O absurdo e a Graça

Na vida hoje caminhamos entre uma fome que condena ao sofrimento uma enorme parcela da humanidade e uma tecnologia moderníssima que garante um padrão de conforto e bem estar nunca antes imaginado. Um bilhão de seres humanos estão abaixo da linha da pobreza, na mais absoluta miséria, passam FOME ! Com a tecnologia que foi inventada seria possível produzir alimentos e acabar com TODA a fome no mundo, não fossem os interesses de alguns grupos detentores da tecnologia e do poder. "Para mim, o absurdo e a graça não estão mais separados. Dizer que "tudo é absurdo" ou dizer que "tudo é graça " é igualmente mentir ou trapacear... "Hoje a graça e o absurdo caminham, em mim lado a lado, não mais estranhos, mas estranhamente amigos" A cada dia, nas situações que se nos apresentam podemos decidir entre perpetuar o absurdo, ou promover a Graça. (Jean Yves Leloup) * O Blog tem o mesmo nome do livro autobiográfico de Jean Yves Leloup, e é uma forma de homenagear a quem muito tem me ensinado em seus livros retiros, seminários e workshops *

16 de fevereiro de 2012

Até as últimas conseqüências

Rogério Oliveira

E ela olhou nas suas anotações o nome de todos eles. Tinha ficado encantada com todos os relatos e sobre como toda aquela gente tinha dedicado a vida por uma causa. Mas ainda se assustava um pouco também. E, naquela noite, foi deitar pensando em cada um deles. Afinal, tudo era tão grandioso, tão importante, tão solene... Tão distante. Ela ali, no trabalho comunitário, todo fim de semana, na busca de vida, no convívio com outros jovens... E eles lá. Fazendo grandes coisas, sonhando grandes sonhos...

E de repente ela se pega andando numa rua estranha. Não parecia com nenhuma outra pela qual já caminhara. E então ela vê uma igreja e tem a forte vontade de entrar nela. Há poucas pessoas sentadas e no altar um bispo faz um discurso muito convicto. Dizia ele que “Ainda quando nos chamem de loucos, ainda quando nos chamem de subversivos, comunistas e todos os adjetivos que se dirigem a nós, sabemos que não fazemos nada mais do que anunciar o testemunho subersivo das bem-aventuranças,  que proclamam bem-aventurados os pobres, os sedentos de justiça, os que sofrem”

Ela achou aquilo muito forte, mas o bispo continuava: “Uma igreja que não sofre perseguição, mas que desfruta privilégios e o apoio de coisas da terra – Tenham Medo! – não é a verdadeira igreja de Jesus Cristo.” E ainda continuava: “Para que servem belas estradas e aeroportos, belos edifícios e grandes palácios, se foram construídos com o sangue de pobres que jamais vão desfrutá-los?”

Ela foi caminhando até o altar, mas aquela pregação havia acabado. Uma a uma as pessoas deixavam a igreja e ela pôde ver alguns rostos conhecidos. Uma mulher baixinha se reunia em círculo e conversava com outra de cabelos grisalhos e com outros dois homens, um de bigode e o outro de barbas e óculos.

A mulher baixinha dizia: "é melhor morrer na luta do que morrer de fome" ao que a mulher de cabelos brancos acrescentou: “Não vou fugir e nem abandonar a luta desses agricultores que estão desprotegidos no meio da floresta. Eles têm o sagrado direito a uma vida melhor numa terra onde possam viver e produzir com dignidade sem devastar”.

Ela sentiu que a luta e a vida eram a marca forte desta conversa. Então o homem de bigodes disse: “Se descesse um enviado dos céus e me garantisse que minha morte iria fortalecer nossa luta até que valeria a pena. Mas a experiência nos ensina o contrário. Então eu quero viver. Ato público e enterro numeroso não salvarão a Amazônia. Quero Viver”. A mulher baixinha respondeu logo em seguida: “Se a gente morrer nesta luta, o sangue será uma semente. Vamos conquistar a justiça! A história não falha, nós vamos ganhar”.

O homem de barba estava calado até então. Observava tudo e quando surgiu a oportunidade disse: “Agora, quero que vocês entendam o seguinte: tudo isso que está acontecendo é uma consequência lógica do trabalho na luta e defesa dos pobres, em prol do Evangelho, que me levou a assumir essa luta até as últimas conseqüências. A minha vida nada vale em vista da morte de tantos lavradores assassinados, violentados, despejados de suas terras, deixando mulheres e filhos abandonados, sem carinho, sem pão e sem lar”.


A garota se afastou. Até então ninguém falara com ela, ninguém notara a sua presença. E ela caminhava assim, solta em seus pensamentos até que acabou tropeçando em alguém. Era um amigo seu, padre, militante dos direitos humanos e perseguido por denunciar abusos do poder público e policial. Ela não se conteve e o questionou:

- Eles fizeram tanto, são tão famosos, com grandes projetos. Eu me sinto pequena ao não abraçar a causa como eles.

- Seu empenho é diário, não é? Você não consome seus finais de semana, por semanas a fio? Você não se empenha na formação de novas lideranças? Não acompanha novos grupos? Não festeja e se reúne, discute e reflete com outros jovens? Por que sua luta seria menor, então?

- Ah! Mas todos eles são muito corajosos por enfrentar a morte, por se doarem desta maneira, por serem profetas na busca de vida digna do povo. Eles não têm medo?

- Não é o medo, mas o enfrentamento ao crime que terá chance de diminuir essa força dos ‘passageiros das trevas’ que, desde sempre, compactuaram com a exigência do silêncio, do segredo, do medo e do oculto para poderem sorrateiramente ganhar mais.

- Mas eu sei que isto é um sonho. E que eles já morreram. Todos eles. E que apesar disto, as injustiças continuam. Por que vale a pena continuar lutando?

Ele inclinou a cabeça de lado, olhou em seus olhos e disse:

- Quem te falou que eles morreram? Os mártires da caminhada continuam vivos em quem tem o coração ardendo. Quem se comove e se motiva ao ler a vida de Dom Oscar Romero, Margarida Maria Alves, Irmã Dorothy Stang, Chico Mendes ou Padre Josimo, entre tantos outros, e leva adiante sua ação faz com que a morte de nenhum deles tenha sido em vão. Você acha que Jesus continua morto?

Mas ela ainda tentava argumentar:

- Mas e as injustiças? Elas continuam.

- Nenhum de nós entrega a vida só pela justiça. É por amor. Só por amor.

15 de fevereiro de 2012

A cruzada secreta de Bento XVI

Matthew Fox, ordenado padre dominicano em 1967, é autor de mais de 30 livros e fundador de movimentos que combinam as escrituras, a tradição, os místicos e os profetas em sua visão pessoal chamada de espiritualidade da criação. É uma teologia "verde", em que a proteção da natureza é considerada um sacramento.

A análise é do padre jesuíta Raymond A. Schroth, editor associado da revista America, dos jesuítas dos EUA. O artigo foi publicado no sítio National Catholic Reporter, 11-01-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Em 1993, ele foi expulso dos dominicanos por não ter conseguido explicar por que ele chamou Deus de "Mãe" e preferiu o termo "bênção original" a pecado original. Ele então se tornou pastor da Igreja Episcopal.

Seu último livro, The Pope's War, é muitas coisas. É mais um tratado do que uma análise, uma acusação caso a caso do sistema político-religioso que encobriu a crise de abuso sexual, e uma exposição das três sociedades secretas dominantes – Opus Dei, os Legionários de Cristo e o Comunhão e Libertação – que, em seu julgamento, fortificaram a concentração de poder em Roma, determinados a desfazer o trabalho do Concílio Vaticano II.

A força do livro reside em seu "martirológio" dos inimigos do "inquisidor". O inquisidor era o cardeal Joseph Ratzingercomo prefeito da Congregação para a Doutrina da FéFox apresenta uma lista de 91 homens e mulheres cujas carreiras foram postas de lado ou terminaram porque, no julgamento da Inquisição contemporânea, eles disseram a coisa errada.

Grande parte da sua narrativa é baseada no trabalho de outros estudiosos: Penny Lernoux sobre a América Latina e ateologia da libertaçãoJason Berry sobre a Legião de Cristo e seu fundador corrupto, Pe. Marcial Maciel Degollado;Michael WalshGordon Urquhart Maria del Carmen Tapia sobre o Opus Dei; e John Allen sobre os primeiros anos de Ratzinger, mas não sobre o Opus Dei, pois Fox sugere que Allen se deixou enganar por entrevistas de bastidores com as lideranças do Opus Dei.

As críticas mais fortes de Fox são ao Opus Dei, cujos bispos latino-americanos, afirma, foram os agentes vaticanos para a repressão das comunidades de base inspiradas pela teologia da libertação.

Então, é apresentado esse martirológio (das 91 pessoas da lista, aquelas que eu conheço são homens de absoluta integridade).

O padre redentorista Bernard Häring é mais conhecido como o teólogo moral pioneiro que centrou sua ética sobre a virtude da caridade. Convocado para o exército alemão em 1940, a observação das "ações diabólicas dos soldados cristãos alemães" em nome da obediência o convenceu de que a obediência nunca poderia ser um conceito central na teologia moral: deve ser a coragem de ser responsável. Ele alertou que os teólogos podem difamar a teologia por covardia, assim como por arrogância, e podem distorcer a verdade "lutando por ofícios e posições ou títulos de honra".

A história do franciscano brasileiro Leonardo Boff lembra ao leitor que a teologia da libertação era baseada nos princípios do Vaticano II, mas aplicada às "circunstâncias concretas e terríveis da América Latina na luta pela justiça e pela igualdade". Até o fim da década de 1970, mais de 850 padres e freiras haviam sido martirizados.

Os norte-americanos que estão impacientes hoje com a relutância dos bispos dos EUA para abordar questões de justiça social podem se inspirar com os bispos do Brasil, incluindo Pedro Casaldáliga, um bispo-poeta da selva amazônica. Interrogado por Ratzinger em Roma, ele foi silenciado e confinado em sua diocese. A razão: ele se recusou a viajar regularmente para Roma porque não tinha dinheiro. Casaldáliga aprovou a teologia da libertação, criou uma missa centrada na cultura indígena e negra e se refere ao arcebispo Óscar Romero, de El Salvador, como a um "mártir".

Na Tchecoslováquia, em 1945, Ludmila Javorova foi ordenada por Dom Felix Davidek, que suportou 14 anos em uma prisão comunista e se sentiu compelida, em sã consciência, depois da consulta com outros bispos, a ir ao encontro da necessidade de padres em uma situação desesperadora. Tendo sido avisada em 1995 que sua ordenação havia sido "inválida", Javorova se afastou. Hoje, ela diz que "Deus permitiu a minha ordenação. Eu queria apenas servir".

Em certo sentido, o livro de Fox é uma acusação contra o homem agora conhecido como Papa Bento XVI, que, motivado pela ambição, se transformou de um liberal do Vaticano II a um carreirista eclesiástico. Ele abraçou movimentos semifascistas como o Opus Dei por apoio psicológico e financeiro, e deixou uma lista de espíritos quebrados em seu rastro. Mas também é um manifesto sobre a própria espiritualidade de Fox, que ele afirma que pode salvar a Igreja.

As listas de mitos a serem descartados, tesouros a serem preservados e 25 passos para nos salvar são uma compilação de ideias debatidas na imprensa católica livre nos últimos anos. Tudo isso, mais as suas interpretações pessoais, vão desde a ortodoxia até a surpresa.

Os "mitos" que Fox descartaria incluem: o celibato, a dominância masculina, a centralidade do magistério, um papa "celebridade" e que Jesus é o "filho de Deus". Os tesouros incluem: o mistério pascal, a Encarnação, a cruz, Deus é amor, a imortalidade e que todos fazemos parte uns dos outros.

Como não há esperança de um terceiro Concílio Vaticano, porque seus possíveis candidatos a membros foram "reduzidos" a "homens que sempre dizem sim", o que devemos fazer para sermos salvos? Reconstruir a Igreja a partir da base; unirmo-nos a organizações leigas e manter encontros nacionais e internacionais; refazer o culto com pequenos encontros caseiros e danças extáticas; chamar de volta os ex-padres; limitar os nascimentos por razões ecológicas; confiar nos teólogos; e ouvir os jovens.

Costuma-se dizer em Nova York que um conservador é um liberal que acabou de ser assaltado. Se é assim, isso aconteceu com o Ratzinger das páginas de Fox. Ratzinger era uma vez progressista, mas ficou traumatizado quando uma manifestação estudantil invadiu o seu espaço universitário. Ele se afastou e calculou uma carreira conservadora que o levou ao topo. Mas, no retrato de Fox, ele continua sendo um ser humano.

Se esse livro fosse uma grande ópera ou um romance sobre um rei, ele poderia ter dois possíveis finais felizes.

Em um deles: um profeta-amigo do Antigo Testamento confronta o rei sozinho em seu quarto e percorre os acontecimentos de sua vida diante de seus olhos, e pergunta: "De que vale ao homem...?". O rei volta o seu rosto para a parede e chora aos prantos.

Em outro: quando Ratzinger removeu Fox do ensino da espiritualidade da criação em 1988, Matthew Fox escreveu-lhe uma carta ao "Querido irmão Ratzinger", que descrevia a Igreja como uma família disfuncional, resumia a espiritualidade da criação como compaixão e convidava Ratzinger para tirar um ano sabático e unir-se a ele: "Por que não abandonar a sua vida isolada e privilegiada no Vaticano para fazer danças de círculo com mulheres e homens", velhos e jovens, em busca de uma autêntica espiritualidade?

Quem sabe? Talvez ele o fará.

The Pope's War: Why Ratzinger's secret crusade has imperiled the Church and how it can be saved, de Matthew Fox, Ed. Sterling Ethos.

19 de janeiro de 2012

''Na Igreja, também há quem trabalhe contra o Evangelho''. Artigo de Enzo Bianchi

Não basta se dizer crente em Cristo; é preciso se dizer e ser seguidor de Jesus na forma ditada pelo Evangelho que, antes de ser um livro quadriforme, é a vida do homem Jesus.

A opinião é do monge e teólogo italiano Enzo Bianchi, prior e fundador da Comunidade de Bose, em artigo publicado na revista Jesus, de janeiro de 2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Estes são os dias da memória do nascimento e da infância de Jesus, e os Evangelhos que nos querem narrar a vinda ao mundo do Filho de Deus, daquele que só Deus nos podia dar, de Jesus, Palavra do Pai feita carne (cf. Jo 1,14) por ação do Espírito de Deus, são obrigados, no entanto, a testemunhar que essa vinda, esse admirável dom se realizou no silêncio, na discrição e foi percebido só por alguns, por poucos fiéis.

Eram muitíssimos aqueles que se diziam fiéis e eram contados no número do povo de Deus, eram muitos aqueles que frequentavam o templo, as sinagogas e falavam do Deus uno e vivo. Porém, só pouquíssimos homens e mulheres, anônimos em sua maioria, souberam esperar realmente o Messias, souberam reconhecê-lo e acolhê-lo entre eles como um dom de Deus. Se não tivessem acolhido e olhado com esperança para esse menino, para Jesus, jamais saberíamos da sua existência nem conheceríamos os seus nomes: Zacarias, um sacerdote, e Isabel, sua esposa; José, um artesão, e Maria, sua esposa; Simeão, um velho sacerdote; Ana, uma velha e pobre viúva; alguns pastores de Belém.

Por outro lado, os profetas já tinham entendido e souberam ler a realidade e a verdade da comunidade do Senhor. Dentro do povo de Israel, o povo empírico que é humanamente legível como um povo de fiéis, o Senhor sente na verdade como suas testemunhas só um "resto", uma "porção" quase escondida que não se impõe, que não tem força, que não sabe o que significa vencer, que não é contada... São fiéis humildes, sobretudo, pobres até no coração, mansos que não tem ninguém em quem esperar, senão no Senhor; são fiéis que não buscam apoios mundanos, que não tecem relações para ter poder, que não sonham coisas grandes para além das suas forças (cf. Sl 131, 1): são os 'anawim, os pobres do Senhor.

Mas essa realidade não se refere apenas aos tempos da antiga aliança; refere-se também ao nosso hoje. Na nossa linguagem, muitas vezes abusamos da palavra "Igreja", que repetimos frequentemente de modo ambíguo, quando não até desviado e desviante. Porque a Igreja é uma realidade misteriosa, em que nós acreditamos, mas que não podemos verificar com segurança. A Igreja é a comunhão com os santos no céu daqueles que "o Senhor conhece como seus" (cf. 2Tim 2, 19; Nm 16, 5), como membros do seu corpo; é uma comunhão que não é mensurável (só o Senhor a "conta"!); é uma comunhão constituída por pecadores sempre perdoados, que conhecem o seu pecado e o oferecem ao Senhor como invocação de misericórdia; é uma comunhão daqueles que não simplesmente dizem acreditar em Deus e ser cristãos, mas buscam sincera e obstinadamente dar forma à sua vida segundo o Evangelho.

Sim, a Igreja é uma comunhão que conhece Jesus Cristo como Evangelho, não um Jesus fruto das suas próprias projeções, das suas próprias ideologias e, por isso, desfraldado como "o que temos de mais caro no cristianismo", mas sim o Jesus do Evangelho, que é o Evangelho feito carne, a carne de um homem que viveu humanamente. Não basta se dizer crente em Cristo; é preciso se dizer e ser seguidor de Jesus na forma ditada pelo Evangelho que, antes de ser um livro quadriforme, é a vida do homem Jesus.

Portanto, é preciso discernir quando se fala de Igreja. Não se trata de gostar de posições elitistas, de se alegrar sentindo-se entre poucos, nem de se sentir vítimas, como afirmavam muitos pregadores do século XIII: Duo sunt ecclesiae, "duas são as Igrejas," uma que persegue, a outra que é perseguida. Trata-se de não pensar em "vencer", em "se impor", mas sim em saber discernir, na medida do possível, um núcleo que olha para Cristo como para o Evangelho e, para o Evangelho, como para Cristo, sem distinções ou separações: um núcleo que ouve o Evangelho, que permite que a sua vida seja moldada pelo Evangelho; um núcleo de fiéis que, apesar de suas inadequações e contradições provocadas pelo Evangelho, quer que o Evangelho vença sobre si mesmos; um núcleo que conhece o fogo do Evangelho, aquele fogo que é redespertado por baixo das cinzas pelas quais às vezes parece estar coberto, todas as vezes que um homem ou uma mulher o busca.

Sim, o cristão deve saber que no povo de Deus também, na Igreja também, pode haver aqueles que trabalham contra o Evangelho, aqueles que se dizem cristãos e consideram o Evangelho uma utopia, que dizem crer em Deus em Cristo, mas que riem das palavras de Jesus, do seu Evangelho.

Fonte:

11 de janeiro de 2012

Redescobrir a essencia da Igreja

Na primeira Constituição, sobre a liturgia, já há a eclesiologia de comunhão da Lumen Gentium, mas ainda não a entendemos. A 50 anos da convocação do Vaticano II, fala oMons. Iginio Rogger, ainda hoje o maior historiador doConcílio de Trento e, nos anos 1960, um dos protagonistas da reforma litúrgica conciliar.

A reportagem é de Maria Teresa Pontara Pederiva, publicada na revista Vita Trentina, 08-01-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Do Concílio de Trento, ele conhece todos os detalhes, mas sobre o Vaticano II ele também não brinca e cita de cor passagens das Constituições, em latim, porque, diz, "a tradução italiana muitas vezes perdeu o pleno sentido do original". Mons. Iginio Rogger, nascido em 1919, professor de história da Igreja e de liturgia, foi um dos seus protagonistas trentinos.

Eis a entrevista.

Como foram acolhidos o anúncio e a convocação do Concílio?


Ninguém esperava. No anúncio em janeiro de 1959, naBasílica de São Paulo, eu estava trabalhando no quarto volume de História da Igreja: parecia ser o fim do Vaticano I, ainda sem uma solene conclusão formal. Mas lembremos o que aconteceu aqui no momento da convocação. Em fevereiro de 1961, por decisão-relâmpago do papa, encerrava-se o episcopado De Ferrari, devido à doença, e o governo da diocese era confiado a um administrador apostólico, o bispo Gargitter, de Bressanone. Seguiu-se um biênio em que a atenção estava sim in loco, mas aumentavam as interrogações sobre o que estava acontecendo lá em cima. A incerteza, em parte, terminou com a nomeação de Gottardi, em fevereiro de 1963. Nesse meio tempo, iniciou um Concílio que não se assemelha a nenhum dos anteriores, porque desaparecem todos os velhos esquemas.

Em que sentido?

No número de pessoas envolvidas e nas intenções: não para condenar heresias, mas sim para atualizar ideias e estruturas. E por uma definição mais exata e completa da Igreja, embora o nosso contexto catequético não sentia nenhuma necessidade disso. A palavra innovatores era conhecida pelo Concílio de Trento em âmbito protestante: algo a ser combatido, assim como as doutrinas secularizantes do século XVIII. E ainda a recomposição da unidade dos cristãos, a conexão com o mundo contemporâneo...

De Trentino, quem estava presente em Roma?

Gargitter representava a todos nós. Em junho de 1963, entrou Gottardi, em julho, abriu-se o Museu Diocesano e, em dezembro, o quarto centenário da conclusão do Concílio de Trento. Enquanto isso, com a morte de Roncalli, sucedeuPaulo VI, e, nos dias 3 a 4 de dezembro, somos admitidos ao Concílio como delegação trentina: no dia 3 para a solene comemoração da clausura do Concílio de Trento; no dia seguinte para a aprovação da Sacrosanctum Concilium, a primeira Constituição Conciliar, apesar de todas as manobras dos tradicionalistas.

Em que termos ela é inovadora?

Enquanto me perguntava se a Igreja deveria ser monarquia papal ou uma colegialidade de responsabilidades, aSacrosanctum Concilium já oferece uma resposta. É iluminadora a aprovação: essas coisas placuerunt aos Padres do Concílio, ou seja, "foram decididas". É um parlamento! E o papa, em virtude dos poderes que lhe foram conferidos, as aprova. Não era mais o tempo de Pio IX! Para mim, foi uma alegria.

Quanto ela foi compartilhada naquela época e agora?

Ainda hoje, pouco: Ratzinger não sentiu a necessidade de convocar um concílio sobre a questão do missal em latim. Na Sacrosanctum Concilium, já está claro o construto teológico da Lumen Gentium: uma eclesiologia bem definida, que, com grave dor, eu constato que ainda não foi recebida.

Pode nos dar alguns exemplos?


Uma série de circunstâncias congelaram a situação. Tudo deveria ser educado, amadurecido...

Quer dizer que faltou um envolvimento?

As celebrações litúrgicas são ações da Igreja", mas se não sabe se o que são... devem ser explicadas. Da Dei Verbum é preciso citar mais frequentemente: "Deus fala ao seu povo", ao povo de hoje, como de todos os tempos. Como a Sacrosanctum Concilium, nº. 7: "Cristo está sempre presente (praesens adest) na sua Igreja e de modo especial nas ações litúrgicas". Quando se fala de extensão das línguas nacionais (nº. 36), refere-se às autoridades territoriais, aos bispos. Nos nº. 41 e 42, a vida litúrgica "em torno ao bispo", depois estendida às paróquias. E ainda "sentido da comunidade paroquial" e "celebração comunitária da missa dominical". Eu ainda tenho o texto do Pe. Hertling que usávamos na universidade, Communio und Primat: a Igreja nada mais é do que comunhão. Com ele também amadureceu o Vaticano II.

E depois como se seguiu em frente?

Havia sido estabelecido um órgão separado, presidido pelo cardeal Lercaro, para os novos livros litúrgicos. Para o missal, liderava o Mons. Wagner, diretor do instituto litúrgico de Trier, na época o mais competente. A partir de janeiro de 1964, eu estava envolvido na comissão do novo Breviário, rebatizado de Liturgia das Horas. Na introdução, as minhas palavras: Oratio populi Dei. Eu lembrava de São Cipriano: quando rezamos, sempre dizemos "Pai Nosso". A oração do cristão nunca é individual. Na Missa, reintroduzimos a oração dos fiéis perdida ao longo dos séculos, justamente por causa da língua latina, que tinha excluído o povo. Eu também estava na comissão De cantibus: pensemos no Sanctus, canto do povo, a ser cantado espontaneamente, não para ouvir do coro.

E a música?

É melhor um violão que ajude a assembleia, do que instrumentos que fazem cantar o coro por conta própria. É preciso nos entendermos com relação ao termo sagrado: até a adoração do bezerro de ouro era sagrada!

E o retorno ao latim?

Não podemos mudar as coisas ao nosso próprio gosto. A história vai responder, mas eu não cometeria o erro de voltar para trás: o Pai Eterno quer nos ajudar a entender, porque nos quer bem, a todos.

O problema, então, é sempre a ideia de Igreja?

Em 1950, tendo voltado da Gregoriana, comecei a ensinar história da Igreja, mas em 1955 percebeu-se a urgência de uma disciplina litúrgica, para além do rubricismo de então (como se posicionavam os dedos). Por isso, eu também ensinava liturgia. É Cristo quem batiza, é ele quem fala quando se lê a Escritura, mas não se recebe a Eucaristia se não nos sentimos irmãos. "Onde dois ou mais estiverem reunidos...". Clemente Romano escreve: "A Igreja de Deus, que é peregrina em Roma, à Igreja de Deus peregrina em Corinto". Não é menos Igreja do que a de Corinto! Não é a sujeição ao romano pontífice – segundo a infalibilidade de Pio IX –, o pertencimento à Igreja, mas sim a fidelidade a Cristo. Todas as Igrejas são primeiras e apostólicas, lá onde, juntas, comprovem a sua unidade, junto com o sucessor de Pedro. O que faltou nestes anos é a dimensão histórica. Virgílio recorre a Ambrósio para a confirmação a bispo de Trento, porque vê nele a catolicidade. Sem comunhão, fazem-se apenas guerras de religião.

O senhor sente a necessidade de um outro Concílio?

Eu diria que não. Há momentos em que não se pode perder o trem: já existe o Vaticano II a ser implementado.Guardini dizia: "Ainda somos capazes de liturgia?". Se não entendermos o que é a Igreja, acho difícil responder que sim. Ainda é preciso trabalhar.


31 de dezembro de 2011

Para um ano novo mais feliz

Marcelo Barros

O desejo é uma palavra mágica. Quando desejamos com força interior, emitimos uma energia misteriosa que nos impulsiona para o compromisso de realizarmos aquilo que desejamos. Isso pode ter conseqüências concretas para as pessoas e para o mundo. Nesses dias, há quem diga aos amigos e amigas "feliz ano novo” como mera formalidade. Entretanto, o mundo e nosso continente necessitam muito de que 2012 seja um ano mais feliz e de paz para cada um de nós e para nossa pátria grande. Por isso, quem almeja de coração os melhores votos de ano novo precisa saber como transformar o seu desejo em caminho positivo que construa um futuro novo e melhor.
Quando eu era menino, as pessoas acreditavam muito no poder do olhar. Diziam que existe o olhar bom que emite energia positiva e existe o mau olhado que provoca problemas. As vizinhas gostavam de contar histórias de uma visita que receberam. A mulher gostou da planta ornamental que havia no terraço da casa. Olhou-a com inveja. No dia seguinte, a planta que estava viçosa e florescente, amanheceu seca e murcha. As antigas culturas e religiões crêem na força da palavra. Em algumas religiões, as palavras curam ou, ao contrário, podem matar. Na Bíblia, vários salmos pedem a Deus que nos proteja das pessoas que, com sua palavra, podem provocar males como doenças e tragédias ecológicas (Cf. Sl 6, 39, etc). Essa cultura de pessoas que amaldiçoam vinha de Sumer, onde havia rituais de Shurpu, maldições comuns em algumas culturas populares que não tinham outra força além da palavra. No tempo da escravidão, um senhor de engenho mandava dizer a um escravo que, naquela noite mandasse a sua filha de menor idade à casa grande. O negro já sabia quais as intenções do senhor. Ele não tinha outro recurso do que a ameaça de uma maldição, principalmente se o senhor acreditasse que o despacho lhe faria mal. De fato, a própria Bíblia diz que a maldição de um empobrecido é ouvida e atendida por Deus (Cf. Eclo 4, 6). No Novo Testamento, a carta de Pedro insiste que temos a vocação de abençoar e não de maldizer. Somos chamados para invocar o bem sobre as pessoas e o universo (1 Pd 3, 9).
A palavra é eficaz quando nasce no mais profundo do coração e é precedida pela prática da vida. A Bíblia diz que é como uma espada de dois gumes que penetra até as entranhas (Hb 4). Isaías compara a palavra de Deus com a chuva que cai, molha a terra. E não volta ao céu sem ter cumprido sua missão de fecundar e produzir o grão (Is 55). O Mahatma Gandhi ensinava: "Comece por você mesmo a mudança que deseja para o mundo”. Somente pelo fato de desejar, não temos a força para transformar organizações e sistemas do mundo, mas podemos sim colaborar para que se façam as condições necessárias para que elas mudem. Então, que você expresse para os seus e para todos o desejo de um feliz ano novo, através de um verdadeiro compromisso social, solidário e renovador. Então se tornarão verdadeiras em sua vida, as palavras de uma antiga bênção irlandesa: "O vento sopre suave em teus ombros. Que o sol brilhe suavemente sobre o teu rosto, as chuvas caiam serenas onde vives. E até que eu te encontre de novo, Deus te guarde na palma de sua mão”.