O absurdo e a Graça

Na vida hoje caminhamos entre uma fome que condena ao sofrimento uma enorme parcela da humanidade e uma tecnologia moderníssima que garante um padrão de conforto e bem estar nunca antes imaginado. Um bilhão de seres humanos estão abaixo da linha da pobreza, na mais absoluta miséria, passam FOME ! Com a tecnologia que foi inventada seria possível produzir alimentos e acabar com TODA a fome no mundo, não fossem os interesses de alguns grupos detentores da tecnologia e do poder. "Para mim, o absurdo e a graça não estão mais separados. Dizer que "tudo é absurdo" ou dizer que "tudo é graça " é igualmente mentir ou trapacear... "Hoje a graça e o absurdo caminham, em mim lado a lado, não mais estranhos, mas estranhamente amigos" A cada dia, nas situações que se nos apresentam podemos decidir entre perpetuar o absurdo, ou promover a Graça. (Jean Yves Leloup) * O Blog tem o mesmo nome do livro autobiográfico de Jean Yves Leloup, e é uma forma de homenagear a quem muito tem me ensinado em seus livros retiros, seminários e workshops *

29 de maio de 2014

Sobre Orar e meditar...



... Cada um desperta de uma maneira particular, e como lhe disse, eu não desejo a ninguém de passar por onde eu tive que passar. Cada um terá um dia a oportunidade de se encontrar” ali onde ele esta”, como ele jamais tinha estado. Isto pode acontecer, como foi o meu caso, por meio de um coma profundo, mas isso também pode acontecer durante um passeio, escutando música, no coração de um enlace amoroso, observando o grande céu vazio e estrelado... De repente, entramos na “consciência de estar aqui”, de estar aqui desde sempre e para sempre.
É esta “consciência de ser” que o padre Serafim buscou primeiro enraizar em mim quando ele me pediu para meditar como uma montanha. Antes de querer orar como um homem, eu deveria saber como a montanha ora. Entrar na“ consciência de estar aqui” – “mineral” – não é uma simples metáfora que convida à estabilidade do corpo.
Tente estar aqui, como uma montanha, aberta a todos os ventos, a todos os tempos, com seu lado de sombra e o seu lado de luz e você verá que presente se instalará em você, que tranquilidade e também que comunhão com a terra e com tudo aquilo que nela germina e floresce.
Eu não sabia a que ponto a matéria era viva: “Se eles se calarem, as pedras gritarão”, dizia Yeshoua sobre os seus discípulos. Eu não as ouvi gritar, mas é preciso ser surdo para não ser sensível a sua vibração, vibração sonora no coração da noite. A montanha do Monte Athos, Agion Horas, canta uma estranha salmodia, um fino sorriso que é sua aquiescência ao Logos que informa e que faz do seu “caos” ou tohu va bohu uma ordem incessantemente renovada que nós chamamos de “Cosmos”.
Para desenvolver ainda melhor a “ consciência de estar aqui”, o padre Serafim me propôs um outro mestre : uma papoula em seu jardim. .....
... Foi por meio dela que eu deveria aprofundar minha consciência de estar aqui, de maneira “vegetal”.
.................................

Manter-se flexível, sentado e imóvel, demanda, no início, uma energia considerável; eu só pensava em fugir, eu tinha coisa melhor para fazer do que ficar “vegetando” em um vaso, pouco importa se esse vaso era um maravilhoso jardim de uma sublime montanha.
Estar aqui como uma montanha, como uma papoula, Presença imensa, Presença frágil, peso do eterno e vivacidade do instante neste simples “gesto” de estar aqui.
Mas este “Estar Ser aqui “ é movimento e Ele é também Sopro; é isso que o monge Serafim me fez compreender e sentir quando ele me pediu para “meditar como um oceano”.
“Escute o fluxo e o refluxo das ondas, escute o inspirar e o expirar, escute o seu Sopro...”
Para estar presente à Presença, para permanecer no Real, não há nada como a atenção à respiração. Se você estiver atento ao seu Sopro, você não poderá estar em nenhum outro lugar além do lugar onde você está. É um elemento importante da meditação hesicasta, não é apenas um exercício psicossomático que tem como função acalmar o mental ( mas só isso já seria uma profunda terapia, e que não custa caro), é também um exercício “pneumático “, espiritual no sentido primeiro do termo.
Segundo a antropologia Bíblica, um “espiritual” não é apenas alguém que tem um espírito (nous), mas alguém que tem um Sopro ( pneuma), alguém que respira profundamente; um profeta é um “inspirado”; sua profecia ou seu poema é sua “expiração”.
Compreenderemos melhor, então, que Yeshoua tenha transmitido à Samaritana o segredo de sua própria oração dizendo que é a adoração –“em pneumati kai aletheia – que deveríamos traduzir: “no Sopro e na Vigilância” ao invés de “em espírito e verdade”.
Esta ultima tradução faz da adoração, da meditação ou da oração uma ato “intelectual”, quando se trata na verdade, de fazer apenas um com o Sopro da Vida, o santo Pneuma, e devemos fazer isso com a-letheia, ou seja, literalmente , ” fora da letargia”, na vigilância...
A verdade não é , como eu já disse, ”uma verdade que temos”, um corpo de ideias e doutrinas que evocam ou “representam” mais ou menos bem real, mas em um estado de despertar e de vigilância.
Então compreende-se melhor quando cristo diz : “ A verdade vos libertará”. Sim a “vigilância” nos libertará... Quando somos vigilantes, não podemos mais ser “objetos” dos acontecimentos e das circunstâncias, permanecemos sujeito. A consciência de estar aqui, em um sopro vigilante, nos conduz a ser “Sujeito”, a nos tornarmos “Eu Sou”.
Jamais poderei agradecer o suficiente à vida que me fez encontrar o Padre Serafim que, através do seu ensinamento, manteve-me mais próximo da letra e do espírito do evangelho. Ele frequentemente me dizia: “Orar é respirar”; quando você está com alguém, você não pensa mais nesta pessoa, você está, você é com ela... Quando você está com Deus (e onde poderíamos mais estar? Se você é vivente, você naõ pode estar em outro lugar a não ser na vida) não pense nEle, esteja com Ele, seja com Ele, respire com Ele, respire a vida, a Luz, seja no movimento do presente que se dá.
“O sopro santo nos conduzirá a verdade toda inteira” – não esqueça de verificar! Respire conscientemente, permita-se ser conduzido pelo sopro santo a um estado de total vigilância: “aquilo que é tal qual isso é”, “aquele que é como Ele é” não deixarão de lhe aparecer.

Do livro “A Sabedoria do Monte Athos” Jean Yves Leloup

28 de maio de 2014

Cientistas Descobrem Ponto Crítico Para o Contágio de Ideias.

UM vídeo para assistir com muita atenção
e pensar com muito carinho



27 de maio de 2014

45 anos da morte do Pe. Henrique Pereira Netto no Recife

(Atualização  de  postagem feita de 2011) 

Pe. Antonio Henrique Pereira Neto Foi covardemente assassinado e quiseram ainda, para piorar, justificar que ele era homossexual, como se isso pudesse justificar qualquer morte. 
Além de assassinos eram homofóbicos. Crime cometido, em 27-05-1969, na Cidade Universitária, em Recife-PE.
Na verdade queriam atingir D. Helder de quem o Pe. Henrique era assessor.
Deixo aqui o cordel do pe Henrique de autoria de Patativa do Assaré.



O Pe. Henrique e o Dragçai da Maldade  (Patativa do Assaré)

 Sou um poeta do mato
vivo afastado dos meios
minha rude lira canta
casos bonitos e feios
eu canto meus sentimentos
e os sentimentos alheios

Sou caboclo nordestino
tenho mão calosa e grossa,
a minha vida tem sido
da choupana para roça,
sou amigo da família
da mais humilde palhoça
Canto da mata frondosa
a sua imensa beleza,
onde vemos os sinais
do pincel da Natureza,
e quando é preciso eu canto
a mágoa, a dor e a tristeza

Canto a noite de São João
com toda sua alegria,
sua latada de folha
repleta de fantasia
e canto o pobre que chora
pelo pão de cada dia

Canto o crepúsculo da tarde
e o clarão da linda aurora,
canto aquilo que me alegra
e aquilo que me apavora
e canto os injustiçados
que vagam no mundo afora

E, por falar de injustiça
traidora da boa sorte
eu conto ao leitor um fato
de uma bárbara morte
que seu deu em Pernambuco
famoso Leão do Norte

Primeiro peço a Jesus
uma santa inspiração
para escrever estes versos
sem me afastar da razão
contando uma triste cena
que faz cortar coração

Falar contra as injustiças
foi sempre um dever sagrado
este exemplo precioso
Cristo deixou registrado.
Por ser reto e justiceiro
foi no madeiro cravado

Por defender os humildes
sofreu as mais cruéis dores
e ainda hoje nós vemos
muitos dos seus seguidores
morrerem barbaramente
pelas mãos dos malfeitores

Vou contar neste folheto
com amor e piedade
cujo título encerra
a mais penosa verdade:
O Padre Antonio Henrique
e o Dragão da Maldade

O Padre Antonio Henrique
muito jovem e inteligente
a 27 de Maio
foi morto barbaramente,
no ano 69
da nossa era presente

Padre Henrique tinha apenas
29 anos de idade,
dedicou sua vida aos jovens
pregando a santa verdade
admirava a quem visse
a sua fraternidade

Tinha três anos de padre
depois que ele se ordenou
pregava a mesma missão
que Jesus Cristo pregou
e foi por esse motivo
que o dragão lhe assassinou

Surgiu contra Padre Henrique
uma fúria desmedida
ameaçando a Igreja
porque estava decidida
conscientizando os jovens
sobre os problemas da vida

Naquele tempo o Recife
grande bonita cidade
se achava contaminada
pelo dragão da maldade,
a rancorosa mentira
lutando contra a verdade

Nesse clima de tristeza
os dias iam passando
porém nosso Padre Henrique
sempre a verdade explicando
e ameaças contra a igreja
chegava de vez em quando




Por causa do seu trabalho
que só o que é bom almeja
o espírito da maldade
que tudo estraga e fareja
fez tristes acusações
contra D. Hélder e a igreja

Com o fim de atemorizar
o apóstolo do bem
chegavam cartas anônimas
com insulto e com desdém,
porém quem confia em Deus
jamais temeu a ninguém

Anônimos telefonemas
com assuntos te terror
chegavam constantemente
cheios de ódio e rancor
contra Pe. Henrique, o amigo
da paz, da fé e do amor

Os ditos telefonemas
faziam declaração
de matar 30 pessoas
sem ter dó nem compaixão
que tivessem com D. Hélder
amizade ou ligação

Veja bem leitor amigo
quanto é triste esta verdade
o que defende os humildes
mostrando a luz da verdade
vai depressa perseguido
pelo dragão da maldade

Mas o ministro de Deus
possui o santo dever
de estar ao lado dos fracos,
suas causas defender
não é só salvar a alma
também precisa comer

Os poderosos não devem
oprimir de mais a mais,
a justiça é para todos
vamos lutar pela paz
ante os direitos humanos
todos nós somos iguais

A Igreja de Jesus
nos oferece orações
mas também precisa dar
aos humildes instruções
para que possam fazer
suas reivindicações

Veja meu caro leitor,
a maldade o quanto é:
o Padre Henrique ensinava
cheio de esperança e fé,
aquelas mesmas verdades
de Jesus de Nazaré

E foi por esse motivo
que surgiu a reação,
foi o instinto infernal
com a fúria do dragão,
que matou o nosso guia
de maior estimação

A 27 de maio,
o santo mês de Maria
no ano 69
a Natureza gemia
por ver o corpo de um padre
morto sobre a terra fria

Naquele dia de luto
tudo se achava mudado,
parece até que o Recife
se mostrava envergonhado
por ver que um triste segredo
estava a ser revelado

Rádio, TV e jornais,
nada ali noticiaram
porque as autoridades
estas verdades calaram
e o padre Antonio Henrique
morto no mato encontraram

Estava o corpo do padre
de faca e bala furado,
também mostrava ter sido
pelo pescoço amarrado
provando que antes da morte
foi bastante judiado

No mato estava seu corpo
em situação precária:
na região do lugar
Cidade Universitária
foi morto barbaramente
pela fera sanguinária

Por aquele mesmo tempo
muitos atos agravantes
surgiram lá no Recife
contra os jovens estudantes
que devem ser no futuro
da pátria representantes

Invadiram o Diretório
Estudantil, um recinto
Universidade Católica
de Pernambuco e, não minto,
foi atingido por bala
o estudante Cândido Pinto

Foi seqüestrado e foi preso
o estudante Cajá
o encerramento no cárcere
passou um ano por lá
Meu Deus! a democracia
deste país onde está?

Cajá o dito estudante
pessoa boa e benquista,
pra viver com os pequenos
deixou de ser carreirista
e por isto, o mesmo foi
taxado de comunista

Será que ser comunista
é dar ao fraco instrução,
defendendo os seus direitos
dentro da justa razão,
tirando a pobreza ingênua
das trevas da opressão?

Será que ser comunista
é mostrar certeiros planos
para que o povo não viva
envolvido nos enganos
e possa se defender
do jogo dos desumanos?

Será que ser comunista
é saber sentir as dores
da classe dos operários,
também dos agricultores
procurando amenizar
horrores e mais horrores?

Tudo isto, leitor, é truque
de gente sem coração
que, com o fim de trazer
os pobres na sujeição,
da palavra comunismo
inventa um bicho papão

Porém a Igreja dos pobres
fiel se comprometeu,
cada um tem o direito
de defender o que é seu,
para quem segue Jesus
nunca falta um Cirineu

Mostrando a mesma verdade
de Jesus na Palestina
o movimento se estende
contra a opressão que domina
sobre os nossos irmãos pobres
de toda América Latina

Quando Jesus Cristo andou
pregando sua missão
falou sobre a igualdade,
fraternidade e união,
não pode haver injustiças
na sua religião

Por este motivo a Igreja
nova posição tomou
dentro da América Latina
a coisa agora mudou,
o bom cristão sempre faz
aquilo que Deus mandou.

É justo por excelência
o Autor da Criação,
devemos amar a Deus
por direito e gratidão,
cada um tem o dever
de defender seu irmão

Por isto, os nossos pastores
trilham penosas estradas
observando de Cristo
suas palavras sagradas,
trabalhando em benefício
das classes desamparadas

Declarando dessa forma
a santa luz da verdade
para que haja entre todos
amor e fraternidade
e boa organização
dentro da sociedade

Pois vemos o estudante
pelo poder perseguido,
operário, agricultor,
o nosso índio querido
e o negro? Pobre coitado!
é o mais desprotegido

Vendo a medonha opressão
que vem do instinto profano,
me vem a mente o que disse
o grande bardo baiano
O Poeta dos Escravos
apelando ao Soberano

Senhor Deus dos desgraçados
dizei-me vós, Senhor Deus,
se é mentira, se é verdade
tanto horror perante os céus.

Meu caro leitor desculpe
esta falta que cometo,
me desviando do assunto
da história que lhe remeto,
o caso do padre Henrique,
motivo deste folheto

Se me desviei do ritmo,
não queira se aborrecer,
é porque as outras cousas
eu queria lhe dizer,
pois tudo que ficou dito,
você precisa saber

Mas, agora lhe prometo
com bastante exatidão,
terminar para o amigo
esta triste narração
contando tudo direito
sem sair da oração

Eu disse ao caro leitor
que foi no mato encontrado
nosso padre Antonio Henrique
de faca e bala furado,
agora conto direito
como ele foi sepultado

Na Igreja do Espinheiro
foi o povo aglomerado
e ao cemitério da Várzea
foi pelos fiéis levado
o corpo do padre Henrique
que morreu martirizado

Enquanto o cortejo fúnebre
ia levando o caixão
este estribilho se ouvia
pela voz da multidão:
“Prova de amor maior não há
que doar a vida pelo irmão”

Treze quilômetros a pé
levaram o corpo seu
lamentando lagrimosos
o caso que aconteceu
a morte de um jovem padre
que pelos jovens morreu

Ia naquele caixão
quem grande exemplo deixou
em defesa dos oprimidos
a sua vida entregou
e foi receber no céu
o que na terra ganhou

O corpo ia acompanhado
em forma de procissão
com as vozes dos fiéis
ecoando na amplidão:
“Prova de amor maior não há
que doar a vida pelo irmão”

A vida do padre Henrique
vamos guardar na memória
ele morreu pelo povo,
é bonita a sua história
e foi receber no céu
sua coroa de glória

Pensando no triste caso
entristeço e me comovo,
o que muitos já disseram
eu disse e digo de novo
o padre Henrique é um mártir
que morreu pelo seu povo

Prezado amigo leitor
esta dor é minha e sua
de ver morrer padre Henrique
de morte tirana e crua
porém a Igreja dos pobres
sua luta continua

Quem da Igreja do Espinheiro
Santa Casa de oração
ao cemitério da Várzea
palmilhar aquele chão
a 27 de maio
sentirá recordação

Do corpo de um padre jovem
conduzido em um caixão
e parece ouvir uns versos
com sonora entoação
“Prova de amor maior não há
que doar a vida pelo irmão”




                    

Um importante recado da Mãe Terra.


26 de maio de 2014

Tempos difíceis.

Nos meus 62 anos de vida, não me recordo de tempos de tamanha perplexidade e falta de certezas como os que vivemos atualmente. Nada, absolutamente nada nos dá a certeza de que podemos afirmar que sabemos o que realmente está acontecendo.
Esse tipo de situação acaba por gerar uma insegurança que certamente é favorável a quem quer aprisionar consciências. O que se lê na mídia é  o oposto do que está realmente acontecendo, as noticias e mensagens nas redes sociais, são em sua maioria manipuladas por interesses ocultos. Assim um fato como o da morte do cinegrafista, pode ter vários autores e pior o que será julgado pode não ser exatamente o verdadeiro autor...
Da mesma forma um médico cubano pode ser um Deus para a população carente, ou um demônio usurpador para alguém que queria defender o mercado para os médicos brasileiros.
Uma afirmação do papa Francisco pode dependendo da repercussão ser desmentida como falsa pelo porta voz do vaticano conservador.
Uma declaração de um padre midiático pode ter várias interpretações, e caso ele se retrate, também pode ser visto como covarde ou como oportunista ou ainda como alguém que é sensato e repensou o que havia dito.
Já não consigo acreditar em declarações venham de onde vier. O oportunismo tomou conta, a sede de poder parece que virou ideia fixa de muitos.
Assim pode-se usar a boa fé das pessoas para manipulá-las. As diferenças de opinião parece que agora precisam ser aplainadas. Divergir pode ser sinal de oposição e é prontamente combatido.
No afã de defender posições, pode-se até ter as mesmas posturas (reprováveis) que são combatidas nos opositores. Os radicais nos extremos , se igualam...

Assim, vejo que nosso querido poeta Carlos Drummond de Andrade continua a cada dia mais atual:

"...Não, o tempo não chegou de completa justiça.
O tempo é ainda de fezes, maus poemas,
alucinações e espera.
O tempo pobre, o poeta pobre
fundem-se no mesmo impasse.
..."

25 de maio de 2014

Bem aventurados os construtores da Paz e da Concórdia !

Num mundo em que construir muros é cada dia mais comum, 
temos que agradecer muito a Deus 
que ainda haja quem acredite em construir pontes.
A mão estendida sempre será uma garantia maior de proteção e Paz 

do que qualquer muro ou fortaleza.
Deus abençoe e proteja o papa Francisco, o embaixador do príncipe da Paz.



A Paz: Dom de Deus e Obra do Homem
Os construtores da Paz são aqueles que praticam a justiça, 
amam,defendem e promovem a vida na sua integridade 

Transformando Absurdo em Graça carta aos diretores de asilo de loucos Antonin Arteau

Nise da Silveira tratando a loucura pela arte:

"... e não podemos admitir que se impeça o livre desenvolvimento de um delírio, tão legítimo e lógico como qualquer outra série de ideias e atos humanos"
Carta aos diretores de asilos de loucos
Antonm Artaud



15 de abril de 2014

João XXIII - Discurso da Lua

(Papa João XXIII)


http://www.youtube.com/watch?v=T7ZBhK88HlE

Meus queridos filhinhos, estou ouvindo as vossas vozes. A minha é só uma voz, mas reúne todas as vozes do mundo; e aqui, de facto, o mundo está representado. Poderíamos dizer que até a Lua está com pressa esta noite... Observem-a, là no alto, está olhando para este espetáculo ... Nós fechamos um grande dia de paz... Sim, de paz: Glória a Deus nas alturas, e paz aos homens de boa vontade.... Se perguntasse, se pudesse pedir agora a cada um: vós de que lugar vêm? Os filhos de Roma, que estão aqui especialmente representados, responderiam: “Ah, nós somos os filhos mais de perto, e Vós sois o nosso Bispo”. Então, filhinhos de Roma, sentem realmente estarem a representar a "Roma Caput Mundi" (Roma Cabeça do Mundo), a capital do mundo assim como por indicação da Providência foi chamada a sê-la através os séculos. Minha pessoa vale nada: é um irmão que fala para vocês, um irmão que virou pai por vontade de Nosso Senhor... Vamos continuar a querer bem um ao outro; também assim, olhando-se assim, nos encontre: apertar-se naquele que nos une, e deixar de lado, se tivesse, algo que nos pode dar um pouco de dificuldade... Voltando para casa, encontrarão as crianças. Dêem a elas uma carícia e digam: “Esta é a carícia do Papa”. Talvez as encontreis com alguma lágrima por enxugar. Tende uma palavra de consolo para aqueles que sofrem. Saibam os aflitos que o Papa está com os seus filhos, sobretudo nas horas de tristeza e de amargura. E depois todos juntos vamos amar-nos uns aos outros: cantando, suspirando, chorando, mas sempre cheio de confiança em Cristo que nos ajuda e nos escuta, continuando a prosseguir o nosso caminho. Adeus, filhinhos. À benção junto o desejo de uma boa noite.

10 de abril de 2014

Pierre Teilhard de Chardin




Piere Teilhard de Chardin  foi padre jesuítateólogofilósofo e paleontólogo. Nascido na França tentou construir uma visão integradora entre ciência e teologia. Através de suas obras, legou para a sua posteridade uma filosofia que reconcilia a ciência do mundo material com as forças sagradas do divino e sua teologia. Disposto a desfazer o mal entendido entre a ciência e a religião, conseguiu ser mal visto pelos representantes de ambas. Muitos colegas cientistas negaram o valor científico de sua obra, acusando-a de vir carregada de um misticismo e de uma linguagem estranha à ciência. Do lado da Igreja Católica, por sua vez, foi proibido de lecionar, de publicar suas obras teológicas e submetido a um quase exílio na China.

"Aparentemente, a Terra Moderna nasceu de um movimento anti-religioso. O Homem bastando-se a si mesmo. A Razão substituindo-se à Crença. Nossa geração e as duas precedentes quase só ouviram falar de conflito entre Fé e Ciência. A tal ponto que pôde parecer, a certa altura, que esta era decididamente chamada a tomar o lugar daquela. Ora, à medida que a tensão se prolonga, é visivelmente sob uma forma muito diferente de equilíbrio – não eliminação, nem dualidade, mas síntese – que parece haver de se resolver o conflito."
(Teilhard de CHARDIN, O Fenómeno Humano)





Biografia:

Criado em uma família profundamente católica, Chardin entrou para o noviciado daCompanhia de Jesus em Aix-en-Provence no ano de 1899 e para o juniorado em 1900, em Laval. Era a época das reformas liberais de Waldeck-Rousseau, que retirara das universidades católicas o direito de conceder graus e posteriormente dissolveu as ordens religiosas e expulsou vinte mil religiosos da França.  Por este motivo, teve que deixar a França e os seus estudos prosseguiram na ilha de JerseyInglaterra, onde cursou filosofia e letras. Licenciou-se neste curso em 1902. Entre 1905 e 1908 foi professor de física e química no colégio jesuíta da Sagrada Família do Cairo, no Egito, onde teve oportunidade de continuar suas pesquisas geológicas, iniciadas na Inglaterra. Seus estudos de teologia foram retomados em Ore Place, de 1908 a 1912. Ordenou-se sacerdote em 1911.
Entre 1912 e 1914 cursou paleontologia no Museu de História Natural de Paris. Foi a sua porta de entrada na comunidade científica. Durante seus estudos teve a oportunidade de visitar os sítios pré-históricos do noroeste da Espanha, entre eles, a Caverna de Altamira.
Durante a Primeira Guerra Mundial, foi carregador de maca dos feridos e depois capelão em diversas frentes de batalha.
Passada a Guerra, retomou os estudos em Paris, onde obteve o doutorado em 22 de março de 1922 na Universidade de Sorbonne com a tese: Os mamíferos do eoceno inferior francês e seus sítios. Em 1920 tornara-se professor de geologia no Instituto Católico de Paris. O ambiente intelectual de Paris proporcionou-lhe encontros fecundos para o exercício intelectual. Costumava apresentar suas ideias a plateias de jovens leigosseminaristas e professores. Do ponto de vista teológico, já assumira as ideias evolucionistas e realizava uma síntese original entre a ciência e a fé cristã.
Em 1922, escreveu Nota sobre algumas representações históricas possíveis do pecado original, que gerou um dossiê pela Santa Sé, acusando-o de negar o dogma do pecado original. Teve que assinar um texto que exprimia este dogma do ponto de vista ortodoxo e foi obrigado a abandonar a cátedra em Paris e embarcar para Tianjin na China. Este fato marcará uma nova etapa da sua vida: o silêncio sobre temas eclesiais e teológicos que duraria o resto da sua vida. Foi-lhe permitido trabalhar em pesquisas científicas e suas publicações deveriam ser cuidadosamente revisadas.
Embora proibido de escrever sobre temas eclesiais e teológicos, seus superiores imediatos estimularam suas pesquisas e escritos, desde que sua ortodoxia fosse assegurada por uma séria revisão, com a esperança de uma publicação posterior.
Em Pequim, realizou diversas expedições paleontológicas, e em 1929 participou da descoberta e estudo do sinantropo - o homem de Pequim. Também realizou pesquisas em diversos lugares do continente asiático, como o Turquestão, a Índia e a Birmânia.
Entre novembro de 1926 e março de 1927, estimulado pelo editor da coleção de espiritualidade Museum Lessianum, escreveu O Meio Divino a partir de suas notas de retiro. A obra foi submetida a dois censores romanos, que a consideraram aceitável. Ao ser submetida ao Imprimatur, o cônego encarregado submete a obra a teólogos romanos, que a consideraram suspeita pela originalidade. Apesar disto, cópias inéditas da obra passaram a circular, datilografadas e policopiadas.
Em Pequim, escreveu sua obra prima: O Fenômeno Humano. Encaminhou a obra a Romaem 1940, que prometeu o exame por teólogos competentes. Várias revisões foram encaminhadas sem que o nihil obstat fosse concedido.
Em 1946 retornou a Paris. Seus textos mimeografados continuavam a circular e suas conferências lotavam os auditórios. Foi convidado a lecionar no Collège de France. Diante de ameaças de novas sanções pela Santa Sé, dirige-se a Roma em 1948. A visita foi inútil: foi proibido de ensinar no Colégio da França e a publicação do Fenômeno Humano não foi autorizada.
Entre 1949 e 1950 deu cursos na Sorbonne que geraram a obra O grupo zoológico humano. Em 1950 foi eleito membro da Academia de Ciências do Instituto de Paris.
Em 1950, foi promulgada a encíclica Humani Generis pelo papa Pio XII, que na opinião de Chardin, bombardeava as primeiras linhas de seu trabalho.
Em 1951, mudou-se para Nova York, a convite da Fundação Wenner-Gren, que patrocinou duas expedições científicas na África para pesquisar sobre as origens do homem sob sua coordenação.
Pierre Teilhard de Chardin faleceu em 10 de abril de 1955, num domingo de Páscoa, em Nova York. No campo científico deixou uma obra vasta: cerca de quatrocentos trabalhos em vinte revistas científicas.
No campo filosófico, seu pensamento pode ser editado por um comitê internacional porque ele deixou do direito de suas obras para um colega, não para a sua ordem religiosa. No mesmo ano de sua morte, as Éditions du Seuil lançaram o primeiro volume das Ouevres de Teilhard de Chardin.
Santo Ofício solicitou ao Arcebispo de Paris que detivesse a publicação das obras. Em 1957, um decreto deste mesmo órgão decidiu que estes livros fossem retirados das bibliotecas dos seminários e institutos religiosos, não fossem vendidos nas livrarias católicas e não fossem traduzidos. Este decreto não teve muita adesão. Cinco anos mais tarde, uma advertência foi publicada, solicitando aos padres, superiores de Institutos Religiosos, seminários, reitores das Universidades que protejam os espíritos, principalmente o dos jovens, contra os perigos da obra de Teilhard de Chardin e seus discípulos. Segundo esta advertência, "sem fazer nenhum juízo sobre o que se refere às ciências positivas, é bem manifesto que, no plano filosófico e teológico, estas obras regurgitam de ambiguidades tais e até de erros graves que ofendem a doutrina católica".
A sua obra continuou a ser editada, chegando ao décimo terceiro volume em 1976, pelas Éditions du Seuil e foi traduzida em diversos idiomas. Seu trabalho teve grande repercussão, gerando diversos estudos a cerca de sua obra até nos dias atuais.
Em 12 de maio de 1981, por ocasião da comemoração do centenário do seu nascimento, Chardin teve sua obra reconhecida pela Igreja através de uma carta enviada pelo cardeal Agostino Casaroli, secretário de Estado do Vaticano, ao reitor do Instituto Católico de Paris. A carta afirma:
Sem dúvida, o nosso tempo recordará, para além das dificuldades da concepção e das deficiências da expressão dessa audaciosa tentativa de síntese, o testemunho da vida unificada de um homem aferrado por Cristo nas profundezas do seu ser, e que teve a preocupação de honrar, ao mesmo tempo, a fé e a razão, respondendo quase que antecipadamente a João Paulo II: "Não tenham medo, abram, escancarem as portas a Cristo, os imensos campos da cultura, da civilização, do desenvolvimento"
Suas ideias foram sendo incorporadas ao discurso oficial da Igreja, como depreende-se da mensagem do Papa Bento XVI por ocasião da Festa da Santíssima Trindade de 2009, dirigida aos fieis em Roma: "Em tudo o que existe, encontra-se impresso, em certo sentido, o "nome" da Santíssima Trindade, pois todo o ser, até as últimas partículas, é ser em relação, e deste modo se transluz o Deus-relação; transluz-se, em última instância, o Amor criador. Tudo procede do amor, tende ao amor e se move empurrado pelo amor, naturalmente, segundo diferentes níveis de consciência e de liberdade."… "Utilizando uma analogia sugerida pela biologia, diríamos que o ser humano tem no próprio "genoma" um profundo selo da Trindade, do Deus-Amor".3 E ainda mais claro, no dia 24 de Julho em Aosta, Itália o Papa Bento XVI diz: "Nós mesmos, com todo o nosso ser, temos que ser adoração e sacrifício, restituir o nosso mundo a Deus e assim transformar o mundo. A função do sacerdócio é consagrar o mundo a fim de que se torne hóstia viva, para que o mundo se torne liturgia: que a liturgia não seja algo ao lado da realidade do mundo, mas que o próprio mundo se torne hóstia viva, se torne liturgia. É a grande visão que depois teve também Teilhard de Chardin: no final teremos uma verdadeira liturgia cósmica, onde o cosmos se torne hóstia viva."



Como geopaleontólogo, Teilhard de Chardin estava familiarizado com as evidências geológicas e fósseis da evolução do planeta e da espécie humana. Como sacerdote cristão e católico, tinha consciência da necessidade de um meta-cristianismo que contribuísse para a sobrevivência do planeta e da humanidade sobre ele . No cerne da questão está a visão filosófica, teológica e mística de Teilhard de Chardin a respeito da evolução de todo o Universo, do caos primordial até o despertar da consciência humana sobre a Terra, estágio esse que, segundo ele, será seguido por uma Noogenese, a integração de todo o pensamento humano em uma única rede inteligente que acrescentará mais uma camada em volta da Terra: a Noosfera, que recobrirá todo o Biosfera Terrestre. A orientar todo esse processo, existe uma força que age a partir de dentro da matéria, que orienta a evolução em direcção a um ponto de convergência: o Ponto Ômega. Teilhard sustentava a ideia de um Panenteísmo cósmico: a crença de que Deus e o Universo mantém uma criativa e dinâmica relação de progressiva evolução.
Como escritor, a sua obra-prima é O Fenômeno Humano, além de centenas de outros escritos sobre a condição humana. Como paleontólogo, esteve presente na descoberta do Homem de Pequim. Ainda que ele estivesse presente depois do descobrimento do “Piltdown Man” a evidência aponta a o fato que ele nunca perdeu prestígio com a falsificação de um suposto fóssil "O Homem de Piltdown". Como Teilhard disse em 1920: "anatomicamente as partes não cabem."
Segundo Chardin, a Terra seria composta de várias camadas esféricas:
Barisfera ou núcleo metálico terrestre;
Litosfera ou camada de rochas;
Hidrosfera ou camada de água;
Atmosfera ou camada de ar;
Biosfera ou esfera da vida;
Noosfera ou esfera do pensamento ou espírito humano:
Cristosfera ou âmbito de Cristo 







Obras de Teilhard de Chardin
Cartas a Léontine Zanta
Cartas de Viagem
Cartas do Egipto
Ciência e Cristo
O Fenómeno Humano
Hino do Universo
Lugar do Homem no Universo
O Meio Divino
A Minha Fé
Reflexões e Orações no Espaço-Tempo
Sobre a Felicidade / Sobre o Amor



Obras Publicadas sobre Teilhard de Chardin
Rideau, Émile, s.j. - A favor de Teilhard ou contra?
Silvestre, José Gomes - Acção e sentido em Teilhard de Chardin
Cuénot, Claude - Aventura e Visão de Teilhard de Chardin
Barjon (L.) + Leroy (P.) - A Carreira Científica de Teilhard de Chardin
Arnould, Jacques - Darwin, Teilhard de Chardin, a Igreja e a evolução
JANEIRA, Ana Luísa - Energética no pensamento de Pierre Teilhard de Chardin
Lessa, Almerindo - As Estradas espirituais das ciências
Colomer, Eusébio, s.j. - A Evolução segundo Teilhard de Chardin
Tresmontant, Claude - Introdução ao Pensamento de T. de Chardin
Patrício, Manuel Ferreira - Leonardo Coimbra e Teilhard de Chardin
Demoulin, J.P. + autres - O Tempo e o Modo – Teilhard de Chardin
Lubac, Henri de - Oração (A) de Teilhard de Chardin
Mortier, Jeanne-Marie - Pierre Teilhard de Chardin Pensador Universal
Sebastião, Luís Miguel - Possibilidade de Fundamentação da Educação no Pensamento de Teilhard de Chardin
Dupleix, André - Quinze dias com Teilhard de Chardin
Fragata, Júlio - Revista Portuguesa de Filosofia – Teilhard de Chardin (entre out.)
Magalhães s.j., Vasco - Revista Portuguesa de Filosofia - Teilhard de Chardin (Braga)
Wildiers, N.M. - Teilhard de Chardin
L.Salleron+A.Monestier - Teilhard de Chardin - pró/contra
Noël Martin-Deslias - Teilhard de Chardin , aventureiro do espírito
Coffy, Robert - Teilhard de Chardin e o socialismo
(diversos autores) - Teilhard de Chardin, Evolução e Esperança
Nunes, J. Paulo - Teilhard de Chardin, o S. Tomás do século XX
Reimão, Cassiano - Teilhard de Chardin: evolução e esperança
Reis, António do Carmo - A Visão da história em Teilhard de Chardin
Pasolini, Piero - O Futuro melhor do que qualquer passado
Boff, Leonardo - Evangelho Do Cristo Cósmico




8 de abril de 2014

50 anos sem João XXII

( D. Helder Câmara)

João XXIII - O Santo que Eu Conheci (por D. Helder)





Em junho de 1963, há cinco anos [Esta reportagem é de 1968] , morria João, o camponês que ocupava a cadeira de Pedro, o pescador. João deixou, além do exemplo de uma vida santa, um punhado de historinhas humanas, reunidas no livro "Fioretti do Bom Papa João". “REALIDADE” [uma famosa revista dos anos 60] publica algumas dessas histórias, um diário dos últimos dias do papa e este relato exclusivo do padre Helder Câmara, arcebispo de Olinda e Recife.




Um dia, o Presidente Juscelino Kubitschek perguntou-me se eu aceitaria ir ao Vaticano em missão especial, como embaixador extraordinário, acompanhado de dois diplomatas, transmitir ao Papa João um recado em nome do Brasil.
Quando ouvi o recado, achei-o tão belo, que nem vacilei em aceitar a missão.
Caber-me-ia dizer ao papa:
- Santo Padre, se um filho vai inaugurar uma casa, casa de seu futuro, de seu sonho, mes¬mo que saiba que o Pai não vai poder comparecer, tem, assim mesmo, a obrigação sagrada de convidar o Pai.
Tratava-se, já se vê, da inauguração de Brasília: Mesmo tendo certeza de que o Papa João não poderia vir à nossa terra, o Brasil tinha a fineza de convidá-lo.
Os dois diplomatas que estariam comigo seriam embaixador Moacir Briggs, então nosso representante junto à Santa Sé, e o embaixador Hildebrando Acioli, que também lá estivera representando o Brasil.
A saúde do embaixador Acioli, já então combalida, não permitiu que o tivéssemos conosco. Apenas o embaixador Briggs e eu participamos da missão que, salvo engano, se manteve secreta até hoje.
O próprio papa nos abriu a porta e fez, de início, um comentário que eu só conto porque é flagrante da alma de Angelo Roncalli:
"- Oh! Tinham-me dito que eu ia receber um grande arcebispo e vejo um pequeno arcebispo ..."
Mas logo se formalizou e disse:
"- Mas eu sei que vem em missão especial do Brasil.
Como vai o presidente? "
Quando transmiti, textualmente, o recado que me cabia transmitir, o Santo Padre se comoveu profundamente e disse:
"- Nunca se ouviu dizer que um chefe de Estado mandasse ao papa um recado tão cristão. "
E três vezes repetiu:
"- Eu preciso ir ao Brasil". Mas logo ajuntou:
"- Mas eu não posso ir ao Brasil", lamentou o papa.
Perguntei ao Santo Padre se ele me permitia pôr termo à missão oficial e se ele me consentia falar como filho.
O Papa João me olhou como se não estivesse entendendo.
Acrescentei:
"- Permita-me aproveitar esta oportunidade única e abrir-lhe meu coração de filho."
Prontamente me autorizou a dizer o que bem entendesse. Sem perda de tempo, comentei:
"- O que me parece importante, Santo Padre, não é sua viagem ao Brasil. Sonho com uma viagem sua incomparavelmente mais importante. "
Falei, então, do esforço desesperado que a Ásia e a África tinham feito reunindo-se em Bandung. Lembrei que o escândalo do século é o distanciamento sempre maior entre o mundo desenvolvido e o mundo subdesenvolvido. Tive a audácia filial de sugerir que ele reunisse, por exemplo, em Jerusalém, a meio caminho entre o Oriente e o Ocidente os técnicos dos países de abundância e dos países de miséria. O indispensável seria que ele comparecesse, em pessoa, ao encontro. A viagem do papa teria o alcance do lançamento de um Sputnik - os primeiros estavam, então, sendo lançados - e a Igreja levaria uma contribuição decisiva à causa do
desenvolvimento.
O Santo Padre foi generosíssimo ao escutar o filho audacioso. E comentou:
"- é preciso fazer isto. É preciso. Mas eu não posso fazer."
Pressentindo que ele aludia a obstáculos surgidos no caminho e usando da liberdade de dizer o que bem entendesse, levei ao auge a audácia e disse:
"- Desde menino, Santo Padre, me acostumei a pensar que acima do papa só existe Deus."
E veio uma resposta deliciosa, cem por cento roncalliana:
"- Se você estivesse no meu lugar, saberia que oito pessoas me controlam aqui dentro. "



O Papa João, pouco depois, teve audácias santas como a convocação do Concílio Ecumênico. Em matéria de viagens, não conseguiu ir mais longe do que a Assis. A Providência reservava ao seu grande sucessor a responsabilidade e a glória de partir em todas as direções, aonde leva o Espírito de Deus, como Peregrino da Paz.
Em outra audiência extraordinária assisti a duas lições extraordinárias do Papa João.
O Concílio se iniciara, despertando enorme euforia em todos os bispos que sonhavam com a atualização e renovação da Igreja. Um dia, uns quinze bispos, de vários países, foram ao Santo Padre e um deles falou em nome de todos:
"- O senhor é feliz, Santo Padre. Deus lhe inspirou um Concílio diferente. O senhor foi logo afirmando que o Vaticano II não vinha para novas condenações, porque o que havia a condenar já estava condenado e mais que condenado. O senhor disse que o Concílio vinha para reformar a Igreja."
O entusiasmo que as primeiras votações do Concílio despertavam, o intérprete ousou acrescentar:
"- Mas como é possível, Santo Padre, que bispos da Cúria Romana fiquem sabotando o Concílio? "
O Santo Padre sorriu e comentou:
- Pensando bem, o obstáculo é uma bênção de Deus.
Se caminhamos, caminhamos sem nenhum empecilho, corremos o risco de ir mais longe do que desejamos.
A esta lição de prudência humana, ajuntou outra de sabedoria divina:
- Vão para a Basílica. E lá, cada um sustente tudo o que, diante de Deus, em consciência, julgar necessário sustentar. Estarei aqui para defender a inteira liberdade de vocês.
Mas acrescentou;
- Não saiam, porém, da caridade, para vocês não saírem de Deus. Palavras de um santo!
Ao longo do Concílio, quando um padre conciliar falava e havia a tentação de nos irritarmos, de nos rebelarmos, a voz do papa santo ajudava, recomendando:
"- Não saiam da caridade para não saírem de Deus."
No encerramento do Concílio, numerosos bispos chegamos a pensar em pedir ao Santo Padre Paulo VI, por aclamação, que canonizasse pura e simplesmente o Papa João. Para que processo, se havia milagres gritantes, dos quais os dois maiores pareciam: a morte do papa e o Concílio Ecumênico.

Católicos e não-católicos, crentes e descrentes choraram a morte do Papa João. Protestantes, judeus, maometanos, budistas, agnósticos, ateus o amavam tanto quanto nós. Ele não era mais nosso do que deles. E, quanto ao Concílio, há pormenores que só a audácia de um santo se animaria a enfrentar.
Quando li a lista dos perigos do Concílio e vi nomes de grandes teólogos até as vésperas tidos em suspeição e que, de repente, eram chamados, oficialmente, pelo papa, comovi-me profundamente. Lá estavam, entre outros, De Lubac, Congar, Chénu, Rabner, cujos escritos eram de¬saconselhados nos seminários. Se ainda estivesse neste chão dos homens, Teilhard de Chardin, certamente, estaria convocado e encabeçaria a lista dos peritos, ele que foi uma das grandes presenças invisíveis do Vaticano li.
Não foi menos audacioso receber dentro da Basílica, e colocar no nível dos cardeais, observadores ortodoxos, anglicanos e protestantes, para os quais, do começo ao fim, o Concílio não teve segredos.
De certo modo, ele indicou o próprio sucessor: durante Concilio, um único padre conciliar foi por ele convidado a hospedar-se no Vaticano. Tratava-se do cardeal arcebispo de Milão, Monsenhor Giovanni Battista Montini.



HISTORINHAS DO BOM JOÃO

Depois de sua eleição, João XXIII convoca o Conde della Torre, diretor do Osservatore Romano, jornal do Vaticano, que havia doze anos não recebia semelhante honra. O papa exprime-lhe o seu interesse pelos assuntos relativos à imprensa e promete-lhe o seu apoio. Insiste, porém, em que, daí em diante, o Osservatore Romano evite empregar, a propósito do papa, os habituais superlativos, tais como: augustos lábios, iluminado pela graça, e outros lugares-comuns.
- Escreva simplesmente: "O papa disse... O papa fez ...
Verdade seja dita que, neste ponto, João XXDI não foi atendido.

Para visitar um velho prelado agonizante, João XXDI irrompe, de imprevisto, numa clínica dirigida por religiosas. Bate à porta e a irmã- de serviço julga desmaiar de emoção ao ver; diante de si, o papa.
- Não se assuste, minha irmã, e vá chamar a superiora. No fim de contas, sou apenas o papa.
E João XXIII, como toda a gente, aguardou de pé, na antecâmara, que chegasse a superiora.

Ao instalar-se nos seus aposentos, enquanto os carregadores armavam o mobiliário, o Santo Padre sentou-se num caixote a ler o breviário. Só depois de o terminar, partiu a explorar as salas que ainda não conhecia. Quando chegou ao salão, os operários transportavam caixotes. Escondido por um deles estava um operário, que trabalhava, curvado.
- Não os incomodo, meus filhos'? - disse o papa. O operário que se encontrava por detrás do caixote jul¬gou reconhecer a voz de um dos seus companheiros:
- Quando é que você vai largar mão de ser bolo?
Vê se me dá aqui uma mãozinha.
João XXIII avançou e segurou o outro lado do caixote.
Neste instante o operário ergueu os olhos. Pálido de emoção, balbuciou:
- Santidade, Santidade ...
João XXIII abençoou-o, bem como aos seus compa¬nheiros. Vendo que o operário que lhe respondera estava ainda muito confuso, quis pô-lo à vontade:
- Pertencemos ambos ao mesmo partido.
- Mas eu não pertenço a partido algum - respondeu o operário.
- Repare bem no meu tamanho, disse o papa. As pessoas como você e eu estão automàticamente inscritas no Partido dos Gordos.
Convidou, então, os operários para almoçarem com ele, mas os trabalhadores estavam muito intimidados e quase não comiam. Ao aperceber-se disso, o papa dese¬jou-lhes bom apetite e deixou-os sós.

Logo após a sua entronização, João XXIII aumentou consideravelmente os vencimentos dos empregados da Cidade do Vaticano, começando por baixo. É por isso que um guarda recebe salário de 70 mil liras por mês, mais uma importância de 12 500 liras por filho e 10 mil
liras de subsídio pela mulher e um mês de gratificação. E os cardeais tiveram os seus
vencimentos fixados em 400 mil liras mensais (uma lira vale cerca de seis cruzeiros velhos).
Um prelado, achando exagerado o aumento dos pequenos vencimentos, fêz-lhe lembrar, respeitosamente, que isso representaria um grande encargo para o orçamento pontifício. Então o papa respondeu, para provocá-lo:
- Não nos limitamos a aumentar os vencimentos dos mais humildes, baixamos também os dos altos funcionários. Assim, conseguimos para a nossa tesouraria uma economia de 20 milhões por mês ...


João XXIII detestava a solidão, particularmente durante as refeições. Ora, o protocolo estabelece que o papa coma sozinho. Ele não se resignava a tal, dizendo: "Pareço um seminarista de castigo." Ou ainda: "Li atentamente o Evangelho sem conseguir encontrar passagem alguma que me obrigue a comer sozinho. Jesus, como é sabido, gostava de comer acompanhado."
A pompa pontifical desagradava-lhe. Tinha horror às cerimônias oficiais e à complicação de certos, ornamentos de vestuário. E reclamava;
Ando vestido como um faraó!

Outrora, o acesso do público à cúpula de São Pedro era proibido enquanto o papa passeava nos jardins do Vaticano. João XXIII fez suprimir essa restrição, alegando:
- Mas por que é que os fiéis não hão de poder ver-me? Não faço nada de escandaloso ...

No decurso de uma audiência, João XXIII reconhece o Padre Pignatello, capelão-geral do exército italiano, sob as ordens do qual servira durante a guerra, quando ainda era apenas o Padre Roncalli.
O capelão ajoelha-se para lhe beijar o anel. O papa, então põe-se em sentido, faz continência e diz-lhe, com um sorriso:
- Sargento Roncalli! Às suas ordens, meu general!

João XXIII continuava a exprimir-se como se não fosse mais do que um homem igual aos outros. Assim, quando tinha pressa de regressar ao Vaticano, no fim de uma visita, dizia:
- Estou atrasado. Tenho que voltar para casa.

Recebendo um congresso de padres, em junho de 1960, João XXIII, numa conversa familiar com os seus hóspedes, antes de os abençoar, teve esta tirada que os deixou boquiabertos:
- Não sou um papa que tenha visões. E, no entanto,
dizem-me que não vou lá muito mal!

Isto não o impediu, contudo, de dizer um dia, durante a primeira sessão do Concílio:
- Gostaria bem que Nosso Senhor me aparecesse para me dizer quando acabará o Concílio, que, para o começar, sou eu quem manda, mas para acabar ...

Um embaixador asiático é recebido em audiência. João XXIII aproxima-se dele e começa a conversar com a sua habitual cordialidade perguntando-lhe pela família.
O outro interrompe-o dizendo não sou casado."
- Ah! é solteiro! Então é exatamente como eu! - exclamou o papa.
- Não exatamente, Santo Padre! afirma, honestamente, o embaixador.

A multidão reunida, domingo de Páscoa, na Praça de São Pedro, em Roma, para receber a bênção pontifical, teve a surpresa de ouvir estas palavras do papa, em frente da janela que acabava de ser aberta : - Aqui há uma corrente de ar, terrível! .

Ao ouvir, por a caso numa rua de Roma uma mulher impressionada pela gordura do papa, dizer a outra: "Meu Deus, como ele é gordo!",
João XXIII volta-se e diz-lhe:
- Saiba, minha senhora, que o Concílio não é um concurso de beleza!

Aludindo às suas freqüentes saídas do Vaticano:
- Dizem que saio muitas vezes por dia. Pois bem, passarei a sair à noite!

João XXIII visita em Roma, o Hospital do Espírito Santo, dirigido por religiosas.
A superiora aparece muito confusa, e diz-lhe apresentando-se:
- Santíssimo Padre, sou a superiora do Espírito Santo.
- Está bem, tem sorte - respondeu o papa. - Eu sou apenas o vigário de Cristo.

Relendo um esquema preparatório do Concilio, particularmente hostil aos trabalhos dos teólogos e dos modernos estudiosos, João XXIII pegou uma régua graduada, mediu o tamanho da folha e disse para um seu familiar:
- Repare: neste esquema há 30 centímetros de pecados!

A um prelado da Cúria, que lhe dizia: " absolutamente impossível abrir o Concílio em 1963", o papa respondeu:
- Vamos abri-lo em 1962!







Este é o resumo do diário dos últimos dias do Papa João XXllI. Giovanni Roncalli morreu sereno como viveu, tranqüilizando os que o cercavam.

“Minhas malas estão prontas”

Terça feira 25 de maio de 1963
Comunhão com os que sofrem.

Ah, como estou reconhecido". O fato de ser objeto de delicadas atenções comove-me; mas deixa-me exata¬mente na minha habitual simplicidade, ao mesmo tempo que me sinto mais do que nunca em comunhão com todos os que sofrem nos hospitais ou em suas casas e que, por razões diversas, estão angustiados. Este interesse testemunhado ao papa, que humildemente representa o Senhor, deve suscitar um aumento de orações, de pensamentos e propósitos de paz, uma convicção segura e clara de que, na vida, o que tem valor está sempre no espírito do Evangelho: doçura, bondade, caridade.
- Desejo que todos recebam o sinal da minha comovida gratidão, para que ele lhes seja causa de mútuo amor fraternal, já que querem permanecer em união comigo. Abençôo e encorajo...


"Quando soar o momento, não perderei tempo."
Sexta-feira, 31 de maio de 1963 o encontro, em Cristo

- Nas minhas vigílias noturnas tenho sempre diante de mim Jesus crucificado, com os braços estendidos para abarcar o mundo inteiro. É papel da Igreja católica e apostólica, da Igreja romana, trabalhar para a realização da oração do Divino Mestre: "Ut unum, ut unum sint".
- Estou pronto a ir aonde o Senhor me chamar.
- Desejo desaparecer e encontrar-me em Cristo
.
O papa tem os braços em cruz sobre o leito.
A Monsenhor Rocca:
- Agradeço-lhe muito o auxílio que me prestou. Continuaremos a amar-nos no Céu.


Sábado, 1.0 de junho de 1963: a morte é vida nova
O papa solicita que lhe recitem o Magníficat:
- Então, coragem! Não é o momento de chorar, é um momento de alegria e glória.
- Sofro muito, mas com amor.
Ao secretário:
- Quando tudo acabar, não deixe de ir visitar a sua mãe.

O papa beija os seus irmãos e diz:
- Sou a ressurreição e a vida! Jesus! Jesus! Rezemos pelo nosso pai e pela nossa mãe.
Pensei sempre muito neles e estou contente porque, dentro em pouco, voltarei a vê-los, no Paraíso. Com a morte é uma nova vida que começa, a glorificação em Cristo.

Ao Cardeal Testa, que manifestava a intenção de sair:
- Fique um pouco mais!

Ao professor Gasparrini:
- Querido professor, não se inquiete, as minhas malas estão sempre feitas.
Quando soar o momento da partida, não perderei tempo
.


Domingo, 2 de junho de 1963: a última bênção


- Cristo acolhe-me. Estou perto de Jesus.
- É um dia grande para a Igreja (era o Pentecostes).
O papa dá urna última bênção ao mundo.

Segunda-feira, 3 de junho de 1963:

João :XXIII morre às 19 horas e 4S minutos depois de ter dito: .
- Mater mea, fiducia mea. (Minha mãe, minha con¬fiança.)
No mesmo instante, o Professor Gasparrini, que recebia
o seu último suspiro, ouve, distintamente,
o padre, que celebrava missa na sala ao lado, dizer:

-Ite missa est !