O absurdo e a Graça

Na vida hoje caminhamos entre uma fome que condena ao sofrimento uma enorme parcela da humanidade e uma tecnologia moderníssima que garante um padrão de conforto e bem estar nunca antes imaginado. Um bilhão de seres humanos estão abaixo da linha da pobreza, na mais absoluta miséria, passam FOME ! Com a tecnologia que foi inventada seria possível produzir alimentos e acabar com TODA a fome no mundo, não fossem os interesses de alguns grupos detentores da tecnologia e do poder. "Para mim, o absurdo e a graça não estão mais separados. Dizer que "tudo é absurdo" ou dizer que "tudo é graça " é igualmente mentir ou trapacear... "Hoje a graça e o absurdo caminham, em mim lado a lado, não mais estranhos, mas estranhamente amigos" A cada dia, nas situações que se nos apresentam podemos decidir entre perpetuar o absurdo, ou promover a Graça. (Jean Yves Leloup) * O Blog tem o mesmo nome do livro autobiográfico de Jean Yves Leloup, e é uma forma de homenagear a quem muito tem me ensinado em seus livros retiros, seminários e workshops *

18 de dezembro de 2010

O QUE ESTÁ ACONTECENDO NA IGREJA?

José Comblin
Confira a conferência de José Comblin na Universidade Centro-Americana José Simeón Cañas (UCA), de San Salvador, em 18 de março de 2010 e foi transcrita por Enrique A. Orellana. Está publicada no site Átrio de 17-09-2010. A tradução é do Cepat.
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Boa tarde a todas e todos.
Não é a primeira vez que falo neste lugar, mas agradeço muito a amizade de Jon Sobrino. Nós nos conhecemos há muito tempo e eu o estimo como uma das cabeças mais lúcidas deste tempo que renovou completamente a Cristologia.
Bom... As perguntas de ontem me deram a impressão de que em muitas pessoas há um certo desconcerto em relação à situação atual da Igreja. Ou seja, uma sensação de insegurança. Como dizia Santa Teresa, por “não saber nada a respeito, que nada provoque temor”. Quando era jovem eu conheci algo semelhante e, talvez, pior. Era o pontificado de Pio XII. Ele havia condenado todos os teólogos importantes, havia condenado todos os movimentos sociais importantes, por exemplo, a experiência dos padres operários na França, Bélgica e outros países. Aí nós, jovens seminaristas e depois jovens sacerdotes, estávamos mais que desconcertados, perguntando-nos: mas, ainda há futuro? Eu me lembro que naquela época tinha lido uma biografia de um autor austríaco do papa Pio XII. E aí contava algumas palavras que havia escrito o Pe. Liber, jesuíta, professor de História da Igreja na Gregoriana. O Pe. Liber era confessor do Papa. Sabia tudo o que passava na cabeça de Pio XII e então dizia: “Hoje a situação da Igreja católica é igual a um castelo medieval, cercado de água, levantaram a ponte e jogaram as chaves na água. Já não há como sair (risos). Ou seja, a Igreja está cortada do mundo, não tem mais nenhuma possibilidade de entrar”. Isso foi dito pelo confessor do Papa, que tinha motivos para saber essas coisas. Depois disso veio João XXIII e aí, todos os que haviam sido perseguidos, de repente são as luzes no Concílio e de repente todas as proibições são levantadas. Aí renasceu a esperança. Digo isto para que não se perturbem. Algo virá. Algo virá que não se sabe o que, mas algo sempre acontece.
Como explicar essas situações que ainda podem recomeçar? Porque estamos nos aproximando da fase final da cristandade. Já faz muitos séculos que anunciaram a morte da cristandade... que está agonizando já faz cerca de 200 anos, mas ainda pode continuar sua agonia durante algumas décadas ou alguns anos. Ou seja, deixou de ser a consciência do mundo ocidental. Deixou de ser a força que anima, estimula, esclarece, explica a fonte da cultura, da economia, de tudo o que foi durante o tempo da cristandade. Tudo isso foi sendo destruído progressivamente desde a Revolução Francesa e aqui desde a independência, desde a separação do império espanhol. Então, pouco a pouco, apareceram muitos profetas que disseram que a cristandade morreu... já faz 200 anos. Mas agora creio que a cristandade está entrando em suas fases finais. Querem um sinal? A Encíclica Caritas et Veritate. Não sei quantas pessoas aqui leram a Encíclica. Se se vê a repercussão que teve no mundo: impressionante silêncio... Talvez silêncio respeitoso, mas mais provavelmente silêncio de indiferença. A doutrina social da Igreja não importa mais a ninguém, que também deixou de se interessar pelo que acontece na realidade concreta.
Há alguns anos, um sociólogo jesuíta muito importante, o Pe. Calvez, que teve um papel importantíssimo na criação e manutenção da Doutrina Social da Igreja, publicou um livro intitulado: “Os silêncios da Doutrina Social da Igreja”. Ainda está em silêncio. Deixa de entrar com força nos problemas do mundo atual. Fica com teorias tão vagas, tão abstratas, tão genéricas... A carta Caritas in Veritate poderia ser assinada pelo Fundo Monetário Internacional (risos), pelo Banco Mundial... sem nenhum problema. Não há absolutamente nada que incomode esse pessoal. Então, para quê? Esse é o sinal.
Querem outro sinal? A Conferência de Aparecida disse muitíssimas coisas muito boas. Quer transformar a Igreja em uma missão, passar de uma Igreja de “conservação” a uma Igreja de “missão”. Só que pensa que isso será feito pelas mesmas instituições que não são de missão, mas de conservação. Isso será feito pelas dioceses, pela paróquia, pelos seminários, pelas Congregações Religiosas. Estes aqui, de repente e por milagre, vão se transformar em missionários. Já se passaram três anos e o que aconteceu em sua diocese? Como se aplicou a opção pelos pobres? Não sei como é aqui, mas no Brasil não vejo muita transformação. Ou seja, a cristandade está se dissolvendo progressivamente, mas o problema é o depois. O que vem depois? Como? Daí a insegurança porque não sabemos o que vem depois. Isto aconteceu muitas vezes na história e ainda vai acontecer provavelmente muitas vezes. É preciso aprender a resistir, a suportar, a não se deixar desanimar ou perder a esperança pelo que vem acontecendo.
O que acontece é que em Roma não estão convencidos de que a cristandade está morta. Acreditam que as Encíclicas iluminam o mundo, que as instituições eclesiásticas iluminam e conduzem o mundo. Ou seja, é um mundo fechado, que de fato vivem em um castelo medieval, cercado de água. E então, o que acontece? Vamos ver como interpretar, como ver o que está acontecendo. E então ver qual é o “método teológico” que convém para isso.
O Evangelho vem de Jesus Cristo. A religião não vem de Jesus Cristo
É preciso partir de uma distinção básica que agora vários teólogos já propuseram entre o Evangelho e a religião. O Evangelho vem de Jesus Cristo. A religião não vem de Jesus Cristo. O Evangelho não é religioso. Jesus não fundou nenhuma religião. Não fundou ritos, não ensinou doutrinas, não organizou um sistema de governo. Nada disso. Ele se dedicou a anunciar, a promover o Reino de Deus. Ou seja, uma mudança radical de toda a humanidade em todos os seus aspectos. Uma mudança, e uma mudança cujos autores serão os pobres. Dirige-se aos pobres pensando que somente eles são capazes de agir com essa sinceridade, com essa autenticidade para promover um mundo novo. Seria essa uma mensagem política? Não é política no sentido de que propõe um plano, uma maneira... não, para isso a inteligência humana é suficiente; mas como meta política, porque isto é uma orientação dada a toda a humanidade.
E a religião? Ah! Jesus não fundou uma religião, mas seus discípulos criaram uma religião a partir dEle. Por quê? Porque a religião é algo indispensável aos seres humanos. Não se pode viver sem religião. Se a religião atual aqui se desintegra... Há 38.000 religiões registradas nos Estados Unidos! Ou seja, não faltam religiões, elas aparecem constantemente. O ser humano não pode viver sem religião, mesmo que se afaste das grandes religiões tradicionais. Então, a religião é uma criação humana. Entre a religião cristã e as demais religiões, a estrutura é igual. É uma mitologia. Assim como há uma mitologia cristã, há uma mitologia hinduísta, xintoísta, confucionista. Isso é parte indispensável para a humanidade. Ou seja, como interpretar todo o incompreensível da humanidade pela intervenção de seres com entidades sobrenaturais, fora deste mundo, que estão dirigindo esta realidade.
Em segundo lugar, uma religião são ritos. Ritos para afastar as ameaças e para acercar-se dos benefícios. Todas as religiões têm ritos. E todas têm pessoas separadas, preparadas, para administrar os ritos, para ensinar a mitologia. Isto é comum a todas. Então, isto devia acontecer com os cristãos também. Devia acontecer. Como poderiam viver sem religião?
Como começou essa religião? Deve ter começado quando Jesus se transformou em objeto de culto. O que aconteceu bastante cedo, sobretudo entre os discípulos que não o conheceram, que não haviam vivido com ele, que não haviam estado próximos dele. Então, a geração seguinte ou aqueles que viviam mais distantes, mais afastados, para eles Jesus se transformou em objeto de culto. Com isso se desumanizou progressivamente. O culto de Jesus vai substituindo o seguimento de Jesus. Jesus nunca havia pedido aos discípulos um ato de culto. Nunca havia pedido que lhe oferecessem um rito... nunca. Mas queria o seguimento, seu seguimento. Essa dualidade começa a aparecer cedo. 30 anos, 40 anos depois da morte de Jesus, já aparece com força suficiente para que Marcos escrevesse em seu Evangelho precisamente para protestar contra essas tendências de desumanização, ou seja, de fazer de Jesus um objeto de culto. Este Evangelho é precisamente para recordar uma palavra de profeta: Não! Jesus era isso. Jesus fez isso, viveu aqui neste mundo! Viveu aqui nesta terra.
Com o desenvolvimento da religião cristã que se fez – aqui problema para os teólogos –, progressivamente essa tentação reapareceu. Nasceu um começo de doutrina, o Símbolo dos Apóstolos. E o que diz o Símbolo dos Apóstolos sobre Jesus? Aah... diz que nasceu e morreu. Nada mais. Como se as outras coisas não tivessem importância, como se a revelação de Deus não fosse justamente a própria vida de Jesus, seus atos, seus projetos, todo o seu destino terrestre. Essa é a revelação, mas isso já vai se perdendo de vista. Os Símbolos de Niceia e Constantinopla, da mesma maneira: Cristo nasceu e morreu. O Concílio de Calcedônia define que Jesus tem uma natureza divina e uma natureza humana. Mas, o que é uma natureza? Um ser humano não é uma natureza. Um ser humano é uma vida, é um projeto, é um desafio, é uma luta, é uma convivência em meio a muitos outros. Isso é o fundamental se queremos fazer o seguimento de Jesus.


A religião: distinção entre o sagrado e o profano
Progressivamente, aparece a partir dos primeiros Concílios um distanciamento entre a religião que se forma. Com Niceia e Constantinopla já há um núcleo de ensinamento e de teologia e a Igreja vai se dedicar a defender, promover, aumentar essa teologia. Já se organizaram as grandes liturgias de Basílio e outros, e já se organizou um clero. O clero como classe separada é uma invenção de Constantino. Até Constantino não havia distinção entre pessoas sagradas e pessoas profanas. Eram todos leigos. Porque Jesus apartou a classe sacerdotal e não tinha previsto nenhuma maneira que aparecesse outra classe sacerdotal, porque todos são iguais. E não há pessoas sagradas e pessoas não sagradas, porque para Jesus não há diferença entre sagrado e profano. Tudo é sagrado ou tudo é profano.
Agora, na religião há uma distinção básica entre sagrado e profano. Em todas as religiões. E há um clero que se dedica ao que é sagrado. E os outros que estão no profano, na religião são receptores, não são atores. Não têm nenhum papel ativo. Para ter um papel ativo é preciso ser realmente consagrado. Isso começa no tempo de Constantino.
E a partir daquilo vão aparecer duas linhas na história cristã. Os que, como o Evangelho de Marcos quer recordar: Não, Jesus veio para mostrar o caminho, para que o sigamos. Isso é o básico, o fundamental. Uma linha que vai renovar, aplicar em diversas épocas históricas o que foi a vida de Jesus e como ele o ensinou. E em toda a história podemos seguir. Claro que não sabemos tudo, porque a grande maioria dos que seguiu o caminho de Jesus foram pobres, dos quais nunca se falou nos livros de história e, portanto, não deixaram nenhum documento. Mas há pessoas que deixaram documentos e com isso podemos acompanhar onde, na história da Igreja cristã, aparece o Evangelho. Onde se buscou primeiramente a vivência do Evangelho. Os que buscaram radicalmente o caminho do Evangelho foram sempre minorias, como dizia Helder Câmara, “minorias abraãmicas”.
A maioria está no outro pólo, na religião. Ou seja, dedicando-se à doutrina. Ensinando a doutrina, defendendo a doutrina contra os hereges e as heresias... Essa foi uma das grandes tarefas, praticar os ritos e formar a classe sagrada, a classe sacerdotal. Isso nos leva a uma distinção que vai se manifestar em toda a história. O pólo “Evangelho” está em luta com o pólo “religião” e “religião” com o pólo “Evangelho”. Em toda a história. Toda a história cristã é uma contradição permanente e constante entre aqueles que se dedicam à religião e aqueles que se dedicam ao Evangelho. Claro que há intermediários e assim não há pólos totais. Mas na história há visivelmente duas histórias, dois grupos que se manifestam. A história oficial: quando eu era jovem nos davam aulas de História da Igreja que era “história da instituição eclesiástica” e ali só se falava da religião, supondo que a religião era a introdução ao Evangelho. Mas isso é uma suposição: que tudo o que nasceu no sistema católico vem de Jesus, como se dizia na teologia tradicional em tempos da cristandade, que tudo o que existe na Igreja Católica Romana, ao final, vem de Jesus. Com muitos malabarismos teológicos se consegue mostrar que tudo tem finalmente sua raiz em Jesus. Não têm sua raiz em outras religiões, em outras culturas. Como se os cristãos que se convertem à Igreja fossem totalmente puros de toda cultura e toda religião. Todos trazem sua cultura e sua religião, e introduzem em sua vida cristã elementos que são de sua religião e cultura anterior e por isso resulta uma religião que é sempre ambígua, complexa. É inevitável, porque os seres humanos que entram na Igreja não são anjos. Eles estão carregados de séculos e séculos de história e de transmissão cultural e tudo isso entra, naturalmente, na Igreja. Daí uma oposição que em matéria política, por exemplo, se mostra claramente. Se diz: o Evangelho procede de Deus e, portanto, não pode mudar. A religião é criação humana, portanto, pode e deve mudar segundo a evolução da cultura, das condições de vida dos povos em geral. Se a religião fica apegada ao seu passado, ela é pouco a pouco abandonada a favor de outra religião mais adaptada. O que é muito compreensível.
O Evangelho é vivido na vida concreta, material, social. A religião vive em um mundo simbólico. Tudo é simbólico – doutrina, ritos, sacerdotes... –, todos são entidades simbólicas, que não entram na realidade material. O Evangelho é universal, porque não traz nenhuma cultura e não está associado a nenhuma cultura, a nenhuma religião. As religiões estão sempre associadas a uma cultura. Por exemplo, a religião católica atual está ligada à subcultura clerical romana que a modernidade marginalizou, que está em plena decadência porque seus membros não quiseram entrar na cultura moderna. O Evangelho é renúncia ao poder e a todos os poderes que existem na sociedade. A religião busca o poder e o apoio do poder em todas as formas de poder. E são tão visíveis!
O poder... Lembro que na época da prisão dos bispos em Riobamba o núncio dizia: “se a Igreja não tem o apoio dos governantes, não pode evangelizar” (risos). Pode-se pensar o contrário: que caso se tenha o apoio dos poderes será difícil evangelizar. Mas essa é uma mentalidade que ainda é remanescente na cristandade entre a Igreja fundida em uma realidade político-religiosa e então naturalmente estavam unidas todas as autoridades: o clero e o governo; o clero e o Exército – tudo unido. Renunciar a isso é muito difícil. Renunciar à associação com o poder é muito difícil. Vou dar um exemplo. Meu atual bispo na Bahia é um franciscano, se chama Luis Flavio Cappio. Ficou famoso no Brasil por duas greves de fome que fez para protestar contra um projeto faraônico do governo, baseado em uma imensa mentira. Não há tempo para contar toda a história, mas se tornou conhecido e foi convidado para o Kirchentag da Igreja alemã. Depois do convite falou em várias cidades da Alemanha. Um grupo se aproximou dizendo que vinham para entregar-lhe uma doação, uma ajuda para as suas obras. E era bastante: cerca de 100 mil dólares. Ele perguntou: “De onde vem esse dinheiro?” Disseram-lhe que são algumas empresas, alguns executivos que o recolheram. Então disse: “Não aceito. Não quero aceitar o dinheiro que foi roubado dos trabalhadores, dos compradores de material”. Não aceitou nenhuma aliança com o poder econômico. Eu não sei quantos no clero não aceitariam (aplausos). Esse bispo é um franciscano igual a São Francisco. Toda a sua vida foi assim. Por isso fui morar ali para santificar-me um pouquinho em contato com uma pessoa tão evangélica...
Então, como nasceu a Igreja? A Igreja de que se fala: essa realidade histórica, concreta de que temos experiência. Para o povo em geral a Igreja é o Papa, os bispos, os padres, as religiosas, religiosos... esse conjunto institucional de que se fala e que provoca também tanta incerteza, como vimos. Como nasceu a Igreja? Jesus não fundou nenhuma igreja. O próprio Jesus se considerava um judeu. Era o povo de Israel renovado e os primeiros discípulos também; Os doze apóstolos são os patriarcas da Igreja do Israel renovado. A primeira consciência era que a continuação de Israel, a perfeição, a correção de Israel. Mas uma vez que o Evangelho penetrou no mundo grego, aí Israel não significava muitas coisas para eles e então Paulo inventa outro nome. Dá às comunidades que funda nas cidades o nome de “ekklesia”, o que se traduziu por “igreja”. O que é a ekklesia? O único sentido que tem no grego é “a assembleia do povo reunido que governa a cidade”. Na prática eram as pessoas mais poderosas, mas enfim é que na cidade grega o povo se governa a si mesmo e o faz em reuniões que são “ecclesias”. Paulo não dá nenhum nome religioso às comunidades; os vê como um grupo destinado a ser a animação. A mensagem de transformação de todas as cidades, de tal maneira que estão constituindo o começo de uma humanidade nova. E é uma humanidade onde todos são iguais, todos governam a todos. Depois vem a Carta aos Efésios em que se fala da Igreja como tradução de “kahal” dos judeus, ou seja, é o novo Israel. E a ecclesia é aí também o novo Israel. Ou seja, todos os discípulos de Jesus unidos em muitas comunidades, mas não unidos institucionalmente, mas unidos pela mesma fé. Todos constituem a “ecclesia”, a grande Igreja que é o corpo de Cristo. Ainda não existem instituições.
Mas, naturalmente, não podia continuar assim. Os judeus que aceitaram o cristianismo não abandonaram todos o judaísmo. E quando o número de cristãos cresceu, o número de comunidades, ali começaram a penetrar algumas estruturas. No tempo de Paulo ainda não há presbíteros, mesmo que São Lucas diga o contrário. Mas São Lucas não tem nenhum valor histórico; isso todo o mundo já sabe. Atribui a Paulo o que se fazia em seu tempo. Então imagina que Paulo fundou presbíteros, conselhos presbiterais. Como se justificaria um bispo sem ordenar sacerdotes? Então, parece evidente um começo de separação ainda muito simples, porque ainda não há sacralidade, não há nada sagrado. Os presbíteros não são sagrados, assim como os presbíteros das sinagogas não eram sagrados. Eles tinham uma função, uma missão de governo, de administração, mas não uma função ritual, ou uma função de ensino de uma doutrina.
Depois apareceram os bispos. No final do século II se estima que o esquema episcopal esteja generalizado, mas demorou bastante. Clemente de Roma, quando publica e escreve sua Carta aos Coríntios, diz “presbíteros”, o que não é bispo. Ainda em Roma não há bispo, só presbíteros. Mas se organizou o esquema episcopal. É provável que para as lutas contra as heresias, contra o gnosticismo, se necessitasse de uma autoridade mais forte, para poder enfrentar o gnosticismo e todas as novas religiões sincréticas que aparecem naquele tempo.
E a Igreja como instituição universal, quando aparece? Houve, no século III, Concílios regionais: bispos de várias cidades que se reuniam. Mas uma entidade para institucionalizar tudo não existia. Quem inventou esta Igreja universal foi o imperador Constantino. Ele reuniu todos os bispos que havia no mundo com viagens pagas por ele, alimentação também paga por ele, e toda a organização do Concílio foi dirigida pelo imperador e os delegados do imperador. Isto constitui um precedente histórico. Até hoje não estamos livres disso: que a Igreja universal como instituição tenha nascido com o imperador.
Depois, na história ocidental caiu o imperador romano e então progressivamente o papa conseguiu chegar à função imperial. Houve muitas lutas na Idade Média entre o papa e o imperador, mas sempre o papa se estimava superior ao imperador. Nas cruzadas, o papa era generalíssimo de todos os exércitos cristãos. Era uma personalidade militar – comandante em chefe do exército cristão. E dentro da linha dos Estados pontifícios, isto ainda se mantém.
Quando o papa perdeu o poder temporal, reforçou seu poder sobre as Igrejas: e governa as igrejas como um imperador, ou seja, todos os poderes são centralizados em uma única mão e com todas as vantagens de uma corte. Por que se não há nada de democracia na Igreja, quem são aqueles que orientam o papa? A corte! Os cortesãos, os que estão ali próximos. Claro que ele não pode fazer tudo, mas enfim uma corte separada do povo cristão. Ainda estamos sofrendo as consequências daquilo. O Papa Paulo VI disse em alguns momentos que realmente teria que mudar a função atual do Papa, ou seja, o que o Papa faz. João Paulo II na “Unum sint” disse também que é preciso dar-se conta de que o grande obstáculo no mundo de hoje é essa concentração de todos os poderes no Papa. Seria preciso encontrar uma outra maneira de exercer isso. Isso para dizer que tudo isto pertence à religião.
Tarefa da teologia: no Evangelho e na religião
A partir disso, qual é a tarefa da teologia? É complexa, justamente porque tem uma tarefa no Evangelho e uma tarefa na religião. A teologia foi durante séculos a ideologia oficial da Igreja. Seu papel era justificar tudo o que a Igreja diz e faz com argumentos bíblicos, com argumentos da tradição, liturgia, e um monte de coisas que eu aprendi quando estava no seminário. Claro que não acreditava nisso (risos), mas a maioria ainda crê nisso. Então, o que acontece?
Primeira tarefa: o que diz o Evangelho?
Primeira tarefa: o que diz o Evangelho? O que é de Jesus? O que é penetração do judaísmo, de outra cultura, de outro tipo de religião? O que vem de Jesus segundo o Novo Testamento? Todo o Novo Testamento não vem de Jesus? Não, as Epístolas pastorais que falam, por exemplo, dos presbíteros, isso não vem de Jesus. Então, a tarefa da teologia consistirá em dizer o que é de Jesus, o que realmente quis, o que realmente fez e em que consiste realmente o seguimento de Jesus.
Vendo a história, quais foram as manifestações, onde, em formas diferentes – porque as situações culturais eram diferente –, onde podemos reconhecer a continuidade dessa linha Evangélica? Porque se quisermos penetrar no mundo de hoje e apresentar o cristianismo ao mundo de hoje, tudo o que é religioso não interessa. O que pode interessar é justamente o Evangelho e o testemunho evangélico. Ninguém vai se converter pela teologia. Você pode fazer todas as melhores aulas, ninguém vai se fazer cristão por causa da teologia. Por isso, me pergunto: por que nos seminários se crê que a formação sacerdotal é ensinar a teologia? Eu não entendo, não entendo. Não há outra coisa necessária para evangelizar? Não é muito mais complexo? Por isso faz 30 anos que decidi, na presença de Deus, nunca mais trabalhar em seminários (risos).
Então, a linha evangélica é essa – São Francisco. São Francisco era um extremista. Não queria que seus irmãos tivessem livros: nada de livros. Com o Evangelho basta, não se necessita nada mais. Ele próprio dizia: “Eu, o que ensino, não aprendi de ninguém, nem do papa; o aprendi de Jesus diretamente, por seu Evangelho”. Bom, isso é o que pode convencer o mundo de hoje que está em uma perturbação completa e que se afasta sempre mais das Igrejas institucionais antigas, tradicionais. Quase todas as grandes religiões nasceram entre os anos 1.000 e 500 antes de Cristo, salvo o Islã que apareceu depois, mas que é um ramo da tradição judeu-cristã.
O que fazer com a religião?
Segundo, a religião. O que fazer com a religião? É preciso examinar em todo o sistema de religião, o que ajuda, o que realmente ajuda a entender, a compreender, a agir segundo o Evangelho. Isso terá nascido por inspiração do Espírito em monges, por exemplo? Se você olha a vida dos monges do deserto no Egito, isso não é uma mensagem. Não é uma mensagem e também não vem do Evangelho. Ou seja, muitas coisas vêm não se sabe de que tradição, talvez pode ter sido do budismo ou outras coisas assim. Então, examinar o que é o que ainda vale hoje, e sinceramente.
Jesus não instituiu 7 sacramentos. Até o século XII se discutia se eram 10, 7, 5, 9, 4. Não havia acordo. Finalmente, decidiram que havia 7. Bom, por motivos dos 7 dias do Gênesis, 7 planetas, o número 7... mas há coisas que visivelmente já não falam para as pessoas de hoje. Por exemplo, o sacramento da penitência com confissão a um sacerdote. Quantos se confessam atualmente? Há 20 anos, eu atendia na Semana Santa, em uma paróquia popular, 2.000 confissões, e o pároco outras tantas. Atualmente, 20, 30, ou seja, as pessoas já não respondem mais. Isso foi definido no século XII, XIII. Por que manter algo que já não tem nenhum significado e, ao contrário, provoca muita recusa? Ou seja, que alguém necessite falar com alguém, que o pecador goste de falar com alguém, mas não justamente ao sacerdote. Há muitas pessoas, muitas mulheres, que podem exercer esse ofício muito melhor, com mais equilíbrio, sem atemorizar como fazem os sacerdotes. Isso é uma coisa.
Mas há um monte de coisas que é necessário revisar porque não tem futuro. É inútil querer defender ou manter algo que já é obstáculo para a evangelização e que não ajuda absolutamente em nada. Nas liturgias há muitas coisas que mudar. A teoria do sacrifício foi introduzida pelos judeus, naturalmente. No templo se oferece sacrifícios, os sacerdotes são pessoas sagradas que oferecem o sacrifício. Toda essa teoria, atualmente não significa absolutamente nada. Que o padre seja dedicado ao sagrado para oferecer o sacrifício e que a Eucaristia seja um sacrifício, tudo isto vem de Jesus? Ah, não vem de Jesus. Então, é preciso ver se isso vale ou não vale. Para que manter algo que não vale?
E depois há também a outra parte: o que não ajuda, o que tem sido infiltração de outras tendências, outras correntes. Por exemplo, a vida ascética dos monges irlandeses. A Irlanda foi a ilha dos monges. Ali os bispos não tinham autoridade. Serviam apenas para ordenar sacerdotes, mas para as outras coisas podiam descansar. Quem mandava eram os monges. Os mosteiros eram os centros, o que é a diocese atualmente. Esses monges irlandeses viviam uma vida ascética, mas tão extraordinariamente desumana para nós que isso é impossível que venha de Jesus, é impossível que isso ajude, porque esses homens ali eram super-homens, mas não existem mais homens assim hoje. Um exercício de penitência que faziam, por exemplo, era entrar no rio – na Irlanda os rios são frios – e ficar nu para rezar todos os salmos (risos)... Essa maneira de entender a vida, não, não devemos considerar que isso seja cristão. Também não é marca de santidade. Não é assim que a santidade se manifesta. Examinar tudo o que vem de lá.
Todas as congregações femininas sabem o quanto é preciso lutar para mudar costumes, tradições que não são evangélicos. Quantos debates! Eu conheço uma série de congregações femininas e quanto tempo se gasta em discussões, disputas entre aquelas que querem conservar tudo e aquelas que querem abandonar o que não serve mais e encontrar outro modo de viver mais adaptado à situação atual! Então, a tarefa da teologia, claro que é mudar, isso muda a tradição, deixa de ser a ideologia de todo o sistema romano, mas essa não tem futuro. Esse tipo de teologia já faz tempo que foi progressivamente abandonado.
Na América Latina apareceu algo. Conhecemos um novo franciscanismo, ou seja, uma nova etapa, mas radical, de vida evangélica. Quando nasceu? Falei dos bispos que participaram disso e que animaram Medellín e da opção pelos pobres, dos santos padres da América Latina. E vocês os conhecem. Se for preciso marcar a origem do novo evangelismo da Igreja latino-americana, eu diria – não se esqueçam – dia 16 de novembro de 1965. Nesse dia, em uma catacumba de Roma, 40 bispos, a maioria latino-americanos, incitados por Helder Câmara, se juntaram e assinaram o que se chamou de “Pacto das Catacumbas”. Ali se comprometeram a viver pobres, na alimentação. Se comprometeram e, de fato o fizeram depois, uma vez que chegaram às suas dioceses. E depois, priorizar em todas as suas atividades o que é dos pobres, ou seja, deixando muitas coisas para se dedicar prioritariamente aos pobres e uma série de coisas que vão no mesmo sentido. Foram eles que animaram a Conferência de Medellín. Ou seja, nasceu aqui.
E tiveram um contexto favorável. O Espírito Santo já naquele tempo havia suscitado uma série de pessoas evangélicas. As Comunidades Eclesiais de Base já tinham nascido. Já havia religiosas inseridas nas comunidades populares. Mas, eram poucos e se sentiam um pouco marginalizados no meio dos outros. Medellín lhes deu como que legitimidade e ao mesmo tempo uma animação muito grande, e se expandiu. Foi toda a Igreja latino-americana? Claro que não. Sempre é uma minoria. Um dia, me lembro, um jornalista perguntou ao cardeal Arns – um santo, com quem vivemos muito boas relações de amizade: “você, senhor cardeal, aqui em São Paulo tem muita sorte, toda a Igreja se fez Igreja dos pobres, as monjas todas a serviço dos pobres, que coisa magnífica!”. Aí, Dom Paulo disse: “Sim, pois, aqui em São Paulo 20% das religiosas foram às comunidades pobres; 80% ficaram com os ricos”. Era muito. Atualmente, não há 20%.
Isto foi uma época de criação, uma dessas épocas em que há, às vezes, na história com uma efusão muito grande do Espírito. Mas temos que viver essa herança. É uma herança que é preciso manter, conservar preciosamente porque isso não vai reaparecer. Às vezes me perguntam: Por que hoje os bispos não são como naquele tempo? Porque aquele tempo foi uma exceção, ou seja, na história da Igreja é exceção. De vez em quando o Espírito Santo manda exceções.
E quem vai evangelizar o mundo de hoje? Para mim, são os leigos. E já aparecem muitos grupinhos de jovens que justamente praticam uma vida muito mais pobre, livre de toda organização exterior, vivendo em contato permanente com o mundo dos pobres. Já existem. Haveria mais se se falasse mais, se fossem mais conhecidos. Pode ser uma tarefa também auxiliar da teologia: divulgar o que está realmente acontecendo, onde o Evangelho está sendo vivido neste momento, para dá-lo a conhecer, para que se conheçam mutuamente, porque do contrário podem perder ânimo ou não ter muitas perspectivas. Uma vez que se unam, formem associações, cada qual com sua tendência, seu modo de espiritualidade. Não espero muito do clero. Então é uma situação histórica nova.
Mas acontece que os leigos deixaram de ser analfabetos; isso já faz tempo. Eles têm uma formação humana, uma formação cultural, uma formação de sua personalidade que é muito superior ao que se ensina nos seminários. Ou seja, têm mais preparação para agir no mundo, mesmo que não tenham muita teologia. Se poderia dar mais teologia, mas isso é outro assunto. Agora, não vamos pensar que amanhã quem vai colocar em prática o programa de Aparecida serão os sacerdotes. Eu não conheço tudo, mas levando em conta os seminários que eu conheço, as dioceses que eu conheço, seriam necessários 30 anos para formar um clero novo. E quem vai formá-lo? Para os leigos é diferente. Há muitíssimas pessoas dispostas, e pessoas com formação humana, com capacidade de pensar, de refletir, de entrar em relação e contatos, de dirigir grupos, comunidades... Mas muitos ainda não se atrevem, não se atrevem. Mas aí está o futuro.
Para terminar, uma anedota: me chamaram para ir a Fortaleza, no nordeste do Brasil. Atualmente, Fortaleza é uma cidade muito grande – um milhão de habitantes. A Santa Sé havia afastado, marginalizado o cardeal Aloísio Lorscheider, mandando-o ao exílio em Aparecida, que é um lugar de castigo para os bispos que não agradam. Então, veio um sucessor, Dom Cláudio Hummes, que agora é cardeal em Roma. Cláudio Hummes suprimiu tudo o que havia de social na diocese, despediu todos: 300 pessoas com a longa trajetória de serviço, com capacidade humana. Um dia me chamaram: eram 300, chorando, lamentando: “e agora não podemos fazer nada. E agora, o que vai acontecer?”. Eu lhes disse: “mas, vocês são pessoas perfeitamente humanizadas, desenvolvidas, com uma personalidade forte. Tiveram êxito em sua família, tiveram êxito em suas carreiras, em seus trabalhos profissionais. Do que agora se preocupam se o bispo quer ou não quer? Por que se preocupam se o pároco quer ou não quer? Vocês têm formação suficiente e a capacidade. Por que não agem, não formam uma associação, um grupo, de forma independente? Porque o Direito Canônico – o que muitos católicos não sabem – permite a formação de associações independentes do bispo, independentes do pároco. Isso não se ensina muito nas paróquias, mas é justamente algo que é importante. Então, vocês podem muito bem reunir 4, 5 pessoas para organizar um sistema de comunicação, um sistema de espiritualidade, um sistema de organização de presença na vida pública, na vida política, na vida social: 300 pessoas com esse valor. Se paga, tem que pagar a 5, cada um vai gastar nem sequer 2% do que ganha, ou seja, podem muito bem manter 5 pessoas dedicadas a isso. E vão escolhê-los entre 25 e 30 anos porque essa é a época criativa. Até os 25 o ser humano se busca. A partir deste momento termina seus estudos e já conseguiu um trabalho. Então já quer definir sua vida: estes são os que têm capacidade de inventar. Todas as grandes invenções se deram por gente com essa idade”. Mas não o fizeram. Por quê? O que acontece? Por que tanta timidez? “Vocês que são tão capazes no mundo, na Igreja nada!” Não se sentiam capazes, necessitavam do bispo que lhes dissesse o que fazer, necessitam de sacerdotes que lhes digam o que fazer. Como é possível? Certamente, não se lhes ensinou. Podem ser adultos na vida civil e crianças na vida religiosa.
Mas nós podemos! Nós podemos fazê-lo e multiplicá-lo em todas as regiões que vamos conhecer. Então, o futuro depende de grupos de leigos semelhantes, que já existem mesmo que ainda estejam muito dispersos. O futuro está aí, é tarefa de todos, começando pelos jovens. No Brasil há neste momento seis milhões de estudantes universitários. Dois milhões, são de famílias pobres – são pobres os que ganham menos de três salários mínimos, porque com menos disso não se pode viver decentemente. Dois milhões. E qual é a presença do clero? Pouquíssima. Alguns religiosos. Das dioceses? Nada. E ali está o futuro. São jovens que estão descobrindo o mundo. Claro, há alguns que entram no mundo das drogas, que se corrompem, mas é uma minoria. Ou seja, o conjunto são pessoas que querem fazer algo na vida. Se não conhecem o Evangelho não vão viver como cristãos. É preciso explicar, mas não explicar com cursos de teologia, mas explicar fazendo, participando de atividades que de fato são realmente serviços aos pobres. Isso é possível fazer.
Tarefa da teologia. Então será preciso mudar um pouquinho: menos acadêmico, mais orientado para o mundo exterior... com todos os que não estão mais na rede de influxo da Igreja, que não recebem. Mas, presença nisso. E uma teologia que se possa ler, sem ter formação escolástica, porque anteriormente se não se tinha formação aristotélica não se podia entender nada dessa teologia tradicional. Bom, a filosofia aristotélica morreu, ou seja, os filósofos do século XX a enterraram. Agora temos liberdade para ver no mundo como nos abrimos.
Obrigado pela atenção de vocês!" (aplausos).

17 de dezembro de 2010

'A prece não serve para nada. Assim, como não serve para nada o amor'', afirma eremita


Em 20 de novembro de 2011, morreu, aos 91 anos, Adriana Zarri, eremita e teóloga. Sua voz era com freqüência fortemente crítica na Igreja católica, mas sua fé era indubitável, tanto que até mesmo Avvenire, jornal católico da Itália, não falhou em recordá-la.

A nota é de Christian Albini, em seu blog Sperare per Tutti, 27-11-2010. A tradução é de Benno Dischinger.
Graças à Internet é possível escutar, ver e ler Adriana Zarri.
Um trecho da transmissão Uomini e profeti transmitiu parte de uma conversa sua com Gabriella Caramone.
O site da RSI repropõe alguns vídeos nos quais ela pode ser vista em momentos diversos, o menos recente dos quais remonta a janeiro de 1970 (clique aqui).
Um blog dedicado aos novos eremitas contém uma sua entrevista a Rodolfo Signifredi, da qual reproduzo uma parte.
* * *
Por que os eremitas se isolam?
O interesse do eremita é solidão, não isolamento. E o silêncio contemplativo é denso de palavras e de presença. O eremita é um homem entre os homens e a solidão permite um emergir todo particular do mal do mundo que, em perspectiva, pode ser analisado com maior lucidez e combatido com uma contestação interior. A prece é a contestação mais profunda deste mundo utilitário enquanto coloca em crise o modelo antropocultural que o exprime.
Mas, permanecendo apartados tão longamente não se acaba sendo ursos ou misantropos?
Em cada um de nós existe uma validez monástica. O eremita é quem faz emergir esta validez sobre os outros componentes. Um ermitão não é uma concha de lesma na qual o indivíduo se encerra, mas é tão somente a escolha de viver a fraternidade em solidão. O isolamento é um cortar-se fora, a solidão é um viver dentro. O isolamento é uma solidão vazia, a solidão, ao invés, é plena cordial, cálida, percorrida por vozes e animada por presenças. Esta solidão é a forma eremítica do encontro. E o calor humano se reaviva continuamente.
Para que serve rezar tão intensamente?
A quem pede “para que serve” a prece, é preciso dizer escandalosamente que não serve para nada, como não serve para nada o amor, a arte, a beleza. Na acepção consumista a prece não serve; é um belo ramalhete de flores que colocamos sobre a mesa. Poderemos deixar de fazê-lo, se come da mesma forma. Porém não se almoça, não se janta. Nem mesmo sorrir serve. A boca se abre utilmente para comer e para comandar; o sorriso é um extra. Como certas pessoas se tornam eremitas? È uma escolha radical, como aquela dos autênticos ‘clochard’ [vagabundos] de outrora. Mas, diversamente de todas as formas associas, a do eremita é uma forma totalmente empenhada. Um retiro, uma retirada de tudo para encontrar-se a si mesmos e para ser ainda mais de ajuda a esta humanidade. O eremita nós o encontramos em todas as religiões, encontramo-lo no santão indiano que está nas grutas do Himalaia ou no monge ermitão do MonteAthos. No nosso Ocidente o movimento eremítico começa ainda antes deConstantino com a fuga para o deserto ou sobre as montanhas de solitários em luta com leões e serpentes, e também com diabos tentadores. Mas, quando a fama dos seus jejuns, das preces incessantes, do silêncio ininterrupto atrai discípulos e inquietudes existenciais, a vida eremítica se interrompe para transformar-se em comunidade. A ermida se torna convento. Tem sido assim também para o eremita Bento de Núrsia, constrangido por sua própria fama de santidade a improvisar-se como mestre de noviços, e a passar de uma solidão sem hierarquias ao ora et labora de um claustro.

24 de novembro de 2010

Todos nós somos chamados a ser monges’.

Entrevista com o Irmão Marcelo Barros
Aos 66 anos, o monge beneditino Marcelo Barros não para. Depois de participar do Seminário sobre questões climáticas e a vida no planeta em Porto Alegre, foi para Argentina, onde aceitou conceder à IHU On-Line a entrevista a seguir por email. Logo depois seguiu para Brasília e São Paulo e em meio a essa nova viagem respondeu nossas questões sobre a relação entre espiritualidade e o cuidado com a vida do planeta. “A Ecologia não é somente a ciência da interligação entre todos os seres vivos e todo o Universo, mas é também a descoberta desta amorosidade que permeia tudo e está presente em tudo”, explicou.

Marcelo Barros é monge beneditino, biblista e escritor. É assessor do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST) e das Comunidades Eclesiais de Base. É membro da Comissão da Coordenação Latino-americana da Associação Ecumênica de Teólogos/as do Terceiro Mundo (ASETT). Dedica-se, especialmente, ao macroecumenismo e às relações com as religiões afrodescendentes e indígenas. Seu mais recente livro é O Amor fecunda o Universo (Rio de Janeiro: Ed. Agir, 2009), o qual tem como coautor Frei Betto.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Como trazer a problemática do clima para dentro das igrejas, da espiritualidade e da vida da sociedade?

Marcelo Barros – As igrejas cristãs e quase todas as religiões se expressam pela liturgia, pelo ato de se reunir e celebrar. E estas celebrações são atos de comunhão. É importante que se explicite mais profundamente a dimensão ecológica e cósmica desta comunhão. Para dar um exemplo, em todas as celebrações eucarísticas, aIgreja Católica e a Igreja Anglicana e outras cantam: “Santo, Santo, Santo é o Deus do universo. O céu e a terra estão cheios de tua glória”. Mas ninguém explicita o que significa concretamente confessar que a terra e os céus estão cheios da glória, isto é, da presença divina. Então, é tudo uma questão de educação e de sensibilidade que devemos intensificar.

IHU On-Line – E por que isso não foi feito até agora?

Marcelo Barros – As igrejas vieram de culturas antigas nas quais as comunidades judaicas e cristãs viviam em meio a povos que adoravam a natureza. Por isso, tanto a Bíblia como a teologia que surgiu evitou, o quanto possível, salientar esta presença divina nos elementos naturais e sublinharam mais a presença e a intervenção divina na história. Mas nunca negaram isso. Osalmo 19 começa dizendo: “Os céus proclamam a presença divina (a glória de Deus)”. E o salmo 8é fruto de uma contemplação da natureza em uma noite de luar. Hoje, o diálogo com as religiões indígenas e afrodescendentes que adoram o Mistério divino presente na Terra, na Água e em todos os elementos do Universo podem nos ensinar muito sobre esta espiritualidade ecológica.

IHU On-Line – Como o senhor relaciona a questão da ecologia e da espiritualidade?

Marcelo Barros – A Espiritualidade mais profunda é a busca da intimidade com o Mistério divino. Onde podemos buscar esta presença divina? Em nós mesmos, uns nos outros, na natureza (diz a Bíblia: na criação que continua e é sempre atual) e na história. Então, a Ecologia não é somente a ciência da interligação entre todos os seres vivos e todo o Universo, mas é também a descoberta desta amorosidade que permeia tudo e está presente em tudo. Então, é importante a ciência ecológica, a técnica ecológica, a política ecossocial, mas a raiz de tudo isso deve ser uma cultura, ou chamemos claramente, uma espiritualidade ecológica. Não se trata em si de uma espiritualidade religiosa. Pode ser e todas as religiões deveriam desenvolvê-la e explicitá-la mais. Entretanto, pode ser também simplesmente humana e laical: uma cultura de cuidado e amorosidade com todo ser vivo e com o Universo ao qual temos consciência de pertencer.

IHU On-Line – De que outras formas as igrejas podem se envolver com a questão do meio ambiente?

Marcelo Barros – Há dez anos, Bartolomeu I[patriarca de Constantinopla e primaz das Igrejas ortodoxas] instituiu o dia de setembro como “festa litúrgica da Espiritualidade Ecológica”. Como a liturgia é o memorial dos atos divinos, no dia 1 de setembro, as igrejas orientais são chamadas a reavivar e atualizar o ato de amor divino pelo qual o Universo foi criado. E assim como celebramos a Páscoa como memorial da ressurreição do Cristo, no dia de setembro celebramos a permanente ressurreição de toda criação como ato do Espírito Divino. Penso que as Igrejas todas deveriam incluir a Ecologia na catequese, na sua ética e na sua teologia.

Há anos, em um programa de televisão, um pastor neopentecostal deu um chute em uma imagem de Nossa Senhora. Bispos, padres e fiéis católicos reagiram fortemente em todo o Brasil. Houve manifestações de desagravo e a reação foi tal que o pastor teve de se retratar. Todos os dias, há pessoas que não só chutam uma imagem feita de madeira ou barro, mas destroem a imagem divina inscrita na natureza. A cada ano queimam quase 30% da floresta amazônica, jogam venenos nos campos, poluem os rios e o ar. Até aqui, a maioria das igrejas não percebeu que este tipo de crime é uma blasfêmia e um atentado contra a obra divina muito maior e mais perigoso do que chutar uma imagem que representa uma santa que amamos. No sentido contrário, quando ogoverno Luladecidiu pela transposição do rio São Francisco,Dom Luis Cappio e muitos companheiros e companheiras das pastorais populares entraram em jejum de solidariedade e comunhão com o rio. Isso foi uma profecia importante para todas as igrejas e para o mundo inteiro.

IHU On-Line – O que é preciso fazer para que governos rompam com a lógica do sistema capitalista?

Marcelo Barros – Os governos representam a população. Se nós criarmos uma consciência coletiva de que este sistema é iníquo e assassino das pessoas e da natureza, é impossível que os governos continuem investindo neste sistema. Quando em 2001, o Fórum Social Mundialcomeçou protestando contra o neoliberalismo e proclamando que “outro mundo é possível”, quase todos os governos do continente latino-americano defendiam abertamente o neoliberalismo. Hoje, depois da crise sistêmica do capitalismo, quase nenhum governo defende mais claramente o neoliberalismo e os que defendem, o disfarçam. Ao mesmo tempo, na América Latina, estão surgindo novas formas de socialismo mais indígenas e democratas que mostram que, de fato, outra lógica e organização sociais são possíveis e urgentes.

IHU On-Line – O que é a teologia eco-feminista? O que podemos aprender com ela?

Marcelo Barros – Antes estávamos falando do capitalismo. O sistema que há séculos oprime a natureza é o mesmo que oprime a mulher. A cultura de dominação que ensina o ser humano não a conviver respeitosamente, mas a explorar a natureza é a mesma cultura patriarcal que sempre defendeu uma espécie de superioridade do homem sobre a mulher. Então a luta contra a dominação da natureza está ligada à luta pela libertação da mulher. Isso é o Ecofeminismo e é uma conquista da teologia para todos nós, homens e mulheres. No Brasil, nossa irmã e companheira Ivone Gebara foi a primeira teóloga brasileira que chamou a atenção disso em seu belo livroTeologia Ecofeminista (São Paulo: Editora Olho d´Agua, 1990).

IHU On-Line – As mulheres protegem a biodiversidade mais do que os homens?

Marcelo Barros – Parece artificial dizer que sim. O que podemos dizer é que a sensibilidade feminina pode levar a isso. Por exemplo, há pesquisas históricas que mostram que as culturas matriarcais (governadas por mulheres) fizeram muito menos guerra do que as patriarcais (dominadas por homens) e todos sabemos que desde a antiguidade e, principalmente, hoje, as guerras são elementos fortíssimos de destruição da biodiversidade. O que precisamos é de mulheres que não entrem simplesmente no mesmo sistema patriarcal e, sim, contribuam com a humanidade com o jeito de ser próprio da mulher. Na Inglaterra imperialista, uma mulher comoMargaret Thatcher, apesar de ser mulher, não contribuiu com a transformação do sistema. Ao contrário, aprofundou-o. Mas as mulheres doMST que, há alguns anos, no Rio Grande do Sul, ocuparam um laboratório de sementes transgênica de uma empresa multinacional e destruíram as sementes fizeram um ato profético de defesa da biodiversidade.

IHU On-Line – A formação de um monge privilegia esse outro olhar mais atento para o meio ambiente?

Marcelo Barros – Monge vem de uma palavra grega (monos) que significa uno ou unificado. Então ser monge é caminhar para a unificação interior e isso se faz em geral pela busca da unidade com os outros, tanto irmãos da humanidade, como os outros seres vivos em uma fraternidade universal. Raimon Panikkar, nosso irmão teólogo catalão, há pouco falecido, ensinava que esta dimensão de monge está presente em todo ser humano. De alguma maneira, toda pessoa busca esta unificação interior. Toda pessoa tem algo de monge ou monja. Hoje, é a Ecologia que chama a atenção para esta interligação e unidade que existe entre todos os seres do universo. Então há uma relação muito profunda entre a arte de ser monge e a espiritualidade ecológica.

Na Idade Média, Francisco de Assis viveu profundamente isso. Na Rússia do século XIX, o santo monge Serafim de Sarov vivia na floresta. Quando encontrava um animal que fosse um urso ou um pássaro, se inclinava diante dele e dizia: “De fato, Jesus ressuscitou e estou vendo um sinal disso!”. Então, eu digo: Todos nós somos chamados a ser monges no sentido de buscar esta unidade do nosso ser interior e na relação de amor e unidade com todos os seres humanos e com a natureza. O trabalho do IHU é um testemunho deste tipo de espiritualidade monástica e ecológica em seu sentido mais profundo: transformador e de desenvolver uma cultura de amor e de cuidado universal.
http://www.ihu.unisinos.br/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=38611

19 de novembro de 2010

uma imagem surgida na parede



Sempre tivemos na sala um pequeno altar com a imagem de Maria e uma cruz de São Damião na parede.  Com o passar do tempo introduzimos uma lamprina que permanecia acesa todo o tempo. Não sabemos bem porque em determinado momento percebemos que a fuligem da lamparina, talvez por o óleo  não ser de boa qualidade, começava a manchar a parede.  Pedimos a moça que nos ajudava na limpeza da casa que passasse um pano para limpar a parede. Ela então veio nos avisar que por mais que passasse o pano a mancha não saia.


a principio não reparamos muito bem na mancha , só passados alguns dias é que percebemos que além de não sair a mancha vinha aumentando...


E foi então que pudemos perceber que  havia uma imagem que havia se formado na parede.  Por algum tempo a imagem continuou e aos poucos fomos percebendo que mais que uma  havia várias imagens.
Como decidimos pintar a parede, tiramos várias fotos, algumas que estão aqui, e  com o contraste pode-se ver com mais clareza os detalhes da mancha.



Alguns afirmavam ser uma imagem de Jesus, outros viram o mestre Morya, ou até Ramatis . Houve também quem dissesse que na parte inferior havia a imagem de Confúcio.
Até hoje não conseguimos decifrar o mistério da imagem, se pura coincidência e sugestão provocada pela fuligem ou como alguns  quiseram justificar um sinal da proteção divina em nossa casa.



 Hoje já não usamos mais lamparinas, substituimos por velas e o pequeno altar também mudou de lugar na sala. Em todo caso mantenho guardada a imagem que nos chamou tanto a atenção.
Abaixo estão algumas possiveis comparações.

Mestre Morya ?

                          


Confúcio?

                          

Ou seria o Mestre Jesus que veio nos dizer
que sempre estará presente em nosso meio?



                            





12 de novembro de 2010

Carta a um amigo teólogo sobre o aborto nas eleições de 2010

José Comblin *

Caríssimo Arnaldo,

Você se lembra do golpe eleitoral que estourou na véspera do primeiro turno das eleições de 2010 quando apareceu todo um alvoroço sobre a questão do aborto. Esse alvoroço permaneceu durante todo o mês de outubro até o segundo turno. Nas igrejas e fora das igrejas foram distribuídos milhões de panfletos assinados pelos bispos da diretoria do regional Sul 1 para intimar os católicos a votar no candidato José Serra. O motivo era que os candidatos do PT, principalmente a candidata à presidência da república, queriam legalizar o aborto no Brasil e, por conseguinte, queriam implantar uma cultura de morte.

Esse incidente me levou a refletir um pouco sobre esse fato bastante estranho e o seu significado eclesial. Quero comunicar-lhe aqui alguma coisa dessas reflexões.

Os bispos denunciadores se diziam os defensores da vida, isto é, pessoas que lutam contra o aborto e lutam contra todos os políticos que defendem o aborto descriminalizado no Brasil. O seu linguajar foi o que usam os movimentos que se dizem defensores da vida porque condenam o aborto. Era um linguajar violento, condenatório. Somente por distração os autores esqueceram-se de comunicar que a descriminalização do aborto estava no programa do PV, e que o candidato Serra já tinha autorizado o aborto em certos casos quando era ministro da saúde, o que lhe valeu os protestos da CNBB. Com certeza foi um esquecimento por distração. Por discrição os bispos omitiram o que aconteceu um dia na vida do casal Serra, o que foi bom porque a vida privada não deve interferir com a vida pública

Sucede que a Igreja condena desde sempre o aborto, e estabeleceu uma pena de excomunhão para todos os que têm participação ativa. Conseguiu que houvesse no Brasil uma lei que criminaliza o aborto. Mas o Brasil é um dos países onde há mais abortos. Alguns dizem 70.000 por ano, outros estudos chegam a dizer que uma de cada 5 mulheres no Brasil já praticou um aborto. Sempre é um aborto clandestino e naturalmente é feito nas piores condições para os pobres. Pois para quem tem condições há clínicas particulares bem equipadas, conhecidas, porém jamais denunciadas pela Igreja. Sobre essas clínicas para os ricos o poder judicial fecha pudicamente os olhos. Afinal, trata-se de pessoas importantes As condenações da Igreja não têm nenhum efeito. A lei da república não tem nenhum efeito. Os defensores da vida não conseguem defender nada. Falam, falam, mas sem resultado. Condenam, condenam, mas o crime se comete com a maior indiferença pelas condenações verbais ou legais. Falam, condenam e nada acontece. Eles se dão boa consciência achando que defendem a vida, mas não defendem nada. Há um lugar no evangelho em que Jesus fala das pessoas que falam e não fazem nada. Impedem a descriminalização, mas defendem a situação atual, ou seja, são defensores do aborto clandestino, que é a situação atual.

O seu argumento poderia ser que a descriminalização aumentaria o número de abortos. No entanto, a experiência de outros países mostra que, pelo contrário, diminui o número de abortos. Isto se explica facilmente. Pois uma vez que uma mulher pode falar abertamente em aborto, as autoridades podem com a ajuda de psicólogas, de assistentes sociais, de assistentes religiosos dialogar com ela e buscar com ela outra solução, o que de fato acontece. Muitas mulheres não teriam feito o aborto se tivessem recebido ajuda moral ou material, quando estavam desamparadas.

Já que o documento era assinado por bispos, eu pensava que os bispos fossem explicar o que estão fazendo na pastoral da sua diocese para lutar contra o aborto clandestino, e fizessem propostas aos candidatos nas eleições na base das suas experiências pastorais. Mas não havia nada disso no panfleto. Teria sido interessante saber como fazia a pastoral diocesana para evitar que houvesse abortos. Mas não havia nada. Os bispos gritavam, assustavam, condenavam, mas não diziam o que faziam. Alguns leitores pensaram: já que não falam da sua pastoral para evitar o aborto, deve ser porque não existe essa pastoral. Falam contra o aborto, mas não fazem nada para evitá-lo. Condenam, e mais nada.

Pois, poderiam fazer muita coisa. Muitas mulheres que querem fazer o aborto, são mulheres angustiadas, perdidas, desesperadas que se sentem numa situação sem saída. Muitas querem o aborto porque os seus pais não aceitam que tenham uma criança. Outras são obrigadas a fazer o aborto pelo homem que as estuprou, e que pode ser o próprio pai, um irmão, um tio, um padrasto. Outras estão desesperadas porque a empresa em que trabalham, não permite que tenham criança. Outras são empregadas domésticas e a patroa não aceita que tenham que cuidar de uma criança. Então essas meninas ou moças ficam angustiadas e não sabem o que fazer. Não recebem atendimento, não recebem conselho, não recebem apoio nem moral nem material, porque tudo é clandestino e nem sequer se atrevem a falar com outras pessoas a não ser algumas amigas muito próximas. Não achando alternativa, a contra-gosto e com muito sofrimento recorrem ao aborto. A Igreja não as ajudou quando precisavam de ajuda.

A Igreja poderia ter uma pastoral para olhar o que acontece na rua, no bairro, quais são as meninas ou moças que podem estar em estado de perigo porque estão numa dessas categorias de risco. Poderia acolher ou dar assistência moral e material, dialogar, buscar outras soluções. A experiência mostra que às vezes um simples abraço faz com que desistam de fazer o aborto. O aborto é o resultado da indiferença da comunidade cristã. Somos todos culpados, todos cúmplices por omissão e, em primeiro lugar, teríamos que pedir perdão pelo nosso descuido em lugar de acusar essas mulheres. Era o que se esperava de um documento assinado por bispos, que, afinal, representam o evangelho e a maneira como Jesus tratava os pecadores.

Jesus não condenou os pecadores e o que se espera da Igreja é que tenha muita misericórdia, muita compreensão e que ajude efetivamente essas pessoas que estão numa situação tão difícil. Poderíamos fazer sugestões ao poder legislativo no sentido de criar instituições para responder e tantos casos em que a vida humana está em perigo, e este é um deles.

Não faz sentido dizer que sou contra o aborto e estou defendendo a vida se não faço nada. Não estou defendendo vida nenhuma e o aborto está aí e não faço nada. O governo tem uma lei que criminaliza o aborto e essa lei não se aplica. Só serve para que o aborto seja clandestino, isto é, feito nas piores condições morais e físicas, salvo para as pessoas de boa condição. Essa lei é inaplicável e a Igreja nem se atreve a pedir que ela se aplique. Seria preciso construir milhares de penitenciarias e colocar nas prisões talvez um milhão de mulheres. A Igreja não pede isso e se conforma com o aborto clandestino. Na prática nada faz contra o aborto clandestino.

Existe a alternativa da descriminalização, que é para os nossos defensores da vida a proposta de Satanás. A chantagem dos chamados defensores da vida fez com que todos condenem a descriminalização, como faz a Igreja. Quem sou eu para julgar? Os bispos do Regional Sul 1 acham melhor o aborto clandestino. Quem sou eu para discutir? Porém, teria o direito de pedir mais discrição e mais humildade, porque afinal somos todos cúmplices por omissão se não fazemos nada para prevenir os abortos tão numerosos no Brasil. A condenação é inoperante. Mas uma pastoral da família ou uma pastoral específica para esse problema poderia evitar que muitas mulheres angustiadas e desesperadas tenham quer recorrer ao aborto que nenhuma mulher pede sem chorar. Porque esperar antes de desenvolver essa pastoral?

Então, qual foi o testemunho de amor que a Igreja deu com esse panfleto eleitoral?

José Comblin, grande pecador e cúmplice por omissão.

http://www.adital.org.br/site/noticia.asp?lang=PT&cod=52341

* Teólogo

11 de novembro de 2010

A HARPA DE DEZ CORDAS

Jean Yves Leloup/Por: João Márcio

Segundo um conhecimento ancestral, o ser humano é uma harpa com dez cordas, cada uma delas representando um nível do corpo. E elas precisam estar em afinação não só para que o indivíduo alcance equilíbrio físico, mental e espiritual mas também para que duas pessoas experimentem a comunhão em seu estágio mais elevado: o sagrado.
O psicólogo, padre ortodoxo e teólogo francês Jean-Yves Leloup reafirma essa teoria e explica como alcançar a comunhão nas diversas linguagens do corpo.

Texto: Wilston F. D. Weigl

O que é o corpo e o que ele representa? A morada do espírito ou um obstáculo à vida espiritual? O veículo para tomarmos consciência da presença divina que nos habita ou, ao contrário, uma prisão que nos encarcera nos limites da dor física e do sofrimento? Essa reflexão, tão extensa quanto profunda, foi o ponto de partida da palestra Corpo: Encontro do Sagrado com o Profano, do filósofo, psicólogo, padre ortodoxo e teólogo francês Jean-Yves Leloup, em visita ao Brasil. Aos 56 anos, Leloup, além de um conferencista reconhecido internacionalmente, é autor de diversos livros sobre a espiritualidade. Entre elas estão O Corpo e Seus Símbolos (ed. Vozes), A Sabedoria do Salgueiro (ed. Verus) e O Romance de Maria Madalena (ed. Verus). Na obra mais recente, O Ícone - Uma Escola do Olhar (ed. Unesp), ele analisa as representações sacras da igreja cristã ortodoxa.

"Para alguns, o corpo é tudo, enquanto para outros não significa nada", pondera Leloup. "Mas, antes de nos interrogarmos sobre o corpo, precisamos nos maravilhar com ele." Para o teólogo, a alma dá forma ao corpo: sem sua presença, ele se dissolve. "Então, cuidar do corpo significa cuidar da alma que o anima", explica. "Tomar consciência da vida que se incorpora em cada um de nós, essa é uma experiência sagrada. Profano é o esquecimento do ser que se encarna nesse corpo. Por isso, existem pessoas que são como casas inabitadas: há a bela aparência exterior, mas não há nada dentro delas."

A HARPA DE DEZ CORDAS

Segundo Leloup, os antigos falavam de um corpo plural, referindo-se a ele como uma harpa com dez cordas. Nessa visão, cada corda representa um nível corporal. "Para que haja harmonia, precisamos ajustar a tensão em cada corda", frisa o teólogo. "Se estiverem muito tensas, o som será demasiadamente agudo. Se estiverem frouxas, não haverá som." Para o especialista, a relação que temos com nosso corpo determina a relação que estabelecemos com o corpo do outro. E cada um dos dez corpos interage de forma distinta com os corpos dos parceiros. Veja como cada uma das cordas da harpa traduz um aspecto do corpo humano, segundo Jean-Yves Leloup.

1 - CORPO DE MEMÓRIA: é aquele moldado pelas características genéticas, herdadas não apenas dos pais e da família mas também de antepassados, e condicionadas às raízes raciais e culturais. "Esse corpo é habitado por todas as memórias passadas de geração em geração", explica Leloup. "Algumas pessoas sentem falta desse corpo, pois desconhecem suas raízes. Para outras, essa memória é excessiva, uma herança pesada demais que carregam vida afora. Por isso, é fundamental avaliar como nos relacionamos com as memórias que nos habitam. Pois, quando encontra outro, nosso corpo se depara com a linhagem presente nele. E, por vezes, essas duas linhagens sentem dificuldade em se entender e se entrosar pelo excesso do peso do passado."

2 - CORPO DO APETITE: para o padre Leloup, somos feitos do que comemos. "Nosso melhor médico é o que está no prato", diz. Mas às vezes, segundo ele, nos falta o apetite - não apenas pelo alimento mas pela própria vida. "Dessa falta de gosto é que surge o desgosto pelo mundo, pela matéria, trazendo como conseqüência algumas patologias, por exemplo, a anorexia e a bulimia", afirma Leloup. Para ele, a comunhão entre as duas pessoas se estabelece igualmente por meio dos corpos de apetite, o compartilhar do alimento e do prazer em viver. "Às vezes, nossos apetites não combinam, não temos os mesmos gostos, e isso é uma fonte de sofrimento. Mas, quando há um acordo entre nossos apetites pelo alimento e pela vida, se estabelecem os momentos sagrados de comunhão", explica.

3 - CORPO DO DESEJO: esse nível, de acordo com Leloup, guarda a mais pura essência do ser. "Para a realização pessoal, temos que viver de forma coerente com nossos desejos, e não com os de nossos pais ou sociedade. A maior busca do ser humano é saber o que deseja realmente: todo o trabalho da psicanálise está em sintonizar o ser humano com sua essência mais verdadeira", frisa o teólogo. Para que haja a verdadeira comunhão entre duas pessoas, os corpos de desejo têm que se harmonizar. "Há que se ouvir o desejo do outro. Podemos alimentar um leão com as verduras mais frescas ou um coelho com deliciosas carnes, mas no fim ambos morrerão de fome. Podemos dar a outra pessoa o que é para nós o mais precioso, mas ela não recebe nada e morre de inanição. Porque seu desejo, sua verdadeira natureza, não tem a ver com o que damos a ela", diz Leloup.

4 - CORPO DE PULSÃO: esse nível abarca a libido, vista não apenas como o instinto sexual mas como a energia ativa e criadora que move o ser humano. "Alguns sentem falta dessa energia, enquanto outros a têm em excesso e se deixam levar por impulsos", diz Leloup. O desafio é usar de forma positiva essa força instintiva, primordial, que habita cada um de nós. "No relacionamento, precisamos estar sempre atentos a nosso corpo de pulsão e também ao do parceiro. Quando essas energias entram em acordo, há um encontro sagrado", define.

5 - CORPO EMOCIONAL: há um nível conformado pelas emoções. "Elas dão cor à existência. E nosso corpo encontra em outro corpo também uma gama de emoções. É importante poder rir ou mesmo chorar juntos e experimentar a união em nível emocional", ressalta o teólogo francês. "Às vezes, podemos ser muito inteligentes, porém incapazes de comunicar nossas emoções", continua. Segundo Leloup, em uma empresa, família ou comunidade, às vezes são os corpos emocionais que não estão em acordo, comprometendo a troca e a expressão.

6 - CORPO DO PENSAMENTO: segundo Jean-Yves Leloup, memórias de todas as nossas vivências e experiências habitam o corpo e essa carga, quando excessiva, impede a expressão mais espontânea e transparente do ser. "Muitas vezes, nosso corpo fica extremamente pesado sob todas as falas e pensamentos não expressos", ressalta o especialista. É preciso prestar atenção e saber até que ponto o que fica por dizer pode atrapalhar a comunhão entre dois seres. E também não há por que temer manifestar as diferenças de opinião. "Pensamos de maneira diferente para que possamos crescer", salienta Leloup.

7 - CORPO DO CORAÇÃO: às vezes, a principal dificuldade nos relacionamentos reside na dificuldade de expressão no nível desse corpo. "A pessoa gostaria de amar, mas sente como se essa energia, essa presença, a tivesse abandonado. E isso pode ser a causa de um imenso sofrimento. Então, enxerga o mundo, aos outros ou a si mesma de um modo seco, frio, sem coração", explica Jean-Yves Leloup. Abrir o coração ao outro é uma forma de suprema entrega, segundo o padre. E essa experiência pode até mesmo transcender o encontro entre dois seres. "São Francisco de Assis expressou em seu corpo de coração a compaixão por toda a humanidade", diz o teólogo.

8 - CORPO DOS SONHOS: é aquele que nos visita a cada noite, segundo o especialista. "É importante conhecer nossos sonhos, pois eles revelam em nós a presença de arquétipos, as imagens do inconsciente comuns a toda a humanidade. Por isso, devemos nos perguntar quais são essas grandes imagens que moram dentro de nós, pois elas podem dirigir e iluminar nossa vida. Novamente, trata-se de trazer harmonia para essa corda da harpa. Quando meu corpo encontra outro corpo, fundem-se esses universos de imagens. É importante conhecer que sonhos habitam o outro, que arquétipos o animam, para que haja o encontro sagrado."

9 - CORPO DE LOUVOR: nesse espaço dentro de nós, celebramos a alegria em seu nível mais profundo, que é a simples satisfação por estar vivo. Quaisquer que sejam as dores que possamos estar experimentando, há de existir essa fagulha que nos anima. "Quando encontramos outro corpo, é importante poder comungar nessa celebração da vida. Que pode ser compartilhar uma boa refeição ou talvez rezar juntos, aproximados nesse corpo de louvor", afirma Leloup.

10 - CORPO DE SILÊNCIO: em cada um de nós, há um campo feito de puro silêncio que é às vezes justamente algo que nos falta. "Somos preenchidos por ruídos, pensamentos, memórias, emoções", explica Leloup. "Não se pode esquecer da presença do ser silencioso que habita nosso corpo. E há algo de muito belo quando nosso corpo encontra o corpo de silêncio do outro. Simplesmente estar calado ao lado de alguém. Não se trata do silêncio negativo, quando faltam as palavras ou há algo que não é dito. Mas o silêncio que representa um abraço de união, compartilhamento, paz", finaliza.

4 de novembro de 2010

Nós e os Outros - Os pobres - em casa num mundo globalizado ?

José Comblin

No Brasil, desde janeiro deste ano (1999) sabemos o que é a globalização. Os mexicanos sabiam desde 1994. Trata-se, porém, de uma ciência incomunicável, não se transmite de um país para outro. Precisa ter feito a experiência em carne própria. Ninguém acredita na experiência dos outros.

Durante 20 anos os poderes dominantes do mundo financeiro celebraram as maravilhas da globalização. Puderam contar com a colaboração de toda a mídia mundial. Conseguiram conversões inumeráveis: inúmeros socialistas converteram-se à nova ideologia que prometeu um futuro glorioso. A globalização traria por fim todos os benefícios que os modernos tinham prometido.

Foram duas décadas de chantagem que paralisaram as faculdades críticas da humanidade: no Brasil 4 anos de discursos do governo Fernando Henrique derramaram a ideologia nas elites e nas massas. Quem não se converteu, ficou intimidado, quase que envergonhado por não ter entrado na psicose coletiva.

Estas duas décadas entrarão na história como o maior sociodrama da história da humanidade. Um pequeno grupo de financistas de Wall Street e alguns outros lugares conseguiram enganar 6 bilhões de seres humanos durante 20 anos. Nações inteiras integraram-se aos sonhos: infelizmente não somente entregaram suas mentes, mas também todos os seus bens e suas capacidades de desenvolvimento. Entregaram mais ainda: a sua liberdade.

A chantagem da globalização não foi inocente. Graças a ela, alguns acumularam riquezas inauditas e bilhões ficaram mais pobres.

Quando caiu o império soviético, a arrogância dos meios financeiros já não teve mais limites. Eles se sentiram os donos do mundo: poderiam conquistar o mundo inteiro sem encontrar nenhum obstáculo capaz de opor resistência.

A globalização não é outra coisa a não ser a conquista do mundo, conquista econômica e cultural, graças a imposição da superioridade política e militar dos Estados Unidos.

A conquista ainda não está completa. Trata-se de um processo, porém o processo progride e invade cada vez mais os últimos rincões da independência dos povos. A propaganda pela globalização é uma das armas pelas quais os Estados Unidos se impõem ao resto do mundo.

Claro está que as novas tecnologias desempenham um papel importante nesse processo. As tecnologias de comunicação permitem a multiplicação das mensagens pelo mundo inteiro de modo quase instantâneo. Os meios de transporte permitem que a indústria componha produtos feitos de milhares de peças fabricadas em dezenas de países diferentes. As novas tecnologias permitem a reprodução imediata e sem limite de bens culturais: os mesmos filmes, as mesmas canções, os mesmos ritmos, as mesmas imagens simultaneamente no mundo inteiro. Sobretudo o primeiro bem cultural atual que é a pornografia circula instantaneamente no mundo inteiro.

Os meios de comunicação e de transporte forneceram às entidades financeiras e às multinacionais a conquista rápida do mundo. Quem tira proveito, quem usa mais as novas tecnologias, são justamente os poderes financeiros que estão majoritariamente concentrados nos Estados Unidos. E sobre os outros, os poderes econômicos dos Estados Unidos exercem uma superioridade tão grande que arrastam-nos dentro dos mesmos movimentos.

Na América Latina a globalização significa um novo colonialismo. A meados do século XX a penetração do capital estrangeiro, a instalação das primeiras multinacionais e um pequeno crescimento da dívida externa provocaram reações nacionalistas, populistas, as vezes revolucionárias. Prevaleceu a teoria da dependência, seguindo as primeiras colocações da CEPAL. Alguns intelectuais tornaram-se ilustres nessa contestação daquilo que se denunciava como um novo colonialismo procedente dos Estados Unidos.

Se comparamos a dependência daquele tempo com a dependência de hoje, há um abismo. Hoje em dia a dependência é muito maior. A dívida externa multiplicou-se por 50 ou por 100. As decisões do governo federal são tomadas pelo FMI, o governo está forçado a privatizar as empresas públicas para facilitar a sua aquisição pelo capital estrangeiro. Este compra bancos, empresas, sobretudo o que está em plena expansão como as comunicações. E a cultura norte-americana inunda o país. A penetração norte-americana é tão forte que nem se nota mais: todos estão tão acostumados que não reparam mais nela.

No entanto, a oposição é muito fraca. Todos parecem convencidos pelo argumento de que não há alternativa. O mundo entrega-se ao colonialismo quase sem resistência. Na América latina, a resistência é mínima. Alguns países, como a Argentina, tornam-se arautos da mensagem libertadora do colonialismo: a dolarização é oferecida como a salvação dos povos.

A dependência colonial, como sempre, divide as nações. Por um lado, as elites ficam cooptadas pelo sistema e integram-se nele. Tornam-se os imitadores da cultura dominante e os colaboradores dos quais as entidades financeiras e econômicas estão precisando em cada país. As elites locais encarregam-se de ampliar, consolidar e eventualmente defender os poderes colonizadores. Os governos locais estão encarregados de manter a ordem para que o sistema colonial possa funcionar sem sofrer reações nacionalistas.

A docilidade das elites tem a sua recompensa: a potência colonial confirma e consolida os privilégios dos seus fiéis colaboradores: alguns dependentes são chamados a entrarem nos quadros do sistema. Facilitam a assimilação da cultura norte-americana pelas elites de todos os países formando uma classe mundial homogênea que governa o mundo inteiro em nome da superpotência única.

As elites latino-americanas são particularmente sensíveis ao prestígio que lhes confere a integração no sistema colonial. Todos estudaram nos Estados Unidos e tornaram-se discípulos e propagandistas da ideologia que lhes foi inculcada.

Se as elites são promovidas e têm acesso ao modo de viver ocidental, as grandes maiorias estão excluídas. Não têm acesso, nem terão acesso a Internet, não terão ações na Bolsa de Valores, não comprarão títulos na Bolsa de Valores de Tokyo ou de Singapura, nem sequer poderão ser operários nas novas indústrias ultra-sofisticadas. No melhor dos casos poderão ser guarda-costas ou empregadas dos privilegiados, limpadores de vidros dos seus carros, porteiros dos hotéis de grande turismo.

Para as massas o desemprego aumenta, o arrocho salarial é constante, a repressão policial é o único remédio ao crescimento da criminalidade. E as migalhas do festim dos grandes: cestas básicas, água do carro-pipa. Para os seus filhos, escolas que não ensinam nada, hospitais que não curam, aposentadorias de miséria. A fase da globalização foi paga pelo aumento da pobreza em toda a América Latina. Mesmo no Chile que seria a exceção, porque o número de pobres teria diminuído, a distância entre ricos e pobres aumentou escandalosamente.

Os pobres participam também do mundo globalizado, porém, como espectadores. Pela TV sabem tudo o que acontece no mundo no qual nunca entrarão. Aliás, a TV consola-os e os distrai: impede a inveja e o desejo de lutar contra a sociedade estabelecida.

Na América Latina, a resistência é fraca. 500 anos de submissão criaram mentalidades, hábitos, estruturas mentais e comportamentos que não favorecem a luta. Nos problemas da vida, a maioria ainda acha que a solução é o recurso a um patrão benevolente: pedir ajuda ao vereador, ao prefeito, ao deputado ou ao vigário ou ao pastor, a uma instituição estrangeira ou local. O sistema social está ainda baseado no clientelismo, mesmo em grandes cidades como São Paulo ou Rio de Janeiro. A doutrina implícita é que é bom que haja ricos para que possam ajudar os pobres.

Espontaneamente os povos latino-americanos são submissos e reverenciam toda autoridade, a do vigário, a do prefeito, do patrão, do rico.

O clientelismo justifica todo e qualquer colonialismo. Se os Estados Unidos mandam capitais para o Brasil, só pode ser um benefício que merece respeito, admiração e gratidão. Antigamente o benfeitor supremo, o grande distribuidor de benefícios era o presidente da república, por intermédio dos pequenos benfeitores que são os governadores, os membros de congresso e as autoridades locais. Agora há um benfeitor mais poderoso ainda do que o presidente: é o presidente dos Estados Unidos que distribui os seus favores mediante o FMI, o Banco Mundial ou os conjuntos financeiros de Wall Street. É assim que se analisa a realidade e toda a mídia confirma esta análise.

Por isso, o tema do colonialismo tem pouca ressonância. Quem tem dinheiro, merece reverência e os Estados Unidos têm muito dinheiro e, portanto, merecem muita reverência. Também a mídia sempre apresenta os Estados Unidos com a maior admiração e os representantes do FMI chegam no Brasil como Papai Noel. São aqueles que podem derramar dinheiro no país e todos acham que receberão algumas migalhas.

1. O encobrimento do outro

Por ocasião dos 500 anos do desembarque de Cristóvão Colombo na América em 1492, Enrique Dussel publicou em 1992 uma série de conferências sob o título de "1492: O encobrimento do outro".

Na realidade, o encobrimento do outro continua até hoje e a recente globalização somente pode aumentar esse encobrimento.

As nações latino-americanas querem recuperar a memória dos chefes indígenas do passado que lutaram contra a conquista. Celebram Benito Juarez no México, Tupac Amaru no Peru, Atahualpa no Equador, Lautaro e Caupolican no Chile, Tibiriça em São Paulo. Mas tal culto não tem consequência alguma no comportamento para com os descendentes destes heróis. Glorificam-se os índios daquele tempo e a nação adota-os como antepassados e símbolos da nacionalidade. Porém, os índios de hoje são simplesmente encostados e, quando querem resistir, são duramente reprimidos. Está sendo glorificado o índio místico, abstrato do passado, mas é proibido evocar a memória dos índios que vivem hoje. Como se o papel dos índios consistisse em fornecer símbolos de nacionalidade e depois cortesmente desaparecer. O índio de hoje incomoda.

Para a mídia e a cultura dominante, os índios devem esconder-se. A sua presença é desagradável. Incomoda porque contraria o retrato que as elites querem dar do seu país: um país civilizado, realmente ocidental, ocupando um lugar digno no mundo globalizado, bem longe dos africanos ou dos asiáticos.

Quanto aos negros, o encobrimento é mais radical ainda. Supõe-se que a abolição jurídica da escravidão suprimiu o problema. Os heróis são os chefes brancos que tiveram a grande generosidade de emancipar os escravos. Os heróis são a princesa Isabel, Joaquim Nabuco, Castro Alves: não se cita nenhum negro. Zumbi não tem acesso á cultura mediévica.

No Brasil que oficialmente conta com 44% de negros, a presença negra é quase nula na sociedade que se mostra e, por conseguinte, no retrato que os brasileiros se fazem a sua nação. Oficialmente celebra-se a fusão das três culturas. Uma vez que se chega na prática, na TV tudo é branco. Quando a TV mostra o carnaval de Salvador, destaca todas as mulheres brancas. Igual no Rio de Janeiro: os negros sempre na sombra e os brancos na luz.

Quantos estudantes universitários negros ? Quantos professores negros ? Melhor não olhar as páginas sociais do Estado de São Paulo ou dos diários locais como o Correio da Paraíba: Quantos negros ? Nenhum.

Apesar da retórica oficial, o encobrimento ainda é quase total. Você, por favor, entre no aeroporto de Guarulhos ou do Galeão, ou mesmo de Salvador ou de Recife e veja quantos negros há no aeroporto! Entre no avião: se pode contar dois ou três negros, já dá para se admirar. Quantas aeromoças negras ? Pessoalmente já encontrei centenas de aeromoças brancas e até agora encontrei duas negras num vôo da Varig. Pode ser coincidência, mas duvido muito que seja pura coincidência. Piloto de avião, ainda não encontrei nenhum negro, o que não quer dizer que não existe nenhum.

A política do encobrimento deu bons resultados. Índios e negros tornaram-se invisíveis.

2. O encobrimento da Igreja

A Igreja teria evitado o encobrimento ? Daria aos índios e aos negros todo o espaço que a sua importância demográfica, histórica ou cultural merece ? Infelizmente, não parece que essa seja a situação. Tomemos um exemplo significativo: o sínodo da América reunido em Roma em 1997. Foi publicado o documento que conclui o sínodo da América, a exortação apostólica Ecclesia in America.

Este documento consta de 135 páginas e a matéria está distribuída em 76 números. O texto contem mais ou menos 25.000 palavras. Num texto tão breve fala-se de tudo e de todos: todos os aspectos da vida da Igreja, todas as instituições e todas as categorias que compõem o povo de Deus na América. Com essas condições pode-se esperar que os problemas e os assuntos sejam tratados a nível de suma generalidade. Em semelhantes documentos todos os grupos de católicos querem ver mencionadas as suas atividades: precisa dirigir algumas palavras para todos, ainda que seja para repetir as mesmas banalidades que se encontram invariavelmente em todos os documentos eclesiásticos: são as exigências da burocracia. Tudo isso é muito compreensível e faz parte das convenções sociais.

No entanto, alguns fatos chamam a atenção. Na América moram entre 120 e 140 milhões de negros. Há no território americano uns 40 milhões de indígenas que conservam as suas culturas tradicionais. A cada grupo se dedica meia página dentro do no. 64, além de brevíssimas alusões no decorrer do texto global. Não deixa de ser um espaço limitado. Sobretudo se se leva em conta que dois números e quase três páginas são reservadas às Igrejas de rito oriental (no. 17 e 38). Ora, os católicos de rito oriental constituem uma minoria muito modesta que nem de longe se poderia comparar com os negros ou os índios.

Sobre a história dos negros na América, história que ainda condiciona tão profundamente a situação deles na atualidade, apenas uma alusão: "A recordação dos capítulos cinzas da história da América, relativos à prática da escravidão e outras situações de discriminação social, não deve deixar de suscitar um sincero desejo de conversão que leve à reconciliação e à comunhão" (no. 58 a). Sobre os 400 anos de escravidão da qual os negros americanos ainda não saíram na realidade apesar das leis oficiais, nada mais do que isto "os capítulos cinzas". Como se, além disso, fossem capítulos de um passado superado! Nada mais do que isto para evocar a situação dramática dos descendentes dos escravos, ainda radicalmente marginalizados e esquecidos!

No no. 64, dedicado aos negros e índios, a respeito dos negros, diz-se o seguinte: "Desejaria lembrar aqui que também os americanos de origem africana continuam sofrendo, em algumas zonas, preconceitos étnicos, que constituem, para eles, um sério obstáculo para encontrar a Cristo. Tendo em vista que toda pessoa, de qualquer raça e condição, foi criada por Deus à sua imagem, sejam promovidos planos concretos, em que não deve faltar a oração comunitária, que favoreçam a compreensão e a reconciliação". Nada mais ? Nada mais ! Por acaso existem na América zonas em que os negros não estejam sofrendo "preconceitos étnicos"? Por acaso estão sofrendo simples "preconceitos étnicos" ou uma completa marginalização, um esquecimento total?

Não haveria por acaso diferenças culturais tão grandes entre os africanos e os ocidentais que dificilmente se lhe pode impor o mesmo esquema de cultura religiosa ? Os "orientais" podem conservar os seus costumes e os seus ritos próprios. Mas os africanos que são muito mais diferentes do que os orientais, não têm o direito de ser eles também "orientais"? Por acaso seria possível evangelizar a população negra dentro das estruturas de uma Igreja tão marcadamente branca, tão ocidental de cultura ? Nenhuma esperança para a pastoral negra! Terá que ser branca!

No parágrafo sobre as outras religiões presentes na América (no. 51) não há alusão às religiões africanas. Simples esquecimento ? Porém, não se esquecem dos hinduistas, budistas, muçulmanos. O esquecimento refere-se justamente por acaso aos africanos ? Ou não seria encobrimento, ainda que inconsciente ?

De certo modo os índios são tratados com mais atenção, mas somente um pouquinho mais. O sínodo reconhece a existência de religiões "nativas": "A Igreja na América deve esforçar-se por incentivar o mútuo respeito e as boas relações com as religiões nativas americanas" (no. 51 b).

No entanto, as propostas pastorais oferecidas aos índios ficam aquém das expectativas, muito aquém. "É preciso extirpar toda tentativa de marginalização" se os indígenas ainda estão sendo roubados, destruídos, mortos e se a sua presença é objeto constante de repressão: Ninguém ouviu falar de Chiapas em Roma ? Ninguém se lembrou de Guatemala e das lutas dos povos indígenas desde o Chile até o México, passando por Bolívia, Peru, Equador, Colômbia, Panamá ? E a condição reservada ao Paraguai guarani na América do Sul ?

"O que supõe, em primeiro lugar, que se devem respeitar seus territórios e os pactos com elas estabelecidos; da mesma forma, há que responder às suas legítimas necessidades sociais, sanitárias e culturais" (no. 64 a). Infelizmente depois do "primeiro lugar" não há "segundo lugar". Nada sobre as aspirações à autonomia das nações indígenas dentro das nações historicamente reconhecidas.

É verdade que há muito espaço para saudar Nossa Senhora de Guadalupe, "o rosto mestiço da Virgem de Guadalupe constitui desde o início, um símbolo da inculturação da evangelização, da qual foi a estrela e a guia" (no. 70 b).

Por que o "rosto mestiço" e não o rosto índio. O que há de mestiço na imagem de Guadalupe ?

O texto fala de "santa Maria de Guadalupe, um grande exemplo de evangelização perfeitamente inculturada" (no. 11 d). Estranha expressão! A evangelização é obra humana, obra dos evangelizadores. Nossa Senhora de Guadalupe seria exemplo de evangelização inculturada se tivesse sido criação dos evangelizadores, criando a figura da Guadalupana para melhor inculturar o seu evangelho. Porém, segundo a tradição local, Nossa Senhora de Guadalupe não foi uma invenção dos missionários espanhóis com o afã de inculturação, foi milagre de Deus. E os missionários ficaram longe de seguir o exemplo do milagre divino. A inculturação não veio depois e tampouco até agora ela veio e nenhum caminha de inculturação se mostra aos índios no texto final do Sínodo.

Enfim, a perspectiva oferecida aos indígenas permanece muito reduzida. Quem trabalha com os índios ficará frustrado. Quanto aos próprios índios, felizmente nem vão tomar conhecimento de que houve um sínodo em que se aludiu um pouco a eles.

É verdade que a propósito da formação dos sacerdotes nos seminários, se faz menção dos indígenas. "Particular atenção será reservada às vocações provindas entre os indígenas: ocorre proporcionar uma formação inculturada no seu ambiente. Estes candidatos para o sacerdócio, ao receberem uma adequada formação teológica e espiritual para o seu futuro ministério, não devem perder as raízes da própria cultura" (no. 40 c).

Belo programa! Infelizmente até agora todas as tentativas nesse sentido foram condenadas. Perguntem ao sr. cardeal Echeverria do Equador, uma pessoa que certamente não será acusada de progressismo!

Então, encobrimento dos indígenas e encobrimento dos negros. Desde 1492 não se nota nenhum progresso.

3. A nova face da religião popular

Neste final de século a religião popular muda. Melhor dito: uma religião popular tradicional, nascida e cultivada na cultura rural, está declinando. Hoje em dia 80% da população brasileira mora em cidades e nos outros países latino-americanos a evolução tende para uma situação semelhante. As tradições rurais mantêm-se ainda durante alguns anos, mas influem pouco nas gerações nascidas nas cidades.

O protestantismo conheceu sobretudo na década dos 80 a passagem do pentecostalismo para o neopentecostalismo. Uma mudança semelhante ocorre hoje na Igreja católica. Aqui o grande sinal da abertura de uma nova época histórica, a chegada de um novo paradigma é a irrupção do fenômeno Marcelo Rossi em São Paulo e no Brasil inteiro, pois em poucas semanas o padre Marcelo Rossi conquistou o Brasil inteiro.

O que acontece com o padre Marcelo Rossi não é um caso particular: é a entrada de uma nova religião popular católica sem timidez e sem restrição. O fenômeno foi preparado pela Renovação carismática católica, mas esta ainda tinha muitas lembranças do passado rural e uma certa reserva no uso das técnicas de comunicação. Doravante a época dos escrúpulos passou. Algo novo está surgindo.

A mensagem de padre Marcelo Rossi responde diretamente às aspirações religiosas e à cultura do ser urbano. Pois no mundo rural, os seres humanos faziam a experiência de Deus na natureza, isto é de modo objetivo. Deus estava na frente deles, no céu estrelado, no sol, na lua, na chuva, na terra, nas árvores, nas montanhas. Deus era como objeto de contemplação: era conhecido imediatamente por todos.

Na cidade, o mundo exterior fica dessacralizado, a natureza desaparece ou se transforma em bem de consumo graças ao turismo e às saídas de final de semana: o turista não encontra a Deus na natureza: encontra-se a si próprio.

A religião não desaparece por isso, muito pelo contrário. As cidades latino-americanas conhecem uma fermentação religiosa que lembra as civilizações antigas, pré-cristãs. Porém, a experiência religiosa mudou. Agora a pessoa faz a experiência de Deus no seu coração, nos seus sentimentos, nas suas emoções religiosas. Sente a presença e o amor de Deus de modo sensível. A experiência torna-se mais intensa pela comunicação com outras experiências. Se a mesma experiência é vivida simultaneamente por milhares ou centenas de milhares de pessoas, a experiência transforma-se numa plenitude de alegria: choram, gritam, gesticulam como num orgasmo espiritual.

O padre Marcelo não permanecerá só. Terá muitos imitadores e todas as paróquias vão ter que inspirar-se nele se querem fazer sucesso. O sinal da passagem para um novo paradigma é que a Rede Vida de TV resolveu transmitir as missas de padre Marcelo: dizem que cederam ante a pressão do público. A Rede Vida tinha começado com a transmissão das missas aborrecidas que ainda se mantém nas paróquias, mesmo após as transformações dos carismáticos. Os conservadores cederam ante a pressão do público. Sinal de que os bispos e os padres conservadores logo mais entrarão no mesmo movimento. Vão descobrir que o verdadeiro conservadorismo está no padre Marcelo apesar das aparências.

O padre Marcelo representa a perfeita inculturação na cultura urbana. De saída, adota o modo de expressão cultural básico da nova cultura urbana: o show. Adota o show como meio de expressão religiosa. Os carismáticos praticavam o show de modo inconsciente e involuntário e por isso mesmo nunca formalmente, nunca como tal. Praticavam o louvor que era concebido como pura oração, puro contato com Jesus sem mediação de um modelo cultural humano. Ilusão, naturalmente! Nunca se prescinde de um modelo cultural. O drama da liturgia pós-Vaticano II é que não sabia bem qual era o seu modelo cultural. A missa tridentina sabia muito bem: era o modelo sacrificial do Antigo Testamento e das religiões antigas: o sacerdote oferece o sacrifício e os leigos assistem com silêncio e admiração à imolação e ao oferecimento do sacrifício.

Agora, como o padre Marcelo, a Igreja adota o show. A própria missa integra-se no show e as pessoas vêm pelo show, assistem a missa como suplemento sem saber exatamente o que é, porque o show oferece um sentido completo.

O show fala por si mesmo. Não precisa de muitas palavras: a experiência de Deus não depende das explicações, pois não é abstrata. O show é sinal, é sacramento porque é entendido imediatamente. Nota-se que todos aprendem os cantos imediatamente. Milhares de pessoas que nunca cantaram os cantos da missa paroquial, de repente aprendem e cantam. Os corpos movem-se, a emoção aflora, as lágrimas não se deixam reprimir: Jesus está aqui e me ama, me salva, me conduz com Ele a uma vida nova de puro amor. Jesus me dá saúde, paz, esperança, anula todos os problemas e apaga todos os temores.

Estamos assistindo ao começo da inculturação do catolicismo na cultura urbana. O show é a procissão de ontem. Padre Marcelo é o novo frei Damião para a cidade. No show as pessoas solitárias da civilização urbana sentem-se envolvidas numa grande comunidade, experimentam o calor da multidão de milhares de pessoas, todos irmãos e irmãs. No show está a resposta às frustrações da vida na cidade: isolamento, solidão, falta de sentido, ao aborrecimento da multidão solitária, das filas, das viagens de ônibus, em pé, do estresse no trabalho, da insegurança, do medo de perder o emprego. O show não é espetáculo: é incorporação no movimento da vida.

Nem todos sabem dirigir um show. Nem todos têm o dom. Porém, os dons não faltam e aparecem desde que se manifesta a procura. O show supõe muitas técnicas. Não se improvisa. Nada tem de espontâneo.

Além disso, o padre Marcelo inaugura a idade da TV na Igreja. É o primeiro representante da Igreja que se torna estrela de TV, comunicando-se com a quase totalidade do povo brasileiro. A mensagem dele na TV é também exatamente o que o público espera: cada um encontra nele a resposta à sua religião pessoal urbana que muitas vezes não tinha expressão: o padre Marcelo diz o que eu sabia, mas não sabia dizer, diz o que eu pensava, mas não sabia que o pensava. Depois dele virão outros padres Marcelo, talvez até mais brilhantes do que ele, mas ele terá a dignidade de ter sido o primeiro.

Padre Marcelo expressa e desperta, alimenta, fortalece a religiosidade popular urbana.

A religiosidade popular corresponde maioritariamente aquilo que os escolásticos chamavam de religião natural. A fé cristã edifica-se sobre os fundamentos de uma religião natural. Não nasce nem vive solitária, separada de toda a cultura como a tradição luterana sempre tendeu a representá-la. Antigamente a fé popular repousava no fundamento da religião cosmológica do Deus transparente no cosmos. Agora, a religião natural é a manifestação de Deus nas emoções, isto é, na subjetividade.

Os conservadores têm razão, não têm nada para temer. Pelo contrário, a nova religiosidade popular é profundamente conservadora. Vai reforçar o clericalismo e o triunfalismo. Reconstitui a figura sagrada do sacerdote com novas expressões. Todos os sacerdotes vão aproveitar a sacralização da figura de padre Marcelo, todos serão um pouco como companheiros de pe. Marcelo, da mesma família dele. E as multidões voltarão para as Igrejas. Os shows não questionam em nada nenhum aspecto do rosto tradicional na Igreja. Inclusive restauram vários elementos tradicionais que estavam em declínio: a água benta, o incenso, a procissão do Santíssimo... Nenhuma mudança nem na Igreja, nem na sociedade. A religião popular está bem guardada em mãos clericais e não cometerá nenhum deslize.

E o evangelho em tudo isso ? E a evangelização ? O evangelho e outra coisa. Porém, parece que já não é mais a prioridade. A prioridade é a experiência natural de Deus, a renovação do sentimento religioso, a redescoberta do prestígio sobrenatural do padre e do prestígio social da Igreja. O evangelho é outra coisa. Menciona-se com muita complacência na teoria, porém na hora da prática é outra coisa. De uma preocupação pelo evangelho estamos passando para uma preocupação pela religião natural, pela experiência religiosa.

O temor à conquista das igrejas evangélicas pentecostais gera um sentimento de urgência. "Temos que freiar esta expansão, lutar contra ela". Como sempre para lutar contra um adversário, recorre-se às armas dele. A Igreja católica está sendo aspirada para o lado das igrejas pentecostais, sobretudo das neo-pentecostais, como a Igreja Universal que são as mais agressivas. Para lutar contra elas, usemos as armas delas. Lutando contra um inimigo, torna-se semelhante a ele.

A exortação pós-sinodal diz: "A atividade de proselitismo, que as seitas e novos grupos religiosos desenvolvem em várias regiões da América, constitui um grave obstáculo ao esforço evangelizador. A palavra "proselitismo" tem sentido negativo quando reflete um modo de conquistar adeptos não respeitador da liberdade daqueles que são atingidos por um determinada propaganda religiosa. A Igreja católica na América critica o proselitismo das seitas e, por esta mesma razão, na sua ação evangelizadora exclui o recurso a tais métodos" (no. 73a). Com a maior cara de pau!

Que as Igrejas evangélicas sejam "grave obstáculo ao esforço evangelizador" não deixa de suscitar dúvidas. Pois, em muitos setores da população pobre e marginalizada na América, os pentecostais são os únicos que evangelizam. Evangelizam e não são obstáculos à evangelização. Que o seu evangelho seja incompleto, é de se lamentar. Mas não é culpa deles que nunca receberam nenhuma formação, nenhuma ajuda ecumênica. Que evangelizam, não pode haver dúvida e a acusação que se lhes faz, é uma grave injustiça.

Agora que sejam os católicos que venham acusar outros de não respeitar a liberdade, é espantoso. O que foi que aconteceu durante 500 anos a não ser uma imposição da fé católica com todos os meios de constrangimento, inclusive a Inquisição. A lembrança do passado deveria inclinar para mais discrição. Que certas igrejas pentecostais, sobretudo as neo-pentecostais, pratiquem métodos reprováveis, está claro. Porém em muitos casos não fazem outra coisa a não ser renovar os métodos praticados pelos missionários católicos até há poucos anos atrás.

Graças a Deus muitos católicos continuam evangelizando. Grupos permanecem fiéis à orientações de Medellin e Puebla. No entanto, distanciam-se cada vez mais as duas Igrejas de que fala I. Gonzalez Faus. Como conciliar o evangelho com a nova religião popular que parece ser a nova menina dos olhos da hierarquia americana? Eis o desafio.

Poder-se-ia pensar que a nova face da religião popular seria o sinal de um diálogo entre a Igreja e os povos na sua religião. Na realidade, não há instâncias de diálogo. A nova religião popular procede de sacerdotes, será controlada pelos padres e reforçará o poder dos padres. Durante todo o século XX os padres conseguiram controlar pouco a pouco todas as manifestações do catolicismo popular, santuários, romarias, ritos, objetos religiosos, devoções. Não podem penetrar na intimidade das pessoas, mas pelo menos podem controlar as expressões exteriores. Quanto a nova religião popular, a conexão é mais forte, porque desde o início ela tem origem clerical.

4. Os outros são os pobres

Que os pobres sejam eminentemente "o outro", foi o que repetiram incansavelmente os teólogos da libertação, especialmente Gustavo Gutierrez e Jon Sobrino. Ora, aqui também há uma evolução sensível.

O discurso eclesiástico está sempre ligado pelo seu passado. Não se pode deixar de usar o linguajar dos pobres. O discurso sobre os pobres está presente na exortação pós-sinodal (no. 58).

Se comparamos com os textos de Medellin ou de Puebla, o retrocesso é evidente. Em primeiro lugar a palavra opção foi substituída pela palavra amor. Não há opção preferencial, mas amor preferencial. Ora, a opção afetava toda a pastoral. Se a Igreja faz opção pelos pobres, isto significa que toda a pastoral há de ser convertida, reorientada em função da prioridade dos pobres. O amor preferencial não diz isso. De fato a pastoral preconizada pela exortação, longe de dar prioridade aos pobres, dá prioridade à recuperação do poder perdido, à reconquista do poder eclesiástico. Daí a insistência particular nos instrumentos de poder: os colégios e as Universidades católicas, que se dedicam essencialmente à classe rica na América latina, os meios de comunicação de massa.

Medellin e Puebla preconizavam uma Igreja mais pobres. Destacavam o tema da conversão total da Igreja para poder realizar a opção pelos pobres. Agora não se fala mais de uma conversão da Igreja, nem do sentido da pobreza da Igreja.

Puebla fala do protagonismo dos pobres, do seu papel como sujeitos da própria libertação e como questionamento da Igreja. Os pobres eram reconhecidos como evangelizadores da própria Igreja.

O no. 58 da exortação faz dos pobres o objeto da pastoral da Igreja que se situa face a eles. O texto não vai além do assistencialismo e não se vê como a prioridade dos pobres obrigaria a Igreja a uma conversão radical dos meus métodos ou de suas estruturas. Os pobres deixam de ser "o outro" que questiona e exige mudanças de comportamento. Como "outro" o pobre fica também encoberto.

O documento pós-sinodal não foi surpresa nenhuma. Na realidade veio confirmar uma evolução que foi cada vez mais clara nas últimas décadas, sobretudo durante o presente pontificado.

Na América latina a Igreja transformou-se numa fortaleza de conservadorismo. Os restos da fase anterior (Medellin-Puebla) estão escondidos, quase desapercebidos. Quando o Papa dizia que a teologia da libertação está morta, ele dizia que ela não exerce mais nenhuma influência na Igreja da América latina. Tornou-se subterrânea. Ainda tem certo espaço no Brasil, mas isto mesmo vai desaparecer em breve.

Roma reconquistou América Latina e assim assegurou o seu futuro. Na América Latina já não há mais nenhuma contestação. As normas romanas são recebidas com submissão total. E o espaço eclesial está cada vez mais ocupado por movimentos ou instituições fundamentalistas ou integristas. Ali o movimento carismático expande-se de modo acelerado. Os movimentos mais antigos como Focolari, Schoenstatt, Neo-catecumenais crescem e se espalham. Nascem institutos integristas como os Legionários de Cristo com uma pujança tal que podemos prever que daqui a dez anos a maioria será integrista na América Latina. Somente no Brasil nascem centenas de institutos semelhantes, todos integristas. E o Opus Dei, o mestre de todos, realiza suas melhores façanhas na América Latina. América Latina fortaleza do conservadorismo onde renasce o espírito de Vaticano I !

No início do pontificado o Papa manifestou algumas vezes que estava pensando numa nova cristandade na Europa depois da queda do comunismo. Estas esperanças desapareceram depois da queda do muro de Berlim. Então apareceu que o capitalismo ocidental era muito mais perigoso do que o ateísmo comunista. Em Roma já sabem que a Europa está perdida para a Igreja. As minorias que permanecem ainda na Igreja católica, são críticas, questionam as estruturas tradicionais e toda a maneira como a Igreja está sendo conduzida.

Ao invés, na América Latina, todas as críticas desapareceram. Reina a calma total. Os católicos latino-americanos já constituem a metade dos católicos do mundo e numericamente a sua importância ainda vai crescer. Ali está doravante a força da Igreja católica. África é fraca demais e muito dependente, entregue às guerras e à instabilidade. Na Ásia os católicos são muito minoritários e não têm condições para assumirem a continuidade do poder romano. Somente América latina poderá assumir esse papel. A Igreja latino-americana está sendo preparada para esse papel. Tudo indica que as esperanças da Cúria romana não serão desmentidas. Sob os estandartes dos seus "Legionários" Cristo reinará no mundo mediante a massa católica da América Latina.

O que acontecerá com a Igreja que foi de Medellin e Puebla ? Com os que escolheram uma pastoral dos índios, dos negros, dos pobres ? Constituirão minorias muito discretas, pois não poderão contar com a TV, nem com a mídia em geral. Não se falará deles na mídia e por isso a maioria nem sequer saberá que tais coisas ainda existem. No entanto, continuarão nos subterrâneos com a ajuda de uma minoria de bispos, sacerdotes, religiosas e religiosos, aqueles que não serão as estrelas da TV.

Justamente porque serão tão fracos, serão tolerados: não perturbarão muito os triunfos da Igreja. E uma Igreja triunfante pode dar-se ao luxo de ser mais tolerante.

Apesar de tudo isso, o evangelho deve continuar clandestinamente, como sucedeu no passado da Igreja. Durante toda a época colonial, tudo era mais difícil porque não havia tolerância nenhuma. Quem discordava era preso e enviado à Espanha ou Portugal para ser julgado, condenado à prisão ou à morte.

Voltamos à época das minorias abraâmicas como diz dom Helder. Estas minorias devem manter o fogo aceso no meio da "noite obscura". A "noite obscura" não é quando a Igreja é perseguida, mas quando é triunfante.

Até quando ? Quem manterá a chama acesa ? Por enquanto devemos agüentar todo o tempo necessário. Também, América Latina não pode permanecer muito isolada, como uma fortaleza bem protegida. Há movimentos de discussão e de contestação na Ásia, na Oceania, na Europa, até na África. A única Igreja que a cúria romana controla completamente é América Latina. A comunicação com outras Igrejas do mundo pode arejar a abrir horizonte novos. A noite não dura sempre. Lembremo-nos da perseguição ao franciscanismo no século XIV, da perseguição aos erasmianos no século XVI, da perseguição aos padres sociais entre 1860 e 1960. Tudo tem um fim e o evangelho, apesar de perseguido, acaba manifestando-se.

(www.ciudadanet.org.br/missiologia/abertura.htm)