O absurdo e a Graça

Na vida hoje caminhamos entre uma fome que condena ao sofrimento uma enorme parcela da humanidade e uma tecnologia moderníssima que garante um padrão de conforto e bem estar nunca antes imaginado. Um bilhão de seres humanos estão abaixo da linha da pobreza, na mais absoluta miséria, passam FOME ! Com a tecnologia que foi inventada seria possível produzir alimentos e acabar com TODA a fome no mundo, não fossem os interesses de alguns grupos detentores da tecnologia e do poder. "Para mim, o absurdo e a graça não estão mais separados. Dizer que "tudo é absurdo" ou dizer que "tudo é graça " é igualmente mentir ou trapacear... "Hoje a graça e o absurdo caminham, em mim lado a lado, não mais estranhos, mas estranhamente amigos" A cada dia, nas situações que se nos apresentam podemos decidir entre perpetuar o absurdo, ou promover a Graça. (Jean Yves Leloup) * O Blog tem o mesmo nome do livro autobiográfico de Jean Yves Leloup, e é uma forma de homenagear a quem muito tem me ensinado em seus livros retiros, seminários e workshops *

11 de abril de 2015

Misericordiae Vultus

Misericordiae Vultus
BULA DE PROCLAMAÇÃO
DO JUBILEU EXTRAORDINÁRIO DA MISERICÓRDIA
FRANCISCO
BISPO DE ROMA
SERVO DOS SERVOS DE DEUS
A QUANTOS LEREM ESTA CARTA
GRAÇA, MISERICÓRDIA E PAZ


Jesus Cristo é o rosto da misericórdia do Pai. O mistério da fé cristã parece encontrar nestas palavras a sua síntese. Tal misericórdia tornou-se viva, visível e atingiu o seu clímax em Jesus de Nazaré. O Pai, « rico em misericórdia » (Ef 2, 4), depois de ter revelado o seu nome a Moisés como « Deus misericordioso e clemente, vagaroso na ira, cheio de bondade e fidelidade » (Ex 34, 6), não cessou de dar a conhecer, de vários modos e em muitos momentos da história, a sua natureza divina. Na « plenitude do tempo » (Gl 4, 4), quando tudo estava pronto segundo o seu plano de salvação, mandou o seu Filho, nascido da Virgem Maria, para nos revelar, de modo definitivo, o seu amor. Quem O vê, vê o Pai (cf. Jo 14, 9). Com a sua palavra, os seus gestos e toda a sua pessoa,[1] Jesus de Nazaré revela a misericórdia de Deus.
Precisamos sempre de contemplar o mistério da misericórdia. É fonte de alegria, serenidade e paz. É condição da nossa salvação. Misericórdia: é a palavra que revela o mistério da Santíssima Trindade. Misericórdia: é o acto último e supremo pelo qual Deus vem ao nosso encontro. Misericórdia: é a lei fundamental que mora no coração de cada pessoa, quando vê com olhos sinceros o irmão que encontra no caminho da vida. Misericórdia: é o caminho que une Deus e o homem, porque nos abre o coração à esperança de sermos amados para sempre, apesar da limitação do nosso pecado.
Há momentos em que somos chamados, de maneira ainda mais intensa, a fixar o olhar na misericórdia, para nos tornarmos nós mesmos sinal eficaz do agir do Pai. Foi por isso que proclamei um Jubileu Extraordinário da Misericórdia como tempo favorável para a Igreja, a fim de se tornar mais forte e eficaz o testemunho dos crentes.
O Ano Santo abrir-se-á no dia 8 de Dezembro de 2015, solenidade da Imaculada Conceição. Esta festa litúrgica indica o modo de agir de Deus desde os primórdios da nossa história. Depois do pecado de Adão e Eva, Deus não quis deixar a humanidade sozinha e à mercê do mal. Por isso, pensou e quis Maria santa e imaculada no amor (cf. Ef 1, 4), para que Se tornasse a Mãe do Redentor do homem. Perante a gravidade do pecado, Deus responde com a plenitude do perdão. A misericórdia será sempre maior do que qualquer pecado, e ninguém pode colocar um limite ao amor de Deus que perdoa. Na festa da Imaculada Conceição, terei a alegria de abrir a Porta Santa. Será então uma Porta da Misericórdia, onde qualquer pessoa que entre poderá experimentar o amor de Deus que consola, perdoa e dá esperança.
No domingo seguinte, o Terceiro Domingo de Advento, abrir-se-á a Porta Santa na Catedral de Roma, a Basílica de São João de Latrão. E em seguida será aberta a Porta Santa nas outras Basílicas Papais. Estabeleço que no mesmo domingo, em cada Igreja particular – na Catedral, que é a Igreja-Mãe para todos os fiéis, ou na Concatedral ou então numa Igreja de significado especial – se abra igualmente, durante todo o Ano Santo, uma Porta da Misericórdia. Por opção do Ordinário, a mesma poderá ser aberta também nos Santuários, meta de muitos peregrinos que frequentemente, nestes lugares sagrados, se sentem tocados no coração pela graça e encontram o caminho da conversão. Assim, cada Igreja particular estará directamente envolvida na vivência deste Ano Santo como um momento extraordinário de graça e renovação espiritual. Portanto o Jubileu será celebrado, quer em Roma quer nas Igrejas particulares, como sinal visível da comunhão da Igreja inteira.
Escolhi a data de 8 de Dezembro, porque é cheia de significado na história recente da Igreja. Com efeito, abrirei a Porta Santa no cinquentenário da conclusão do Concílio Ecuménico Vaticano II. A Igreja sente a necessidade de manter vivo aquele acontecimento. Começava então, para ela, um percurso novo da sua história. Os Padres, reunidos no Concílio, tinham sentido forte, como um verdadeiro sopro do Espírito, a exigência de falar de Deus aos homens do seu tempo de modo mais compreensível. Derrubadas as muralhas que, por demasiado tempo, tinham encerrado a Igreja numa cidadela privilegiada, chegara o tempo de anunciar o Evangelho de maneira nova. Uma nova etapa na evangelização de sempre. Um novo compromisso para todos os cristãos de testemunharem, com mais entusiasmo e convicção, a sua fé. A Igreja sentia a responsabilidade de ser, no mundo, o sinal vivo do amor do Pai.
Voltam à mente aquelas palavras, cheias de significado, que São João XXIII pronunciou na abertura do Concílio para indicar a senda a seguir: « Nos nossos dias, a Esposa de Cristo prefere usar mais o remédio da misericórdia que o da severidade. (…) A Igreja Católica, levantando por meio deste Concílio Ecuménico o facho da verdade religiosa, deseja mostrar-se mãe amorosa de todos, benigna, paciente, cheia de misericórdia e bondade com os filhos dela separados ».[2] E, no mesmo horizonte, havia de colocar-se o Beato Paulo VI, que assim falou na conclusão do Concílio: « Desejamos notar que a religião do nosso Concílio foi, antes de mais, a caridade. (...) Aquela antiga história do bom samaritano foi exemplo e norma segundo os quais se orientou o nosso Concílio. (…) Uma corrente de interesse e admiração saiu do Concílio sobre o mundo actual. Rejeitaram-se os erros, como a própria caridade e verdade exigiam, mas os homens, salvaguardado sempre o preceito do respeito e do amor, foram apenas advertidos do erro. Assim se fez, para que, em vez de diagnósticos desalentadores, se dessem remédios cheios de esperança; para que o Concílio falasse ao mundo actual não com presságios funestos mas com mensagens de esperança e palavras de confiança. Não só respeitou mas também honrou os valores humanos, apoiou todas as suas iniciativas e, depois de os purificar, aprovou todos os seus esforços. (…) Uma outra coisa, julgamos digna de consideração. Toda esta riqueza doutrinal orienta-se apenas a isto: servir o homem, em todas as circunstâncias da sua vida, em todas as suas fraquezas, em todas as suas necessidades ».[3]
Com estes sentimentos de gratidão pelo que a Igreja recebeu e de responsabilidade quanto à tarefa que nos espera, atravessaremos a Porta Santa com plena confiança de ser acompanhados pela força do Senhor Ressuscitado, que continua a sustentar a nossa peregrinação. O Espírito Santo, que conduz os passos dos crentes de forma a cooperarem para a obra de salvação realizada por Cristo, seja guia e apoio do povo de Deus a fim de o ajudar a contemplar o rosto da misericórdia.[4]
O Ano Jubilar terminará na solenidade litúrgica de Jesus Cristo, Rei do Universo, 20 de Novembro de 2016. Naquele dia, ao fechar a Porta Santa, animar-nos-ão, antes de tudo, sentimentos de gratidão e agradecimento à Santíssima Trindade por nos ter concedido este tempo extraordinário de graça. Confiaremos a vida da Igreja, a humanidade inteira e o universo imenso à Realeza de Cristo, para que derrame a sua misericórdia, como o orvalho da manhã, para a construção duma história fecunda com o compromisso de todos no futuro próximo. Quanto desejo que os anos futuros sejam permeados de misericórdia para ir ao encontro de todas as pessoas levando-lhes a bondade e a ternura de Deus! A todos, crentes e afastados, possa chegar o bálsamo da misericórdia como sinal do Reino de Deus já presente no meio de nós.
« É próprio de Deus usar de misericórdia e, nisto, se manifesta de modo especial a sua omnipotência ».[5] Estas palavras de São Tomás de Aquino mostram como a misericórdia divina não seja, de modo algum, um sinal de fraqueza, mas antes a qualidade da omnipotência de Deus. É por isso que a liturgia, numa das suas colectas mais antigas, convida a rezar assim: « Senhor, que dais a maior prova do vosso poder quando perdoais e Vos compadeceis… »[6] Deus permanecerá para sempre na história da humanidade como Aquele que está presente, Aquele que é próximo, providente, santo e misericordioso.
« Paciente e misericordioso » é o binómio que aparece, frequentemente, no Antigo Testamento para descrever a natureza de Deus. O facto de Ele ser misericordioso encontra um reflexo concreto em muitas acções da história da salvação, onde a sua bondade prevalece sobre o castigo e a destruição. Os Salmos, em particular, fazem sobressair esta grandeza do agir divino: « É Ele quem perdoa as tuas culpas e cura todas as tuas enfermidades. É Ele quem resgata a tua vida do túmulo e te enche de graça e ternura » (103/102, 3-4). E outro Salmo atesta, de forma ainda mais explícita, os sinais concretos da misericórdia: « O Senhor liberta os prisioneiros. O Senhor dá vista aos cegos, o Senhor levanta os abatidos, o Senhor ama o homem justo. O Senhor protege os que vivem em terra estranha e ampara o órfão e a viúva, mas entrava o caminho aos pecadores » (146/145, 7-9). E, para terminar, aqui estão outras expressões do Salmista: « [O Senhor] cura os de coração atribulado e trata-lhes as feridas. (...) O Senhor ampara os humildes, mas abate os malfeitores até ao chão » (147/146, 3.6). Em suma, a misericórdia de Deus não é uma ideia abstracta mas uma realidade concreta, pela qual Ele revela o seu amor como o de um pai e de uma mãe que se comovem pelo próprio filho até ao mais íntimo das suas vísceras. É verdadeiramente caso para dizer que se trata de um amor « visceral ». Provém do íntimo como um sentimento profundo, natural, feito de ternura e compaixão, de indulgência e perdão.
« Eterna é a sua misericórdia »: tal é o refrão que aparece em cada versículo do Salmo 136, ao mesmo tempo que se narra a história da revelação de Deus. Em virtude da misericórdia, todos os acontecimentos do Antigo Testamento aparecem cheios dum valor salvífico profundo. A misericórdia torna a história de Deus com Israel uma história da salvação. O facto de repetir continuamente « eterna é a sua misericórdia », como faz o Salmo, parece querer romper o círculo do espaço e do tempo para inserir tudo no mistério eterno do amor. É como se se quisesse dizer que o homem, não só na história mas também pela eternidade, estará sempre sob o olhar misericordioso do Pai. Não é por acaso que o povo de Israel tenha querido inserir este Salmo – o « grande hallel », como lhe chamam – nas festas litúrgicas mais importantes.
Antes da Paixão, Jesus rezou ao Pai com este Salmo da misericórdia. Assim o atesta o evangelista Mateus quando afirma que « depois de cantarem os salmos » (26, 30), Jesus e os discípulos saíram para o Monte das Oliveiras. Enquanto instituía a Eucaristia, como memorial perpétuo d’Ele e da sua Páscoa, Jesus colocava simbolicamente este acto supremo da Revelação sob a luz da misericórdia. No mesmo horizonte da misericórdia, viveu Ele a sua paixão e morte, ciente do grande mistério de amor que se realizaria na cruz. O facto de saber que o próprio Jesus rezou com este Salmo torna-o, para nós cristãos, ainda mais importante e compromete-nos a assumir o refrão na nossa oração de louvor diária: « eterna é a sua misericórdia ».
Com o olhar fixo em Jesus e no seu rosto misericordioso, podemos individuar o amor da Santíssima Trindade. A missão, que Jesus recebeu do Pai, foi a de revelar o mistério do amor divino na sua plenitude. « Deus é amor » (1 Jo 4, 8.16): afirma-o, pela primeira e única vez em toda a Escritura, o evangelista João. Agora este amor tornou-se visível e palpável em toda a vida de Jesus. A sua pessoa não é senão amor, um amor que se dá gratuitamente. O seu relacionamento com as pessoas, que se abeiram d’Ele, manifesta algo de único e irrepetível. Os sinais que realiza, sobretudo para com os pecadores, as pessoas pobres, marginalizadas, doentes e atribuladas, decorrem sob o signo da misericórdia. Tudo n’Ele fala de misericórdia. N’Ele, nada há que seja desprovido de compaixão.
Vendo que a multidão de pessoas que O seguia estava cansada e abatida, Jesus sentiu, no fundo do coração, uma intensa compaixão por elas (cf. Mt 9, 36). Em virtude deste amor compassivo, curou os doentes que Lhe foram apresentados (cf. Mt 14, 14) e, com poucos pães e peixes, saciou grandes multidões (cf. Mt 15, 37). Em todas as circunstâncias, o que movia Jesus era apenas a misericórdia, com a qual lia no coração dos seus interlocutores e dava resposta às necessidades mais autênticas que tinham. Quando encontrou a viúva de Naim que levava o seu único filho a sepultar, sentiu grande compaixão pela dor imensa daquela mãe em lágrimas e entregou-lhe de novo o filho, ressuscitando-o da morte (cf. Lc 7, 15). Depois de ter libertado o endemoninhado de Gerasa, confia-lhe esta missão: « Conta tudo o que o Senhor fez por ti e como teve misericórdia de ti » (Mc 5, 19). A própria vocação de Mateus se insere no horizonte da misericórdia. Ao passar diante do posto de cobrança dos impostos, os olhos de Jesus fixaram-se nos de Mateus. Era um olhar cheio de misericórdia que perdoava os pecados daquele homem e, vencendo as resistências dos outros discípulos, escolheu-o, a ele pecador e publicano, para se tornar um dos Doze. São Beda o Venerável, ao comentar esta cena do Evangelho, escreveu que Jesus olhou Mateus com amor misericordioso e escolheu-o: miserando atque eligendo.[7] Sempre me causou impressão esta frase, a ponto de a tomar para meu lema.
Nas parábolas dedicadas à misericórdia, Jesus revela a natureza de Deus como a dum Pai que nunca se dá por vencido enquanto não tiver dissolvido o pecado e superada a recusa com a compaixão e a misericórdia. Conhecemos estas parábolas, três em especial: as da ovelha extraviada e da moeda perdida, e a do pai com os seus dois filhos (cf. Lc 15, 1-32). Nestas parábolas, Deus é apresentado sempre cheio de alegria, sobretudo quando perdoa. Nelas, encontramos o núcleo do Evangelho e da nossa fé, porque a misericórdia é apresentada como a força que tudo vence, enche o coração de amor e consola com o perdão.
Temos depois outra parábola da qual tiramos uma lição para o nosso estilo de vida cristã. Interpelado pela pergunta de Pedro sobre quantas vezes fosse necessário perdoar, Jesus respondeu: « Não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete » (Mt 18, 22) e contou a parábola do « servo sem compaixão ». Este, convidado pelo senhor a devolver uma grande quantia, suplica-lhe de joelhos e o senhor perdoa-lhe a dívida. Mas, imediatamente depois, encontra outro servo como ele, que lhe devia poucos centésimos; este suplica-lhe de joelhos que tenha piedade, mas aquele recusa-se e fá-lo meter na prisão. Então o senhor, tendo sabido do facto, zanga-se muito e, convocando aquele servo, diz-lhe: « Não devias também ter piedade do teu companheiro, como eu tive de ti? » (Mt 18, 33). E Jesus concluiu: « Assim procederá convosco meu Pai celeste, se cada um de vós não perdoar ao seu irmão do íntimo do coração » (Mt 18, 35).
A parábola contém um ensinamento profundo para cada um de nós. Jesus declara que a misericórdia não é apenas o agir do Pai, mas torna-se o critério para individuar quem são os seus verdadeiros filhos. Em suma, somos chamados a viver de misericórdia, porque, primeiro, foi usada misericórdia para connosco. O perdão das ofensas torna-se a expressão mais evidente do amor misericordioso e, para nós cristãos, é um imperativo de que não podemos prescindir. Tantas vezes, como parece difícil perdoar! E, no entanto, o perdão é o instrumento colocado nas nossas frágeis mãos para alcançar a serenidade do coração. Deixar de lado o ressentimento, a raiva, a violência e a vingança são condições necessárias para se viver feliz. Acolhamos, pois, a exortação do Apóstolo: « Que o sol não se ponha sobre o vosso ressentimento » (Ef 4, 26). E sobretudo escutemos a palavra de Jesus que colocou a misericórdia como um ideal de vida e como critério de credibilidade para a nossa fé: « Felizes os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia » (Mt 5, 7) é a bem-aventurança a que devemos inspirar-nos, com particular empenho, neste Ano Santo.
Na Sagrada Escritura, como se vê, a misericórdia é a palavra-chave para indicar o agir de Deus para connosco. Ele não Se limita a afirmar o seu amor, mas torna-o visível e palpável. Aliás, o amor nunca poderia ser uma palavra abstracta. Por sua própria natureza, é vida concreta: intenções, atitudes, comportamentos que se verificam na actividade de todos os dias. A misericórdia de Deus é a sua responsabilidade por nós. Ele sente-Se responsável, isto é, deseja o nosso bem e quer ver-nos felizes, cheios de alegria e serenos. E, em sintonia com isto, se deve orientar o amor misericordioso dos cristãos. Tal como ama o Pai, assim também amam os filhos. Tal como Ele é misericordioso, assim somos chamados também nós a ser misericordiosos uns para com os outros.
A arquitrave que suporta a vida da Igreja é a misericórdia. Toda a sua acção pastoral deveria estar envolvida pela ternura com que se dirige aos crentes; no anúncio e testemunho que oferece ao mundo, nada pode ser desprovido de misericórdia. A credibilidade da Igreja passa pela estrada do amor misericordioso e compassivo. A Igreja « vive um desejo inexaurível de oferecer misericórdia ».[8] Talvez, demasiado tempo, nos tenhamos esquecido de apontar e viver o caminho da misericórdia. Por um lado, atentação de pretender sempre e só a justiça fez esquecer que esta é apenas o primeiro passo, necessário e indispensável, mas a Igreja precisa de ir mais além a fim de alcançar uma meta mais alta e significativa. Por outro lado, é triste ver como a experiência do perdão na nossa cultura vai rareando cada vez mais. Em certos momentos, até a própria palavra parece desaparecer. Todavia, sem o testemunho do perdão, resta apenas uma vida infecunda e estéril, como se se vivesse num deserto desolador. Chegou de novo, para a Igreja, o tempo de assumir o anúncio jubiloso do perdão. É o tempo de regresso ao essencial, para cuidar das fraquezas e dificuldades dos nossos irmãos. O perdão é uma força que ressuscita para nova vida e infunde a coragem para olhar o futuro com esperança.
Não podemos esquecer o grande ensinamento que ofereceu São João Paulo II com a sua segunda encíclica, a Dives in misericordia, que então surgiu inesperada suscitando a surpresa de muitos pelo tema que era abordado. Desejo recordar especialmente dois trechos. No primeiro deles, o Santo Papa assinalava o esquecimento em que caíra o tema da misericórdia na cultura dos nossos dias: « A mentalidade contemporânea, talvez mais que a do homem do passado, parece opor-se ao Deus de misericórdia e, além disso, tende a separar da vida e a tirar do coração humano a própria ideia da misericórdia. A palavra e o conceito de misericórdia parecem causar mal-estar ao homem, o qual, graças ao enorme desenvolvimento da ciência e da técnica nunca antes verificado na história, se tornou senhor da terra, a subjugou e a dominou (cf. Gn 1, 28). Um tal domínio sobre a terra, entendido por vezes unilateral e superficialmente, parece não deixar espaço para a misericórdia. (...) Por esse motivo, na hodierna situação da Igreja e do mundo, muitos homens e muitos ambientes guiados por um vivo sentido de fé, voltam-se quase espontaneamente, por assim dizer, para a misericórdia de Deus ».[9]
Além disso, São João Paulo II motivava assim a urgência de anunciar e testemunhar a misericórdia no mundo contemporâneo: « Ela é ditada pelo amor para com o homem, para com tudo o que é humano e que, segundo a intuição de grande parte dos contemporâneos, está ameaçado por um perigo imenso. O próprio mistério de Cristo (...) obriga-me igualmente a proclamar a misericórdia como amor misericordioso de Deus, revelada também no mistério de Cristo. Ele me impele ainda a apelar para esta misericórdia e a implorá-la nesta fase difícil e crítica da história da Igreja e do mundo ».[10] Tal ensinamento é hoje mais actual do que nunca e merece ser retomado neste Ano Santo. Acolhamos novamente as suas palavras: « A Igreja vive uma vida autêntica quando professa e proclama a misericórdia, o mais admirável atributo do Criador e do Redentor, e quando aproxima os homens das fontes da misericórdia do Salvador, das quais ela é depositária e dispensadora ».[11]
A Igreja tem a missão de anunciar a misericórdia de Deus, coração pulsante do Evangelho, que por meio dela deve chegar ao coração e à mente de cada pessoa. A Esposa de Cristo assume o comportamento do Filho de Deus, que vai ao encontro de todos sem excluir ninguém. No nosso tempo, em que a Igreja está comprometida na nova evangelização, o tema da misericórdia exige ser reproposto com novo entusiasmo e uma acção pastoral renovada. É determinante para a Igreja e para a credibilidade do seu anúncio que viva e testemunhe, ela mesma, a misericórdia. A sua linguagem e os seus gestos, para penetrarem no coração das pessoas e desafiá-las a encontrar novamente a estrada para regressar ao Pai, devem irradiar misericórdia.
A primeira verdade da Igreja é o amor de Cristo. E, deste amor que vai até ao perdão e ao dom de si mesmo, a Igreja faz-se serva e mediadora junto dos homens. Por isso, onde a Igreja estiver presente, aí deve ser evidente a misericórdia do Pai. Nas nossas paróquias, nas comunidades, nas associações e nos movimentos – em suma, onde houver cristãos –, qualquer pessoa deve poder encontrar um oásis de misericórdia.
Queremos viver este Ano Jubilar à luz desta palavra do Senhor: Misericordiosos como o Pai. O evangelista refere o ensinamento de Jesus, que diz: « Sede misericordiosos, como o vosso Pai é misericordioso » (Lc 6, 36). É um programa de vida tão empenhativo como rico de alegria e paz. O imperativo de Jesus é dirigido a quantos ouvem a sua voz (cf. Lc 6, 27). Portanto, para ser capazes de misericórdia, devemos primeiro pôr-nos à escuta da Palavra de Deus. Isso significa recuperar o valor do silêncio, para meditar a Palavra que nos é dirigida. Deste modo, é possível contemplar a misericórdia de Deus e assumi-la como próprio estilo de vida.
peregrinação é um sinal peculiar no Ano Santo, enquanto ícone do caminho que cada pessoa realiza na sua existência. A vida é uma peregrinação e o ser humano é viator, um peregrino que percorre uma estrada até à meta anelada. Também para chegar à Porta Santa, tanto em Roma como em cada um dos outros lugares, cada pessoa deverá fazer, segundo as próprias forças, uma peregrinação. Esta será sinal de que a própria misericórdia é uma meta a alcançar que exige empenho e sacrifício. Por isso, a peregrinação há-de servir de estímulo à conversão: ao atravessar a Porta Santa, deixar-nos-emos abraçar pela misericórdia de Deus e comprometer-nos-emos a ser misericordiosos com os outros como o Pai o é connosco.
O Senhor Jesus indica as etapas da peregrinação através das quais é possível atingir esta meta: « Não julgueis e não sereis julgados; não condeneis e não sereis condenados; perdoai e sereis perdoados. Dai e ser-vos-á dado: uma boa medida, cheia, recalcada, transbordante será lançada no vosso regaço. A medida que usardes com os outros será usada convosco » (Lc 6, 37-38). Ele começa por dizer para não julgar nem condenar. Se uma pessoa não quer incorrer no juízo de Deus, não pode tornar-se juiz do seu irmão. É que os homens, no seu juízo, limitam-se a ler a superfície, enquanto o Pai vê o íntimo. Que grande mal fazem as palavras, quando são movidas por sentimentos de ciúme e inveja! Falar mal do irmão, na sua ausência, equivale a deixá-lo mal visto, a comprometer a sua reputação e deixá-lo à mercê das murmurações. Não julgar nem condenar significa, positivamente, saber individuar o que há de bom em cada pessoa e não permitir que venha a sofrer pelo nosso juízo parcial e a nossa pretensão de saber tudo. Mas isto ainda não é suficiente para se exprimir a misericórdia. Jesus pede também para perdoar e dar. Ser instrumentos do perdão, porque primeiro o obtivemos nós de Deus. Ser generosos para com todos, sabendo que também Deus derrama a sua benevolência sobre nós com grande magnanimidade.
Misericordiosos como o Pai é, pois, o « lema » do Ano Santo. Na misericórdia, temos a prova de como Deus ama. Ele dá tudo de Si mesmo, para sempre, gratuitamente e sem pedir nada em troca. Vem em nosso auxílio, quando O invocamos. É significativo que a oração diária da Igreja comece com estas palavras: « Deus, vinde em nosso auxílio! Senhor, socorrei-nos e salvai-nos » (Sal 70/69, 2). O auxílio que invocamos é já o primeiro passo da misericórdia de Deus para connosco. Ele vem para nos salvar da condição de fraqueza em que vivemos. E a ajuda d’Ele consiste em fazer-nos sentir a sua presença e proximidade. Dia após dia, tocados pela sua compaixão, podemos também nós tornar-nos compassivos para com todos.
Neste Ano Santo, poderemos fazer a experiência de abrir o coração àqueles que vivem nas mais variadas periferias existenciais, que muitas vezes o mundo contemporâneo cria de forma dramática. Quantas situações de precariedade e sofrimento presentes no mundo actual! Quantas feridas gravadas na carne de muitos que já não têm voz, porque o seu grito foi esmorecendo e se apagou por causa da indiferença dos povos ricos. Neste Jubileu, a Igreja sentir-se-á chamada ainda mais a cuidar destas feridas, aliviá-las com o óleo da consolação, enfaixá-las com a misericórdia e tratá-las com a solidariedade e a atenção devidas. Não nos deixemos cair na indiferença que humilha, na habituação que anestesia o espírito e impede de descobrir a novidade, no cinismo que destrói. Abramos os nossos olhos para ver as misérias do mundo, as feridas de tantos irmãos e irmãs privados da própria dignidade e sintamo-nos desafiados a escutar o seu grito de ajuda. As nossas mãos apertem as suas mãos e estreitemo-los a nós para que sintam o calor da nossa presença, da amizade e da fraternidade. Que o seu grito se torne o nosso e, juntos, possamos romper a barreira de indiferença que frequentemente reina soberana para esconder a hipocrisia e o egoísmo.
É meu vivo desejo que o povo cristão reflicta, durante o Jubileu, sobre as obras de misericórdia corporal e espiritual. Será uma maneira de acordar a nossa consciência, muitas vezes adormecida perante o drama da pobreza, e de entrar cada vez mais no coração do Evangelho, onde os pobres são os privilegiados da misericórdia divina. A pregação de Jesus apresenta-nos estas obras de misericórdia, para podermos perceber se vivemos ou não como seus discípulos. Redescubramos as obras de misericórdia corporal: dar de comer aos famintos, dar de beber aos sedentos, vestir os nus, acolher os peregrinos, dar assistência aos enfermos, visitar os presos, enterrar os mortos. E não esqueçamos as obras de misericórdia espiritual: aconselhar os indecisos, ensinar os ignorantes, admoestar os pecadores, consolar os aflitos, perdoar as ofensas, suportar com paciência as pessoas molestas, rezar a Deus pelos vivos e defuntos.
Não podemos escapar às palavras do Senhor, com base nas quais seremos julgados: se demos de comer a quem tem fome e de beber a quem tem sede; se acolhemos o estrangeiro e vestimos quem está nu; se reservamos tempo para visitar quem está doente e preso (cf. Mt 25, 31-45). De igual modo ser-nos-á perguntado se ajudamos a tirar da dúvida, que faz cair no medo e muitas vezes é fonte de solidão; se fomos capazes de vencer a ignorância em que vivem milhões de pessoas, sobretudo as crianças desprovidas da ajuda necessária para se resgatarem da pobreza; se nos detivemos junto de quem está sozinho e aflito; se perdoamos a quem nos ofende e rejeitamos todas as formas de ressentimento e ódio que levam à violência; se tivemos paciência, a exemplo de Deus que é tão paciente connosco; enfim se, na oração, confiamos ao Senhor os nossos irmãos e irmãs. Em cada um destes « mais pequeninos », está presente o próprio Cristo. A sua carne torna-se de novo visível como corpo martirizado, chagado, flagelado, desnutrido, em fuga ... a fim de ser reconhecido, tocado e assistido cuidadosamente por nós. Não esqueçamos as palavras de São João da Cruz: « Ao entardecer desta vida, examinar-nos-ão no amor ».[12]
No Evangelho de Lucas, encontramos outro aspecto importante para viver, com fé, o Jubileu. Conta o evangelista que Jesus voltou a Nazaré e ao sábado, como era seu costume, entrou na sinagoga. Chamaram-No para ler a Escritura e comentá-la. A passagem era aquela do profeta Isaías onde está escrito: « O espírito do Senhor Deus está sobre mim, porque o Senhor me ungiu: enviou-me para levar a boa-nova aos que sofrem, para curar os desesperados, para anunciar a libertação aos exilados e a liberdade aos prisioneiros; para proclamar um ano de misericórdia do Senhor » (61,1-2). « Um ano de misericórdia »: isto é o que o Senhor anuncia e que nós desejamos viver. Este Ano Santo traz consigo a riqueza da missão de Jesus que ressoa nas palavras do Profeta: levar uma palavra e um gesto de consolação aos pobres, anunciar a libertação a quantos são prisioneiros das novas escravidões da sociedade contemporânea, devolver a vista a quem já não consegue ver porque vive curvado sobre si mesmo, e restituir dignidade àqueles que dela se viram privados. A pregação de Jesus torna-se novamente visível nas respostas de fé que o testemunho dos cristãos é chamado a dar. Acompanhem-nos as palavras do Apóstolo: « Quem pratica a misericórdia, faça-o com alegria » (Rm 12, 8).
A Quaresma deste Ano Jubilar seja vivida mais intensamente como tempo forte para celebrar e experimentar a misericórdia de Deus. Quantas páginas da Sagrada Escritura se podem meditar, nas semanas da Quaresma, para redescobrir o rosto misericordioso do Pai! Com as palavras do profeta Miqueias, podemos também nós repetir: Vós, Senhor, sois um Deus que tira a iniquidade e perdoa o pecado, que não Se obstina na ira mas Se compraz em usar de misericórdia. Vós, Senhor, voltareis para nós e tereis compaixão do vosso povo. Apagareis as nossas iniquidades e lançareis ao fundo do mar todos os nossos pecados (cf. 7, 18-19).
As páginas do profeta Isaías poderão ser meditadas, de forma mais concreta, neste tempo de oração, jejum e caridade. « O jejum que me agrada é este: libertar os que foram presos injustamente, livrá-los do jugo que levam às costas, pôr em liberdade os oprimidos, quebrar toda a espécie de opressão, repartir o teu pão com os esfomeados, dar abrigo aos infelizes sem casa, atender e vestir os nus e não desprezar o teu irmão. Então, a tua luz surgirá como a aurora, e as tuas feridas não tardarão a cicatrizar-se. A tua justiça irá à tua frente, e a glória do Senhor atrás de ti. Então invocarás o Senhor e Ele te atenderá, pedirás auxílio e te dirá: “Aqui estou!” Se retirares da tua vida toda a opressão, o gesto ameaçador e o falar ofensivo, se repartires o teu pão com o faminto e matares a fome ao pobre, a tua luz brilhará na escuridão, e as tuas trevas tornar-se-ão como o meio-dia. O Senhor te guiará constantemente, saciará a tua alma no árido deserto, dará vigor aos teus ossos. Serás como um jardim bem regado, como uma fonte de águas inesgotáveis » (58, 6-11).
A iniciativa « 24 horas para o Senhor », que será celebrada na sexta-feira e no sábado anteriores ao IV Domingo da Quaresma, deve ser incrementada nas dioceses. Há muitas pessoas – e, em grande número, jovens – que estão a aproximar-se do sacramento da Reconciliação e que frequentemente, nesta experiência, reencontram o caminho para voltar ao Senhor, viver um momento de intensa oração e redescobrir o sentido da sua vida. Com convicção, ponhamos novamente no centro o sacramento da Reconciliação, porque permite tocar sensivelmente a grandeza da misericórdia. Será, para cada penitente, fonte de verdadeira paz interior.
Não me cansarei jamais de insistir com os confessores para que sejam um verdadeiro sinal da misericórdia do Pai. Ser confessor não se improvisa. Tornamo-nos tal quando começamos, nós mesmos, por nos fazer penitentes em busca do perdão. Nunca esqueçamos que ser confessor significa participar da mesma missão de Jesus e ser sinal concreto da continuidade de um amor divino que perdoa e salva. Cada um de nós recebeu o dom do Espírito Santo para o perdão dos pecados; disto somos responsáveis. Nenhum de nós é senhor do sacramento, mas apenas servo fiel do perdão de Deus. Cada confessor deverá acolher os fiéis como o pai na parábola do filho pródigo: um pai que corre ao encontro do filho, apesar de lhe ter dissipado os bens. Os confessores são chamados a estreitar a si aquele filho arrependido que volta a casa e a exprimir a alegria por o ter reencontrado. Não nos cansemos de ir também ao encontro do outro filho, que ficou fora incapaz de se alegrar, para lhe explicar que o seu juízo severo é injusto e sem sentido diante da misericórdia do Pai que não tem limites. Não hão-de fazer perguntas impertinentes, mas como o pai da parábola interromperão o discurso preparado pelo filho pródigo, porque saberão individuar, no coração de cada penitente, a invocação de ajuda e o pedido de perdão. Em suma, os confessores são chamados a ser sempre e por todo o lado, em cada situação e apesar de tudo, o sinal do primado da misericórdia.
Na Quaresma deste Ano Santo, é minha intenção enviar os Missionários da Misericórdia. Serão um sinal da solicitude materna da Igreja pelo povo de Deus, para que entre em profundidade na riqueza deste mistério tão fundamental para a fé. Serão sacerdotes a quem darei autoridade de perdoar mesmo os pecados reservados à Sé Apostólica, para que se torne evidente a amplitude do seu mandato. Serão sobretudo sinal vivo de como o Pai acolhe a todos aqueles que andam à procura do seu perdão. Serão missionários da misericórdia, porque se farão, junto de todos, artífices dum encontro cheio de humanidade, fonte de libertação, rico de responsabilidade para superar os obstáculos e retomar a vida nova do Baptismo. Na sua missão, deixar-se-ão guiar pelas palavras do Apóstolo: « Deus encerrou a todos na desobediência, para com todos usar de misericórdia » (Rm 11, 32). Na verdade todos, sem excluir ninguém, estão chamados a acolher o apelo à misericórdia. Os missionários vivam esta chamada, sabendo que podem fixar o olhar em Jesus, « Sumo Sacerdote misericordioso e fiel » (Hb 2, 17).
Peço aos irmãos bispos que convidem e acolham estes Missionários, para que sejam, antes de tudo, pregadores convincentes da misericórdia. Organizem-se, nas dioceses, « missões populares », de modo que estes Missionários sejam anunciadores da alegria do perdão. Seja-lhes pedido que celebrem o sacramento da Reconciliação para o povo, para que o tempo de graça, concedido neste Ano Jubilar, permita a tantos filhos afastados encontrar de novo o caminho para a casa paterna. Os pastores, especialmente durante o tempo forte da Quaresma, sejam solícitos em convidar os fiéis a aproximar-se « do trono da graça, a fim de alcançar misericórdia e encontrar graça » (Hb 4, 16).
Que a palavra do perdão possa chegar a todos e a chamada para experimentar a misericórdia não deixe ninguém indiferente. O meu convite à conversão dirige-se, com insistência ainda maior, àquelas pessoas que estão longe da graça de Deus pela sua conduta de vida. Penso de modo particular nos homens e mulheres que pertencem a um grupo criminoso, seja ele qual for. Para vosso bem, peço-vos que mudeis de vida. Peço-vo-lo em nome do Filho de Deus que, embora combatendo o pecado, nunca rejeitou qualquer pecador. Não caiais na terrível cilada de pensar que a vida depende do dinheiro e que, à vista dele, tudo o mais se torna desprovido de valor e dignidade. Não passa de uma ilusão. Não levamos o dinheiro connosco para o além. O dinheiro não nos dá a verdadeira felicidade. A violência usada para acumular dinheiro que transuda sangue não nos torna poderosos nem imortais. Para todos, mais cedo ou mais tarde, vem o juízo de Deus, do qual ninguém pode escapar.
O mesmo convite chegue também às pessoas fautoras ou cúmplices de corrupção. Esta praga putrefacta da sociedade é um pecado grave que brada aos céus, porque mina as próprias bases da vida pessoal e social. A corrupção impede de olhar para o futuro com esperança, porque, com a sua prepotência e avidez, destrói os projectos dos fracos e esmaga os mais pobres. É um mal que se esconde nos gestos diários para se estender depois aos escândalos públicos. A corrupção é uma contumácia no pecado, que pretende substituir Deus com a ilusão do dinheiro como forma de poder. É uma obra das trevas, alimentada pela suspeita e a intriga. Corruptio optimi pessima: dizia, com razão, São Gregório Magno, querendo indicar que ninguém pode sentir-se imune desta tentação. Para a erradicar da vida pessoal e social são necessárias prudência, vigilância, lealdade, transparência, juntamente com a coragem da denúncia. Se não se combate abertamente, mais cedo ou mais tarde torna-nos cúmplices e destrói-nos a vida.
Este é o momento favorável para mudar de vida! Este é o tempo de se deixar tocar o coração. Diante do mal cometido, mesmo crimes graves, é o momento de ouvir o pranto das pessoas inocentes espoliadas dos bens, da dignidade, dos afectos, da própria vida. Permanecer no caminho do mal é fonte apenas de ilusão e tristeza. A verdadeira vida é outra coisa. Deus não se cansa de estender a mão. Está sempre disposto a ouvir, e eu também estou, tal como os meus irmãos bispos e sacerdotes. Basta acolher o convite à conversão e submeter-se à justiça, enquanto a Igreja oferece a misericórdia.
Neste contexto, não será inútil recordar a relação entre justiça e misericórdia. Não são dois aspectos em contraste entre si, mas duas dimensões duma única realidade que se desenvolve gradualmente até atingir o seu clímax na plenitude do amor. A justiça é um conceito fundamental para a sociedade civil, normalmente quando se faz referimento a uma ordem jurídica através da qual se aplica a lei. Por justiça entende-se também que a cada um deve ser dado o que lhe é devido. Na Bíblia, alude-se muitas vezes à justiça divina, e a Deus como juiz. Habitualmente é entendida como a observância integral da Lei e o comportamento de todo o bom judeu conforme aos mandamentos dados por Deus. Esta visão, porém, levou não poucas vezes a cair no legalismo, mistificando o sentido original e obscurecendo o valor profundo que a justiça possui. Para superar a perspectiva legalista, seria preciso lembrar que, na Sagrada Escritura, a justiça é concebida essencialmente como um abandonar-se confiante à vontade de Deus.
Por sua vez, Jesus fala mais vezes da importância da fé que da observância da lei. É neste sentido que devemos compreender as suas palavras, quando, encontrando-Se à mesa com Mateus e outros publicanos e pecadores, disse aos fariseus que O acusavam por isso mesmo: « Ide aprender o que significa: Prefiro a misericórdia ao sacrifício. Porque Eu não vim chamar os justos, mas os pecadores » (Mt 9, 13). Diante da visão duma justiça como mera observância da lei, que julga dividindo as pessoas em justos e pecadores, Jesus procura mostrar o grande dom da misericórdia que busca os pecadores para lhes oferecer o perdão e a salvação. Compreende-se que Jesus, por causa desta sua visão tão libertadora e fonte de renovação, tenha sido rejeitado pelos fariseus e os doutores da lei. Estes, para ser fiéis à lei, limitavam-se a colocar pesos sobre os ombros das pessoas, anulando porém a misericórdia do Pai. O apelo à observância da lei não pode obstaculizar a atenção às necessidades que afectam a dignidade das pessoas.
A propósito, é muito significativo o apelo que Jesus faz ao texto do profeta Oseias: « Eu quero a misericórdia e não os sacrifícios » (6, 6). Jesus afirma que, a partir de agora, a regra de vida dos seus discípulos deverá ser aquela que prevê o primado da misericórdia, como Ele mesmo dá testemunho partilhando a refeição com os pecadores. A misericórdia revela-se, mais uma vez, como dimensão fundamental da missão de Jesus. É um verdadeiro desafio posto aos seus interlocutores, que se contentavam com o respeito formal da lei. Jesus, pelo contrário, vai além da lei, a sua partilha da mesa com aqueles que a lei considerava pecadores permite compreender até onde chega a sua misericórdia.
Também o apóstolo Paulo fez um percurso semelhante. Antes de encontrar Cristo no caminho de Damasco, a sua vida era dedicada a servir de maneira irrepreensível a justiça da lei (cf. Fl 3, 6). A conversão a Cristo levou-o a inverter a sua visão, a ponto de afirmar na Carta aos Gálatas: « Também nós acreditámos em Cristo Jesus, para sermos justificados pela fé em Cristo e não pelas obras da lei » (2, 16). A sua compreensão da justiça muda radicalmente: Paulo agora põe no primeiro lugar a fé, e já não a lei. Não é a observância da lei que salva, mas a fé em Jesus Cristo, que, pela sua morte e ressurreição, traz a salvação com a misericórdia que justifica. A justiça de Deus torna-se agora a libertação para quantos estão oprimidos pela escravidão do pecado e todas as suas consequências. A justiça de Deus é o seu perdão (cf. Sl 51/50, 11-16).
A misericórdia não é contrária à justiça, mas exprime o comportamento de Deus para com o pecador, oferecendo-lhe uma nova possibilidade de se arrepender, converter e acreditar. A experiência do profeta Oseias ajuda-nos, mostrando-nos a superação da justiça na linha da misericórdia. A época em que viveu este profeta conta-se entre as mais dramáticas da história do povo judeu. O Reino está próximo da destruição; o povo não permaneceu fiel à aliança, afastou-se de Deus e perdeu a fé dos pais. Segundo uma lógica humana, é justo que Deus pense em rejeitar o povo infiel: não observou o pacto estipulado e, consequentemente, merece a devida pena, ou seja, o exílio. Assim o atestam as palavras do profeta: « Não voltará para o Egipto, mas a Assíria será o seu rei, porque recusaram converter-se » (Os 11, 5). E todavia, depois desta reacção que faz apelo à justiça, o profeta muda radicalmente a sua linguagem e revela o verdadeiro rosto de Deus: « O meu coração dá voltas dentro de mim, comovem-se as minhas entranhas. Não desafogarei o furor da minha cólera, não voltarei a destruir Efraim; porque sou Deus e não um homem, sou o Santo no meio de ti e não me deixo levar pela ira » (11, 8-9). Santo Agostinho, de certo modo comentando as palavras do profeta, diz: « É mais fácil que Deus contenha a ira do que a misericórdia ».[13] É mesmo assim! A ira de Deus dura um instante, ao passo que a sua misericórdia é eterna.
Se Deus Se detivesse na justiça, deixaria de ser Deus; seria como todos os homens que clamam pelo respeito da lei. A justiça por si só não é suficiente, e a experiência mostra que, limitando-se a apelar para ela, corre-se o risco de a destruir. Por isso Deus, com a misericórdia e o perdão, passa além da justiça. Isto não significa desvalorizar a justiça ou torná-la supérflua. Antes pelo contrário! Quem erra, deve descontar a pena; só que isto não é o fim, mas o início da conversão, porque se experimenta a ternura do perdão. Deus não rejeita a justiça. Ele engloba-a e supera-a num evento superior onde se experimenta o amor, que está na base duma verdadeira justiça. Devemos prestar muita atenção àquilo que escreve Paulo, para não cair no mesmo erro que o apóstolo censurava nos judeus seus contemporâneos: « Por não terem reconhecido a justiça que vem de Deus e terem procurado estabelecer a sua própria justiça, não se submeteram à justiça de Deus. É que o fim da Lei é Cristo, para que, deste modo, a justiça seja concedida a todo o que tem fé » (Rm 10, 3-4). Esta justiça de Deus é a misericórdia concedida a todos como graça, em virtude da morte e ressurreição de Jesus Cristo. Portanto a Cruz de Cristo é o juízo de Deus sobre todos nós e sobre o mundo, porque nos oferece a certeza do amor e da vida nova.
O Jubileu inclui também o referimento à indulgência. Esta, no Ano Santo da Misericórdia, adquire uma relevância particular. O perdão de Deus para os nossos pecados não conhece limites. Na morte e ressurreição de Jesus Cristo, Deus torna evidente este seu amor que chega ao ponto de destruir o pecado dos homens. É possível deixar-se reconciliar com Deus através do mistério pascal e da mediação da Igreja. Por isso, Deus está sempre disponível para o perdão, não Se cansando de o oferecer de maneira sempre nova e inesperada. No entanto todos nós fazemos experiência do pecado. Sabemos que somos chamados à perfeição (cf. Mt 5, 48), mas sentimos fortemente o peso do pecado. Ao mesmo tempo que notamos o poder da graça que nos transforma, experimentamos também a força do pecado que nos condiciona. Apesar do perdão, carregamos na nossa vida as contradições que são consequência dos nossos pecados. No sacramento da Reconciliação, Deus perdoa os pecados, que são verdadeiramente apagados; mas o cunho negativo que os pecados deixaram nos nossos comportamentos e pensamentos permanece. A misericórdia de Deus, porém, é mais forte também do que isso. Ela torna-se indulgência do Pai que, através da Esposa de Cristo, alcança o pecador perdoado e liberta-o de qualquer resíduo das consequências do pecado, habilitando-o a agir com caridade, a crescer no amor em vez de recair no pecado.
A Igreja vive a comunhão dos Santos. Na Eucaristia, esta comunhão, que é dom de Deus, realiza-se como união espiritual que nos une, a nós crentes, com os Santos e Beatos cujo número é incalculável (Ap 7, 4). A sua santidade vem em ajuda da nossa fragilidade, e assim a Mãe-Igreja, com a sua oração e a sua vida, é capaz de acudir à fraqueza de uns com a santidade de outros. Portanto viver a indulgência no Ano Santo significa aproximar-se da misericórdia do Pai, com a certeza de que o seu perdão cobre toda a vida do crente. A indulgência é experimentar a santidade da Igreja que participa em todos os benefícios da redenção de Cristo, para que o perdão se estenda até às últimas consequências aonde chega o amor de Deus. Vivamos intensamente o Jubileu, pedindo ao Pai o perdão dos pecados e a indulgência misericordiosa em toda a sua extensão.
A misericórdia possui uma valência que ultrapassa as fronteiras da Igreja. Ela relaciona-nos com o judaísmo e o islamismo, que a consideram um dos atributos mais marcantes de Deus. Israel foi o primeiro que recebeu esta revelação, permanecendo esta na história como o início duma riqueza incomensurável para oferecer à humanidade inteira. Como vimos, as páginas do Antigo Testamento estão permeadas de misericórdia, porque narram as obras que o Senhor realizou em favor do seu povo, nos momentos mais difíceis da sua história. O islamismo, por sua vez, coloca entre os nomes dados ao Criador o de Misericordioso e Clemente. Esta invocação aparece com frequência nos lábios dos fiéis muçulmanos, que se sentem acompanhados e sustentados pela misericórdia na sua fraqueza diária. Também eles acreditam que ninguém pode pôr limites à misericórdia divina, porque as suas portas estão sempre abertas.
Possa este Ano Jubilar, vivido na misericórdia, favorecer o encontro com estas religiões e com as outras nobres tradições religiosas; que ele nos torne mais abertos ao diálogo, para melhor nos conhecermos e compreendermos; elimine todas as formas de fechamento e desprezo e expulse todas as formas de violência e discriminação.
O pensamento volta-se agora para a Mãe da Misericórdia. A doçura do seu olhar nos acompanhe neste Ano Santo, para podermos todos nós redescobrir a alegria da ternura de Deus. Ninguém, como Maria, conheceu a profundidade do mistério de Deus feito homem. Na sua vida, tudo foi plasmado pela presença da misericórdia feita carne. A Mãe do Crucificado Ressuscitado entrou no santuário da misericórdia divina, porque participou intimamente no mistério do seu amor.
Escolhida para ser a Mãe do Filho de Deus, Maria foi preparada desde sempre, pelo amor do Pai, para ser Arca da Aliança entre Deus e os homens. Guardou, no seu coração, a misericórdia divina em perfeita sintonia com o seu Filho Jesus. O seu cântico de louvor, no limiar da casa de Isabel, foi dedicado à misericórdia que se estende « de geração em geração » (Lc 1, 50). Também nós estávamos presentes naquelas palavras proféticas da Virgem Maria. Isto servir-nos-á de conforto e apoio no momento de atravessarmos a Porta Santa para experimentar os frutos da misericórdia divina.
Ao pé da cruz, Maria, juntamente com João, o discípulo do amor, é testemunha das palavras de perdão que saem dos lábios de Jesus. O perdão supremo oferecido a quem O crucificou, mostra-nos até onde pode chegar a misericórdia de Deus. Maria atesta que a misericórdia do Filho de Deus não conhece limites e alcança a todos, sem excluir ninguém. Dirijamos-Lhe a oração, antiga e sempre nova, da Salve Rainha, pedindo-Lhe que nunca se canse de volver para nós os seus olhos misericordiosos e nos faça dignos de contemplar o rosto da misericórdia, seu Filho Jesus.
E a nossa oração estenda-se também a tantos Santos e Beatos que fizeram da misericórdia a sua missão vital. Em particular, o pensamento volta-se para a grande apóstola da Misericórdia, Santa Faustina Kowalska. Ela, que foi chamada a entrar nas profundezas da misericórdia divina, interceda por nós e nos obtenha a graça de viver e caminhar sempre no perdão de Deus e na confiança inabalável do seu amor.
Será, portanto, um Ano Santo extraordinário para viver, na existência de cada dia, a misericórdia que o Pai, desde sempre, estende sobre nós. Neste Jubileu, deixemo-nos surpreender por Deus. Ele nunca Se cansa de escancarar a porta do seu coração, para repetir que nos ama e deseja partilhar connosco a sua vida. A Igreja sente, fortemente, a urgência de anunciar a misericórdia de Deus. A sua vida é autêntica e credível, quando faz da misericórdia seu convicto anúncio. Sabe que a sua missão primeira, sobretudo numa época como a nossa cheia de grandes esperanças e fortes contradições, é a de introduzir a todos no grande mistério da misericórdia de Deus, contemplando o rosto de Cristo. A Igreja é chamada, em primeiro lugar, a ser verdadeira testemunha da misericórdia, professando-a e vivendo-a como o centro da Revelação de Jesus Cristo. Do coração da Trindade, do íntimo mais profundo do mistério de Deus, brota e flui incessantemente a grande torrente da misericórdia. Esta fonte nunca poderá esgotar-se, por maior que seja o número daqueles que dela se abeirem. Sempre que alguém tiver necessidade poderá aceder a ela, porque a misericórdia de Deus não tem fim. Quanto insondável é a profundidade do mistério que encerra, tanto é inesgotável a riqueza que dela provém.
Neste Ano Jubilar, que a Igreja se faça eco da Palavra de Deus que ressoa, forte e convincente, como uma palavra e um gesto de perdão, apoio, ajuda, amor. Que ela nunca se canse de oferecer misericórdia e seja sempre paciente a confortar e perdoar. Que a Igreja se faça voz de cada homem e mulher e repita com confiança e sem cessar: « Lembra-te, Senhor, da tua misericórdia e do teu amor, pois eles existem desde sempre » (Sl 25/24, 6).
Dado em Roma, junto de São Pedro, no dia 11 de Abril – véspera do II Domingo de Páscoa ou  da Divina Misericórdia – do Ano do Senhor de 2015, o terceiro de pontificado.
Francisco


[1] Cf. Conc. Ecum. Vat. II, Const. dogm. Dei Verbum, 4.
[2]Discurso de abertura do Concílio Ecuménico Vaticano IIGaudet Mater Ecclesia (11 de Outubro de 1962), 2-3.
 [3]Alocução na última sessão pública (7 de Dezembro de 1965).
 [4] Cf. Conc. Ecum. Vat. II, Const. dogm. Lumen gentium, 16; Const. past. Gaudium et spes, 15.
 [5] Tomás de Aquino, Summa theologiae, II-II, q. 30, a. 4.
 [6] Domingo XXVI do Tempo Comum. Esta colecta já aparece, no séc. VIII, entre os textos eucológios do Sacramentário Gelasiano (1198).
 [7] Cf. Homilia 21: CCL 122, 149-151.
 [8] Exort. ap. Evangelii gaudium, 24.
 [9] João Paulo II, Carta enc. Dives in misericordia, 2.
[10]Ibid., 15.
[11]Ibid., 13.
[12]Ditos de luz e amor, 57.

[13]Enarratio in Psalmos, 76, 11.

3 de abril de 2015

Neste ano a Sexta feira santa, aconteceu numa quinta...



Estarrecido abro o meu computador no final da noite desta quinta feira santa e vejo , ouço os gritos de uma mãe desesperada. Em seguida a cena  nos transporta para uma criança morta em meio a uma poça de sangue.
Não, não é um filme,  não é na palestina, não foi o EI , nem qualquer outro exercito palestino...
Foi aqui, bem ao nosso lado, na palestina brasileira, no Alemão...

Hoje agora pela manhã mais uma vez, abro o meu computador tentando me esquivar daquela cena que  ainda não saiu da minha cabeça e leio:

Os “esquerdinhas” choram a morte do menino da favela, mas não dizem nada pela morte do filho do governador Alkimin !

Será que SÓ os “esquerdinhas” se chocam com a morte violenta de um menino de 10 anos?
Os “direitinhas” já não se chocam mais com barbáries deste tipo ? Perderam sua capacidade de se indignar, ou isso para eles é seletivo? Em essência não são pessoas iguais ou a escolha da cor política muda também o caráter , a personalidade e a sensibilidade das pessoas ?
Meu Deus, meu Deus, porque nos abandonastes ?
 Não há dúvida que a morte do filho do governador de S. Paulo é algo a se lamentar, a perda de um filho é algo que não faz parte dos planos normais da vida de ninguém. O governador merece nossas condolências, nossos pêsames mais sinceros. Nesta hora de dor não há partidos só inteiros !
Mas meu Deus ! será que são coisas comparáveis, além da dor da perda de um filho?  A morte do filho de Geraldo Alkimin é uma fatalidade, um acidente,  não foi provocada ! Não foi morte MATADA , como diria João Cabral de Melo Neto.   A do menino do Alemão é fruto da truculência, é fruto de um sistema social completamente fora de propósito que divide pessoas pelo seu poder de compra, pelo fato de ter ou não conta bancária, investimentos, poder econômico de consumo.   Se delitos  esse menino cometeu, sua tenra idade nos indica que certamente um adulto o colocou no desvio. E este desvio certamente vem de longe, não tem sua origem ali, como nos querem fazer acreditar que os donos do tráfico estão nas comunidades, nas favelas.    Todos nós sabemos que não. Nunca uma batida policial numa favela encontrou meia tonelada de pó !!!

Há algo mito sinistro em toda essa história, algo muito maldoso, querem nos fazer pensar que os meninos pobres são facínoras , que a maioridade penal deve  ir pra os 16, 14... Ou quem sabe 10 como o menino morto  ontem ? Mas  curiosamente os “meninos”  de 18/19 anos que queimam índios e mendigos, que estupram empregadas domésticas nos pontos de ônibus de bairros de poder aquisitivo mais alto, ficam sistematicamente  I M P U N E S !
Há momentos que penso que estou ficando senil , que alguém mudou a ordem do mundo. Aliás o mano Caetano já havia cantado que : “ alguma coisa está fora da ordem, fora da nova ordem mundial”

 Hoje é Sexta Feira Santa, certamente  a pessoa que escreveu sua revolta pelos “esquerdinhas” terem se indignado pela morte daquele “marginalzinho” de dez anos, vai piedosamente  se ajoelhar diante da cruz, e talvez até chorar pelo martírio daquele que ela apregoa como seu Deus. Vai beijar a cruz hipocritamente. Sim hipocritamente porque não consegue entender o que Jesus disse com  todas as letras: “TODAS AS VEZES QUE FIZERDES A UM DE MEUS PEQUENINOS É A MIM  QUE O FAREIS.”
Eu espero e rezo a Deus que não só os esquerdinhas, que são tachados de ateus, nos ajoelhemos  diante do menino de dez anos do alemão, porque ao fazer isso estaremos diante do mestre da Galileia, do Raboní Joshua, mais uma vez martirizado como tantas vezes vem sendo ao longo destes mais de dois mil anos pelos becos de uma Jerusalém que ocupa todos os espaços deste nosso planeta que perdeu o caminho do AMOR, como Ele nos amou .

 Deixo aqui  aos pé da cruz a minha revolta e as minhas orações para aquela mãe desesperada que gritava ontem pelas ruas do alemão e também a minha solidariedade, meus sentimentos e a promessa de minhas orações também à família do governador de  São Paulo pela perda de seu filho.

Que Deus tenha compaixão de nós,  perdoe nossos pecados e nos conduza,  porque continuamos não sabendo o que fazemos .

13 de março de 2015

A transição

j. Ricardo A. de Oliveira

Hoje depois de responder ao desabafo de um amiga  eu achei que devia colocar o que escrevi aqui, porque reflete bem aquilo que venho pensando e que a resposta, na verdade,não seria só para ela e sim para um monte de gente que vem se sentido nesta encruzilhada da vida, neste ponto que parece marcar um divisor.: um forte ponto de transição.
Na abertura do livro "O Ponto de Mutação" do físico F. Cappra, um livro a meu ver quase profético, o autor coloca o hexagrama 24 do oráculo milenar, I Ching .

"Ao término de um período de decadência sobre vêm o ponto de mutação. A luz poderosa que fora banida ressurge. Há movimento, mas este não é gerado pela força... O movimento é natural, surge espontaneamente. Por essa razão, a transformação do antigo torna-se fácil. O velho é descartado, e o novo ê introduzido. Ambas as medidas se harmonizam com o tempo, não resultando daí, portanto, nenhum dano".
 I Ching – hexagrama 24 - FU

Desde 1985 quando li pela primeira vez este livro tenho, primeiro me angustiado, e muito, mas ultimamente, mas bem ultimamente mesmo eu começo a ter uma percepção de que não há outro caminho. Os velhos paradigmas atingiram o ponto de mutação e a seguir virá a grande mudança. Não sei para quando, mas hoje tenho certeza de que virá. Acho que não para nós, mas para os nossos frutos se conseguirem sobreviver à grande noite que sempre antecede um belo amanhecer.
Eu tenho vivido só de fé, embora muito pouca, ainda resta algum fiapo e é o que tem me mantido atento e forte como diz aquela musica, “Divino Maravilhoso”
"Atenção, muita atenção, é preciso estar atento e forte, não temos tempo de temer a morte..."

Depois, temos pela fé que tudo vai passar, é só lembrar o final do apocalipse:

" Eu, Jesus, enviei o meu anjo para vos atestar estas coisas a respeito das igrejas. Eu sou a raiz e o descendente de Davi, a estrela radiosa da manhã.
O Espírito e a Esposa dizem: Vem! Possa aquele que ouve dizer também: Vem!
Aquele que tem sede, venha!
E que o homem de boa vontade receba, gratuitamente, da água da vida! "
... Aquele que atesta estas coisas diz:
Sim! Eu venho depressa! Amém.
Vem, Senhor Jesus! “

27 de fevereiro de 2015

Jesus Cristo me deixou inquieto

Pe. Zezinho SJC

Jesus Cristo me deixou inquieto nas palavras que
ele proferiu.
 
Nunca mais eu pude olhar o mundo, sem
sentir aquilo que Jesus sentiu/:




Eu vivia tão tranquilo e descansado e pensava ter
chegado ao que busquei. Muitas vezes proclamei
extasiado que, ao seguir a lei de Cristo, eu me
salvei.

Mas depois que meu Senhor passou, nunca mais
meu coração se acomodou.





Minha vida que eu pensei realizada, esbanjei como
semente em qualquer chão. Pouco a pouco, ao caminhar
na longa estrada, percebi que havia tido uma ilusão.
Mas depois que meu Senhor passou, ilusão e comodismo se acabou.




25 de dezembro de 2014

Os relatos da infância de Jesus: Teologia ou história?


Leonardo Boff

Quanto mais se medita sobre Jesus mais se descobre o mistério que sua vida humilde escondia e mais se remonta para as origens. Por volta dos anos 75-85, quando S. Lucas e S. Mateus redigiram seus evangelhos, se recolheram as reflexões que se haviam feito nas várias comunidades. Para todos era claro que Jesus fora constituído por Deus como Messias, Salvador, Filho de Deus e Deus mesmo em forma humana. A partir desta fé se interpretaram os fatos relativos ao nascimento e à infância de Jesus. Atrás desses relatos se esconde trabalho teológico muito profundo e intenso num esforço de decifrar o mistério de Jesus e anunciá-lo para os fiéis dos anos 75-85 dC. As cenas familiares do Natal, descritas por S. Lucas e por S. Mateus, querem antes ser proclamações da fé acerca de Jesus Salvador do que relatos neutros acerca de sua história.
O processo cristológico, como o temos desenvolvido no capítulo precedente, nos fez compreender como surgiram os títulos e os nomes atribuídos a Jesus. Atrás de cada título, seja Cristo, Filho do Homem, Filho de Deus, etc., esconde-se uma longa reflexão teológica. Essa reflexão pode chegar até à sofisticação da teologia rabínica mais refinada. É o que veremos nos relatos da infância de Jesus. No sentir comum dos cristãos os relatos do nascimento de Jesus e a celebração do Natal constituem uma festa para o coração. A fé se toma sentimento. Com isso ela atinge o que há de mais profundo e íntimo na personalidade humana: faz vibrar, alegrar e saborear a vida como sentido. No presépio, diante da manjedoura com o Menino entre o asno e o boi, a virgem e o bom José, os pastores e as ovelhas, a estrela, as artes e as profissões, a natureza, as montanhas, as águas, o universo das coisas e dos homens se congraçam e reconciliam diante do Menino. No dia de Natal todos nos tornamos meninos e deixamos que, uma vez pelo menos, o pequeno príncipe que mora em cada um de nós fale a linguagem inocente das crianças que se extasiam diante do pinheirinho, das velas acesas e das bolas cristalinas. O homem mergulha no mundo da infância, do mito, do símbolo e da poesia que é a própria vida, mas que os interesses, os negócios, a preocupação pela sobre-vivência abafam, impedindo a vivência da eterna criança adulta que cada qual ainda é. Tudo isso são valores que devem ser defendidos e alimentados. Contudo para se manterem como valores cristãos devem estar em conexão com a fé. Sem isso o sentimento e a atmosfera do Natal se transformam em sentimentalismo, explorado pela máquina comercial da produção e do consumo. A fé se relaciona com a história e com Deus que se revela dentro da história. Então: o que se deu de fato no Natal? Será mesmo que apareceram anjos nos campos de Belém? Vieram de fato reis do Oriente? É curioso imaginar uma estrela errando por aí, primeiro até Jerusalém e depois até Belém onde estava o Menino. Por que não se dirigiu diretamente a Belém, mas primeiro resplendeu sobre Jerusalém, estarreceu toda a cidade e o Rei Herodes, aponto de este ter decretado a morte das crianças inocentes? Em que medida nisso tudo vai conto ou realidade? Qual é a mensagem que Lucas e Mateus intencionaram com a história da infância de Jesus? O interesse deles é histórico ou, quem sabe, através da amplificação edificante e embelezadora de um dito da Escritura ou de um acontecimento real, comunicar uma verdade mais profunda acerca do Menino que mais tarde pela Ressurreição iria manifestar-se como o Libertador da condição humana e a grande esperança de vida humana e eterna para todos os homens?
Para os olhos de um conhecedor dos procedimentos literários usados nas Escrituras e para o historiador do tempo de Jesus os relatos do Natal não são sem problemas. Atrás da simplicidade cândida e do lirismo de algumas cenas esconde-se uma teologia sofisticada e pensada até nas suas mínimas minúcias. Esses textos não são os mais antigos dos evangelhos. São os mais recentes e elaborados quando já havia toda uma reflexão teológica sobre Jesus e o significado de sua morte e ressurreição, quando já estavam ordenados por escrito os relatos de sua paixão, as parábolas, os milagres e os principais ditos de Jesus, quando já se tinham criado os principais títulos, como Filho de Davi, Messias, Cristo, novo Moisés, Filho de Deus, etc., pelos quais se tentava decifrar o mistério da humanidade de Jesus. No fim de tudo apareceu o começo: a infância de Jesus pensada e escrita à luz da teologia e da fé que se criara ao redor de sua vida, morte e ressurreição. É exatamente aqui que se situa o lugar de compreensão dos relatos de sua infância, como vêm narrados por Mateus e por Lucas.

1.     A fé que procura compreender

A fé não exime nem dispensa a razão. Ela, para ser verdadeira, deve procurar compreender, não para abolir o mistério, mas vislumbrar-lhe as reais dimensões e cantar, maravilhada, a graciosa lógica de Deus. A fé professava que Jesus é o Salvador, o Messias, o Sentido de tudo (Logos), o profeta anunciado outrora (Dt 18,15-22), o novo Moisés que libertaria os homens num êxodo definitivo de todas as ambigüidades da condição humana. Eis, porém que uma pergunta preocupou bem cedo os apóstolos: em que ponto de sua vida Deus instituiu Jesus como Salvador, Messias e Filho de Deus?
A pregação mais antiga responde: na morte e na ressurreição (cf. 1Cor 15,3-8; At 10,34-43). São Marcos, que escreveu seu evangelho por volta de 67-69, afirma: com o batismo de João, Jesus foi ungido pelo Espírito Santo e proclamado Messias e Libertador. Realmente o evangelho de S. Marcos não conhece nenhum relato da infância de Cristo e inicia com a pregação preparadora de João Batista e com o batismo de Jesus. Mateus, que elaborou seu evangelho por volta de 80-85 dC, responde: Jesus é desde o seu nascimento o Messias esperado; mais ainda: toda a história da salvação desde Abraão caminhou para ele (cf. a genealogia de Cristo: Mt 1;1-17). Lucas, que escreveu seu evangelho pela mesma época, dá um passo adiante e diz: desde o Natal na gruta de Belém Jesus é o Messias e o Filho de Deus. Porém não só a história santa de Israel desde Abraão marchou até que Ele nascesse na gruta, mas toda a história humana desde Adão (Lc 3,38). Por fim vem S. João por volta do ano 100, herdando uma longa e profunda meditação sobre quem era Jesus, e responde: Jesus era o Filho de Deus já antes de ter nascido, em sua preexistência junto a Deus, muito antes da criação do mundo porque "no princípio era a Palavra. E a Palavra se fez condição humana e armou tenda entre nós" (Jo 1, 1.14). Como transparece, quanto mais se medita sobre Jesus mais se descobre seu mistério e mais se remonta para as origens. Todo esse processo é fruto do amor. Quando se ama uma pessoa, procura-se saber tudo dela: sua vida, seus interesses, sua infância, sua família, seus antepassados, de que país vieram, etc. O amor vê mais longe e profundamente que o frio raciocínio. A ressurreição revelou as verdadeiras dimensões da figura de Jesus: ele interessa não só aos judeus (Abraão), nem só aos homens todos (Adão), mas até ao cosmos porque "sem ele nada se fez de tudo o que foi criado" (Jo 1 ,3). A partir da luz ganha com o clarão da ressurreição, os apóstolos começam a reler toda a vida de Cristo, reinterpretar suas palavras, recontar seus milagres, e a descobrir em alguns fatos, em si simples, de seu nascimento a presença latente do Messias e Salvador, revelado patentemente, porém, só depois com a ressurreição. Nessa mesma luz foram ganhando nova luz muitas passagens do Antigo Testamento tidas como proféticas, agora ampliadas e explicadas em função da fé em Jesus, Filho de Deus. Por isso, o sentido teológico dos relatos da infância não reside tanto em narrar fatos do nascimento de Jesus, mas através da roupagem de narrações plásticas e teológicas em anunciar para os ouvintes dos anos 80-90 dC quem é e o que é para a comunidade dos fiéis Jesus de Nazaré. Portanto deve-se buscar menos história do que mensagem da fé. Entre os fatos históricos contidos nos relatos de Natal a exegese crítica católica enumera os seguintes: 1. Noivado de Maria com José (Mt 1,18; Lc 1,27; 2,5) ; 2. A descendência davídica de Jesus (Mt 1,1; Lc 1,32) através da descendência de José (Mt 1,16.20; Lc 1,27; 2,4); 3. O nome Jesus Mt 1,21; Lc 1,31) ; 4. O nascimento de Jesus da Virgem Maria (Mt 1,21.23.25; Lc 1,31; 2,6-7) ; 5. Nazaré como residência de Jesus (Mt 2,23; Lc 2,39). Abaixo veremos como Mateus e Lucas trabalharam literária e teologicamente esses dados para com eles e através deles anunciarem, cada qual a seu modo, uma mensagem de salvação e de alegria para os homens: que nesse menino "envolto em faixas e deitado na manjedoura por não haver lugar na estalagem" (Lc 2,7) se escondia o sentido secreto da história desde a criação do primeiro ser e que nele se realizaram todas as profecias e as esperanças humanas de libertação, e total plenitude em Deus.

2.     Mateus e Lucas: Jesus é o ponto Ômega da história, o Messias, filho de Davi esperado, o filho de Deus

A ressurreição mostrou que, com Cristo, a história chegou ao seu ponto Ômega porque a morte foi vencida e o homem totalmente realizado e inserido dentro da esfera divina. Por isso ele é o Messias e, se Messias, então da família real de Davi. Pelas genealogias de Jesus tanto Mateus (1,1-17) quanto Lucas (3,23-38) querem trazer a prova de que Jesus e nenhum outro realmente emergiu quando a história chegou ao seu ponto Z; que ele ocupa aquele exato lugar na genealogia davídica que corresponde ao Messias e que ele se insere nesta genealogia de tal forma que se cumpra a profecia de Isaías (7,14) - de ser filho de uma virgem -, recebendo o nome, e com isso seu inserimento na genealogia, de seu pai adotivo José. Segundo o livro 4 Esdras 14,11-12 esperava-se o Messias, Salvador de todos os homens desde Adão, no final da 11.ª semana do mundo. Onze semanas do mundo resultam 77 dias do mundo. São Lucas constrói a genealogia de Jesus desde Adão mostrando que ele surgiu na história quando se completaram os 77 dias do mundo, cada dia com um ancestral de Jesus. Por isso a genealogia de Jesus de Adão até José perfaz 77 antepassados. A história chegou ao seu ponto Ômega quando Jesus nasceu em Belém. Que essa genealogia é artificialmente construída se percebe comparando-a com a de Mateus. Ademais há longos espaços vazios entre uma geração e outra.
Mateus utiliza um procedimento semelhante para provar que Jesus é filho de Davi e assim o Messias esperado. Substituindo-se as consoantes do nome DaViD (as vogais não contam em hebraico) por seus respectivos números resulta o número 14 (D = 4, V= 6, D = 4: 14). Mateus constrói a genealogia de Jesus de tal forma que resultam, como ele mesmo o diz expressamente (1,17), 3 vezes 14 gerações. O número 14 é o duplo de 7, número que para a Bíblia simboliza a plenitude do plano de Deus ou a totalidade da história. As 14 gerações de Abraão até Davi mostram o primeiro ponto alto da história judaica; as 14 gerações de Davi até a deportação para a Babilônia revelam o ponto mais baixo da história santa; e as 14 gerações do cativeiro babilônico até Cristo patenteiam o definitivo ponto alto da história da salvação que jamais conhecerá ocaso porque aí surgiu o Messias. À diferença de Lucas, Mateus insere ainda na genealogia de Jesus 4 mulheres, todas elas mal afamadas: duas prostitutas, Tamar (Gn 38,1-30) e Raab (Js 2; 6,17.22s) , uma adúltera, Betsabéia, mulher de Urias (2Sm 11,3; 1Cr 3,5) e uma moabita pagã, Rute (Rt 4,12s). Com isso Mateus quer insinuar que Cristo assumiu os pontos altos e baixos da história e tomou também sobre si as ignomínias humanas. Cristo é o último membro da genealogia, exatamente aquele ponto aonde a história chega ao seu ponto Z, completando 3 vezes quatorze gerações. Portanto só ele pode ser o Messias prometido e esperado.

3.     José e a concepção da virgem em Mateus: um rodapé à genealogia

Em sua genealogia de Jesus, Mateus quer provar que Cristo realmente descende de Davi. Na realidade não o consegue provar, porque no passo decisivo em vez de dizer: Jacó gerou José, José gerou Jesus, interrompe e afirma: Jacó gerou José, esposo de Maria, da qual nasceu Jesus, chamado o Cristo (1,16). A mulher na jurisprudência judaica não conta na determinação genealógica. Logo, Cristo através de Maria não pode se inserir na casa de Davi. Contudo para Mateus é claro que Jesus é filho da Virgem Maria e do Espírito Santo (1,18). Aqui, pois surgiu um problema: como inserir Jesus através da árvore genealógica masculina dentro da genealogia davídica se ele não tem pai humano? Para resolver tal problema faz como que um rodapé ou uma glosa (explicação de uma dificuldade) e narra a concepção e a origem de Jesus (1,18-25). A intenção não é narrar a concepção virginal de Jesus, nem descrever, como o faz Lucas, o nascimento de Jesus. O centro do relato está em S. José que, sabendo do estado de Maria, quer abandoná-la de noite. O sentido do relato de Mt 1,18-25 é resolver o problema levantado: o esclarecimento vem no versículo 25: José coloca no menino o nome de Jesus. José, descendente de Davi, legalmente esposo de Maria, dando o nome a Jesus, torna-se juridicamente seu pai e com isso o insere em sua genealogia davídica. Assim Jesus é filho de Davi através de José e também o Messias. Desta forma realiza-se também a profecia de Isaías que o Messias nasceria de uma virgem (Is 7,14) e o plano de Deus se realiza plenamente.

4.     Quis S. Lucas contar a concepção virginal de Jesus?

A anunciação e o nascimento de Cristo são relatados pelo evangelista S. Lucas. S. Lucas é considerado na tradição como o evangelista pintor. Realmente nos capítulos 1-2 ele pinta um dípticon. Dípticon era para o mundo medieval (como podem ser vistos em igrejas antigas também no Brasil) um altar com duas semijanelas ou alas nas quais havia pinturas que se correspondiam. Assim Lucas 1-2 pinta a infância de João Batista num paralelo perfeito com a infância de Jesus. De modo semelhante fará depois Mateus, traçando um paralelo entre Moisés e Jesus. Contudo, em cada ponto paralelo, Lucas mostra como Cristo é maior que João Batista. Assim há uma correspondência perfeita entre o anúncio do nascimento de João Batista através do anjo Gabriel (Lc 1,5-25) e o anúncio do nascimento de Jesus (1,26-56); em ambos os casos ao nascer, ao se circuncidar a criança e ao se dar o nome verificam-se sinais miraculosos (1,57-66; 2,1-21); anuncia-se em ambos os casos o significado salvífico de João e de Jesus nas profecias de Zacarias (João), respectivamente de Simeão e da profetisa Ana (Jesus) (1,67-80; 2,22-40). Em ambos os casos faz-se também uma referência ao crescimento dos dois meninos João e Jesus. Em todas as cenas releva-se que o ciclo de Jesus supera sempre o ciclo de João: na anunciação da concepção de João o anjo Gabriel não faz nenhuma saudação (Lc 1,11), ao passo que com Maria ele a saúda gentilmente (1,28). A Zacarias o anjo diz: Tua oração foi ouvida (1,13), ao passo que a Maria observa reverente: Tu achaste graça aos olhos do Senhor (1,31). Na cena da visitação de Maria a Isabel a saudação de Maria faz a criança estremecer no seio materno de Isabel, agora repleta do Espírito Santo.
Jesus, ao contrário, desde o início é o portador do Espírito porque tem sua origem dele e da Virgem. João Batista surge no deserto (1,80), Cristo, porém no templo (2,41-52).Tais procedimentos literários para ressaltar a função salvífica de Cristo são utilizados de forma ainda mais refinada ao narrar o anúncio da concepção de Cristo (1,26-38) que se deu no sexto mês da concepção de João Batista. Ora, seis meses de 30 dias resultam 180 dias; 9 meses da concepção de Jesus até seu nascimento dão 270 dias; do nascimento até a apresentação do menino no templo, somam 40 dias. A soma total resulta 490 dias, ou 70 semanas. O que significam para os leitores do Novo Testamento 70 semanas? Segundo Daniel (9,24) após 70 semanas-ano o Messias viria e libertaria o povo dos pecados e traria a justiça eterna. Lucas quer com esses dados insinuar que a profecia de Daniel se completou e só Jesus é o Messias esperado. As palavras da anunciação mesma, ditas pelo anjo, a reação da Virgem, a saudação de Gabriel são formuladas em estreita ligação com palavras semelhantes ou iguais proferidas em semelhantes situações no Antigo Testamento (para Lc 1,42 = Jt 13,18; para Lc 1,28.30-33 = Sf 3,14-17; para Lc 1,28 = Gn 26,3.28; 28,15; Ex 3,12; 1Sm 3,19; 1Rs 1,37, etc.). A concepção de Jesus por obra e força do Espírito Santo não quer tanto explicar o processo biológico da concepção (para Lucas é indiscutível que Jesus nasceu da Virgem como virgem), mas, antes relacionar Jesus-Salvador com outras figuras libertadoras do Antigo Testamento que, pela força do Espírito Santo, foram instituídas em sua função (1Sm 10,6s; 16,13s; Jz 3,10; 6,34; 11,29; 13,25; 1Rs 19,19; 2Rs 2,8-15, etc.). Aqui se percebe a diferença de perspectiva entre a catequese tradicional e a perspectiva de S. Lucas e S. Mateus. A catequese tradicional acentuava por excelência a virgindade de Nossa Senhora, o fato da virgindade física e perpétua de Maria, "antes, durante e após o parto". Para os relatos evangélicos a virgindade pessoal de Maria é secundária. Mais importante é a concepção virginal de Jesus. Como o exprime muito bem Dom Paulo Eduardo Andrade Ponte: "A preocupação dos evangelistas era destacar não o caráter virginal, mas o caráter sobrenatural, divino dessa concepção. Para eles a concepção de Jesus foi virginal para poder ser sobrenatural, e não sobrenatural para ser virginal. Ela foi virginal para que Deus pudesse ser a sua causa, não somente primeira, mas principal, para que Ele pudesse ser o seu autor direto... Ao ouvir certos sermões ou ao ler determinados livros de espiritualidade, tinha-se a impressão de que a concepção de Jesus foi sobrenatural e milagrosa para preservar a virgindade de sua mãe. Ela teria sido, portanto sobrenatural para ser virginal e não virginal para ser sobrenatural. E isso era inspirado por toda uma conceituação moralizante e maniqueísta da virgindade no cristianismo". Bem diversa, porém é a perspectiva dos Evangelhos; para eles Cristo está no centro e em sua função a virgindade de Maria. Por isso que o Novo Testamento prefere chamar Maria de Mãe de Jesus (Jo 2,1.3.12; 19,25-26; At 1,14) ao invés de a Virgem que ocorre apenas duas vezes nos textos neotestamentários (Lc 1,27 ; Mt 1,23 ) e ainda para relevar sua função maternal por obra do Espírito Santo. A concepção de Jesus mesma é descrita na forma como a glória de Deus é manifestada no tabernáculo da aliança (Ex 40,32 = Lc 1,35). Assim como o tabernáculo está cheio do Espírito de Deus, da mesma forma e ainda muito mais o filho de Maria, que realmente merece ser chamado Filho de Deus (Lc 1,35). Por força do Espírito surge alguém que é de tal forma penetrado por esse mesmo Espírito que somente dele ganha sua existência. Cristo é a nova criação daquele mesmo Espírito que criou o velho mundo. Esse é o sentido teológico profundo que Lucas quer transmitir com a concepção de Jesus por força do Espírito Santo; e não tanto descrever um fenômeno miraculoso de ordem biológica, embora esse esteja suposto e sirva de motivo da reflexão teológica.

5.     Onde teria nascido Jesus: Belém ou Nazaré?

Semelhante trabalho teológico como vimos até aqui se processa também ao se narrar o nascimento de Jesus em Belém. O nascimento em si é narrado sem qualquer tom romântico, mas no seu caráter rude e seco ganha grande profundidade: "Ora, quando se achavam lá (Belém), chegou o tempo em que devia dar à luz. Ela deu à luz seu filho primogênito, envolveu-o em faixas, e deitou-o numa manjedoura, por não haver lugar para eles na hospedaria" (Lc 2,6-7). Esse fato comum, que poderia ter acontecido com qualquer mãe, é relido, devido à ressurreição, dentro de um conteúdo teológico. Se ele se revelou como sendo o Messias e é filho de Davi por parte de seu pai legal José, então deve-se realizar nele também a outra profecia que diz: de Belém sairá aquele que irá governar Israel (Mq 5,1; 1Sm 16, ls), o Messias; e não de Nazaré, a pátria de Jesus, lugar tão insignificante que jamais ocorre em todo o Antigo Testamento. Lucas não visa especialmente ressaltar o lugar geográfico, mas fazer uma reflexão teológica sobre Belém e sua significação messiânica para deixar claro que Jesus é o Messias. Provável que a pátria de Jesus historicamente tenha sido Nazaré, lugar teologicamente irrelevante. Para fazer Jesus nascer em Belém, Lucas cria uma situação em que de Nazaré a Sagrada Família é levada a ir para Belém. Para atingir tal fim teológico Lucas refere que César Augusto decretara um recenseamento de toda aterra e que fora feito na Palestina quando Quirino era governador da Síria (província a que pertencia a palestina). Sabemos, contudo, que esse censo só foi feito historicamente no ano 6 dC como o próprio Lucas nos Atos lembra (At 5,37), dando origem a um grupo de guerrilheiros terroristas comandados por Judas da Galiléia, os Zelotas, que protestaram contra tal medida. Lucas utiliza tal fato histórico, reprojeta-o para trás, para por um lado motivar a viagem de Maria e José de Nazaré para Belém (e por motivos teológicos lá fazer nascer Jesus) e por outro insinuar que o evento-Jesus interessa não só a Israel, mas a todos os homens como "luz que ilumina as nações" (Lc 2,32). As referências à história profana por ocasião do nascimento de Cristo e do surgimento da pregação de João não visam tanto situar historicamente os fatos, mas antes ressaltar a estreita ligação existente entre a história sagrada com a história profana universal na qual Deus através de Jesus Cristo realiza a salvação.

6.     Quem são os pastores dos campos de Belém?

Se o relato do nascimento de Cristo por sua simplicidade pouco revela do mistério inefável que acontecia dentro da história do mundo, a narrativa dos anjos aparecendo nos campos de Belém o proclama com toda a clareza. Um anjo do Senhor (aqui são legiões) proclama, como comumente ocorre na Bíblia, o significado secreto e profundo do acontecimento: "eis que vos anuncio uma boa-nova, de grande alegria para todo o povo: hoje na cidade de Davi, nasceu-vos um salvador, que é Cristo Senhor" (Lc 2,11).Os anjos proclamam o significado daquela noite: céu e terra se reconciliam porque Deus dá paz e salvação aos homens todos. O que em Lc 2,8-20 se narra, por sua origem, não quer tradicionar um fato passado com os pastores em Belém. Os pastores são, teologicamente, os representantes dos pobres, para os quais foi anunciada a boa-nova e para os quais Jesus foi enviado (Lc 4,18). Aqui não há nenhum resquício de um romantismo pastoril. Os pastores constituíam uma classe desprezada e sua profissão tornava as pessoas impuras frente à lei. Eles pertenciam à classe daqueles que não conheciam a lei, como diziam os fariseus. Ora, Cristo - e isso Lucas deixa transparecer várias vezes em seu evangelho - foi enviado exatamente a esses associais e marginalizados religiosamente. A eles é comunicada por primeiro a mensagem alegre da libertação. Essa mensagem muito provavelmente não foi proclamada aos pastores nos campos de Belém, mas dirige-se aos ouvintes de São Lucas por volta de 80-85 dC para explicar-lhes que aquele em quem crêem é o verdadeiro libertador. Para os que têm olhos de fé, a fraqueza da criança franzina envolta em faixas esconde um mistério que, desvelado, é uma alegria para todo o povo: é Ele, o Esperado, o Senhor do cosmos e da história (Lc 2,11).
7.     S. Mateus: Jesus é o novo Moisés e o libertador

São Mateus conhece ainda quatro episódios ligados à infância de Cristo: a vinda dos reis magos seguindo uma estrela do Oriente, a fuga da Sagrada Família para o Egito, a matança dos santos inocentes decretada por Herodes e a volta da Sagrada Família do Egito para Nazaré (Mt 2).
Estamos aqui diante de fatos históricos ou antes diante de reflexão teológica no estilo dos midraxes (historização de uma passagem da Sagrada Escritura ou amplificação embelezadora de um fato para ressaltar-lhe a mensagem) para exprimir a fé acerca de Jesus? Esta última possibilidade ressalta clara dos próprios textos.

a)    Que significam os reis magos e a estrela?

Como vimos acima, para S. Mateus Cristo é o Messias que chegou na plenitude dos tempos, realizando as profecias todas ditas a respeito dele. Uma destas profecias referia-se ao fato de que no final dos tempos viriam para Jerusalém reis e nações para adorar a Deus e ao Messias e oferecer-lhe dons (Is 60,6; SI 71,10s). Por isso que Magos vão a Jerusalém (Mt 2,ls) antes de chegarem a Belém. Eles seguem uma estrela do Oriente (Mt 2,3), chamada estrela do rei de Judá. A estrela é um motivo muito conhecido no tempo do Novo Testamento. Cada qual possui sua estrela, especialmente, porém, os grandes e poderosos, como Alexandre, Mitridates, Augusto, os sábios e filósofos como Platão. O judaísmo conhece também a estrela do libertador messiânico, na profecia de Balaão (Nm 24,17). Pelo nascimento de Abraão, de Isaac, de Jacó e especialmente de Moisés, apareceu uma estrela no céu. Essa era a crença judaica ao tempo do Novo Testamento. Acresce ainda um fato histórico: desde os tempos de João Kepler os cálculos astronômicos têm mostrado que nos anos 7 aC ocorreu realmente uma grande conjunção de Júpiter e Saturno na constelação de Peixes. Esse fenômeno não deve ter passado despercebido, já que na época se cultivava muito a crença nas estrelas. Júpiter, para a astronomia helenista, era considerado o rei soberano do universo. Saturno designava o astro dos judeus. A constelação de Peixes estava relacionada com o fim do mundo. Dando-se a conjunção destes astros, os sábios do Oriente, magos que decifravam o curso das estrelas, deram naturalmente a seguinte interpretação: No país dos judeus (Saturno) nasceu um rei soberano (Júpiter) dos fins dos tempos (Peixes). Eles se põem em marcha e assim se cumprem, para Mateus, as profecias acerca do Messias Jesus Cristo. Textos do Antigo Testamento e um fenômeno astronômico teriam motivado o relato de Mateus com o fito de anunciar a fé da Igreja em Jesus como o Messias escatológico.

b)    Como o primeiro libertador (Moisés) assim também o último (Jesus)

Assim como Lucas traça um paralelo entre a infância de Jesus e a de João Batista, de forma semelhante Mateus traça um paralelo entre a infância de Jesus e a de Moisés. Era crença da época do Novo Testamento que o Messias libertador dos últimos tempos seria também o novo Moisés, fazendo sinais e milagres como Moisés. Até se dizia: "Como o primeiro libertador (Moisés) assim também o último (o Messias)". Sabemos que Mateus em seu evangelho apresenta Cristo como o novo Moisés, que à semelhança do primeiro deu também uma nova lei, na montanha: o Sermão da Montanha. O midraxe judaico de Moisés refere o seguinte -e nisso vai o paralelo quase perfeito com Jesus: O faraó é notificado do nascimento do libertador (Moisés) através de Magos; de forma semelhante Herodes sabe dos magos acerca do definitivo Libertador (Jesus).O faraó e todo o povo do Egito ficam estarrecidos: Herodes e toda Jerusalém perturbaram-se (Mt 2,3).Tanto o faraó quanto Herodes determinam a matança das crianças inocentes. Como Moisés, assim também Jesus escapa do morticínio. O pai de Moisés sabe através de um sonho que seu filho Moisés será o futuro salvador. José, de forma semelhante, sabe através de um sonho que Jesus será o salvador ("pois ele salvará seu povo dos seus pecados": Mt 2,21). O paralelismo salta aos olhos, completado ainda por um outro texto de Êxodo 4,19-23: "Após a morte do faraó disse Deus a Moisés: Volta para o Egito, pois morreram os que tramavam contra tua vida". Moisés toma sua mulher e seu filho e regressa.
Mateus 2, 2.19-21 diz a mesma coisa: após a morte do rei Deus fala através do anjo: "Levanta-te, toma o menino e sua mãe e volta para a terra de Israel, pois morreram os que haviam tramado contra a vida do Menino". José toma sua mulher e seu filho legal e retoma. O destino do novo Moisés (Jesus) repete o destino do primeiro Moisés. Como se deu com o primeiro Libertador, assim também com o último. Jesus menino é realmente o Messias-Libertador esperado e o profeta escatológico. A fuga para o Egito e o morticínio das crianças inocentes de Belém não precisam ter sido necessariamente fatos históricos. Eles servem para criar um paralelo com o destino de Moisés. As fontes da época, especialmente Flávio Josefo, que informa bastante minuciosamente de Herodes, não conhecem semelhante matança. Embora não possa ser provada historicamente (nem precisa porque no relato de Mateus ela serve como reflexão teológica) podia ter sido possível. Sabemos que Herodes era extremamente cruel: dizimou a própria família, a ponto de o historiador do século V Macróbio (Satumale 2,4.11) referir o trocadilho de César Augusto: Prefiro ser o porco (hys) de Herodes a ser seu filho (hyós).
Mateus 1-2 apresenta numa perspectiva pós-pascal, como num prólogo, os grandes temas de seu evangelho: Esse Jesus de Nazaré é o único verdadeiro Messias, filho de Abraão, descendente da casa real messiânica de Davi, o novo Moisés, que agora no ponto culminante da história e no seu final conduzirá o povo do êxodo do Egito para a pátria definitiva.

8.     Conclusão: Natal - ontem e hoje a mesma verdade

Um ou outro leitor, não informado dos elementares procedimentos exegéticos com os quais a exegese católica hoje trabalha, poderá no final deste capítulo ficar escandalizado. Tudo é conto? Os evangelistas nos enganaram?
Os relatos do Santo Natal não são contos nem fomos enganados. Nós é que erramos quando queremos abordar os evangelhos numa perspectiva não intencionada por seus autores e queremos respostas para perguntas que eles não se colocaram nem intencionaram colocar. Os evangelhos, especialmente o evangelho da infância de Jesus, não são um livreto de história. São anúncio e pregação, onde fatos reais e ditos da Sagrada Escritura ou comentários midráxicos da época foram assumidos, trabalhados e postos a serviço de uma verdade de fé que querem proclamar. Por isso o Magistério oficial da Igreja recomenda ao estudioso da Escritura que ele, "para bem entender o que Deus nos quis transmitir, deve investigar atentamente o que os autores sagrados quiseram dar a entender e aprouve a Deus manifestar por suas palavras... especialmente deve tomar em conta o gênero literário" (Dei Verbum n. 12). Na época do Novo Testamento um gênero literário muito divulgado é o midraxe hagádico que, como repetidas vezes anotamos, toma um fato ou um dito escriturístico, trabalha-o, embeleza-o com o fito de sublinhar e proclamar de forma inequívoca uma verdade de fé.
É o que aconteceu com os relatos da infância. Aí há fatos reais. Mas revestidos de forma teológica, numa linguagem que para nós hoje se tomou quase incompreensível. Mas é dentro deste gênero literário que se esconde a mensagem, que devemos desentranhar, reter e proclamar novamente, dentro de nossa linguagem atual: que esse menino frágil não era um joão-ninguém nem um ninguém-joão, mas o próprio Deus feito condição humana, que tanto amou a matéria que a assumiu, e que gostou tanto dos homens que quis fazer-se um deles, para libertar-nos, e se humanizou para divinizar-nos. Com ele o processo evolutivo psicossocial atingiu uma culminância determinante para o resto da marcha até Deus, pois nele já se deu o fim presente e a meta já alcançada dentro do tempo. Essa é a mensagem fundamental que os relatos da infância de Jesus nos querem transmitir, para que, aceitando-a, tenhamos esperança e alegria: já não estamos sós na nossa imensa solidão e busca de unidade, integração, solidariedade e reconciliação de tudo com tudo. Ele está no meio de nós, o Emanuel, o Deus-conosco: "hoje nasceu-nos um Libertador, que é Cristo Senhor" (Lc 2,11).
Quem quiser salvaguardar a todo custo a historicidade de cada cena dos relatos natalinos, acaba perdendo a mensagem intencionada por seus autores inspirados e por fim situa-se fora da atmosfera evangélica criada por São Lucas e São Mateus, onde a preocupação não é se houve ou não estrela dos reis magos, se apareceram ou não anjos em Belém, mas sim o significado religioso do Pequeno que aí está para ser recebido por nós, não numa fria manjedoura, mas no calor de nossos corações, cheios de fé.
Mas que faremos com os mitos depois de desmitologizados? Eles estão aí sendo sempre representados no presépio e vividos na memória das crianças pequenas e grandes. Perderam seu valor? Se perderam seu valor histórico-factual talvez agora começam a ganhar seu verdadeiro significado religioso-antropológico. Podemos falar dos mistérios profundos de Deus que se encarna, do mistério insondável da própria existência humana do bem e do mal, da salvação e perdição sem ter que contar estórias e usar de mitos e de símbolos? O estruturalismo o viu muito bem, mas a teologia o sabia desde sempre que o mito, o símbolo e a analogia constituem o próprio da linguagem religiosa, porque sobre as realidades profundas da vida, do bem e do mal, da alegria e da tristeza, do homem e do Absoluto só conseguimos balbuciar e usar uma linguagem figurada e representativa.
Contudo ela é mais envolvente que o conceito frio. Por ser sem limites estanques e definidos sugere muito mais o inefável e o transcendente que qualquer outra linguagem científica ou do método historicista. Por isso é bom que continuemos a falar do Menino entre o boi e o asno, dos pastores e das ovelhas, da estrela e dos magos, do rei mau e do bom José, da Virgem-mãe e das faixas que envolvem o Pequenino sobre as palhas secas. Mas devemos nos dar conta - e isso é necessário se não quisermos alimentar magicismo e sentimentalismo - que tudo isso constitui o reino do símbolo e não da realidade do fato bruto. O símbolo é humanamente mais real e significativo do que a história factual e os dados frios. O mito e o conto (bem dizia Guimarães Rosa que no conto tudo é verdadeiro e certo porque tudo é inventado) quando conscientizados e aceitos pela razão como contos e mitos não alienam, não magificam nem sentimentalizam o homem, mas, o fazem mergulhar numa realidade onde ele começa a perceber o que significa inocência, reconciliação, transparência divina e humana das coisas mais banais e o sentido desinteressado da vida, aqui no Natal encarnado na criança divina.
Que fazer dos relatos do Natal e com o presépio? Que continuem. Mas que sejam entendidos e revelem aquilo que querem e devem revelar: que a eterna juventude de Deus penetrou esse mundo para nunca mais deixá-lo, que na noite feliz de seu nascimento nasceu um sol que não conhece mais ocaso.


(De "Jesus Cristo Libertador", capítulo 8, Vozes 1986, pp. 116-128)

1 de dezembro de 2014

Fábula do rato e companheirismo

Mario Sérgio Cortela do livro "Qual é a tua Obra"

Mario Sergio Cortella, conta no livro Qual é a tua Obra, que já falamos aqui, esta fábula do rato e do fazendeiro, como fábula da coletividade.


Em uma pequena chácara vivia uma mulher e seu marido fazendeiro. Por lá também viviam alguns animais: a vaca, o porco, a galinha e o RATO.

O rato vivia tranquilamente em um buraco na parede da casa e tinha boa convivência com os outros animais, mas em um certo dia ficou desesperado.
A senhora dona da casa havia colocado uma ratoeira para pegá-lo.



Na hora que viu a armadilha, saiu correndo para pedir ajuda a seus colegas animais:



– Vaca, nós estamos com um problemão, armaram uma ratoeira lá na casa.
A vaca, que estava mascando capim, deu risada.
– Nós? Por um acaso entro na casa do fazendeiro? Aliás, você já viu ratoeira pegar vaca? Isto é problema seu.
O rato ainda desesperado saiu a procura do porco:
– Porco, está havendo uma baita confusão, a mulher do fazendeiro colocou uma ratoeira em casa.
– Ratoeira? Olha o meu tamanho, você acha que ratoeira pega um porco como eu? Se vire, isto é um problema seu.
O rato, triste e perplexo por ninguém lhe ajudar, correu para conversar com a galinha:
– Galinha, nós estamos com um problema muito sério.
– Mais problemas eu não aguento, já tenho que botar um monte de ovos e você me aparece com mais problemas? Não quero nem saber…
– Mas tem uma ratoeira armada lá na casa, disse desesperadamente o rato!
– Mas isso não é comigo, é contigo.
O rato foi embora triste e desapontado, pois não conseguiu sensibilizar ninguém a ajudá-lo.
À noite todos dormiram e, de repente, splaft.
A ratoeira desarmou.
O barulho chamou a atenção de todos lá na chácara. Todos correram para ver o que aconteceu……..
inclusive o rato.
Era uma cobra cascavel que havia sido pega na ratoeira.
A mulher levantou-se e foi tirar a cascavel da ratoeira e num descuido, tomou uma picada.
Foi levada imediatamente ao hospital por seus parentes, onde ficou internada por vinte dias, na volta, com a saúde muito debilitada, precisava de muitos cuidados e uma alimentação especial.
Qual a melhor dieta para recuperar a saúde?
Canja!
Lá se foi a galinha.
Depois de um mês, com a saúde restabelecida, resolveu oferecer um almoço para todos seus parentes que a tinham ajudado.
E lá se foi o porco (assado no espeto).
Para completar o tratamento no hospital tinha ficado muito caro, não houve alternativa, tiveram que vender a vaca para um açougueiro.
Você não está sozinho no mundo

Cuidado: a ratoeira pode não te pegar em um primeiro momento, mas seus efeitos podem ser devastadores.


29 de novembro de 2014

o Papa Menino



Chegar a maturidade sem perder a capacidade de se emocionar como um menino, ao soltar uma pomba não é para qualquer um. É preciso ter muita intimidade com aquele menino Deus que vive no coração de cada um de nós e que na maioria das vezes não damos muita atenção, com medo que nos achem imaturos. Tolos que somos...
Deus abençoe este papa de olhos brilhantes que não se envergonha de se emocionar diante do mundo com pequenos, significativos e sobretudo simples gestos infantis. Ele sabe que Jesus disse que o Reino é para os simples e os pequeninos.
Deus abençoe e proteja Francisco, o mensageiro do Espírito Santo em nossos dias.

4 de outubro de 2014

4 de Outubro - São Francisco de Assis

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Dos muitos santos que a igreja conduziu ao altar, na minha opinião Francisco foi o que mais próximo chegou do ideal proposto por Jesus.
Ele procurou viver exatamente da forma como Lucas descreve as primeiras comunidades no inicio dos Atos dos Apóstolos. Despojou-se de tudo para mergulhar no cuidado aos pequeninos, atendendo ao que disse Jesus no evangelho de Mateus. Que ele possa mais que nos inspirar interceder por cada um de nós junto ao Mestre que ele tanto amava e a quem era tão fiel.
Que cada um de nós se esforce para pelo menos fazer em vida, uma tentativa de ser parecido com ele, na semeadura da Paz , na pratica do amor sem que seja preciso ser amado, na ampliação da capacidade de perdoar, diminuindo as discórdias, procurando sanar as dúvidas, difundido a verdade, a esperança e a alegria.
Que possamos ser instrumentos do Espírito Santo, para como Francisco, inundar as trevas com a Luz e que o seu exemplo nos de a certeza de que é servindo que se vive para a vida eterna.

25 de setembro de 2014

Sejamos UM


João 17
11.Já não estou no mundo, mas eles estão ainda no mundo; eu, porém, vou para junto de ti. Pai santo, guarda-os em teu nome, que me encarregaste de fazer conhecer, A FIM DE QUE SEJAM UM COMO NÓS.........

21 Para QUE TODOS SEJAM UM assim como tu, Pai, estás em mim e eu em ti, PARA QUE TAMBÉM ELES ESTEJAM EM NÓS e o mundo creia que tu me enviaste

.22. DEI-LHES A GLÓRIA QUE ME DESTES, PARA QUE SEJAM UM, COMO NÓS SOMOS UM  23.EU NELES E TU EM MIM, para que sejam perfeitos na unidade e o mundo reconheça que me enviaste e os amaste, como amaste a mim.

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