http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=9Jfv-Kmd_m0
O absurdo e a Graça
Na vida hoje caminhamos entre uma fome que condena ao sofrimento uma enorme parcela da humanidade e uma tecnologia moderníssima que garante um padrão de conforto e bem estar nunca antes imaginado. Um bilhão de seres humanos estão abaixo da linha da pobreza, na mais absoluta miséria, passam FOME ! Com a tecnologia que foi inventada seria possível produzir alimentos e acabar com TODA a fome no mundo, não fossem os interesses de alguns grupos detentores da tecnologia e do poder. "Para mim, o absurdo e a graça não estão mais separados. Dizer que "tudo é absurdo" ou dizer que "tudo é graça " é igualmente mentir ou trapacear... "Hoje a graça e o absurdo caminham, em mim lado a lado, não mais estranhos, mas estranhamente amigos" A cada dia, nas situações que se nos apresentam podemos decidir entre perpetuar o absurdo, ou promover a Graça. (Jean Yves Leloup) * O Blog tem o mesmo nome do livro autobiográfico de Jean Yves Leloup, e é uma forma de homenagear a quem muito tem me ensinado em seus livros retiros, seminários e workshops *
19 de julho de 2011
Um Vídeo para ver, rever, refletir
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Psicoterapeuta / Psicólogo Clínico - Membro do Colégio Internacional de Terapeutas (Terapeutas de Alexandria) – Terapeuta Holístico - Pós graduado em Arteterapia e em Terapia Floral - Formação Holística de Base na Unipaz - Formação básica em Teologia pelo Centro Loyola de Fé e Cultura -PUC/RJ. Ger.de Rec.Humanos na Cia Souza Cruz Ind. e Comércio - Consultor empresarial - consultor Psicopedagógico dos projetos Sociais de Capacitação Solidária
Uma nova perspectiva se apresenta a todos nós
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Plâncton e florestas devoram CO2: a estranha dupla que vai salvar o mundo
| Um estudo da revista Science calculou pela primeira vez a quantidade exata de absorção de gases do efeito estufa. Resultados para além de qualquer previsão otimista. Mas continua sendo necessário reduzir a emissão de combustíveis fósseis. A reportagem é de Elena Dusi, publicada no jornal La Repubblica, 18-07-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto. Aquilo que o homem suja com uma mão, a natureza se esforça para limpar com duas. Um golpe de esponja sobre a terra firme é dado pelas árvores e florestas; o outro, no mar, vem das microalgas que formam o plâncton. A vegetação da terra e do mar une as suas forças suas forças para retirar de circulação o dióxido de carbono produzido pelos combustíveis fósseis. A sua união permite que o planeta se livre de pouco mais da metade das emissões: 4,6 bilhões de toneladas de carbono dos 8,7 bilhões produzidos todos os anos. O resto acaba naquele pequeno ambiente que é a atmosfera, a partir de onde alimenta o efeito estufa, elevando sempre mais o termostato do planeta. As primeiras estimativas finalmente precisas do balanço do carbono sobre a terra chega hoje do Serviço Florestal dos EUA, que o publicou na revista Science, pondo na planilha o dióxido de carbono produzido pelos combustíveis fósseis e aquele absorvido pelas florestas, calculado de acordo com a sua idade e a sua localização geográfica. O CO2 capturado pelas árvores (para além das previsões mais otimistas) foi um pouco maior do que a "engolida" pelo plâncton dos oceanos. A terra firme, de fato, limpa o planeta todos os anos de 2,4 bilhões de toneladas de carbono contra os 2,2 bilhões das algas marinhas. E quem dá a contribuição máxima são as jovens florestas tropicais, fruto do gradual reflorestamento da última década que se seguiu à fase anterior do desmatamento selvagem. A vegetação entre o Trópico de Câncer e o de Capricórnio, sozinha, absorve 55% do carbono capturado pelas florestas. "E se deixássemos de cortar árvores hoje – comenta Josep Canadell, um dos autores do estudo –, graças à contribuição da vegetação, poderíamos chegar a limpar a metade das emissões de combustíveis fósseis". Se desligar as motosserras é o caminho ideal para tornar mais eficaz a esponja da terra firme, para aumentar a eficiência do plâncton no mar ainda não há soluções douradas. As algas que nadam na superfície dos oceanos, exatamente como as plantas na terra, absorvem dióxido de carbono durante o processo de fotossíntese. Quando, depois, as árvores ou os micro-organismos marinhos morrem, o carbono que contêm acaba no solo ou no fundo do oceano: portanto, fora daquela atmosfera já sobrecarregada de poluição. Vários experimentos científicos têm tentado "fertilizar" áreas do mar, jogando ferro sobre elas para acelerar o crescimento do plâncton. Foi justamente a esses organismos que um estudo da Universidade de Ohio, publicado em fevereiro na PNAS, atribuiu o mérito de ter tornado a atmosfera terrestre respirável nos tempos antigos. Desencadeando uma espécie de efeito estufa ao contrário, o plâncton, há 500 milhões de anos, provocou um retorno maciço do oxigênio depois das extinções em massa da era cambriana, permitindo que a vida florescesse novamente. As medidas do carbono absorvido depois dos experimentos modernos de "fertilização" do mar não deram resultados satisfatórios, enquanto os habitantes do mar diferentes das algas mostraram sinais de intoxicação. Na terra, ao contrário, a esponja das florestas mostrou um fenômeno paradoxal: uma atmosfera mais rica em CO2 melhora a respiração das plantas e, assim, acelera seu crescimento. O estudo da Science também enfatiza positivamente a expansão das florestas causada pelo abandono das terras agrícolas na Rússia e pela intervenção maciça da China para plantar novas árvores nas zonas que haviam desmatadas anteriormente, enquanto nosEUA, entre 1990 e 2007 (o período de tempo coberto pelo estudo), a vegetação sofreu golpes de calor, seca e incêndios. "Mesmo que as florestas nos deem uma mão – concluem os pesquisadores –, reduzir as emissões de gases do efeito estufa continua sendo a única hipótese sobre a mesa". | |
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Meio Ambiente
Psicoterapeuta / Psicólogo Clínico - Membro do Colégio Internacional de Terapeutas (Terapeutas de Alexandria) – Terapeuta Holístico - Pós graduado em Arteterapia e em Terapia Floral - Formação Holística de Base na Unipaz - Formação básica em Teologia pelo Centro Loyola de Fé e Cultura -PUC/RJ. Ger.de Rec.Humanos na Cia Souza Cruz Ind. e Comércio - Consultor empresarial - consultor Psicopedagógico dos projetos Sociais de Capacitação Solidária
5 de julho de 2011
O TREM DAS CEBs
Pe. Alfredo J. Gonçalves
De algum tempo para cá, tornou-se comum falar de crise das Pastorais Sociais, dos Movimentos Populares e das Comunidades Eclesiais de Base (CEB’s). Crise que, em grau considerável, é ampliada às esquerdas em geral. Semelhante crise estaria vinculada, entre outros fatores, à perplexidade que, desde a eleição de Luiz Inácio Lula da Silva em 2002, dominou não poucos agentes e lideranças das organizações da sociedade civil quanto ao desempenho do governo capitaneado pelos caciques do Partido dos Trabalhadores. O projeto popular teria sido abortado com os ajustes da própria vitória de Lula, diluindo-se num marasmo indefinido de apatia, falta de estímulo e descontentamento(...)
No caso das CEB’s, entretanto, a crise vem crescendo como cizânia no terreno de uma Instituição milenar que, segundo alguns, volta-se gradativamente para o interior de si mesma, preocupada menos com a "questão social”, tão cara aos principais documentos da Doutrina Social da Igreja, e mais para os problemas de caráter moral e/ou doutrinário, bem como para um espiritualismo estéril e avesso a qualquer tipo de compromisso social. A exterioridade dessa opção se reveste de um liturgismo fortemente ritualista e rigoroso. Também a preparação do próprio clero, no interior das casas de formação, estaria priorizando a função e a visibilidade do sacerdócio. De acordo com outras vozes, a crítica é ainda mais severa.
Nas últimas décadas estaríamos assistindo, na Igreja Católica, a um retorno "à grande disciplina” (JB Libânio), à sacristia, à concepção de uma rígida hierarquia. Neste caso, tratar-se-ia de uma verdadeira involução frente à postura dos anos de 1960-70, no enfrentamento da ditadura militar. Os chamados movimentos religiosos de matiz espiritualizante, espécie de pentecostalismo católico, avançam nas lacunas deixadas por uma ação social mais incisiva, transformadora, libertadora. Em contrapartida, tanto as CEBS’s quanto a Teologia da Libertação (TdL), teriam encolhido de tamanho, ousadia e visibilidade sociopolítica. Até mesmo a "opção preferencial pelos pobres”, ainda que reconhecida e apoiada pela Santa Sé, pelas cartas encíclicas papais e pelos documentos do Conselho Episcopal Latinoamericano (CELAM), parece sofrer de uma timidez irreconhecível, se levarmos em conta a firmeza, o engajamento e coragem das décadas passadas.
Os direitos humanos e os problemas socioeconômicos e político-culturais teriam passado, assim, a um segundo plano. Num universo cada vez mais marcado pelo pluralismo cultural e religioso, de uma parte, e de progressivo crescimento das Igrejas Pentecostais, de outra, a instituição católica trata de desenhar os contornos de sua identidade. O que a leva, por outro lado, a esforçar-se laboriosamente para uma maior incidência na sociedade civil e política. Aqui não faltam os extremistas para preconizar, alto e bom som, o surgimento de uma nova cristandade.
Neste quadro, convido os leitores a uma viagem no trem das CEB’s, metáfora que acompanha sua caminhada ao longo do percurso, cujos vagões representam, cada um, os grandes encontros nacionais e/ou regionais. No decurso de nossa viagem, somos igualmente convidados a uma parada para reflexão em cinco estações: origem, luz, projeto popular, vitória e esperança. Evidente que, através das janelas da composição, o horizonte se alargará para um panorama mais vasto, levando em consideração o contexto da sociedade moderna ou pós-moderna.
1.Estação da Origem
Na primeira estação, detemo-nos para refletir sobre a origemdas Comunidades Eclesiais de Base. A meu ver, desde o início elas se erguem sobre quatro pés: o clamor dos oprimidos na América Latina, de maneira particular sob o peso das ditaduras militares, que leva a uma nova práxis cristã; a força da Palavra de Deus que joga nova luz sobre essa situação de pobreza e opressão, com a releitura do Livro do Êxodo e dos profetas, da prática de Jesus nos Evangelhos e de outras passagens bíblicas; o impulso dos documentos do Concílio Ecumênico Vaticano II, em especial a nova eclesiologia da Constituição Dogmática sobre a Igreja, a Lumem Getium, e abertura aos desafios modernos da Constituição Pastoral sobre a Igreja no Mundo de Hoje, a Gaudium et Spes; por fim, a reflexão crítica da Teologia da Libertação, como reinterpretação da prática libertadora. Como pano de fundo está a concepção de Igreja, não mais hierárquica, e sim como Povo de Deus. A pirâmide medieval desfaz-se em um círculo de igualdade. Nele, Cristo ao centro, toda a Igreja deve tornar-se ministerial e seus vários serviços não são maiores ou menores em grau, mas apenas diferentes. Evidente que há um longo caminho a percorrer para atingir esse ideal.
Nesse esquema, é notória a noção de círculohermenêutico: a realidade iluminada pela Palavra de Deus desencadeia uma prática cristã de natureza transformadora; esta, retroagindo sobre os livros bíblicos, provoca uma nova interpretação, tanto de seu conteúdo como de seu contexto histórico; a reinterpretação dos textos sagrados, por sua vez, incide sobre a práxis libertadora, levando a comunidade a uma ação cada vez mais comprometida. O círculo cresce de forma dinâmica, dialética e espiral, conduzindo a uma ampliação de horizontes. Alargam-se, de um lado, as possibilidades de uma leitura contextualizada dos livros do Antigo e Novo Testamento e, de outro, as potencialidades de mudança nas diferentes ações sociais e políticas.
A esta altura, vale um alerta. Muitas vezes se pergunta como está a Teologia da Libertação. Como diria Gustavo Gutierrez (autor do livro Teologia da Libertação), o que importa não é tanto a teologia, e sim a libertação. De fato, a ação libertadora é que desencadeia a dialética do círculo virtuoso acima descrito. A teologia é um discurso segundo e isto em duplo sentido: por uma parte, ela deve contar com os instrumentos teóricos das ciências sociais, que a ajudam a ler o complexo pergaminho da história; por outra, ela é chamada a refletir a partir da nova prática dos cristãos frente aos desafios da realidade. Sobre esse duplo terreno, a teologia busca na Palavra de Deus, na Doutrina Social da Igreja e na tradição teológica os elementos para entender e, ao mesmo tempo, iluminar essa prática. Resulta, com isso, uma reiterada potencialização da ação transformadora. E esta, por seu turno, também interpela e amplia o raio de conhecimento teórico da própria teologia.
Nem precisaria acrescentar que semelhante prática cristã foi grandemente influenciada pelo método de alfabetização e educação de Paulo Freire. Também este parte da realidade, dela retira palavras-chaves do cotidiano das pessoas para desencadear o processo de aprendizado, que é igualmente o processo de libertação sociopolítica. Fundindo ambas as práticas, poder-se-ia parafrasear Paulo Freire dizendo que ninguém educa ninguém e tampouco liberta ninguém; as pessoas se educam e se libertam mutuamente. É preciso reconhecer que livros como Pedagogia do Oprimido e Educação para a Liberdade, ambos de Paulo Freire, marcaram decisivamente as comunidades cristãs que procuravam unir fé e vida.
2.Estação da Luz
É justamente o binômio "fé e vida” que nos leva à segunda estação, luz. A palavra remonta ao túnel escuro das ditaduras militares, seja no Cone Sul, seja nos países bolivarianos, sejam, enfim, na América Central e Caribe. Nesse período sombrio, de perseguição, tortura e morte, as CEB’s representaram uma pequena luz em meio à escuridão. Não poucos agentes e lideranças sociais, políticas e sindicais encontraram abrigo no grande "guarda-chuva” da Igreja Católica. Não toda a instituição, evidentemente, mas em seus setores mais progressistas, afinados quer com a eclesiologia do Concílio Ecumênico Vaticano II e os documentos do CELAM, quer com a crescente produção teórica vinculada à Teologia da Libertação.
Restringindo-nos ao Brasil, um grupo relativamente pequeno de bispos ditos "progressistas” conseguiu elaborar e publicar documentos de um caráter espantosamente profético.Ouvi os clamores do meu povo, originário do nordeste brasileiro, é um texto emblemático a este respeito. Fundamentava-se no capítulo três do Livro do Êxodo e, corajosamente, denunciava as injustiças sociopolíticas e anunciava a necessidade de mudanças urgentes, para a construção de "um novo céu e uma nova terra”. Sem estender em demasiado a lista das figuras mais proeminentes, a reflexão faz emergir os nomes de Dom Hélder Câmara, de Dom Paulo Evaristo Arns, de Dom Pedro Casaldáliga, entre tantos outros.
Mas, da mesma forma que na eclesiologia do Povo de Deus os bispos não constituem toda a Igreja, somam-se ao profetismo deles uma infinidade de sacerdotes, religiosos, religiosas e leigos, os quais contribuíram para o aprofundamento dessa prática libertadora à luz da Palavra de Deus. Frei Tito, Frei Betto e Vladimir Herzog, além de numerosos teólogos, sindicalistas, professores, jornalistas, catequistas e políticos, poderiam encabeçar um desfile de mártires que nos levaria muito longe. Isto para sequer falar dos outros mártires, anônimos e inteiramente desconhecidos. A interação permanente e recíproca entre CEB’s e TDL abriu horizontes mais largos para a participação dos cristãos nas transformações socioeconômicas e políticas. Desnecessário lembrar que a "opção preferencial pelos pobres”, numa fé compromissada com os direitos humanos e a construção de uma nova sociedade, vale dizer o Reino de Deus, ganhou uma relevância inédita e temerária para os "donos do poder”. Fé e vida, termos fortemente entrelaçados e se interpelando mutuamente, representaram a nova aurora da práxis cristã e libertadora.
Ao mesmo tempo refúgio, proteção e luz, a Igreja das CEB’s converte-se em terreno fértil para milhares de iniciativas populares em luta para melhorar as condições reais de vida e trabalho. Tome-se como exemplo a "operação periferia”, na qual o arcebispo Dom Paulo Evaristo, junto com agências co-financiadoras internacionais, ajudou na proliferação de centenas de comunidades pela periferia de São Paulo, então em franco e desordenado crescimento demográfico, devido, particularmente, à forte migração interna do nordeste para o sudeste.
3.Estação do Projeto Popular
O projeto popular para o país constitui nossa terceira estação. Nela, nossa parada será um pouco mais prolongada. Mesmo no interior do regime de exceção, as comunidades cristãs significaram, na década de 1970 e início de 80, um dos igarapés que haveriam de formar o grande rio do projeto alternativo para o Brasil. Elas se juntaram a outras forças vivas e ativas na sociedade brasileira, tais como os movimentos populares, sindicais e estudantis, entre outras organizações não governamentais. Subdividiremos este item em duas partes.
a)Três esboços de projeto
De acordo com alguns analistas políticos, com destaque para José Luiz Fiori, é possível identificar no cenário da política brasileira três projetos mais ou menos distintos. Não são três propostas definidas, explícitas, com fronteiras precisas. Mas três tendências de caráter político e econômico que emergem no decorrer das últimas décadas.
A primeira pode ser chamada de nacional conservadora. Pressupõe as riquezas naturais do Brasil, aliadas à experiência de um povo criativo e trabalhador. Conta com a possibilidade de construir um país autônomo, livre e soberano, mas sem mexer nas estruturas assimétricas e injustiças que datam dos tempos coloniais. Desenvolve um grande parque industrial, para fabricar os produtos até então importados, mas cria leis trabalhistas baseadas na Carta del Lavoro (Itália de Mussolini). Não seria, por exemplo, o projeto do Estado Novo, de Getúlio Vargas e de Juscelino Kubitschek?
A segunda tendência é batizada de nacional popular. Também esta supõe a riqueza do solo e do povo brasileiro, visando construir um país autônomo, livre e soberano. Ela tem raízes na resistência indígena, negra e popular dos séculos passados. Mas nas décadas de 1950 e 1960, ela ganha contornos mais definidos. Exemplos disso são as Ligas Camponesas, o método de educação de Paulo Freire; Brizola e João Goulart, apesar de suas contradições; a universidade brasileira, especialmente com Darcy Ribeiro; o movimento estudantil; a música popular e a arte, e assim por diante. Há uma cara indefinida de projeto popular, de matizes socialistas.
Surge então a terceira tendência, de corte liberal/neoliberal, que com o golpe de 1964, corta a cabeça do "projeto popular”. Os militares atrelam o país ao mercado financeiro internacional e iniciam o processo de endividamento externo. O Brasil torna-se satélite dos países centrais como grande fornecedor de matéria-prima. Também esta tendência tem raízes na época do capitalismo mercantil, com os chamados ciclos econômicos. Além dos militares, serão os presidentes Fernando Collor e Fernando Henrique Cardoso que levarão a cabo o "entreguismo brasileiro” mais descarado, através das privatizações e da abertura ao capital internacional.
b) Projeto popular
No início da década de 1970, o projeto de tendência popular começa novamente a levantar a cabeça. Vários igarapés surgem: comunidades eclesiais de Base (CEB’s), iluminadas pela Teologia da Libertação; movimentos populares, contra a carestia e a favor de outras reivindicações; sindicalismo combativo, movimentos estudantis e a contribuição de "intelectuais orgânicos” (expressão de Gramsci). Estes igarapés convergem para formar um grande rio que, nos primeiros anos de 1980 reúne todas essas águas para fundar a Central Única dos Trabalhadores (CUT) e o Partido dos Trabalhadores (PT).
Desde então, assistiremos ao embate político de dois projetos cada vez mais definidos. De um lado, o projeto neoliberal, que aborta o movimento das Diretas Já, e toma as rédeas do poder, ganhando seguidamente as eleições majoritárias; de outro lado, o projeto nacional popular que, desde 1982, inicia a disputa pelo poder a partir dos municípios, depois dos Estados e por fim, em 2002, chega ao Palácio do Planalto com a eleição inédita do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Lula não é um meteoro, ou um aventureiro que aparece do nada. Sua trajetória tem raízes profundas nos movimentos sociais e nas organizações de base das quatro décadas precedentes ao pleito eleitoral que o levou à Presidência.
Se, nos anos de 1980, os movimentos e organizações sociais se consolidam e se fortalecem, nos anos 90, passam a um entrelaçamento inédito de parcerias, ou de redes. Contribuiu para isso as Semanas Sociais Brasileiras, o Grito dos Excluídos, a Campanha Jubileu Sul, a Consulta Popular, O Seminário e Tribunal da Dívida Externa – redes que se ampliam em nível nacional e internacional e que vão desaguar na organização dos Plebiscitos e nas Assembléias Populares. É neste contexto que Lula chega à cadeira presidencial.
4.Estação Vitória
A vitória de Luiz Inácio Lula da Silva, em 2002, esconde uma armadilha. Quando chega ao Planalto Central, três fatores fizeram o novo presidente dar as costas ao projeto popular e contentar-se com a administração do projeto neoliberal. Primeiramente, as expectativaslevantadas na população, pela vitória de um presidente operário, estavam muito acima da capacidade organizativa e mobilizadora das forças sociais. Lula é um político nato, tem faro para captar a atmosfera e a correlação das forças em jogo. Em segundo lugar, percebendo essa disparidade entre expectativas e condições reais de ação política, estabelece uma aliança pela governabilidade não com as organizações que o elegeram, mas com os representantes do Brasil "terra de contrastes” (Roger Bastide). Semelhante pacto, num cenário de forças tão desiguais, acaba necessariamente por fortalecer o mais forte. Não se faz aliança entre tubarões e sardinhas. Por fim, vem a famigerada Carta ao Povo Brasileiro, endereçada à população deste país, mas dirigida ao capital financeiro internacional, no sentido de acalmar os ânimos exaltados. Em seu conteúdo, Lula garante manter todos os compromissos, isto é, não haverá calote! Os banqueiros, latifundiários, industriais... Enfim, as classes dominantes podiam dormir tranqüilas.
Em poucas palavras, a coligação liderada pelo PT ganhou o governo, mas não ganhou o Estado. O Estado brasileiro, com seus múltiplos órgãos e instâncias, histórica e estruturalmente mantém-se retrógrado ao extremo e avesso a qualquer tipo de mudança. O governo passa a ignorar essas forças, procura ganhar espaços no cenário internacional e entrega o controle do Banco Central a Henrique Meirelles, um dos grandes pivôs da política neoliberal. Ironia do destino, o governo do PT, criado no berço das organizações sociais, assume a ingrata tarefa de gerenciar a crise do neoliberalismo. Paralelamente a isso, nos eventos dos movimentos e organizações de base começa uma ladainha onde as palavras mais sublinhadas são: desilusão, desencanto, perplexidade, desestímulo, apatia, desmobilização, cooptação, indignação, entre tantas outras. Mais que um projeto de nação, prevalece um projeto de poder.
Para usar uma metáfora de Jean-Claude Guillebaud, se a nave Brasil foi colocada pelos governos anteriores no piloto automáticodo mercado global, o presidente Lula foi eleito para retomar o piloto manual e tentar uma guinada na direção das reformas básicas e urgentes, aspirações da população de baixa renda. As forças de direita não o permitiram fazer isso. Sobrou ao presidente eleito pouca margem de manobra. Por uma parte, cresciam os lucros do sistema financeiro e desenvolvia-se agronegócio, por outra, o governo procurava distribuir algumas migalhas aos pobres: bolsa-família e bolsa-escola, minha casa minha vida, crédito mais acessível, cotas nas universidades, aumento do salário mínimo, criação de novos empregos, entre outras. Trata-se aqui de políticas públicas ou políticas compensatórias? A pergunta remete a um debate nada ocioso nos dias atuais.
5.Estação Esperança
Paramos, finalmente, na quinta e última estação, a da esperança. Comecemos por retomar a ladainha da crise que se estabelece com a vitória de Lula e seu desempenho como presidente que, a partir da Senzala, alcança as salas da Casa Grande(para usar a consagrada expressão de Gilberto Freire). Seguem-se dois mandatos onde o modelo neoliberal não se altera, apesar de uma fatia um pouco menos magra para a população de baixa renda. Junto com esses anos, acumula-se certa amargura, perplexidade, desilusão, desencanto, indignação, apatia, entre tantos outros sentimentos adversos, explícitos ou implícitos. Os núcleos do PT, os movimentos e pastorais sociais e as organizações de base, para dizer o mínimo, assistem à desintegração do projeto popular. Consciente ou inconscientemente, segue-se, por parte do governo, a cooptação ou neutralização das energias de vanguarda.
a)Crise e encruzilhada
Se esse é o caso, por que estação da esperança? Porque toda crise é ambígua: tem seu lado negativo e seu lado positivo. Primeiro ela nos leva ao berço, ao muro das lamentações, ao "chororô”. Por mais crescidos que sejamos, carregamos uma saudade primordial do colo da mãe. Pelas minhas idas e vindas através do território nacional, entendo que já estamos superando o lado negativo da crise. Pouco a pouco, assamos a seu lado positivo, encaramos os desafios que estão pela frente. Aliás, após levar ao berço, a crise costuma deixar os fracos aí, numa lamentação saudosista e eterna, mas conduz os fortes a uma nova fronteira: é justamente a encruzilhada.
O conceito de encruzilhada é diferente da crise. Ela pressupõe bifurcação de alternativas e necessidade de escolha. Requer tomada de opções. O que nos dias de hoje nos ensina a encruzilhada? O que aprendemos? Basicamente que, além da via parlamentar, existem outras vias para a participação popular no processo político. Não podemos restringir nossa ação a um determinado partido, por mais avançado que seja. Aliás, nos países do ocidente democrático, em geral, a via parlamentar e uma "via para lamentar”! Sempre reconduz os poderosos ao poder, com se este tivesse cadeira cativa para uma minoria rica e dominante.
Aprendemos também que, do ponto de vista evangélico, o Reino de Deus não cabe em nenhum projeto político, em nenhuma formação social e histórica. Não cabe nos limites estreitos de uma classe, de uma coligação partidária de um projeto de nação. Menos ainda na inteligência, imaginação ou razão humana. Tampouco cabe nas estruturas da Igreja institucional. "O vento sopra onde quer”, diz o Evangelho. O Reino é uma instância evangélica que sempre nos interpela e nos chama a dar um passo à frente. O Espírito irrompe no mundo a partir do futuro, reabrindo toda e qualquer possibilidade histórica. Por isso é que cada ponto de chegada é um novo ponto de partida. "Deus não gosta dos que já chegaram” – diz o poeta – "nem dos que têm medo de partir; Deus gosta dos que estão a caminho”.
b)A semente
Convém concluir com uma das metáforas mais ricas de Jesus, a da semente. Esta contém várias lições para os dias que correm. Antes de tudo, encruzilhada é como um fosso na história, tempo de semear, não tanto de colher. E quem semeia nem sempre é quem colhe. Ao contrário, na imensa maioria dos casos, semeamos para que outros colham. Nós que estamos nesta sala já fizemos nossa colheita. Nossa tarefa agora é lançar a semente na terra.
Outra lição da semente. Lenta mas gradualmente, ela matura no silêncio escuro úmido e oculto da terra. Invisível e imperceptivelmente, cresce para baixo, antes de erguer-se para o sol, a luz e o céu. Cria raízes antes de tornar-se árvore e produzir folhas, flores e frutos. O mesmo ocorre com o projeto popular: primeiro ele mergulha suas raízes nas dores e esperanças, lutas e sonhos do povo, especialmente dos setores mais fragilizados da população, depois se ergue para o alto. Como a espiga, a flor e o edifício, ele se levanta a partir do chão. Mudança alguma vem de cima; antes, brota do solo da história, por mais árido que ele seja.
E aqui emerge outra lição da semente. Qualquer gesto, por menor e mais insignificante que seja, é fator de mudança na história. Um olhar, um sorriso, uma palavra, um toque, uma visita, uma presença, um telefonema, um e-mail... São gestos que custam muito pouco, mas fazem um bem que as palavras não bastam para definir. Diz o evangelista Lucas que Jesus passou pela vida "fazendo o bem”. Mas quando, na quinta-feira santa, às portas da morte, se depara diante do Pai, tem as mãos vazias. Ao lado, estão doze "gatos pingados” que logo o haverão de abandonar, trair, negar e fugir. Mas a semente não fora lançada em vão.
Nenhum gesto solidário se perde na história. Esta não avança de forma linear, mas através de mudanças mínimas e invisíveis, as quais vão acumulando forças para um salto qualitativo. A Revolução Industrial, a Revolução Francesa, o Concílio Vaticano II, a eleição de Lula... Embora em graus e campos distintos, são saltos qualitativos possibilitados por anos, décadas e até séculos de pequenas mudanças. São estas que acumulam as águas de uma represa capazes de gerar a energia suficiente para uma transformação mais substantiva e radical.
Por fim, a semente revela a esperança de que as mudanças não se realizam através de espetáculos. Estes, ao contrário, tendem a naturalizar as assimetrias e injustiças do cotidiano. Basta ver as manchetes da mídia: quando se espetaculariza uma notícia de extrema violência contra a mulher, por exemplo, a tendência do expectador é normalizar e cristalizar a violência diária, feita gota a gota, normalmente intra-familiar. Mas nem por isso menos perniciosa. Os espetáculos são como shows pirotécnicos: com a mesma velocidade que sobem e iluminam, descem e viram cinza. Ninguém garante a felicidade com os sucessos, pois estes são seguidos de freqüentes insucessos. A felicidade se constrói nas pequenas alegrias e doações do dia-a-dia.
No domingo costumamos presenciar algum espetáculo, cultural ou religioso. Mas todo o domingo tem sua segunda-feira, e então descobrimos que a cruz e o sofrimento precedem a ressurreição. Os espetáculos, além disso, nos levam a priorizar a pastoral dos eventos, em detrimento da pastoral do processo. Nada contra os eventos, desde que eles estejam conectados com uma rede capilar de organização de base, como são, de resto, os encontros nacionais de CEB’s. Os eventos, quando desconectados de uma ação responsável e contínua, como diz a própria palavra, nada mais são do que vento.
Pe. Alfredo J. Gonçalves- Assessor das Pastorais Sociais
[(Assessoria à Assembleia das CEB’s, Arquidiocese de S. Paulo, 03/07/2001)].
FONTE: ADITAL
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8 de junho de 2011
Batalhas para demolir a doutrina baseada no pecado
Batalhas para demolir a doutrina baseada no pecado
Quando nasceu o pecado original? Com Adão e Eva,
com a serpente e a maçã: essa seria a resposta quase unânime de uma pesquisa
improvável, confortada por séculos de encantamento iconográfico nas telas de Masaccio, Tintoretto, Michelangelo,Rubens e
milhares de outros.
A análise é de Claudio Canal, publicada no
jornal Il Manifesto, 29-07-2011. A tradução é de Moisés
Sbardelotto.
Sobre como Adão chegou até nós, as
respostas não estariam tão de acordo: por transmissão biológica, por
descendência, pela metafísica do ser e da natureza. Até a explícita
admissão doCatecismo da Igreja Católica, no parágrafo 404: "a
transmissão do pecado original é um mistério que nós não podemos compreender
plenamente".
A data exata do seu nascimento é 397 d.C., quando Agostinho
de Hipona escreveu um livro intitulado De diversis
quaestionibus ad Simplicianum, em que começa a definir aquela que será,
nos séculos vindouros, a teoria bem-sucedida do pecado original, que, como se
sabe, se entrelaçará profundamente com o pensamento ocidental. Os temas da
queda, da culpa, do mal, da salvação e da redenção, da liberdade individual, do
mal de viver, todos têm um apoio sobre a serpente, a maçã e, sobretudo, sobre a
pérfida Eva, equilibrada pela perfeita Maria,
imaculada, ou seja, sem pecado original.
"Teoria da verdadeira civilização. Não está no gás, nem
no vapor, nem nas mesas giratórias. Está na diminuição dos vestígios do pecado
original", escrevia Charles Baudelaire, um teólogo não de
segunda linha. No seu tempo, no entanto,Kant já havia visto as suas
óbvias contradições, e Paul Ricoeur, em 1969, em um ensaio que fez
história, escreveu: "Jamais se dirá o suficiente quanto mal fez ao
cristianismo a interpretação literal – se deveria dizer `historicista` – do
mito de Adão. Ela o fez cair na profissão de uma história absurda e
em especulações pseudorracionais sobre a transmissão biológica de uma
culpabilidade quase jurídica pelo erro de um outro homem, expulso para longe na
noite dos tempos, não se sabe bem para onde, entre o Pithecanthropus e
o homem de Neandertal. Ao mesmo tempo, o tesouro escondido do
símbolo adâmico foi desperdiçado".
Pecado original ou bênção original? Essa pergunta é
respondida, sem papas na língua, por Matthew
Fox, um nome que não deve ser confundido com o intérprete principal da
série de televisão de grande sucesso Lost. O
nosso Matthew Foxé um ex-dominicano norte-americano, agora
episcopaliano, ou melhor, "padre pós-denominações", como ele gosta de
se definir, que, em 1983, escreveu um volumoso best-seller de 400 páginas
intitulado Bênção Original, agora traduzido para o italiano
como In
principio era la gioia, em sua terceira edição (introdução de Vito Mancuso,
tradução Gianluigi Gugliermetto, Ed. Fazi, 2011, 428 páginas).
O dominicano teve que enfrentar, em 1988, a Congregação
para a Doutrina da Fé, presidida pelo prefeito cardeal Joseph
Ratzinger, sobretudo pelas atividades e teorias elaboradas pelo Instituto
de Espiritualidade da Criação, fundado por Fox. Em 1993, ele
foi expulso da ordem.
No livro, Fox inverte o paradigma: "A
religião no Ocidente deve abandonar o modelo exclusivista de
queda e redenção […], modelo dualista e patriarcal, cuja teologia inicia com o
pecado e com o pecado original, e termina normalmente com a redenção […] e não
ensina nada sobre a Nova Criação ou sobre a criatividade, sobre a construção da
justiça e da transformação social, ou sobre o eros, o prazer e o Deus da
alegria. Ela não consegue ensinar o amor pela Terra ou o cuidado pelo Universo,
e é assim assustada pela paixão que não consegue ouvir o grito dolorido dos anawim,
dos pequenos da história humana".
Esse é, substancialmente, o interessante programa do livro,
habilmente sintetizado, além disso, em um apêndice de quatro páginas, em que os
dois paradigmas são contrapostos em uma tabela de duas colunas.
Fox consegue bem, embora de modo rapsódico,
destacar a importância que a doutrina do pecado original teve na constituição
da consciência ocidental: um ser humano marcado pelo pecado e pela vergonha e,
por isso, incapaz de decidir o que é melhor para ele e para os outros, sempre à
espera de uma autoridade que lho diga e que pratique o bem em seu lugar e,
talvez, contra ele. Uma autoridade sacerdotal ou política, tanto faz.
Mas a estratégia da Fox não é
exclusivamente centrada em demonstrar que o conceito de pecado original é um
falso saber, como diria Ricoeur, mas é sobretudo voltada a elaborar
uma summa de espiritualidade alternativa para a construção de
um mundo pacificado, onde o pecado, original ou não, seja apenas um resíduo.
Os caminhos a serem percorridos por Fox são: Via
positiva (alegria, hospitalidade cósmica, maravilha), Via negativa(deixar-se
levar, silêncio, escuridão), Via criativa (criatividade, Deus
como mãe), Via transformadora (justiça, compaixão,
interdependência). Cada uma totalmente ilustrada e aprofundada em uma trama de
iluminações estrepitosas e de banalidade desarmantes, a ponto de desorientarem
assim que nos distanciamos um pouco do tom sempre cativante do texto.
A primeira impressão é que a Fox, apesar de
todas as sacrossantas batalhas contra a Igreja faraônica, permaneceu enredado,
no entanto, nas suas milenares práticas retóricas. O modo narrativo de In
principio era la gioia é muito semelhante à tradicional, e antiquada,
apologética católica, que, reunindo e liquefazendo citações da Bíblia,
dos Padres
da Igreja, dos santos e dos papas, pontificava sobre qualquer assunto.
A forma de fazer com o que leitor salte da citação de um
psicanalista a uma do profeta Isaías, de uma feminista dos nossos dias a Francisco
de Assis, passando por Gandhi, Pablo Casals e Tomás
de Aquino, dá bem uma ideia de bricolagem que subjaz à escrita de Fox e que
constitui ao seu código argumentativo.
Para fugir da rígida geometria da teologia
"masculina", Fox parece cair um pouco demais na
evocação indiferenciada e barroca das belas palavras deste ou daquela, como um
pregador qualquer do século XVII. O que reforça essa perplexidade de leitura é
o uso desenvolto que Fox faz de duas figuras eminentes da
mística e do pensamento ocidental, Hildegard
von Bingen eMeister
Eckhart. O seu objetivo é mostrar uma outra genealogia de uma renovada
espiritualidade contemporânea, revelando um pensamento cristão escondido,
muitas vezes censurado, senão até abertamente condenado pelos letais tribunais
eclesiásticos.
Na busca de fontes não esgotadas, Fox não é
tão sutil. Ele toma dos dois aquilo que lhe serve, destoricizando tanto Hildegard quanto Eckhart.
À primeira, ele também dedicou um livro, Illuminations of Hildegard,
que diz muito sobre Matthew Fox, mas pouco de Hildegard abadessa
deRupertsberg, escritora, filósofa, naturalista, linguista, curandeira,
poeta e compositora.
Ele faz de Eckhart um perfeito distribuidor
automático de belas frases e de belos pensamentos, descontextualizado e avulso,
seja das influências recebidas – são importantíssimas as islâmicas –, seja dos
inquietantes influxos exercidos sobre o pensamento alemão posterior.
Um livro não de uma única cor; exuberante e vigoroso, para
ser lido e discutido, não para ser adorado.
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Matthew Fox - Teólogo
Psicoterapeuta / Psicólogo Clínico - Membro do Colégio Internacional de Terapeutas (Terapeutas de Alexandria) – Terapeuta Holístico - Pós graduado em Arteterapia e em Terapia Floral - Formação Holística de Base na Unipaz - Formação básica em Teologia pelo Centro Loyola de Fé e Cultura -PUC/RJ. Ger.de Rec.Humanos na Cia Souza Cruz Ind. e Comércio - Consultor empresarial - consultor Psicopedagógico dos projetos Sociais de Capacitação Solidária
28 de maio de 2011
Loucura Sagrada
E ele mesmo ateava fogo ao Vaticano
E à Basílica de São Pedro.
Loucura sagrada!
Porque Deus atiçava o fogo que os
Bombeiros, em vão, tentavam extinguir.
O Papa, louco, saia pelas ruas de Roma
Dizendo adeus aos embaixadores
Credenciados junto a ele
Jogando a Tiara ao tibre.
Espalhando pelos pobres, todos,
O dinheiro do banco do Vaticano.
Que vergonha para os cristãos!
Para que um Papa viva o Evangelho
Temos que imaginá-lo em plena loucura
.
.
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DOM Helder
Psicoterapeuta / Psicólogo Clínico - Membro do Colégio Internacional de Terapeutas (Terapeutas de Alexandria) – Terapeuta Holístico - Pós graduado em Arteterapia e em Terapia Floral - Formação Holística de Base na Unipaz - Formação básica em Teologia pelo Centro Loyola de Fé e Cultura -PUC/RJ. Ger.de Rec.Humanos na Cia Souza Cruz Ind. e Comércio - Consultor empresarial - consultor Psicopedagógico dos projetos Sociais de Capacitação Solidária
6 de maio de 2011
No Caminho de Emaús Abrir os olhos. Ele está no meio de nós! Lucas 25, 13-35
Texto extraído do livro “O avesso é lado certo – Círculos Bíblicos sobre o Evangelho de Lucas” – dos autores Carlos Mesters e Mercedes Lopes.
1. De que estavam falando pelo caminho?
Duas pessoas andando pela estrada. Desanimadas. Tristes! Estavam indo na direção contrária. Fugindo. Buscando. Imagem de ontem e de hoje. Imagem de todos nós. No ano de 85, muitos discípulos e discípulas andavam pelo caminho, tristes, desanimados, sem saber se estavam no caminho certo. No ano de 1998, parece que a cruz ficou maior e mais pesada. O desemprego, a violência, a droga, a falta de atenção séria à saúde e à educação, a falta de dinheiro, as dívidas... o desespero. Sentimo-nos impotentes frente à corrupção que desvia fundos dos cofres públicos, ou frente à má administração que deixa o povo no desamparo. O sistema neoliberal vai gerando cada dia mais exclusões de indivíduos, grupos e países. Parece que vivemos em um caos, em uma situação sem saída. Temos a impressão de estarmos caminhando ladeira abaixo, para o pior.
2. Tinham os olhos vendados
A experiência da morte de Jesus tinha sido tão dolorosa que eles perderam o sentido de viver em comunidade, abandonaram o grupo de discípulos e discípulas. Sentiram-se impotentes diante do poder que matou Jesus e procuraram salvar pelo menos a própria pele. Sua frustração era tão grande, que nem reconheceram Jesus, quando este se aproximou e passou a caminhar com eles (24,15). Tinham um esquema rígido de interpretação sobre o Messias, e não puderam ver a salvação de Deus entrando em suas vidas. Algumas discípulas tentaram ajudar os companheiros a perceber que Jesus estava vivo (24,22-23). Mas eles se recusaram a acreditar (24,24). Esta notícia era por demais surpreendente. Era o mesmo que dizer que Jesus era o vencedor do caos e da morte. Só podia ser fantasia, sonho, delírio de mulheres (24,11). Impossível acreditar! Quando a dor e a indignação pegam forte, há pessoas que ficam depressivas, desesperadas. Outras se tornam coléricas e amargas. Algumas invocam o fim do mundo com catástrofes que vão tirar os maus da face da terra. Outras buscam evadir-se numa oração sem compromisso social e político. Mas nenhuma dessas posturas ajuda a abrir os olhos e analisar a situação com fé lúcida e responsável, capaz de inventar saídas para esta situação aparentemente sem saída.
3. A Bíblia esquentou o coração, mas não abriu os olhos
Caminhando com eles, sem eles se darem conta, Jesus fazia perguntas. Escutava as respostas com interesse. Dessa maneira, obrigava-os a irem fundo no motivo da sua tristeza e fuga. Procurava fazê-los expressar a frustração que sentiam. Depois, ia iluminando a situação com palavras da Escritura. Procurava situas os discípulos na história do povo, para que pudessem entender o momento que estavam vivendo. Foi uma experiência apaixonante. Mais tarde, eles iriam fazer uma reflexão e perceber que o coração deles ardia, quando Jesus lhes explicava as Escrituras pelo caminho (24,32). Mas a explicação que Jesus dava a partir das Escrituras não conseguiu abrir os olhos dos discípulos.
4. Eles o reconheceram na partilha do pão
Caminhando com Jesus, os discípulos sentiram o coração arder. Cresceu dentro deles uma atitude de acolhida: “Fica conosco! Cai a tarde e o dia já declina!” (24,29). Foi só então que a partilha aconteceu. Partilha de vida, de oração e de pão. Partilha que abriu os olhos e provocou a mais importante descoberta da fé: ele está vivo, no meio de nós! (24,30-31). Esta descoberta lhes deu forças para voltar a Jerusalém, mesmo de noite. Tinham pressa de partilhar com os outros a descoberta que os fez renascer e ter coragem para enfrentar o poder da morte. Sim, Jesus era de fato o vencedor do caos e da morte! Não era fantasia das mulheres. Era uma realidade escondida, misteriosa, que só pode ser descoberta por quem aprende a partilhar, a se entregar, a sair do círculo vicioso dos interesses egoístas, para lutar junto com os outros pela vida de todos. Quando seus olhos se abriram, livres das trevas e travas por poder dominante, puderam descobrir a morte de Jesus como expressão máxima de um amor sem limites. Amor que tem sua origem no Pai cheio de ternura, gerador incansável da vida. Amor que tomou carne em Jesus de Nazaré para visitar e redimir a humanidade. Amor que se mantém fiel até ao extremo de dar a própria vida, para que todos tenham vida (Jo 10,10). Amor que foi confirmado pelo Pai, quando ressuscitou Jesus da morte.
5. Renascer para uma nova esperança
Esta experiência fez os discípulos renascerem para uma nova esperança. Ao redor de Jesus vivo, eles se uniram de novo e assumiram o projeto de vida para todos. A esperança é como um motor que leva a acreditar nos outros e a inventar práticas de fé. Com a esperança renovada, aquilo que parecia uma total impossibilidade passou a ter um novo significado para eles. Perderam o medo, superaram a experiência de incapacidade e de impotência. Deixaram de lado o negativismo derrotista e voltaram, em plena noite, como se fosse de dia. Voltaram para recomeçar, para reconstruir a comunidade, expressão, sinal e sacramento da presença de Jesus Ressuscitado.
6. Refazer hoje a experiência do caminho de Emaús
Desafiados pela atual conjuntura, somos chamados a viver hoje a experiência de Emaús e descobrir, na partilha solidária, a presença de Deus no meio de nós. Como comunidade de fé, somos chamados a reconstruir, no diálogo, na abertura e na acolhida, o projeto de Jesus, pelo qual ele entregou sua própria vida. A solidariedade leva à descoberta da força libertadora de Deus na história. Com olhar lúcido e criativo procuraremos expressar esta fé numa solidariedade bem concreta e articulada, seja a nível de grupo, de bairro ou de cidade. Dizer articulada quer dizer que esta ação solidária deve ser comunitária. Só assim será de fato sinal do Reino e poderá intervir em favor da vida, da vida indefesa dos pobres, os preferidos de Jesus.
Equipe CEBI
CEBI - Centro de Estudos Bíblicos
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Psicoterapeuta / Psicólogo Clínico - Membro do Colégio Internacional de Terapeutas (Terapeutas de Alexandria) – Terapeuta Holístico - Pós graduado em Arteterapia e em Terapia Floral - Formação Holística de Base na Unipaz - Formação básica em Teologia pelo Centro Loyola de Fé e Cultura -PUC/RJ. Ger.de Rec.Humanos na Cia Souza Cruz Ind. e Comércio - Consultor empresarial - consultor Psicopedagógico dos projetos Sociais de Capacitação Solidária
1 de maio de 2011
É hora de apressar a canonização do Papa João XXIII
A opinião é do colunista E.J. Dionne Jr., do jornal The Washington Post, 27-04-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
Eis o texto.
A decisão do Vaticano de acelerar o Papa João Paulo II no caminho à santidade despertou grande júbilo entre muitos católicos – e uma reação violenta entre outros na Igreja que veem a pressa como indecorosa.
Há uma solução óbvia que poderia unir os católicos em oposição e enviar exatamente a mensagem certa sobre a atitude da Igreja para o mundo moderno: é hora de declarar oPapa João XXIII um santo.
Aqui está uma oração para que o Papa Bento XVI use as cerimônias de beatificação neste domingo de João Paulo II em Roma para anunciar que o Vaticano está ansioso para completar o processo de santificação do bom Papa João, o grande modernizador da Igreja que abraçou a democracia e a liberdade religiosa.
E há uma ligação natural entre os dois pontificados. Quando os historiadores olham para trás, as maiores realizações de João Paulo II serão vistas, inevitavelmente, como liberais, no sentido mais amplo: seu compromisso com os direitos humanos e a liberdade religiosa, seus apelos por uma maior justiça social, seu abraço aos direitos dos trabalhadores ("a prioridade do trabalho sobre o capital") e sua estrênua oposição ao preconceito religioso. Lembremo-nos que João Paulo II foi o primeiro Papa – sem contar São Pedro – que visitar uma sinagoga, onde ele fez uma condenação retumbante ao antissemitismo.
Nenhuma dessas conquistas teria sido possível se o Papa João XXIII não tivesse terminado a guerra do catolicismo contra a modernidade, convocando o Concílio Vaticano II na década de 1960. João XXIII convidou os católicos a discernir os "sinais dos tempos" e censurou as "almas desconfiadas" que viam na era moderna "somente escuridão oprimindo a face da terra".
"Quero abrir as janelas da Igreja para que possamos olhar para fora, e para que as pessoas possam olhar para dentro" é uma citação amplamente atribuída a João XXIII. Ainda é uma bela encantadora. O padre Joseph Komonchak, um dos principais historiadores do Concílio Vaticano II, gosta de apontar para a visão de João XXIII de que "a Igreja não é um museu de antiguidades, mas sim um vívido jardim cheio de vida".
João XXIII já foi beatificado, o prelúdio para a santidade na tradição católica. Mas sua beatificação no ano 2000 ficou desfigurada quando João Paulo ligou-a à beatificação doPapa Pio IX, um dos Papas mais reacionários da era moderna. Pio conhecidamente referiu-se ao catolicismo liberal como "pernicioso", "pérfido", "perverso" e como "um vírus". A abordagem de João era a antítese de Pio IX, e algo muito bom.
Quando João XXIII morreu em 1963, cardeais progressistas tentaram agilizar sua beatificação mediante a confirmação da nova direção da Igreja. Seus esforços foram rejeitados. Mas Bento XVI abraçou os esforços comparáveis em prol de João Paulo II imediatamente após sua morte, chegando à cerimônia de beatificação deste domingo.
O fato de a tradição ter sido forçada a bloquear a rápida canonização de João, mas ignorada para poder ir a toda velocidade para João Paulo II, sugere que, sim, uma certa quantidade de políticas estão envolvidas nessas questões supostamente sobrenaturais.
E a celebração de João Paulo II foi manchada pela legítima controvérsia sobre o seu apoio incondicional a Marcial Maciel Degollado, o padre mexicano que fundou o conservador movimento dos Legionários de Cristo e que acabou sendo condenado por Bento por, dentre outras coisas, ter abusado dos membros da sua ordem e ter tido filhos fora do casamento com pelo menos duas mulheres. João Paulo II protegeu Maciel. Coube a Bento XVI discipliná-lo.
Sobre os escândalos de abuso de um modo geral, Ross Douthat, o colunista incondicionalmente católico do New York Times, estava certo ao observar que "o ambicioso João Paulo II deixou os escândalos espalhados sob os seus pés", enquanto coube a Bento, o "sem carisma", a tarefa de "limpá-los". E o vigor de João Paulo II em condenar teólogos dissidentes indicou a personalidade paradoxal do seu papado: mais liberal em muitas questões que envolviam o mundo exterior, mais conservador em questões internas.
A Igreja deveria ter aplicado o mesmo padrão de João Paulo II como o fez para João XXIII e ter tomado mais tempo para a beatificação. No entanto, mesmo os católicos mais progressistas sentiram o impacto de João Paulo II como um homem dinâmico, intrépido e genuinamente santo. Tendo-o cobrido por dois anos como repórter, posso testemunhar o seu magnetismo. Assim como o padre James Martin, escritor jesuíta liberal, notou esta semana, João Paulo II "era orante, destemido e zeloso. E, a meu ver, qualquer pessoa que visita a cela da prisão do seu suposto assassino e perdoa esse homem é um santo".
No entanto, os atos mais admirados de João Paulo II estão construídos sobre o legado de João XXIII. É difícil imaginar Santo Agostinho sem São Paulo, Washingtonsem Jefferson, João Paulo II sem João XXIII. Uma Igreja que precisa abrir as janelas novamente faria bem em honrar o Papa que libertou-a para ser refrescada pela brisa fortificante da modernidade.
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5 de abril de 2011
Os pobres e a libertação. Artigo inédito de José Comblin
| José Comblin | |
| "Os pobres são a verdadeira Igreja, o verdadeiro povo de Deus ainda que a sua presença no sistema religioso possa ser muito fraca. Encontram-se nos grandes santuários de romarias populares. Não se encontram nas igrejas paroquiais e muitas vezes nem sequer nas capelas. Mas Jesus sabe reconhecê-los e os integra no seu corpo como o verdadeiro povo de Deus. Jesus luta pela sua libertação no meio deles". A afirmação é do Pe. José Comblin em artigo inédito para o livro Fome de Justiça, perspecivas de superação da pobreza que será lançado na Suiça no dia 20 de maio próximo. O artigo nos foi enviado por Marianne Spiller, suiça, há muitos anos radicada no Brasil e coordenadora da Associação Brasileira de Amparo à Infância –Abai, com sede em Mandirituba-PR. Marianne conheceu José Comblin, quando foi se solidarizar com D. Luiz Cappio, bispo de Barra - BA, em greve de fome contra a transposição do Rio São Francisco. Eis o artigo. A história da humanidade é a história de um conflito permanente, uma verdadeira guerra entre alguns que conseguem acumular mais poder dominando os demais e as vítimas dominadas. Os vencedores obrigam os vencidos a trabalhar a serviço deles quando precisam deles ou os abandonam sem recursos quando não precisam mais deles. Os vencedores apropriam-se todos os recursos que estão na terra ou nos mares. Os outros vivem daquilo que os poderosos querem deixar-lhes Esta foi a visão marxista da história. Mas não era original porque já é a visão da Bíblia.A Bíblia fala dos pobres e dos ricos. Os pobres são os vencidos da guerra e os ricos são os vencedores. A história da América é uma figura exemplar dessa condição da humanidade. Vida e morte A síntese da história encontra-se no capítulo 8 do evangelho segundo João. Jesus denuncia que os seus interlocutores que são as elites de Israel querem matá-lo porque são filhos do diabo que quer matar. Fazem a vontade do seu pai. De fato eles o mataram. Na cruz Jesus está aí como representante de toda essa parte da humanidade que é oprimida porque vencida. Jesus quer a vida. Ele vai ressuscitar e, depois de ressuscitado, leva os vencidos para a vida Pois Jesus também foi vencido e a sua derrota envolve todas as derrotas dos vencidos. Mas a sua ressurreição envolve a ressurreição de todos os que foram mortos como ele. Viveram na terra, mas foi uma vida aparente, porque foi uma sobrevida, uma tentativa permanente para não morrer. Milhões foram mortos cruelmente pelas armas ou pela arrogância dos vencedores. Eis a história da América que ainda continua. A mensagem de vida A mensagem de Jesus é o anuncio da vitoria dos vencidos, a vitória da vida que vence a morte. Nos evangelhos Jesus usa a expressão de “reino de Deus”. O reino de Deus é, de acordo com o linguajar dos profetas, um reino de justiça e de paz. É o contrário dos reinos que houve e que há e haverá na história humana. No tempo de Jesus o reino era o Império romano, um Império tremendamente cruel que concentrava todas as riquezas do Império na fortuna de alguns milhares de bilionários. Estes residiam em Roma e na região, e oprimiam 50 milhões de vencidos por um sistema de impostos que os deixava sem força. Jesus anuncia a ruína desse Império e de todos os Impérios. Cada um tem o seu tempo, mas eles acabam derrotados. Virá o reino de Deus. Este não virá pela conquista com as armas, ou o dinheiro. Virá pelos pobres porque a força de Deus estará com eles. Jesus não explica como será. Mas a história dos seus discípulos vai mostrar pouco a pouco como entra esse reino de Deus neste mundo. Em lugar do poder reinará a comunidade. Todos agirão juntos e introduzirão o reino de Deus neste mundo. Que essa história será trágica, lenta, que exigirá tantos sacrifícios, vinte séculos o ensinam. Mas este reino de Deus já tem as suas manifestações nesta terra. Sucede cada vez que os pobres conseguem direitos pela força da sua união que desafia os dominadores. O evangelho entrou no Império romano. Ali as traduções grega e latina da palavra aramaica que significa reino, são palavras tão odiadas que os apóstolos nem sequer se atrevem a usá-la o a aplicá-la a Deus. É impossível que Deus reine porque reinar é dominar, destruir, escravizar. Paulo como João falam da vida que veio vencer a morte. Jesus veio trazer a vida. Deus é vida. Jesus trouxe a vida. O Espírito nos dá a vida prometida por Jesus. A vida virá pelos que não têm poder, nada podem impor, não têm armas, não têm força política. Vão conseguir vencer o poder das armas, do dinheiro, da política. Quem tem poder, somente pensa em defender ou aumentar esse poder. Quem tem dinheiro, somente pensa em conservar ou aumentar o seu dinheiro. Quem tem armas, somente pensa em fazer mais armas. Não se preocupam pelo que acontece com os vencidos. No entanto, temem os pobres, enxergam-nos como entes perigosos. Inventam forças de controle para impedir que os pobres deixem de se submeter. Apesar disso Jesus promete a vida aos pobres. A liberdade prometida aos pobres Os pobres de quem Jesus falava eram os camponeses sem terra que deviam trabalhar a serviço de grandes proprietários nas terras deles . Eram pescadores que muitas vezes deviam trabalhar em barcos de outros que eram os donos desses barcos. Deviam pagar-lhes uma taxa insuportável. Todos deviam pagar os impostos de Roma e os impostos do templo. A sua vida era uma vida dedicada a outros que dominavam os meios de produção. Não havia alternativa. Para eles o reino de Deus era libertar-se daqueles que lhes roubavam o trabalho e a vida. Era poder fazer a sua vida, eles próprios. Era poder trabalhar para si mesmos e para os seus filhos. Alguns entenderam que Jesus lhes daria essa libertação por um grande ato de violência destruindo toda a classe dos dominadores. Esperaram que Jesus fizesse o que muitos em Israel achavam que seria a obra do Messias. Não aconteceu assim. Houve discípulos desanimados com a morte de Jesus porque não tinha sido o Messias esperado por eles. O caminho de Jesus O próprio Jesus entendia que a sua missão terrestre era o início e o sinal do libertação dos pobres e de todos os oprimidos, de todas as vítimas do reino da violência. Erra preciso entender isso, entender o sentido dessa vida de Jesus. Entender isso demorou. Muitos se deixaram iludir porque achavam que a libertação se faria na segunda vinda de Jesus, essa vinda que ele mesmo tinha prometido. Muitos esperavam que essa segunda vinda ocorresse em breve. O próprio S. Paulo pensava que muitos dos seus contemporâneos e talvez ele próprio não conheceriam a morte, porque Jesus viria antes. Mas ele não veio como se esperava. Então foi preciso procurar entender de outra maneira o que ele realmente tinha dito, o que realmente tinha ensinado e que não tinham percebido. Jesus tinha prometido que voltaria depois da sua ressurreição e depois da sua ascensão. Voltaria para viver com os seus discípulos, para acompanhá-los. Mas era preciso descobrir de que maneira ele estava presente, e o que pretendia fazer. Até hoje muitos cristãos ainda não sabem isso. Ainda não entenderam. Acham que devemos entender a história no sentido de que Jesus prometeu essa libertação dos pobres para depois do fim deste mundo e do juízo final. Os pobres teriam primeiro que salvar a sua alma para poder entrar no reino de justiça e de paz. Mas com essas condições os pobres não teriam nenhum privilégio porque salvar a alma era uma operação factível por todos graças aos meios que a religião colocava a sua disposição. A libertação não se realizaria neste mundo, mas no outro. Muitos pensaram assim e ainda hoje muitos pensam assim e se dizem cristãos . A maneira de Jesus Jesus chama e reúne discípulos e os prepara para refazer no mundo inteiro aquilo que ele mesmo faz. Desperta para a espera do reino de Deus e pede uma conversão, uma mudança. Qual é essa conversão ? Mudar de vida, dedicar-se a anunciar o reino de Deus a todos. Fundar uma vida social de irmãos na qual ninguém domina nem explora outros. Nessa vida ninguém quer ser o primeiro, mas todos querem ser servidores dos outros. Os discípulos vão começar essa vida entre eles e convidar os outros a fazer a mesma coisa. É algo muito simples e muito difícil de ser aceito. Como acreditar que esse método possa ser eficaz ? No entanto, a história mostra que tem eficácia, sempre parcial, precária, provisória, que é preciso sempre recomeçar, mas que alguma coisa acontece. Jesus não prometeu a realização completa da libertação, mas ensina a buscá-la neste terra, neste vida, acreditando nela. Isso é ter fé. Ter fé é acreditar que fomos chamados para construir o reino de Deus no mundo tal como é, sem violência, sem dominação e que o método de Jesus vale. Somente os pobres podem acreditar, porque é impossível um rico acreditar nisso. Os ricos acreditam no poder e acham que o caminho é querer sempre mais poder. Dessa maneira aumentam sem cessar a dominação e a opressão . Para eles esse evangelho de Jesus é pura loucura como já dizia Paulo. Mas para os que confiam em Jesus , é a verdadeira sabedoria. Como se percorre o caminho de Jesus Jesus não liberta sem a colaboração dos próprios pobres. A libertação não é um dom que desce do céu e se recebe já acabado. A experiência ensinou-nos que de fato nenhum dom desce acabado do céu. Jesus realiza a libertação pela vida e pela atividade dos próprios pobres. Jesus está neles animando-os para construir esse reino de liberdade. Os pobres animados por Jesus não usam, nem procuram as armas dos dominadores, nem as armas, nem o poder político, nem o dinheiro Não usam os meios pelos quais os donos da terra dominam os pobres e fazem deles os seus escravos. Se buscassem esses mesmos meios, cairiam nos mesmos defeitos. Construiriam outra forma de sociedade de dominação mas não trariam a liberdade porque esses meios não criam a liberdade A formação da comunidade Os pobres formam comunidades de vida. São diversas as formas que essas podem assumir. Pois dependem das condições históricas. No inicio são comunidades minúsculas como aqueles que aparecem no Novo Testamento. Mas elas podem crescer e vão crescendo na história. Não são essencialmente comunidades de culto ou de religião, embora culto e religião possam ser formas de educação ou de preparação para a vida comunitária. Nem sempre culto e religião fazem isso, nem de longe. Muitas vezes culto e religião têm o seu fim em si mesmos, pois respondem a necessidades psicológicas e sociais das pessoas. As comunidades que Jesus cria, são comunidades de vida total, de trabalho, de educação, de habitação, de relacionamento sempre na vida concreta de todos os dias e nunca fora num mundo puramente simbólico. Podem ser comunidades rurais em que todos tem o seu pedaço de chão e trabalham em conjunto, produzem em conjunto, comercializam em conjunto e crescem em conjunto. Podem ser indústrias dirigidas pelos próprios trabalhadores em forma de cooperativa ou outra. Aliás, pode haver cooperativas em muitas atividades humanas. Porque essa formação de comunidade é tão lenta? Com certeza porque o sistema estabelecido se defende e usa todos os meios para destruir tudo o que é comunitário. Mas também precisamos reconhecer que muitas vezes os próprios pobres não têm a fé suficiente, não têm a coragem, a audácia, a confiança nos outros que são necessárias para buscar formas de vida comunitária. Nada se faz sem uma fé radical. As comunidades na história Historicamente houve e há semelhantes comunidades, de dimensão mais ou menos importante. Há regimes de comunidade parcial: por exemplo quando todo um povo assume a solidariedade nos casos de doença, desemprego, velhice. Há comunidade quando o povo inteiro assume a educação de todos e a mesma educação para todos. É o que recebeu na época contemporânea o nome de Estado de bem-estar social, ou de democracia social. São expressões comunitárias importantes. Ainda são muito incompletas porque a maior parte dos meios de produção pertencem a minorias privilegiadas, e é o que permite uma grande desigualdade. Na América latina, no Brasil de modo particular, a desigualdade social é imensa e as classes sociais praticamente não comunicam, vivem em mundo fisicamente separados. Não se encontram na vida a não ser de modo puramente formal e funcional nas fábricas ou nas unidades de produção, de maneira totalmente desigual. Com essa situação os encontros são manifestações da desigualdade. Porque os pobres suportam ainda tanta dominação ? Porque se sentem tão fracos frente aos seus dominadores que perdem coragem. Por medo, por falta de audácia, por falta de confiança em si próprios. Falta uma evangelização forte capaz de suscitar a verdadeira fé. Há toda uma cultura dominante que lhes ensina que são incapazes, impotentes, condenados a sua condição de dominados, porque não há outra sociedade possível. Quem recebe essa mensagem durante a vida toda, perde coragem; Não confiam uns nos outros e por isso são lentos para unir-se e buscar juntos essa nova convivência humana que pode substituir as estruturas de dominação existentes. O anúncio da libertação Jesus anunciou a libertação . Iniciou o movimento comunitário reunindo os seus discípulos que se acharam juntos no dia de Pentecostes para receber o Espírito Santo enviado por ele. Lançou o movimento. A missão dos apóstolos, dos missionários é anunciar de modo ativo, como Jesus, mostrando o modo de proceder para construir o reino de Deus. A Igreja constitui esse povo de missionários. A Igreja existe para iniciar esse movimento de comunidade humana em todos os níveis. Para dizer melhor, a Igreja existe nesse movimento. Fora desse movimento ela não existe como Igreja de Jesus Cristo, mas somente de nome. Historicamente a Igreja falhou e continua falhando. Os cristãos pertencem a este mundo e trazem todo um passado pagão . Custa acreditar no evangelho, mas muitos nem sequer o receberam, ainda que fossem batizados e recebessem os sacramentos. No início, Jesus não tinha criado uma religião, não tinha organizado nenhum culto, nem definido uma doutrina, nem um regime de governo, já que queria que todos fossem iguais. Mas muito cedo os discípulos que traziam em si toda a religião da sua vida anterior, sentiram uma necessidade de fazer uma religião a partir do culto a Jesus ressuscitado. Não tinham conhecido a vida real de Jesus e aplicaram a Jesus o que tinham aprendido seja no judaísmo seja nas religiões ditas pagãs. A religião e os pobres Criou-se uma religião muito desenvolvida e cada vez mais formalizada. A religião vive num mundo simbólico, consiste em formas e não em realidades materiais. Acontece que a Igreja chega a se fechar no seu mundo simbólico para viver nesse mundo simbólico que para ela é salvação. O Deus da religião pede a paz e a tranqüilidade, mas se esquece de que os missionários são perseguidos. Se a Igreja vive em paz, é sinal de que não anuncia, não tem por objetivo o reino de Deus mas apenas a segurança dos seus fiéis. No concreto das paróquias e das comunidades religiosas as atividades dominantes de longe são atividades simbólicas, de culto, de profissões de fé, de construção de um aparelho material para realizar melhor as suas atividades simbólicas. Essas atividades têm por finalidade a salvação das almas mas não se preocupam pelo que sucede neste mundo. Uma Igreja dedicada ao culto e ao mundo simbólico não dá atenção particular aos pobres a não ser para lhes dar esmolas, mas não faz nem idéia sequer da sua libertação . Ela não tem interesse em ser a Igreja dos pobres porque os pobres não trazem muito poder. Ela procura ter boas relações com o poder político, o poder econômico e o poder cultural. Ainda hoje traz as marcas do 15 séculos de cristandade quando a religião dos povos era a religião dos reis. Todos deviam praticar a religião do rei. E a Igreja dependia do rei. Essa colaboração entre o poder religioso e os poderes civis ainda está na mentalidade e nos projetos conscientes ou inconscientes de muitos cristãos sobretudo do clero. O discurso é evangélico, mas a prática é o serviço a esse edifício religioso que construiu a Igreja como instituição . As minorias abraamicas de dom Helder Minorias salvam a honra da Igreja. Houve homens e mulheres heróicos que conseguiram despertar os cristãos e levá-los a promover reformas sociais. Nem sempre pertenceram à Igreja de modo explícito. A Instituição Igreja não lutou pela emancipação dos escravos porque estava atada pelos laços com o Império e não queria emancipar-se. Não sentia que a união estreita entre o Império ou, antes dele, com o reino de Portugal era o maior obstáculo para a vida cristã. Essa estrutura de cristandade favorecia a religião , mas desviava da missão da Igreja que era anunciar o reino de Deus e lutar pela libertação dos oprimidos e entre eles estavam os índios e os escravos africanos. Há minorias que lutam pela reforma agrária e o próprio episcopado toma posição com muita força nas suas declarações . Mas as elites sociais e as classes médias que se dizem católicas e as vezes praticam e recebem os sacramentos regularmente, não querem saber de reforma agrária. Há cristãos que lutam também pela libertação das favelas e de todas as habitações insalubres, mas a massa dos católicos não se move e continua elegendo governantes que não ser dedicam a essas tarefas primordiais. Podemos perguntar-nos se nas paróquias há realmente muito interesse em entrar nessas lutas. Não se nota muito. Então a nível teórico a Igreja quer reforma agrária, reforma urbana, salário justo, mas na prática nas paróquias e nas instituições da Igreja, esses assuntos não têm importância. Na prática a Igreja se confunde com as atividades religiosas e não está a serviço da humanidade, não busca a sua libertação. Como fazer para conseguir a libertação da instituição tão apegada à estrutura social estabelecida e às classes sociais dominantes ? Eis o drama. Quem é pobre? Os ricos sempre procuraram desviar o sentido do evangelho. Inventaram o conceito de pobreza espiritual. Pobres seriam os que não estão apegados à riqueza, os que não se sentem ricos, os que têm sentimentos de compaixão pelos pobres. Interpretam o versículo de Mateus sobre os pobres em espírito como se o espírito fosse o imaterial,o mental, o psicológico. Mas o espírito é vento, força, tempestade como no dia de Pentecostes. Os pobres no espírito são os que são animados pelo Espírito. Não são os pobres sentimentalmente. Os verdadeiros pobres sabem que são pobres. Não se perguntam quem é pobre. Sabem que são pobres. Os ricos buscam subterfúgios para definir em forma complicada a pobreza de tal maneira que não se sintam denunciados como os ricos do evangelho. Se alguém duvida se é pobre ou rico, com certeza é rico porque um pobre não duvida, mas sabe muito bem o que é pobreza. Os pobres são a verdadeira Igreja, o verdadeiro povo de Deus ainda que a sua presença no sistema religioso possa ser muito fraca. Encontram-se nos grandes santuários de romarias populares. Não se encontram nas igrejas paroquiais e muitas vezes nem sequer nas capelas. Mas Jesus sabe reconhecê-los e os integra no seu corpo como o verdadeiro povo de Deus. Jesus luta pela sua libertação no meio deles. | |
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José Comblin,
Teologia da Libertação
Psicoterapeuta / Psicólogo Clínico - Membro do Colégio Internacional de Terapeutas (Terapeutas de Alexandria) – Terapeuta Holístico - Pós graduado em Arteterapia e em Terapia Floral - Formação Holística de Base na Unipaz - Formação básica em Teologia pelo Centro Loyola de Fé e Cultura -PUC/RJ. Ger.de Rec.Humanos na Cia Souza Cruz Ind. e Comércio - Consultor empresarial - consultor Psicopedagógico dos projetos Sociais de Capacitação Solidária
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