria, empregam o critério de adaptação como o único ponto de referência para julgar se uma atitude, individual ou coletiva, é aceitável.
Como dizia Harlow: “Parece que a pressão de se conformar (de se adaptar) às normas do grupo é irresistível, mesmo quando esta adaptação está claramente em conflito com as percepções, com as atitudes e convicções do indivíduo.” Este é um bom critério de discernimento.

Um grupo são, saudável, é capaz de conter pessoas muito diferentes, que pensam de maneira diferente e que se enriquecem com suas diferenças. Porque se todos pensarem a mesma coisa, se todos entrarem na mesma concha, não pensaremos mais... Nossa relação deixará de ser uma relação de aliança e se tornará uma relação de submissão a uma doutrina comum. É como a água da chuva que, ao cair em um campo, gerasse flores de uma única cor.

É interessante notarmos que, quando um ensinamento pode florescer sob diferentes formas, ele encontra aplicações em ambientes e mundos diferentes. É o sinal de que estamos num espaço que colabora para nossa evolução em vez de nos destruir, de nos bloquear.

O medo de mudanças

Muitos têm medo de mudanças, mesmo que esta mudança as abra a uma existência melhor e mais feliz. O abandono dos antigos hábitos, a perda do conhecido, cria em algumas pessoas um clima intolerável de insegurança. Não há realmente segurança senão no previsível, mesmo que isto signifique infelicidade e sofrimento.

O desejo de segurança é muito pronunciado nos psicóticos. Em sua infância lhes foi ensinado que toda mudança é uma ameaça. A separação da mãe ou do ambiente familiar foi-lhes apresentado como o equivalente da morte e do caos. Esta noção vai criar, nestas pessoas, um medo de toda e qualquer mudança.

Muita segurança impede a evolução da pessoa, mas muita liberdade vai causar também muita angústia. A criança não sabe mais quais são seus limites. Portanto, o medo de não ser como os outros vai gerar um outro medo: o medo de conhecer-se a si mesmo.

15 de setembro de 2010

“Invoquem a paz sobre Jerusalém”

Jean Yves leoup

Escritos e Parábolas para a Paz
Editora Diálogos do Ser: 2009

“Invoquem a paz sobre Jerusalém
que sejam pacíficos aqueles que te amam
que a paz venha para os teus muros
que sejam pacíficas tuas casas
pelo amor dos meus irmãos, dos meus amigos
deixe-me dizer, paz sobre ti
por amor da casa de YHWH
“Aquele que era, que é e que vem”,
oro pela tua felicidade!” (Salmo 122)
Qual é esta paz que “aqueles que amam” invocam sobre Jerusalém e sobre o mundo?
Que eles próprios sejam pacíficos, essa é sem dúvida a primeira condição para que se realize, já no seu próprio corpo e no seu próprio espírito, a paz que eles desejam a todos.
A palavra hebraica “Shalom” deriva de uma raiz que designa o fato de estar intacto, inteiro; estar em paz é estar “inteiro”, nós não estamos em paz porque não estamos inteiramente aqui... Qual é a parte de nós mesmos que nos falta, que está esquecida ou reprimida – o que nos impede de estarmos em paz?
Perceberemos que quando somos amorosos, somos mais “inteiros”, o amor nos une, nada mais nos falta em nós mesmos, tudo está “voltado para” o Outro.
O mandamento ou o exercício (mitzvot) proposto pela Escritura é um exercício terapêutico, cujo fruto é o de nos fazer “Um”, corpo, coração e espírito, portanto, estarmos felizes e em paz:
“Tu amarás “Aquele que era, que É e que será” de todas as tuas forças, de todo teu coração, de todo teu espírito e tu amarás teu próximo, aquele que era, que é e que será como a ti mesmo, tal qual tu eras, tu és e tu te tornarás...”
A paz abrange todos os tempos. Será que podemos estar em paz com o nosso presente, se não o estivermos com o nosso passado? Será que podemos estar em paz com “aquilo que será”, com “aquilo que virá” se não estivermos em paz com o nosso presente?
A paz designa “o bem-estar do ser” e particularmente do ser humano que vive em harmonia com ele mesmo, com Deus, com os outros, com a natureza, suas sombras e sua luz... Na Bíblia, “estar em boa saúde” e “estar em paz” são duas expressões paralelas; para perguntar como vai alguém; se ele está bem, dizemos: “ele está em paz?”.
Dizemos que Abraão morreu numa idade avançada, feliz e saciado de dias, que “ele se foi em paz”. Também dizemos do nosso namorado que ele é “o homem da minha paz”. A paz é, então, uma confiança mútua, que torna possível a vida em comum e a fraternidade; sem esta paz e esta confiança entre nós, não há comunidade humana ou futuro possível.
Todos os bens materiais, afetivos, intelectuais e espirituais que nós podemos nos desejar uns aos outros estão resumidos nesta simples palavra: Shalom, Salam (em árabe), Bom dia – a paz esteja contigo, em ti e entre nós...
Quando Jesus diz a alguém no Evangelho “Shalom”, é realmente uma “saudação”, uma “salvação”[1], uma cura. Quando ele diz à mulher hemorroíssa: “Vá em paz”, ele lhe devolve a saúde. Da mesma maneira àqueles que se afastaram de diversas maneiras, quando ele lhes diz: “Vá em paz”, eles têm o coração, o corpo e o espírito lavados da sua culpa, eles podem realmente se recolocar a caminho e ver “todas as coisas novas”.
Mas Jesus precisa que a “Sua paz, Ele não a dá como o mundo a dá”. Ela não é um tranqüilizante, um sedativo, que livraria os humanos das provações e das contradições do Real.
Jesus inscreve-se assim na linhagem dos antigos profetas que denunciam “as falsas pazes” e as falsas seguranças que são buscadas em outro lugar e não n’ “Aquele que era, que é e que será”, seu fundamento – aí estão as pazes ilusórias e mentirosas e ele vem nos libertar das nossas ilusões e das nossas mentiras.
Estar em paz é não ser parvo e acreditar-se invulnerável. O Dom da paz supõe uma metanóia, uma transformação da sua vida e da sua maneira de ser e de pensar; Miquéias, Jeremias denunciava assim os falsos profetas que têm apenas a palavra “paz” na sua boca e a ambição e outras vontades de poder no coração: “Eles curam superficialmente a chaga do meu povo dizendo “Paz, Paz” e, no entanto, não existe paz”. (Jr 6, 14)
Jesus será ainda mais radical quando ele dirá: “Penseis que vim trazer a paz sobre a terra? Não, mas o conflito.(polémos, em grego)” Isso quer dizer que se não reconhecermos nossas alteridades, e esse reconhecimento passa às vezes pelo conflito, não há paz verdadeira (particularmente no seio de uma mesma família onde a diferenciação, do pai e do filho, da mãe e da filha é por vezes difícil). A paz não nos deixa tranqüilos, pois se quisermos “permanecer inteiros” e verdadeiros, face ao outro e respeitá-lo na sua inteireza e na sua verdade, isso nem sempre acontece sem que haja um enfrentamento, é preciso amar o outro o suficiente para não ter medo de desagradá-lo e nos amar o suficiente para nos fazer respeitar na nossa identidade. Se o verdadeiro amor é sem complacência, a paz verdadeira é sem compromisso.
Ezequiel também não deixará de gritar: “Chega de remendos! O muro deve tombar” (Ez 13), mas quando os muros do medo, da vaidade, da ilusão e das mentiras desabarem, uma verdadeira paz será edificada.
“Eu sei, eu, “Aquele que era, que é e que será”, que tenho sobre vós um desígnio de paz e não de infelicidade” (Jo 29, 11). Isaías e Zacarias sonham com o “príncipe da paz” (Is 9, 5 /Za 9, 95) que dará uma “paz sem fim”, “é ele que estará em paz” (Mi 5, 4), as duas terras separadas se reconciliarão, as nações viverão em paz (Is 2, 2).
“Farei correr sobre Jerusalém como um rio...” Enquanto aguardamos, “Bem-aventurados os “artesãos” da paz”. A paz é um “artesanato” e não uma indústria. A diferença entre o artesão e o operário é que o artesão realiza um objeto, uma obra na sua “inteireza”, ele trabalha nela do início ao fim. Aquilo que se rouba do operário que trabalha na produção em cadeia é o acesso ao objeto na sua inteireza.
Assim, ser “artesão” da paz é tentar viver, nem que seja apenas uma única relação na sua inteireza, da maneira mais verdadeira e pacífica que possa existir.
Jesus pede que façamos a paz, que amemos o próximo, o mais próximo e não que façamos a paz e amemos “a humanidade”, “o mundo”. A palavra “paz”, os discursos sobre a paz não fazem de nós “artesãos da paz”, mas ideólogos, discursistas, pretensiosos pretendentes à paz, “mas a paz não existe...”
A questão, então, para aquele que, em Jerusalém ou em qualquer outro lugar, queira conhecer a felicidade dos artesãos da paz, não é mais: “O que é a paz?”,mas: “Quem é o meu próximo?”. Basta, então, termos olhos e “vermos” qual relação muito concreta devemos “apaziguar”, compreender e “reconciliar”... Isso começa, sem dúvida, em nós mesmos. Enquanto não tivermos feito a paz entre nossos diferentes quarteirões (cabeça – coração – ventre), não haverá paz entre os diferentes quarteirões de Jerusalém.
“Encontre a paz interior” dizia São Serafim de Sarov, “e uma multidão será salva ao teu lado.”
É sempre pelo mais próximo que devemos começar, é o primeiro passo de todos os caminhos que conduzem à paz.


Nunca vou muito longe
Para encontrar a paz
Basta uma flor no meu jardim
Ela não me coloca questões
Ela não me pergunta por quê
Todos os homens que têm uma flor no seu jardim
Não olham a flor
E não estão em paz

* * *

A calma das árvores queimadas pelo sol
ou arrancadas pelo homem é sempre calma
a calma das árvores sacudidas pela tempestade surpreende:
uma floresta de calma

Essa calma é também a do homem
é até mesmo o segredo da sua vida
mas só vemos as tempestades
o sol e o vento
só ouvimos o barulho que ele faz
jamais o silêncio que ele é
ninguém consegue imaginar o que seria uma cidade
se ela fosse habitada por homens que são o que eles são:
uma floresta de calma



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[1] No original em francês : « Quand Jésus dans l’Évangile dit à quelqu’un « shalom », c’est vraiment un « salut », une guérison » ; a palavra “salut” em francês indica tanto “saudação” quanto “salvação”. (N.T.)