Nos bons tempos, quando morávamos aqui num oásis de paz, silêncio, era realmente como se estivéssemos sendo abençoados o tempo todo. Mas tudo muda com o progresso e a mão do poder econômico. E assim nosso oásis foi se transformando em um polo gastronômico, que de gastronomia mesmo tem bem pouco. Bares, e restaurantes que para falar a verdade servem comida trivial chique, mas isso nem é tão importante.
Naquele tempo de Paz na semana santa tínhamos a via sacra na
nossa porta, lembro que minha avó e depois minha mãe, colocava luz na janela e
deixava uma mesa para que fosse colocado o quadro da via sacra e as velas e
assim em portas de alguns vizinhos eram feitas as orações. Isso acontecia em várias
ruas, eram vias sacras em cada dia da semana que antecediam a semana santa,
como uma espécie de preparação.
Com o tempo, e a chegada do tal do polo,
não houve mais as vias sacras... Optaram por algo único e monumental na
principal rua da Tijuca e a via sacra era grandiosa e envolvia as varas paróquias do vicariato.
Com a chegada da pandemia no ano passado, as procissões se transformaram em carreatas
que percorrem as ruas do bairro. E pensei que passariam por aqui...
Moro em um trecho da rua que é o limite entre duas paróquias e o curioso as duas paróquias tem feito
carreatas, alguém poderia pensar que nós seríamos privilegiados com duas carreatas...
Aqui em frente de casa em um apartamento mora uma senhora frequentadora da
Igreja Universal, ela é bem idosa e antes da pandemia ia sempre à igreja e
trazia para distribuir entre os vizinhos o jornal. Com a pandemia ela se
recolheu como todo mundo, mas sistematicamente, vem o pastor e alguns fiéis à
sua porta, cantam, fazem orações e ela da janela percebe-se que emocionada agradece.
Acho bem amorosa e cuidadosa essa acolhida aos fiéis que não podem estar saindo
de casa, imagino que ela se sinta pertencente àquele grupo e certamente se
manterá fiel.
Mas voltando às duas paróquias, sistematicamente essas carreatas desde o ano
passado tem acontecido no domingo de Ramos, na páscoa e em Corpus Crhisti. Uma
das paroquias faz também a procissão (carreata) do encontro na sexta-feira
santa. Mas... sempre tem um mas. Para
frustração nossa nenhuma das duas passa no nosso trecho da rua.
A Paroquia do Maracanã vem pela nossa
rua, mas na esquina dobra e retorna sem passar no trecho final da rua. A da Saens Pennã vem pela praça Varnhargem e
ao invés de seguir pela rua Felipe Camarão e dobrar na nossa rua e seguir,
prefere tomar a rota dos bares dos polos, e vem até a nossa esquina e dobra
para seguir pela continuação da nossa rua até o final e retornar à igreja. Ou
seja, apenas no trecho de nossa quadra, nenhuma das duas passa.
Assim me sinto desparoquiado, e me
contento com os cantos e orações da Universal, já que também não saio de casa
devido ao isolamento sanitário.
Depois reclamam que as igrejas evangélicas
crescem.
Hoje Jesus passou lá na esquina, eu vi da janela...
Sorte minha que o tenho dentro de mim...

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