O absurdo e a Graça

Na vida hoje caminhamos entre uma fome que condena ao sofrimento uma enorme parcela da humanidade e uma tecnologia moderníssima que garante um padrão de conforto e bem estar nunca antes imaginado. Um bilhão de seres humanos estão abaixo da linha da pobreza, na mais absoluta miséria, passam FOME ! Com a tecnologia que foi inventada seria possível produzir alimentos e acabar com TODA a fome no mundo, não fossem os interesses de alguns grupos detentores da tecnologia e do poder. "Para mim, o absurdo e a graça não estão mais separados. Dizer que "tudo é absurdo" ou dizer que "tudo é graça " é igualmente mentir ou trapacear... "Hoje a graça e o absurdo caminham, em mim lado a lado, não mais estranhos, mas estranhamente amigos" A cada dia, nas situações que se nos apresentam podemos decidir entre perpetuar o absurdo, ou promover a Graça. (Jean Yves Leloup) * O Blog tem o mesmo nome do livro autobiográfico de Jean Yves Leloup, e é uma forma de homenagear a quem muito tem me ensinado em seus livros retiros, seminários e workshops *

28 de julho de 2015

Será que o Papa mudará o Vaticano? Ou será que o Vaticano mudará o Papa?

Enquanto o Papa Francisco se prepara para visitar os EUA, a sua ênfase em servir aos pobres – em lugar de fazer valer a doutrina – tem inspirado alegria e ansiedade entre os católicos
O texto é do jornalista texano Robert Draper, publicado pela revista National Geographic, agosto de 2015. A tradução é de Isaque Gomes Correa.
Quando cerca de sete mil estranhos maravilhados o encontram pela primeira vez, ele ainda não é o papa – mas como uma crisálida agitando-se, algo surpreendente já está presente naquele homem. Dentro do estádio Luna Park, no centro de Buenos Aires, católicos e protestantes se reúnem para um evento ecumênico. Do palco, um pastor chama para se juntar aos demais o arcebispo da cidade, para que este lhes dirija algumas palavras. O público reage com surpresa, porque o homem que se encaminha ao palco andando a passos largos estava sentado na parte de trás o tempo todo, por horas, como se fosse uma pessoa qualquer. Não obstante um cardeal, ele não usa a tradicional cruz peitoral ao redor de seu pescoço, apenas uma batina preta e um blazer, parecendo-se com o simples sacerdote que foi décadas atrás. Está magro e já com certa idade avançada, com um semblante sombrio, e, neste momento, nove anos atrás, era difícil imaginar que um cidadão assim, despretensioso, seria um dia reconhecido em todos os cantos do mundo como uma figura brilhante e carismática.
Fala tranquilamente em sua língua nativa, o espanhol. Fala sem tomar notas. O arcebispo não faz menção alguma dos dias em que considerava o movimento evangélico negativamente, como muitos sacerdotes católicos latino-americanos o fazem, ou seja, considerando-o como uma “escuela de samba”. Em vez disso, o mais poderoso argentino na Igreja Católica – que afirma ser ela a única igreja cristã verdadeira – diz que tais distinções não importam para Deus. “Que bom”, diz ele, “que os irmãos estão unidos, que os irmãos orem juntos. Quão bom é ver que ninguém comercializa a sua história no caminho da fé; somos diversos, mas que queremos ser, e já estamos começando a ser, uma diversidade reconciliada”.
Com as mãos estendidas e voz trêmula, ele clama a Deus: “Pai, nós estamos divididos. Uni-nos!”
Aqueles que reconhecem o arcebispo se espantam; a sua expressão implacável lhe havia rendido apelidos como “Mona Lisa” e “Carucha” (por suas bochechas tipo “bulldog”). Mas o que também ficará na lembrança deste dia ocorre quando ele termina de falar. Lentamente, o religioso se coloca de joelhos pedindo para que os participantes rezem por ele. Depois de um estranhamento, os participam assim o fazem, conduzidos por um pastor. A imagem do arcebispo ajoelhado entre homens de menor status, uma postura de súplica ao mesmo tempo simples e impressionante, será o destaque das primeiras páginas dos jornais argentinos.
Entre as publicações que apresentam esta imagem está o Cabildo, jornal considerado a voz representante dos católicos ultraconservadores do país. Junto da história há um título com um substantivo dissonante: “apóstata”. O cardeal como um traidor de sua religião.
Este é Jorge Mario Bergoglio, o futuro Papa Francisco.
“Preciso realmente começar a fazer mudanças agora”, disse Francisco a uma meia dúzia de amigos argentinos numa manhã, dois meses depois que 115 cardeais, reunidos em Conclave, lhe tiraram de uma relativa obscuridade para pô-lo à frente do papado. Para muitos analistas – alguns felizes, outros frustrados –, o novo papa já havia mudado aparentemente tudo, da noite para o dia. Ele era o primeiro papa latino-americano, o primeiro papa jesuíta, o primeiro em mais de mil anos que não havia nascido na Europa, e o primeiro a assumir o nome Francisco, em homenagem a São Francisco de Assis, defensor dos pobres. Logo após a sua eleição, em 13 de março de 2013, o novo líder da Igreja Católica se materializou em uma varanda da Basílica de São Pedro, vestido de branco, sem a capa escarlate tradicional sobre os ombros ou a estola vermelha bordada a ouro ao redor do pescoço. Ele cumprimentou as massas com uma clareza eletrizante: “Fratelli e Sorelle, buona sera / Irmãos e irmãs, boa noite”. E fechou a noite com um pedido, o que muitos argentinos já sabiam ser algo típico dele: “Rezem por mim”. Quando saiu, passou direto pela limusine que o esperava e entrou no ônibus que transportava os cardeais que tinham acabado de fazê-lo o seu superior.
Na manhã seguinte, o papa pagou a conta no hotel onde esteve hospedado. Deixando de lado os apartamentos papais tradicionais no interior do Palácio Apostólico, optou por viver em uma moradia de dois quartos na Casa Santa Marta, residência casa de hóspedes do Vaticano. Em seu primeiro encontro com a imprensa internacional, ele declarou a sua ambição principal: “Como eu gostaria de ter uma Igreja pobre e para os pobres” E, em vez de celebrar a missa vespertina de Quinta-feira Santa (em comemoração à Última Ceia) numa basílica e lavando os pés de sacerdotes, como tradicionalmente se faz, ele a celebrou em uma prisão juvenil, onde lavou os pés de uma dúzia de internos, incluindo mulheres e muçulmanos, sendo a primeira vez que um papa faz tal gesto. Tudo isso aconteceu durante o seu primeiro mês como Bispo de Roma.
Então, os amigos argentinos do novo papa compreenderam o que ele queria dizer com “mudanças”. Embora mesmo o menor dos seus gestos carregasse um peso considerável, o homem que eles conheciam não se contentava em trabalhar apenas com símbolos: ele era um “porteño” prático, pé no chão, homem das ruas. Queria que a Igreja Católica fizesse uma diferença duradoura na vida das pessoas: ser, como frequentemente ele diz, um hospital em campo de batalha, acolhendo todos os que se feriram, independentemente de qual lado lutavam. Na busca deste objetivo, ele poderia ser, de acordo com o Rabino Abraham Skorka, amigo argentino, “uma pessoa muito teimosa”.
Embora para o mundo exterior o Papa Francisco pareça ter caído dos céus como uma chuva de meteoros, em casa ele era uma figura religiosa bem conhecida e, por vezes, controversa. Filho de um contador cuja família havia emigrado da região do Piemonte, noroeste da Itália, Bergoglio se destacou desde o momento em que entrou para o seminário em 1956, aos 20 anos, após ter trabalhado como um técnico de laboratório [de química] e, brevemente, como segurança em um clube noturno. Logo em seguida, escolheu a intelectualmente exigente Companhia de Jesus como o seu caminho para o sacerdócio. Na qualidade de aluno do Colégio Máximo de San José em 1963, ele possuía “tanto um discernimento espiritual elevado como habilidades políticas”, segundo um de seus professores, o Pe. Juan Carlos Scannone, a tal ponto que rapidamente se tornou orientador espiritual para alunos e professores. Ele lecionou para meninos indisciplinados, lavou os pés de prisioneiros, estudou no exterior. Tornou-se reitor do Colégio Máximo, bem como uma figura presente nas favelas de toda a Buenos Aires. E subiu na hierarquia jesuíta, ao mesmo tempo navegando na política turva de uma época que viu a Igreja Católica entrar em relações tensas, primeiramente, com Juan Perón e, mais tarde, com a ditadura militar. Foi posto de lado pelos seus superiores jesuítas, depois resgatado do exílio por um cardeal admirador, sendo criado bispo em 1992, arcebispo em 1998 e cardeal em 2001.
“Ele não tem medo das novidades! Por isso nos surpreende continuamente, abrindo-nos e levando-nos para caminhos inesperados.” (Homilia do Papa Francisco na Missa de encerramento do Sínodo e beatificação de Paulo VI, em 19-10-2014)
Tímido, Bergoglio – alguém que se descreve como um “callejero”, andarilho – preferia a companhia dos pobres à dos ricos. Os seus momentos próprios de prazer eram simples: literatura, futebol, tango e nhoque. Apesar de toda a simplicidade, este porteño era um animal urbano, um observador social perspicaz e, à sua maneira tranquila, um líder natural. Ele também sabia como aproveitar o momento – quer em 2004, atacando a corrupção em um discurso na presença do presidente da Argentina, quer no Luna Park em 2006, caindo de joelhos. Conforme diz o Pe. Carlos Accaputo, assessor próximo desde que começou a trabalhar para Bergoglio em 1992, diz: “Eu acho que Deus o preparou, ao longo de todo o seu ministério pastoral, para este momento”.
Além disso, o seu papado não foi um acaso. Como o autor romano Massimo Franco diria: “Esta sua eleição surgiu a partir de um trauma” – da renúncia repentina (e sem precedentes por quase seis séculos) do então Papa Bento XVI e do sentimento acumulado entre os cardeais mais progressistas de que a mui antiga e eurocêntrica mentalidade da Santa Sé estava apodrecendo a Igreja Católica a partir de dentro.
Sentado na sala de estar de seu apartamento naquela manhã, o papa reconhecia a seus velhos amigos os grandes desafios que o aguardava. Desordem financeira no Instituto para as Obras de Religião (mais conhecido como o Banco do Vaticano). Avareza burocrática que infernizava a administração central, conhecida como a Cúria Romana. Contínuas revelações de padres pedófilos protegidos por autoridades eclesiásticas. Sobre estes e outros assuntos Francisco quis agir com rapidez, sabendo que “iria fazer um monte de inimigos. Ele não é ingênuo, OK?”, como afirmou o amigoNorberto Saracco que estava lá naquela manhã.
Saracco lembra ter manifestado certa preocupação para com a ousadia do papa. “Jorge, sabemos que tu não usas umcolete à prova de balas”, disse ele. “Há muitos malucos aí fora”.
Calmamente Francisco respondeu: “O Senhor me colocou aqui. Ele vai ter que cuidar de mim”. Embora não tenha pedido para ser papa, disse que o momento em que seu nome foi escolhido no Conclave, sentiu uma tremenda sensação de paz. E, apesar das animosidades em que provavelmente iria incorrer, garantia aos seus amigos: “Eu ainda sinto a mesma paz”.
O que o Vaticano sente é outra história
Quando Federico Wals, que passou vários anos trabalhando como assessor de imprensa do Bergoglio, viajou de Buenos Aires a Roma no ano passado para ver o papa, primeiro fez uma visita ao Pe. Federico Lombardi, responsável de longa data pelo departamento de comunicação do Vaticano cujo trabalho essencialmente espelha o que Wals antigamente fazia, ainda que em escala muito maior. “Então, padre”, perguntou o argentino, “como o senhor se sente trabalhando para o meu ex-chefe?” Soltando um sorriso, Lombardi respondeu: “Confuso”.
Lombardi tinha servido como porta-voz de Bento XVI, antes conhecido como Joseph Ratzinger, homem de precisão germânica. Depois de se encontrar com um líder mundial, o Papa Emérito iria surgir e recitar um somatório incisivo, diz Lombardi, com melancolia palpável: “Era incrível. Bento XVI era tão claro. Ele dizia: ‘Falamos sobre estas e estas coisas, eu concordo com esses pontos, eu fui contra esses outros pontos; e o objetivo da nossa próxima reunião será este’ – dois minutos e eu estava totalmente ciente sobre quais eram os conteúdos. Com Francisco – ‘Este é um cara sábio; ele teve tantas experiências interessantes’”.
Com um sorriso tímido, Lombardi acrescenta: “Diplomacia para o Papa Francisco não tem tanto a ver com estratégia, mas sim com: ‘Eu conheci essa pessoa, temos agora uma relação pessoal, vamos agora fazer o bem para a Igreja e para o povo”.
“Pintar o papa como se fosse uma espécie de super-homem, uma espécie de astro, me soa ofensivo. O Papa é um homem que ri, chora, dorme tranquilo e tem amigos como todos.” (Papa Francisco, em entrevista ao Corriere della Sera em 5-03-2014)
O porta-voz do papa fala a respeito do novo ethos no Vaticano, sentado em uma pequena sala de conferências no edifício da Rádio Vaticano, a poucos passos do Rio Tibre. Lombardi usa um traje sacerdotal amarrotado que combina com a sua expressão de perplexidade e cansaço. Ainda ontem, diz ele, o papa teve um encontro com 40 líderes judaicos na Casa Santa Marta – e a Sala de Imprensa do Vaticano soube disso somente após o fato. “Ninguém sabe de tudo o que ele está fazendo”, diz Lombardi. “Nem o seu secretário pessoal sabe. Tenho de ficar perguntando por aí: uma pessoa sabe uma parte da sua pauta, uma outra sabe outra parte...”.
O chefe das comunicações no Vaticano se dá de ombros e diz: “Assim é a vida”.
A vida era completamente diferente com Bento XVI, um estudioso que continuou a escrever livros teológicos durante os seus oito anos como papa, e com João Paulo II, ator de teatro e poliglota cujo papado durou quase 27 anos. Estes dois eram guardiões confiáveis da ortodoxia papal. O espetáculo deste novo papa, com seu relógio de plástico e sapatos ortopédicos volumosos, tomando o seu café da manhã no refeitório do Vaticano, exigiu que alguns precisassem de tempo para se acostumar. E o mesmo para com o seu senso de humor, destacadamente informal. Depois de receber a visita de um velho amigo e colega argentino na Casa Santa Marta, o arcebispo Claudio Maria Celli, Francisco insistiu em acompanhar o seu convidado até o elevador.
“Por que isso?”, perguntou Celli. “Para que tu tenhas certeza que eu fui embora?”
Sem perder o ritmo, o papa respondeu: “E para que eu possa ter certeza de que tu não levaste nada contigo”.
Na tentativa de adivinhar as idas e vindas do papa de 78 anos, o mais próximo que as autoridades vaticanas têm de um intermediário vem sendo o Cardeal Pietro Parolin, secretário de Estado do Vaticano, um diplomata muito respeitado e – o que é mais importante – que conta com a confiança de seu chefe, conforme Wals, “porque ele não é demasiado ambicioso, e o papa sabe disso. Essa é uma qualidade fundamental para o papa”. Ao mesmo tempo, Francisco reduziu drasticamente os poderes do secretário de Estado, particularmente quanto às finanças do Vaticano. “O problema aqui”, diz Lombardi, “é que a estrutura da Cúria não mais está clara. Um processo está em curso, e como ela [a Cúria] será no final ninguém sabe. A Secretaria de Estado não está tão centralizada, e o papa possui muitas relações que são dirigidas por ele sozinho, sem qualquer mediação”.
Valentemente erguendo a cabeça, o porta-voz do Vaticano acrescenta: “Em certo sentido, isso é positivo, pois no passado houve críticas de que algumas pessoas tinham poder demais sobre o papa. Não se pode dizer que este é o caso agora”.
Como muitas instituições, o Vaticano não é receptivo a mudanças e suspeita de quem venha propô-las. Desde o século XIV, o epicentro católico tem sido uma cidade-Estado de 110 hectares, cercada de muros, dentro de Roma. Há tempos aCidade do Vaticano vem sendo uma atração para os turistas, graças à Capela Sistina e à Basílica de São Pedro, além de um destino de peregrinação para o 1,2 bilhão de católicos no mundo – o que significa dizer que o mundo vem a esta cidade e nunca o contrário. Mas o Vaticano é também aquilo que a sua designação implica: uma entidade territorial autossuficiente, com seus próprios administradores municipais, força policial, tribunais, bombeiros, farmácia, serviço postal, mercearia, jornais e time de críquete. O seu corpo de imprensa, os “vaticanisti”, monitora os caprichos da instituição. A sua força de trabalho entrincheirada não paga impostos sobre vendas na Cidade do Vaticano. A sua burocracia diplomática, na forma familiar das burocracias, presenteia os bispos com belas postagens relegando as menos bonitas a outros setores. Durante séculos, o Vaticano resistiu a conquistas, pragas, fome, fascismo e escândalos.
Agora chega Francisco, alguém que despreza paredes e que, certa vez, disse a um amigo, enquanto passeavam próximos à Casa Rosada, onde o presidente da Argentina vive: “Como podem saber o que as pessoas comuns querem, quando eles constroem um muro em torno de si mesmos?” Ele tem buscado ser o que Franco, que escreveu um livro sobre Francisco e o Vaticano, chama de “o papa disponível – uma contradição em termos”. A própria noção parece ter drenado o sangue do rosto opaco do Vaticano.
“Acredito que ainda não vimos as mudanças reais”, diz Ramiro de la Serna, sacerdote franciscano de Buenos Aires que conhece o papa há mais de 30 anos. “E acredito também que nós ainda não vimos a sua verdadeira resistência”.
As autoridades vaticanas ainda estão aprendendo a lidar com o papa. É tentador para elas ver as reações de coração aberto do papa como provas de que ele é uma criatura de puro instinto. “Totalmente espontâneos”, diz Lombardi sobre os gestos muito comentados de Francisco durante a sua viagem ao Oriente Médio, entre eles, o seu abraço a um imã, Omar Abboud, e a um rabino, seu amigo Skorka, depois de rezar com eles no Muro das Lamentações. Mas, na verdade, diz Skorka, “eu falei sobre isso com o papa antes de sairmos para a Terra Santa; eu lhe disse: ‘Eis o meu sonho, nos abraçarmos, junto ao Muro das Lamentações, tu, eu e Omar’”.
O fato de que Francisco tenha concordado com antecedência em cumprir o desejo do rabino não torna o seu gesto menos sincero. Em vez disso, sugere a consciência de que cada ato e cada sílaba serão interpretados como presságios simbólicos. Tal prudência está em completo acordo com o Jorge Bergoglio conhecido por seus amigos argentinos, que zombam da ideia de que ele é inocente. Eles o descrevem como um “jogador de xadrez”, um jogador cujos dias são “perfeitamente organizados”, em que “cada passo foi pensado”. O próprio Bergoglio disse aos jornalistas Francesca Ambrogetti e Sergio Rubin há alguns anos que ele, raramente, prestava atenção aos seus impulsos, uma vez que “a primeira resposta que me vem é geralmente errada”.
Mesmo nas mudanças no estilo de vida aparentemente drásticos que o Papa Francisco trouxe, ele fez concessões de senso comum para as realidades do Vaticano. Ele sugeriu que seus guardas suíços não precisassem segui-lo em todos os lugares, mas desde então tem renunciado a presença quase constante deles. (Por vezes o papa pede aos guardas para que tirem fotografias dele com visitantes, o que é outra concessão, uma vez que Bergoglio não gostava das câmeras.) Embora tenha evitado o papamóvel à prova de balas, muito utilizado desde a tentativa de assassinato doPapa João Paulo II em 1981, ele reconhece que não mais pode andar de metrô e se enfiar nos guetos, coisas que fazia em sua Buenos Aires e pelas quais era conhecido. Isso o levou a lamentar, quatro meses depois de assumir o papado: “Se tu soubesses quantas vezes tive vontade de sair pelas ruas de Roma... É que, em Buenos Aires, eu gostava de caminhar pela estrada, gostava tanto! Nesse sentido, sinto-me um pouco enjaulado”.
Amigos dizem que, como chefe do Vaticano e argentino, ele sentiu o dever de receber a presidente de seu país, Cristina Kirchner, mesmo quando lhe ficou evidente que esta usaria tais visitas visando um ganho político próprio. “Quando Bergoglio recebeu a presidente de forma amigável, foi por pura graça”, diz o pastor Juan Pablo Bongarrá, de Buenos Aires. “Ela não merecia isso. Mas é assim que Deus nos ama, com pura graça”.
“Não existe uma família perfeita, um marido perfeito nem uma mulher perfeita. Nem falemos da sogra perfeita! Existimos nós, pecadores.” (Papa Francisco, em encontro com noivos de várias partes do mundo, em 14-02-2014)
Para Wals, seu ex-assessor de imprensa, a entrada cuidadosa de Bergoglio no papado não é de todo surpreendente. Com efeito, ela se prefigurou na maneira pela qual o então arcebispo cardeal deixou o seu ambiente de trabalho anterior. Percebendo que havia chances de ser eleito no Conclave – afinal, ele havia sido o vice-campeão na disputa comRatzinger após a morte de João Paulo II em 2005 –, Bergoglio viajou para Roma em março de 2013, diz Wals, “com todas as cartas finalizadas, com as finanças em dia, tudo em perfeita harmonia. E, na noite antes de partir, ele me chamou para tratar de alguns detalhes de seu ofício aqui e também para me dar conselhos a respeito do meu futuro, como alguém que sabia que talvez iria ter de sair para cumprir uma outra missão”.
Sair para cumprir uma outra missão foi o que ele fez, e, apesar da serenidade que exibe, Francisco tem, no entanto, se aproximado de suas novas responsabilidades com seriedade imbuída de autocrítica, característico de sua forma de ser. Conforme ele disse no ano passado a um ex-aluno, o escritor argentino Jorge Milia: “Me pus a procurar na biblioteca doPapa Bento XVI, mas não consegui encontrar um manual do usuário. Então eu tenho feito o que me é possível”.
Ele é, a imprensa iria reconhecer, um reformador. Um radical. Um revolucionário. E é também nenhuma dessas coisas. O seu impacto até agora é tão impossível de não se perceber quanto o é de se mensurar. Francisco acendeu uma centelha espiritual não só entre os católicos, mas também entre os demais cristãos, entre pessoas de outras religiões e até mesmo entre os não crentes. Como diz Skorka: “Ele está mudando a religiosidade em todo o mundo”. O líder da Igreja Católica é amplamente visto como uma boa nova para uma instituição que, durante anos antes de sua chegada, tinha conhecido apenas más notícias. “Dois anos atrás”, diz o Pe. Thomas J. Reese, jesuíta e colunista do National Catholic Reporter, “se perguntássemos na rua: ‘O que a Igreja Católica é contra, e o que ela é a favor?”, ouviríamos: ‘Ela é contra o casamento gay, contra o controle de natalidade’ – e coisas assim. Neste momento, se perguntarmos às pessoas, elas dirão: ‘Ah, o papa – ele é o cara que ama os pobres e não mora em um palácio’. Isso é uma conquista extraordinária para uma instituição tão antiga. Ironicamente, digo que a Faculdade de Administração de Harvard poderia usá-lo para ensinar técnicas de ‘rebranding’. E os políticos em Washington fariam qualquer coisa para ter o índice de aprovação que tem o papa”.
Naturalmente, como fica claro quando falamos com autoridades vaticanas, o espetáculo de uma personalidade papal –Francisco como um rock star – é impróprio para uma instituição tão digna. Para algumas destas autoridades, a popularidade do papa também é ameaçadora. Ela reforça o mandato que o papa recebeu dos cardeais que desejavam um líder que deixasse de lado o distanciamento régio da Igreja e expandisse o seu círculo eleitoral espiritual. Diz assim uma destas autoridades, o Cardeal Peter Turkson, de Gana: “Pouco antes do Conclave, quando todos os cardeais se reuniram, compartilhamos os nossos pontos de vista. Havia um certo estado de espírito: vamos nos dar uma chance. Esse tipo de sentimento estava forte no lado de dentro [da Basílica]. Ninguém dizia: ‘Não mais italianos ou não mais europeus’ – mas um desejo de mudança estava aí presente”.
“O Cardeal Bergoglio era basicamente desconhecido de todos os que estavam ali reunidos”, continua Turkson. “Mas então ele fez um discurso – uma espécie de manifesto. Ele aconselhou a nós, ali reunidos, de que precisávamos pensar sobre a Igreja que vai às periferias – e não apenas em termos geográficos, mas também à periferia da existência humana. Para ele, o Evangelho nos convida a ter esse tipo de sensibilidade. Foi esta a sua contribuição. E ela trouxe um tipo de frescor ao exercício do acompanhamento pastoral, uma experiência diferente de cuidar do povo de Deus”.
Para aqueles que, como Turkson, que queriam mudança, Francisco não decepcionou. Dentro de dois anos, ele nomeou 39 cardeais, 24 dos quais vieram de fora da Europa. Antes de fazer um discurso severo em dezembro passado, em que enumerou as “doenças” que afligem a Cúria (entre eles, a “vã glória”, a “fofoca” e o “lucro mundano”), o papa encarregou nove cardeais – todos, exceto dois, de fora da Cúria – com a tarefa de reformar a instituição. Chamando oabuso sexual na Igreja como um “culto sacrílego”, ele formou a Pontifícia Comissão para a Tutela de Menorespresidida por Seán O’Malley Patrick, arcebispo de Boston. Para trazer transparência às finanças do Vaticano, o papa trouxe um ex-jogador de rugby: o Cardeal George Pell, de Sydney, e o nomeou prefeito da Secretaria para a Economia – nomeação que coloca Pell em pé de igualdade com o secretário de Estado do Vaticano. Em meio a estas nomeações, o papa pagou um ato notável de deferência para com a velha guarda: manteve em seu posto o Cardeal Gerhard Müller, nomeado por Bento XVI, em geral considerado um linha-dura, como o chefe para a Congregação para a Doutrina da Fé –CDF, dicastério que faz valer as crenças da Igreja.
Estes movimentos significam muito, mas é difícil dizer a que eles irão levar. Os primeiros indícios têm sido tentadores para os reformistas, bem como para os católicos mais tradicionais. Ao mesmo tempo em que aceitou a renúncia do primeiro bispo americano a ser condenado por deixar de relatar suspeitas de abuso infantil em sua jurisdição, Francisco também nomeou como bispo um padre chileno acusado de ter encoberto os abusos sexuais de outro sacerdote, o que provocou protestos durante a cerimônia de instalação do prelado. Além disso, o Sínodo extraordinário sobre a família, convocado por Francisco em outubro passado, não produziu nenhuma mudança doutrinal radical, fator que acalmou os católicos conservadores, que temiam exatamente isso. Porém, o Sínodo no próximo mês de outubro poderá produzir um resultado diferente. Sobre a questão da anulação da proibição à Comunhão para os católicos divorciados cujos casamentos não foram, por sua vez, anulados na Igreja, Scannone, amigo e ex-mestre do pontífice, falou: “Ele me disse: ‘Quero ouvir a todos’. Ele vai esperar pelo segundo Sínodo, e ouvirá a todos; ele definitivamente está aberto a mudanças”. Da mesma forma, Saracco, o pastor protestante, discutiu com o papa a possibilidade daremoção do celibato como uma exigência para os sacerdotes. “Se ele conseguir superar as pressões da Igreja de hoje e os resultados do Sínodo sobre a família, em outubro”, diz Saracco, “creio que, depois disso, ele estará pronto para falar sobre o celibato”. Quando pergunto se o papa lhe havia dito isso ou se apenas estava confiando na sua intuição, Saracco sorriu maliciosamente e disse: “É mais do que intuição”.
Então, novamente, as palavras e os gestos do papa se tornaram um conjunto indistinto tal que o seu público pode interpretar como quiser. Para um homem de palavras e hábitos simples, isso parece irônico. Mas também não é nenhuma novidade.
Em 2010, Yayo Grassi, chefe de cozinha residente em Washington, DC, enviou um e-mail ao seu antigo mestre, o arcebispo de Buenos Aires. Grassi, que é gay, tinha lido que o seu querido orientador havia condenado a legislação que legalizaria o casamento homoafetivo. “O senhor tem sido o meu guia, ampliando continuamente os meus horizontes – o senhor configurou os aspectos mais progressistas da minha visão de mundo”, escreveu Grassi. “E ouvir isso do senhor é um tanto frustrante”.
O arcebispo respondeu por e-mail, embora, sem dúvida, fornecendo um rascunho a mão ao seu secretário para tal, uma vez que o Papa Francisco, na ocasião e agora, nunca fez uso da internet, nem nunca usou um computador, ou mesmo possuiu telefone celular. (A Sala de Imprensa do Vaticano é quem prepara os tuítes das suas nove contas no Twitter, que têm 20 milhões de seguidores, e envia-os, com a aprovação do papa.) Francisco começou dizendo que as palavras de Grassi tocaram o coração. A postura da Igreja Católica sobre o tema do casamento foi o que sempre foi. Ainda assim, doía a Bergoglio saber que havia decepcionado o seu pupilo. O antigo “maestrillo” de Grassi garantiu-lhe que a imprensa havia interpretado de maneira equivocada a postura do papa. Acima de tudo, disse o futuro papa em sua resposta, em seu trabalho pastoral não havia lugar para a homofobia.
Esta troca de correspondência oferece uma imagem daquilo que deveríamos, e do que não deveríamos, esperar de seu papado. No final, Bergoglio não desdisse a sua postura contra o casamento gay, que, como escreveu, ele enxerga como uma ameaça à “identidade e sobrevivência da família: pai, mãe e filhos”. Ninguém entre as dezenas de amigos que entrevistei acreditava que Francisco reavaliaria a postura da Igreja neste assunto.
O que renovou a reverência de Grassi para com o seu ex-mestre é, exatamente, o que hoje atrai multidões à Praça de São Pedro e certamente estará presente em sua visita, em setembro, aos Estados Unidos: a brancura ofuscante do seu traje papal tomada como uma simplicidade acessível. É a afinidade deste “porteño” pelas ruas, unido com a crença dos jesuítas no engajamento vigoroso junto à comunidade (“el encuentro”, o encontro), que envolve tanto sair de si como ouvir o outro, iniciativa decididamente mais árdua do que a publicação de editos impessoais. Porque isso requer a coragem da humildade. É o que motivou Bergoglio a se ajoelhar e pedir por oração. É o que fez os seus olhos se inundar de lágrimas quando visitava uma favela de Buenos Aires, onde um homem declarou que sabia que o arcebispo era um deles, pois podia imaginá-lo a andar na parte de trás do ônibus como uma pessoa qualquer. É o que o obrigou, como papa, a recusar a ter sua mão beijada por um sacerdote albanês que fora preso e torturado pelo governo – e, em vez disso, o fez tentar beijar a mão do homem, na sequência caindo em prantos em seus braços. E é aquilo que fez cambalear milhões dois anos atrás, quando, em um momento retórico emblemático, Francisco proferiu estas palavras simples e surpreendentes, vindo na forma de um questionamento gentil em resposta a uma pergunta sobre sacerdoteshomossexuais: “Quem sou eu para julgá-los?”.
Esta parece ser a missão do papa: dar início a uma revolução dentro do Vaticano e para além de seus muros, sem contrariar uma série de preceitos antigos. “Ele não vai mudar a doutrina”, insiste de la Serna, seu amigo argentino. “O que ele vai fazer é devolver a Igreja à sua verdadeira doutrina – aquela de que a Igreja se esqueceu, a doutrina que põe o homem de volta no centro. Por muito tempo, a Igreja colocou no centro pecado. Ao colocar o sofrimento do homem, e sua relação com Deus, de volta ao centro, estas atitudes hostis em relação à homossexualidade, ao divórcio e a outras coisas começarão a mudar.
Então, novamente, o homem que disse a seus amigos que precisava “realmente começar a fazer mudanças agora” não conta com o tempo ao seu lado. O comentário feito por Francisco este ano de que o atual papado pode durar apenas uns “quatro ou cinco anos” não surpreendeu os amigos argentinos, que sabem que ele gostaria de viver os seus últimos dias de volta em sua terra natal. Mas estas palavras foram, certamente, um conforto para os linhas-duras dentro do Vaticano, que darão o seu melhor para retardar os esforços de Francisco por reformas da Igreja e que esperam que o seu sucessor seja um adversário menos potente.
Ainda assim, esta revolução – seja ou não bem-sucedida – é diferente de qualquer outra, mesmo que apenas para a alegria implacável com a qual está sendo travada. Quando o novo arcebispo de Buenos Aires, o Cardeal Mario Poli, comentou ao Papa Francisco durante uma visita à Cidade do Vaticano sobre o quão interessante era ver seu amigo, certa vez sisudo, com um sorriso onipresente, o pontífice considerou essas palavras com cuidado, como sempre faz.
Em seguida, Francisco sem dúvida sorrindo, disse: “É muito divertido ser papa”.

ATENÇÃO 
Esta   é uma reprodução da publicação da Unisinos
http://www.ihu.unisinos.br/noticias/544919-sera-que-o-papa-mudara-o-vaticano-ou-sera-que-o-vaticano-mudara-o-papa#.Vbak_IW7beE.facebook

24 de julho de 2015

O Eletromagnetismo do Coração - algo que nunca pensamos, mas que faz todo sentido

O Eletromagnetismo do Coração: cientistas apontam que o coração pensa e irradia

(Não deixe de ver o vídeo no final)

“O coração é também o primeiro órgão formado no útero. O resto vem depois”. Recentemente, neurofisiologistas ficaram surpresos ao descobrirem que o coração é mais um órgão de inteligência, do que (meramente) a estação principal de bombeamento do corpo.
Mais da metade do Coração é na verdade composto de neurônios da mesma natureza daqueles que compõem o sistema cerebral. Joseph Chilton Pearce-, autor de A biologia da Transcendência, chama a isto de ”o maior aparato biológico e a sede da nossa maior inteligência”.
O coração também é a fonte do corpo de maior força no campo eletromagnético. Cada célula do coração é única e na qual não apenas pulsa em sintonia com todas as outras células do coração, mas também produz um sinal eletromagnético que se irradia para além da célula.
Um EEG que mede as ondas cerebrais mostra que os sinais eletromagnéticos do coração são muito mais fortes do que as ondas cerebrais, de que uma leitura do espectro de freqüência do coração podem ser tomadas a partir de três metros de distância do corpo … sem colocar eletrodos sobre ele!
A freqüência eletromagnética do Coração produz arcos para fora do coração e volta na forma de um campo saliente e arredondado, como anéis de energia. O eixo desse anel do coração se estende desde o assoalho pélvico para o topo do crânio, e todo o campo é holográfico, o que significa que as informações sobre ele podem ser lidas a partir de cada ponto deste campo.
O anel eletromagnético do Coração não é a única fonte que emite este tipo de vibração. Cada átomo emite energia nesta mesma frequência A Terra está também no centro de um anel, assim é o sistema solar e até mesmo nossa galáxia … e todos são holográficas.
Os cientistas acreditam que há uma boa possibilidade de que haja apenas um anel universal abrangendo um número infinito e interagindo dentro do mesmo espectro. Como os campos eletromagnéticos são anéis holográficos, é mais do que provável que a soma total do nosso Universo esteja presente dentro do espectro de freqüência de um único anel.
Isto significa que cada um de nós está ligado a todo o Universo e como tal, podemos acessar todas as informações dentro dele a qualquer momento. Quando ficamos quietos para acessar o que temos em nossos corações, nós estamos literalmente conectados à fonte ilimitada de Sabedoria do Universo, de uma forma que percebemos como “milagres” entrando em nossas vidas.
Quando desconectamos e nos desligamos da sabedoria inata de amor do Coração, baseado nos pensamentos, o intelecto refletido no ego assume o controle e opera independentemente do Coração, e nós voltamos para uma mentalidade de sobrevivência baseada no medo, ganância, poder e controle.
Desta forma, passamos a acreditar que estamos separados, a nossa percepção de vida muda para uma limitação e escassez, e temos que lutar para sobreviver. Este órgão incrível, que muitas vezes ignoramos, negligenciamos e construímos muros ao redor, é onde podemos encontrar a nossa força, nossa fé, nossa coragem e nossa compaixão, permitindo que a nossa maior inteligência emocional guie nossas vidas.
Devemos agora mudar as engrenagens para fora do estado baseado no medo mental que temos sido ensinados a acreditar, e nos movermos para viver centrados no coração. Para que esta transformação ocorra, é preciso aprender a meditar, “entrar em seu coração” e acessar a sabedoria interior do Universo.
É a única maneira, é O Caminho.A medida que cada um de nós começa esta revolução tranquila de viver do Coração, vamos começar a ver os reflexos em nossas vidas e em nosso mundo.
Esta é a forma como cada um de nós vai criar uma mudança no mundo, criar paz, criar harmonia e equilíbrio, e desta forma, vamos todos criar o Paradigma do Novo Mundo do Céu na Terra.”
Por Rebecca Cherry



15 de julho de 2015

Deixar-se amar - Arturo Paoili

 Quantos de nós somos capazes de  nos deixar amar?
 Todos nós estamos focados na tarefa de Amar a Deus , e sobre todas as coisas. Mas esse místico de nosso tempo vem nos revelar algo que é  surpreendente. Deus é completo Amor, não precisa que o amem, ele é o próprio amor.

 

 

 A parábola do pai que se converte. 

Artigo de Arturo Paoli   Fonte: .ihu.unisinos.br
Tradução
Moisés Sbardelotto.

Quando os grandes mestres vão embora, o mais bonito sempre é ouvir novamente a sua palavra. Assim, queremos recordar o frei Arturo Paoli – Irmãozinho de Jesus, grande testemunha do século XX, que faleceu nessa segunda-feira, 13 de julho, em Lucca, Itália, aos 102 anos – com um trecho da uma reflexão sua proposta há apenas três anos, durante um encontro com os amigos da associação Viandanti. É um pensamento que começa a partir dos anos vividos pelo frei Arturo no deserto da Argélia, nas pegadas de Charles de Foucauld.
A reflexão foi publicada no sítio Vino Nuovo, 14-07-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
Eis o texto.
O caminho no deserto ocorria desta maneira: começava-se de manhã, às 9h, mais ou menos, depois do café da manhã, e enchiam-se os bolsos de tâmaras. Não são muito boas, porque a areia gruda nelas, mas as tâmaras são um alimento completo e se comem caminhando. Quando você tem sede, a tâmara tira a sede, muito.
Faziam-se, em média, 40 quilômetros por dia, até chegar a Béni Abbès, onde começou a vida de Charles de Foucauld, depois da conversão. O primeiro lugar para onde ele voltou como sacerdote foi justamente Béni Abbès, onde ainda temos uma fraternidade.
Então, posso dizer que a minha conversão ocorreu desta maneira. Todas as noites e todas as manhãs, quando se colocava a carga sobre os camelos – que eram diversos, porque éramos muitos irmãos –, quando se preparavam os camelos, para montar a sela e carregar os víveres, sempre havia um camelo que fugia, que se recusava e fugia.
Então, o cameleiro nos avisou para não gritar, para não correr atrás. Esse camelo ficava todo o dia por conta própria e, perto do pôr do sol, voltava a se aproximar da caravana. Então, o cameleiro se colocava ao seu lado a cantar o Alcorão, e o camelo, na manhã seguinte, se deixava acariciar por primeiro, enquanto um outro ia embora, fugia.
Praticamente, essa é como que a representação daquilo que acontecia em mim, porque eu sentia que, pouco a pouco, a fé voltava. Então, entendi que o meu erro era o de acreditar que é você que ama a Deus.
Ninguém pode amar a Deus, que é infinito. Ao contrário, é Deus que ama você, porque Ele não se deixa amar, Ele não precisa disso. Seria como se você levasse um copo d'água a um rio para enriquecê-lo com água. É a mesma coisa. É como se eu fosse ao Serchio [rio da Toscana] para levar este copo d'água e dissesse que trouxe água para o rio e que esse rio corre porque eu lhe trouxe a água.
É a mesma coisa quando se diz "eu amo a Deus" ou "ame a Deus como a si mesmo". É Deus que ama você, foi Deus que criou você, é Deus que quer que você deixe que Ele te ame. Às vezes, ele ama você com decisões que não agradam você, mas sempre há uma pequena luz que faz com que você entenda que talvez, a partir dessa doença, dessa traição, desse fracasso, talvez, nasça algo novo, algo a mais...
Eu acredito que a crise da Igreja é um pouco a do "demais", a de esperar, através de iniciativas, esforços, novidades, que se possa renovar a fé. Esse é um fazer curioso. Essas coisas não fazem senão acrescer, aumentar a nossa autossuficiência.
Diz-se: "Vejam, fui a Lourdes para me abastecer de fé, fiz isso, fiz aquilo para me abastecer de fé. Aconselho você a ir, para ter mais fé etc.". Ao contrário, deveríamos ficar tranquilos, sozinhos, e dizer: "Senhor, dá-me a fé, Senhor ama-me".
O que falta hoje não são as iniciativas, mas são experiências, isto é, dizer: "Você está errando de posição, está errando de método". É uma falta de método. Até mesmo os padres, quando vão à igreja e se perguntam o que podem fazer: "Talvez se eu colocar música...".
Eu digo isso na igreja: não é que nós amamos a Deus, mas Deus ama a nós, nós devemos nos deixar amar por Ele. É preciso entender isso a partir de dentro. Não é um conceito, é uma experiência que vem de dentro. De fato, em todos os escritos ascéticos, fala-se disso. Em Santa Teresa, em São João da Cruz etc. Não há nenhum que se desgarre disso. Todos falam do período passivo, da noite do espírito, da perda de fé, da fé que escapou das mãos. Todos. E depois vem o êxtase do amor de Deus.
Ora, é bom ter as iniciativas para nos mantermos vivos, mas é preciso se colocar, até certo ponto, em uma condição de não protestar contra Ele. "Tu quiseste punir o meu coração, quiseste que eu realmente me abandonasse a Ti, que eu acreditasse em Ti, em Ti que és a onipotência e não precisas de nada". Eis: deixar-se amar.
Pensem na parábola do filho pródigo, que é uma parábola estupenda. Alguns dizem que é o pai que perdoa. É o pai que se converte, porque, em certo sentido, ele se deixa amar.
A relação entre pai e filho era a justa. O pai dava a cada um o que lhe competia, a coisa certa, mas eis que essa relação passa da justiça ao amor. Porque finalmente o filho reconhece: "Mas eu não posso dar ao meu pai nada, não lhe peço um bom trabalho, mas apenas poder ficar para limpar o estábulo".
E o pai, ele também, é um convertido, porque, finalmente, o filho o coloca em condições de poder amá-lo. Em certo sentido, também é Deus que se converte, porque essa pessoa não é uma pessoa pecadora e dissoluta. Fez o que podia, pobrezinho. Quando o filho não acredita mais, ele tem o direito de ser amado pelo pai e descobre que, ao contrário, o pai o ama justamente porque ele se tornou nada, convencido de não poder fazer nada.
De fato, ele diz ao pai: "Eu não pretendo trabalhar, coloque-me no estábulo, no último lugar". Eis, aí está a conversão, mas também é a conversão do pai: "Oh, finalmente posso amar este filho! Que se deixa amar! Que precisa de mim".
E ele também se converte, porque, antes, a relação era como entre senhor e servo, e agora não é mais. Torna-se terna como uma criança. Nem sequer serve pedir desculpas ao seu papai, nada, nada. Convertem-se, ambos.

10 de julho de 2015

Papa: encontra a vida consagrada na Bolivia

Papa: Não somos testemunhas de uma ideologia, mas do amor misericordioso de Jesus

Santa Cruz de la Sierra (RV) –  O “Coliseu Dom Bosco”, em Santa Cruz de la Sierra, acolheu num clima de muita alegria e expectativa, cerca de 4 mil religiosos e religiosas, seminaristas, sacerdotes e leigos consagrados para o encontro com o Papa Francisco.

Após ser saudado por Dom Roberto Bordi, Bispo encarregado pela Vida Consagrada e ouvir os testemunhos de um sacerdote, uma religiosa e um seminaristas, o Papa se pronunciou inspirando-se na experiência de Bartimeu, narrada no Evangelho de Marcos, lido precedentemente. O Evangelista – observou o Papa – parecia querer mostrar como as pessoas reagem perante o sofrimento de quem está na beira da estrada, da pessoa que está sentada sobre a sua dor. E “três são as respostas aos gritos do cego, e estas respostas tem atualidade”, disse o Papa: passar; cala-te e Coragem, levanta-te”.
Passar
Alguns passam – disse o Papa – e neste passa temos o eco da indiferença, “do passar ao lado dos problemas, procurando que estes não nos toquem. Não os ouvimos, não os reconhecemos, surdez”:
“É a tentação de ver como coisa natural a dor, a tentação de habituar-se à injustiça. Eu estou aqui com Deus, com a vida consagrada, eleito por Jesus e para o ministério e é natural que existam doentes, pobres, pessoas que sofrem. É tão natural que não me chama a atenção um grito de alguém. Dizemos aqui para nós: é normal, sempre foi assim. É o eco que aparece num coração blindado, fechado, que perdeu a capacidade de admiração e, portanto, a possibilidade de mudança. Trata-se de um coração que se habituou a passar sem se deixar tocar; uma existência que, andando por aqui e por ali, não consegue radicar-se na vida do seu povo. Poderíamos chamá-la a espiritualidade do zapping. Passa e volta a passar, mas não fica nada. São aqueles que correm atrás da última novidade, do último «bestseller», mas não conseguem entrar em contacto, relacionar-se, envolver-se”.
Julgo – afirmou o Papa - que isto é o maior desafio da espiritualidade cristã. "Como podes amar a Deus que não vês e não amas o teu irmão que vês". Eles acreditavam ouvir a voz do Senhor. Traduziam as suas palavras que passam pelo alambique de seu coração blindado. Dividir esta unidade é uma das grandes tentações que nos acompanharão ao longo de todo o caminho (...) “Passar, sem escutar a dor do nosso povo, sem nos radicarmos nas suas vidas, na sua terra, é como ouvir a Palavra de Deus sem deixar que lance raízes dentro de nós e seja fecunda. Uma planta, uma história sem raízes é uma vida seca”.
Cala-te
O calar é a segunda atitude perante o grito de Bartimeu. “Cala-te, não chateies, não perturbes”. Ao contrário da atitude anterior, esta escuta, reconhece, toma contato com o grito de outro. Sabe que está ali e reage duma forma muito simples: repreendendo. os padres, as religiosas, os bispos, os papas. É a atitude de quem, à frente do povo de Deus, continuamente o está repreendendo, resmungando, mandando-o calar. Mas, "façam neles um carinho, por favor. escutem-nos, digam que Jesus lhes ama. 'Mas não posso, a criança chora na Igreja e estou pregando'. Como se o choro da criança não fosse uma sublime pregação":
“É o drama da consciência isolada, daqueles que pensam que a vida de Jesus é apenas para aqueles que consideram aptos. A seus olhos parece lícito que encontrem espaço apenas os «autorizados», uma «casta de pessoas diferentes» que pouco a pouco se separa, diferenciando-se do seu povo. Fizeram da identidade uma questão de superioridade”.
Ouvem mas não escutam; veem, mas não fixam o olhar. A necessidade de se diferenciar bloqueou- lhes o coração. A necessidade de dizer «eu não sou como ele, como eles» afastou-os não só do grito do seu povo e do seu pranto, mas também e particularmente dos motivos de alegria. Rir com aqueles que riem, chorar com os que choram: está aqui parte do mistério do coração sacerdotal.
Coragem, levanta-te
Por fim, encontramo-nos com o terceiro eco. Um eco que não nasce diretamente do grito de Bartimeu, mas de ver como Jesus se comportou perante o grito do cego mendicante. É um grito que se transforma em Palavra, em convite, em mudança, em proposta de novidade frente às nossas formas de reagir ao Povo Santo de Deus. Ao contrário dos outros que passavam, diz o Evangelho que Jesus Se deteve e perguntou que estava a acontecer:
“Deteve-se perante o clamor duma pessoa. Sai do anonimato da multidão para o identificar, comprometendo-se assim com ele. Radica-se na sua vida. E, longe de o mandar calar, pergunta: Que posso fazer por ti? Não precisa de diferenciar-se, separar-se, catalogá-lo para ver se está autorizado ou não a falar. Limita-se a fazer uma pergunta, a identificá-lo pretendendo ser parte da vida daquele homem, querendo assumir a sua própria sorte. Deste modo restitui-lhe gradualmente a dignidade que tinha perdido, faz a sua inclusão. Longe de olhá-lo de fora, esforça-se por se identificar com os problemas e, assim, manifestar a força transformadora da misericórdia. Não há compaixão que não se detenha, escute e solidarize com o outro”. A compaixão não é zapping, não é silenciar a dor; pelo contrário, é a lógica própria do amor. É a lógica que não está centrada no medo, mas na liberdade que nasce de amar e coloca o bem do outro acima de todas as coisas. É a lógica que nasce de não ter medo de se aproximar da dor do nosso povo. Embora muitas vezes se reduza a estar ao seu lado e fazer desse momento uma oportunidade de oração”.
Esta é a lógica do discipulado, frisou Francisco. Isto é o que faz o Espírito Santo conosco e em nós. "Um dia Jesus viu-nos à beira da estrada, sentados nas nossas dores, nas nossas misérias. Não silenciou os nossos gritos; antes, deteve-Se, aproximou-Se e perguntou que podia fazer por nós. E, graças a tantas testemunhas que nos disseram «coragem, levanta-te», gradualmente fomos tocando aquele amor misericordioso, aquele amor transformador que nos permitiu ver a luz. Não somos testemunhas de uma ideologia, uma receita, uma forma de fazer teologia. Somos testemunhas do amor sanador e misericordioso de Jesus. Somos testemunhas da sua intervenção na vida das nossas comunidades.
Esta é a pedagogia do Mestre; esta é a pedagogia de Deus com o seu Povo. Passar da indiferença do zapping a «coragem, levanta-te que [o Mestre] chama-te». E não porque somos especiais, não porque somos melhores, nem porque somos funcionários de Deus, mas apenas porque somos testemunhas agradecidas da misericórdia que nos transforma.
Não estamos sozinhos, neste caminho, encorajou o Papa. Ajudamo-nos uns aos outros com o exemplo e a oração. Estamos circundados por uma nuvem de testemunhas:
“Lembremos a Beata Nazária Ignacia de Santa Teresa de Jesús, que dedicou a sua vida ao anúncio do Reino de Deus cuidando dos idosos, com a «panela do pobre» para aqueles que não tinham nada para comer, abrindo orfanatos para crianças sem ninguém, hospitais para feridos da guerra, e até criando um sindicato feminino para a promoção da mulher. Lembremos também a Venerável Virgínia Blanco Tardío, devotada totalmente à evangelização e ao cuidado das pessoas pobres e doentes. Elas e muitos outros servem-nos de estímulo no nosso caminho. Vamos para diante com a ajuda de Deus e a cooperação de todos. O Senhor serve-Se de nós para que a sua luz chegue a todos os cantos da terra”.
O Papa concluiu abençoando a todos “de coração” e pedindo “rezem por mim”. (JE)

9 de julho de 2015

Discurso do Papa Francisco aos Movimentos Populares



Papa Francisco encorajou Movimentos Populares: "O destino está em vossas mãos" - AFP
09/07/2015 23:49

Boa tarde a todos!
Há alguns meses, reunimo-nos em Roma e não esqueço aquele nosso primeiro encontro. Durante este tempo, trouxe-vos no meu coração e nas minhas orações. Alegra-me vê-vos de novo aqui, debatendo os melhores caminhos para superar as graves situações de injustiça que padecem os excluídos em todo o mundo. Obrigado Senhor Presidente Evo Morales, por sustentar tão decididamente este Encontro.
Então, em Roma, senti algo muito belo: fraternidade, paixão, entrega, sede de justiça. Hoje, em Santa Cruz de la Sierra, volto a sentir o mesmo. Obrigado! Soube também, pelo Pontifício Conselho «Justiça e Paz» presidido pelo Cardeal Turkson, que são muitos na Igreja aqueles que se sentem mais próximos dos movimentos populares. Muito me alegro por isso! Ver a Igreja com as portas abertas a todos vós, que se envolve, acompanha e consegue sistematizar em cada diocese, em cada comissão «Justiça e Paz», uma colaboração real, permanente e comprometida com os movimentos populares. Convido-vos a todos, bispos, sacerdotes e leigos, juntamente com as organizações sociais das periferias urbanas e rurais a aprofundar este encontro.
Deus permitiu que nos voltássemos a ver hoje. A Bíblia lembra-nos que Deus escuta o clamor do seu povo e também eu quero voltar a unir a minha voz à vossa: terra, tecto e trabalho para todos os nossos irmãos e irmãs. Disse-o e repito: são direitos sagrados. Vale a pena, vale a pena lutar por eles. Que o clamor dos excluídos seja escutado na América Latina e em toda a terra.
1.    Comecemos por reconhecer que precisamos duma mudança. Quero esclarecer, para que não haja mal-entendidos, que falo dos problemas comuns de todos os latino-americanos e, em geral, de toda a humanidade. Problemas, que têm uma matriz global e que actualmente nenhum Estado pode resolver por si mesmo. Feito este esclarecimento, proponho que nos coloquemos estas perguntas:
- Reconhecemos nós que as coisas não andam bem num mundo onde há tantos camponeses sem terra, tantas famílias sem tecto, tantos trabalhadores sem direitos, tantas pessoas feridas na sua dignidade?
- Reconhecemos nós que as coisas não andam bem, quando explodem tantas guerras sem sentido e a violência fratricida se apodera até dos nossos bairros? Reconhecemos nós que as coisas não andam bem, quando o solo, a água, o ar e todos os seres da criação estão sob ameaça constante?
Então digamo-lo sem medo: Precisamos e queremos uma mudança.
Nas vossas cartas e nos nossos encontros, relataram-me as múltiplas exclusões e injustiças que sofrem em cada actividade laboral, em cada bairro, em cada território. São tantas e tão variadas como muitas e diferentes são as formas próprias de as enfrentar. Mas há um elo invisível que une cada uma destas exclusões: conseguimos nós reconhecê-lo? É que não se trata de questões isoladas. Pergunto-me se somos capazes de reconhecer que estas realidades destrutivas correspondem a um sistema que se tornou global. Reconhecemos nós que este sistema impôs a lógica do lucro a todo o custo, sem pensar na exclusão social nem na destruição da natureza?
Se é assim – insisto – digamo-lo sem medo: Queremos uma mudança, uma mudança real, uma mudança de estruturas. Este sistema é insuportável: não o suportam os camponeses, não o suportam os trabalhadores, não o suportam as comunidades, não o suportam os povos.... E nem sequer o suporta a Terra, a irmã Mãe Terra, como dizia São Francisco.
Queremos uma mudança nas nossas vidas, nos nossos bairros, no vilarejo, na nossa realidade mais próxima; mas uma mudança que toque também o mundo inteiro, porque hoje a interdependência global requer respostas globais para os problemas locais. A globalização da esperança, que nasce dos povos e cresce entre os pobres, deve substituir esta globalização da exclusão e da indiferença.
Hoje quero reflectir convosco sobre a mudança que queremos e precisamos. Como sabem, recentemente escrevi sobre os problemas da mudança climática. Mas, desta vez, quero falar duma mudança noutro sentido. Uma mudança positiva, uma mudança que nos faça bem, uma mudança – poderíamos dizer – redentora. Porque é dela que precisamos. Sei que buscais uma mudança e não apenas vós: nos diferentes encontros, nas várias viagens, verifiquei que há uma expectativa, uma busca forte, um anseio de mudança em todos os povos do mundo. Mesmo dentro da minoria cada vez mais reduzida que pensa sair beneficiada deste sistema, reina a insatisfação e sobretudo a tristeza. Muitos esperam uma mudança que os liberte desta tristeza individualista que escraviza.
O tempo, irmãos e irmãs, o tempo parece exaurir-se; já não nos contentamos com lutar entre nós, mas chegamos até a assanhar-nos contra a nossa casa. Hoje, a comunidade científica aceita aquilo que os pobres já há muito denunciam: estão a produzir-se danos talvez irreversíveis no ecossistema. Está-se a castigar a terra, os povos e as pessoas de forma quase selvagem. E por trás de tanto sofrimento, tanta morte e destruição, sente-se o cheiro daquilo que Basílio de Cesareia chamava «o esterco do diabo»: reina a ambição desenfreada de dinheiro. O serviço ao bem comum fica em segundo plano. Quando o capital se torna um ídolo e dirige as opções dos seres humanos, quando a avidez do dinheiro domina todo o sistema socioecónomico, arruína a sociedade, condena o homem, transforma-o em escravo, destrói a fraternidade inter-humana, faz lutar povo contra povo e até, como vemos, põe em risco esta nossa casa comum.
Não quero alongar-me na descrição dos efeitos malignos desta ditadura subtil: vós conhecei-los! Mas também não basta assinalar as causas estruturais do drama social e ambiental contemporâneo. Sofremos de um certo excesso de diagnóstico, que às vezes nos leva a um pessimismo charlatão ou a rejubilar com o negativo. Ao ver a crónica negra de cada dia, pensamos que não haja nada que se possa fazer para além de cuidar de nós mesmos e do pequeno círculo da família e dos amigos.
Que posso fazer eu, recolhedor de papelão, catador de lixo, limpador, reciclador, frente a tantos problemas, se mal ganho para comer? Que posso fazer eu, artesão, vendedor ambulante, carregador, trabalhador irregular, se não tenho sequer direitos laborais? Que posso fazer eu, camponesa, indígena, pescador que dificilmente consigo resistir à propagação das grandes corporações? Que posso fazer eu, a partir da minha comunidade, do meu barraco, da minha povoação, da minha favela, quando sou diariamente discriminado e marginalizado? Que pode fazer aquele estudante, aquele jovem, aquele militante, aquele missionário que atravessa as favelas e os paradeiros com o coração cheio de sonhos, mas quase sem nenhuma solução para os meus problemas? Muito! Podem fazer muito. Vós, os mais humildes, os explorados, os pobres e excluídos, podeis e fazeis muito. Atrevo-me a dizer que o futuro da humanidade está, em grande medida, nas vossas mãos, na vossa capacidade de vos organizar e promover alternativas criativas na busca diária dos “3 T” (trabalho, tecto, terra), e também na vossa participação como protagonistas nos grandes processos de mudança nacionais, regionais e mundiais. Não se acanhem!
2.    Vós sois semeadores de mudança. Aqui, na Bolívia, ouvi uma frase de que gosto muito: «processo de mudança». A mudança concebida, não como algo que um dia chegará porque se impôs esta ou aquela opção política ou porque se estabeleceu esta ou aquela estrutura social. Sabemos, amargamente, que uma mudança de estruturas, que não seja acompanhada por uma conversão sincera das atitudes e do coração, acaba a longo ou curto prazo por burocratizar-se, corromper-se e sucumbir. Por isso gosto tanto da imagem do processo, onde a paixão por semear, por regar serenamente o que outros verão florescer, substitui a ansiedade de ocupar todos os espaços de poder disponíveis e de ver resultados imediatos. Cada um de nós é apenas uma parte de um todo complexo e diversificado interagindo no tempo: povos que lutam por uma afirmação, por um destino, por viver com dignidade, por «viver bem».
Vós, a partir dos movimentos populares, assumis as tarefas comuns motivados pelo amor fraterno, que se rebela contra a injustiça social. Quando olhamos o rosto dos que sofrem, o rosto do camponês ameaçado, do trabalhador excluído, do indígena oprimido, da família sem tecto, do imigrante perseguido, do jovem desempregado, da criança explorada, da mãe que perdeu o seu filho num tiroteio porque o bairro foi tomado pelo narcotráfico, do pai que perdeu a sua filha porque foi sujeita à escravidão; quando recordamos estes «rostos e nomes» estremecem-nos as entranhas diante de tanto sofrimento e comovemo-nos…. Porque «vimos e ouvimos», não a fria estatística, mas as feridas da humanidade dolorida, as nossas feridas, a nossa carne. Isto é muito diferente da teorização abstracta ou da indignação elegante. Isto comove-nos, move-nos e procuramos o outro para nos movermos juntos. Esta emoção feita acção comunitária é incompreensível apenas com a razão: tem um plus de sentido que só os povos entendem e que confere a sua mística particular aos verdadeiros movimentos populares.
Vós viveis, cada dia, imersos na crueza da tormenta humana. Falastes-me das vossas causas, partilhastes comigo as vossas lutas. E agradeço-vos. Queridos irmãos, muitas vezes trabalhais no insignificante, no que aparece ao vosso alcance, na realidade injusta que vos foi imposta e a que não vos resignais opondo uma resistência activa ao sistema idólatra que exclui, degrada e mata. Vi-vos trabalhar incansavelmente pela terra e a agricultura camponesa, pelos vossos territórios e comunidades, pela dignificação da economia popular, pela integração urbana das vossas favelas e agrupamentos, pela auto-construção de moradias e o desenvolvimento das infra-estruturas do bairro e em muitas actividades comunitárias que tendem à reafirmação de algo tão elementar e inegavelmente necessário como o direito aos “3 T”: terra, tecto e trabalho.
Este apego ao bairro, à terra, ao território, à profissão, à corporação, este reconhecer-se no rosto do outro, esta proximidade no dia-a-dia, com as suas misérias e os seus heroísmos quotidianos, é o que permite realizar o mandamento do amor, não a partir de ideias ou conceitos, mas a partir do genuíno encontro entre pessoas, porque não se amam os conceitos nem as ideias; amam-se as pessoas. A entrega, a verdadeira entrega nasce do amor pelos homens e mulheres, crianças e idosos, vilarejos e comunidades... Rostos e nomes que enchem o coração. A partir destas sementes de esperança semeadas pacientemente nas periferias esquecidas do planeta, destes rebentos de ternura que lutam por subsistir na escuridão da exclusão, crescerão grandes árvores, surgirão bosques densos de esperança para oxigenar este mundo.
Vejo, com alegria, que trabalhais no que aparece ao vosso alcance, cuidando dos rebentos; mas, ao mesmo tempo, com uma perspectiva mais ampla, protegendo o arvoredo. Trabalhais numa perspectiva que não só aborda a realidade sectorial que cada um de vós representa e na qual felizmente está enraizada, mas procurais também resolver, na sua raiz, os problemas gerais de pobreza, desigualdade e exclusão.
Felicito-vos por isso. É imprescindível que, a par da reivindicação dos seus legítimos direitos, os povos e as suas organizações sociais construam uma alternativa humana à globalização exclusiva. Vós sois semeadores de mudança. Que Deus vos dê coragem, alegria, perseverança e paixão para continuar a semear. Podeis ter a certeza de que, mais cedo ou mais tarde, vamos ver os frutos. Peço aos dirigentes: sede criativos e nunca percais o apego às coisas próximas, porque o pai da mentira sabe usurpar palavras nobres, promover modas intelectuais e adoptar posições ideológicas, mas se construirdes sobre bases sólidas, sobre as necessidades reais e a experiência viva dos vossos irmãos, dos camponeses e indígenas, dos trabalhadores excluídos e famílias marginalizadas, de certeza não vos equivocareis.
A Igreja não pode nem deve ser alheia a este processo no anúncio do Evangelho. Muitos sacerdotes e agentes pastorais realizam uma tarefa imensa acompanhando e promovendo os excluídos em todo o mundo, ao lado de cooperativas, dando impulso a empreendimentos, construindo casas, trabalhando abnegadamente nas áreas da saúde, desporto e educação. Estou convencido de que a cooperação amistosa com os movimentos populares pode robustecer estes esforços e fortalecer os processos de mudança.
No coração, tenhamos sempre a Virgem Maria, uma jovem humilde duma pequena aldeia perdida na periferia dum grande império, uma mãe sem tecto que soube transformar um curral de animais na casa de Jesus com uns pobres paninhos e uma montanha de ternura. Maria é sinal de esperança para os povos que sofrem dores de parto até que brote a justiça. Rezo à Virgem do Carmo, padroeira da Bolívia, para fazer com que este nosso Encontro seja fermento de mudança.
3.    Por último, gostaria que reflectíssemos, juntos, sobre algumas tarefas importantes neste momento histórico, pois queremos uma mudança positiva em benefício de todos os nossos irmãos e irmãs. Disto estamos certos! Queremos uma mudança que se enriqueça com o trabalho conjunto de governos, movimentos populares e outras forças sociais. Sabemos isto também! Mas não é tão fácil definir o conteúdo da mudança, ou seja, o programa social que reflicta este projecto de fraternidade e justiça que esperamos. Neste sentido, não esperem uma receita deste Papa. Nem o Papa nem a Igreja têm o monopólio da interpretação da realidade social e da proposta de soluções para os problemas contemporâneos. Atrever-me-ia a dizer que não existe uma receita. A história é construída pelas gerações que se vão sucedendo no horizonte de povos que avançam individuando o próprio caminho e respeitando os valores que Deus colocou no coração.
Gostaria, no entanto, de vos propor três grandes tarefas que requerem a decisiva contribuição do conjunto dos movimentos populares:
3.1  A primeira tarefa é pôr a economia ao serviço dos povos.
Os seres humanos e a natureza não devem estar ao serviço do dinheiro. Digamos NÃO a uma economia de exclusão e desigualdade, onde o dinheiro reina em vez de servir. Esta economia mata. Esta economia exclui. Esta economia destrói a Mãe Terra.
A economia não deveria ser um mecanismo de acumulação, mas a condigna administração da casa comum. Isto implica cuidar zelosamente da casa e distribuir adequadamente os bens entre todos. A sua finalidade não é unicamente garantir o alimento ou um «decoroso sustento». Não é sequer, embora fosse já um grande passo, garantir o acesso aos “3 T” pelos quais combateis. Uma economia verdadeiramente comunitária – poder-se-ia dizer, uma economia de inspiração cristã – deve garantir aos povos dignidade, «prosperidade e civilização em seus múltiplos aspectos».  Isto envolve os “3 T” mas também acesso à educação, à saúde, à inovação, às manifestações artísticas e culturais, à comunicação, ao desporto e à recreação. Uma economia justa deve criar as condições para que cada pessoa possa gozar duma infância sem privações, desenvolver os seus talentos durante a juventude, trabalhar com plenos direitos durante os anos de actividade e ter acesso a uma digna aposentação na velhice. É uma economia onde o ser humano, em harmonia com a natureza, estrutura todo o sistema de produção e distribuição de tal modo que as capacidades e necessidades de cada um encontrem um apoio adequado no ser social. Vós – e outros povos também – resumis este anseio duma maneira simples e bela: «viver bem».
Esta economia é não apenas desejável e necessária, mas também possível. Não é uma utopia, nem uma fantasia. É uma perspectiva extremamente realista. Podemos consegui-la. Os recursos disponíveis no mundo, fruto do trabalho intergeneracional dos povos e dos dons da criação, são mais que suficientes para o desenvolvimento integral de «todos os homens e do homem todo».  Mas o problema é outro. Existe um sistema com outros objectivos. Um sistema que, apesar de acelerar irresponsavelmente os ritmos da produção, apesar de implementar métodos na indústria e na agricultura que sacrificam a Mãe Terra na ara da «produtividade», continua a negar a milhares de milhões de irmãos os mais elementares direitos económicos, sociais e culturais. Este sistema atenta contra o projecto de Jesus.
A justa distribuição dos frutos da terra e do trabalho humano não é mera filantropia. É um dever moral. Para os cristãos, o encargo é ainda mais forte: é um mandamento. Trata-se de devolver aos pobres e às pessoas o que lhes pertence. O destino universal dos bens não é um adorno retórico da doutrina social da Igreja. É uma realidade anterior à propriedade privada. A propriedade, sobretudo quando afecta os recursos naturais, deve estar sempre em função das necessidades das pessoas. E estas necessidades não se limitam ao consumo. Não basta deixar cair algumas gotas, quando os pobres agitam este copo que, por si só, nunca derrama. Os planos de assistência que acodem a certas emergências deveriam ser pensados apenas como respostas transitórias. Nunca poderão substituir a verdadeira inclusão: a inclusão que dá o trabalho digno, livre, criativo, participativo e solidário.
Neste caminho, os movimentos populares têm um papel essencial, não apenas exigindo e reclamando, mas fundamentalmente criando. Vós sois poetas sociais: criadores de trabalho, construtores de casas, produtores de alimentos, sobretudo para os descartados pelo mercado global.
Conheci de perto várias experiências, onde os trabalhadores, unidos em cooperativas e outras formas de organização comunitária, conseguiram criar trabalho onde só havia sobras da economia idólatra. As empresas recuperadas, as feiras francas e as cooperativas de catadores de papelão são exemplos desta economia popular que surge da exclusão e que pouco a pouco, com esforço e paciência, adopta formas solidárias que a dignificam. Quão diferente é isto do facto de os descartados pelo mercado formal serem explorados como escravos!
Os governos que assumem como própria a tarefa de colocar a economia ao serviço das pessoas devem promover o fortalecimento, melhoria, coordenação e expansão destas formas de economia popular e produção comunitária. Isto implica melhorar os processos de trabalho, prover de adequadas infra-estruturas e garantir plenos direitos aos trabalhadores deste sector alternativo. Quando Estado e organizações sociais assumem, juntos, a missão dos “3 T”, activam-se os princípios de solidariedade e subsidiariedade que permitem construir o bem comum numa democracia plena e participativa.
3.2  A segunda tarefa é unir os nossos povos no caminho da paz e da justiça.
Os povos do mundo querem ser artífices do seu próprio destino. Querem caminhar em paz para a justiça. Não querem tutelas nem interferências, onde o mais forte subordina o mais fraco. Querem que a sua cultura, o seu idioma, os seus processos sociais e tradições religiosas sejam respeitados. Nenhum poder efectivamente constituído tem direito de privar os países pobres do pleno exercício da sua soberania e, quando o fazem, vemos novas formas de colonialismo que afectam seriamente as possibilidades de paz e justiça, porque «a paz funda-se não só no respeito pelos direitos do homem, mas também no respeito pelo direito dos povos, sobretudo o direito à independência». 
Os povos da América Latina alcançaram, com um parto doloroso, a sua independência política e, desde então, viveram já quase dois séculos duma história dramática e cheia de contradições procurando conquistar uma independência plena.
Nos últimos anos, depois de tantos mal-entendidos, muitos países latino-americanos viram crescer a fraternidade entre os seus povos. Os governos da região juntaram seus esforços para fazer respeitar a sua soberania, a de cada país e a da região como um todo que, de forma muito bela como faziam os nossos antepassados, chamam a «Pátria Grande». Peço-vos, irmãos e irmãs dos movimentos populares, que cuidem e façam crescer esta unidade. É necessário manter a unidade contra toda a tentativa de divisão, para que a região cresça em paz e justiça.
Apesar destes avanços, ainda subsistem factores que atentam contra este desenvolvimento humano equitativo e coarctam a soberania dos países da «Pátria Grande» e doutras latitudes do Planeta. O novo colonialismo assume variadas fisionomias. Às vezes, é o poder anónimo do ídolo dinheiro: corporações, credores, alguns tratados denominados «de livre comércio» e a imposição de medidas de «austeridade» que sempre apertam o cinto dos trabalhadores e dos pobres. Os bispos latino-americanos denunciam-no muito claramente, no documento de Aparecida, quando afirmam que «as instituições financeiras e as empresas transnacionais se fortalecem ao ponto de subordinar as economias locais, sobretudo debilitando os Estados, que aparecem cada vez mais impotentes para levar adiante projetos de desenvolvimento a serviço de suas populações».  Noutras ocasiões, sob o nobre disfarce da luta contra a corrupção, o narcotráfico ou o terrorismo – graves males dos nossos tempos que requerem uma acção internacional coordenada – vemos que se impõem aos Estados medidas que pouco têm a ver com a resolução de tais problemáticas e muitas vezes tornam as coisas piores.
Da mesma forma, a concentração monopolista dos meios de comunicação social que pretende impor padrões alienantes de consumo e certa uniformidade cultural é outra das formas que adopta o novo colonialismo. É o colonialismo ideológico. Como dizem os bispos da África, muitas vezes pretende-se converter os países pobres em «peças de um mecanismo, partes de uma engrenagem gigante».
Temos de reconhecer que nenhum dos graves problemas da humanidade pode ser resolvido sem a interacção dos Estados e dos povos a nível internacional. Qualquer acto de envergadura realizado numa parte do Planeta repercute-se no todo em termos económicos, ecológicos, sociais e culturais. Até o crime e a violência se globalizaram. Por isso, nenhum governo pode actuar à margem duma responsabilidade comum. Se queremos realmente uma mudança positiva, temos de assumir humildemente a nossa interdependência. Mas interacção não é sinónimo de imposição, não é subordinação de uns em função dos interesses dos outros. O colonialismo, novo e velho, que reduz os países pobres a meros fornecedores de matérias-primas e mão de obra barata, gera violência, miséria, emigrações forçadas e todos os males que vêm juntos... precisamente porque, ao pôr a periferia em função do centro, nega-lhes o direito a um desenvolvimento integral. Isto é desigualdade, e a desigualdade gera violência que nenhum recurso policial, militar ou dos serviços secretos será capaz de deter.
Digamos NÃO às velhas e novas formas de colonialismo. Digamos SIM ao encontro entre povos e culturas. Bem-aventurados os que trabalham pela paz.
Aqui quero deter-me num tema importante. É que alguém poderá, com direito, dizer: «Quando o Papa fala de colonialismo, esquece-se de certas acções da Igreja». Com pesar, vo-lo digo: Cometeram-se muitos e graves pecados contra os povos nativos da América, em nome de Deus. Reconheceram-no os meus antecessores, afirmou-o o CELAM e quero reafirmá-lo eu também. Como São João Paulo II, peço que a Igreja «se ajoelhe diante de Deus e implore o perdão para os pecados passados e presentes dos seus filhos».  E eu quero dizer-vos, quero ser muito claro, como foi São João Paulo II: Peço humildemente perdão, não só para as ofensas da própria Igreja, mas também para os crimes contra os povos nativos durante a chamada conquista da América.
Peço-vos também a todos, crentes e não crentes, que se recordem de tantos bispos, sacerdotes e leigos que pregaram e pregam a boa nova de Jesus com coragem e mansidão, respeito e em paz; que, na sua passagem por esta vida, deixaram impressionantes obras de promoção humana e de amor, pondo-se muitas vezes ao lado dos povos indígenas ou acompanhando os próprios movimentos populares mesmo até ao martírio. A Igreja, os seus filhos e filhas, fazem parte da identidade dos povos na América Latina. Identidade que alguns poderes, tanto aqui como noutros países, se empenham por apagar, talvez porque a nossa fé é revolucionária, porque a nossa fé desafia a tirania do ídolo dinheiro. Hoje vemos, com horror, como no Médio Oriente e noutros lugares do mundo se persegue, tortura, assassina a muitos irmãos nossos pela sua fé em Jesus. Isto também devemos denunciá-lo: dentro desta terceira guerra mundial em parcelas que vivemos, há uma espécie de genocídio em curso que deve cessar.
Aos irmãos e irmãs do movimento indígena latino-americano, deixem-me expressar a minha mais profunda estima e felicitá-los por procurarem a conjugação dos seus povos e culturas segundo uma forma de convivência, a que eu chamo poliédrica, onde as partes conservam a sua identidade construindo, juntas, uma pluralidade que não atenta contra a unidade, mas fortalece-a. A sua procura desta interculturalidade que conjuga a reafirmação dos direitos dos povos nativos com o respeito à integridade territorial dos Estados enriquece-nos e fortalece-nos a todos.
3.3  A terceira tarefa, e talvez a mais importante que devemos assumir hoje, é defender a Mãe Terra.
A casa comum de todos nós está a ser saqueada, devastada, vexada impunemente. A covardia em defendê-la é um pecado grave. Vemos, com crescente decepção, sucederem-se uma após outra cimeiras internacionais sem qualquer resultado importante. Existe um claro, definitivo e inadiável imperativo ético de actuar que não está a ser cumprido. Não se pode permitir que certos interesses – que são globais, mas não universais – se imponham, submetendo Estados e organismos internacionais, e continuem a destruir a criação. Os povos e os seus movimentos são chamados a clamar, mobilizar-se, exigir – pacífica mas tenazmente – a adopção urgente de medidas apropriadas. Peço-vos, em nome de Deus, que defendais a Mãe Terra. Sobre este assunto, expressei-me devidamente na carta encíclica Laudato si’.

4.    Para concluir, quero dizer-lhes novamente: O futuro da humanidade não está unicamente nas mãos dos grandes dirigentes, das grandes potências e das elites. Está fundamentalmente nas mãos dos povos; na sua capacidade de se organizarem e também nas suas mãos que regem, com humildade e convicção, este processo de mudança. Estou convosco. Digamos juntos do fundo do coração: nenhuma família sem tecto, nenhum camponês sem terra, nenhum trabalhador sem direitos, nenhum povo sem soberania, nenhuma pessoa sem dignidade, nenhuma criança sem infância, nenhum jovem sem possibilidades, nenhum idoso sem uma veneranda velhice. Continuai com a vossa luta e, por favor, cuidai bem da Mãe Terra. Rezo por vós, rezo convosco e quero pedir a nosso Pai Deus que vos acompanhe e abençoe, que vos cumule do seu amor e defenda no caminho concedendo-vos, em abundância, aquela força que nos mantém de pé: esta força é a esperança, a esperança que não decepciona. Obrigado! E peço-vos, por favor, que rezeis por mim.

O presente do presidente Evo Morales ao Papa Francisco



O presente de Evo Morales ao papa Francisco está gerando muito mi mi mim pelas redes sociais com posições as mais antagônicas. Esta é a réplica de um trabalho de um jesuíta assassinado por paramilitares na década de 80.
Simbolicamente a peça mostra o Cristo crucificado não ao uma cruz, mas relata o sofrimento do povo e a identificação de Jesus com esse povo. É o trabalho que hoje serve de Cruz ao povo.

A minha tese, e suponho que é a mesma do papa é que se formos verdadeiramente cristãos, não precisamos de socialismo ou marxismo ou comunismo.
O cristianismo é muitíssimo mais radical e justo do que qualquer desses "ismos" e ainda permite uma abertura para a transcendência, coisa que nos "ismos" não acontece.
O cristianismo se baseia na justiça e não pura e simples divisão equalitaria,prega um evangelho para TODOS e busca a evolução pela trasformação individual e não revoluções. Nossos mártires entregam sua vida na defesa do povo oprimido e não acirrando revoltas e ódio. Nossa trajetória está marcada pelo seguimento do Senhor da Paz, jamais seremos cúmplice de guerras e de qualquer tipo de morte. Somos pela vida e por ela lutamos, somos contra qualquer tipo de morte. Seria fácil para Jesus se juntar aos revolucionários de seu tempo e promover uma guerra, da mesma forma Francisco, o de Assis, poderia arregimentar gente para derrubar o governo que oprimia os pobres, mas ele tal como Jesus preferiu a via mais difícil e longa, mas a via que é eterna. A linha que divide a teologia da libertação e a ideologia da libertação é tênue, mas existe precisa ser bem demarcada porque do contrário a morte de tantos mártires, desde Estêvão lá nos tempos apostólicos aos mais modernos, Jósimo, Henrique, Doroty, Chico Mendes,Ezequiel e tantos outros terá sido em vão.
O reino que nós cristãos estamos nos propondo a construir, como bem disse Jesus, não pertence a este mundo, mas começa aqui e se estende pela eternidade..

Na verdade o grande problema são os extremos, cada um tentando levar a cereja para o seu bolo... De um lado os tradicionalistas alinhados aos Paulos Ricardos, CN e assemelhados ficam procurando pelos em casca de ovo para criticar o papa. Não tem coragem de afirmar suas discordâncias do papa e ficam de mi mi mi nas redes.
Do outro tem os incendiários que querem encontrar nas falas do papa o motivo e o sinal para começar a revolução... Nem uns nem outros conseguem perceber que o papa é neste momento a única voz que tem o poder de atingir todo o planeta e ser ouvido e respítado como liderança de grande importância e aceitação. Ele tem refletido dentro de uma visão puramente cristã apontando que estamos no caminho errado, que é preciso rever o projeto porque temos um Reino para começar a construir e estamos muito atrasados nesta tarefa. Se quisermos outro mundo possível, tal como Jesus incumbiu àqueles que de boa vontade aceitam a sua proposta, é preciso atender ao chamado e à pedagogia de Jesus. Não vai ser com barricadas, com paus e pedras, nem com esse sistema capitalista opressor que construiremos alguma coisa. Só há um caminho que passa pela mudança de cada um, pela transformação da atitude, e do comportamento. A proposta do filho do carpinteiro de Nazaré, do Raboni Yeshuá, do filho do homem, como ele gostava de se auto definir, é uma mudança individual , uma mudança Evolucionária que no conjunto se torna revolucionária.
A prática do amor ao próximo, da aceitação incondicional deste próximo e o reconhecimento de cada semelhante como filho do mesmo pai e criador, garante um outro tipo de sociedade, onde a justiça e o amor prevalecem em detrimento do egoísmo e da exploração.
Toda construção depende de uma pedra que fundamente o edifício, não há como construir absolutamente nada na ausência do amor e do cuidado com os que foram postos à beira do caminho, rejeitados pela sociedade. No Reino TODOS tem a mesma importância e não falta a uns o que sobra a outros. Não é pura divisão igualitária, mas a e a saisfação diferenciada das necessidades de cada um, é justiça e não pura distribuição de bens.
Não queiram ideologizar o presente de Evo Morales, ele é o que é , um presente. Não cabia ao papa rejeitar de forma agressiva como gostariam os candidatos à promotoria do juízo final. Não seria coerente o papa beijar uma peça de arte, como não o fez e muito menos exibi-la como um símbolo de fé. Recebeu, agradeceu e mandou guardar, só isso. O resto, e fruto do desejo e da imaginação de quem quer sequestrar o papa para as suas convicções particulares. (J Ricardo Oliveira)

7 de julho de 2015

Fraternidade


"Somos todos irmãos,
NINGUÉM seja descartado ou e
xcluído"
papa Francisco




Mais graça no lugar do absurdo - O papa Francisco revisa a teologia do inferno


Enfim um papa para defender a misericórdia de Deus.

"Foi Concílio de Florença no século XV que rubricou definitivamente a doutrina de Santo Agostinho de um castigo e um inferno eterno. Já no século V, entretanto, São Jerônimo estava convencido de que a doutrina do inferno com a misericórdia de Deus não era conciliável. De todo modo, pedia-se aos sacerdotes e bispos que continuassem defendendo a doutrina tradicional “para que os fiéis, por temor ao castigo do inferno eterno, não pecassem”.






O papa Francisco revisa a teologia do inferno
"A Igreja oficial defende desde o século XV que o castigo do inferno destinado aos pecadores é 'eterno', ideia iniciada no século VI com Santo Agostinho. O papa Francisco acaba de revisar tal doutrina católica ao afirmar que a Igreja 'não condena para sempre'”. O comentário é de Juan Arias em artigo no El País, 20-02-2015.

Eis o artigo.
Sem necessidade de grandes encíclicas, com suas falas habituais, Francisco está realizando uma revisão da Igreja para aproximá-la de suas raízes históricas.
Deu o último golpe de graça em um momento um pouco mais solene do que suas conversas habituais com os jornalistas. Dessa vez aproveitou, dias atrás, seu discurso aos novos cardeais para recordar-lhes que o castigo do inferno com o qual a Igreja atormenta os fiéis não é “eterno”.
Segundo Francisco, no DNA da Igreja de Cristo, não existe um castigo para sempre, sem retorno, inapelável.
O Papa jesuíta é formado em teologia, ainda que não tenha feito o doutorado. Dele, talvez hoje o papa renunciante e doutor em teologia, Bento XVI, possa dizer o que afirmava sobre seu antecessor, o papa polonês João Paulo II: que sabe pouca teologia.
Durante um jantar informal em Roma, na casa de um jornalista alemão seu amigo, Ratzinger confessou, efetivamente, aos poucos comensais presentes, que o papa Wojtyla “era mais poeta que teólogo” e que ele, como Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, cargo que ocupava na época, precisava revisar seus discursos e documentos papais para que não escapasse “alguma imprecisão teológica”.
Francisco é, entretanto, um fiel seguidor da teologia inspirada no cristianismo original, que era, afirma ele, não o da “exclusão”, mas o da “acolhida” de todos, até mesmo dos maiores pecadores. É inspirado por aquele cristianismo antes que a teologia liberal do profeta Jesus de Nazaré fosse contaminada pela severa teologia aristotélica e racional.
Não foi um lapso a afirmação de Francisco aos cardeais de que a Igreja “não condena ninguém para sempre”, o que equivale a dizer que o castigo de Deus não é “eterno”, já que as portas da Igreja da misericórdia e do perdão estão sempre abertas ao pecador.
O Papa que está exigindo aos seus, começando pelos cardeais, a ir ao encontro daqueles que o mundo esquece e marginaliza, ao invés de perder seu tempo nos palácios do poder, sabe que essa doutrina teológica sobre a eternidade e irreversibilidade das penas do inferno, foi sofrendo mudanças ao longo da História da Igreja.
Até o século III a Igreja nunca defendeu a doutrina da eternidade do inferno. Pelo contrário, o exegeta das Escrituras, Orígenes (250) defendeu a doutrina da apocatástase, segundo a qual o Deus dos Evangelho perdoa sempre. Orígenes baseava-se na parábola do Filho pródigo que volta aos braços do pai e é recebido com tanta festa que causa a inveja do irmão bom e fiel.
Somente no século VI começa a aparecer o conceito de “condenação eterna”, sobretudo com Santo Agostinho, o mesmo que defendia que as crianças mortas sem batismo deveriam ir para o inferno. Diante dos protestos das mães dessas crianças, a Igreja criou a doutrina do Limbo, um lugar onde essas crianças “não gozam nem sofrem”, algo completamente estranho aos Evangelhos
Em nossos dias, o falecido papa polaco, João Paulo II, no Catecismo da Igreja Universal nascido das discussões do Concílio Vaticano II, aboliu o Limbo. De acordo com comentários de amigos pessoais do papa, Wojtyla nunca aceitou que uma irmã sua nascida morta e que não pôde ser batizada, pudesse não estar no céu por ter morrido antes de ser libertada do pecado original com o batismo.
A família do futuro Papa era muito católica e, fiel àquela doutrina, nem sequer enterraram o corpo da pequena por não ter podido receber o batismo. Ele mesmo confirmou quando ao falar do túmulo no qual gostaria de juntar os restos de toda sua família, frisou que faltava somente sua irmãzinha, “pois havia nascido morta”. Foi jogada no lixo.
Foi o Concílio de Florença no século XV que rubricou definitivamente a doutrina de Santo Agostinho de um castigo e um inferno eterno. Já no século V, entretanto, São Jerônimo estava convencido de que a doutrina do inferno com a misericórdia de Deus não era conciliável. De todo modo, pedia-se aos sacerdotes e bispos que continuassem defendendo a doutrina tradicional “para que os fiéis, por temor ao castigo do inferno eterno, não pecassem”.
Hoje, o papa Francisco deu um salto de séculos, colocou-se ao lado das primeiras comunidades cristãs ainda embebidas da doutrina do misericordioso profeta de Nazaré, que veio “para salva e não para condenar”.
Os primeiros cristãos sabiam que Jesus havia sido duro e severo com a hipocrisia e com o poder tirano, enquanto abraçava os marginalizados pela sociedade bem como os que a Igreja oficial de seu tempo tachava de pecadores.
Podem parecer minúcias teológicas para os não religiosos, mas são muito importantes para milhões de cristãos que durante séculos sofreram oprimidos pela doutrina de um Deus tirano, sedento de castigo e de castigo eterno.
Lembro que no final dos anos 60, após escrever no jornal espanhol Pueblo um artigo intitulado “O Deus no qual não acredito”, em que defendia que os cristãos precisavam escolher entre Deus e o inferno eterno, já que ambos eram conceitos inconciliáveis, sofri um duro interrogatório do então arcebispo de Madri, Monsenhor Casimiro Morcillo, que me acusou de “ter escandalizado os fiéis”.
Aqui no Brasil, o teólogo da libertação, Leonardo Boff, me contou que há 16 anos o grande escritor e poeta de Pernambuco João Cabral de Mello Neto estava para morrer e, apesar de não ser religioso, estava angustiado naquele momento pela doutrina sobre o medo do inferno, que lhe haviam inculcado na infância. Foi chamado para o tranquilizar. Boff, que foi condenado ao silêncio pelo papa Bento XVI quando este era Prefeito da Congregação da Fé, usou com o escritor as mesmas palavras que agora o papa Francisco usa para assegurar que Deus não condena ninguém para sempre.

Boff disse com humor ao poeta que alguém capaz de escrever a joia literária, social e humana Morte e Vida Severina, merecia indulgência plena na hora de se despedir da vida.
A mudança é copernicana. Hoje é um papa como Francisco que afirma com total naturalidade que o Deus cristão “não condena ninguém para sempre”, que é como dizer que não existem infernos eternos, uma afirmação que há pouco tempo atrás poderia ter servido para abrir um processo contra um teólogo e condená-lo ao ostracismo.
Fonte:
http://www.ihu.unisinos.br/