O absurdo e a Graça

Na vida hoje caminhamos entre uma fome que condena ao sofrimento uma enorme parcela da humanidade e uma tecnologia moderníssima que garante um padrão de conforto e bem estar nunca antes imaginado. Um bilhão de seres humanos estão abaixo da linha da pobreza, na mais absoluta miséria, passam FOME ! Com a tecnologia que foi inventada seria possível produzir alimentos e acabar com TODA a fome no mundo, não fossem os interesses de alguns grupos detentores da tecnologia e do poder. "Para mim, o absurdo e a graça não estão mais separados. Dizer que "tudo é absurdo" ou dizer que "tudo é graça " é igualmente mentir ou trapacear... "Hoje a graça e o absurdo caminham, em mim lado a lado, não mais estranhos, mas estranhamente amigos" A cada dia, nas situações que se nos apresentam podemos decidir entre perpetuar o absurdo, ou promover a Graça. (Jean Yves Leloup) * O Blog tem o mesmo nome do livro autobiográfico de Jean Yves Leloup, e é uma forma de homenagear a quem muito tem me ensinado em seus livros retiros, seminários e workshops *

20 de outubro de 2011

Dalai Lama - A Oração do Dalai Lama


Dalai Lama :
"Gostaria de compartilhar com você uma breve oração que serve de grande inspiração para meu propósito de fazer bem aos outros.
Que eu me torne em todos os momentos, agora e sempre,
um protetor para os desprotegidos,
um guia para os que perderam o rumo,
um navio para os que têm oceanos a cruzar,
uma ponte para os que têm rios a atravessar,
um santuário para os que estão em perigo,
uma lâmpada para os que não têm luz,
um refúgio para os que não têm abrigo
e um servidor para todos os necessitados."

29 de setembro de 2011

Não precisamos de templos, somos o templo.


Não precisamos de templos, somos o templo.
Não precisamos ficar repetindo orações, precisamos sim de ações, ora!
A liturgia mais perfeita e que mais agrada a Deus é o ato de repartir, que começa com o gesto de Jesus partindo o pão e se repete no beijo que salva alguém do suicído, nos abraços dados sem que se olhe a quem. 
No amor partilhado num olhar, num sorriso, numa palavra amiga a um desconhecido.

Assim como Deus cansou-se dos sacrifícios sangrentos ele também está cansado de todo o palavrório dito sem muita consciência, dos gestos mecânicos, da aparência piedosa que esconde um coração de pedra.
Jesus nos disse que toda a lei e toda a profecia se resumia em amar como ele nos ama.
volto a lembrar da canção, inspirada no salmo:


TU NÃO HABITAS EM TENDAS,
NEM EM TEMPLOS FEITOS POR MÃOS
ETERNO, PERFEITO, PRINCÍPIO E FIM,
ACIMA DAS RELIGIÕES.
NÃO HÁ NADA NO CÉU, NA TERRA
OU NO MAR, SEMELHANTE A TI, SENHOR.
TUA IMAGEM ESTÁ REVELADA EM NÓS
EXPRESSÃO DO TEU AMOR.
INCOMPARÁ-AAA-VEL, SENHOR TU ÉS !













25 de setembro de 2011

Entrevista com o teólogo suíço Hans Küng

Em entrevista, teólogo suiço fala sobre a ''putinização'' da Igreja católica

Na quinta-feira, o papa Bento XVI chega à Alemanha para uma visita há muito esperada. O teólogo suíço proeminente Hans Küng explica à revista “Spiegel” por que a visita papal pouco fará para reverter a crise na Igreja e compara Bento XVI aVladimir Putin na forma como centraliza o poder.

A entrevista, publicada pela revista semanal alemã Der Spiegel, foi traduzida e reproduzida pelo Portal Uol, 22-09-2011.

EIs a entrevista.

Professor Küng, o seu ex-colega de faculdade Joseph Ratzinger está vindo para a Alemanha nesta semana para uma visita de Estado. O senhor tem alguma audiência marcada com ele?

Não requisitei uma audiência. Estou fundamentalmente mais interessado em conversas do que em audiências.

Bento XVI ainda conversa com o senhor?

Após sua eleição como papa, ele me convidou a sua residência de verão, o Castelo Gandolfo, onde tivemos uma conversa amigável de quatro horas. Na época, eu esperava que aquele momento fosse o início de uma nova era de abertura. Mas essa esperança não foi realizada. De vez em quando, trocamos correspondências. As sanções contra mim – a suspensão de minha permissão para ensinar - ainda existem (nota do editor: o Vaticano revogou a permissão de Küng para ensinar teologia católica em 1979, após ele ter publicamente rejeitado o dogma da infalibilidade papal.)

Quando foi a última vez que Bento lhe escreveu?

Por meio de seu secretário particular (Georg) Gänswein, ele me agradeceu por enviar-lhe meu mais recente livro e me desejou boa sorte.

Em seu polêmico livro, “Ist die Kirche noch zu retten” (a Igreja ainda pode ser salva?), que foi publicado no início do ano, o senhor critica duramente o papa por sua política anti-reformista.

Acho muito gratificante que ele não tenha terminado nosso relacionamento pessoal, apesar de minhas críticas.

Muitos católicos acham que a Igreja está em um estado desolado. O abafamento dos casos de abuso sexual de crianças por padres levou muitos fiéis a se afastarem da Igreja. O que está errado?

Como você está dando uma descrição simples, darei uma resposta simples. O predecessor de Ratzinger, João Paulo II, lançou um programa de restauração política e eclesiástica que ia contra as intenções do Concílio Vaticano II. Ele queria uma re-cristianização da Europa. E Ratzinger foi seu assistente mais leal, até mesmo no início. Poderíamos chamar de período de restauração do regime pré-conciliar.

Por que esses problemas estão emergindo subitamente, 50 anos após o Vaticano II, que ocorreu entre 1962 e 1965?

Os problemas vêm cozinhando na Igreja há algum tempo, como revelou o acobertamento de décadas de abuso sexual. Em algum ponto, o problema dos abusos no mundo todo não pôde mais ser negado. Mas essa não é a única coisa que a hierarquia católica esconde. Ela esconde também as condições lastimáveis da Igreja.

O que o senhor quer dizer com isso?

Ou seja, que a vida da Igreja no nível da paróquia praticamente desintegrou-se em muitos países. Em 2010, pela primeira vez, houve mais pessoas deixando a Igreja do que sendo batizadas na Alemanha. Desde o Concílio, perdemos dezenas de milhares de padres. Centenas de paróquias estão sem pastores, e as ordens masculinas e femininas estão morrendo porque não conseguem noviços. O número de pessoas participando das missas está caindo gradativamente. Mas a hierarquia da Igreja não teve coragem de admitir, honesta e francamente, a verdadeira situação. Fico me perguntando aonde isso vai dar.

Quando o papa vem para a Alemanha, dezenas de milhares de pessoas vão recebê-lo em grandes eventos. Os líderes da Igreja não vão interpretar isso exatamente como sintoma de crise.

Eu não teria nada contra tais eventos se eles verdadeiramente ajudassem a Igreja local. Mas há uma enorme discrepância entre a fachada, que agora está sendo erguida novamente para a visita papal à Alemanha, e a realidade. Cria a impressão que esta é uma igreja poderosa e saudável. Certamente é poderosa, mas saudável? Sabemos agora que esses eventos não fazem quase nada pelas paróquias locais. Eles não levam mais pessoas às missas; não inspiram mais pessoas a se tornarem padres ou menos pessoas deixarem a Igreja.

Ainda assim, cerca de 70.000 pessoas são esperadas na missa no Estádio Olímpico de Berlim.

Não são todos fiéis; a multidão inclui muitos curiosos. Os fiéis que participarão são, na maior parte, católicos conservadores sem interesse em reformas. Há também fãs beneditinos notórios e histéricos que sempre estão presentes nos principais eventos papais. A maior parte deles são recrutados de grupos estritamente conservadores. Para muitas pessoas, o papa ainda é, até certo ponto, um exemplo de comportamento e de força moral, apesar de outros acharem que este aspecto sofreu gravemente.

O senhor também critica a visita do papa ao parlamento alemão, o Bundestag? Vários políticos da oposição disseram que vão boicotar o discurso dele.

Eu não faço objeções à visita. Mas eu espero que os políticos que vão recebê-lo deixem claro que há católicos na Alemanha que discordam com as atuais posições papais. De acordo com pesquisas conduzidas nesta primavera, 80% dos alemães querem reformas.

Mas será que os outros grupos –inclusive grupos políticos- não se distanciaram tanto que chegam ao ponto de não darem a mínima sobre as condições na Igreja Católica?

Somente quando não estão pensando nos eleitores. Os eleitores se tornaram muito sensíveis neste quesito. As pessoas estão prestando muita atenção ao que o presidente do Bundestag, Norbert Lammert, católico corajoso e forte, dirá ao papa.

O que o senhor está dizendo parece muito pessimista. Será que, como pergunta o título de seu livro, é tarde demais para salvar a Igreja?

Em minha opinião, a Igreja Católica como comunidade de fé será preservada, mas apenas se abandonar o sistema do regime romano. Conseguimos nos virar sem esse sistema absolutista por 1.000 anos. Os problemas começaram no século XI, quando os papas afirmaram seu controle absoluto sobre a Igreja, aplicando uma forma de clericalismo que privou a laicidade de todo poder. A regra do celibato também vem dessa era.

Em entrevista à respeitada revista alemã “Die Zeit”, o senhor criticou duramente o papa Bento, dizendo que nem o rei Luis XIV foi um líder tão autocrático quanto o líder da Igreja católica, com seu estilo absolutista de governo. Bento XVI poderia de fato mudar o sistema romano, se quisesse?

É verdade que esse absolutismo é um elemento essencial do sistema romano. Mas nunca foi um elemento essencial da Igreja Católica. O Concílio Vaticano II fez tudo para se afastar dele, mas infelizmente não foi suficiente. Ninguém ousou criticar o papa diretamente, mas houve uma ênfase no relacionamento colegial do papa com os bispos, criado para reintegrá-lo na comunidade.

E teve sucesso?

Não diria que sim. A falta de vergonha com a qual a política do Vaticano simplesmente calou e negligenciou o conceito de colegiado desde então é sem precedentes. Um culto à personalidade sem paralelos prevalece novamente hoje, que contradiz todo o Novo Testamento. Neste sentido, pode-se afirmar isso muito claramente. Bento XVI até aceitou a tiara, uma coroa papal, símbolo medieval do poder papal absoluto, que um papa anterior, Paulo VI, escolheu entregar. Acho isso revoltante. Ele poderia mudar isso tudo da noite para o dia, se quisesse. 

Mas ele não quer?

Não quer. Estou absolutamente convencido disso, porque ele tem a autoridade necessária. Ele meramente teria que fazer uso dela, no espírito do Evangelho.

O senhor não quer apenas reduzir o poder do papa. O senhor também está pedindo um fim ao celibato; o senhor quer que as mulheres sejam ordenadas e que a Igreja suspenda sua proibição de controle de natalidade. Os católicos leais ao papa dizem que esses elementos fazem parte dos valores centrais da Igreja Católica. Se o senhor retirar isso, o que restará da Igreja Católica?

O que restará será a mesma Igreja Católica que costumava existir – e que era melhor. Não estou dizendo que o papado deva ser abolido. Mas precisamos de escritórios que sirvam às congregações, precisamos do tipo de papado que era praticado por João XXIII. Ele não queria dominar. De fato, ele simplesmente demonstrava que estava lá disponível para todos, inclusive outras igrejas. Ele estabeleceu a base para o Concílio e um novo despertar do cristianismo ecumênico. Ele permitiu o surgimento de uma nova igreja.

Muitos na Igreja Católica dizem que, se todas as reformas que o senhor propõe fossem implementadas, a Igreja ficaria mais Protestante e abandonaria sua natureza Católica.

A Igreja sem dúvida se tornaria mais protestante. Mas sempre preservaremos nossa natureza única. Nossa forma global de pensar, nossa universalidade nos diferenciam de certa estreiteza nas igrejas regionais Protestantes. Isso deve continuar, assim como o escritório (do papa) deve ser preservado. Mas se tudo for concentrado no escritório, vamos terminar com um vigário medieval, um príncipe-bispo e o papa como absoluto monarca, que simultaneamente personifica o executivo, o legislativo e o judiciário –em contradição com a democracia moderna e o Evangelho.

O senhor e Bento XVI estão em caminhos diferentes. O senhor quer reformar a Igreja para mantê-la viva. E o papa está tentando selar a Igreja do mundo externo e cada vez mais restringi-la a seu centro conservador, que poderia sobreviver.

De fato. No passado, o sistema romano foi comparado com o sistema comunista, no qual uma pessoa mandava. Hoje, eu me pergunto se não estamos talvez na fase de “Putinização” da Igreja Católica. É claro que não quero comparar o Santo Padre, como pessoa, ao profano estadista russo. Mas há muitas similaridades estruturais e políticas.Putin também herdou um legado de reformas democráticas. Mas ele fez tudo o que pôde para revertê-las. Na Igreja, tivemos o Conselho que iniciou a renovação e a compreensão ecumênica. Nem os pessimistas teriam imaginado que tais retrocessos seriam possíveis depois disso. A política de restauração do papa polonês, a partir dos anos 80, tornou possível para o diretor da altamente sigilosa Congregação da Doutrina da Fé, que era conhecida como Congregação da Inquisição Romana e Universal - e ainda é uma inquisição, apesar do novo nome - a ser eleito papa.

Essa é uma comparação audaciosa.

Não deve ser tirada de suas proporções, é claro. Infelizmente, mesmo que admitamos as coisas positivas, os desdobramentos negativos que estão ocorrendo não podem ser negligenciados. Praticamente falando, tanto Ratzinger quanto Putin colocaram seus antigos associados em posições chave e colocaram de lado aqueles que eles não gostavam. É possível traçar outros paralelos: o enfraquecimento do parlamento russo e do Sínodo dos Bispos do Vaticano; a degradação dos governadores provincianos russos e dos bispos católicos, que faz deles meros cumpridores de ordens; uma “nomenclatura” conformista e uma resistência a verdadeiras reformas. Ratzinger promoveu seu assistente dos tempos de diretor do CDF a cardeal secretário de Estado, o que o torna vice do papa.

E o que há de errado nisso?

O fato que, sob o papa alemão, uma pequena claque de seguidores, primariamente italiana, sem simpatia alguma pelos pedidos de reforma, subiu ao poder. Eles em parte são responsáveis pela estagnação que abafa toda tentativa de modernização do sistema da Igreja.

O que as condições no Vaticano têm a ver com o estado da Igreja na Alemanha?

Um enorme sistema de política de poder está por trás de toda a amabilidade romana, as demonstrações litúrgicas de esplendor e de pseudo-Estado. O Vaticano controla a nomeação de bispos e de professores de teologia, somente permitindo os que se conformam com suas políticas a obterem essas posições. Seus núncios monitoram as conferências dos bispos e constantemente enviam relatórios à sede. Os dedos-duros voltaram neste sistema. Todo pastor reformista na Alemanha, todo bispo, deve temer ser denunciado em Roma.

Qual é o papel do cardeal de Colônia, Joachim Meisner, famoso linha dura, nessa luta pelo poder dentro da Igreja?

É um segredo aberto que a Conferência Nacional dos Bispos da Alemanha está cada vez mais sob influência de Meisner, o que alguns não pensavam ser possível. Acontece que Meisner tem uma linha direta com o centro de poder romano. Seu séquito inclui jovens bispos como Franz-Peter Tebartz-van Elst de Limburg. O novo arcebispo em Berlim, Rainer Woelki também é protegido de Meisner. Está havendo uma tentativa de obter o controle das posições mais estrategicamente importantes. Estão fazendo todo o possível para fortalecer o sistema de dominação.

Seu prognóstico é sombrio.

 Acho muito importante que não afundemos em pessimismo. Mas meu diagnóstico mostrou que a Igreja está doente, e é a doença do sistema romano. Sob essas circunstâncias, não posso simplesmente me comportar como um médico ineficaz e dizer que tudo vai ficar bem.

Qual seria o tratamento?

A base deve reunir forças e se fazer ouvir, para que o sistema não possa mais driblá-la. Eu apresentei uma lista ampla de medidas em meu livro.

Mais de um ano atrás, o senhor escreveu uma carta aberta a todos os bispos do mundo, na qual o senhor ofereceu uma explicação detalhada de suas críticas ao papa e ao sistema romano. Qual foi a resposta?

Há cerca de 5.000 bispos no mundo, mas nenhum deles ousou comentar publicamente. Isso claramente mostra que algo não está certo. Mas se você conversa com os bispos individualmente, muitas vezes você ouve: “O que o senhor descreve é fundamentalmente verdade, mas nada pode ser feito”. Seria maravilhoso se um bispo proeminente dissesse: “Isso não pode continuar assim. Não podemos sacrificar toda a Igreja para agradar os burocratas romanos”. Mas até agora ninguém teve coragem de fazer isso. A situação ideal, em minha opinião, seria uma coalizão de teólogos reformistas, pessoas laicas e pastores abertos à reforma, e bispos preparados a apoiar a reforma. É claro que entrariam em conflito com Roma, mas eles teriam que aguentar isso, em um espírito de lealdade crítica.

Foi isso que levou à Reforma 500 anos atrás. Mas na época, o sistema romano foi incapaz de entender críticas de dentro de suas fileiras.

Após 500 anos, estamos surpresos que os papas e bispos de então não tenham compreendido que uma reforma era necessária. Lutero não queria dividir a Igreja, mas o papa e os bispos foram cegos. Parece que uma situação similar se aplica hoje.

Outro concílio como o Vaticano II ajudaria a Igreja?

Espero que haja um concílio, ou ao menos uma assembleia representativa da Igreja Católica.

O senhor acredita que vai viver para ver tal concílio?

Não se deve estabelecer limites para a graça de Deus. Certamente seria um sinal de esperança se o papa anunciasse, durante sua visita à Alemanha: “Apesar de eu não concordar com esses pedidos de reforma, como papa alemão, quero trazer algo como presente: no futuro, aqueles que se divorciarem e os que voltarem a se casar terão permissão de receber os sacramentos católicos”.


6 de setembro de 2011

Abençoar ao invés de culpar


"Cada um de nós pode (ou melhor, deveria) praticar privadamente a sua própria religião com o espírito de `benção original`, esquecendo a lúgubre ideia da culpa coletiva."
A análise é do filósofo e político italiano Gianni Vattimo, em artigo publicado no jornal La Stampa, 02-04-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
Eis o texto.
O livro de Matthew Fox In principio era la gioia inaugura dignamente a nova coleção de teologia dirigida por Vito Mancuso e Elido Fazi, que é o seu editor (423 páginas). Pode-se e deve-se recomendá-lo certamente como fonte de edificação espiritual, como manual de meditação, como guia para uma possível experiência mística.
Como muito frequentemente a teologia não é edificante, assim a edificação parece se prestar pouco a discussões e argumentações teológicas. Todavia, podemos induzir que o livro é algo mais do que um banal texto de edificação do fato, em nada insignificante, de que, em consequência da sua publicação (1983), o autor foi expulso (1993), por iniciativa do então cardeal Ratzinger, chefe do Santo Ofício, da ordem dominicana, na qual havia sido discípulo de um grande teólogo como Chenu.
Se, para alguns, essa expulsão já é uma recomendação positiva, há uma outra que se descobre só depois da leitura das densas 300 páginas do livro, e que soa assim: "Todo este livro, na realidade, nada mais é do que a exposição da espiritualidade dos anawim , dos oprimidos" (p. 331).
Não se deve, por isso, motivar ulteriormente a simpatia que sentimos desde o início pelo livro e pelo seu autor. Mesmo que alguns elementos que o caracterizam suscitem alguma resistência: a sistematicidade da construção, que repete e também renova certos esquemas típicos dos manuais de espiritualidade da tradição católica, com a articulação da Via positiva, Via negativa, Via criativa, Via trasformativa; a fluvial abundância das citações que servem como epígrafes para os vários capítulos, onde é convocada toda a história da mística, da poesia, do pensamento espiritual não só doOcidente (e que também tem o sentido positivo de oferecer uma espécie de suma antológica desse pensamento).
Principalmente, o que me atrai mas também repele no livro é o seu tom "positivo", que faz pensar às vezes em certas formas de nova religiosidade "americana" (New Age), às quais alimentamos respeito, mas que não sentimos como nossas.
O porquê de um certo incômodo com relação a este último aspecto do livro é também a sua substância teórica e teológica. A reação de suspeita é motivada justamente por aquilo que ainda domina a nossa experiência religiosa: somos todos filhos de Agostinho, diria Fox, isto é, submissos a uma educação que nos acostumou a pensar a história da salvação como redenção da queda original no pecado.
Não por acaso o título em inglês do livro é Original Blessing, Benção original. Nós, de original, sempre conhecemos principalmente o pecado: o ato de amor que deu lugar à criação, a benção original, foi logo manchado pela história da serpente e da maçã. A história das nossas relações com Deus é uma história de queda, pena e redenção, também esta, porém, operada só na força de um sacrifício, de uma pena que o próprio Filho de Deus carregaria sobre as costas, suportando a dor da Crucificação.
Mas, diz Fox, "ninguém acreditava no pecado original antes de Agostinho", como por exemplo Santo Irineu de Lyon, que escreveu 200 anos antes dele (p.49). A "benção", o ato de amor com que Deus cria o mundo e nos dá a vida, é uma ideia bíblica muito mais original. Agostinho construiu a doutrina do pecado original só nos últimos anos da sua vida, fundamentando-se em uma passagem da carta de Paulo aos Romanos (5,12) que ele leu como se dissesse que, com Adão, todos os homens pecaram e, por isso, trazem consigo a mesma culpa.
A filosofia ocidental (Kant: a ideia do "mal radical") retomou essa doutrina, considerando que a inclinação ao mal é um dado natural no homem, com consequências importantes também para o modo de entender a sociedade. E também todo o modo que herdamos de considerar o corpo, os sentidos, o erotismo está profundamente ligado a esse primado do pecado.
Fox se propõe a obra nada simples, de fato, de repensar o cristianismo fora da luz cintilante que o agostinismo lhe impôs. Certamente, não fazendo como se não se devesse mais falar de pecado – ele mesmo, nas quatro seções em que ilustra as suas quatro "vias", dedica páginas intensas a como se configura o pecado do ponto de vista de cada uma delas: que se reduz sempre a uma forma qualquer de resistência inerte (egoísta, conservadora) contra a positividade da relação com o mundo, com a natureza, com os outros.
Mas as desventuras que ele encontrou com a hierarquia católica advertem sobre a dificuldade também teórica da sua posição, pelo menos no plano doutrinal. A Igreja sempre deixou muita liberdade aos muitos místicos que Fox se refere no livro, de Hildegarda de Bingen a Meister Eckhart, de Juliana de Norwich a Simone Weil – certamente não aGiordano Bruno, que é um dos grandes inspiradores desse livro.
Mas, no plano da doutrina aceita e ensinada, o discurso era e ainda é muito mais rígido. Cada um de nós, e o próprio Fox e seus discípulos, pode (ou melhor, deveria) praticar privadamente a sua própria religião com esse espírito de benção, esquecendo a lúgubre ideia da culpa coletiva.
Mas, dessa ideia, dependem muitas "disciplinas", relações de poder, verdadeiros privilégios da casta (!) sacerdotal, para que uma proposta de renovação teológica e espiritual como essa não se confronto, no fim, com a necessidade de uma autêntica revolução. Talvez fosse a hora, mas lhes parece que é o tempo propício?


24 de agosto de 2011

O aborto perdoado em Madri


Dois pesos e duas medidas: o aborto perdoado em Madri

Ivone Gebara*

É com muito constrangimento que muitas mulheres católicas leram a notícia publicada em vários jornais nesse último final de semana de que a Arquidiocese de Madri com aprovação papal autorizou a concessão do perdão e indulgência plenária às mulheres que confessarem o aborto por ocasião da visita do papa. A impressão que tivemos é que o papa, o Vaticano e alguns bispos gostam de brincadeiras de mau gosto com as mulheres. Não sabemos em que mundo esses homens vivem, quem pensam que são e quem pensam que somos!
Primeiro, concedem o perdão a quem pode viajar para assistir a missa do papa e passar pelo "confessionódromo” ou pelo conjunto de duzentos confessionários brancos instalados numa grande Praça pública de Madri chamada "Parque do Retiro”. O perdão deste "pecado” tem local, dia e hora marcada. Custa apenas uma viagem a Madri para estar diante do papa! Quem não faria o esforço para tão grande privilégio? Basta ter dinheiro para viajar e pagar a estadia em algum hotel de Madri que o perdão poderá ser alcançado. Por isso, nos perguntamos: que alianças a prática do perdão na Igreja tem com o capitalismo atual? Como se pode viver tal reducionismo teológico e existencial? Quem está tirando benefícios com esse comportamento?
Segundo, têm o desplante de afirmar que o perdão deste "crime hediondo” como eles costumam afirmar, é dado apenas por ocasião da visita do papa para que nessa mesma ocasião as fiéis pecadoras obtenham "os frutos da divina graça”, confessando o seu pecado. Como entender que uma falta é perdoada apenas quando a autoridade máxima está presente? Não estariam reforçando o velho e decadente modelo imperial do papado? Quando o Imperador está presente tudo é possível até mesmo a expressão da contradição em seu sistema penal.
Não quero retomar os argumentos que muitas de nós mulheres sensíveis às nossas próprias dores temos repetido ao longo de muitos anos numa breve reflexão como esta. Mas esse acontecimento papal madrilenho, infelizmente, só mostra mais uma vez, um lado ainda bastante vivo no Vaticano, ou seja, o lado das querelas medievais em que questões absolutamente sem peso na vida humana eram discutidas. E mais, demonstra desconhecer as dores femininas, desconhecer os dramas que situações de violência provocam em nossos corpos e corações. Ao conceder o perdão ao "crime” do aborto na linguagem que sempre usaram, de forma elitista revelam o rosto ambíguo da instituição religiosa capaz de ceder ao aparato triunfalista quando sua credibilidade está em jogo. Podem abençoar tropas para matar inocentes, enviar sacerdotes como capelães militares em guerras sempre sujas, fazer afirmações públicas em defesa da instituição condenando pobres e oprimidas, abrir exceções à regra de seus comportamentos para atrair jovens alienados dos grandes problemas do mundo ao rebanho do Papa. A lista dos usos e costumes transgressores de suas próprias leis é enorme...
Por que reduzir a vida cristã a pão e circo? Por que dar um espetáculo de magnanimidade em meio à corrupção dos costumes? Por que criar ilusões sobre o perdão quando o dia a dia das mulheres é cheio de perseguições e proibições às suas escolhas e competências?
Somos convidadas/os a pensar no aspecto nefasto da posição do papa e dos bispos que se aliaram a ele. O papa não concedeu perdão e indulgência total ou plena "urbe et orbe”, isto é, para todas as mulheres que fizeram aborto, mas apenas àquelas que se confessaram naquele momento preciso e por ocasião da visita do papa à Espanha. Não é mais uma vez a utilização das consciências especialmente das mulheres para fins de expansionismo de seu modelo perverso de bondade? Não é mais uma vez abrir concessões obedecendo a uma lógica autoritária que quer restaurar os antigos privilégios da Igreja em alguns países europeus? Não é uma forma de querer comprar as mulheres confundindo-as diante da pretensa magnanimidade dos hierarcas?
Será que as autoridades constituídas na Igreja Católica e de outras Igrejas são ainda cristãs? São ainda seguidoras dos valores éticos humanistas que norteiam o respeito a todas as vidas e em especial à vida das mulheres?
Creio que mais uma vez somos convocadas/os a expressar publicamente nosso sentimento de repúdio à utilização da vida de tantas mulheres como pretexto de magnanimidade do coração papal. Somos convidadas/os a tornar pública a corrupção dos costumes em todas as nossas instituições inclusive naquelas que representam publicamente nossas crenças religiosas. Somos convidadas/os a ser o corpo visível de nossas crenças e opções.
Fazendo isso, não somos melhores do que ninguém. Somos todas pecadoras e pecadores capazes de ferir uns aos outros, capazes de hipocrisia e mentira, de crueldade e crueldade refinada. Mas, também somos capazes de dividir nosso pão, de acolher a abandonada, de cobrir o nu, de visitar o prisioneiro, de chamar Herodes de raposa. Somos essa mistura, expressão de nosso eu, de nossos deuses, dos espinhos em nossa carne convidando-nos e convocando-nos a viver para além das fachadas atrás das quais gostamos de nos esconder.
21 de agosto de 2011.



* A teóloga Ivone Gebara é doutora em Filosofia pela Universidade Católica de São Paulo e em Ciências Religiosas pela Universidade Católica de Louvaina, na Bélgica.

19 de agosto de 2011

Deus mora lá na nossa rua


 Marcelo Barros



Quando dona Cora Coralina, a nossa grande poetisa da vida cotidiana, sugeriu ao presidente da República, que instituísse "O Dia nacional do Vizinho", em nenhum lugar, havia ainda esta iniciativa. Atualmente, existe o "Dia europeu da Vizinhança", celebrado no final de maio. A Argentina festeja o seu "Dia de los vecinos" no 11 de junho. O Brasil consagra como Dia dos Vizinhos o 20 de agosto, data do aniversário natalício da inesquecível dona Cora. Esta valorização da vizinhança se torna mais importante, em cidades maiores, nas quais edifícios substituem casas. Ali, embora, frequentemente, as pessoas se encontrem no mesmo elevador, muitas vezes, não se conhecem. Não é o mero fato de morar no apartamento ou na casa ao lado, que torna alguém vizinho. A pessoa pode viver durante anos em um lugar, se queixando da agitação, do calor, da poeira ou da insegurança. Outros têm plena consciência destes problemas e lutam para vencê-los, mas, assim mesmo, casam com a rua ou praça onde moram. Quando pessoas da mesma rua ou do mesmo condomínio pressentem em outras, esta relação vital com o lugar em que moram, aí se fortalece uma proximidade de convivência que é a vizinhança. Para ser bem vivida, esta precisa de uma educação para o diálogo e a convivência entre diferentes. Cora Coralina dizia: "Vizinho é mais do que parente, porque é o primeiro a saber das coisas que acontecem na vida da gente".
Em tempos anteriores à televisão e aos shoppings, nas cidades do interior, ou em bairros residenciais, toda noite, as pessoas costumavam sentar à porta de casa, para conversar e conviver. Normalmente, a roda de conversa acabava se abrindo também aos vizinhos e vizinhas. Assim, se formavam verdadeiras rodas de discussão, com assuntos como educação de filhos, relacionamentos conjugais e futebol. Hoje, a televisão e a cultura do shopping substituíram estes ritos de convivência, mas não resolvem o problema da solidão dos mais velhos e da futilidade de quem olha o mundo apenas pela janela do consumo descartável.
Há mais de 50 anos, o educador Paulo Freire propôs um método de alfabetização e educação de adultos que partia da vizinhança. Formava círculos de diálogo e cultura entre vizinhos. Ali, as pessoas aprendiam a expressar sua posição sobre a vida e os problemas que enfrentavam. Mesmo perseguido pela ditadura militar, este método de conscientização se espalhou pelo Brasil, por outros países da América Latina e até em Angola e Cabo Verde, na África. Na mesma linha, na segunda metade dos anos 60, em várias regiões do Brasil, homens e mulheres de fé cristã, começaram a se reunir como vizinhos, para orar, ouvir juntos um texto bíblico, conversar sobre problemas da vida e fortalecer a solidariedade mútua. Foi o começo das comunidades eclesiais de base. Mais tarde, várias Igrejas evangélicas organizaram grupos semelhantes, como "Igreja em células" e "Igreja em quadros", comunidades de convivência e proximidade, instrumentos de comunhão entre as pessoas.
Há mil razões para se valorizar a prática da vizinhança. Quem crê em Deus como Luz e fonte de vida, o contempla, não como alguém exterior a nós e que de fora intervém neste mundo, mas como presença íntima e profunda, no coração de toda pessoa humana, especialmente de quem se abre ao amor, independentemente de sua pertença religiosa. Um teólogo evangélico dizia: "Deus está em mim para você e em você para mim. Eu o encontro em você e, se quiser, você pode encontrá-lo em mim". Por isso, podemos olhar nossos vizinhos e vizinhas, como sinais da presença divina. Eles são humanos e têm seus defeitos e limitações, mas se os olharmos assim, pouco a pouco, se transformarão, principalmente se perceberem que, de fato, cremos: através deles e no mais íntimo de cada um/uma, Deus mora lá na nossa rua.

Marcelo Barros é monge beneditino e escritor.

12 de agosto de 2011

A invenção do papado

Em 1059, foram mudados os critérios de eleição do bispo de Roma. A partir dessa data, esse escolhido também passaria a ser o Pontífice Máximo de toda aCristandade.A análise é de Giacomo Todeschini, professor de história medieval da Universidade de Trieste, na Itália, em artigo publicado no jornal Il Manifesto, 30-07-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
Eis o texto.
No dia 13 de abril de 1059, um bispo de Roma, eleito há poucos meses, e que ninguém ainda considerava como "o papa", Nicolau II (imagem), nascido Gerard de Bourgogne, bispo de Florença, convocou em Roma, em São João de Latrão, uma reunião sinodal durante a qual se estabeleceu de uma vez por todas que apenas os cardeais reunidos em conclave podiam eleger o bispo de Roma, e que este seria o Pontífice Máximo de toda a Cristandade. A decisão dessa elite consagrada tomou forma e se difundiu por meio de uma bula de Nicolau II, a In nomine Domini.
Essa solene decisão deu início ao processo de separação definitiva da Igreja do mundo dos poderes soberanos seculares europeus. A partir de 1059, o arquipélago das Igrejas europeias começou a se tornar a "Igreja" e a ter o seu centro indiscutível em Roma, na pessoa do Papa.
Uma figura ambígua
O período histórico durante o qual ocorreu essa mudança, que produziu depois, ao longo do tempo, um efeito avalanche de enormes proporções, também é politicamente problemático. O poder do bispo de Roma havia sido, durante séculos, um poder muito frágil, muito menos significativo do que o dos imperadores romanos estabelecidos emConstantinopla, e também do poder que os imperadores romanos do Ocidente, deCarlos Magno a Oto III, haviam reivindicado e parcialmente obtido.
As Igrejas ocidentais e orientais tinham entendido o papel do sucessor de Pedro emRoma em termos políticos de um primado compartilhado com o que os patriarcas e bispos, da Europa aos territórios bizantinos, exerciam em todos os casos, reconhecendo a supremacia dos imperadores sentados no trono que havia sido deConstantino.
Entre Roma e a área franco-germânica dos imperadores do Ocidente, sobretudo, o equilíbrio havia sido muito delicado, pelo menos desde que, no século IX, os soberanos da dinastia carolíngia haviam começado a exercer sobre o bispo de Roma um poder em partes iguais de proteção, defesa e controle. No século X, quando o título imperial havia sido passado para a dinastia germânica dos Oto, a relação entre a casa imperial e o episcopado romano havia se tornado ainda mais estreita.
A questão era complicada pelo fato de que a eleição do bispo romano, figura ambígua, de um lado ligada a um território bem definido, mas, de outro, simbólico representante do carisma universal de Pedro, era muito ambicionada pelas famílias nobres romanas, que muitas vezes conseguiam assentar sobre o trono episcopal um membro dos seus clãs.
O partido dos reformadores
A eleição de Nicolau II também havia ocorrido nesse clima conflitual. Ela havia sido, substancialmente, o fruto de um confronto explícito entre duas facções: uma, encabeçada pelo conde de Túsculo, poderosa família romana, e por uma parte do clero romano, que tinha eleito seu próprio candidato, João dos Condes de Túsculo, com o nome de Bento X; a outra, apoiada pela imperatriz alemã Agnes, filha do duque da Aquitânia e de Agnes de Borgonha, regente em nome do seu filho, o futuro imperador Henrique IV, do duque de Lorena e do partido eclesiástico "reformador", ou seja, contrário ao controle das famílias romanas sobre o Sólio de Pedro, que, ao contrário, tinha eleito Nicolau II.
A batalha foi travada dentro de poucos meses entre SienaFlorençaRoma e o palácio imperial alemão, onde reinava a imperatriz Agnes, de 34 anos (ela morreria em 1077, como penitente reclusa em um mosteiro romano, depois da submissão do filho imperador ao Papa Gregório VII). A eleição de um conde de Túsculo a bispo de Roma com o nome de Bento X, em 1058, foi velozmente seguida pela contraeleição de Nicolau II, em virtude dos apoios políticos superlativos que o seu partido desfrutava.
O prestígio constituído pelo apoio de uma imperatriz de grande estirpe e do senhor de Lorena teve uma ressonância e uma convalidação totalmente especial pelo fato de eles serem apoiados pelo grupo de intelectuais monges e bispos que, de Pedro Damiani, de Ravena, a Humberto de Moyenmoutier (ou de Silvacandida), de Lorena, formavam o grupo dos "reformadores", ou seja, compunham o partido eclesiástico franco-italiano intencionado, com bases canônicas e teológicas, a distinguir o carisma apostólico do senhoril, na perspectiva de estabelecer o primado do poder sacerdotal sobre o senhoril, régio ou imperial dos poderosos seculares.
Uma elite sacerdotal
A eleição de Nicolau II e a subsequente deposição e excomunhão de Bento X foram, portanto, tanto o efeito de uma vitória da aliança entre soberanos de porte internacional e intelectuais eclesiásticos fortemente comprometidos em sentido teórico e projetual, como também a premissa de uma consolidação do poder carismático dos eclesiásticos reunidos em torno da figura do bispo romano, em si só já potencialmente polêmico com relação ao vínculo que tradicionalmente unia o episcopado romano às famílias dos imperadores e da grande nobreza europeia.
O primeiro e mais vistoso sinal da tensão que os "reformadores" instaurariam entreRoma e os soberanos do Ocidente se manifestou, com efeito, ainda poucos meses depois da eleição e da consagração de Nicolau II, ocorrido no dia 24 de janeiro de 1059. Na bula In nomine Domini, de fato, o papa recém-eleito decretou, com base daquilo no que os teólogos reformadores haviam elaborado, que o bispo de Roma, o papa, poderia agora ser eleito apenas pelos bispos cardeais e com o voto adicional dos cardeais não bispos, de modo que o "povo" e o resto do clero fosse capaz, depois, de aprovar essa escolha, sem, porém, que essa faculdade pudesse significar um direito de se intrometerem na questão.
A eleição do pontífice, portanto, passaria a se referir exclusivamente a uma elite sacerdotal, a cardinalícia, enquanto o resto do clero e o povo teriam nessa liturgia um papel secundário e passivo (“religiosissimi viri praeduces sint in promovenda pontificis electione, reliqui autem sequaces”).
Ao mesmo tempo, o texto da bula de Nicolau II especifica que só é elegível quem pertencer ao âmbito eclesiástico romano ou europeu, e que, portanto, todo eleito que não tenha sido, por sua vez, anteriormente consagrado como sacerdote não poderá, por consequência, ter acesso ao cargo de pontífice.
Esses aspectos do documento estabeleciam, em suma, que os poderes soberanos seculares não tinham mais nenhum direito explícito e formal de participar da eleição dos pontífices e que, ao mesmo tempo, nenhum fiel desses poderes podia se tornar pontífice se não tivesse sido antes consagrado e reconhecido pela hierarquia eclesiástica de obediência romana.
A "reverência" da Igreja com relação ao imperador (o futuro Henrique IV) não implicava mais um direito automático seu de escolher quem devia se tornar bispo deRoma, mas, ao contrário, sublinhava a dependência do seu poder ao sacerdotal: o papa deverá ser eleito "do seio da Igreja de Roma, se for considerado idôneo; senão, que seja tomado de outra Igreja. Salvo a devida honra e a reverência ao nosso dileto filho Henrique, que agora é chamado de Rei e que esperamos que seja, com a ajuda de Deus, futuro imperador, como o concedemos, e aos sucessores dele que pessoalmente pedirão esse privilégio a esta Sé Apostólica".
Do lado de Satanás
Em um parágrafo subsequente, indiretamente, se começava a afirmar o princípio da supremacia da Igreja de Roma sobre outras Igrejas, sublinhando, ao mesmo tempo, que essa supremacia também era a origem da maior autoridade e influência da Igreja romana com relação aos poderes soberanos seculares. Esse duplo conceito, que se afirmará plenamente a partir do pontificado de Gregório VII, menos de 20 anos depois, por volta de 1075, é expresso aqui na forma de uma condenação muito violenta de todos aqueles que não querem se submeter às decisões do sínodo lateranense de 1059.
Estes, resistindo ao decreto de Nicolau II em relação a uma eleição definida como "incorruptível, genuína e livre", por ser reservada aos graus mais altos do clero, virão a se encontrar do lado de Satanás e fora da Cristandade, entendida nesse ponto como um Corpo social, ao qual, para dele pertencer, se torna decisivo se reconhecer nas tomadas de posição da Corte pontifícia romana.
"Mas se alguém, contrariamente a este nosso decreto promulgado no sínodo, for eleito, ou considerado, ou assentado no trono por meio da revolta, da temeridade ou de qualquer outro meio, seja por todos acreditado e considerado não como Papa, mas como Satanás, não apóstolo, mas apóstata, e com perpétua excomunhão por autoridade divina e dos santos apóstolos Pedro e Paulo, junto com os seus instigadores, partidários e seguidores, seja expulso e rejeitado das portas da santaCristandade de Deus como Anticristo, inimigo e destruidor de toda a Cristandade. E não lhe seja dada nenhuma audiência a esse respeito, mas, perpetuamente, seja privado da dignidade eclesiástica de qualquer grau que tenha sido. Com a mesma sentença seja punido qualquer pessoa que esteja do seu lado ou lhe render homenagem como a um Pontífice, ou presumir defendê-lo. E quem temerariamente se opor a este nosso decreto e na sua presunção tentar confundir e perturbar a Igreja Romana contra este estatuto seja condenado a perpétuo anátema e excomunhão, e seja considerado entre os ímpios que não ressurgirão no Juízo. Que sinta contra si a ira do Onipotente, do Pai, do Filho e do Espírito Santo, e, nesta vida e na futura, experimente o furor dos santos apóstolos Pedro e Paulo, cuja Igreja ele teve a pretensão de abalar. A sua casa seja deserta e ninguém habite nas suas tendas (Salmo 69, 26). Os seus filhos sejam órfãos e sua mulher, viúva. Que seja expulso em terror ele e seus filhos, e mendiguem e sejam rejeitados das suas casas. Que o usurário se aposse da sua substância, e que estrangeiros se aproveitem dos frutos da sua fadiga. Toda a terra combata contra ele, e que os elementos lhe sejam adversos,e os méritos de todos os santos defuntos o confundam e mostrem aberta vingança contra ele nesta vida".
Legitimidade ao reino normando
A reforma, ou melhor, a revolução ocorrida nos critérios da eleição do bispo de Roma, em 1059, abria caminho, portanto, para um conjunto de possíveis desenvolvimentos, ambiguamente interconectados. Enquanto, de fato, de um lado, a eleição de Nicolau II havia sido possível graças ao apoio do mundo imperial, de outro lado, a ascensão ao trono papal de um "reformador" inaugurava uma época de contrastes com os poderes soberanos que a época medieval transmitiria à Europa moderna.
A possibilidade de se aliar, em defesa da verdadeira fé, com quem, pessoa ou grupo, o pontífice romano considerava mais confiavelmente cristão, mas também de desconhecer essa aliança onde ela se revelasse inútil para a solidez da “respublica” católica, uma realidade política que se afirmava como transnacional justamente por causa da afirmação do primado do pontífice romano, inaugurava, além disso, uma longa temporada da política europeia – provavelmente ainda não concluída – cuja complexa conflitualidade teria sido variavelmente orquestrada e arbitrada pelo poder supranacional dos papas.
Exatamente Nicolau II, ainda no crucial 1059, poucos meses depois do sínodo lateranense, dará início a essa lógica no mesmo momento em que reconhecerá a plena legitimidade do recém-nascido reino normando, um potentado de nova e incerta legalidade, conferindo a soberania sobre a CampâniaPugliaCalábria e Sicília aRoberto, o Guiscardo, e aos chefes do clã dos Hauteville.
Do tratado de Melfi em junho de 1059 à concordata, estipulada ainda em Melfi em agosto do mesmo ano, logo depois de um concílio do qual haviam participado alguns dos principais representantes da reforma católica romanocêntrica, de Humberto de Silvacandida a Hildebrando de Soana, a autenticação por parte da  Romana de um poder cristão vassalo de Roma sobre terras até pouco antes islâmicas ou bizantinas começava a significar mais coisas aos olhos do mundo: acima de tudo, que o papa podia legitimar um poder político armado como já havia ocorrido aos tempos deCarlos Magno, mas, ainda melhor, ligando-o consigo um pacto de submissão.
Em segundo lugar, que o papa assentado em Roma podia estabelecer um poder fiel a si sobre terras não só infiéis, mas também, no passado, pertencentes a outros poderes cristãos rivais (o do imperador do Oriente, no caso da Itália meridional).
E, finalmente, que o papa, único entre os poderosos ocidentais, tinha o direito superior de tornar institucional um poder de fato pelas razões indiscutíveis da fé, ou seja, em consequência das escolhas tanto políticas quanto ideológicas operadas por um novo tipo de soberania, a papal, cujo desconhecimento já significava a saída daCristandade.
Um modelo de longa duração
A afirmação, em 1075, por parte de Gregório VII, do primado romano como primado político universal ("… Só ele pode usar as insígnias imperiais; só ao Papa todos os príncipes devem beijar os pés; que só o Seu nome seja pronunciado nas igrejas; o Seu nome seja o mesmo em todo o mundo; a Ele é permitido depor os imperadores; que uma sentença Sua não possa ser reformada por ninguém, enquanto, ao contrário, Ele pode reformar qualquer sentença emanada por outros; Ele não pode ser julgado por ninguém; Ele pode liberar os súditos da obrigação de obediência aos príncipes que impuseram o seu poder pela força..."), além do tom provocativo e paradoxal que a diferencia, levava às suas lógicas conclusões um discurso já implícito nas deliberações e nas políticas de 1059.
Esse discurso impunha, no próprio coração do processo de civilização do Ocidenteque da Idade Média levaria à modernidade, tanto uma possibilidade para o poder de se apresentar como universal, supranacional, carismático e indiscutível, quanto um modelo de autoridade única e eterno, por provir diretamente do Cristo no momento da sua encarnação e, portanto, autorizada em nome de uma Verdade superior a legislar bem além dos limites do seu efetivo domínio territorial.
A força desse modelo, cujas primeiras raízes se encontram no processo de transformação das Igrejas do Ocidente em uma Igreja hierarquicamente ordenada em torno ao Centro constituído pelo pontífice romano, já se torna totalmente visível no sínodo lateranense de 1059, sobre a unicidade exclusiva da entronização do bispo romano. Portanto, ela continuará agindo não apenas nas políticas teocráticas dos "soberanos pontífices", de Inocêncio III em diante, mas também, senão sobretudo, na vontade expansionística de uma Europa cristã cujo objetivo será, explicitamente, na era dos Estados nacionais, a conquista e a submissão do planeta Terra.


fonte:
http://www.ihu.unisinos.br/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=46160

5 de agosto de 2011

IGREJA DOS POBRES: FUNDAMENTO DE UMA TEOLOGIA DA LIBERTAÇÃO

João Leondenes Facundo de Souza Junior*


INTRODUÇÃO
No meio do século passado, a Igreja Católica se encontrava em uma encruzilhada entre prosseguir com uma dogmática que esteve presente por toda a Idade Média ou refletir as mudanças advindas do mundo moderno. Tínhamos uma atmosfera de tensão que se refletia na Cúria romana, a saber: de um lado estava a realidade centralizadora que sempre caracterizou a estrutura eclesial e do, outro, uma proposta de abertura para o diálogo com a realidade moderna, com suas dúvidas, desconfianças e com seu choque de injustiças.

Neste artigo, pretendemos refletir em que panorama se desenvolveu a Igreja dos pobres na América Latina, sua fundamentação teológica e o que constitui efetivamente esse ser dos pobres como base para uma Teologia da Libertação. A pesquisa tem como foco analítico os seguintes pontos: (1) João XXIII e o Concílio Vaticano II, (2) Medellín e a Igreja da América Latina, (3) Teologia da Libertação e (4) Eclesiologia da Libertação.

1. JOÃO XXIII E O CONCÍLIO VATICANO II

O papel de João XXIII no Concílio Ecumênico Vaticano II (1962-1965) foi de singular importância. Não somente pelo ato de conclamar o referido concílio, mas por introduzir nele uma perspectiva de atualização para a Igreja mundial (aggiornamento). É inegável que grande foi a surpresa quando o "papa bom”, até então considerado um papa de transição, abriu as portas da Igreja que pareciam seladas para o mundo moderno. O Espírito acordara de um sono duradouro, era, portanto, hora de trabalhar para abri-lhe caminho. (C.f SANTOS, 2OO7, p.19).

João XXIII expressa na bula Humanae Salutis o anseio pelo qual passou ao realizar o primeiro anúncio do Concílio (25 de janeiro de 1959): "foi como a pequena semente que depusemos com ânimo e mãos trêmulas”. Nada mais humano ao realizar ato tão divino. O Papa sentia que a Igreja tinha por obrigação demonstrar vitalidade, jovialidade (renovação) e irradiar novas luzes ao surgimento de uma nova era (C.f João XXIII, 1961, p 254). Esse aggiornamento era mais que necessário, pois a mais de 16 séculos a Igreja esteve presa a uma dogmática intra ecclesia para, enfim, anunciar a sua abertura ad extra.

Vejamos o que diz João XXIII em seu pronunciamento às vésperas do Concílio Vaticano II, datado de 11 de setembro de 1962: "Em face aos países subdesenvolvidos, a Igreja se apresenta como é e como quer ser: a Igreja de todos e particularmente a „Igreja dos pobres” (João XXIII apud Aquino, 2005, p 209). Apesar de não termos tido no concílio o aprofundamento que necessitara a Igreja dos pobres, a fala de João XXIII aponta para um viés que até então era pouco debatido: o de uma Igreja que deve assumir em si a perspectiva dos que estão à margem do mundo.

O Espírito deu sinais de que essa discussão não passaria despercebida, como podemos comprovar através de históricas intervenções. É de especial atenção a manifestação do cardeal Lercaro:

"O mistério de Cristo nos pobres não aparece na doutrina da Igreja sobre si mesma e, no entanto, essa verdade é essencial e primordial na revelação (...). É nosso dever colocar no centro deste Concílio o mistério de Cristo nos pobres e a evangelização dos pobres” (Lercaro, apud Aquino, 2005, p.209).

Essa manifestação resultou posteriormente resultou em uma reflexão contida no capítulo 8 do documento conciliar Lumen Gentium. Corroborando com Lercaro destacamos o pronunciamento do bispo de Tornai, Charles-Marie Himmer, pelo significado que expressa e por seu peso, quando em aula conciliar afirmou: "primus lócus in Ecclesia pauperibus resevandus est” (o primeiro lugar na Igreja é reservado aos pobres). De fato, a causa dos pobres estivera longe de ser ponto central do concílio, a não ser por intervenções pontuais, pois "esta não era a temática que constituía efetivamente o espírito conciliar” (SOBRINO, 1982, p.101).

Havia no concílio um corpo de bispos que representavam os países do "terceiro mundo” e que gozavam de bastante simpatia do papa João XXIII. Nele estava presente nosso saudoso Dom Helder Câmara. Astuto e movido por uma insistência evangélica torna-se uma das referências do grupo da "Igreja dos pobres”. Certa vez, perguntado por um jornalista se esse grupo consistia mais um grupo de pressão, respondeu:

Gosto muito da expressão que nos vem de nossos irmãos franceses: "Igreja servidora e pobre”. O Santo Espírito nos interpelou, nos convocou. Abriu-nos os olhos sobre o dever de cristãos, sobretudo de pastores, a fim de agirmos como o Cristo que, pertencendo a todos, se identificou com os pobres, os oprimidos, com todos aqueles que sofrem. Começamos a procurar como a Igreja toda, especialmente cada um de nós, poderia ser "servidor e pobre” (BEOZZO, 1993, p.95).

Essa "pressão” vira "expressão” de vida quando, ao término do Concílio, celebrando a eucaristia na catacumba de Domitila, o grupo da Igreja dos pobres firma um pacto de propagação de uma Igreja servidora e pobre, para "obterem a graça de serem plenamente fiéis ao Espírito de Jesus „que vos consagrou e vos enviou para evangelizar os pobres‟ (Lc 4,18)” (C.f BEOZZO, 1993, p. 96). Esse compromisso ficou conhecido como o Pacto das Catacumbas[1]. Nele estiveram presentes alguns bispos brasileiros[2], que tinham por objetivo expressar com verdade aos "irmãos no Episcopado” o compromisso de viverem uma vida de pobreza, de rejeitar todos os símbolos ou privilégios do poder e de fazer dos pobres o local por excelência para se exercer os ministérios episcopais. Os bispos encerram o texto com um "ajuda-nos Deus a sermos fiéis”, demonstrando que uma Igreja dos pobres é, de fato, uma fidelidade a Deus (...)

2. MEDELLÍN E A IGREJA DA AMÉRICA LATINA

O Episcopado latino-americano animado em colocar em prática as decisões do Vaticano II, marcou passo na história, quando após três anos do término do Concílio, realizou a segunda Conferência Episcopal latino-americana na cidade de Medellín.

Medellín refaz, num certo sentido, o Vaticano II e, em muitos pontos dá um passo além: aí emerge pela primeira vez a importância das comunidades de base, esboça-se a teologia da libertação, aprofunda-se a noção de justiça e de paz ligadas aos problemas de dependência econômica, coloca-se o pobre no centro da reflexão do continente (BEOZZO, 1993, p. 117-118).

Medellín prossegue na reflexão iniciada no Vaticano II e por seu incentivador João XXIII. O Papa bom, através de suas encíclicas sociais, toca de forma comprometedora a Igreja da América Latina (Cf. BEOZZO, 1995, P.118). No decorrer do Concílio, como vimos antes, surgiu uma corrente que colocava os pobres como centro da ação evangelizadora e por isso comprometia-se com eles. É, pois, nesta linha que se encontravam os bispos que participam de Medellín.

Conscientes da realidade do continente, os bispos reunidos em Medellín reconhecem que a Igreja não poderia ficar indiferente as injustiças sociais existentes na América Latina. O documento que traz as Conclusões de Medellín está carregado de uma profunda solidariedade para com o povo que sofre. Nele os bispos assumem que a Igreja da América Latina esteve letárgica e, por isso, sentem-se obrigados, como pastores, a dar voz aqueles que não a têm:

"Um surto de clamor nasce de milhões de homens, pedindo a seus pastores uma libertação que não lhes chega de nenhuma parte. Agora nos estais escutando em silêncio, mas ouvimos o grito que sobe de vosso sofrimento...” (MEDELLÍN, 1979, P.143).

Foi no alvorecer de Medellín que se gestou a Teologia da Libertação (Cf. Oliveros, 1990, p. 30). Isso se deu por uma coesão no episcopado latino-americano e por uma situação histórica popular de opressão e libertação. Na Conferência, a Igreja se compromete a denunciar a carência injusta dos bens necessários para sobrevivência da maioria na América Latina e compromete-se a viver juntos deles (Cf. MEDELLÍN, 1979, p.145). Orienta, portanto, que seus trabalhos pastorais sejam realizados nos setores mais pobres e necessitados.

Percebe-se, todavia, que a Igreja se apropriou da temática dos pobres. Não como meros receptores de um "assistencialismo caridoso”. Em Medellín a Igreja se faz pobre! Isto é, assume a missão deixada por Jesus que sendo rico se fez pobre por nós, para enriquecer-nos com sua pobreza (2Cor 8,9), e compromete-se a "apresentar ao mundo um sinal claro e inequívoco da pobreza do Senhor”. (MEDELLÍN, 1979, p. 150).

A semente está lançada e começa a germinar no seio das comunidades latino-americanas uma experiência de fé que emerge da vida ameaçada e de uma Igreja profética que ouve o clamor do povo. Nasce nas comunidades de base um novo modo de se fazer teologia, fruto de uma prática pastoral anunciada por Medellín.

3. TEOLOGIA DA LIBERTAÇÃO

A teologia da libertação nasce do rejuvenescimento que o Vaticano II causou na Igreja da América Latina. Pela primeira vez na história, surge um modo de se fazer teologia tendo como premissa a situação dos povos e das pessoas que constituem o continente latino-americano[3]. A teologia da libertação traz a realidade dos povos para ser aprofundada a luz da fé, oferecendo uma nova visão da missão da Igreja no nosso continente.

Medellín, como vimos anteriormente, destacou de forma profética a situação de injustiça em que viviam os povos de diversos países latino-americanos e esta constatação virou uma bandeira de muitos em favor dos menos favorecidos, o que impulsionou a vários cristãos a comprometerem-se em desenvolver uma nova teologia: "uma nova consciência eclesial começou a se formular a partir de um novo modo de viver a fé daqueles que estavam comprometidos com os pobres e sua libertação” (OLIVEROS, 1990, p.30). Cria-se uma nova concepção do que é fazer teologia na América Latina, a novidade da teologia da libertação foi descobrir que não somente falar de Cristo configura a sua presença no meio dos pobres. Seu pensamento transformador foi se compromete com as pessoas exploradas, a maioria em nosso continente. O próprio Jesus em oração nos diz: "Eu te louvo, Pai, Senhor do céu e da terra, por teres ocultado isso aos sábios e aos inteligentes e por tê-lo revelado aos pequeninos” (Mt 11, 25-27). De fato, é nos pequeninos desta terra que se configura mais claramente o Mistério de Deus.

Ao contrastar as desigualdades institucionalizadas na América Latina, viu-se que o estado de pobreza que a maioria esmagadora se encontrava não poderia ser a vontade de Deus. A experiência de Moisés com o povo de Israel serviu de base bíblica para se (re)compreender a missão da Igreja. A situação desumana de escravidão e pobreza impulsionaram as reflexões à luz da Palavra de Deus. Viver a Boa Nova implicava necessariamente em uma nova consciência do "ser” e do "como ser” Igreja. A referência do "ser Igreja” está vinculada ao modo de como Igreja a (instituição) se apresenta ao se contrastar com uma realidade desumana e ser tocada por ela, à de se buscar novas práticas pastorais que respondam as necessidades do povo que está preso em cativeiro[4]. Por outro lado, a idéia do "como ser” quer um esforço de reflexão epistemológica da Igreja aos novos desafios e isso é o que faz uma eclesiologia da libertação.

Uma fisionomia nova, um rosto novo de Igreja que tem o Espírito de Medellín foi a base para o desenvolvimento da eclesiologia da libertação. As Comunidades Eclesiais de Base são o exemplo da reunião de cristãos (ecclesia) comprometidos com a fé no Deus de Jesus, e por isso, atuantes no processo de libertação do povo.

A Igreja dos pobres na América Latina não nasce somente de um esforço acadêmico. Ela nasce, primeiramente, da experiência do povo que sofre. Mesmo sem a idéia de teologia o povo latino-americano se recusa a entregar-se a uma estrutura de morte, por isso, emerge dele várias práticas libertadoras[5]. Somente a partir desta prática é que a Igreja se vê impulsionada a fazer uma reflexão eclesiológica. Essa reflexão é caracterizada como o ato segundo, pois o ato primeiro é práxis (GUTIERREZ, 2000, p.18), uma reflexão crítica a luz do Evangelho sobre a vida e a prática cristã eclesial, abre-se neste contexto uma nova forma de anunciar o querigma.

4. ECLESIOLOGIA DA LIBERTAÇÃO

A teologia da libertação viu na Igreja dos pobres a fidelidade mais singular à pessoa de Jesus Cristo. Nela, se encontra um Deus que ouve o clamor do povo (Ex 3,7b), essa experiência eclesial se tornou a base práxica para sua sustentação teológica.

A Igreja dos pobres despertou várias desconfianças a respeito da sua unidade eclesial, como uma continuação da Igreja de Jesus Cristo: Una, Santa, Católica e Apostólica. Vejamos, portanto, como a Igreja dos pobres não fere essa unidade, pelo contrário, à torna mais explicita, uma vez que tem os pobres como o centro de sua reflexão teológico/pastoral.

Um só Deus, um só Senhor, um só batismo, um só Espírito, como expressa São Paulo.

Na verdade existe um só Senhor, Jesus Cristo, e Jesus histórico, crucificado, servo de Javé e ressuscitado; existe um só Deus, que quer vida aos homens, escuta o clamor dos oprimidos, morre com eles na história e mantém sempre vivos os gemidos de parto de uma nova criação; existe um só Espírito, renovador da história, doador de vida e que fala pelos profetas de outrora e pelos atuais (SOBRINO, 1982, p.111).

Podemos perceber a unidade dos pobres desta Igreja, nela se expressa os pobres como sujeitos ativos desta realização histórica com todos os percalços que a situação de pobreza os coloca. Quando a Igreja se expõe a ouvir as mazelas pelas quais passam os pobres, a enxergar o exemplo de fé que é a vida deles, ela realiza o milagre de socializar que o núcleo da fé é algo que não se divide, anuncia-se. Não se trata de uma predileção de ordem social. Trata-se, sobretudo, de uma unidade com todas as instituições e pessoas de bem, agora de um formato macro, que tem os pobres como fio condutor da ligação com o Ressuscitado.

A. A santidade contida na Igreja dos pobres

A característica de "santa” atribuída a Igreja é uma característica lógica, pois nela se configura um sinal de salvação, e é ela a continuadora do sacramento histórico do amor de Deus, seria uma contradição dizer que ela não é santa (SOBRINO, 1982, p.114). A problemática se estabelece em reconhecer que a Igreja como instituição imersa em uma realidade está em si, configurada em uma estrutura de pecado é, portanto, também, pecadora. Quem concede a característica de santidade a Igreja, é Deus, "e assim não cremos simplesmente na Igreja santa, mas em Deus que santifica a Igreja” (SOBRINO, 1982, p.115).

A Igreja dos pobres reconhece a dimensão pecadora e santa da Igreja. O que a Igreja dos pobres faz é desenvolver características concretas ao amor e ao pecado, nos mostra que para dar visibilidade a santidade contida na Igreja, a práxis do amor tem que ser concreta (perdoem-me a redundância), não como propostas ou discursos "benevolentes”, mas de recriar uma nova realidade do seio de suas comunidades. Para a Igreja dos pobres, a santidade não está contida no estereótipo que vestem seus representantes, mas, aí a pirâmide se inverte, a santidade salvará o mundo na medida em que a Igreja se autoassuma como serva. A santidade nasce a partir de baixo, da solidariedade que brota dos pobres, da comunhão com aqueles que foram perseguidos e martirizados. "Optar pelos pobres é automaticamente optar pela forma de santidade do Servo” (SOBRINO, 1982, p.118). Recupera, portanto, a dimensão de santidade que fora disseminada por Jesus, a quenose. Sem essa santidade a Igreja não encontraria em si a verdade que a constitui.

B. Sua dimensão universal

A catolicidade que constitui a Igreja é a representação da sua universalidade, isto é, a Igreja enquanto católica tem como centro a totalidade do mundo, o que implica:

Visto que nem todos são "homens” da mesma maneira no que se refere a seus meios, direitos e liberdades, aquela comunidade em que todos verão conjuntamente a glória de Deus é criada através da eleição dos humildes, ao passo que os poderosos incorrem no juízo de Deus (SOBRINO, 1982, p. 119-120).

Isso não quer dizer, que se fira a universalidade, pelo contrário, o fato de ser universal, carrega em si uma tradição histórica pelos os que sempre estiveram escondidos da totalidade. O que a Igreja dos pobres faz, é demonstrar que essa parcialidade para com os que sofrem é uma forma práxica para um amor universal. Nesse mesmo sentido, percebe-se que a Igreja dos pobres em nível "local” desenvolve claramente uma originalidade com personagens próprios[6] e a partir de figuras do passado cria uma autoconsciência para reler sua a história.

C. Tradição apostólica

A apostolicidade que constitui a Igreja serve para demonstrar a continuidade de sua ligação direita com os apóstolos, em ordem cronológica e a continuação de uma estrutura eclesial apostólica. A Igreja se constitui em si mesma missionária, "ela existe para evangelizar” (Evangelii Nuntiandi, 1975, n.14). E evangelizar é afirmar que todo o caráter próprio da Igreja (oração, vida religiosa, escuta da Palavra, etc.) não teria sentido pleno senão se converter em testemunho.

A Igreja dos pobres é uma Igreja autenticamente missionária, ela adquire prioritariamente essa característica porque se faz pobre. Isso quer dizer, que essa primazia da essência se configurou mais verdadeira quando os pobres não foram somente os destinatários da missão, mas quando eles foram constituídos missionários. "Não basta dizer que a práxis é o ato primeiro. É necessário considerar o sujeito histórico desta práxis: os que até agora estiveram ausentes da história” (GUTIERREZ, 1977, p.42).

Com o receptor da missão sendo missionário, surge aí uma conotação própria da sua realidade, uma vez que os pobres tornam-se anunciadores da Boa Nova, tornam-se, também, denunciadores das estruturas pecaminosas. Cabe a Igreja perceber que quando ela se converte em Igreja dos pobres esta se encontra mais fielmente ligada a sua tradição, pois, qualquer pessoa que não está inserida na realidade de sofrimento, desesperança, humilhação que passa a grande maioria dos habitantes desta terra, não refletirá com propriedade a tradição apostólica. Os pobres oferecem a direção a ser seguida!

Percebe-se, portanto, que uma Igreja que se constitui em: Una, Santa, Católica, Apostólica e dos pobres, desenvolve em si uma ortodoxia mais propriamente evangélica.

Veremos nos dois pontos seguintes de que forma o ser dos pobres configura em si um critério de identidade singular ao passo que é constitutivo da Igreja de Jesus e como os sujeitos/destinatários privilegiados do anúncio do Reino modificam de forma estrutural a Igreja.

4.1 O SER DOS POBRES COMO NOTA DA IGREJA DE JESUS

No caminho elementar que constitui a Igreja dos pobres está a sua fidelidade a Jesus Cristo, principalmente pela característica essencial em ser dos pobres. Há quem pense que a dimensão dos pobres na Igreja refere-se a um vertente social contida nela, como se Igreja tivesse somente uma função assistencialista com referência aos menos favorecidos.

Uma Igreja dos pobres não é aquela que se coloca fora da realidade de conflito que a cerca, propondo-se somente a oferecer seu auxílio e nem aquela que o faz somente por um conceito ético. Ser dos pobres é algo constitutivo do próprio ser Igreja, é algo que perpassa os conceitos puramente sociológicos ou uma dimensão particularizante de classe social. Afirmar teologicamente sobre a Igreja dos pobres, é dizer que o Espírito de Deus que animou Jesus a anunciar a Boa Nova (Lc, 4, 18-19) é o mesmo que deve orientar a vivência eclesial de sua herdeira, traz portanto, uma questão fundamental de ortopráxis eclesial e de ortodoxia teológica (AQUINO, 2005, p.210), isto é, de uma forma de ser cristão e de seguir Jesus.

No centro da vida da Igreja está a realização do Reino de Deus. Essa centralidade é circunstância sine qua non para a vivência de um cristianismo que tem como princípio a vida e morte de Jesus de Nazaré. Em Mateus 5, quando Jesus proclama as Bem-Aventuranças e inverte o conceito de "felizes”, assumi-se de fato que todos os desgraçados e infelizes: os pobres, aqueles que sofrem, que choram, que são perseguidos, na verdade, que para imensa maioria "não contam”, a eles é reservado o Reino de Deus.

Se como vimos, o Reino está, sobretudo para os pobres e no centro da vida da Igreja se encontra a sua implantação, portanto, uma Igreja que não está constitutivamente para os pobres significa que não está para o Reino, pode-se afirmar que nem Igreja se configura! A felicidade dos bem aventurados não está na pobreza, na fome, na dor ou na perseguição; está na presença de Deus junto deles (VIGIL, p 62). Uma Igreja que se proclama como "Sacramento de Cristo” (LG.1, 1964), isto é, como sinal visível de sua presença entre nós, não pode negligenciar o fato de que a vida de Jesus de Nazaré foi sempre ao lodo dos últimos, assim como também sua morte (Mt 15,27; Lc 22,37). A Igreja que é herdeira desta realidade histórica (SOBRINO, 1982, p. 107) não pode esquecer esse ensinamento eclesiogênico[7].

Assumir a realidade de miséria, dor, sofrimento, martírios é afirmar que todo princípio de organização da Igreja se faz a partir dos pobres, não como "parte” dentro dela, mas como autêntico lugar teológico de compreensão da práxis cristã. Não queremos afirmar aqui que o ser "dos pobres” esgota a identidade da Igreja, mas que é fundamentalmente um dado de fé. A Igreja de Jesus Cristo é a Igreja dos pobres.

4.2 O SER DOS POBRES COMO PRINCÍPIO ESTRUTURADOR DA IGREJA EM SUA TOTALIDADE.

Na medida em que a Igreja percebe, na fidelidade a pessoa de Jesus de Nazaré, os pobres como ponto de partida e de convergência da sua ação pastoral ela se vê impelida a dar demonstrações claras desta vivência. Destarte, os pobres configuram uma forma própria do ser Igreja na medida em que encontram na sua vida comunitária a ligação com Deus.

Percebemos, pois, que a configuração feita pelos pobres na Igreja que junto deles se estrutura torna-se perceptível na maneira em que: celebram os sacramentos, assumindo o sinal como festa da vida, na forma como fazem a leitura da Palavra de Deus, reconhecendo nela a sua realidade de dor e o rosto de um Deus que caminha junto e liberta e nos cânticos que nos entoam mais diversos momentos celebrativos, que revigora a força de estar lutando por um novo céu e uma nova terra (Cf. Ap 21,1).

A fé faz com que os pobres se neguem a entregar-se ao acaso. Converter as estruturas neste conceito de rocha viva (1Pd 2,5a) é saborear a utopia do Reino que "lhes foi preparado deste a criação do mundo” (Mt 25,32).

CONCLUSÃO

Nossa intenção ao escrever o presente artigo foi demonstrar, mesmo que não profundamente, de que forma a Igreja dos pobres é fundamento para a teologia da libertação. Levamos em conta a problemática que decorre da particularização existente neste modelo de Igreja para explicitar que é um requisito estritamente evangélico. Percorremos do Vaticano II à sua influência na Igreja da América Latina, que desenvolveu suas reflexões próprias, para enfim, demonstrar que essa opção pelos pobres não recai em um erro de ortodoxia, pelo contrário demonstra a fidelidade mais singular de uma Igreja que caminha nos passos de Jesus de Nazaré.

Neste artigo realizamos um pequeno ensaio de reflexão com o sentimento de percorrer os caminhos já trilhados por muitos. Acreditamos que a Tradição de uma Igreja sempre viva não se coloca jamais longe dos pobres desta terra. Demonstramos, aqui, a nossa convicção na Igreja Una, Católica, Apostólica e dos Pobres... É com e por eles que somos a Igreja de Cristo, do Ressuscitado!

[...] Mas é importante, Mariama, que a Igreja de teu filho não fique em palavra, não fique em aplauso. Não basta pedir perdão pelos erros de ontem. É preciso acertar o passo de hoje sem ligar ao que disserem. Claro que dirão, Mariama que é política, que é subversão. É Evangelho de Cristo, Mariama [...]. (D. Helder Câmara, 1982).

RESUMO:

Dentre as mais diversas correntes teológicas existentes, surge em um contexto posterior ao Concílio Vaticano II, uma forma nova de se fazer teologia e de se compreender o modo de ser Igreja. A Teologia da Libertação na América Latina, nasce por uma abertura no modo de reflexão intraeclesial do ser Igreja e em um contexto social de opressão e libertação. Surge neste período uma Igreja profética que começa a desenvolver sua prática pastoral e sua reflexão teológica a partir dos últimos de Javé. O objetivo deste trabalho é avaliar o que significa ser de fato uma Igreja dos Pobres e como se deu o desenvolvimento desta vertente teológica a partir de uma hermenêutica latino-americana.

PALAVRAS-CHAVE:Teologia da Libertação; Igreja dos pobres; América Latina.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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VIGIL, José Maria [org.]. Descer da Cruz os Pobres: Cristologia da Libertação. São Paulo: Paulinas, 2007.

Notas:

(1) Pode-se constatar na obra de: KLOPPEMBURG, Boaventura. Concílio Vaticano II,Vol V, Quarta sessão. Vozes, 1966.
(2) Para mais informações ver em: BEOZZO, José Oscar. Nota sobre os participantes da Celebração do Pacto das Catacumbas.
(3) Tem-se como marco principal da teologia da libertação, o livro de: Gustavo Gutierrez.Teologia da Libertação.Petrópolis, Vozes, trad. Jorge Soares, 1976.
(4) Pode-se aprofundar nesse sentido no livro de: BOFF, Leonardo. Teologia do Cativeiro e da Libertação. São Paulo: Vozes, 1980.
(5) Surgem sindicatos, movimentos populares, associação de moradores, de mães, etc.
(6) Podemos lembrar de Bartolomeu de las Casas ( o protetor dos índios) e dos mártires da América Latina que conscientes da necessidade de "fazer acontecer” o Reino, doaram suas vidas através dos mais diversos modos.
(7) Para maior aprofundamento vide a reflexão feita em: BOFF, Leonardo. Eclesiogênese: a reinvenção da Igreja. Record, 2008.

[Este trabalho foi orientado pelo Prof. Dr. Francisco de Aquino Junior].

*Graduando em Teologia pela Faculdade Católica de Fortaleza. Integrante das Comunidades Eclesiais de Base da Arquidiocese de Fortaleza e do Movimento por uma Formação Cristã Libertadora.
Adital