O absurdo e a Graça

Na vida hoje caminhamos entre uma fome que condena ao sofrimento uma enorme parcela da humanidade e uma tecnologia moderníssima que garante um padrão de conforto e bem estar nunca antes imaginado. Um bilhão de seres humanos estão abaixo da linha da pobreza, na mais absoluta miséria, passam FOME ! Com a tecnologia que foi inventada seria possível produzir alimentos e acabar com TODA a fome no mundo, não fossem os interesses de alguns grupos detentores da tecnologia e do poder. "Para mim, o absurdo e a graça não estão mais separados. Dizer que "tudo é absurdo" ou dizer que "tudo é graça " é igualmente mentir ou trapacear... "Hoje a graça e o absurdo caminham, em mim lado a lado, não mais estranhos, mas estranhamente amigos" A cada dia, nas situações que se nos apresentam podemos decidir entre perpetuar o absurdo, ou promover a Graça. (Jean Yves Leloup) * O Blog tem o mesmo nome do livro autobiográfico de Jean Yves Leloup, e é uma forma de homenagear a quem muito tem me ensinado em seus livros retiros, seminários e workshops *

20 de dezembro de 2019

Coca-Colonização da cultura: Como o Natal se americanizou em todo o mundo

O texto não é meu, me foi enviado pelo amigo André eeu o achei tão imprtante que resolvi publicá-lo


 


feriado religioso mais popular da cristandade carrega em si próprio uma grande contradição: é durante as celebrações de Natal que ao menos quatro dos sete pecados capitais, condenados pelo cristianismo, são mais venerados – a gula, a luxúria, a avareza e a inveja.

A festividade cristã se tornou uma das datas comerciais mais lucrativas e, embora esse fenômeno não seja essencialmente norte-americano, ele se agudizou à medida que avançava a hegemonia sociocultural e econômica dos EUA, que exportou um Papai Noel de roupas vermelhas e uma garrafa de Coca-Cola em mãos como árbitro das celebrações natalinas em todo o mundo.

Basta estudar a própria construção simbólica do Natal tipicamente norte-americano para constatar que a festividade bebe das mais diversas tradições culturais europeias, trazidas por imigrantes e incorporadas à cultura popular dos EUA. É nesse sentido que o antropólogo britânico Daniel Miller – estudioso formulador da “Teoria do Natal”, por meio da qual expõe descaracterizações na data, trazidas pela obrigação da troca de presentes – identifica uma série de linhas de influências que atravessaram os mares e passaram a operar na celebração do Natal desde meados do século XIX.
Segundo Miller, o Natal moderno mistura o corte de árvore da tradição alemã, o preenchimento de meias da tradição holandesa, o envio britânico de cartões natalinos e a manjedoura dos presépios típica dos italianos. Além disso, os dois artistas responsáveis ​​pelas representações visuais mais influentes da figura do Papai Noel tinham fortes antecedentes europeus: no século XIX, o cartunista Thomas Nast (nascido na Alemanha em 1840) e, no século XX, o ilustrador publicitário Haddon Sundblom (norte-americano de ascendência sueca e finlandesa). 
Entretanto, para o professor de estudos de mídia George Mckay, da Universidade de East Anglia, houve nos EUA um elemento fundamental para que todos esses símbolos oriundos de ritos cristãos e pagãos se aglutinassem em um só arquétipo moderno de festejo natalino: o fenômeno do consumo de massa.
O Natal disseminado como ocasião de consumo de massa impulsionou o feriado como “festival global”. Se o Natal contemporâneo, de fato, envolve uma amálgama de costumes, geralmente específicos de nações, regiões ou até aldeias, também está integrado à formação de símbolos e costumes “globais”, isto é, influenciados pelos processos de globalização e americanização. Na própria sequência de “’festivais de consumo” no calendário norte-americano, que inclui o Halloween e o Dia de Ação de Graças, somente o Natal alcança o status de festejo global, tendo como principal figura visual o Papai Noel, um personagem criado nos EUA.

Natal, festival de consumo à americana




Um discurso recorrente em críticas ao aumento do consumo no Natal é que há uma contradição entre a concepção tradicional da data como festividade cristã e ritual de celebração da família – espaço caracterizado pela afetividade – e o comércio durante a temporada natalina – espaço intrínseco à esfera impessoal do mercado. O “materialismo” vigente no sistema de mercadorias seria a força capaz de destruir o “espírito natalino”, e a oposição imediata a ele seriam certos laços de sociabilidade, em especial a família nuclear.
O ritual de dar presentes no Natal remonta às sociedades pré-industriais. Ele começou na época das Treze Colônias, quando os primeiros norte-americanos mantinham uma antiga “obrigação” de oferecer presentes aos mais pobres. Naquele período, não havia ainda a troca de presentes, mas apenas uma “doação”. Porém, essa tradição futuramente se readequou a um conjunto de práticas e inovações na vida social e comercial ligadas ao desenvolvimento do capitalismo ocidental nas esferas urbanas, tanto doméstica como pública. Ao mesmo tempo, a expansão das lojas de departamentos criou uma experiência de lazer e de estilo de vida consumista, e a publicidade se tornou uma forma dominante de comunicação e persuasão da mídia de massa, baseada, em grande medida, nos novos produtos disponíveis nessas “catedrais do consumo”.
Ainda no século XIX, os lojistas norte-americanos perceberam o enorme potencial de impacto do Natal no aumento de suas vendas. O primeiro reconhecimento do aumento sazonal nas vendas e no volume de negócios no período natalino – fenômeno comercial hoje conhecido de todos – aconteceu já em 1867, quando Rowland Hussey Macy, dono da tradicional loja de departamentos Macy’sestendeu o horário de funcionamento de sua loja em Nova York até meia-noite, fazendo com que, em único dia, atingisse um recorde de vendas superior a  6 mil dólares. Em 1874, a Macy’s inovou ao apresentar na vitrine uma promoção de bonecas importadas no valor de 10 mil dólares, exclusiva para a compra de presentes natalinos, e ao oferecer bônus de Natal a seus funcionários.
O significado social da popularização das lojas de departamentos nos EUA e, mais tarde, na Europa no final do século XIX e início do século XX ultrapassa a mera ascensão do consumo e do “materialismo”. Era algo inédito que consumidores pudessem entrar gratuitamente em uma grande loja, e a disposição acessível das mercadorias estimulava as compras, mesmo para quem não tivesse condições de comprar. Em outras palavras, as lojas de departamento democratizaram o desejo.
Além disso, foi nessa época que a loja de departamentos Montgomery Ward, em Chicago, criou no imaginário popular outro personagem símbolo do Natal: Rudolph, a rena do nariz vermelho. Em 1939, mais de dois milhões de cópias da história de Rudolph foram enviadas junto com os catálogos da Montgomery Ward. Uma década depois, a canção homônima cantada por Gene Autry, baseada no personagem da rede de lojas, tornou-se um grande sucesso e continua sendo uma das canções de Natal mais populares da temporada natalina nos EUA, evidenciando a inter-relação entre publicidade e cultura popular. Todavia, nenhum símbolo expõe de forma mais explícita a relação entre a temporada natalina e predominância do jogo das relações mercantis do que a figura do Papai Noel.

Papai Noel, a divindade do “materialismo”

Com seu saco de presentes e dotado de toda sorte de poderes mágicos – onisciência, voo, viagem no tempo e mudança de forma –, o personagem do “bom velhinho” foi central na transformação do Natal em um festival global. Sua principal característica como provedor de bens de consumo fez com que alçasse o status de símbolo da abundância material e do prazer hedonista e, por consequência, de “divindade do materialismo”, como diria Daniel Miller. Ele – e não Jesus Cristo – passa a ser a figura central de organização do evento, e o nascimento a ser comemorado não era mais o do aniversariante da data segundo a tradição cristão, mas o de um novo nicho de mercado.
Figura sagrada feita sob medida para um mundo secular, o Papai Noel moderno é fruto da fusão sincrética de vários personagens diferentes trazidos por imigrantes europeus aos EUA. É o que aponta Claude Lévi-Strauss em seu clássico ensaio “O suplício do Papai Noel” de 1952, em que analisa um caso ocorrido no Natal anterior em Dijon, na França, quando católicos e luteranos se uniram para queimar um boneco de Papai Noel em uma fogueira em protesto pela “crescente paganização do dia de Natal” – um episódio que o jornal espanhol El País apelidou de “o último auto de fé da Europa”. Para o antropólogo francês, a variedade de nomes dados ao personagem – Papai Noel, São Nicolau ou Santa Claus – demonstra que ele é resultado de um “fenômeno de convergência e não um protótipo antigo conservado por toda parte”.
Por outro lado, o “bom velhinho” identificado fundamentalmente a partir dos EUA não se assemelha mais com os personagens europeus que o originaram, como São Nicolau (protetor dos marinheiros e comerciantes) ou Knecht Ruprecht (companheiro de São Nicolau, de acordo com o folclore alemão). Ele tem uma personalidade mais apresentável para sua aparição em lojas e residências e distribui presentes e não apenas frutas, nozes e brinquedos caseiros. Com uma aparência paterna não ameaçadora, sua imagem como conhecida hoje surgiu em janeiro de 1863 pelas mãos do cartunista político da revista Harper’s Weekly, Thomas Nast. Em um contexto de Guerra da Secessão nos EUA (1861-1865), o Papai Noel já estava localizado ideologicamente nos desenhos de Nast. Para construir parte do imaginário da União (o Norte) durante a Guerra Civil, a implicação era que as crianças sulistas se perguntariam por que o Papai Noel não as estava visitando.
Um homem estranho, gordo e de bochechas rosadas que invade as casas no meio da noite e frequentemente visita as crianças em seus quartos passou a evocar não um pesadelo, mas um sonho e desejo, e se tornou símbolo de um festival domesticado. Por ironia, a despeito de sua aparência distinta e de sua origem localizada reconhecidamente nos EUA, o Papai Noel não é facilmente identificável como uma figura tipicamente norte-americana – suas roupas, por exemplo, são vermelhas e brancas e não vermelhas e azuis, tais quais as cores da bandeira nacional. Talvez a única exceção a isso seja o primeiro desenho de Nast, de 1863 – um Papai Noel em um acampamento de tropas da União com a bandeira estrelada em seu paletó e calça listrada.
De fato, a americanidade do Papai Noel se tornou mais clara desde os primeiros antecedentes históricos da propaganda para o marketing sazonal de Natal ainda no século XIX, quando uma loja na Filadélfia utilizou o personagem para fazer propaganda de suas mercadorias aos transeuntes e recorreu à sua representação visual que se tornaria clássica no século seguinte – alegre, corpulento, com uma barba branca e vestindo roupas felpudas. Pois essa é a imagem incorporada à publicidade da Coca-Cola Company no início da década 1920, quando a marca de bebidas começou a fazer campanhas de Natal nas cores corporativas da empresa em vermelho e branco, a fim de expandir as vendas de refrigerantes no inverno. Foi a campanha da Coca-Cola que tornaria tal representação do Papai Noel consagrada no imaginário coletivo contemporâneo.
A companhia de bebidas utilizou o personagem em sua publicidade sazonal pela primeira vez em 1915 e, mais tarde, quando desenvolveu propagandas de sua água mineral White Rock especialmente para a revista Life entre dezembro de 1923 a 1925. Os anúncios mostravam um Papai Noel em trajes e cenários familiares: roupas de pele vermelhas e brancas, sentado ao lado de uma geladeira, em ambientes domésticos de Natal confortáveis ​​e acolhedores (em geral, em contraste com uma cena de inverno do lado de fora, visível através de uma janela). Em meio à década da Proibição pela Lei Seca (1920-1933), os anúncios popularizaram a White Rock a ponto de seu nome ter virado sinônimo de água com gás e, mais tarde, um código secreto para pedir bebidas alcoólicas misturadas nos bares norte-americanos.
Foi a partir de 1931 que a figura visual do Papai Noel ganharia extrema popularidade com os traços do ilustrador Haddon Sundblom e demarcaria definitivamente a conexão no seio da sociedade norte-americana entre a publicidade natalina e o comércio. Os desenhos coloridos do personagem por Sundblom – impressos não só em revistas, mas também em cartões natalinos – ocupam até hoje um lugar central no imaginário público sobre o que representa o Natal.
Do ponto de vista mercadológico, a sazonalidade das vendas é um ponto nevrálgico para produtos refrigerados, já que há pico de vendas no clima quente (verão) e queda no frio (dezembro é inverno nos EUA). Assim a Coca-Cola soube articular sua estratégia de marketing sazonal de aumento de gastos dos consumidores com a compra de presentes e, para tal, optou por associar sua imagem ao consumismo crescente da época festiva. Por isso, sua campanha inicial foi “Sede não conhece estação”. Inicialmente, os anunciantes apresentaram Papai Noel relaxando de seus trabalhos bebendo o refrigerante; depois, mostraram como as crianças poderiam deixar não mais leite, mas uma Coca-Cola, para o “bom velhinho”; por fim, sugeriram que os presentes entregues pelo Papai Noel eram em troca do próprio refrigerante. Todo esse conjunto de códigos compunham a identidade de uma marca poderosa com reconhecimento transnacional.

A “Coca-Colonização” do mundo




No anúncio de Natal da Coca-Cola de 1943, Papai Noel é mostrado caminhando alegremente pela neve virgem com um pesado saco de presentes sobre um ombro e uma garrafa de Coca-Cola na outra mão. Suas botas cobertas de neve, indicando a longa jornada que peregrina, e o slogan “’Onde quer que eu vá” são a metáfora perfeita da ambiciosa expansão global do plano de negócios da empresa. Por trás dela, na direção em que ele está caminhando, também flutua um globo terrestre, enrolado com uma fita e um rótulo de presente de Natal. No globo, podem ser facilmente identificadas as Américas, a África e a Europa, enquanto o logotipo “Coca-Cola” cobre o território dos EUA no mapa.
Na mesma época, os soldados norte-americanos no front na Europa bebiam garrafas de Coca-Cola fornecidas pelo próprio governo dos EUA como parte dos esforços de guerra. O slogan publicitário de 1945 era: “Sempre que você ouve ‘Coca-Cola’, ouve a voz da América”. Cinco anos depois, as fábricas da companhia já estavam estabelecidas em diversos países da Europa Ocidental, e a capa da revista Time mostrava o mundo bebendo uma garrafa de Coca-Cola. O refrigerante estava rapidamente se tornando a bebida do planeta.
Na Europa do pós-Guerra, a chegada da Coca-Cola provocou oposição em vários países. Em muitos casos, os interesses locais de bebidas tentaram bloquear a entrada do refrigerante americano, como na Bélgica e na Suíça, onde a companhia enfrentou ações judiciais sob a alegação de que continha uma quantidade perigosa de cafeína. Na Dinamarca, as cervejarias conseguiram banir a bebida temporariamente. Na maioria dos casos, os partidos comunistas locais lideraram essa oposição, descrevendo a bebida como uma droga viciante ou mesmo um veneno. Na Itália, o L’Unità, jornal do Partido Comunista, alertou os pais de que a Coca-Cola poderia deixar os cabelos das crianças brancos. Já os comunistas austríacos afirmaram que a nova fábrica de garrafas em Lambach poderia ser facilmente transformada em uma fábrica de bombas atômicas. Porém, todos esses distúrbios pareceram triviais se comparados com o tamanho da controvérsia de quando a Coca-Cola chegou à França.
No país, as primeiras garrafas de Coca-Cola foram vendidas aos militares americanos em 1919, após a Primeira Guerra Mundial, porém, com exceção de alguns cafés famosos que atendiam a turistas americanos, os estabelecimentos franceses raramente serviam a bebida durante os anos 1920 e 1930. Após a Segunda Guerra, a Coca-Cola Export Corporation orquestrou um plano de marketing voltado ao país, com a construção de uma nova fábrica em Marselha. As concessionárias deveriam empregar técnicas americanas de vendas e distribuição, incluindo novos caminhões brilhantes pintados nas cores da empresa, degustação gratuita e recomendações por parte de esportistas e artistas de cinema.
Prontamente, iniciou-se uma fortíssima oposição à penetração da empresa de bebidas na sociedade francesa. A Coca-Cola enfrentou sérios problemas políticos e levantou preocupações generalizadas sobre a “americanização da França”. A expressão “Coca-Colonização” ganhou as páginas da mídia imprensa comercial e de esquerda e, entre 1949 e 1953, travou-se uma batalha que ia desde os círculos comunistas até o governo da IV República francesa, passando por industriais e viticultores – todos discutindo sobre cultura e identidade nacionais da França em meio à implantação do Plano Marshall. O jornal comunista L’Humanité se perguntava: “Seremos coca-coca-colonisés?”. O Partido Comunista Francês alertava que a companhia norte-americana diminuiria ainda mais as vendas de vinho e que as reduções tarifárias exigidas pela Coca-Cola piorariam o déficit comercial do país, além de noticiar o boato de que o sistema de distribuição da empresa serviria de fachada para a rede de espionagem dos EUA.
Nesse cenário típico de Guerra Fria, o antiamericanismo liderado pelos comunistas atacou a geladeira como um sintoma do consumo excessivo dos norte-americanos. Para os militantes do Partido Comunista Francês, a Frigidaire, subsidiária norte-americana da marca de eletrodomésticos Electrolux, produzira equipamentos inúteis para a maior parte do ano, exceto por fazer cubos de gelo para coquetéis de uísque. Isso porque, na França, fazia frio o suficiente para pendurar na janela as sobras de cordeiro, e elas se manteriam conservadas de domingo até quarta-feira.
Paralelamente, a geladeira era um item essencial da vida cotidiana norte-americana mesmo durante o inverno. Portanto, o eletrodoméstico era símbolo da esfera doméstica das casas nos EUA, justamente o espaço familiar que servia de ambiente para os anúncios natalinos do Papai Noel da Coca-Cola – retratados com uma lareira crepitante, uma árvore de Natal decorada e uma geladeira contendo garrafas de refrigerante.
á sacralizado como ícone central das publicidades da Coca-Cola, fica difícil não pensar o Papai Noel, portanto, como um emblema global do modelo de consumo constituinte do American way of life. A diáspora do Papai Noel não é diferente da diáspora da Coca-Cola como uma alegoria da modernidade americana. Nesse sentido, as formas de consumo nos EUA inscreviam em si próprias variadas expressões de poder, prazer e medo. Consistiriam elas uma forma de imperialismo cultural por parte dos EUA? Afinal, o conceito de imperialismo cultural norte-americano diz respeito à própria agressividade com a qual Washington tenta exportar seus bens culturais e ideologias dominantes a outras nações. Essa modalidade de imperialismo não significa controle colonial aberto, mas dependências econômicas e dominação ideológica por influência cultural. A exportação da cultura popular norte-americana é criticada nos países que a recebem por conta de seus supostos efeitos homogeneizadores, que eliminariam peculiaridades locais.
No movimento de americanização, a penetração global das empresas norte-americanas anda de mãos dadas com uma disseminação cultural e ideológica quase unilateral. O marketing da mídia norte-americana, incluindo o cinema hollywoodiano e sua música popular, se integra à presença política, econômica e militar dos EUA em todos os continentes, propagando os costumes e valores norte-americanos, bem como o próprio idioma inglês em todo o mundo. Segundo o professor George Mckay, nesse jogo, a novidade se sobrepõe à tradição e a nostalgia à história, e a mídia de massa e a mercantilização desenfreada nos negam agência em nossas próprias escolhas culturais.
É justamente a esse processo que diferentes sociólogos deram o nome de Disneyzação (Alan Bryman), McDonaldização (George Ritzer) e Walmartização (Neil Wrigley), assim como, é claro, a Coca-Colonização. Todos eles defendem que, nas sociedades contemporâneas, elementos culturais – roupas, música, TV, alimentação, convenções linguísticas e modelos de negócios – aparentemente estão se tornando cada vez mais padronizados. A Coca-Colonização sustenta a perspectiva da homogeneização do mundo, fruto do triunfo do imperialismo cultural sobre as culturas locais rumo a um modelo de consumo mundialmente americanizado.
Cruzando fronteiras com facilidade, os prazeres da América são experimentados pelo mundo inteiro pelo consumo conspícuo de produtos de marcas dos EUA, como os cigarros Marlboro, os tênis Nike, as barras de chocolate Hershey, os jeans Levi e os chicletes Wrigley – comprados pelo simples fato de serem norte-americanos. O regozijo pelo livre acesso a essas marcas – profissionais em apelar e manipular cada vez mais às emoções de seus potenciais consumidores – é acompanhado do consumo cultural do rock ‘n’ roll, jazz, rap, NFL, NBA, HQs, pop artfast food e LSD, envolvendo os jovens estrangeiros no hedonismo e provocando pânicos morais regulares entre diferentes gerações em torno da última moda pop.
No caso do Velho Mundo, hierarquias culturais e consensos intergeracionais foram bruscamente rompidos no decorrer do século XX. As reações populares ao poder mercadológico desses cânones do capitalismo norte-americano contribuíram para uma corrente de desconfiança dos EUA e de seus prazeres culturais pop entre os mais significativos setores das sociedades europeias. Essa desconfiança atravessa todo o espectro político e ganhou dimensões perigosas durante a Guerra Fria. O medo francês da dominação norte-americana em seu território tem um sentido não só cultural, mas também político e econômico.
Em um cenário em que a Coca-Cola e a iconografia do feriado natalino se desenvolveram quase como irmãos gêmeos nos EUA, a reação à livre invasão cultural das mercadorias e da simbologia norte-americana do Natal mistura crítica políticas e estritamente estéticas. Na Europa, são recorrentes narrativas contrárias à invasão de um Natal americanizado, que exporta consigo árvores de plástico, neve enlatada, Papai Noel de poliéster e canções natalinas gravadas como músicas de elevador. Durante novembro e dezembro de 1991, no Canadá, as pinturas do Papai Noel de Sundblom para as propagandas da Coca-Cola foram exibidas em exposição no Museu Real de Ontário, em Toronto, e rapidamente sofreram um rechaço coletivo de críticos de arte, que repudiaram a “associação do museu com junk food” e a vinculação do “nascimento de Cristo com o Papai Noel, com o consumo”.

Natal, consumismo e americanização?

Porém, afinal de contas, se o Natal se tornou temporada de consumo dentro da lógica do capitalismo norte-americano, o sentido tradicional do feriado religioso teria sido completamente corrompido? O Natal contemporâneo, moldado nas formas do American way of life, seria uma mera “profanação” descaracterizada pelo consumismo, perdendo seu valor originalmente sagrado? Para o sociólogo Michael Schudson, da Universidade de Columbia, a prevalência do costume de dar presentes sugere que as pessoas frequentemente compram coisas não porque são materialistas, mas porque são seres sociais. Portanto, em geral, elas não estariam substituindo os valores familiares tradicionais pelo consumo material, mas sim consumindo com o objetivo de preservar os próprios laços afetivos.
Por outro lado, toda a esfera pública vem sendo progressivamente penetrada e dominada por interesses corporativos. Isso significa que as atividades socioculturais se tornaram objetos de importância comercial e levam ao surgimento de “sociedades de outdoors, em que cada pessoa, instituição ou evento pode se transformar em um portador potencial de mensagens comerciais.
Nessa conjuntura, um arquétipo de Natal foi impulsionado ao máximo com a internacionalização das grandes marcas dos EUA, com a Coca-Cola à frente desse processo incontrolável que a jornalista e ativista canadense Naomi Klein apelidou criticamente de “promessa equalizadora de um globo conectado por logotipos”. Em meio à profusão de comerciais de grandes marcas mostrando locais estranhamente remotos, a representação dominante é de que as fronteiras geográficas e culturais são transcendidas pelas formas de mercadorias.
Além disso, tal “cultura do consumo” comumente é acusada de ofuscar valores imateriais, como a própria religião. De fato, o capitalismo contemporâneo é caracterizado por processos de mercantilização e secularização, transformando todas as práticas culturais daqueles que entram em sua órbita. Ao mesmo tempo, o simbolismo e as práticas rituais que incorporam distinções sagradas e profanas continuam a existir nos processos sociais seculares, e com o “festival global” do Natal não é diferente.
Nesse sentido, a história da própria Coca-Cola e de seu consumo no Natal por meio da figura-chave do Papai Noel em seus anúncios desde os anos 1930 deixa clara a relação entre o “materialismo” e o feriado natalino como parte de uma americanização da cultura popular a nível mundial. Por mais que lutas ideológicas tenham sido travadas no século XX contra a tomada do feriado religioso pelo consumismo ininterrupto, trata-se de um processo integrado a uma conjuntura muito maior de transnacionalização do capital e de hegemonia política e cultural dos EUA no mundo.
Fonte:

Pensar não doi e encarar a realidade costuma prevenir problemas...

Pensar não doi
Noventa e nove por cento dos humanos não têm coragem de enfiar a faca na jugular do bovino!

Seria prova suficiente de que não somos predadores naturais?
Pelo sim, pelo não, vamos além. Tomo a faca da mão daquele espécimen covarde. “Se você não tem coragem, mato eu a vaca.” Introduzo a lâmina na garganta da desditada. O sangue jorra. E o ser humano... Onde está ele? Ah! Lá está, no canto, vomitando!

Se fosse carnívoro, o simples cheiro do sangue ou a sua visão, já daria água na boca. Mas, se ele não é capaz de matar e ainda lhe embrulha o estômago quando outro mata isso demonstra claramente que nossos instintos são bem diferentes.
Aquele reflexo de “pôr para fora” é exatamente o oposto da reação de comer.


Talvez não sejamos carnívoros.
Quem sabe, somos carniceiros?
Não esqueça nunca que aquele corte de carne que vc encontra na bandejinha do supermercado foi um boi que pastava docemente e que foi esfaqueado, sangrado e hoje está ali, maquiado com uma etiqueta como qualquer produto manufaturado para que empresários que comercializam a morte de animais se tornem milhonários enquanto você padece de mazelas relacionadas com a ingestão excessiva de proteina animal.

Sem falar que em um hectare de terra pastam no máximo seis ou sete animais e que um hectare é igual a dez mil metros quadrados.
Boa digestão!

17 de dezembro de 2019

No final o cordeiro vencerá.



Uma reflexão para esse nosso tempo baseada no Apocalipse de João

No centro está o cordeiro.
O livro do Apocalipse nos indica e descreve a perversão das faculdades e das qualidades humanas. É sem dúvida um livro riquíssimo por seu conteúdo simbólico.

Na verdade ele descreve  muito mais que os quatro vivente /cavaleiros diferentes, que são na verdade eventos diferentes que marcam a ação do Anticristo ( o predomínio do EGO) na terra, ou ainda os quatro estados involutivos da humanidade. Pode ser visto também como as quatro possibilidades de crescimento ou, se estas forem negadas e/ou rejeitadas, as quatro degenerações da humanidade.


Os quatro viventes /os quatro cavaleiros.

O cavaleiro esbranquiçado ( Ap 6,2)
“Olhei, e eis um cavalo branco; e o que estava montado nele tinha um arco;
e foi-lhe dada uma coroa, e saiu vencendo, e para vencer.”

 – Á águia, a intuição, a Paz
Sua missão é iludir o mundo quanto a sua natureza perversa, a falsa Paz.

O Cavaleiro avermelhado (Ap 6,3-4)
 Quando ele abriu o segundo selo, ouvi o segundo ser vivente dizer: Vem!
E saiu outro cavalo, um cavalo vermelho; e ao que estava montado nele foi dado que tirasse a paz da terra, de modo que os homens se matassem uns aos outros; e foi-lhe dada uma grande espada.

– o Leão, o sentimento, a guerra
Sua missão é trazer a Guerra, acabar com a falsa Paz.

O cavaleiro  preto (Ap 6,5-6)
Quando abriu o terceiro selo, ouvi o terceiro ser vivente dizer: Vem! E olhei, e eis um cavalo preto; e o que estava montado nele tinha uma balança na mão.
E ouvi como que uma voz no meio dos quatro seres viventes, que dizia: Um queniz de trigo por um denário, e três quenizes de cevada por um denário; e não danifiques o azeite e o vinho.

 – o touro, a sensação, a fome
Sua missão é trazer a fome e a escassez para a humanidade no pós guerra .

O cavaleiro amarelo/esverdeado ( Ap 6,7-8)
Quando abriu o quarto selo, ouvi a voz do quarto ser vivente dizer: Vem!
Olhei, e eis um cavalo amarelo, e o que estava montado nele chamava-se Morte; e o hades seguia com ele; e foi-lhe dada autoridade sobre a quarta parte da terra, para matar com a espada, e com a fome, e com a peste, e com as feras da terra.
o ser humano, a razão, a morte
A este cavaleiro foi dado poder sobre a quarta parte do mundo, ou poder matar pela espada. Um período de grande privação para a humanidade.

Um ser de boa saúde é alguém que integra as 4 funções.  A doença ocorre quando uma delas é esquecida, rejeitada, ou não as integra o que dará nascimento á SOMBRA.


Rodeado pelos 4 viventes está o cordeiro, os viventes: a águia. o leão, o touro e o ser humano lhe prestam adoração. O cordeiro na realidade é o amor, ele está no centro da cena como vemos no apocalipse e ele é a forma invencível da energia criadora, o humilde amor.
 Quando integrados, os quatro vivente manifestados, ou as suas qualidades, as quatro funções:  intuição, sentimento, sensação e razão, integram o Eu ao self, são o símbolo do poder individual.
Quando as quatro funções, não estão orientadas desta maneira, não estão a serviço do amor, os quatro viventes se transformam nos quatro cavaleiros do Apocalipse que vão semear o pânico e destruição no mundo.

Quando a intuição não está voltada para o SER , ela se torna vontade de poder, o cavaleiro esbranquiçado.
No lugar do cordeiro está então o Dragão do Ego, o Eu separado do Self. A vontade de dominar. A intuição deixa de ser usada para iluminar o ser humano, e passa a manipulá-lo. É o poder do dragão.
 O dragão então pode tomar posse  da nossa afetividade e transformá-la em possessividade, ciúme e domínio do outro e de suas posses materiais. Surge então o cavaleiro vermelho ou, cavaleiro avermelhado, que  simboliza a guerra, o desejo de possuir e dominar, de se apropriar do que é do outro.
O crescer da guerra, gera a fome, o cavaleiro negro.
 O cavaleiro Negro simboliza a vontade de consumir, com compulsão, o que gera o consumismo. Consumir tudo, inclusive o outro, a terra e tudo que há, até o esgotamento.
O vivente indica a importância de comungar, o cavaleiro exige consumir.
 Consumir ou comungar são as duas formas de viver que nos levam ao inferno ou ao paraíso.
O Paraíso é exatamente a comunhão co
m o Ser e com todos os seres. O inferno é a consumação e o esgotamento do Eu, de tudo e de todos.
A necessidade de consumir advém da ausência, da falta  de intimidade com a presença que nos habita, a falta de atenção para com “Aquele que É em nós”.
É preciso aprender a desejar aquilo que se tem e o que se é, quando o mundo a nossa volta nos convida justamente o contrário, ou seja, desejar o que não se tem e o que não se é.
A vontade de poder, da possessão, de consumir conduz à destruição do mundo.

O último cavaleiro é o cavaleiro esverdeado, a cor da decomposição após a morte.
Quando a razão não é utilizada para iluminar, esclarecer e compreender ela se torna elemento de separação, dissecção e chegamos à dissolução do mundo.
A desagregação é o oposto da integração, a análise em oposição à síntese.

O Apocalipse pode ser tomado como uma descrição do mundo em que vivemos, o mundo em que nos encontramos. O que reina sobre nós e o poder do dragão, o poder do Ego que quer dominar e ser servido.
A águia, o touro, o leão e o ser humano em nós devem servir ao cordeiro, que é o “EU SOU” em nós. Quando isso acontece, a individuação segundo Jung se faz.

Quando isso não acontece quem é servido é o dragão, e quem está sendo servido é o EGO, não há crescimento nem evolução, porque o consumismo não  proporciona isso, somente a consumação ou extinção.


O cordeiro no Apocalipse está ferido. Em um salmo de Davi lê-se sobre o cordeiro que ele estava ferido e desfigurado, mas não abriu a boca. Mas não o fez por omissão ou por medo, mas por ter a consciência de que estava se doando se oferecendo para o todo e para todos.
 No Apocalipse o cordeiro degolado, permanece de pé.
 Não somos chamados a ser cordeiros subjugados, embora feridos, devemos permanecer de pé. Esse é o paradoxo do amor.
 Quanto maior for  essa qualidade em nós, mais nos ferirão aqueles que estão á nossa volta que estão a serviço do Dragão, submissos ao Ego.
Permanecer de pé, vulneráveis, mas invencíveis, guerreiros na luta pela Paz, orientados pelo amor é a única trilha que nos conduzirá à vitória, à individuação,  à integração de nossa sombra,  à vitória sobre o Ego.


Baseado no livro "O Apocalipse de João" traduzido e comentado por Jean Yves Leloup

Meditação Hesicasta - Oração do Coração


Hesicasmo  (em grego: ἡσυχασμός; transl.: hesychasmos, derivado de ἡσυχία, hesychia, "quietude, quieto, silêncio"  uma tradição de oração solitária na Igreja Ortodoxa e em algumas Igrejas Católicas Orientais, com as que seguem o rito bizantino, praticada pelo chamado hesicasta   (Ἡσυχαστής, hesychastes).

Nesta tradição  vale lembrar que na camara real, nos aposentos reais, no mais profundo de nosso coração habita aquele que não tem nome, AQUELE QUE É. o Eu sou.
É a ele que nos dirigimos quando praticamos a oração Hesicasta, ou a oração do coração.
Em Pneuma e Aletheia, no Sopro e na Atenção, em Espírito e em Verdade:

Neste tipo de espiritualidade, o silêncio é fundamental para que se possa perceber Aquele que nos habita.


 Oração do Coração:

Sente-se em silêncio.
Abaixe suavemente a cabeça, feche os olhos, respire suavemente, e imagine-se olhando para o seu próprio coração. Leve sua mente, ou seja, os seus pensamentos, de sua cabeça para o seu coração.
Ao inspirar, diga:
"Senhor Jesus Cristo",
ao expirar diga:
"tende piedade de mim." 
Ou numa outra tradução :
“ derrama sobre mim
a sua luz ”.
Diga movendo os lábios suavemente ou pode simplesmente dizer em sua mente.
Tente não reter seus pensamentos, deixe que passem. Se perceber que está seguindo algum pensamento, recompanha-se, com suavidade, sem culpa e recomece.
Tenha calma, seja paciente, e repita este exercício espiritual diariamente.
Procure manter o silêncio, para que, quem sabe ouvir, o que aquele que habita o seu mais intimo, tem a lhe dizer.

Comece com cinco minutos duas vezes por dia e vá aumentando a medida que perceber que lhe é agradável, até chegar a 20 minutos duas vezes ao dia.

Lembre-se não se trata de rezar e sim meditar.

14 de dezembro de 2019

Não há espanto na rejeição ao papa, o mundo sempre rejeitou os santos.

Não há espanto na rejeição ao papa, o mundo sempre rejeitou os santos.

Quando uma autoridade é capaz de se despir de todo o poder 
e de toda a pompa e importância que o mundo lhe atribuem
o que se revela é a face divina do Deus que habita o coração do Homem, 
podemos então proclamar sem medo, mesmo ele estando vivo:
Santo Súbito!
São Francisco de Roma, rogai por nós
e ensina-nos a ser humildes e ternos no serviço a Jesus
como só você sabe ser.

10 de dezembro de 2019



"Os que confiam no Senhor
São como os montes de Sião
Que não se abalam
Mas permanecem para sempre".
( Sl 125,1)


9 de dezembro de 2019

Theos - O Silêncio




Antes Deus era uma ideia,
depois passou a ser uma imagem,
agora, é um SILÊNCIO.
(Jean Yves Leloup)


6 de novembro de 2019

Conversa de elevador:

No elevador estavam o ascensorista, um médico, um rapaz funcionário da clinica que toma uma boa parte todo o prédio e eu, quieto calado:
A conversa se desenvolvia enquanto esperavam uma senhora com problemas de locomoção que subia a rampa para pegar o elevador.

Ascensorista: Cara é hoje ! Hoje é o dia..

Médico: é hoje vai ser importante, tem um grupo de senadores que vão ao STF entregar uma carta...

Funcionário: Carta ? STF?

Ascensorista: Tô sabendo não, precisa disso?

Funcionário: Eu acho que não, eles só tem que decidir se vão transferir o jogo, porque lá no Chile tem um bando de baderneiros tocando maior bagunca, fazendo greve...

Médico: Ah vcs estão falando da final. Ah bom isso não é problema, o mengão ganha em qualquer lugar.

Ascensorista: Mas que parada é essa de Senador , STF ?

Médico: Isso é coisa de politico, é esse negócio de arranjarem uma desculpa prá tirar o Lula da cadeia...
O elevador chegou no meu andar e eu saí, cantarolando:
¨ ♪♫♫ Aqui na terra 'tão jogando futebol
Tem muito samba, muito choro e rock'n'roll
Uns dias chove, noutros dias bate sol
Mas o que eu quero é lhe dizer que a coisa aqui tá preta♫♫♪


20 de outubro de 2019

Os riscos da arrogância do Império

Leonardo Boff

Conto-me entre os que se entusiasmaram com a eleição de Barack Obama para Presidente dos EUA, especialmente vindo depois de G. Bush Jr, Presidente belicoso, fundamentalsta e de pouqíssimas luzes. Este acreditava da iminência do Armagedon bíblico e seguia à risca a ideologia do Destino Manifesto, um texto inventado pela vontade imperial norteamericana, para justificar a guerra contra o México, segundo o qual os EUA seriam o novo povo escolhido por Deus para levar ao mundo os direitos humanos, a liberdade e a democracia. Esta excepcionalidade se traduziu numa histórica arrogância que fazia os EUA se arrogarem o  direito de levar ao mudo   inteiro, pela política ou pelas armas,  o seu estilo de vida e sua visão do mundo.

Esperava que o novo Presidente não fosse mais refém desta nefasta e jorjada  eleição divina, pois anunciava em seu programa o multilateralismo e a não hegemonia. Mas tinha lá minhas desconfianças, pois atrás do Yes, we can (“sim, nós podemos”) podia se esconder a velha arrogância. Face à crise econômico-financeira apregoava que os EUA mostrou em sua história que podia tudo e que ia superar a atual situação. Agora por ocasião do assassinato de Osama bin Laden ordenada por ele ( num Estado de direito que separa os poderes, tem o Executivo  o poder de mandar matar ou não cabe isso ao Judiciário que manda prender, julgar e punir?)  caiu a máscara. Não teve como esconder .a arrogância atávica.
O Presidente, de extração humilde, afrodescentente, nascido fora do Continente, primeiramente muçulmano e depois convertido evangélico, disse claramente:”O que aconteceu domingo envia uma mensagem a todo o mundo: quando dizemos  que nunca vamos esquecer, estamos falando sério”. Em outras palavras: “Terrorristas do mundo inteiro, nós vamos assassinar vocês”. Aqui está revelada, sem meias palavras, toda a arrogância e a atitude imperial de se sobrepor a toda  ética.
Isso me faz lembrar uma frase de um teólogo que serviu por 12 anos como assessor da ex-Inquisição em Roma e que veio me prestar solidariedade por ocasião do processo doutrinário que lá sofri. Confessou-me:”Aprenda da minha experiência: a ex-Inquisição, não esquece nada, não perdoa nada e cobra tudo; prepare-se”. Efetivamente assim foi o que senti. Pior ocorreu com um teólogo moralista, queridíssimo em toda a cristandade, o alemão, Bernhard Hâring, com câncer na garganta a ponto de quase não poder falar. Mesmo assim foi submetido a rigoroso interrogatório na sala escura daquela instância de terror psicológico por causa de algumas afirmações sobre sexualidade. Ao sair confessou:“o interrogatório foi pior do que aquele que sofri com a SS nazista durante a guerra”. O que significa: pouco importa a etiqueta, católico ou nazista, todo sistema autoritário e totalitário obedece à mesma lógica:cobra tudo, não esquece e não perdoa. Assim prometeu Barack Osama e se propõe levar avante o Estado terrorista, criado pelo seu antecessor, mantendo o Ato Patriótico que autoriza a suspensão de certos direitos e a prisão preventiva de suspeitos sem sequer avisar aos familiares, o que configura sequestro. Não sem razão escreveu Johan Galtung, norueguês, o homem da cultura da paz, criador de duas instituições de pesqusa da paz e inventor do método Transcend na mediação dos conflitos (uma espécie de política do ganha-ganha): tais atos aproximam os EUA ao Estado fascista.
O fato é que estamos diante de um Império. Ele é consequência logica e necessária do presumido excepcionalismo É um império singular, não baseado na ocupação territorial ou em colônias mas nas 800 bases militares distribuidas pelo mundo todo, a maioria  desnecessária para a segurança americana. Elas estão lá para meter medo e garantir a hegemonia no mundo. Nada disso foi desmontado pelo novo Imperador, nem fechou Guantânamo como prometeu e ainda mais, enviou trinta mil soldados ao Afeganistão para uma guerra  de antemão perdida.
Podemos discordar da tese básica de Abraham P. Huntington em seu discutido livro O choque de civilizações. Mas nele há observações, dignas de nota, como esta: “a crença na superioridade da cultura ocidental é falsa, imoral e perigosa”(p.395). Mais ainda:”a intervenção ocidental provavelmente constitui a mais perigosa fonte de instabilidade e de um possível conflito global num mundo multicivilizacional”(p.397). Pois as condições para semelhante tragédia estão sendo criadas pelos EUA e pelos seus súcubos europeus.
Uma coisa é o povo norte-americano, bom, ingenioso, trabalhador e até  ingênuo que admiramos, outra é o Governo imperial, que não respeita tratados internacionais que vão contra seus interesses  e capaz de todo tipo de violência. Mas não há impérios eternos. Chegará  o momento em que ele será um número a mais no cemitério dos impérios mortos.

16 de outubro de 2019

Geraldo Magela, o “doidinho de Deus”

Geraldo era alguém muito interessante. Um jovem teimoso e insistente.
Era fraco e doente e ninguém o queria. Mas ele insistia e diante da negativa das ordens religiosos em aceita-lo partiu para o inusitado, resolveu perseguir pelo caminho os redentoristas, até que eles não tiveram como não o aceitar. Mas mesmo assim foi enviado para a ordem com um bilhete que o qualificava como um jovem fraco, doente e  inútil.
Ele não se importava. Dizia que queria ser santo. Aliás, foi isso que escreveu no bilhete que deixou em casa quando fugiu para ir atrás dos redentoristas: “Vou ser santo”.


Aprontou todas para atender aos pobres e excluídos, e fazia isso com a autoridade de quem era intimo da madona e do menino. Afinal era com ele que na sua infância ele brincava, e era sempre ela, a madona, que o presenteava com o pãozinho de farinha branca, uma raridade e um luxo proibido na época, que em casa ninguém compreendia onde ele tinha conseguido. Eram muito pobres, esses luxos (pães de farinha branca) eram coisa de quem tinha muitos recursos. E ele, com naturalidade dizia que fora a Madona, a mãe de seu amigo, que lhe havia presenteado. Chegou a causar suspeitas em sua mãe... Mas esse era Geraldo, que na necessidade se fazia de alfaiate para sustentar a família, sem nunca compreenderem como ele conseguia tal proeza sem nunca ter aprendido o oficio. Fazia muito mais, não sabia negar comida a quem pedia e, como era porteiro,  esvaziava a dispensa  para que nenhum pobre sentisse fome... Isso lhe causava castigos, mas sempre era socorrido por seu amigo e pela madona que sem que ele soubesse providenciavam tudo para que tudo se arranjasse.
Geraldo nunca se ordenou, na verdade sempre foi tido como muito fraquinho. Não lhe deram a chance de se torar um sacerdote.  Foi sempre um irmão na ordem que causava espanto por seus hábitos estranhos, tais como dormir no chão sob o altar, dizendo que não queria se afastar de seu grande amigo. Muitas vezes em suas andanças conversava e convencia assaltantes a não lhe roubar e a se converter.Certa vez por calúnia, foi castigado por seu superior, Santo Afonso de Ligório, que o proibiu de comungar. Contam que em sonho ele recebia regularmente o sacramento, até que a mentira tivesse sido desfeita e ele liberado. São muitas as histórias e muitos os relatos de situações extraordinárias. Talvez por isso seja um santo com tantos devotos, especialmente entre os necessitados e os perseguidos.

Ele era o “doidinho de Deus”, era assim que o chamavam, o “louquinho”, rejeitadoe tido como inútil, que nos convida a ir além das etiquetas e dos padrões para fazer a vontade daquele seu particular amigo, Jesus.
Jesus para ele era o prisioneiro do sacrário... posso dizer que foi ele que me apresentou a esse modo de se referir a Jesus: "O prisioneiro do altar", "o prisioneiro do sacrário". Dai o nome do blog que eventualmente publico algumas reflexões    https://prisoneirodoaltar.blogspot.com/
ou aqui mesmo neste blog :https://oabsurdoeagraca.blogspot.com/search/label/As%20Conversas%20com%20o%20prisioneiro%20do%20altar

 Que Geraldo nos inspire com sua vida completamente incomum, toda ela dedicada ao amor aos “pequeninos” de Jesus.

15 de outubro de 2019

Ainda há muita vida para ser vivida




Quando hoje eu vi que os livros esperando para serem lidos, estavam se empilhando, e que nos últimos dois meses eu tinha lido apenas metade de um único livro, vi que alguma coisa estava errada. Muito errada.

Ainda estou tentando descobrir quando foi que me perdi. Desde quando esse estado de loucura alucinada , que a todos nós tem envolvido, começou a nos afastar de nós mesmos. As redes certamente tem muito a ver com isso.
Eu estou começando a perceber que os dias estão passando muito rápido. Todos estamos muito ocupados em protestar, discutir e nos "informar"(?) Sobre o que fazem, dizem e determinam a famíglia que assumiu o poder.

Inimizades, paranóias, desarticulação, ódio, mal entendidos,mentiras...

Não vou chegar a lugar algum. Não conseguiremos tirar leite de pedras, por mais que se pretenda ordenhá-las.

Me lembrei do Vander Lee:
"Sabe o que eu (quero) agora meu bem,
Morar no interior do meu interior..."

É pra lá que eu estou me mudando.

Faces, zaps, instas, twitters... Estes só vão ter que se contentar com alguns poucos minutos diários..

Tenho muiiiitos livros reclamando leitura, muitas orquídeas cobrando cuidados, netas esperando que eu me sente a seu lado pra contar histórias...

 Tenho muita vida pra viver.ainda.

12 de outubro de 2019

A Mãe surgida das águas. Uma mãe de Deus morena, como o povo desta nossa terra.



Hoje Mãe quero te venerar assim, simples, sem manto e coroa, como teu povo sofrido, os teus devotos que não tem o que vestir. Um povo que vive por teimosia e que mesmo lutando para sobreviver não cansa de te agradecer. Quero te venerar do jeito que você escolheu se apresentar aoteu povo.




Mãe negra, Yá querida, chegaste pelas mãos de simples pecadores, certamente os poderosos não te aceitariam, danificada, sem cabeça. Mas insististe, e num segundo arremesso, entregou sua cabeça aos pescadores assustados com tamanha Graça.



Foram perseguidos, caluniados e até precisaram te esconder da fúria dos sacerdotes oficiais e dos poderosos. Mas não cansaste de nos dar sinais, e como que por pura provocação, em um milagre, fez romper as correntes de um cativo, mostrando o teu horror pela escravidão.
Neste dia em que todos se voltam para tí, inspira àqueles que vão te reverenciar com a repugnância a todo tipo de escravidão, inspira a todos nós com os ideais da libertação.



Hoje somos todos caipiras, pescadores e ardentes devotos de tí Mãe que se fez negra para mostrar que a mãe de Deus não tem cor, ela tem todas as cores porque a sua verdadeira cor é a cor do amor.
Salve a mãe do Céu Morena, a senhora Aparecida!


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27 de setembro de 2019

Salve São Cosme e São Damião!


As ruas da zona Norte e do subúrbio do Rio mais uma vez se encheram de crianças atrás de doces. É uma antiga tradição que ainda resiste aos ataques de algumas pessoas que gostam de desmerecer tudo que é popular e alegre. E ultimamente com a febre pseudo evangelica, tornou-se heresia satânica, para os fundamentalistas pseudo cristãos



A festa das crianças se tornou popular com a sincretização feita pelas religiões afro que fizermam dos gêmeos Cosme, Damião   protetores das criaças e com o acréscimo de Doum representantes de todos os Ibejis, Erês, crianças.
É uma festa de muita alegria que os politicamente corretos, os pseudo evangélicos e alguns católicos fundamentalistas insistem em demonizar.
Quando eu era criança andava pelas ruas com os amigos da mesma idade atrás dos cobiçados  saquinhos de Cosme e Damião e era uma alegria no final do dia ver a quantidade de saquinhos de doces que apanhávamos.

A alegria verdadeira, estampada no rosto das crianças ao receber o saquinho de doces não deixa dúvida de que  sempre é coisa de Deus, por mais que queiram distorcer o seu real sentido.
Salve  São cosme e São Damião! 
Save as crianças. 
Mas sobretudo SALVEM AS NOSSAS CRIANÇAS do fundamentalismo e do preconceito.

20 de setembro de 2019

Coerência, essa coisa difícil de se alcançar.


O grande dramaturgo Nelson Rodrigues costumava afirmar que toda coerência é burra, eu de minha parte continuo achando que há controvérsias, principalmente porque o Nelson, apesar de sua genialidade, vamos combinar, adorava causar...
Recentemente um mentor me perguntou  você é a favor ou contra a censura?
Que pergunta! Claro que sou contra!
Não parece. Pelo que tenho observado você anda bastante intolerante com quem é intolerante com suas ideias, e nem percebe que anda usando das mesmas práticas de quem usa a censura contra você.
Tomei um choque! Mas ele inclemente prosseguiu: veja quantas pessoas você bloqueou no facebook, por defenderem algo diferente: intolerantes religiosos, bolsominions, pseudo evangélicos, e toda sorte de gente, com ideias, eu concordo que absurdas, mas que devem ter lá a sua lógica para professá-las.  Você deve se lembrar como foram terríveis os anos de chumbo e toda aquela paranoia para não ser pego em algum deslize e ir parar nos porões da ditadura. Como você pode ver coerência em gritar contra um governo que censura e impede manifestações e proceder da mesma forma nas comunidades que você administra.
Sabe aquele seu discurso de que esse povo vai pra rua gritar contra a corrupção, mas não tem nenhum pudor em subornar o guarda de transito, furar o lugar na fila e dar um jeitinho em qualquer dificuldade ? Pois é , ser contra a censura mas censurar quem pensa diferente é a mesma coisa.
Engoli o sapo, agradeci, vou tentar digerir.
Ele está coberto de razão. Se queremos melhorar, crescer como indivíduos, sair da massa, nos individuar, não há caminho alternativo, a estrada e a porta são estreitas, já tinha dito o mestre dos mestres. Se queremos, como vivemos dizendo, produzir mudanças significativas no sistema social, o começo deste caminho é a reforma intima, a mudança individual, até que estas mudanças viralizem e contaminem toda a sociedade. O caminho não é fácil, é estreito, mas é reto e o único que promete uma consciência limpa e tranquila no final da jornada. É preciso o quanto antes acordar para a realidade que vivemos imersos em um constante incentivo para uma inflação de nossos Egos, tudo nos estimula para isso, e esse, é talvez o maior perigo para nos desviar do caminho e nos fazer ver uma realidade, baseada apenas no egoísmo e na incoerência.
Quanto aos que vão discordar nos comentários, estejam à vontade para expor seus argumentos, assim teremos mais chance de encontrar a tão cobiçada verdade. Lembrando que discordar é compatível com argumentar, jamais com agredir.

10 de julho de 2019

Quem sou eu?



Quem sou eu?
Pergunto-me inquieto:
Serei esta, serei este?
Serei isto ou aquilo?Serei?
Olho para o espelho,como se fosse a primeira vez.
Sou eu?
Quem sou eu?
Dizem-me:Tu és aquilo que produzes, és o papel que desempenhas, és o nome que trazes, és o que tu possuis.
Tu és...
Não, eu não sou o que produzo, nem o papel que desempenho, não sou o que os outros pensam.
Eu sou eu, ouço sussurrar dentro de mim.
Continuo indagando,continuo procurando, até que a pergunta chegue às margens do silêncio, e eu sinta em minha alma o toque do mistério.
Grava-se uma voz em meu coração:
Tu és Deus.
Ouço dizer:
"Deus se tornou humano para que o ser humano se fizesse Deus".
E lanço-me neste vaso divino, para o mistério insondávelde que Deus nasce em mim.

E o Verbo se fez carne,
EM MIM.

( do Livro "Se Quiser Experimentar Deus - Anselm Grün)

28 de junho de 2019

O Sagrado Coração

J. Ricardo A de Oliveira



Uma das representações mais  bonitas e importantes
de toda a tradição cristã católica é a representação
do Sagrado Coração de Jesus.

Ela nos remete à principal missão do Mestre.

E na verdade a representação daquilo que ele veio fazer em nosso mundo.

O Dharma( missão) sublime, de ensinar o amor á humanidade.

Eu vos dou um novo mandamento: 
Que vos ameis uns aos outros como eu vos amei.

Sim ele nos deixou como mensagem que o seu único mandamento
que resume toda a Lei e toda a profecia é justamente o AMOR.

Amai-vos uns aos outros.
Amai a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a ti mesmo.
Amai a Deus,
amai a vós mesmos (como a ti mesmos),
e amai ao próximo.

E o discípulo tardio ainda irá acrescentar:

"...Ainda que eu falasse a lingua dos anjos
e a dos homens, se eu nao tivesse amor nada seria..."
(I Corintios Cap 13)

A devoção ao Sagrado Coração tem sua origem na própria Sagrada Escritura. O coração é um dos modos para falar do infinito amor de Deus. Amor que chega a seu ponto alto com a vinda de Jesus.
O Sagrado Coração aparece em dois acontecimentos fortes do evangelho: o gesto de João, discípulo amado, encostando a sua cabeça em Jesus durante a última ceia (cf. Jo 13,23); e na cruz, onde o soldado abriu o lado de Jesus com uma lança (cf. Jo 19,34). No primeiro temos o consolo pela dor da véspera de sua morte, e no outro, o sofrimento causado pela incensatez dos seres humanos incapazes de compreender o amor sem reservas e limites.
Estes dois exemplos do evangelho nos ajudam a entender o apelo de Jesus, feito em 1675, a Santa Margarida Maria Alacoque quanto a honrar o seu Divino e Sagrado Coração.
O Coração e o amor  nos levam à misericórdia. É muito atual este tema da MISERICÓRDIA,  já que celebramos recentemente o Ano Santo da MISERICORDIA. A palavra tem sua origem no latim. Além  de ter a mesma escrita e pronuncia, também compartilha o mesmo significado que a palavra em português: clemência ou piedade. É composta pelos termos latinos MISERATIO, derivado de MISERERE, que significa “compaixão” e CORDIS, derivado de COR,  “coração”.
A ciência moderna tem comprovado o que os antigos acreditavam sobre o coração: o coração é o centro de uma sabedoria superior. Ele pode realmente se lembrar de coisas e pode funcionar de forma muito parecida com o cérebro.  “Há um cérebro no coração, metaforicamente falando.  “O coração contém neurônios e gânglios que têm a mesma função que as do cérebro, tais como a memória. Para a ciência o coração é a Sede da Vida. Para a espiritualidade o coração é a morada do Espírito Santo, duas formas de descrever a mesma realidade.




O Sagrado Coração nos remete ao Chacra cardíaco
Jesus veio ao mundo com o propósito de desenvolver,
abrir e ampliar a irradiação deste centro vital.
Por isso a sua lei é Amar .
Chakra em sânscrito significa roda, círculo e ciclo. Nos tratados orientais os chakras são descritos como os centros de energia psíquica sutil que esta sempre fluindo dentro do nosso organismo através de três nadis (canais) principais, que se chamam Ida, Pingala e Sushmna e se estendem, envolvendo a coluna vertebral. Os chakras que correspondem na maioria das vezes os plexos nervosos anatômicos, são formados pelo entrelaçado destes canais. Conforme o Shiva Svarodaya (ensinamentos de Shiva sobre as energias vitais) existem 72.000 nadis (canais). Destes, dez são mais importantes. No corpo sutil do ser humano, estes canais tem função de conduzir os dez tipos de energias vitais mais importantes. Estes centros e canais não são tridimensionais, por isso, não podem ser observados fisicamente no corpo mas, através da meditação é possível visualizar a forma, cor e as outras propriedades deles.


Nas pessoas em geral, os chakras aparecem como círculos com aproximadamente 5 cm. de diâmetro, de cores foscas mas nas pessoas evoluídas espiritualmente, eles se tornam brilhante e maiores e giram em forma de redemoinho.

O quarto Chacra


Nome em Sânscrito: Anahata

Localização: Peito

Correlação física: Ligado à glândula timo

Cor: Amarelo-ouro (rosa ou verde também)

Bijamantra para desbloqueio energético: Yam

Bijamantra para desbloqueio psíquico: Kákini




Significado:

Invicto, inviolável, morada do Divino

Elemento: Ar

É o chacra responsável pela irrigação do coração.
Considerado o canal de movimentação dos sentimentos.
É o chacra mais afetado pelo desequilíbrio emocional.
 Bem desenvolvido, torna-se um canal de AMOR
para o trabalho de assistência espiritual.
Quando existe um bloqueio nesse chacra,
a pessoa sente depressão, angústia, irritação
opressão no peito.

Alguns místicos cristãos do passado tinham conhecimento desta "fisiologia sutil". A abadessa Hildegard de Bingen (1098-1179) Santa Hildegarda, uma mulher muito à frente e seu tempo, conhecia e praticava essa medicina que envolvia o conhecimento das plantas, pedras e cores e em seus muitos relatos existem ensinamentos sobre a aplicação de determinadas pedras, cores e sons sobre centros vitais do corpo (os chacras).
Infelizmente esse conhecimento foi todo abandonado pela igreja.

Honrar o Sagrado Coração nos faz meditar e questionar a nossa conduta frente ao mandamento do Mestre e ao que S. Paulo indaga em sua carta: “Porque não faço o bem que quero, mas o mal que não quero” Romanos 7:19

Constantemente repetimos:
Jesus manso e humilde de coração, fazei o nosso coração, semelhante ao Vosso
.
Mas infelizmente parece que ficamos só na repetição da jaculatória de maneira mecânica, esbanjamos egoísmo, indiferença, ódio, injustiça ... ultimamente parece que temos estado com nossos “pavios” muito curtos. São frequentes as demonstrações de intolerância, as cenas de agressão e violência gratuitas. Muitos de nós agem como se não estivéssemos comprometidos com a mensagem de Jesus e mesmo pedindo um coração semelhante ao dele, temos comportamentos preconceituosos, impermeáveis ao perdão e pouco interessados no projeto da construção do Reino que Ele nos mandou construir. Certamente estamos esquecidos de que foi Ele próprio que nos chamou atenção de que quando desprezamos a qualquer uma das suas criaturas é a Ele que estamos desprezando. E que ele separará os misericordiosos dos egoístas. (Mt25,31e ss)
Vivemos recentemente um Ano Santo dedicado à misericórdia, peçamos a Jesus, o grande arquetipo da síntese, que faça realmente uma grande mudança em nossos corações, que troque o nosso coração de pedra, que condena antes de procurar perdoar, que  exclui antes de se abrir ao que é diferente. Peçamos um coração inclusivo, um coração que não tem medo de se doar, de se rasgar, de se comprometer com as causas que a sociedade de hoje teima em rejeitar como na época dos primeiros tempos do cristianismo. 

“Cria em mim oh! Deus /Um coração igual ao Teu /
Liberto para amar sem ter limites /...........
Sem mágoas, maldições e cheio de perdão.
Transborda nele a Tua paz/ Tu és olheiro molda e faz /
Faz jorrar teu rio vivo e o teu mover’.          
(Marcos Goes)



16 de abril de 2019

Um poderoso símbolo que cai

Olhando o desmoronamento da grande seta do alto da catedral,
 me ocorreu que a seta ereta no alto da catedral era como um grande Phalus, 
uma espécie de símbolo do patriarcado na igreja \ submetendo a casa da mãe. 
Ele já não está mais lá. Sua queda como que preconiza o fim do patrarcado. 
O Inicio de uma nova era, a era do retorno do feminino sagrado. 


Talvez por isso que os homens pouco integrados com suas Animas
precisem demonstrar tanta violência, usar e defender o uso de armas e
 praticar violências absurdas contra as mulheres.
São atitudes típicas de um sistema agonizante,
em suas últimas tetativas de usar as práticas velhas
de afirmação e domínio.

A Catedral de Notre Dame em chamas



Olhando assustado para as imagens  na tela do computador  e meio que atônito me pergunto: como, quem, mas sobretudo porque esse símbolo tão forte  da civilização arde assim em chamas?
Como não há um sistema de prevenção para acidentes como este?
Eu fiz essa pergunta também no lamentável incêndio do nosso museu, daqui da Quinta da Boa Vista, mas infelizmente aqui é Brasil, estamos acostumados a estas lamentáveis displicências, mas em Paris? E com o marco zero da França?  Uma catedral com 850 anos de existência?

As influencias Junguianas me fizeram ficar preso na ideia do que este evento tão doloroso  estaria querendo simbolizar algo para nós.
A casa de Maria, a Notre Dame, a casa da nossa Dama, nossa mãe... Maria Mãe do mundo, Maria a mulher, a humana, a matéria que serviu a Deus para gerar Jesus, o filho de Deus.

Deus precisou se utilizar de uma criatura sua para se manifestar no meio dos homens e é esta criatura, Maria, que desde 1163 tem esse importante marco no coração de Paris.

A  antiga oração cristã, um símbolo importante da cristandade, o credo Niceno-Constatinopolitano reza:
“Deus de Deus, Luz da Luz, Deus verdadeiro de Deus Verdadeiro, GERADO, não criado, consubstancial ao Pai... “
Desde os primórdios, a cristandade sabe que Jesus não foi criado, e sim gerado, gerado na matéria, gerado em Maria.

Logo me surgiu na mente  o fantástico Hino à matéria do grande Teilhard de Chardin

“Eu te saúdo, potência universal de aproximação e de união, através da qual se liga a multidão das mônadas e na qual convergem todas sobre a rota do Espírito.
Eu te saúdo, fonte harmoniosa das almas, cristal límpido de onde é tirada a nova Jerusalém.
Eu te saúdo, Meio Divino, carregado de Potência Criadora, Oceano agitado pelo Espírito, Argila amassada e animada pelo Verbo encarnado.”
(Hino a Matéria - Teilhard de Chardin)

Um hino á matéria, à mãe matéria, da qual Maria é a principal referência quando pensamos na criação.

E a pergunta voltou a me desafiar:
O que esse incêndio está querendo simbolizar apara todos nós ? 



Edward F. Edinger, em seu livro “O Arquétipo Cristão”, a respeito do mito da “Virgem Maria”,
diz : 
A virgindade de Maria configura-se como importante parte do simbolismo. Parece haver uma conexão arquetípica entre a virgindade e a capacidade de lidar com o “Fogo Sagrado” (energia transpessoal). Na Roma Antiga as virgens vestais eram as guardiãs da chama sagrada. Entre os incas peruanos mulheres virgens mantinham no templo um fogo santo”.

Adam Mclean, em seu livro “A Deusa Tríplice: Em Busca do Feminino Arquetípico” , diz algo interessante para esta reflexão:

A Deusa é um arquétipo eterno da psique humana, embora a desprezamos e reprimamos ou neguemos exteriormente a sua existência. Desde os primórdios de nossa civilização ela se revela a nós em desenhos  rupestres e em esculturas primitivas, nas grandes mitologias, manifestando-se na nossa cultura atual sob os mais diversos disfarces. Ela faz parte do tecido de nosso ser, com o qual toda a humanidade tem de se relacionar interiormente se desejarmos ter em nossas almas um equilíbrio de base. Ela é parte tão essencial da humanidade que, mesmo se, nos próximos séculos nos tornarmos filhos do Cosmo, deixando a Terra para trás em sua viagem para as estrelas, sem dúvida a encontraremos nas escuras profundezas do espaço”.


Vejo a Notre Dame em chamas no exato momento, dramático, em que na cúpula principal, a seta desaba. A seta que apontava para o céu, como a indicar a ligação entre o céu e a terra, ou simbolicamente aquilo que a Nossa Dama representa, o elo que liga o criador e a criatura, o meio que Deus se utilizou para se manifestar entre os humanos, para descer à matéria.

Na minha mente se abre  a tela do que temos visto mundo afora, guerras, destruição, egoísmo.refugiados não recebendo ajuda e sendo rechaçados por onde passam, a natureza, a criação sendo destruída pela ganância,  a eleição de dirigentes de países pouco comprometidos com a felicidade da humanidade, toda sorte de absurdos que indicam claramente o perigo da extinção da espécie humana.

Talvez seja esse o recado simbólico que essa tragédia venha nos indicar. Se não cuidarmos da preservação , a seta vai se romper. A ligação vai ser desfeita e a terra seguirá adiante, mas sem a espécie que tentou destruí-la.


Bendita sejas tu,

áspera matéria,

terra estéril,

dura rocha,
que cedes apenas à violência
e nos forças a trabalhar
se quisermos comer.
Bendita sejas,
poderosa matéria,
evolução irresistível,
realidade sempre nascendo,
que a cada momento fazes em estilhaços nossos limites
e nos obrigas a procurar
cada vez mais profundamente a verdade.
.................................................................
Bendita sejas,
matéria imortal,
Tu, que, desagregando -te um dia em nós,
nos induzirá, forçosamente,
no íntimo daquilo que é.
Sem ti, matéria,
sem teus combates,
sem teus dilaceramentos,
viveríamos inertes,
estagnados,
pueris,
ignorantes de nós mesmos
e de Deus.
.............................................
Leva-me para o alto, matéria,
pelo esforço,
a separação
e a morte.
Leva-me para onde for possível,
enfim, abraçar castamente.

( Hino à Matéria - Teilhard de Chardin)