
Olhando
assustado para as imagens na tela do
computador e meio que atônito me
pergunto: como, quem, mas sobretudo porque esse símbolo tão forte da civilização arde assim em chamas?
Como não
há um sistema de prevenção para acidentes como este?
Eu fiz essa pergunta também
no lamentável incêndio do nosso museu, daqui da Quinta da Boa Vista, mas infelizmente aqui é
Brasil, estamos acostumados a estas lamentáveis displicências, mas em Paris? E
com o marco zero da França? Uma catedral com 850 anos de existência?
As influencias Junguianas me fizeram ficar preso na ideia do que este
evento tão doloroso estaria querendo
simbolizar algo para nós.
A casa de Maria, a Notre Dame, a casa da nossa Dama, nossa mãe... Maria Mãe do
mundo, Maria a mulher, a humana, a matéria que serviu a Deus para gerar Jesus, o
filho de Deus.
Deus precisou se utilizar de uma
criatura sua para se manifestar no meio dos homens e é esta criatura, Maria, que desde 1163 tem esse importante marco no coração de Paris.
A antiga oração cristã, um símbolo
importante da cristandade, o credo Niceno-Constatinopolitano reza:
“Deus de Deus, Luz da Luz, Deus verdadeiro de Deus Verdadeiro, GERADO, não criado,
consubstancial ao Pai... “
Desde os primórdios, a cristandade sabe
que Jesus não foi criado, e sim gerado, gerado na matéria, gerado em Maria.
Logo me surgiu na mente o fantástico
Hino à matéria do grande Teilhard de Chardin
“Eu te saúdo, potência universal de
aproximação e de união, através da qual se liga a multidão das mônadas e na
qual convergem todas sobre a rota do Espírito.
Eu te saúdo, fonte harmoniosa das almas, cristal límpido de onde é tirada a
nova Jerusalém.
Eu te saúdo, Meio Divino, carregado de Potência Criadora, Oceano agitado pelo
Espírito, Argila amassada e animada pelo Verbo encarnado.” (Hino a Matéria - Teilhard de Chardin)
Um hino á matéria, à mãe matéria, da qual Maria é a principal
referência quando pensamos na criação.
E a pergunta voltou a me desafiar:
O que esse incêndio está querendo simbolizar
apara todos nós ?
Edward F. Edinger, em seu livro “O Arquétipo Cristão”,
a respeito do mito da “Virgem Maria”,
diz :
“A virgindade de Maria
configura-se como importante parte do simbolismo. Parece haver uma conexão
arquetípica entre a virgindade e a capacidade de lidar com o “Fogo Sagrado”
(energia transpessoal). Na Roma Antiga as virgens vestais eram as guardiãs da
chama sagrada. Entre os incas peruanos mulheres virgens mantinham no templo um
fogo santo”.
Adam
Mclean,
em seu livro “A Deusa Tríplice: Em Busca do Feminino
Arquetípico” , diz algo interessante para esta reflexão:
“A Deusa é um arquétipo eterno da psique humana,
embora a desprezamos e reprimamos ou neguemos exteriormente a sua existência.
Desde os primórdios de nossa civilização ela se revela a nós em desenhos
rupestres e em esculturas primitivas, nas grandes mitologias, manifestando-se na
nossa cultura atual sob os mais diversos disfarces. Ela faz parte do tecido
de nosso ser, com o qual toda a humanidade tem de se relacionar interiormente
se desejarmos ter em nossas almas um equilíbrio de base. Ela é parte tão
essencial da humanidade que, mesmo se, nos próximos séculos nos tornarmos
filhos do Cosmo, deixando a Terra para trás em sua viagem para as estrelas, sem
dúvida a encontraremos nas escuras profundezas do espaço”.

Vejo a Notre Dame
em chamas no exato momento, dramático, em que na cúpula principal, a seta
desaba. A seta que apontava para o céu, como a indicar a ligação entre o céu e
a terra, ou simbolicamente aquilo que a Nossa Dama representa, o elo que liga o
criador e a criatura, o meio que Deus se utilizou para se manifestar entre os
humanos, para descer à matéria.
Na minha mente se abre a tela do que
temos visto mundo afora, guerras, destruição, egoísmo.refugiados não recebendo
ajuda e sendo rechaçados por onde passam, a natureza, a criação sendo destruída
pela ganância, a eleição de dirigentes de países pouco comprometidos com a felicidade da humanidade, toda sorte de absurdos que indicam claramente o perigo da extinção
da espécie humana.
Talvez seja esse o recado simbólico que essa tragédia venha nos indicar. Se não
cuidarmos da preservação , a seta vai se romper. A ligação vai ser desfeita e a
terra seguirá adiante, mas sem a espécie que tentou destruí-la.
Bendita sejas tu,
áspera matéria,
terra estéril,
dura rocha,
que cedes apenas à violência
e nos forças a trabalhar
se quisermos comer.
Bendita sejas,
poderosa matéria,
evolução irresistível,
realidade sempre nascendo,
que a cada momento fazes em estilhaços nossos limites
e nos obrigas a procurar
cada vez mais profundamente a verdade.
.................................................................
Bendita sejas,
matéria imortal,
Tu, que, desagregando -te um dia em nós,
nos induzirá, forçosamente,
no íntimo daquilo que é.
Sem ti, matéria,
sem teus combates,
sem teus dilaceramentos,
viveríamos inertes,
estagnados,
pueris,
ignorantes de nós mesmos
e de Deus.
.............................................
Leva-me para o alto, matéria,
pelo esforço,
a separação
e a morte.
Leva-me para onde for possível,
enfim, abraçar castamente.
( Hino à Matéria - Teilhard de Chardin)