O absurdo e a Graça

Na vida hoje caminhamos entre uma fome que condena ao sofrimento uma enorme parcela da humanidade e uma tecnologia moderníssima que garante um padrão de conforto e bem estar nunca antes imaginado. Um bilhão de seres humanos estão abaixo da linha da pobreza, na mais absoluta miséria, passam FOME ! Com a tecnologia que foi inventada seria possível produzir alimentos e acabar com TODA a fome no mundo, não fossem os interesses de alguns grupos detentores da tecnologia e do poder. "Para mim, o absurdo e a graça não estão mais separados. Dizer que "tudo é absurdo" ou dizer que "tudo é graça " é igualmente mentir ou trapacear... "Hoje a graça e o absurdo caminham, em mim lado a lado, não mais estranhos, mas estranhamente amigos" A cada dia, nas situações que se nos apresentam podemos decidir entre perpetuar o absurdo, ou promover a Graça. (Jean Yves Leloup) * O Blog tem o mesmo nome do livro autobiográfico de Jean Yves Leloup, e é uma forma de homenagear a quem muito tem me ensinado em seus livros retiros, seminários e workshops *

3 de março de 2013

A igreja católica tem novo papa. 76 anos, Jorge Mario Bergoglio

“É o Vaticano mais corrupto, desde os Bórgia”

Por Paul Jay x Matthew Fox


Novo papa nunca foi da Opus Dei (foi do movimento Comunione e Liberazione), mas...
Tradução pela equipe VIla Vudu
13/3/2013, Matthew Fox (ex-padre católico), entrevista, The Real News Network, TRNN
http://therealnews.com/t2/index.php?option=com_content&task=view&id=31&Itemid=74&jumival=9868
PAUL JAY, EDITOR SÊNIOR, TRNN: Bem-vindos à The Real News Network. Sou Paul Jay, em Baltimore.
A igreja católica tem novo papa. 76 anos, Jorge Mario Bergoglio, agora, Papa Francisco [eles só são numerados a partir do segundo. Como a 2ª. Guerra Mundial, que sempre se chamou “Grande Guerra” e só passou a ser 1ª., depois que começou a 2ª. (NTs)]. É o 266º pontíficie da Igreja Católica Romana. Também é o primeiro papa não europeu, em mais de mil anos.
Para discutir a significação dessa eleição, está Matthew Fox. Matthew é autor de mais de 30 livros sobre espiritualidade e cultura, dentre os quais The Pope's War, Original Blessing, Hildegard of Bingen, a Saint for Our Time e Christian Mystics. Matthew foi sacerdote católico. Agora é pastor episcopal e professor. Obrigado, Matthew, por nos receber.
MATTHEW FOX: Obrigado. É um prazer estar com você.
JAY: Para começar, por que nos interessamos tanto pelo novo papa? A rede CNN está ao vivo hoje, todo o dia – e acho que ontem também, e a coisa está na mídia global. E é sempre assim. É dia fraco, de noticiário, mas se não fosse, nada mudaria. A mídia não dá a mesma atenção a nenhuma outra igreja e, sinceramente, nós também não. Quero dizer... acho que estamos fazendo isso porque quero criticar a mídia. Não sei. Por que tanto alarido? Que significado e que poder tem o papa hoje?
FOX: Para começar, claro, ninguém faz melhor teatro que os italianos. Há a imagem dramática de São Pedro, o balcão e as cortinas de veludo entreabrindo-se e aquilo tudo. Ninguém faz melhor cenário, importantante, se o que se busca é o drama. Assim, aquelas imagens rendem excelentes imagens de televisão. Alguém que usa roupas esquisitas e, supostamente, representa 1,2 bilhão de pessoas que, de um modo ou de outro chamam-se “católicos”... É claro que o drama, o teatro, contam muito.
Mas acho que há também uma coisa mais profunda. Acho que as pessoas gostam de sentir que há alguma liderança espiritual em alguma parte, na nossa espécie humana. Ontem escrevi um artigo, publicado no Huffington Post, sobre por que o meu candidato a papa seria o Dalai Lama, porque acho que ele representa algum significado mais profundo de ser humano, a busca de compaixão... E acho que as pessoas gostariam de encontrar isso também num papa. Nem sempre acontece. O papa João 23, nos anos 60s, foi um homem raro. Mas... as pessoas gostam de ver, gostam de projetar alguma liderança em alguém. [fala cruzada]
JAY: Deixe-me perguntar... Não sei se você concorda, mas... Não lhe parece um pouco estranho – porque a mim parece... – Quero dizer, a mídia manifesta uma visão secular do mundo. Hoje, não se vê nem vestígio de algum tipo de gramática religiosa. No passado, tudo era enquadrado nessa gramática religiosa. Mas agora, é como se houvesse uma separação entre a mídia e as crenças religiosas. Conceitos como a infalibilidade do papa, a ideia de que Deus fala diretamente a ele... são ideias fortemente espirituais, que a mídia apresenta como se fossem fatos corriqueiros. Ninguém sequer questiona essas crenças.
FOX: É tudo é ‘sentimentalizado’ pela mídia, sem pensamento crítico. É uma das razões pelas quais gosto de falar com você. Para falar sobre significados mais profundos.
Mas há, sim, uma carência... Interessante: nas poucas palavras que disse, o papa Francisco usou uma expressão, algo sobre sermos todos irmãos, coisa assim. Veja, são tempos de globalização, o mundo é cada dia menor e temos o primeiro papa não europeu, em mais de mil anos [fala cruzada], o primeiro papa latino-americano. Há significados, aí, as coisas de deseuropeízam, até o papado. Mas, como você diz, nada é discutido em profundidde. Tudo isso é notícia durante um, dois dias, e, em seguida, a mídia muda de pauta.
JAY: (...) E qual é a influência que o papa teria sobre tantos milhões de pessoas – que me parece influência real. Antes, outra questão: quanto, nessa influência, tem a ver com o fato de que o Vaticano ainda é uma potência financeira, que acaba de nomear um presidente executivo, como qualquer grande e poderoso centro financeiro?
FOX: É verdade. E sabe-se que a situação financeira do Vaticano é escândalo à parte. É área a ser saneada, também, como o encombrimento de crimes de pedofilia, praticamente em termos tão graves quanto foram os crimes da Inquisição. Escrevi sobre isso em meu livro The Pope's War. Nos últimos 42 anos, com os dois últimos papas, a Inquisição voltou ao Vaticano.
A situação financeira é absolutamente escandalosa. Há cerca de um ano, o governo italiano proibiu o uso de cartões de crédito do Vaticano, não podiam ser usados em lugar algum, porque havia denúncias de lavagem de dinheiro, dentre outras. Aí não há novidade. A falta de transparência nas finanças do Vaticano é antiga.
E há também a questão dos reais laços que ligam o Vaticano à política mundial. Lembro, por exemplo, que, no governo Reagan, a CIA e o Vaticano do papa João Paulo II uniram-se para atacar a Teologia da Libertação das comunidades de base na América Latina e destruíram o movimento, e, afinal, substituíram aquela ação pela ação da Opus Dei, da Communion and Liberation [it. Comunione e Liberazione[1] (NTs)], todos esses grupos de extrema direita que pregam valores da extrema direita ou, se você preferir, pregam atitudes de poder, de dominação, de patriarcado, até de fascismo.
JAY: Você disse que há na igreja uma nova Inquisição?
FOX: Ah, sim. Mais de 105 teólogos – fui um deles – foram silenciados, expulsos ou perseguidos, caçados nos últimos 42 anos, nos papados de João Paulo II e Bento 16. E Bento 16 foi, é sabido, cabeça da Inquisição. Mudaram o nome, chamam de Congregação da Sagrada Doutrina da Fé, mas é a mesma organização que, antes, se conhecia como Inquisição. Bento 16 comandou o ataque contra nós, aqueles teólogos.
Podem-se listar os 105. Há, aliás, na lista, vários bons canadenses. Um deles morreu, de ataque cardíaco, quando fazia as malas para viajar a Roma e defender sua teologia, pela sexta vez, apesar de o Concílio Vaticano II afirmar que os teólogos seriam livres para pensar e que tinham garantida, como todos, o que se chama liberdade de consciência.
Isso foi o que realmente aconteceu nos últimos 42 anos, e acho que tivemos dois cismas, porque os padres e suas cúrias haviam realmente compreendido os ensinamentos do Vaticano II, que tratava de reformar a Igreja, oferecia pensamento novo, ligado ao evangelho dos valores da justiça social. Acabaram com tudo isso. O silêncio imposto àqueles 105 teólogos teve a ver com esse movimento.
Portanto, não cabe qualquer dúvida de que a Inquisição voltou. Espero, de todo coração, que o novo papa esteja alerta para esse retrocesso e consiga reverter esse processo.
JAY: E quanto ao novo papa, Bergoglio, papa Francisco. Qual o papel dele na América Latina? Sempre houve, na AL essa separação entre a Teologia da Libertação e os setores mais dominantes e hierárquicos da Igreja que, uns mais outros menos, trabalharam com vários ditadores ao longo do tempo. E claro que aconteceu na Argentina, como aconteceu com Pinochet. A Igreja tem pouco de que se orgulhar do papel que desempenhou, pelo menos a alta hierarquia da Igreja, no relacionamento com Pinochet. E quanto ao papa Francisco, em tudo isso? E o que representa?
FOX: Pelo que mostram minhas pesquisas, não teve ação corajosa contra a ditadura militar argentina, em 1983 e dali em diante, e foi muito criticado por isso. Também nunca apoiou os teólogos das comunidades de base. Pertenceu a um grupo chamado Comunione e Liberazione, muito fortemente direitista, que surgiu na Itália. Tem sido comparado à Opus Dei. Dizem que têm base laica, como diz também a Opus Dei, mas de fato são movimentos dirigidos por religiosos.
JAY: Expliquemos um pouco, às pessoas que não conhecem essas coisas. A Opus Dei – e corrija-me se estiver errado – é grupo que reúne a extrema direita da Igreja, em aliança com a extrema direita de vários grupos das elites governantes em vários países; e é uma espécie de grupo secreto, conspiracional, que sempre aparece associado a ações obscuras, quando não criminosas.
FOX: Bem, é verdade. Tenho um capítulo inteiro dedicado a esses grupos, em meu livro The Pope's War. E é assustador, porque são hoje membros muito destacados da Igreja Católica. Por toda a América Latina estão sendo nomeados cardiais e bispos ligados à Opus Dei e, agora, também na América do Norte. O padre Escrivá [Josemaría Escrivá de Balaguer], um padre fascista espanhol que fundou a Opus Dei, foi empurrado até a canonização, mais depressa que qualquer outro santo em toda a história [foi canonizado em 2002, por João Paulo II]. E todos os que se opunham a ele  – que viam o lado obscuro daquilo tudo, o sexismo, o fato de que várias vezes elogiou Hitler – vou repetir: Escrivá várias vezes elogiou Hitler. Agora, nos dizem que é santo. Não sei o que isso significa.
Sim, a Opus Dei tem, sim, de ser vigiada. E estão em toda parte. São muito fortes na imprensa-empresa nos EUA. São muito fortes na CIA e no FBI. O maior espião da história dos EUA, que entregou mais segredos que qualquer outro, que contribuiu para o assassinato do maior número de espiões norte-americanos de todos os tempos – hoje está na cadeia, acho que foi condenado à prisão perpétua, porque trabalhou livremente no FBI durante 20 anos, passando adiante quantidade descomunal de segredos da Agência... Bem, era homem que assistia à missa todos os dias. Durante o restante do dia, traía os EUA. Não há dúvidas de que a Opus Dei é assustadora [fala cruzada].
JAY: Você estava dizendo que o papa Francisco é membro de uma organização assemelhada à Opus Dei...
FOX: Não. Ele nunca foi membro da Opus Dei.
JAY: Uma organização semelhante?
FOX: Foi muito próximo da organização Comunione e Liberazione e, sim, são outra versão próxima da Opus Dei. A Opus Dei começou na Espanha. Comunione e Liberazione é grupo mais recente, começaram na Itália. São menos secretivos que a Opus Dei. Por isso, precisamente, se sabe que o papa Francisco esteve ligado ao movimento. A Opus Dei é mais secretiva, dificilmente se sabe quem é ou não é ligado a eles.
Mas, seja como for, espero que...
Sabe, não quero associá-lo exclusivamente à Comunione e Liberazione, mas não há dúvida de que foi parte da história pessoal do novo papa e é história que é preciso considerar cuidadosamente e criticamente.
JAY: Permita que eu leia uma frase de Sergio [rub@n], autor de um livro intitulado The Jesuit e que entrevistou o novo papa antes de ele ser papa. Ele diz o seguinte: “Bergoglio é progressista, teólogo da libertação? Não, não é. Não é absolutamente um sacerdote do Terceiro Mundo. Mas ele critica o Fundo Monetário Internacional e o neoliberalismo? Sim, critica. Passou grande parte de seu tempo nas favelas? Sim, passou.” Eis o que diz esse autor. O que tudo isso lhe diz?
FOX: É. Confirma tudo o que eu sei. Como homem, digamos, é visivelmente um homem simples, não é nem jamais foi carreirista. Contam que dispensou a limosine e demitiu o motorista. Vive vida simples. Anda, toma ônibus, usa o transporte público. Durante certo tempo, ia trabalhar de ônibus. Prepara a própria comida, num apartamento modesto, recusa-se a viver no [incompreensível] palácio onde sempre viveram os ‘grandes’ da Igreja. Tudo isso, parece, é bom sinal. Acho que é a mesma inspiração que o levou a adotar o nome de Francisco – que foi homem simples, humilde.
Interessante, o que diz o seu e-mail, que ele não é um bispo do Terceiro Mundo. Não é, mesmo. (...) Mas, na minha opinião, a questão mais importante é: quem o novo papa indicará como secretário de Estado? Porque esse é o cargo, esse é o trabalho que de fato faz acontecer e supervisiona tudo, na Curia. Terá de indicar alguém firme e que conheça o jogo. Veja... Esse papa jamais trabalhou no Vaticano, o que, por um lado, me parece fator positivo. Mas, por outro lado, é indispensável conhecer aquilo, conhecer os jogos, os jogadores, tudo aquilo. E é indispensável ser muito firme. Por isso, acho que temos de esperar para ver quem será secretário de Estado.
Os dois secretários de Estado foram criaturas das sombras. Posso contar algumas histórias sobre eles, se interessar. (...)
JAY: Voltaremos a esse assunto, mas infelizmente não temos tempo, hoje. Agora, para encerrar essa entrevista, queria que você falasse um pouco sobre a igreja da Teologia da Libertação na América Latina. Como fica a Igreja Católica em tudo isso. Com Hugo Chávez, por exemplo, recentemente falecido, a Igreja teve relação tumultuada. O que sobrou da Teologia da Libertação?
FOX: Bem... Pode-se dizer que vários dos presidentes de esquerda que hoje governam a América Latina nasceram no movimento da Teologia da Libertação, como [José Inácio Lula da] Silva, o grande ex-presidente do Brasil.
Há vários anos, quando tive de cumprir o voto de silencio de um ano, imposto pelo Cardeal Ratzinger, viajei ao Brasil para saber o que estaria acontecendo nas comunidades de base. E Leonardo Boff disse, naquela ocasião, que assistíamos a uma grande reunião com [Lula da] Silva, que eu prestasse atenção naquele homem, “Pode vir a ser o próximo presidente do Brasil”. Era ainda líder sindical. Tudo isso é parte de onde está, hoje, a Teologia da Libertação [fala cruzada].
Na verdade, se se conversa com eles hoje, o que me dizem é que “antes, servíamos à Igreja; agora, servimos à humanidade.” Acho que podem ter conseguido romper as barreiras do sistema exclusivamente eclesial e hoje veem não só a humanidade, mas acho que já veem também a crise geral da terra, do planeta, em que todos estamos. Entendo que já não estejam fechados, só, numa caixa rotulada “igreja”. (...) Essa é uma das razões pelas quais meu candidato a papa seria o Dalai Lama: aproximava-se logo ocidente e oriente.
JAY: E você sabe de como Bergoglio, agora o papa, como se posicionou em relação a essa deriva para a esquerda que se vê hoje na América Latina?
FOX: Sei que nunca se aproximou amigavelmente desses movimentos. Essa é uma das causas por que não se pode deixar de considerar suas relações com Comunione e Liberazione, mesmo que hoje já não existam, não sei. Esse grupo fez declarada oposição à Teologia da Libertação.
Houve outro cardeal jesuíta, de Milão, que morreu ano passado. No testamento, escreveu que a Igreja está 200 anos atrasada. E sempre combateu o grupo Comunione e Liberazione. É interessante, porque assim se vê que houve outro cardeal, também jesuíta, que não se desligou da tradição libertadora do Concílio Vaticano II e da Teologia da Libertação e que, ao morrer, ainda apoiava as comunidades de base e a teologia da libertação. Mas o novo papa, não. Sempre foi, pode-se dizer, mais moderado, mais de meio. (...)
JAY: Uma das questões a acompanhar, é se e o quanto o Vaticano cooperará com a CIA, dessa vez, na América Latina.
FOX: Ora... Sempre cooperou, no passado. Mas sempre houve grande frenesi na imprensa-empresa, como você bem disse. Tudo, na imprensa-empresa tende a ser ‘santificado’, a tudo aplicam um verniz sentimental. Quem sabe, talvez, acalmem-se e seja possível fazer alguma avaliação objetiva produtiva do que o novo papa venha a fazer. Não esqueçamos que, como disse Carl Jung, por traz de muito sentimentalismo sempre se oculta muita violência. Não basta ao papa ser ‘doce’. Teremos de acompanhar as ações e a filosofia efetiva que anima o novo papa, como temos de vê-las também em qualquer movimento e qualquer indivíduo que represente qualquer movimento. Sem projetar coisas demais sobre ele. O poder corrompe, o poder absoluto corrompe absolutamente.
Nunca antes, na história, houve tanta e tal corrupção no Vaticano, que só se compara ao Vaticano dos Bórgias no século 16. Veremos se o novo papa conseguirá, ou não, limpar a casa. Mas, ao mesmo tempo, tampouco se deve investir muita energia nisso. Temos de investir nossa melhor energia em criar novas comunidades de base, numa nova versão da cristandade que realmente ecoe o saber dos Evangelhos. Essa é a questão que realmente importa.
JAY: OK. Na próxima entrevista, falaremos sobre isso.


21 de fevereiro de 2013

A importância do fortalecimento da identidade para evitar o fanatismo



“...Falamos também da importância de ser sujeito. Porque se não formos sujeitos, um outro poderá sê-lo em nosso lugar. Se nossa identidade falta, uma autoridade exterior pensará em nosso lugar. Quando o Ego é deficitário, um Super-Ego se apossa dele. Em certos meios é um líder, um führer ou um patrão carismático que se apodera da consciência das pessoas. Suas palavras, seus ensinamentos, serão recebidos sem crítica, sem julgamento. O que se nota em certas formas de fanatismo é que o Ego de pessoas fanáticas não existe por si mesmo.

A Bíblia nos não ensina que a vida quer que nos tornemos sujeitos. Que não sejamos simplesmente objetos das circunstâncias. Que não nos tornemos objetos de uma doutrina. Que não percamos nossa identidade. E o papel de um terapeuta é o de devolver à pessoa que ele cuida a sua palavra. Não apenas a palavra aprendida, mas a palavra que exprime verdadeiramente o que ela pensa, o que realmente deseja.
Françoise Dolto, neuropsiquiatra e psicanalista francesa, dizia: ‘Ser terapeuta é escutar alguém para que ele possa se compreender melhor, para que ele possa escutar sua própria palavra, seu próprio desejo.”

Para libertar o mundo do fanatismo e do terrorismo que dele resulta será preciso devolver a cada um sua própria liberdade de pensamento, para que ele não se torne objeto de uma exaltação, de um pensamento ou de uma doutrina.
Sua questão é: Como trabalhar isso? ...

Como me tornar cada vez mais eu mesmo? Em primeiro lugar preciso sair da ignorância. A causa de muitos sofrimentos é a ignorância, é a ignorância do outro. É muito fácil dizer que o outro é o Satã e se eximir da compreender a diferença entre eu e o outro.

Em seguida vem a educação do desejo. Será que minha felicidade poderá ser encontrada destruindo o outro? Destruir o outro não é também me destruir? Esta é uma questão de educação. Em certos países, é dramático que se eduque as crianças no ódio do outro e que se faça do seu martírio algo que agrade a Deus. Porque finalmente isso só agrada a alguns dirigentes que querem o poder e a dominação.
Haveria muitos fatos a lembrar sobre a manipulação das multidões. Sempre que estamos em um grupo importante, nosso espírito crítico diminui. Como que perdemos nossa identidade e uma certa palavra pôde nos manipular. Por isso, qualquer que seja o ensinamento recebido, é preciso colocar sem cessar a questão: Esse ensinamento me torna mais inteligente, mas da minha própria inteligência? Esse ensinamento nutre minha própria reflexão? Esse ensinamento torna-me mais amoroso ou mais desconfiado? Torna-me desconfiado daquele que é diferente da coletividade, que crê diferente de mim? Torna-me desconfiado daqueles que são chamados de hereges, infiéis ou impuros? Porque, neste caso, essa doutrina, em lugar de me abrir, me aprisiona.

Pode-se também perguntar se esse ensinamento me torna mais vivo e mais livre. Ou, pelo contrário, se esse ensinamento me torna cada vez mais dependente, dependente da pessoa que fala, dependente do livro que eu estudo, do texto sagrado que eu medito. Esse texto sagrado me torna mais inteligente, mais amoroso, mais livre? Creio que são perguntas pequenas como essas que evitarão que nos tornemos objetos de um poder exterior.

O que me impede de me afirmar? O que me impede de dizer Eu, de poder dizer minha própria palavra, de poder expressar meu próprio desejo, sem ter medo do outro? Porque, mesmo pensando diferente, devo respeitar o pensamento do outro.
Como me tornar sujeito? Creio que existe uma resposta particular para cada um.
......
Então a palavra inicial é “Vá em direção a você mesmo”. E esta palavra jamais será encontrada em qualquer forma de fanatismo. O fanatismo prega sempre: “Esqueça-se de você mesmo e siga as diretrizes”. Por isso nos grandes processos que tiveram lugar após a Primeira Guerra cada um dizia: “Eu apenas obedeci. Não é culpa minha, não tenho responsabilidade sobre isso, apenas segui ordens”. Deus não quer fazer de nós soldadinhos, porque crianças muito obedientes podem tornar-se adultos muito perigosos que se isentam de saber o que fazem. Este perigo é sempre atual.

Vá para você mesmo!”

“Livro das Bem-Aventuranças e do Pai-Nosso” de Jean-Yves Leloup.

3 de janeiro de 2013

Constantino hoje. Para além da época constantiniana






O Édito se tornaria o símbolo de uma reviravolta decisiva para a história da Europa, e a atitude de Constantino com relação ao cristianismo, bastante complexa, senão ambígua. 

A análise é do historiador italiano Paolo Naso, professor das universidades de Roma e de Milão, e do teólogo italianoBrunello Salvarani, professor da Faculdade Teológica da Emilia Romagna. O artigo foi publicado na revista italianaJesus, de dezembro de 2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Parece fácil, dizia uma antiga propaganda. E pareceria fácil aproveitar uma recorrência amplamente anunciada como os 1.700 anos que nos separarão, em 2013, do chamado Édito de Milão, para eleger Constantino I, o Grande, como defensor ante litteram da liberdade religiosa e, forçando tempos e linguagens, da laicidade do Estado e do pluralismo religioso. 

Muitos elementos autorizam a ir nessa direção: o Édito em questão concedia a todos, dentro das fronteiras do Império Romano, plena abertura a um ou outro credo religioso, sem intromissão de cima. Note-se: a Igreja Ortodoxa, de mãos dadas com algumas das Igrejas católicas de rito oriental, considera Constantino tradicionalmente como santo e até mesmo semelhante aos apóstolos (isapostolos), na linha daquela divinização do imperador que constituirá, como se sabe, uma característica precípua do sistema oriental do Império.

Na realidade, se o Édito se tornaria o símbolo de uma reviravolta decisiva para a história da Europa, a atitude deConstantino com relação ao cristianismo parece ter sido bastante complexa, senão ambígua. Daí as muitas lendas que surgiram ao longo dos séculos (como a da doação da Europa ocidental ao papa, desmontada inequivocamente no século XV pelo filólogo humanista Lorenzo Valla) e os problemas nunca resolvidos sobre as relações entre poder político e fé religiosa. 

Daí, mais uma vez, a reação preocupada de personalidades como o rabino-chefe da comunidade judaica de Roma, rabino Riccardo Di Segni, que, diante das celebrações já iniciadas, afirmou resolutamente: 
"A conversão do imperador ao cristianismo não foi, de fato, o início da tolerância religiosa. Ao invés, é de lá que tiveram origem as perseguições infligidas às outras religiões. A partir daquela infausta data, todos os não cristãos começaram a ser perseguidos. Por isso, constitui claramente uma fraude fornecer uma interpretação dela em termos positivos e até mesmo exaltá-la como um passo à frente para a humanidade". 

Ele chega a falar de pacificação fingida e tacha o evento como uma operação cultural que instrumentaliza conscientemente "um remoto passado para difundir na sociedade globalizada contemporânea modelos inquietantes de predomínio religioso que obstaculizam a pacífica convivência entre os crentes".

E isso não é tudo. O prior de Bose, Enzo Bianchi, em uma conferência magistral por ocasião da recente edição do evento Torino Spiritualità, admitiu que o Édito promulgado por Constantino, se converteu o cristianismo de superstitio a religio lecita, representou também um passo decisivo para a progressiva cristianização do Império, que tornou impossível o martírio e diluiu a mensagem evangélica. 
 Tanto que santos monges como Antônio do Deserto e Pacômio comunicaram o seu protesto a esse respeito através da sua escolha de vida radical: fizeram do deserto uma cidade, porque, na acomodação no mundo por parte da Igreja institucional, perceberam um indício claro da perda do autêntico discipulado cristão.

O jogo, portanto, não é tão claro para se jogar, e os materiais deveriam ser utilizados com uma certa delicadeza, evitando atualizações forçadas, anacrônica e historiograficamente questionáveis. Portanto, deixemos que os historiadores façam o seu trabalho e, repensando o próximo aniversário futuro, limitemo-nos a extrair dele alguma sugestão, pensando a Itália de hoje e o nó cultural e político da relação entre o Estado e as presenças religiosas. A esse respeito, o debate dos últimos anos nos entrega três temas de certo interesse para as instituições e para os crentes das diversas fés, mas também para quem não crê ou crê em termos não convencionais.

O primeiro: definitivamente declinou na Itália e na Europa aquele sistema de cristandade que um certo constantianismo contribuiu para fundar. O sonho de uma Europa cristã do Atlântico aos Urais, e da Escandinávia ao Mediterrâneo – tão caro, dentre outros, a João Paulo II – desvaneceu antes ainda de se especificar. Alguém objetará que, na realidade, desvaneceu o sonho europeu tout court: não se trata de uma consideração equivocada. No entanto, também é verdade que nunca decolou a ideia de que a Europa poderia encontrar o seu tecido conectivo nas famosas raízes cristãs que, impossíveis de negar, também se entrelaçaram com as de outras fés e as de outras culturas, não por último as de um pensamento ateu sem o qual é difícil imaginar e compreender fases inteiras da modernidade.

A ideia de Europa certamente não pode ser reduzida às frias tecnocracias das instituições de Bruxelas, mas deve ser reconduzida a uma visão de conjunto centrada na paz, nos direitos humanos, na laicidade, na liberdade de expressão, na emancipação das mulheres, na igualdade diante da lei, prescindindo do censo, do gênero e da identidade religiosa. Valores fundamentais, afirma-se comumente, que, porém, às vezes foram reconhecidos e conseguidos até mesmo contra aqueles regimes de cristandade que, ao invés, defendiam o ancien régime, juntamente com religiões de Estado identificadas e achatadas sobre poderes que pretendiam obter a sua legitimidade diretamente da vontade de Deus. 

Aquele desencanto do sagrado que depois transformou a Europa no continente mais secularizado do planeta encontra muitas causas na institucionalização do cristianismo em formas políticas fatalmente passageiras: terminados os regimes de cristandade dos Estados confessionais, o cristianismo nas suas várias expressões encontrou-se novamente frágil, por estar exposto aos ventos da secularização de sociedades de fato pós-cristãs. 

Em outros lugares – caso típico de estudo, os Estados Unidos –, as coisas aconteceram de forma diferente: a estrita separação entre o Estado e as confissões religiosas prescrita pela Primeira Emenda da Constituição determinou um mercado religioso aberto, em que diferentes comunidades de fé entraram em contato e se mediram, cada uma dando o melhor de si e tentando responder às variadas demandas espirituais que surgiam tanto do povo dos crentes, quanto daqueles que, ao invés, olham para a fé com distanciamento e ceticismo.

Segundo elemento de reflexão: a secularização europeia parece ter chegado ao seu ápice, e, como notam vários estudiosos das tendências religiosas, hoje também no velho continente se deveria falar de pós-secularização. Atenção, porém: não é um retorno ao passado tranquilizador dos campanários e das festas de padroeiro lotadas. Pensar nisso seria outra perigosa ilusão. A pós-secularização abre um cenário totalmente inédito, caracterizado por múltiplos elementos, além disso, nem sempre coerentes entre si: o primeira é que, se é verdade que os temas religiosos voltam a interrogar a tantos, tudo isso não se traduz em igrejas mais cheias e seminários mais lotados. 

Isto é, a experiência da fé volta a interessar e até a fascinar – no rádio, lê-se a Bíblia integralmente; em muitas cidades, ocorrem festivais lotados da religião ou da espiritualidade; alguns teólogos vendem livros ao ritmo de best-sellers –, mas não a comprometer, ao menos na direção de uma adesão consciente e madura a uma proposta confessional. 

Dever-se-ia dizer que a pós-secularização também é pós-confessional, no sentido de que, como por exemplo ocorria noReino Unido há décadas, crê-se sem pertencer (G. Davie): a experiência da fé ou da busca da fé, em outro termos, não coincide necessariamente com um ato formal de adesão ou uma prática coerente. Muitas vezes, é um rastro tênue que pode conduzir a uma meta, mas não raramente se resolve em uma contínua peregrinação em busca, mais do que de Deus, de si mesmos.

Uma característica de percursos espirituais semelhantes é que eles não são lineares, nem exclusivos: uma característica original da era pós-secular é a admissão de escolhas múltiplas, nas quais se reza com a lectio divina e se faz meditação transcendental, se pratica ioga e se vai a Pietrelcina, se olha o horóscopo e se leem os livros do cardeal Martini. Equipadas para um combate não particularmente vitorioso contra a secularização, as Igrejas europeias ainda estão despreparadas para o confronto com a era pós-secular, considerando, talvez, que o vento está voltando a soprar nas suas velas. Não é assim, dizem-nos estudos e previsões sociais, e seria a hora de se colocar a pensar humildemente sobre esses panoramas.

A terceira consideração refere-se principalmente à Itália, o país europeu que, por evidentes razões históricas (e políticas), vive mais diretamente a relação com as cúpulas mundias da catolicidade. Como ela aborda tais novidades, como ela se coloca em tais cenários? A impressão é a da confusão dos trabalho em andamento, daquele canteiro de obras sem projeto sobre o qual escrevemos recentemente, em que se intuiu que é preciso intervir de algum modo, mas não se sabe bem como e segundo quais diretrizes. 

A Itália parece suspensa entre o passado confessionalista de uma relação estreita e orgânica entre a Igreja Católica e os centros do poder político, e um futuro que vai inexoravelmente rumo a uma laicidade das instituições que proteja o novo pluralismo religioso: novo por ser evidentemente diferente daquele histórico constituído pelas presenças judaicas, valdenses, ortodoxas e luteranas, determinado em grande medida (mas não exclusivamente) pelos fluxos migratórios.

Nesse esquema, não está claro o quadro do presente. Em poucos meses, o mesmo Parlamento que, durante anos, havia bloqueado os acordos com algumas confissões religiosas (mórmons, apostólicos e ortodoxos), os aprovou com uma ampla maioria. Parece até que estão chegando aqueles acordos com os hindus, os budistas e os testemunhas de Jeová, os dois últimos suspensos até desde o ano 2000. Três ou até mesmo seis acordos em poucos meses representam uma novidade política e cultural de absoluto relevo. Que leitura dar-lhes? Efeitos colaterais de um governo técnico mais livre dos vetos de alguns partidos contrários a essas aberturas? Um pequeno lampejo de modernização no sentido do pluralismo religioso destinado a se fechar em poucos meses? Ou uma nova cultura da liberdade religiosa e, portanto, do pluralismo confessional que vai amadurecendo também entre nós? E se esta fosse a resposta qual é a avaliação da Igreja Católica? 

Escrevemos poucos dias depois do Sínodo dos Bispos sobre a nova evangelização e pouco antes de um importante congresso dos delegados diocesanos para o ecumenismo e o diálogo que irá refletir sobre o novo contexto sociocultural que interroga os cristãos. Veremos.

Em todo caso, discutir sobre esses temas seria uma forma interessante para honrar a sério os 1.700 anos do Édito. Não para celebrar um passado ambíguo, mas sim para construir um futuro compartilhado, ainda hoje incerto.

FONTE:

http://www.ihu.unisinos.br/noticias/516694-constantino-hoje-para-alem-da-epoca-constantiniana


21 de dezembro de 2012

Natal é coisa de criança...


J Ricardo A de Oliveira



Sem dúvida, afinal a festa gira em torno de um menino que veio  ensinar que só há uma lei : Amar. 
Ninguém está  mais propenso a se entregar de cabeça no amor do que as crianças. Criança não tem preconceito, não discrimina, não pensa antes de falar, não tem censura para amar a quem quer que seja.
Já repararam como as crianças ficam agitadas e felizes com a proximidade  do Natal? Certamente elas guardam mais de perto a memória do convívio com o aniversariante. Tenho um amigo que  diz que é porque elas saíram recentemente da fábrica...
O natal traz em nós um gosto de infância, a espera do presente, a dúvida se o Noel vai atender ao pedido, se o comportamento durante o ano vai mesmo ser levado em consideração...
Quando se é criança e tivemos a graça de viver em uma família onde o amor é o sentimento mais presente e também o mais cultivado, o Natal é uma festa da realização deste ideal. Tive Natais muito felizes.  As lembranças que chegam à minha mente, vem com a casa cheia de primos, tios e uma grande algazarra de crianças. Mas vem também o cheiro da manteiga batida e rebatida que a vovó Bebel  usava para fazer seus "mantecais". Eram quilos e quilos para que ninguém ficasse sem os deliciosos biscoitões típicos de sua aldeia Malagueña na época do Natal. Eram feitos com muito carinho e a participação da Tia belinha e da Tia Nair, as quituteiras mais competentes da famila que a essa altura devem estar preparando a ceia de natal lá no céu.

Me salta na lembrança também, avó Corintha, a que me criou , essa de descendência  lusitana,  preparando o mexido ou formigos. Era um tal de esfarelar miolos de pães dormidos que eram molhados e  levados para a panela de barro ao fogo e por horas eram mexidos e remexidos enquanto eram acrescentados os ovos, as amêndoas, o mel, o vinho e sei lá eu mais quantas iguarias eram postas naquilo que virava uma espécie de um creme, delicioso, servido solenemente na ceia.
Quantas lembranças e quanta saudade! Quanto AMOR!  Mas Natal é fundamentalmente isso: Amor.
A minha criança interna se enche de ansiedade nesta época.  Sinto falta das grandes mesas cheias de coisas gostosas, das brincadeiras, do riso farto, a felicidade contagiando e unindo os nossos corações. Sinto falta da briga depois do almoço para decidir quem ia lavar a louça. Todas, minha mãe e tias queriam lavar e participar da arrumação. Quando o amor está presente , todo serviço é feito com alegria e prazer.
Eram muitos netos e depois do almoço, invariavelmente havia para alegria da vovó Bebel, o jogo de víspora. Ela sentava-se ao lado dos netos, cada qual com seus cartões e os  montinhos de grãos de feijão para marcar. Aos poucos o vovô Zezé, cantava os números: dois patinhos na lagoa ( 22), bico de pato (4), terminou o jogo (99) , vai começar a  brincadeira ( 1) . E, de repente alguém gritava: Duque de ponta! E parava tudo para o vovô conferir. E a tarde seguia animada e muito alegre. Acho curioso que as lembranças mais vivas não são dos presentes, mas da alegria do convívio daqueles a quem tanto amávamos.
Hoje essas lembranças me fazem rir sozinho como a criança daquele tempo que faço força para que  continue viva em mim, apesar dos muitos anos. Junto com o riso, as lágrimas também insistem em rolar pelo meu rosto, fruto da grande saudade que  também tempera a alma da criança que sente a  ausência de quase todas aquelas presenças, nas festas de final de ano. Consola-me saber que foram comemorar o Natal junto do aniversariante. Fora isso é muito bom além de relembrar sentir-se que se está criando memória junto aos mais novos que hoje são as atuais crianças do Natal.

Um feliz e abençoado Natal, que o “Menino Eterno” renasça sempre no nosso coração, e que o  Natal ,  nos lembre sempre  que é preciso ser criança para entrar no Reino de justiça, Paz e amor que o Pai os reservou.

18 de setembro de 2012

Meditar como uma montanha

Jean Yves Leloup


Assim começava para o jovem filósofo uma verdadeira iniciação à oração hesicasta.  A primeira indicação que lhe fora dada dizia respeito à estabilidade.  O enraizamento de uma boa postura.
De fato, o primeiro conselho que podemos dar a alguém que quer meditar não é de ordem espiritual, mas física: sente-se.
Sentar-se como uma montanha, isso quer dizer sentar-se com peso: estar pesado da presença.  Nos primeiros dias, o jovem teve muita dificuldade em permanecer assim imóvel, as pernas cruzadas, o quadril ligeiramente mais alto que os joelhos (foi nessa postura que ele encontrara a estabilidade).  Uma manhã, ele realmente sentiu o significado de “meditar como  uma montanha”.  Ele estava ali, com todo seu peso, imóvel.  Ele e a montanha formavam um só, silenciosos sob o sol.  Sua noção do tempo mudara completamente.  As montanhas possuem um outro tempo, um outro ritmo.  Estar sentado como uma montanha é ter a eternidade diante de si, é a atitude justa para aquele que quer entrar na meditação: saber que ele tem a eternidade detrás, dentro e diante de si.  Antes de erguer uma igreja, era preciso ser pedra e sobre essa pedra (essa solidez imperturbável do rochedo), Deus pôde erguer sua Igreja e fazer do corpo do homem o seu templo.  Era dessa forma que ele compreendia o sentido das palavras evangélicas: “És pedra e sobre essa pedra edificarei minha igreja.”
Assim ele permaneceu durante várias semanas.  O mais difícil para ele era passar horas “sem fazer nada”.  Era preciso reaprender a ser, simplesmente ser – sem objetivo nem motivo.  Meditar como uma montanha era a própria meditação do Ser, “do simples fato de Ser”, antes de todo pensamento, todo prazer e toda dor.  O padre Serafim o visitava todos os dias, compartilhando com ele seus tomates e suas azeitonas.  Apesar dessa dieta frugal, o jovem parecia ter ganhado peso.  Seu caminhar estava mais tranqüilo.  A montanha parecia ter entrado na sua pele.  Ele sabia respeitar o tempo, acolher as estações, permanecer em silêncio e ficar tranqüilo como uma terra por vezes dura e árida, mas por vezes também como o flanco de uma colina à espera da época da colheita.
Meditar como uma montanha também modificara o ritmo dos seus pensamentos.  Ele aprendera a “ver” sem julgar, como se ele desse a tudo aquilo que brota sobre a montanha o “direito de existir”.
Certo dia, alguns peregrinos o tomaram por um monge; impressionados pela qualidade da presença, eles pediram-lhe uma bênção.  Ele nada respondeu, imperturbável como a pedra.  Tendo sabido disso, naquela mesma noite o Padre Serafim começou a lhe dar bastonadas...  O jovem homem se pôs então a gemer.
“Ah bom, eu achei que você tivesse se tornado tão estúpido quanto as pedras do caminho...  A meditação hesicasta tem um enraizamento, a estabilidade das montanhas, mas seu objetivo não é fazer de você um cepo morto, mas um homem vivo.”
Ele tomou o jovem pelo braço e o conduziu até o fundo do jardim onde, entre as ervas selvagens, eles conseguiam divisar algumas flores.  “Agora não se trata mais de meditar como uma montanha estéril.  Aprenda a meditar como uma papoula, mas não esqueça da montanha...”
Meditar como uma papoula

Foi assim que o jovem aprendeu a florescer...  A meditação é antes de tudo uma postura e foi isso o que a montanha lhe havia ensinado.  A meditação também é uma “orientação” e era isso o que a papoula estava ensinando-lhe agora: voltar-se em direção ao sol, voltar-se do mais profundo de si mesmo em direção à luz.  Aspirar em todo seu sangue, toda a seiva.
Essa orientação voltada ao belo, à luz, fazia com que ele às vezes ficasse vermelho como uma papoula.  Era como se a “bela luz” fosse a luz de um olhar que lhe sorria, esperando dele um perfume qualquer...  Junto à papoula, ele aprendeu igualmente que, para permanecer na sua orientação, a flor deveria ter “a haste ereta” e ele começou a endireitar a coluna vertebral.
Isso lhe colocou alguns problemas, pois ele tinha lido em alguns textos da Filocalia que o monge deveria estar ligeiramente curvado.  Algumas vezes, até mesmo sentindo dor.  O olhar voltado para o coração e as entranhas.
Ele pediu ao padre Serafim algumas explicações.  Os olhos do staretz o olharam com malícia: “Isso era para os fortões d’outrora.  Eles eram cheios de energia, e era preciso lembrar-lhes a humildade da sua condição humana, que eles se curvem um pouco durante a meditação – isso não lhes fará nenhum mal...  Mas você, você tem necessidade de energia, então, no momento da meditação, endireite-se, esteja vigilante, mantenha-se ereto e voltado para a luz, mas sem orgulho... aliás, se você observar bem a papoula, ela lhe ensinará não apenas a retidão da haste, mas também uma certa maleabilidade sob as inspirações do vento e também uma grande humildade...”
     De fato, o ensinamento da papoula também estava presente na sua fugacidade, na sua fragilidade.  Era preciso aprender a florescer, mas também a fanar.  O jovem compreendeu melhor as palavras do profeta:
“Toda carne é como a grama e sua delicadeza é como a das flores dos campos.  A grama seca, a flor murcha...  As nações são como uma gota de orvalho na beira de um balde...  Os juízes da terra acabarão de ser plantados, sua haste acabou de deitar raízes na terra... e então eles secarão e a tempestade os levará como uma palha.” (Isaías 40).
A montanha tinha lhe dado o sentido da Eternidade, a papoula lhe ensinava a fragilidade do tempo: meditar é conhecer o Eterno na fugacidade do instante, um instante reto, bem orientado.  É florescer o tempo que nos é dado a florescer, amar o tempo que nos é dado a amar, gratuitamente, sem porquê, pois para quem?  Por que florescem as papoulas?
Assim, ele aprendeu a meditar “sem objetivo nem ganho”, apenas pelo prazer de ser e de amar a luz.  “O amor é a sua própria recompensa”, dizia ainda Ângelus Silesius.  “É a montanha que floresce na papoula, pensou o jovem.  É todo o universo que medita em mim.  Que ele possa ficar vermelho de alegria enquanto durar minha vida.”  Esse pensamento certamente era demais.  O padre Serafim começou a sacudir o nosso filósofo e mais uma vez o tomou pelo braço.  Ele o conduziu por um caminho escarpado que levava até a beira do mar, a uma pequena praia deserta.  “Pare de ruminar como uma vaca o bom senso das papoulas...  Tenha também o coração marinho.  Aprenda a meditar como o oceano.”

Meditar como o oceano

O jovem aproximou-se do mar.  Ele tinha adquirido uma boa base e uma orientação reta.  Ele estava na boa postura.  O que lhe faltava?  O que o marulhar do oceano poderia lhe ensinar?  O vento se ergueu.  O fluxo e o refluxo do mar tornaram-se mais profundos e isso despertou nele a lembrança do oceano.  O velho monge tinha aconselhado-o, de fato, a meditar “como o oceano” e não como o mar.  Como ele tinha adivinhado que o jovem tinha passado longas horas às margens do Atlântico, sobretudo à noite e que ele já conhecia a arte de acordar seu sopro com a grande respiração das ondas.  Eu inspiro, eu expiro..., depois, eu sou inspirado, eu sou expirado.  Eu me deixo levar pelo sopro, assim como nos deixamos levar pelas ondas...  Assim ele se deixava ser carregado pelo ritmo das respirações oceânicas.  Mas a gota de oceano que outrora “dissipava-se no mar”, guardava hoje sua forma, sua consciência.  Será que isso era o efeito da sua postura?  Do seu enraizamento na terra?  Ele não era mais levado pelo ritmo aprofundado da sua respiração.  A gota d’água guardava sua identidade e, no entanto, ela sabia “ser uma” com o oceano.  Foi assim que o jovem aprendeu que meditar é respirar profundamente, deixar ser o fluxo e o refluxo do sopro.
Ele aprendeu igualmente que, mesmo havendo ondas na superfície, o fundo do oceano permanecia tranqüilo.  Os pensamentos vão e vêm, nos fazem espumar, mas o fundo continua imóvel.  Meditar a partir das ondas que somos para perdermos o pé e deitarmos raízes no fundo do oceano.  Tudo isso tornava-se a cada dia um pouco mais vivo para ele e ele se lembrava das palavras de um poeta que o marcara nos tempos da sua adolescência: “A Existência é um mar incessantemente cheio de ondas.  Desse mar as pessoas normais só percebem as ondas.  Veja como, das profundezas do mar, inumeráveis ondas aparecem na superfície, enquanto o mar permanece oculto nas ondas”.  Hoje o mar lhe aparecia menos "oculto nas ondas”, a unicidade de todas as coisas lhe parecia mais evidente, e isso não abolia o múltiplo.  Ele tinha menos necessidade de opor o fundo e a forma, o visível e o invisível.  Tudo isso constituía o oceano único da vida.
No fundo do seu sopro não se encontrava o Ruah?  O pneuma?  O grande sopro de Deus?
“Aquele que escuta com atenção sua respiração, lhe disse então o velho monge Serafim, não está longe de Deus.”
“Escute quem está no final do teu expirar.  Quem está na fonte do teu inspirar.”  Realmente, existia ali alguns segundos de silêncio mais profundos do que o fluxo e o refluxo das ondas, e havia ali algo que parecia carregar o oceano...
Meditar como um pássaro

Estar em uma boa postura, estar orientado em direção à luz, respirar como um oceano... isso ainda não é a oração hesicasta, lhe disse o Padre Serafim.  "Agora você deve aprender a meditar como um pássaro", e ele o levou até uma pequena célula próxima à sua ermida onde viviam duas rolas.  De início, o arrulhar desses dois pequenos animais lhe pareceu charmoso, mas não demorou para que esse som irritasse o jovem filósofo.  De fato, elas escolhiam o momento onde ele estava caindo de sono para arrulhar as mais ternas palavras.  Ele perguntou ao velho monge o que tudo isso significava e se essa comédia iria durar muito tempo.  A montanha, o oceano, a papoula ainda passavam (mesmo que possamos nos perguntar o que existe de cristão nisso tudo), mas, agora, propor-lhe essa ave langorosa como mestre de meditação, era demais!  O padre Serafim explicou-lhe que no Antigo Testamento, a meditação é expressa pelos termos da raiz “haga”, frequentemente  traduzido para o grego por mélété – meletan – e para o latim pormeditaria – meditatio.  Em seu sentido primitivo, essa raiz queria dizer “murmurar em voz baixa”.  Ela é igualmente utilizada para designar os gritos dos animais, por exemplo, o rugir do leão (Isaías 31, 4), o piar das andorinhas e o canto da pomba (Isaías 38, 14), mas também o grunhido dos ursos.
“Não temos ursos no Monte Athos.  É por esta razão que o trouxe até as rolas, mas o ensinamento é o mesmo.  É preciso meditar com a sua garganta, não apenas para acolher o sopro, mas também para murmurar o nome de Deus noite e dia...”
Quando você está feliz, quase sem se dar conta, você cantarola, você às vezes murmura palavras sem sentido e esse murmúrio faz todo o seu corpo vibrar de alegria simples e serena.
Meditar é murmurar como a rola, deixar subir em si esse canto que vem do coração, assim como você aprendeu a deixar subir em você o perfume que vem da flor... meditar é respirar cantando.  Sem nos demorarmos muito no significado agora, eu proponho que você repita, murmure, cantarole as palavras que estão no coração de todos os monges do Athos: “Kyrie eleison, kyrie eleison...”  Isso não agradou muito ao jovem filósofo.  Ele já tinha ouvido essas palavras em algumas celebrações de casamento ou enterro; em francês elas eram traduzidas por: “Senhor, tenha piedade”.
O monge Serafim começou a sorrir: “Sim, esse é um dos significados dessa invocação, mas há muitos outros.  Essas palavras também querem dizer: “Senhor, envie teu Espírito...!  Que a tua  ternura esteja sobre mim e sobre todos, que teu Nome seja abençoado, etc...”, mas não procure compreender o sentido dessa invocação, ele se revelará sozinho a você.  Por enquanto, esteja sensível e atento à vibração que ela desperta em seu corpo e em seu coração.  Tente harmonizar pacificamente essa invocação com o ritmo da sua respiração.  Quando os pensamentos o atormentarem, volte suavemente a essa invocação, respire mais profundamente, mantenha-se ereto e imóvel e você conhecerá um início dehesychia, a paz que Deus dá, incomensuravelmente, àqueles que o amam.  Passados alguns dias, o “Kyrie eleison” tornou-se um pouco mais familiar.  Ele o acompanhava assim como o zumbir acompanha a abelha quando ela faz o seu mel.  Ele nem sempre o repetia com os lábios.  O zumbido tornara-se mais interior e sua vibração mais profunda.
O “Kyrie eleison” que ele renunciara a “pensar” acerca do seu significado, o conduzia por vezes a um silêncio desconhecido e ele se encontrava na atitude do apóstolo Tomé quando este descobriu o Cristo ressuscitado: “Kyrie eleison”, Meu Senhor é meu Deus.
A invocação o mergulhou pouco a pouco em um clima de intenso respeito por tudo aquilo que existe.  Mas também de adoração por aquilo que mantém-se oculto na raiz de todas as existências.  O padre Serafim disse-lhe então: “Agora você não está longe de meditar como um homem.  Eu devo ensinar-lhe a meditação de Abraão.”
Meditar como Abraão

Até aqui o ensinamento do stárets fora de ordem natural e terapêutica.  Os antigos monges, segundo o testemunho de Philon de Alexandria, eram, de fato, “terapeutas”.  Seu papel, antes de conduzirem à iluminação, era o de curar a natureza, colocá-la em melhores condições para que ela pudesse receber a graça, a graça que não contradizia a natureza, mas a restaurava e a realizava.  Era isso que o homem idoso estava fazendo com o jovem filósofo, ensinando-lhe um método de meditação que alguns poderiam chamar de “puramente natural”.  A montanha, a papoula, o oceano, o pássaro – tantos elementos da natureza que lembram ao homem que ele deve, antes de ir mais longe, recapitular os diferentes níveis do ser, ou ainda os diferentes reinos que compõem o macrocosmo.  O reino mineral, o reino vegetal, o reino animal...  Frequentemente o homem perde o contato com o cosmos, com o rochedo, com os animais e isso acaba provocando nele todo tipo de doenças, de mal-estares, de insegurança, de ansiedade.  Ele se sente “demais”, estranho e estrangeiro no mundo.  Meditar era primeiro entrar na meditação e no louvor do universo, pois “todas as coisas sabem orar antes de nós”, dizem os padres.  O homem é o lugar onde a oração do mundo toma consciência dela mesma.  O homem está aqui para nomear aquilo que todas as criaturas balbuciam.  Com a meditação de Abraão, nós entramos em uma nova e mais elevada consciência que chamamos de fé, ou seja, a adesão da inteligência e do coração a esse “Tu” ou a esse “Você” que é, que transparece quando chamamos todas os seres pelos seus primeiros nomes.  Essa é a experiência e a meditação de Abraão: atrás do estremecer das estrelas, existem mais do que estrelas, uma presença difícil de nomear, que nada pode nomear e que no entanto possui todos os nomes...
É algo maior do que o universo e que, no entanto, não pode ser compreendido fora do universo.  A diferença que existe entre Deus e a natureza é a diferença que existe entre o azul do céu e o azul de um olhar...  Abraão estava em busca desse olhar além de todos os azuis...  Após ter aprendido a sentar, após ter aprendido o enraizamento, a orientação positiva em direção à luz, a respiração apaziguada dos oceanos, o canto interior, o jovem era convidado ao despertar do coração.  “De repente, você é alguém”.  Aquilo que é próprio ao coração, de fato, é personalizar todas as coisas e, nesse caso, personalizar o Absoluto, a Fonte de tudo aquilo que é e respira, nomeá-la, chamá-la de “Meu Deus”, “Meu Criador” e caminhar em Sua presença.  Meditar, para Abraão, é manter, sob as mais variadas formas, o contato com essa Presença.  Essa forma de meditação entra nos detalhes concretos da vida quotidiana.  O episódio do carvalho de Mambré nos mostra Abraão “sentado à entrada da tenda, na hora mais quente do dia” e ali ele vai acolher três estrangeiros que vão se revelar como enviados de Deus.  Meditar como Abraão, dizia o Padre Serafim, “é praticar a hospitalidade, o copo d’água que damos àquele que tem sede, não se afaste do silêncio, ele o aproxima da fonte.”  Meditar como Abraão, você compreende, desperta não apenas em você a paz e a luz, mas também o Amor por todos os homens.”  E o padre Serafim leu para o jovem a famosa passagem do livro do Gênesis onde se fala da intercessão de Abraão:
“Abraão estava diante de YHWH, Aquele que é – que era – que será.”  Ele aproximou-se e disse: “Vais realmente suprimir o justo junto com o pecador?  Talvez haja cinqüenta justos na cidade, vais realmente suprimi-los e não perdoarás a cidade devido aos cinqüenta justos que estão no seu seio...?”
Abraão, pouco a pouco, teve que reduzir o número de justos para que Sodoma não fosse destruída.  “Que o meu Senhor não se irrite e falarei uma última vez: talvez encontremos dez justos...” (cf. Gênesis 18, 16)  Meditar como Abraão é interceder pela vida dos homens, nada ignorar da sua podridão e, no entanto, “jamais desesperar da misericórdia de Deus”.  Esse tipo de meditação liberta o coração de todo julgamento e de toda condenação, em qualquer tempo ou lugar; quaisquer que sejam os horrores que você venha a contemplar, ele chama o perdão e a bênção.  Meditar como Abraão nos leva ainda mais longe.  A palavra tinha dificuldade em sair da garganta do padre Serafim, como se ele tivesse querido poupar o jovem de uma experiência pela qual ele próprio tivera que passar e que despertava na sua lembrança um sutil tremor: isso pode nos levar até ao Sacrifício...  e ele citou a passagem do Gênesis onde Abraão se mostra pronto a sacrificar seu próprio filho Isaac.  “Tudo pertence a Deus, continuou o padre Serafim, murmurando.  Tudo é dele, por ele e para ele”; meditar como Abraão o conduz a essa total falta de posse de si mesmo e daquilo que você tem de mais caro... procure aquilo que lhe é mais caro, aquilo com o qual você identifica o seu eu: para Abraão era o seu filho, seu único filho.  Se você é capaz desse dom, desse abandono total, dessa infinita confiança naquele que transcende toda razão e todo bom senso, tudo lhe será dado cem vezes mais: “Deus proverá”.  Meditar como Abraão é não ter nada no coração e na consciência “além d’Ele”.  Quando ele subiu até o topo da montanha, Abraão só pensava em seu filho.  Quando ele desceu, ele só pensava em Deus.
Passar pelo cimo do sacrifício é descobrir que nada pertence ao “eu”.  Meditar como Abraão é unir-se pela fé àquele que transcende o Universo, é praticar a hospitalidade, interceder pela salvação de todos os homens.  É esquecer-se a si mesmo e romper os apegos mais legítimos para descobrir-se a si mesmo, nossos próximos e todo o Universo, habitado pela infinita presença “d’Aquele Único que É”.
Meditar como Jesus

O padre Serafim mostrou-se cada vez mais discreto.  Ele sentia os progressos feitos pelo jovem na sua meditação e na sua oração.  Ele o surpreendera diversas vezes com o rosto banhado de lágrimas, meditando como Abraão e intercedendo por todos os homens.  “Meu Deus, misericórdia, o que vai ser dos pecadores...?”  Um dia o jovem veio até ele e perguntou: “Pai, por que o senhor nunca me fala de Jesus?  Qual era a sua oração, sua maneira de meditar?  Não falamos de outra coisa durante a liturgia e os sermões.  Na oração do coração, como nos fala a Filocalia, é o seu nome que devemos invocar.  Por que o senhor não me fala  nada a respeito?”
O padre Serafim tinha o ar perturbado.  Era como se o jovem lhe pedisse algo indecente, como se fosse preciso revelar seu próprio segredo.  Quanto maior é a revelação que recebemos, tanto maior deve ser a humildade daquele que a transmite.  Sem dúvida, ele não se sentia humilde o suficiente: “Isso, apenas o Espírito Santo pode ensinar-lhe.  Ninguém sabe quem é o Filho, senão o Pai; nem quem é o Pai, senão o Filho e aquele a quem o Filho o quiser revelar.” (Lucas 10, 22).  É preciso que você se torne filho para orar como o filho e manter com Aquele que ele chama de seu Pai e nosso Pai as mesmas relações de intimidade que Ele e isso é obra do Espírito Santo, ele o lembrará de tudo aquilo que Jesus disse.  O Evangelho se tornará vivo em você e ele lhe ensinará a orar como é preciso.”  O jovem insistiu.  “Diga-me alguma coisa a mais.”  O velho sorriu.  “Agora, o melhor que eu tenho a fazer é começar a latir.  Mas você também tomaria isso por um sinal de santidade.  Então, é melhor simplesmente dizer-lhe as coisas.”
Meditar como Jesus recapitula todas as formas de meditação que eu ensinei até agora.  Jesus é o homem cósmico.  Ele sabia meditar como a montanha,  como a papoula, como o oceano, como a pomba.  Ele também sabia meditar como Abraão.  O coração não tinha limites, ele amava até seus inimigos, seus carrascos: “Pai, perdoai-os, eles não sabem o que fazem”.  Ao praticar a hospitalidade para com aqueles que chamamos de doentes e de pecadores, paralíticos, prostitutas, colaboradores...  À noite ele se retirava para orar em segredo e aí, ele murmurava como uma criança: “abba”, o que quer dizer “papai”...  Isso pode lhe parecer irrisório, chamar de “papai” o Deus transcendente, infinito, incomparável, que está além de tudo!  É quase ridículo e, no entanto, essa é a oração de Jesus e nessa simples palavra, tudo era dito.  O céu e a terra tornam-se terrivelmente próximos.  Deus e o homem fazem apenas um.  Talvez seja necessário dizer “papai” à  noite para compreender isso...  Mas hoje em dias essas relações íntimas de um pai e de uma mãe com seus filhos não querem dizer mais nada.  Talvez essa seja uma imagem ruim...?
É por essa razão que eu prefiro nada dizer, não utilizar nenhuma imagem e esperar que o Espírito Santo coloque em você os sentimentos e o conhecimento que estavam em Jesus Cristo e que esse “abba” não venha da ponta dos seus lábios mas do fundo do seu coração.  Nesse dia, você começará a compreender o que é a oração e a meditação hesicastas.”  Agora, vá!

O jovem ficou ainda alguns meses no Monte Athos.  A oração de Jesus o conduziu aos abismos, por vezes aos limites de uma certa “loucura”: Não sou mais eu que vivo, é o Cristo que vive em mim” – a exemplo de São Paulo, ele podia dizer essas palavras.  Delírio de humildade, de intercessão, de desejo “que todos os homens sejam salvos e alcancem o pleno conhecimento da verdade.”  Ele tornou-se Amor, ele tornou-se fogo.  A sarça ardente não era mais uma metáfora, mas uma realidade: “Ele queimava e, no entanto, ele não era consumido.”  Estranhos fenômenos de luz visitavam o seu corpo.  Alguns diziam tê-lo visto caminhar sobre a água ou manter-se sentado, imóvel, a trinta centímetros do chão...
Dessa vez, o padre Serafim começou a latir: “Chega!  Agora, vá!” e ele pediu que ele deixasse o Monte Athos, que ele voltasse para casa e ali ele veria o que sobrava das suas belas meditações hesicastas!... O jovem partiu.  Ele voltou para a França.  Acharam que ele tinha emagrecido e não acharam nada de espiritual na sua barba de aspecto sujo e seu ar negligente...  Mas a vida da cidade não fez com que ele esquecesse o ensinamento do seu stárets!
Quando ele se sentia muito agitado, sempre sem tempo, ele ia se sentar como uma montanha na varanda de um café.  Quando ele sentia em si o orgulho, a vaidade, ele lembrava-se da papoula, “toda flor murcha”, e novamente seu coração voltava-se para a luz que não passa.  Quando a tristeza, a raiva, o desgosto invadiam sua alma, ele respirava ao largo, como um oceano, ele tomava fôlego no sopro de Deus, ele invocava seu Nome e murmurava: “Kyrie eleison...”  Quando ele via o sofrimento dos homens, sua maldade e sua impotência em mudar alguma coisa, ele se lembrava da meditação de Abraão.  Quando ele era caluniado, quando diziam coisas infames a seu respeito, ela ficava feliz por meditar com o Cristo...  Externamente, ele era um homem como os outros.  Ele não procurava ter “ares de santo”...  Ele até esquecera que praticava o método da oração hesicasta, ele simplesmente tentava amar Deus instante após instante e caminhar na Sua Presença...


Escritos sobre o Hesicasmo - Editora Vozes, 2003

17 de setembro de 2012

''Acredito em Deus e em Cristo, mas não na Igreja''. Entrevista com Hans Küng

Hans Küng  ( Teólogo)


"A Igreja Católica está doente. É preciso desdobrar oVaticano II. Eu tinha ilusões, mas agora tenho clareza que a mudança não virá das mãos deRatzinger".

A reportagem é de Isabel Urrutia, publicada no sítioDiario Vasco, 13-01-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Ele está há 83 anos no seio da Igreja Católica e não se arrepende. Nunca quis dar baixa nem se converter ao protestantismo para perder o papa de vista de uma santa vez. Um esclarecimento que não é gratuito quando se trata do padre suíço Hans Küng, uma lenda viva da teologia de língua alemã, que ainda se mantém na ativa, seja reivindicando o sacerdócio das mulheres ou o uso da pílula. Apesar de sua idade, não lhe falta vontade de se estender em uma conversa telefônica do seu escritório da Fundação Ética Mundial, instituição interdisciplinar com sede emTübingen.

Bastam alguns segundos para detectar imediatamente a energia e o caráter que lhe permitiram seguir em frente e não se enrugar perante a Santa Sé: "Você se atrasou 10 minutos! Vejo que o seu sentido metafísico do tempo não coincide com o meu", queixa-se com fina ironia. Nunca gostou que lhe façam esperar. Ele recém reeditou na EspanhaLa Mujer en el Cristianismo (Ed. Trotta) e, em seu país natal, o seu último trabalho, Ist die Kirche noch zu retten? (A Igreja ainda pode ser salva?), já abriu um furo nas listas de best-seller.

Aqueles que o conhecem suspeitam que ele é descendente de Guilherme Tell, à luz do arrojo com que dispara as suas críticas. "Já é hora de que o Vaticano abandone um sistema absolutista que data do século XI. Foi então que os papas foram criados com todo o poder e impuseram o clericalismo, isto é, a preponderância dos padres que marginaliza os leigos. Isso não pode continuar!", reflete em voz alta, com a convicção de "um membro fiel da Igreja, que acredita em Deus e em Cristo, mas não na Igreja". Eis aí a nuance.

Sua condição de teólogo "independente", sem autorização eclesiástica, lhe permite falar com total liberdade. Desde 1979, quando a Congregação para a Doutrina da Fé lhe privou da licença, ele se sente um novo homem. Ele foi castigado por falar sem reservas e, de repente, ganhou asas para apontar para tão longe quanto quisesse.

Recentemente, a revista alemã Der Spiegel chegou a comparar Bento XVI com Vladimir Putin, "porque ambos herdaram um legado de reformas democráticas e, em vez de irem para a frente, vão para trás".

Em sua opinião, o Concílio Vaticano II é a grande questão pendente, um roteiro que permitiria recuperar o caminho perdido antes que seja tarde demais. "A Igreja Católica está doente. Seu mal é uma hierarquia absoluta que não faz parte essencial da sua natureza. Não é algo imprescindível. É preciso desenvolver o Concílio Vaticano II", insiste com paixão e com os olhos postos naquela época, a década de 1960, quando ele acreditava que o autoritarismo e o culto da personalidade – "há muito disso agora" – não tardariam a ser superados graças ao impulso de João XXIII.

Rixa com Ratzinger

Naquela época, ele disputava com Joseph Ratzinger, quando ambos tinham cerca de 30 anos, e eram "progressistas" e brilhantes que aspiravam a renovar a Igreja. No entanto, seus caminhos não demoraram para se separar, levados pelas circunstâncias e por modos muito diferentes. Bento XVI se aferra à tradição e à ordem, enquanto Hans Küng ainda se inclina pelo diálogo e pelo progresso. São duros, constantes e com uma inteligência descomunal. Alemães de pura cepa, que resistem em jogar a toalha.

Uma atitude que tem seu mérito à luz das estatísticas de 2010 sobre apostasias e batismos na Alemanha: pela primeira vez, houve mais abandonos (181.000) do que ingressos (170.000). Desde os anos 1960, foram perdidas dezenas de milhares de padres; cada vez mais paróquias ficam sem serviço religioso; e os mosteiros definham sem mudança geracional. A pátria de Ratzinger, onde 32% da população são católicos, não segue em massa os ditames do Vaticano. Uma tendência que confirma a crise do catolicismo apostólico romano na Europa.

Eis a entrevista.

O que o senhor pensa dos movimentos conservadores (Opus, Legionários, kikos...)?

Eu sei que na Espanha se fala muito deles. E não duvido de que há aqueles que depositam toda a sua confiança neles... Mas eu não. A sociedade vai em outra direção! Se apostarmos só na linha conservadora, todos sairemos perdendo.

Se o senhor tivesse 20 anos, se sentiria atraído a ser padre?

Eu não me arrependo de fazer parte da Igreja. Nem o meu batismo nem o meu ingresso como sacerdote são motivo de amargura. Muito pelo contrário.

Mas se fosse jovem agora...

Bem, não me interrompa. O que eu posso dizer? A Igreja atual é muito hierárquica, nada democrática e não responde às expectativas da maioria da juventude. Os movimentos conservadores, insisto, não representam os jovens.

A esta altura, o que lhe parece o atual papa?

Eu tinha ilusões, mas agora tenho clareza de que a mudança não virá das mãos de Ratzinger.

Quando foi a última vez que Bento XVI lhe escreveu?

Há pouco tempo, ele me agradeceu, pela mediação do seu secretário, o envio do meu último livro, Ist die Kirche noch zu retten?. Fico feliz que a relação entre nós não tenha se rompido. No mais, espero que o próximo papa seja muito diferente.

O senhor critica o celibato entre os padres, mas lhe parece saudável o dos monges e das freiras?

Ah, isso é diferente. As ordens religiosas são como associações privadas, com uma série de cláusulas que são aceitas livremente. O celibato faz parte da sua identidade. Enriquece-lhes. Nada a ver com o caso dos padres, em que há uma imposição sem nenhum fundamento.

Uma curiosidade: por que Deus é Pai e não Mãe?

Não, não, Deus está além da identidade sexual. Nas Sagradas Escrituras, há metáforas tanto masculinas quanto femininas. Enfim, veja, é uma das muitas confusões que foram se arraigando ao longo da história.

13 de setembro de 2012

F. Capra - A MUDANÇA DE PARADIGMA

Fritjof Capra


Na minha vida de físico, meu principal interesse tem sido a dramática mudança de concepções e idéias que ocorreu na física durante os primeiros 30 anos deste século, que ainda está sendo elaborada em nossas atuais teorias da matéria. As novas concepções da física têm gerado uma profunda mudança em nossas visões de mundo; da visão de mundo mecanicista de Descartes e de Newton para uma visão holística, ecológica.

A nova visão da realidade não era, em absoluto, fácil de ser aceita pelos físicos no começo do século. A exploração dos mundos atômico e subatômico colocou-os em contato com uma realidade estranha e inesperada. Em seus esforços para apreender essa nova realidade, os cientistas ficaram dolorosamente conscientes de que suas concepções básicas, sua linguagem e todo o seu modo de pensar eram inadequados para descrever os fenômenos atômicos.

Seus problemas não eram meramente intelectuais, mas alcançavam as proporções de uma intensa crise emocional e, poder-se-ia dizer, até mesmo existencial. Eles precisaram de um longo tempo para superar essa crise, mas, no fim, foram recompensados por profundas introvisões sobre a natureza da matéria e de sua relação com a mente humana.

As dramáticas mudanças de pensamento ocorridas na física no princípio deste século têm sido amplamente discutidas por físicos e filósofos durante mais de 50 anos. Elas levaram Thomas Kuhn à noção de um "paradigma" científico, definido como "uma constelação de realizações - concepções, valores, técnicas, etc. - compartilhada por uma comunidade científica e usada por essa comunidade para definir problemas e soluções legítimos".

Mudanças de paradigmas, para Kuhn, ocorrem sob a forma de rupturas descontínuas e revolucionárias. Hoje, 25 anos depois da análise de Kuhn, reconhecemos a mudança de paradigma em física como parte integral de uma transformação cultural muito mais ampla.

A crise intelectual dos físicos quânticos nos anos 20 espelha-se hoje numa crise cultural semelhante, porém muito mais ampla. Conseqüentemente, o que estamos vendo é uma mudança de paradigmas que está ocorrendo não apenas no âmbito da ciência, mas também na arena social, em proporções ainda mais amplas. O paradigma que está agora retrocedendo dominou nossa cultura por várias centenas de anos, durante as quais modelou nossa moderna sociedade ocidental e influenciou significativamente o restante do mundo. Esse paradigma consiste em várias idéias e valores entrincheirados, entre os quais a visão do universo como um sistema mecânico composto de blocos de construção elementares, a visão do corpo humano como uma máquina, a visão da vida em sociedade como uma luta competitiva pela existência, a crença no progresso material ilimitado, a ser obtido por intermédio de crescimento econômico e tecnológico, e - por fim, não menos importante - a crença em que uma sociedade na qual a mulher é, por toda a parte, classificada em posição inferior à do homem é uma sociedade que segue uma lei básica da natureza. Todas essas suposições têm sido decisivamente desafiadas por eventos recentes. E, na verdade, está ocorrendo, na atualidade, uma revisão radical dessas suposições.

12 de setembro de 2012

O ATIVISMO QUÂNTICO COMO BASE PARA TODO SER

Amit Goswami


Há uma revolução acontecendo na ciência: uma verdadeira mudança de paradigma. Enquanto a ciência tradicional continua a ser materialista, um número considerável de cientistas apóia e desenvolve um paradigma baseado na primazia da consciência.
A evidência científica da existência de Deus, e o poder criativo de Deus é facilmente revelado quando visto através da lente conceitual deste novo paradigma. Ele está em um estado não ordinário de consciência em que nós somos um, e a partir dessa perspectiva o Deus nós estamos descobrindo na ciência não é separado de nós. Então, o que estamos a fazer sobre estas revelações?
Ativismo Quântico ativismo nos dá um manifesto para mudar a nós mesmos, nossas sociedades usando diretrizes deste novo paradigma.
Na parte do discursiva deste workshop, os aspectos de transformação da Física Quântica serão explicados. Para colocá-lo de forma sucinta, são eles: não-localidade (a capacidade de comunicar-se sem sinais); descontinuidade (a capacidade de tomar saltos quânticos sem passar pelas etapas intermediárias) e hierarquia confusa (a capacidade de relacionamento causal circular). Eu vou discutir com você as evidências para ponderar, e porque você deve levar a sério estes princípios quânticos. Este workshop também explicará como podemos usar estes princípios quânticos, assim como guiarmos nós mesmos e nossas sociedades para a criatividade, bem como para aprender a utilizar as energias do amor.
Em seguida iremos examinar a partir de onde nossas escolhas pessoais e transformações sociais vêm. Iremos discutir a reencarnação e evolução, neste contexto, bem como a nossa atual falta de inteligência emocional e como corrigir essa falta para nos prepararmos para a próxima etapa de nossa evolução em direção a uma mente intuitiva.
Esta oficina também vai nos levar através de exercícios vivenciais a explorar aspectos Quânticos da causalidade descendente como a forma de definir intenções, e como fazer nosso exercício do livre-arbítrio existir. Em outras palavras, vamos investigar o verdadeiro segredo da manifestação.
Em conexão com a dimensão sutil da realidade, vamos experienciar nossos centros de energia vital (chakras) e cura de chakras. no que se refere à criatividade, o workshop vai oferecer ao ativista Quântico uma visão do fluxo " fluxo criativo." E a partir de um exercício da recordação da memória, vamos aprender sobre o nosso dharma - uma palavra Sânscrita evocativa que se refere às buscas significado de nossa encarnação atual.
Finalmente, irei iniciá-lo para o aspecto mais urgente do ativismo quântico, um novo yoga integral (karma) para restabelecer significado e espiritualidade em nossos sistemas sociais de economia, política, educação e saúde. Nesse sentido, vamos falar sobre economia espiritual, vamos mergulhar em ecologia profunda e sustentabilidade, vamos falar sobre criatividade e pós-secularismo na educação, e cuidados de saúde integrativa e medicina preventiva. Se você quiser ser um jogador importante na formulação das mudanças que devem vir para nos salvar das loucuras de nossas formas materialistas das últimas décadas, então junte-se a nosso movimento. Considere a tornar-se um ativista quântico.
Amit Goswami, PhD. é professor emérito do departamento de física teórica da Universidade de Oregon, Eugene, Oregon, onde atua desde 1968. É um pioneiro do novo paradigma da ciência chamado "science within consciousness" (ciência dentro da consciência). Ele é autor do livro "Quantum mechanics", de grande sucesso, que é usado em universidades de todo mundo. Sues dois volumes para não cientistas, "The Physicist's View of Nature” traça o declínio e redescobre o conceito de Deus na Ciência.


Assistam também a entrevista de Amit Goswami no Programa Roda Viva.
Clique no link abaixo.


11 de setembro de 2012

Falar e Orar em línguas



Pe. José Raimuildo Vidigal, C.Ss.R.
 Tradutor e organizador da Bíiblia de Aparecida e atual reitor 
da nossa comunidade de Santo Afonso na Tijuca/ RJ




Jesus prometeu aos Apóstolos que eles falariam novas línguas e isto aconteceu no Pentecostes, quando peregrinos de várias nações entenderam cada qual em sua língua a pregação dos Doze (At 2,11).
A humanidade reencontrava a sua unidade perdida em Babel (Gn 11,9).
No livro dos Atos dos Apóstolos, por duas vezes a vinda do Espírito Santo é associada ao dom das línguas, também chamado de "glossolalia" (10,46 e 19,6).
Mas as línguas se tornaram um problema sério para são Paulo na igreja de Corinto, Por que?
Era uma cidade cosmopolita de 500 mil habitantes, com dois portos, por onde entravam e saiam pessoas de todo o mundo mediterrâneo. Dominada pelas religiões pagãs, nela se veneravam, sobretudo Afrodite (Vênus), e os deuses egípcios Ísis e Osiris. Muitos desses cultos incluíam falas misteriosas, pronunciadas em estado extático, sons incompreensíveis, que podiam ser tanto do bem como do mal, A situação se agravou quando isto foi  introduzido nas assembleias dos Cristãos.
Eis o que diz a Bíblia de Aparecida, na pag. 1885; "Paulo determina regras rigorosas este carisma, que ele coloca em último lugar em sua lista (1 Cor 12,28). E diz que prefere a palavra compreensível, capaz de instruir, ao entusiasmo incomunicável (1Cor 14,19)". Explicando esse texto, diz a mesma Bíblia: "Esse carisma não se destina às assembleias. Não deveria efetivar-se em público. Paulo considera opressão impor a glossolalia à comunidade", Pode ser que o dom ainda exista hoje, mas cresce entre nós uma onda que parece forçar a vivência dele, como se possuí-lo ou não possuí-lo determinasse quem é cristão perfeito e quem não é. Chega-se ao absurdo de querer ensinar os outros a falar em línguas!  Ora, um dom não se ensina: não se pode ensinar a ter visões, a fazer curas etc...
Mas os entendidos insistem:
 "Comece dizendo laira, laira, laira, depois você chegará a dizer frases como:
Kandala batiriushiba neganda karuncunda
yuri balaia shuman necat bariu kundt: barichá you baturi chamini katori "

Depois disso confessam candidamente que nem eles sabem o que acabam de dizer ... Tais –pessoas além de abusar de nossa inteligência, mostram que ignoram o capítulo 14 da Primeira Carta de Paulo aos Coríntios. Pois lá está no verso 9: "Se pela língua não proferis uma palavra clara, como se pode entender o que estais dizendo? Estaríeis de fato falando ao vento". Ora, Deus não nos dá carismas inúteis, mas o verdadeiro carisma é para o bem da comunidade. Há quem defenda as línguas dizendo que é uma oração secreta que o demônio não entende ... Quem garante isso? Aliás, pouco importa se ele entende ou não o que rezamos.
Se é uma oração ao menos quem ora deveria entendê-Ia, para que não seja como a voz de um papagaio.
Outros dizem que é a língua dos anjos. Isto não existe. Os anjos não emitem sons, pois não têm cordas vocais, são puro espírito; nem precisam de nosso tipo de linguagem, eles se comunicam pelo pensamento.
Se você quer orar com palavras inspiradas pelo próprio Deus, abra a sua Bíblia e reze os Salmos.
Não existe palavra nenhuma superior à Bíblia, por isso podemos dizer com certeza que nenhuma oração em línguas será mais elevada do que a Palavra de Deus que está nas Escrituras.
Agora, se você quer orar em línguas, exatamente como  Jesus ensinou a orar, com os mesmos sons por ele pronunciados, reze o "Pai Nosso" em aramaico:

Avunan d'bishmaya yeticadash sh 'mach, tite malcutach, yehie  sevionach heicama.d'bishma; af bar'a. Hab lan lachma d'sunchananyaomana, u 'ashvuk lan hoveinanheicama d'afenan shbaknan Iichayoveinan, ula t'ilan linissiuna elapatsian mim bishta.
Amiyn.

 Voce  já reparou que não existe nenhum documento da Igreja, nem de papas nem de bispos, incentivando ou elogiando o "falar em , línguas"?
Conforme os Evangelhos, o próprio Jesus nunca falou nem orou em línguas. Temos, sim, uma orientação dos nossos Bispos sobre o "orar e falar em línguas", mas é uma restrição.  É o Documento 53 da CNBB sobre a RCC, que diz no nº 63:
 "O apóstolo Paulo ensina: Numa assembleia prefiro dizer cinco palavras com a minha inteligência para instruir também aos outros, a dizer dez mil palavras em línguas (1 Cor 14,19). Como é difícil discernir, na prática, entre inspiração do Espírito Santo e os apelos do animador do grupo reunido, não se incentive a chamada oração em línguas e nunca se fale em línguas sem que haja intérprete." (1Cor 14,27-28).
Bastante claro, não é?  Mas onde está este intérprete que nunca aparece?

Pe. José Raimuildo Vidigal, C.Ss.R.
 Tradutor e organizador da Bíiblia de Aparecidae atual reitor da nossa comunidade de Santo Afonso na Tijuca/ RJ

Extraído do Jornal “O Redentor” Ano X Nº 199 – Setembro de 2012
Jornal da Paróquia Santo Afonso