O absurdo e a Graça
Na vida hoje caminhamos entre uma fome que condena ao sofrimento uma enorme parcela da humanidade e uma tecnologia moderníssima que garante um padrão de conforto e bem estar nunca antes imaginado. Um bilhão de seres humanos estão abaixo da linha da pobreza, na mais absoluta miséria, passam FOME ! Com a tecnologia que foi inventada seria possível produzir alimentos e acabar com TODA a fome no mundo, não fossem os interesses de alguns grupos detentores da tecnologia e do poder. "Para mim, o absurdo e a graça não estão mais separados. Dizer que "tudo é absurdo" ou dizer que "tudo é graça " é igualmente mentir ou trapacear... "Hoje a graça e o absurdo caminham, em mim lado a lado, não mais estranhos, mas estranhamente amigos" A cada dia, nas situações que se nos apresentam podemos decidir entre perpetuar o absurdo, ou promover a Graça. (Jean Yves Leloup) * O Blog tem o mesmo nome do livro autobiográfico de Jean Yves Leloup, e é uma forma de homenagear a quem muito tem me ensinado em seus livros retiros, seminários e workshops *
10 de setembro de 2013
O Pe. João Egg hoje voltou para casa do Pai.
A lembrança mais forte que vai ficar do Pe. João, nas duas vezes que ele esteve na Santo Afonso, é a da sua imensa disponibilidade para com os paroquianos. Sua presença junto à cantina ou Lojinha do Redentor, ali no adro da igreja, sempre pronto para um conselho, um abraço, um papo e principalmente para um estímulo a quem se mostrasse mais abatido. "Melhor, melhor, melhor!" Quem é capaz de pensar nele sem lembrar desta afirmação?
Pe. João deixa saudade e isso pode-se perceber pela reação das pessoas nas comunidades por onde ele passou. Apesar da saudade tenho certeza de que ele não gostaria de nos ver tristes. Vamos fazer força para espantar a tristeza e pedir a Nossa Senhora a quem ele tanto amava que o receba com seu amor e o conduza aos braços do Redentor a quem ele dedicou toda a sua vida.
10 de setembro de 2013
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saudade
Psicoterapeuta / Psicólogo Clínico - Membro do Colégio Internacional de Terapeutas (Terapeutas de Alexandria) – Terapeuta Holístico - Pós graduado em Arteterapia e em Terapia Floral - Formação Holística de Base na Unipaz - Formação básica em Teologia pelo Centro Loyola de Fé e Cultura -PUC/RJ. Ger.de Rec.Humanos na Cia Souza Cruz Ind. e Comércio - Consultor empresarial - consultor Psicopedagógico dos projetos Sociais de Capacitação Solidária
10 de agosto de 2013
UM HOMEM TORTURADO: Frei Tito de Alencar
No dia 10 de agosto de 1974, um morador dos arredores de Lyon encontrou o corpo de Frei Tito suspenso por uma corda. A causa da morte – suspeita de suicídio – tornou-se um enigma. Neste 10 de Agosto fica aqui mais um relato sobre esse mártir dos tempos modernos, vitima da Ditadura Brasileira 64/85.
Frei Tito !
PRESENTE !
Eu me autorizo falar psicanaliticamente da tortura
por ter, como jovem psiquiatra, acolhido Tito de Alencar no hospital. Este
intelectual, duplamente comprometido, religiosamente como dominicano, e
politicamente como líder de um dos movimentos de liberação nacional que
emergiram no Brasil depois do golpe de l964, foi preso em 1969, em decorrência
do assassinato do líder comunista Marighela. Este assassinato foi a obra
secreta do delegado Fleury e dos esquadrões da morte. Na mente dos autores
dele, cumpria um duplo objetivo: liquidar Marighela e comprometer
definitivamente os religiosos engajados na luta revolucionária. Durante um
encarceramento de vários meses, Tito de Alencar foi submetido a interrogatórios
policiais e a torturas, por este mesmo comissário Fleury. Daquela experiência
da tortura que definitivamente o deixou alquebrado, nós possuímos um duplo
testemunho: por um lado, são escritas que ele teve a coragem de escrever na
prisão (isso foi publicado em uma compilação que foi dedicada a ele: "
Então as pedras gritarão ", e por outro lado, a restituição desta
experiência, como ele mesmo a transmitiu por meio de um estado melancólico e
delirante apresentado nos meses que precederam sua morte.
Talvez porque, pela sua origem, pertencia à classe
média, tradicionalmente favorável ao regime político da situação, mas também
porque ele era religioso, parece que Fleury e os torturadores dele
obstinaram-se sobre o Tito de Alencar com uma crueldade particular. Para
escapar disto, ele teve recurso, na própria prisão, a uma tentativa de
suicídio, seccionando a artéria do braço, e só escapou graças à vigilância dos
executores dele, receiosos em ter que assumir a responsabilidade por este
gesto. Tito evoca nas escritas dele a frase que ele ouviu no seu meio-coma:
'Doutor, aquele é absolutamente necessário salvá-lo, caso contrário nós estamos
perdidos.' [1] É inclusive graças a este suicídio que a
Igreja, em primeiro lugar e depois outras instâncias da sociedade, foram
alertadas a respeito da prática da tortura nas prisões brasileiras.
Porque, como nós o veremos com mais detalhes, uma
das condições da prática da tortura é a de poder se beneficiar com uma
clandestinidade de fato.
Graças às circunstâncias excepcionais - o rapto do
embaixador de Suíça pelos revolucionários brasileiros seguido pela liberação
dele em troca de um certo número de presos políticos - Tito de Alencar pôde
deixar a prisão em 1970, e foi expulso imediatamente. Depois de uma breve permanência
no Chile e na Itália, ele foi acolhido na França.
Mas esta real liberdade só fez dramatizar a
alienação interior para a qual a experiência da tortura o tinha definitivamente
empurrado. De fato, desde as primeiras vezes, Tito mal conseguia iniciar, e
logo os abandonava, estudos, psicoterapia e até mesmo psicanálise. Durante a
sua longa permanência em Paris, de acordo com seus amigos, ele era um homem
completamente aboulique, retomando sem parar um questionamento político,
religioso, duvidando profundamente de si mesmo, e convencido de ter traído a
causa dominicana como também a causa revolucionária. Ele passava horas
escrevendo, como que para tentar reconstruir uma verdade interior, e é certo
que foi neste exato ponto que a tortura teve pleno êxito contra ele.
Frente a este desespero, seus superiores religiosos
tiveram a idéia de confiá-lo a uma outra comunidade dominicana, particularmente
carinhosa, a de Éveux, neste convento bonito construído por Le Corbusier, em
meio às colinas do país Lyonense. Depois de um período onde Tito se achava
obviamente melhor, explodiram, ruidosamente e dramaticamente, as demonstrações
delirantes que não iam deixá-lo jamais, até seu suicídio alguns meses mais
tarde. Começou com as fugas inexplicadas, cada vez mais freqüentes, e mais
longas. Inexplicadas até que um dos Irmãos dele, mais próximo, descobrisse a
razão delas: O Fleury falava a Tito e lhe dava ordens – para não entrar, não
deitar, para não comer... O Tito foi se redobrando cada vez mais em si mesmo,
cada vez mais mutique, cada vez mais triste. Na seqüência de uma destas fugas,
ele foi levado para o hospital.
Foi uma cena trágica aquela que presenciamos então:
um homem como que encurralado, entregando-se a nós como se fôssemos seus
executores. Quando foi para o quarto, ele logo se jogou na parede, braços para
cima, como que para ser executado na hora. Depois quando foi para
administrar-lhe um remédio para alívio, tomou-o como se fosse o veneno que
devia acabar com ele. Cena dramática porque ali era reconstituída completamente,
literalmente, a situação exata da tortura, situação que neste momento nós não
tínhamos meio de entender, mas que, pouco a pouco, graças à cooperação com seus
Irmãos Dominicanos, com os amigos dele, nós conseguimos levar à luz do dia.
Adquirimos rapidamente a convicção de que não
estávamos na frente de uma patologia psiquiátrica habitual, nem de um ponto de
vista semiológico nem num plano que eu chamarei ético. Os sintomas apresentados
por este paciente, embora pudessem ser os de uma melancolia habitual, tomavam
lugar em um mesmo contexto de exibição bastante particular. Eu falei de «cena»
porque o painel clínico incluía uma dimensão muito intencionalmente teatral;
apesar do mutismo quase total deste homem, apesar da força de sua crença delirante
de que éramos algozes, pressentíamos também que sua consciência não tinha
realmente virado para uma convicção delirante, e que o que o paciente nos
expunha era mais um testemunho do que uma patologia. A intensidade do
sofrimento psíquico - mais que da dor moral – ia no mesmo sentido.
Eu percebo agora que a aposta que nós fizemos
naquele momento – a equipe de enfermagem e Irmãos Dominicanos – a de considerar
este estado menos como uma patologia do que como um testemunho, ia no sentido
da intenção de Tito de Alencar expressar por este "delírio" (ou
talvez por esta exibição histérica, mas não importa...) os tipos de crueldade
que ele tinha sofrido durante sua tortura, muito melhor e muito mais
precisamente do que o que ele poderia escrever a respeito. Tocamos aqui ao
limite da linguagem que só pode dar conta daquilo que não escapa à consciência,
enquanto o delírio dele transmitia tudo o que pudera ser trocado
inconscientemente entre a vítima e seu carrasco. Mas também, esta aposta queria
proteger o Tito de uma decadência apontada pelo torturador. O projeto do
torturador era exatamente "tornar louca" a sua vítima, mas em um
pós-golpe distante, em um tempo onde a relação de causa a efeito com a tortura
não seria mais óbvia. A loucura assim instalada denunciaria simplesmente uma
constituição doentia do paciente e também geradora, por que não?, de seus
equívocos na luta e no compromisso político. Um diagnóstico psiquiátrico de
loucura teria definitivamente difamado Tito de Alencar.
Apesar de várias remissões onde os sintomas
desapareceram, onde seu relacionamento com os outros melhorava, nada mudou
verdadeiramente em Tito desta tendência em reviver, e fazer reviver,
compulsivamente, a situação da tortura, como que testemunhando com isso a força
e a qualidade particular – digamos logo erótico – do vínculo que o tinha
amarrado indelevelmente e apesar dele mesmo a seus torturadores. Suas relações
com os Irmãos de sua comunidade, aparentemente simples e calorosas de novo,
arranhava-se com crises interpretativas onde Tito os suspeitava de ser os
cúmplices do Fleury. De uma maneira permanente, porém subterrânea na maioria do
tempo, a sobrevivência nele da situação da tortura seguia seu curso.
É provavelmente para escapar novamente da tortura
que Tito de Alencar cometeu suicídio, em um momento em que estava aparentemente
melhor e tinha aceitado a idéia de se inscrever socialmente assumindo um
trabalho na periferia de Lyon. Não se pode evitar de ver neste suicídio exitoso
a retomada do seu gesto fracassado nas prisões de São Paulo, gesto do qual
tinha sido desapropriado por seus algozes, como da última liberdade à qual o
homem pode pretender. E sentimo-nos autorizados a interpretar as circunstâncias
do seu suicídio, já que se enforcou ao topo de um álamo, em uma descarga pública:
assim o pássaro migratório se deixa pegar pelos fios elétricos... Poetizamos os
fatos, em reação exatamente a este movimento de despoetização que a tortura
realiza no ser? Se a própria linguagem é impotente em prestar conta dos
acontecimentos, isto resulta na sua desqualificação como meio de expressão
poética; daí a busca de meios substitutivos, como a patologia, tanto o delírio
quanto o suicídio.
E neste suicídio, e sua cena particular, não
estaríamos ouvindo seu infortúnio de exilado, sua erradicação, seu país
obviamente de onde tinha sido expulso mas também a erradicação bem mais
profunda que a tortura tinha provocado em relação a ele mesmo, à sua
identidade, aos seus ideais...
O suicídio de Tito de Alencar desvela claramente a
natureza destrutiva da tortura. Entre os significados que podem ser apurados
deste suicídio – bem como da precedente tentativa - há essa vontade de
dramatizar que ele tinha morrido, em um certo sentido, digamos espiritualmente,
durante a prova da tortura, que não passava mais, de lá para cá, de um
sobrevivente.
Certamente a tortura não inclui sempre um resultado
tão destruidor, e, em particular, companheiros de Tito, igualmente torturados,
não sofreram as mesmas conseqüências. O caso de Tito nos leva a nos interrogar
sobre o que foi que tornou tão assassina essa experiência para ele. Se
confrontarmos o que tivemos oportunidade de observar do seu delírio e as
vicissitudes de sua sobrevivência, com os testemunhos escritos que ele deixou,
precisamos admitir ou que o efeito psicológico que vem com qualquer tortura
física foi particularmente agudo no caso dele, ou que, ao lado das crueldades
meramente físicas, Tito sofreu uma forma particular de tortura psicológica.
Isso é tanto mais provável que, por conta de seu status social de padre e
intelectual, Tito de Alencar representava para seus algozes, e em particular
para o delegado Fleury, um símbolo. Símbolo de uma nova aliança da fé e da
revolução, opondo-se à aliança tradicional da Igreja e do Estado, e que era
necessário desqualificá-la absolutamente para evitar sua propagação. Esta
aliança, pela sua ambigüidade, pela sua novidade, representava uma déviance,
suscetível de encontrar uma saída positiva, e da qual era necessário demonstrar
a negatividade, absolutamente. A ambigüidade da aliança será o exato lugar onde
o torturador agirá, e agirá psicologicamente, por meio de um duplo movimento de
desqualificação da dialética que está em jogo aí, e de evidenciamento da
incoerência que nela está também presente.
No testemunho que Tito de Alencar escreveu no
cárcere em 1970, acha-se uma descrição muito literal dos fatos sofridos. Seu
primeiro contato com a tortura é o «pau de arara », tortura que consiste em
ajoelhar o preso nu, enfiar uma barra de ferro na dobra dos joelhos, prender
por trás seus pulsos com seus calcanhares, e em seguida suspendê-lo de cabeça
para baixo. «Assim suspendido, despido, eu recebi descargas elétricas de
corrente contínua nos tendões dos pés e na cabeça. Os torturadores eram seis.
Eles me aplicaram o "telefone" (bater as duas orelhas com a palma da
mão ao mesmo tempo para fazer explodir os tímpanos) e eles me gritavam
injúrias.» [2]
Identifica-se aqui, por parte dos torturadores, a
busca de um efeito de estimulação (sommation) das diversas fontes de excitação:
físicas, elétricas, sonoras e também verbais, e a nudez traz consigo uma
excitação muito diretamente sexual. Mas reencontraremos essa estimulação de
outro modo. De fato, os torturadores não vacilam acumular crueldades nas
distintas partes do corpo. «Eles lançaram algumas descargas elétricas em minhas
mãos, em meus pés, em minhas orelhas e em minha cabeça. A cada descarga todo
meu corpo passava a tremer como se fosse despedaçar[3]»
Por meio desta estimulação, além da brutalidade, busca-se provocar uma mutação
psíquica do sujeito. Mas se podemos, nós, decifrar esta situação assim, Tito,
ele, não podia discernir a estimulação que estava em jogo, nem a intenção que a
ela presidia. O testemunho posterior do delírio é muito mais autêntico que o
testemunho escrito porque nos mostra que Tito podia ter consciência somente de
uma parte da situação; acontece desde o começo da tortura uma dissociação muito
clara entre a consciência imediata dos fatos, e uma interiorização mais
inconsciente onde não importa mais a diferença entre sevícias sofridas e
sevícias desejadas. «Era eu impossível saber que parte do corpo era mais doída.
Eu tinha a impressão de ser esmagado por toda parte. Minha mente não era mais
coordenada, eu só tinha o desejo de perder os sentidos[4]”.
A estimulação visa de fato engajar, sem o
conhecimento da vítima, seu desejo, e solicitar assim mesmo uma cumplicidade.
Pois, pelo sofrimento, o corpo é solicitado eroticamente até o ponto onde uma
auto-excitação interna é capaz de dar continuidade, de modo quase autônomo, à
excitação externa. Confusão e culpabilidade virão como conseqüências de uma
certa dissolução de categorias do interior e do exterior: não é o torturador
que faz perder os sentidos, é ele mesmo que passa a sentir o desejo disso.
Reencontramos, claro, o desejo à obra, de modo grotesco, na reconstrução
delirante da tortura.
Um passo a mais na mutação psíquica secreta da
vítima é perceptível no seguinte evento relatado por Tito: ele cai nas mãos de
um novo torturador, o capitão AIbernaz. «Quando eu venho na
Operação-Bandeirante, eu deixo o coração em casa. Eu tenho horror dos curas...
Você conhece Fulano e Beltrano? (menciona os nomes de dois presos políticos
torturados, com muita selvageria por ele), você vai ter direito ao mesmo
tratamento: descargas elétricas o dia todo. Para cada um de seus NÃO, você
receberá uma descarga mais importante. Havia três militares na sala. Um deles
gritou: "Eu quero nomes de homens e de organizações clandestinas ".
Quando eu respondi: "Eu não sei, eu recebi uma
descarga elétrica tão forte, daquelas diretamente plugadas na tomada, que eu
perdi o controle de minhas funções fisiológicas [5].»
É difícil superarmos o pathos desta situação, e o
espanto onde é deixado o leitor. Medimos a decadência onde é levado o verbo
nesta experiência, tanto pela nossa tendência em ficar sem voz perante este
relato quanto pelo fato de que o torturador parece não esperar por outra
resposta a não ser exatamente o NÃO. O desespero na tortura passa pela
decadência da linguagem. Há algo realmente infame nesta estratégia que usa, com
aparente objetivo de fazer falar, de um constrangimento que organicamente
castra a pessoa de seus meios de expressão, a tal ponto que o leitor é
submetido à convicção, nesta passagem, que a tortura não é usada como um método
de interrogatório policial, mas que ela tem um objetivo autônomo que é o de uma
compromissão.
De fato, as descargas elétricas visam precisamente
aqui a levar a vítima a se sujar. Ainda em sua narração, Tito alude a alguns as
várias pessoas presentes ao lado do torturador: uma multidão de olhares que,
portanto, concorrem, através de voyeurismo, para erotizar o relaxamento dos
esfíncteres e os afectos múltiplos que o sujeito passa a sentir. Insistimos no
exibicionismo presente em seu delírio e pode-se ver neste exibicionismo
delirante a retomada de um afecto sofrido na tortura, o qual Tito não tinha
meios de controlar, ao escrever.
O horror continua para ele: «Ele (o torturador)
entrou nos ataques morais: Quais os padres que têm amantes? Por que a Igreja
não expulsou vocês todos? Quem são os padres terroristas? Disse que a Igreja é
corrupta, que pratica malversações financeiras, que o Vaticano é o proprietário
das maiores empresas. A todas minhas respostas negativas, eles me davam
descargas, socos, pontapés, e golpes de vara no tórax. Num determinado momento,
o capitão Albernaz ordenou que eu abrisse a boca para receber "a hóstia
sagrada ". Ele introduziu um fio elétrico. Eu permaneci de boca inchada,
sem poder falar adequadamente. Eles gritavam contra a Igreja. Eles gritavam que
os padres são uns homossexuais porque eles não são casados... Eles só pararam
às quatorze horas» (nota-se que tinham começado de manhã às oito horas)[6].
A densidade patética da narração vem da pressa com
que foi escrito, como em uma luta contra o esquecimento, contra o recalque
benfazejo a curto prazo, mas que o alienará posteriormente, ao ter que rememorar
pelo viés do delírio.
Tito, como foi falado, nunca mais conseguiu habitar
sua identidade de religioso, e uma parte grande de seus escritos expressará a
busca dolorosa de uma espiritualidade nova, impossível porquanto a procurava
exclusivamente na reconciliação de ideais contraditórios: Freud e Marx, Marx e
Cristo, etc.
Neste último fragmento da narração, percebe-se
melhor por que procedimento a tortura consegue a mutação psicológica do
sujeito. Consiste na destruição de auto-representações idealizantes do eu. Mais
justamente aqui, o que especificamente é contestado é a representação a mais
espiritual, a mais especular também, a do padre. Destruição seguida pela
imposição de uma nova identidade, como a negativa da anterior,: «Você é um
falso padre», em contradição: “A Igreja é corrupta », e na sensação de uma
decadência: «Os padres são uns homossexuais.»
Da maneira que o Tito consegue evocá-lo, o
procedimento torturador parece desenvolver-se como um drama do qual a cena
paródica da comunhão seria o ápice. Com uma malignidade estratégica que só uma
relação muito apaixonada pode inspirar, a manipulação pelo torturador do
simbolismo religioso visa desacreditar, tornar em derrisão um setor da
identidade da vítima, aquele do qual pode-se dizer que ele é o lugar de todas
as sublimações e todas as transcendências. Ele é desacreditado porque é
reduzido a um gestual quase pornográfica, neste contexto de excitação corporal,
depois de tantas horas de sevícias.
Imagina-se que foi neste momento preciso que Tito de
Alencar perdeu toda possibilidade de se reconhecer como o padre que ele era. A
razão pela qual deve ter aderido a esta paródia está em relação com o ardil que
consiste, não tanto em denunciar ex-abrupto a religião, mas em fazer ressaltar
o embasamento pulsional, a partir do qual a sublimação religiosa pôde
desenvolver-se. De fato, o torturador só faz virar de sua vertente solar,
sublimatória, para uma vertente sombria pulsional. A tortura se revela como uma
operação de sublimação.
Também é uma operação de despoetização. Porque se
prestamos atenção, neste fragmento de narração, à importância das palavras que
são expressadas pelos carrascos, nota-se vários pontos. Como provavelmente em
outros momentos, o carrasco não deixa de insultar a vítima, mas, notemo-lo, de
um modo relativamente sincronizado com as crueldades físicas. Como se cada
interjeição fosse lançada e fosse introduzida no sujeito após um trauma físico.
De fato, esta linguagem diz coisas das quais não é possível evitar a falsidade,
já que contém, apesar de tudo, sua parte de verdade. E é sobre a ambigüidade do
verdadeiro e do falso que está jogando: sobre a palavra homossexual, por
exemplo, verdadeira de uma verdade que, latente, concerne todo ser humano,
verdadeira também de uma verdade de fato, na situação do ser Tito que está
sofrendo passivamente uma paródia de felação em um contexto de
exibicionismo-voyeurismo. Na realidade, não somente a linguagem se introduz no
rasto das sevícias corporais, mas, bem mais, ela as acompanha e vem lhes dar um
sentido que por si só não poderiam ter. A linguagem funciona aqui como um
veredicto, melhor, como uma interpretação selvagem que vem estigmatizar de modo
absolutamente irreversível a ressonância emocional que as sevícias tentam
provocar no sujeito.
Pode-se dizer que com o insulto, o carrasco completa
sua estratégia e encerra a experiência. A linguagem assumiria assim um papel
análogo aos olhares das pessoas que assistem à cena. Pois como Tito poderá,
para sempre, repensar este momento da experiência onde, despido, humilhado,
constrangido, está apanhando, sendo passivamente estuprado, sem que seja
através do veredicto das vozes e dos olhares: «Você é um homossexual», «Você se
entrega e se expõe como uma mulher»?
Esta palavra que diz ao mesmo tempo o verdadeiro e o
falso, que se impõe do exterior e acha sua ressonância dentro, não poderá mais
ser objeto de uma elaboração espontânea. Caída de seu estatuto semântico,
sofreu uma despoetização que a reduziu a um mero corpo estranho, uma coisa que
habitará duravelmente o sujeito e que reencontraremos à obra, novamente, na
hora das fases menos subterrâneas do seu delírio, quando a voz do torturador
lhe ditará cada ato de sua vida.
Não há duvida que Tito de Alencar morreu no decorrer
de suas torturas. Mesmo incorrendo no risco do pathos, estou inclinado a
afirmar essa proposição na medida em que o que Tito era, o religioso, o
lutador, mas também o homem inscrito numa história privada, doméstica, o filho,
o irmão, não o era mais. Tito se tornou alguém outro, aquele que seu torturador
teria querido que fosse. É neste sentido que pode-se dizer que era um
sobrevivente do qual era talvez impossível, a nós que não havíamos passado por
essa provas, entendermos o que dele sobrevivia.
Tudo aconteceu como se a tortura tivesse substituído
um homem novo ao homem velho que ele era, o que só faz retomar o espírito da
tortura onde o torturador focaliza seu olhar num só ângulo, o ser enquanto
vítima, menosprezando absolutamente a realidade existencial do sujeito. Nos
chamou muito a atenção ver que, quando uma de suas irmãs fez uma longa e cara
viagem do Brasil para a França para ajudá-lo, mal a reconheceu, aceitou nenhuma
familiaridade com ela, ficando impermeável a todas as tentativas para fazer
reviver seu passado.
Ele era o novo personagem criado por Fleury, e isto
é exatamente aquilo que a tortura visava. Pois anota-se um estreito parentesco
entre a maneira com que o carrasco manipula as sevícias físicas e o modo com
que manipula o insulto verbal. Nos dois casos, trata-se menos de ferir o exterior
do que provocar um movimento interno de autodestruição e um movimento de
autocrítica que devem continuar agindo por conta própria. É o que Tito de
Alencar demonstrou em seu delírio quando impôs a si mesmo todas as privações
que sabemos, mas também nesta atividade incessantemente repetida de
auto-acusação. Seu caso poderia ser considerado como uma tortura exitosa, ou
seja é possível que o ideal do torturador esteja em por a caminho o que, na
pessoa humana, está disponível para uma auto-tortura (como conhecemos com
freqüência na patologia): auto-desvalorização, autocrítica, autopunição. É
talvez desta agudez psicológica que se vangloriou o Albernaz quando Tito lhe
ouviu dizer: "Nós sabemos fazer coisas sem deixar rastros. Se sobreviver,
nunca esquecerá do preço de sua audácia"[7].
Em um momento bem preciso, Tito teve o sentimento de
ter traído, dando nomes. Ele se acusará precisamente por muito tempo, de modo
melancólico, embora todos os testemunhos contrariam essa convicção: ele não
teria entregado nenhum nome sob a tortura. Vê-se aí, nesta auto-acusação, um
meio cômodo, imediato, para racionalizar sua culpabilidade, mas também, sobre
esta culpa clássica de torturado, vem deslocando um sentimento mais escuro e
expansivo da traição. Nas escritas, este sentimento de traição assume a forma
de uma preocupação nascente para com o destino dos seus Irmãos Dominicanos.
"Em minha cela eu não conseguia dormir. A dor aumentava cada vez mais. Eu
tinha a impressão que minha cabeça era três vezes mais grossa que meu corpo.
Era preciso acabar com isso uma vez por todas. Eu sentia que não poderia
agüentar tamanho sofrimento por muito tempo. Eu estava angustiado à idéia que
meus Irmãos Dominicanos pudessem sofrer a mesma coisa".
O desejo de morrer permanece indissociável deste
sentimento de traição que representa a essência mesma da auto-tortura , tanto
quanto é a meta suprema da tortura, pois é o grupo ao qual pertence a vítima
que o algoz tenta alcançar por meio dela. Ora ao mesmo momento, uma campanha de
imprensa é orquestrada publicamente contra o grupo dos Dominicanos. O jornal O
Globo publicou o seguinte: «Eles (os Dominicanos) traíram a fé ao aderir ao
comunismo, e traíram o comunismo ao entregar Marighela. São os novos Judas [8]» É impressionante como as mesmas acusações difamatórias,
as mesmas calúnias, circulam aqui, no século, e ali, no espaço fechado,
clandestino, inter-individual, da tortura. Sentimo-nos autorizados a considerar
que é a mesma guerra que um certo grupo ideológico realiza contra um outro,
aqui e ali. Daí a idéia de que a tortura poderia ser entendida como um tipo de
microcosmo da guerra mais geral, oficial, uma guerra de «laboratório», onde os
obstáculos, os fracassos que o poder enfrenta na realidade seriam como
magicamente eliminados. Um microcosmo onde o poder se dá a ilusão de que a
realidade é complacente com seu desejo: a tortura seria um campo de utopia. Ao
esmagar Tito de Alencar fisicamente e espiritualmente, o torturador, e o grupo
do qual ele é o representante, visavam talvez nada mais que reforçar-se na
convicção de que eles poderiam acabar, sem dificuldade, com uma oposição de
idéias, que ameaçava sua própria convicção.
A busca desta ilusão de vitória responde muito
melhor pela crueldade das sevícias do que uma suposta busca de informações, já
que, como se viu, estas sevícias quase sempre colocavam o Tito na
impossibilidade de falar.
Tito, pessoa bem real, no entanto é torturado
enquanto efígie do grupo dominicano do qual ele é o símbolo. Há na tortura um
fundo de exorcismo que fica preso ao não-dito, ao não-sabido, de um lado e do
outro, mas que traz sua própria confusão ao mistério da experiência. Freud, em
Totem e Tabu, explica: "Um dos processos mágicos do qual se usa mais comumente
para prejudicar um inimigo, consiste em fabricar sua efígie com materiais
quaisquer. Poderá ainda se demonstrar que tal ou tal objeto representa sua
imagem. Tudo o que se inflige a esta efígie atinge o modelo odiado. É
suficiente ferir qualquer parte daquela, para que a parte correspondente do
corpo deste fique doente”[9]. O material qualquer está
aqui sendo Tito de Alencar, e o objeto que representa a imagem, é seu corpo.
Fiquemos com esta hipótese da tortura como prática
exorcista, enquanto nos permite acompanhar a decadência da palavra e da
linguagem tal qual acontece na tortura, até conduzir a esta forma semiótica
particular que é a confissão. É de fato numa progressão experta que Tito de
Alencar será despojado da sua palavra de homem, desde que a clandestinidade e a
ilegalidade da tortura tiram toda referência ética. Despojado em seguida de sua
palavra de homem, na medida em que a dominação sexual almejada pelo carrasco
conduz a vítima a identificar-se a um corpo erógeno que só fala de excitação e
compulsão à repetição. E enfim, com esta fase que a imagem de efígie ajuda a
figurar, entendemos que a palavra chamada pelo torturador é não a palavra de
Tito de Alencar, sobre Tito de Alencar, mas a palavra do representante de um certo
grupo sobre o grupo em questão. É portanto uma palavra que, longe de ser ao
serviço de uma verdade qualquer, não tem outra razão de ser senão tentar
responder a uma expectativa bem precisa do torturador. Esta expectativa seria
evidentemente a entrega de nomes, a prova de uma compromissão, de um erro, de
uma traição, tanto faz. Porque, qualquer coisa que a vítima diz ou não diz,,
esta será uma palavra que o executor ouvirá do jeito que ele esperava: eis a
confissão.
Tudo fala em favor do torturador, como tudo concorre
para provar à vítima que ela falou, porque a confissão nunca corresponde a uma
declaração qualquer, mas a uma certa forma de decadência da linguagem onde o
sinal verbal só se interpreta através do desejo daquele que o está escutando.
A ausência de terceiro, o livre desenvolvimento da
onipotência do desejo do carrasco, caracterizam suficientemente o caráter
furioso, psicótico, desta situação de tortura, que a decadência do verbo vem
cristalizar.
Já há um século, um autor como Jules Michelet tinha
percebido a dimensão delirante disto: «Uma bruxa confessa ter puxado
ultimamente do cemitério o corpo de uma criança morta, para usar este corpo em
suas composições mágicas. Seu marido diz: " Vá para o cemitério. A criança
está ali". O corpo é exumado, encontrado exatamente no seu lençol. Mas o
juiz decide, contra o testemunho de seus olhos, que é uma
"aparência", uma ilusão do Diabo. Ele prefere a confissão da mulher
ao fato em si. A mulher é queimada[10].»
Esta decadência da palavra, Tito a denunciará no
longo mutismo que pudemos observar, bem como no automatismo mental, onde uma
voz que não era mais a sua falava dentro dele.
A prática do torturador é louca, e, frente a esta
loucura passional, a denúncia e a luta política têm que se fazer, no mesmo
grau, passionais e impiedosas. Mas ela é também louca no sentido psiquiátrico
do termo. Sem que isso em nada contamina a luta política, devemos clarear isto
porque esta loucura situacional exerce por si só um efeito psíquico destrutivo
sobre a vítima; mas existe também um interesse antropológico em entender este
fato realmente misterioso de que homens civilizados possam endossar a
responsabilidade de tal prática.
Pierre Vidal-Naquet[11], a
propósito de torturas praticadas na Argélia antes da independência, nos
convence da idéia de que a tortura só foi possível porque políticos deixaram
seriamente de cumprir com sua função de controle das instituições e autorizaram
um vazio legal que só permitiu a instalação de práticas torturadoras.
Abandonado pelo jurista, dispensado, não sem complacência, pela lei, o soldado
se torna torturador e, se assim pode-se dizer, ele se torna também louco,
autorizando-se de uma conduta exorcista e mágica que lhe serve no lugar de pensamento.
Realmente só uma loucura, ou digamos um
enlouquecimento, permite entender a crueldade extraordinária demonstrada nestas
situações, a implacabilidade sádica que amarra literalmente o carrasco à sua
vítima e do qual a narração de Tito de Alencar dá uma descrição de um realismo
comovente e uma grande agudez psicológica. De fato, é de uma certa face do
torturador, com sua estarrecedora inumanidade, que, constantemente, este texto
nos fala.
Imagina-se a revelação que constitui para a vítima o
encontro com este rosto do homem que desvela brutalmente, sardonicamente, o
torturador,:
Tito terá que se debater com essa imagem, ao mesmo
tempo para nela se reconhecer a si mesmo enquanto homem, e para dela se livrar
numa contra-identificação às vezes próxima ao angelismo.
Aludimos, na história de Tito de Alencar, ao
exibicionismo um pouco histérico que demonstrava. Em sua indiferença para com
os outros, não estava ausente uma certa arrogância, até mesmo a convicção
secreta de ser um herói, por ter passado por uma prova conhecida de nenhum
outro, de ser de certo modo um iniciado. Ao lado do que tirava para o
sentimento de decadência, uma patologia do «Eu grandioso» presidia ao seu
isolamento. A mesma talvez tinha achado sua justificação na estranheza da experiência
que, na confusão onde ele se encontrava, ele elaborou nos termos de uma
iniciação sacrificatória da qual teria sido o único depositário, igual ao
Cristo ao qual lhe ocorreu repetidamente se comparar.
Por nossa vez, fomos fascinados pela experiência que
viveu, porquanto nela nos tocamos com este encontro inédito do homem, em sua
crueldade virtual, da qual a civilização nos protege e nos separa. Eu vejo,
pessoalmente, na multidão de escritos que esta vida suscitou, uma vontade de
transmitir - não sem a idéia de uma possível redenção - esta revelação, em um
movimento quase angélico. Mas estes atos de palavra têm no entanto uma função
autônoma: livrar a palavra de Tito da subversão que a tortura lhe teria
infligido.
É sempre por ocasião de causas religiosas,
espirituais, ideológicas, que a tortura se desenvolveu. Não podemos desconhecer
que neste contexto de idealidade - e de predisposição mágica que o próprio
ideal proporciona - a tortura é tanto mais tentadora quanto lhe é atribuída uma
eficácia que não tem a ver com a objetividade, mas com o poder de anulação que
ela sabe implementar. Os processos de feitiçaria, a Inquisição, as dragonadas,
os recentes genocídios que intentavam destruir como representante do mal o que
era da ordem da diferença, todos convidaram a tortura para este fim.
JEAN-CLAUDE ROLLAND
Tradução: Xavier Plassat
Título original: Un Homme torturé: Tito de Alencar
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FREI TITO,
Teologia da Libertação
Psicoterapeuta / Psicólogo Clínico - Membro do Colégio Internacional de Terapeutas (Terapeutas de Alexandria) – Terapeuta Holístico - Pós graduado em Arteterapia e em Terapia Floral - Formação Holística de Base na Unipaz - Formação básica em Teologia pelo Centro Loyola de Fé e Cultura -PUC/RJ. Ger.de Rec.Humanos na Cia Souza Cruz Ind. e Comércio - Consultor empresarial - consultor Psicopedagógico dos projetos Sociais de Capacitação Solidária
9 de agosto de 2013
Perfeição ou santidade
Esse texto me foi enviado pela amiga Monica Valentim como comentário a uma postagem minha numa rede social sobre santidade. O texto é maravilhoso e merece ser lido e refletido. Na verdade parece que é mais completo que o que aparece no livro de mesmo nome do autor.
O meu agradecimento à Monica e ao Pe. Netto que não conheço, mas curto desde já o desejo de não só conhecê-lo, como poder manter boas conversas com ele.
P. José Antônio Netto de Oliveira, S.J.
Não é necessário um grande esforço de
observação para notar que muitos cristãos, e particularmente cristãos
consagrados, não vivem sua fé com alegria, não dão um testemunho existencial de
que o Evangelho é uma alvissareira Boa Notícia para todo ser humano, uma
libertação de todo medo diante da revelação, em Jesus Cristo, da inexplicável
misericórdia, do perdão, do amor incondicional de Deus para com suas criaturas.
Cristãos e cristãos consagrados parecem
viver um interminável sentimento de culpa diante de Deus, sempre sentindo-se em
dívida e conseqüentemente experimentando uma separação - ou pelo menos
distância e frieza - no relacionamento com Ele. O Pai de Nosso Senhor Jesus
Cristo, revelado como infinita ternura, misericórdia, amor, proximidade para
com o homem pecador não é então percebido como Pai, mas como um juiz mal
humorado, eternamente esquadrinhando nossa vida atrás de infidelidades,
desobediências e fraquezas. Em vez da intimidade, da proximidade e da alegria
que Jesus manifesta no seu relacionamento com o Pai, nós, como Adão no Paraíso,
sentimos medo de Deus e procuramos esconder-nos.
Nós, cristãos, nem sempre temos sabido
refletir em nossos próprios rostos a alegria de Deus: desde o escrúpulo até a
angústia, desde a estreiteza de espírito até a inimizade para com o corpo,
desde um ascetismo não integrado até um legalismo sem calor... damos demasiadas
vezes a impressão de que somos pessoas mais presas do que libertadas por nosso
Deus.
As causas desses sentimentos e
comportamentos dos cristãos, pouco reveladores da Boa Notícia de Jesus, podem
ser procuradas em múltiplas direções: no tipo de educação religiosa recebida,
na psicologia pessoal mais ou menos propensa a sentimentos de culpa e de
escrupulosidade, na experiência de se ter sido ou não amado com gratuidade, na
experiência pessoal de Deus, nas múltiplas camadas teológicas e ideológicas que
se foram superpondo, obscurecendo muitas vezes a experiência original do
cristianismo e, conseqüentemente, da alegria cristã.
Confundir santidade e perfeição, com a
conotação que a palavra perfeição tem aos nossos ouvidos, hoje, é condenar-nos
a uma eterna insatisfação conosco mesmos, a uma auto-condenação permanente, porque
percebemos que somos a cada dia mais imperfeitos, na medida mesmo em que
avançamos na vida. Passar desse sentimento à conclusão de que a santidade não é
para nós... é um pulo. Desistimos, então, da santidade, não ouvimos mais o
apelo de Deus -"sede santos porque eu sou santo"- e nos condenamos à
mediocridade na vida cristã.
A perfeição
A interpretação da santidade como
perfeição tem suas raízes no Evangelho de São Mateus: mais particularmente em
Mt 5,48: "Sede perfeitos como vosso Pai celestial é perfeito".
Examinemos rapidamente este texto.
Devemos notar, primeiramente, que a
perfeição, segundo o Antigo Testamento, não é um atributo de Deus. Em nenhuma
ocasião o Antigo Testamento chama Deus de "perfeito". Chama-o de
"Santo". Nos evangelhos, o adjetivo "perfeito" (teleios)
aparece somente duas vezes e ambas em Mateus: Mt 5,48 "Sede perfeitos como
vosso Pai celestial é perfeito" e Mt 19,21 "Se queres ser
perfeito" pergunta Jesus ao jovem rico.
Na mentalidade hebraica a perfeição é
antes um atributo humano que expressa a idéia de totalidade, aplicando-se ao
que é completo, intacto, àquilo que de nada carece. Quando em Mt 19,21, Jesus
diz: "Se queres ser perfeito", quer significar: se queres que nada te
falte, se queres não ter limite algum...
Ao afirmar "sede perfeitos como
vosso Pai Celestial é perfeito", Mateus estaria projetando em Deus uma
qualidade propriamente humana. Encontramo-nos diante de um antropomorfismo:
(Antropomorfismo é uma forma de pensamento que atribui características ou
aspectos humanos a Deus,elementos da natureza, animais e constituintes da
realidade em geral.)
Mateus nos convida a imitar em Deus uma
qualidade que não é propriamente divina, mas que é a projeção em Deus de um
ideal humano.A perspectiva de Mateus aparentemente parece ser mais moralista
que teológica: sua atenção está centrada no dever que se impõe ao homem, na
conduta que este deve adotar com relação a seus irmãos para cumprir
perfeitamente a vontade divina.
Verifica-se, pois, que neste texto de
Mateus, o ponto de partida da santidade já não seria Deus em primeiro lugar,
mas o que o homem deve fazer. A atenção se desloca da misericórdia de Deus -
como na versão de Lucas - "Sede misericordiosos como vosso Pai é
misericordioso", para a perfeição do homem, como um progresso no
desenvolvimento ontológico do ser humano. A santidade passa a ser vista como a
perfeição no cumprimento da lei, manifestação da vontade divina e na prática
das boas obras, frutos, basicamente, do esforço do homem.
Santidade, perfeição e pecado
Outra realidade que chama nossa atenção
é o fato de que os santos canonizados pela Igreja nunca terem se considerado
santos. Antes, muito pelo contrário, todos se confessaram grandes pecadores,
até o fim de suas vidas, e praticaram penitências por seus pecados que nos
assustam.
Apesar dessa consciência de serem
imperfeitos e pecadores, eram santos, e a Igreja reconheceu sua santidade,
canonizando-os. Não existe, pois, uma incompatibilidade radical entre santidade
e pecado. Pode-se ser simultaneamente santo e pecador.
Se passarmos à relação entre pecado e
perfeição aí encontraremos essa incompatibilidade: não se pode ser
simultaneamente perfeito e pecador uma vez que o pecado é a imperfeição por
excelência. A perfeição exclui necessariamente o pecado. Esta breve consideração
poderá ajudar a entender melhor as reflexões que se seguem.
Ter pecado e ser pecador
É igualmente importante para a
intelecção do que se segue captar a distinção entre ter pecado(s) e ser
pecador.
Ter pecado(s) é a consciência que temos
de ter falhado objetivamente no amor para com Deus, para conosco mesmos ou para
com o próximo. Antes de nos dirigirmos ao sacramento da penitência, costumamos
parar, fazer um exame de consciência perguntando-nos "quais os pecados que
tenho", quais minhas faltas objetivas de amor desde a última confissão.
Comunicamos, então, ao sacerdote, os pecados que "temos" e, se
estamos arrependidos, somos perdoados, Deus nos assegura o seu perdão. Saindo
da confissão, já não temos mais pecados.
Ser pecador é a consciência que temos de
nossa fragilidade. Saindo da confissão não temos mais pecado, mas reconhecemos
que estamos num estado de fraqueza, que somos vasos de barro, muito
quebradiços. O pecado atingiu, de certa maneira, algo de profundo em nós,
atingiu de algum modo o nosso ser, o nosso coração, como diz a Bíblia (é do
coração que saem os maus pensamentos, assassinatos etc.). Encontramo-nos todos
numa situação de vulnerabilidade. Cada um percebe no seu "coração"
certas tendências inatas para o mal e para o pecado que os teólogos chamam de
concupiscências: tendências para o orgulho, a avareza, a gula, a luxúria, a
preguiça etc.. É porque estamos neste estado de fragilidade, é porque somos
pecadores que voltamos novamente a cometer pecados e assim teremos de
confessar-nos uma e outra vez até o final de nossa vida.
Reconhecer não somente que temos pecado,
mas também que somos pecadores, é abrir-se para a verdade do próprio ser, é o
início do esvaziamento de si, é começar a descer à verdadeira humildade diante
de Deus e diante dos homens.
Impasses da perfeição
O conceito de perfeição que cada um tem
em sua própria cabeça não é puramente teórico, porque o conceito de perfeição
forma-se ao longo da vida, é existencial; Portanto, vem marcado por cargas
afetivas desde a primeira infância: os comportamentos corretos, perfeitos, eram
premiados; os imperfeitos, incorretos, eram punidos. O conceito de perfeição
foi-se formando em nós a partir de nossa educação, a partir de experiências
integradoras ou traumatizantes, de sentimentos de culpabilidade e castigo, ou
de libertação e perdão. Normalmente terminamos com um conceito de perfeição que
se identifica, no plano pessoal, com não ter defeitos, não ter vícios, não ter
traumas nem marcas psíquicas negativas, não ter nenhuma fraqueza, nenhuma falha,
nenhum pecado etc.
A busca da perfeição é um projeto do
homem, um ideal humano. Trata-se de um projeto fechado dentro do próprio eu
orgulhoso, que exige o máximo de si, o máximo de esforço para não falhar em
ponto algum, uma vez que o perfeccionista está convencido de que somente será
amado por Deus e pelos demais se for perfeito. Nesse esforço ele tende a contar
exclusivamente consigo mesmo, prescindindo de Deus e dos outros.
A perfeição estaria no fim do caminho
que traçamos para nós, do ideal que nos propusemos, ou então no topo de uma
escada que decidimos subir com nosso esforço, galgando degrau por degrau,
eliminando vícios e adquirindo virtudes numa busca tensa. A perfeição não
suporta o pecado, uma vez que o perfeccionista vê o pecado não como uma ruptura
de laços de amor, não algo em relação a um outro, mas como um problema pessoal
em relação ao próprio ideal: "falhei no meu ideal, no ideal que me havia
proposto". Esta verificação é sempre sentida como humilhação.
O perfeccionista procura viver apenas
com os melhores fragmentos de si mesmo, aqueles que estão conforme com as
normas, com o ideal buscado, com o que pensa que os outros esperam dele. O
resto, as fraquezas, as tendências obscuras, os fragmentos dos quais está menos
orgulhoso, ficam trancados para sempre nas margens da consciência. Eles são
recusados e negados. Desse modo, a chaga secreta que está fermentando,
supurando e contaminando a vida nunca é reconhecida, nunca vem à luz. A
perfeição, humilhada pelo pecado e pelas fraquezas, tende a fechar a pessoa
sobre si, e fechá-la para Deus e para os outros. O amor desaparece. O
perfeccionista tende a voltar-se sobre si, tornando-se seu próprio juiz e
autocondenando-se. Após certo tempo de luta, sua vida pode tornar-se
amargurada: amargurada consigo, com Deus, com os outros, com tudo.
Sede misericordiosos
A compaixão e a misericórdia são os mais
característicos atributos divinos na teologia de Israel. Lucas nos convida,
portanto, a imitar uma maneira de ser que é, antes de mais nada, a de Deus.
Mostrando-se misericordiosos, os discípulos de Jesus se assemelham ao exemplo
que Deus nos dá. A atenção aqui está voltada para a visão dos sentimentos da
misericórdia de Deus para com seus filhos, na solicitude do Senhor para com os
pecadores, os mais desamparados e necessitados. A conduta do homem deve se
regular, deve imitar a conduta de Deus.
O versículo 6,36 conclui de modo natural
à instrução sobre o amor aos inimigos. Lucas começa com uma recomendação: v. 27
"Amai os vossos inimigos..." Esta recomendação é reforçada por uma
primeira consideração em forma negativa: "não imiteis os pagãos e os
publicanos, que só amam aqueles que os amam" (v. 32). Finalmente uma
segunda consideração em forma positiva convida a imitar a Deus:
"mostrai-vos como filhos do Altíssimo... e sede misericordiosos como o
vosso Pai é misericordioso".
Os exegetas nos asseguram que esta
versão de Lucas reflete, mais exatamente que Mateus, o pensamento de Jesus, que
nos convida a assemelhar-nos a seu Pai reproduzindo em nossas vidas os
sentimentos de compaixão e misericórdia que Ele tem para com os homens. Por
meio dessa conduta com os irmãos aderimos a Deus, reforça-se nosso vínculo de
pertença a Ele e, nesse sentido, somos santos como Ele é santo.
O tema da santidade, por conseguinte,
deve ser reconduzido à interpretação que Jesus dá da misericórdia de Deus e ao
que, de tal imagem paterna deriva, como norma e caminho para a conduta do homem
e sua pertença a Deus.
A santidade
Em vez de optarmos pela perfeição,
podemos optar pela santidade, e santidade está relacionada com compaixão, com
misericórdia, com amor, com esse convite que Deus nos faz: "Sede santos
porque Eu sou santo". Deus é amor, e nisso consiste a santidade de Deus.
Santificar-se é, pois, abrir-se para o amor, dentro mesmo dessa nossa realidade
de criaturas limitadas, frágeis, pecadoras, “vasos de barro”, como diz São
Paulo. Ora, essa capacidade de amar nos é dada por Deus, é um dom de Deus.
A santidade, portanto, me é dada por
Deus e me é dada já, imediatamente: sou amado por Deus, sem condições, aqui e
agora, com todas as minhas imperfeições, pecados, fraquezas, debilidades,
limitações, traumas... e esse amor de Deus, sem condições, me torna capaz de
amar agora, de fazer o bem agora, de servir agora, de ser santo agora, apesar
de minhas imperfeições e fraquezas. A grande ilusão é pensar que só poderemos
amar, servir, fazer o bem quando formos perfeitos. Somos santos agora e devemos
amar agora, embora sejamos também pecadores: somos uma Igreja pecadora e santa.
A santidade nunca é humilhada pelo
pecado, porque a santidade é humilde. Somos humilhados quando pensamos ser
alguém, quando nos colocamos num pedestal, quando nos julgamos melhores do que
os outros... somos humildes quando aceitamos ser pobres, ser frágeis,
limitados, pecadores, mas amados na nossa pobreza e fragilidade.
A santidade é recusa de deixar-se fechar
no próprio pecado, é a capacidade de ultrapassar as próprias condenações porque
Outro nos acolhe e nos ama, apesar de nosso pecado. A superação da
auto-condenação está na entrega da vida a Deus, em saber-se amado como pecador,
porque pecadores seremos sempre até o fim da vida. Santidade é a certeza de não
podermos nos salvar a nós mesmos e acolher, na ação de graças, uma salvação que
nos é oferecida gratuitamente por Deus que nos ama. A santidade nunca leva ao
fechamento, antes se abre para Deus acolhendo sempre o seu perdão e abre-se
para os outros no amor, no serviço e no dom. Santidade é a recusa de ser o seu
próprio juiz, deixando o juízo para Alguém que nos ama e vela por nós com amor.
A santidade liberta, é confiante, é alegre; leva-nos a passar da recusa e
condenação de nós mesmos e dos outros para a descoberta de nós e dos outros.
Se a perfeição era colocada em termos de
uma subida laboriosa de uma escada, a santidade pode ser também representada
por esse símbolo da escada, somente que se trata agora de uma descida
progressiva a caminho de uma radical humildade. De fato, se meditamos
atentamente o evangelho, encontramos Jesus convidando continuamente seus
discípulos a uma descida: quem quiser ser o primeiro, seja o último, o servidor
de todos; quem se exalta será humilhado, quem se humilha será exaltado; se não
vos tornardes como crianças não entrareis no Reino; felizes os pobres porque
deles é o Reino.
Trata-se de um esvaziar-se progressivo
de toda auto-suficiência e orgulho, de toda ambição de riquezas, de prestígio e
projeção, de poder de dominação e opressão, no seguimento do Filho de Deus que
"esvaziou-se a si mesmo tomando nossa condição humana". O orgulho
fecha o homem sobre si e o impede de amar, de ser santo. A humildade é o
reconhecimento pacífico da própria condição de criatura pecadora e frágil, mas
amada por Deus, é a porta para a santidade, isto é, para poder amar os irmãos e
irmãs pecadores e frágeis como somos amados embora pecadores e frágeis.
Permanecer aí, no fundo do templo, como
o publicano da parábola, reconhecendo a própria pobreza, numa súplica
permanente: "tem piedade de mim, Senhor, porque sou um pecador",
celebrando a misericórdia de Deus para com todos os homens, é tornar-se
vulnerável à dor, ao sofrimento, à falta de vida e de sentido de muitos irmãos
no mundo, é começar a ter compaixão, misericórdia, é começar a amar, é caminhar
para a santidade: "sede santos porque eu sou santo".
Processo evolutivo
Terminemos com uma página de rara beleza
sobre a pureza do coração e conseqüentemente sobre a santidade, que se encontra
no livro Sabedoria de um pobre, de Elói Leclerc (Editorial Franciscana, Braga,
1975, pp.137-140).
"...Depois de um momento de
silêncio, Francisco perguntou a Leão: Irmão, sabes acaso o que é a pureza de
coração? - É não termos falta alguma de que nos acusemos, respondeu Leão sem
hesitar. - Então compreendo a tua tristeza, disse Francisco, porque temos
sempre alguma coisa de que nos acusar. - Sim, concordou Leão, e é precisamente
isso que faz com que eu perca a esperança de chegar um dia à pureza de coração.
Ah! Frei Leão, acredita-me, retorquiu
Francisco, não te preocupes tanto com a pureza de tua alma. Volta o olhar para
Deus. Regozija-te por Ele ser todo santidade. Dá-lhe graças por causa dele
mesmo. Isso é que é, irmãozinho, ter o coração puro. E quando estiveres voltado
para Deus, não voltes a debruçar-te sobre ti. Não perguntes a ti próprio em que
ponto estás em relação a Deus. A tristeza de não sermos perfeitos, de nos
descobrirmos pecadores é, ainda, um sentimento humano, demasiadamente humano. É
preciso que eleves o teu olhar mais alto, muito mais alto. Há Deus, a
imensidade de Deus e o seu inalterável esplendor. O coração puro é aquele que
não cessa de adorar o Senhor vivo e verdadeiro; o que toma um interesse
profundo pela própria vida de Deus e é capaz, no meio de todas as suas
misérias, de vibrar com a eterna inocência e a eterna alegria de Deus.
Semelhante coração é, há um tempo, despojado e cumulado. Basta-lhe que Deus
seja Deus. É mesmo nisso que ele encontra toda a sua paz, todo o seu amor. E
então, é o próprio Deus que é toda a sua santidade.
Deus, no entanto, exige o nosso esforço
e a nossa fidelidade, observou Leão.
Sim, sem dúvida, respondeu Francisco.
Mas a santidade não é uma realização do nosso eu, nem uma plenitude que nos
damos a nós mesmos. Acima de tudo ela é um vazio que descobrimos em nós, que
aceitamos e que Deus vem encher na medida em que nos abrimos à sua plenitude. O
nosso nada, compreendes, quando é aceito, transforma-se no espaço vazio onde
Deus pode, ainda, criar. O Senhor não deixa que ninguém lhe roube a sua glória.
Ele é o Senhor, o único, o Santo. Toma, porém o pobre pela mão, tira-o da lama
e fá-lo sentar no meio dos príncipes do seu povo a fim de que ele veja a sua
glória. Deus torna-se, então o céu da sua alma.
Contemplar a glória de Deus, Frei Leão,
descobrir que Deus é Deus, eternamente Deus para além do que nós somos ou
possamos ser, alegrar-se, em cheio, com aquilo que Ele é, extasiar-se diante de
sua eterna juventude e dar-lhe graças por causa da sua indefectível
misericórdia, eis a exigência mais profunda desse amor que o espírito do Senhor
não cessa de derramar em nossos corações. Ter o coração puro é isto. Mas esta
pureza não se obtém à força de punhos e de tensão.
Que fazer para a alcançar? perguntou
Leão.
Basta simplesmente nada guardar para si.
Nem sequer essa percepção aguda da nossa miséria. Desprender-se de tudo.
Aceitar ser pobre. Renunciar a tudo o que é pesado, inclusive ao peso das nossas
faltas. Já não ver senão a glória do Senhor e deixar-se iluminar por ela. Deus
é, isto basta. O coração como a cotovia ébria de espaço e de azul abandonou
todo e qualquer cuidado, toda e qualquer inquietação. O seu desejo de perfeição
mudou-se num simples e puro querer de Deus.
Leão escutava com ar grave, enquanto ia
caminhando adiante de seu pai. Porém, à medida que avançava, sentia que o
coração se lhe tornava leve e que uma grande paz o invadia".
_______________________________
P. José Antônio Netto de Oliveira, S.J.
Membro do Centro de Espiritualidade de Itaici. Atualmente, dedica-se à
orientação espiritual dos estudantes jesuítas brasileiros. Este é um trecho de
um artigo publicado na Revista de Espiritualidade Inaciana de Itaici
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Espiritualidade,
sobre SER CRISTÃO
Psicoterapeuta / Psicólogo Clínico - Membro do Colégio Internacional de Terapeutas (Terapeutas de Alexandria) – Terapeuta Holístico - Pós graduado em Arteterapia e em Terapia Floral - Formação Holística de Base na Unipaz - Formação básica em Teologia pelo Centro Loyola de Fé e Cultura -PUC/RJ. Ger.de Rec.Humanos na Cia Souza Cruz Ind. e Comércio - Consultor empresarial - consultor Psicopedagógico dos projetos Sociais de Capacitação Solidária
8 de agosto de 2013
No estás deprimido , estás distraido.
O bem é maioria, mas não se percebe porque é silencioso.
Uma bomba faz mais barulho que uma caricia,
porém, para cada bomba que destrói há milhões de carícias que alimentam a vida
(Facundo Cabral )
Não estás deprimido, estás distraído Distraído em relação à vida que te preenche Distraído em relação à vida que te rodeia. Golfinhos, bosques, mares, montanhas, rios.
Não caia como caiu teu irmão que sofre por um único ser humano quando existem cinco bilhões e seiscentos milhões no mundo.
Além disso, não é assim tão ruim viver só. Eu fico bem decidindo a cada instante o que fazer e graças à solidão conheço-me. O que é fundamental para viver.
Não faça o que fez teu pai que tem setenta anos e esquece que Moisés comandou o êxodo aos oitenta e Rubinstein interpretava Chopin com maestria sem igual aos noventa, para citar apenas dois casos conhecidos.
Não estás deprimido, estás distraído. Por isso acreditas que perdeste algo, o que é impossível, porque tudo te foi dado.
Além disso, a vida não tira coisas, te liberta de coisas e até alivia-te para que possas voar mais alto, para que alcances a plenitude.
Do útero ao túmulo, vivemos numa escola; por isso o que chamas de problemas são apenas lições.
Não perdeste coisa alguma. Aquele que morre está adiantado em relação a nós, porque todos vamos na mesma direção. E não esqueças, o melhor Dele, o amor, continua vivo em teu coração.
Não existe a morte Apenas a mudança. E do outro lado te esperam pessoas maravilhosas: Gandhi, Madre Teresa, teu avô e a minha mãe, que acreditava que a pobreza está mais próxima do amor porque o dinheiro nos distrai com coisas demais e nos machuca porque nos torna desconfiados.
Faz apenas o que amas e serás feliz. Aquele que faz o que ama está benditamente condenado ao sucesso, que chegará quando for a hora, porque o que deve ser será e chegará de forma natural.
Não faças coisa alguma por obrigação ou por compromisso, apenas por amor. Então terás plenitude e nessa plenitude tudo é possível sem esforço, porque és movido pela força natural da vida, a mesma que me ergueu quando caiu o avião que levava minha mulher e minha filha; a mesma que me manteve vivo quando os médicos me deram três ou quatro meses de vida.
Deus te tornou responsável porém como ser humano que és tu. Deves trazer felicidade e liberdade para ti mesmo. E só então poderás compartilhar a vida com os outros.
Lembra-te: Amarás o próximo como a ti mesmo. Reconcilia-se contigo, coloca-te na frente do espelho e pensa que esta criatura que vês é uma obra de Deus, e decide neste exato momento ser feliz, porque a felicidade é uma aquisição. Aliás, a felicidade não é um direito, mas um dever, porque se não fores feliz estarás levando amargura para todos os teus vizinhos.
Um único homem, que não possuía talento ou valor para viver, mandou matar seis milhões de judeus, seus irmãos.
Existem tantas coisas para experimentar e a passagem pela Terra é tão curta, que sofrer é uma perda de tempo. Podemos experimentar: a neve no inverno, as flores na primavera, o chocolate de Peruggia, a baguete francesa, os tacos mexicanos, o vinho chileno, os mares, os rios, o futebol dos brasileiros, As Mil e Uma Noites, A Divina Comédia, Dom Quixote, Pedro Páramo, os boleros de Manzanero, as poesias de Whitman, a música de Mahler, Chopin, Bethoven, as pinturas de Caravaggio, Rembrandt, Velasquez, Picasso e Tamayo, entre tantas outras coisas.
Se estás com câncer ou AIDS podem acontecer duas coisas, e ambas são positivas: se a doença ganha, te liberta do corpo que é cheio de processos (tenho fome, tenho sono, tenho vontades, tenho dúvidas). Se tu vences serás mais humilde, mais agradecido, portanto, facilmente feliz, livre do enorme peso da culpa, da responsabilidade e da vaidade, disposto a viver cada instante profundamente. Como deve ser.
Não estás deprimido, estás desocupado.
Ajuda a criança que precisa de ti, essa criança será sócia do teu filho. Ajuda os velhos, e os jovens te ajudarão quando chegar a tua vez. Aliás, o serviço prestado é uma forma segura de ser feliz, como é gostar da natureza e cuidar dela para os que virão.
Dá sem medida e receberás sem
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Psicoterapeuta / Psicólogo Clínico - Membro do Colégio Internacional de Terapeutas (Terapeutas de Alexandria) – Terapeuta Holístico - Pós graduado em Arteterapia e em Terapia Floral - Formação Holística de Base na Unipaz - Formação básica em Teologia pelo Centro Loyola de Fé e Cultura -PUC/RJ. Ger.de Rec.Humanos na Cia Souza Cruz Ind. e Comércio - Consultor empresarial - consultor Psicopedagógico dos projetos Sociais de Capacitação Solidária
5 de agosto de 2013
O pensamento do papa Francisco expresso nos primeiros 100 dias de seu pontificado
25 frases de Papa Francisco nos seus 100 dias de Pontificado.
> A IGREJA NÃO É UMA ONG PIEDOSA: « Podemos construir muitas coisas, mas se não cremos em Jesus Cristo, nos converteremos numa ONG humanitária, mas não na Igreja, Esposa do Senhor. A Igreja não é uma organização que nasce de um acordo entre pessoas, mas obra de Deus».
>
> UMA IGREJA POBRE PARA OS POBRES : «São Francisco de Assis é o homem que nos dá este espírito de paz, o homem pobre… Ah, como gostaria de uma Igreja pobre e para os pobres! A pobreza é aprendida com os humildes, os doentes e todos aqueles que estão nas periferias existenciais da vida. A pobreza teórica não serve para nós. A pobreza se aprende tocando a carne de Cristo pobre nos humildes, nos pobres, nos doentes e nas crianças».
>
> QUEM NÃO ORA AO SENHOR, ORA AO DIABO : «Quando não confessamos Jesus Cristo vem à minha mente aquela frase de Léon Bloy: “Quem não ora ao Senhor, ora ao diabo”. Quando não confessamos Jesus Cristo, confessamos o mundanismo do diabo, o mundanismo do demônio».
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> A IGREJA DEVE DEIXAR AS SACRISTIAS E OS CRISTÃOS DEVEM ORIENTAR-SE UNS AOS OUTROS : «Seguir, acompanhar a Cristo, permanecer com ele requer saída. Sair de si, da tentação de fechar-se em esquemas próprios que acabam por fechar o horizonte da ação criativa de Deus. (…) Temos de avançar ao encontro de nossos irmãos e irmãs, e especialmente de aqueles que estão mais distantes, que são esquecidos, quem precisa de compreensão, consolo e ajuda».
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> DEUS NÃO SE CANSA DE PERDOAR: «O Senhor nunca se cansa de perdoar. Nunca! Somos nós que nos cansamos de pedir perdão. E peçamos a graça de não cansar-nos de pedir perdão, porque ele nunca se cansa nos perdoar».
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> UM PAPA DE SERVIÇO, NÃO DE PODER : «Não podemos esquecer que o verdadeiro poder é o serviço e que o Papa, para exercer o poder também deve entrar cada vez mais nesse serviço que tem o seu cume brilhante na Cruz».
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> PASTORES COM CHEIRO DAS OVELHAS : «Existem padres tristes, e convertidos em colecionadores de antiguidades ou de novidades, em vez de ser pastores com cheiro das ovelhas, em vez de ser pastores no meio de seu rebanho e pescadores de homens; só lhes peço o seguinte: sejam pastores com cheiro das ovelhas».
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> NÃO, VOCÊ NÃO PODE ANUNCIAR JESUS COM CARA DE FUNERAL :«Não sejam nunca mulheres e homens tristes: um cristão não pode estar nunca triste! Não se deixem ganhar nunca pelo desânimo! Quero católicos felizes. Não se pode anunciar a Jesus com cara de funeral».
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> UMA IGREJA QUE CUIDA A CRIAÇÃO: «Nós somos guardiões da Criação, do projeto de Deus inscrito na natureza, guardiões do outro, do meio ambiente. A pessoa humana está em perigo: eis aqui a urgência da ecologia humana!»
>
> DESPERDIÇAR COMIDA É ROUBAR: «Em muitas partes do mundo, não obstante a fome e a desnutrição se desperdiçam alimentos. Quando o alimento é compartilhado do modo justo, a ninguém falta o necessário. Os alimentos que são jogados no lixo são os alimentos que são roubados da mesa do pobre, do que tem fome».
>
> CONTRA A CULTURA DO DESCARTE : «Egoísmo e cultura do descartado levaram a descartar as pessoas mais fracas e necessitadas».
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> CONTRA A CULTURA DO BEM-ESTAR: «Dizem: ’Não, não, não mais do que um filho, porque não podemos ter férias, não pode ir a este lugar, não podemos comprar casa. É bom seguir o Senhor, mas até certo ponto’. Isso é o que faz o bem-estar: nos leva para baixo, nos tira a coragem, essa coragem forte para caminhar perto de Jesus».
>
> CONTRA A TIRANIA DOS MERCADOS E O CULTO DO DINHEIRO: «O antigo culto ao bezerro de ouro encontrou uma imagem nova e cruel no fetichismo do dinheiro e a ditadura de uma economia que não tem cara. Hoje não manda o homem, mas o dinheiro. O dinheiro deveria servir e não governar!»
>
> RESPEITO AOS QUE NÃO CRÊEM: «Considerando que muitos de vocês não pertencem à Igreja Católica e outros não creem, dou-lhes com todo o meu coração esta bênção, em silêncio, para cada um de vocês, respeitando a consciência de cada um, mas sabendo que todos são filhos de Deus. Deus lhes abençoe».
>
> ATEUS TAMBÉM SÃO SALVOS: «O Senhor nos salvou com seu sangue, não só aos católicos. ‘Mas padre, e os ateus?’ Também a eles. Todos! Este Sangue nos faz filhos de Deus de primeira categoria. ‘Mas eu não creio, padre, sou um ateu!’ Mas você faz o bem, e ali nos encontramos todos! Todos temos o dever de fazer o bem».
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> A IGREJA NÃO É UMA ALFÂNDEGA : «Pensem numa jovem mãe, que vai à igreja: ‘quero batizar o meu filho’. E dizem para ela: ‘Não, não pode porque você não é casada’. Esta jovem, que teve a coragem de realizar a sua gravidez e não devolveu seu filho ao remetente, o que encontra? Uma porta fechada! Isso afasta do Senhor! Jesus fica indignado quando vê estas coisas. Muitas vezes nos comportamos como controladores de fé e não como facilitadores. A Igreja não é uma estância aduaneira. Oremos ao Senhor para que todos aqueles que se aproximem à Igreja encontrem as portas abertas».
>
> UMA IGREJA LIVRE DAS IDEOLOGIAS: «Os ideólogos falsificam o Evangelho. Qualquer interpretação ideológica, vinda de uma parte ou de outra, é uma falsificação do Evangelho. Estes ideólogos – e já vimos na história da igreja – acabam tornando-se intelectuais sem talento, éticos sem bondade. E da beleza, nem falemos, já que eles não entendem nada».
>
> JESUS, ÚNICA PORTA: «Jesus é a única porta para entrar no Reino de Deus; Todas as outras trilhas são enganosas, não são verdadeiras, são falsas. […] A identidade cristã é uma pertença à Igreja… porque não é possível encontrar Jesus fora da Igreja».
>
> AS FREIRAS NÃO SÃO “SOLTEIRONAS”: «A castidade é um carisma que estende a liberdade da entrega a Deus e aos demais com a ternura, a misericórdia e a proximidade de Cristo (…). Mas, por favor, uma castidade fecunda, uma castidade que gera filhos espirituais na Igreja. A consagrada é mãe, tem de ser mãe e não uma solteirona. Perdoe-me se eu falo assim, mas é importante esta maternidade da vida consagrada, esta fecundidade».
>
> A ORAÇÃO NÃO É UM ABORRECIMENTO, NEM A ETERNIDADE: «A oração que é aborrecida é a que está dentro de nós mesmos como um pensamento que vai e vem; a oração em nome de Jesus nos faz sair de nós mesmos. […] A eternidade vai ser isto: louvar a Deus. Mas não vai ser aborrecido, será muito lindo».
>
> A CONFISSÃO NÃO É UMA SESSÃO DE TORTURA OU UMA LAVANDERIA: «Jesus, no confessionário, não é um produto de limpeza a seco. A possibilidade de ter vergonha é uma verdadeira virtude cristã e até mesmo humana. Santa vergonha (…). Assim é como tomamos consciência do mal feito (…) e se amanhã fazer a mesma coisa? Ir novamente… Ele sempre nos espera. O confessionário não é uma sessão de tortura, mas o lugar onde Deus nos convida a experimentar a sua ternura».
>
> DEUS NÃO É UM SPRAY: «Deus é uma pessoa específica, não um Deus difuso, um Deus spray, que está um pouco por toda parte, mas que não se sabe o que é».
>
> A IGREJA NÃO É UMA BABÁ: «Se anunciamos a mudança, a Igreja se converte numa igreja mãe que gera filhos, para que nós, filhos da Igreja, levemos (o Espírito Santo). Mas quando não o fazemos, a Igreja se torna não em uma mãe mas numa babá, que cuida da criança para fazê-la dormir. É uma igreja adormecida».
>
> PECADORES SIM, CORRUPTOS NÃO: «O problema não é ser pecadores, mas não se arrepender do pecado, não ter vergonha do que fizemos. Mesmo que Pedro fosse pecador, Jesus manteve sua promessa de construir sobre ele a sua Igreja. Pedro era pecador, mas não corrupto. Pecadores, sim, todos: corruptos, não».
>
> QUE OS CRISTÃOS TRABALHEM NA POLÍTICA: «Os cristãos não podem lavar-se as mãos, devemos entrar na política porque a política é uma das formas mais altas de caridade porque busca o bem comum. Os cristãos devem trabalhar na política. A política é suja, se diz. Mas, por quê? Será porque os cristãos não entraram nela com o espírito do Evangelho?»
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Papa Francisco
Psicoterapeuta / Psicólogo Clínico - Membro do Colégio Internacional de Terapeutas (Terapeutas de Alexandria) – Terapeuta Holístico - Pós graduado em Arteterapia e em Terapia Floral - Formação Holística de Base na Unipaz - Formação básica em Teologia pelo Centro Loyola de Fé e Cultura -PUC/RJ. Ger.de Rec.Humanos na Cia Souza Cruz Ind. e Comércio - Consultor empresarial - consultor Psicopedagógico dos projetos Sociais de Capacitação Solidária
4 de agosto de 2013
Frei Tito por ele mesmo - Relato da tortura
Este é um documento histórico para ser preservado e lido pelas gerações futuras para que possam avaliar o horror deste anos de chumbo.
As próprias pedras gritarão
Este é o depoimento de um preso político, frei Tito de Alencar Lima, 24 anos. Dominicano. (redigido por ele mesmo na prisão). Este depoimento escrito em fevereiro de 1970 saiu clandestinamente da prisão e foi publicado, entre outros, pelas revistas Look e Europeo.
Fui levado do presídio Tiradentes para a "Operação Bandeirantes", OB (Polícia do Exército), no dia 17 de fevereiro de 1970, 3ª feira, às 14 horas. O capitão Maurício veio buscar-me em companhia de dois policiais e disse: "Você agora vai conhecer a sucursal do inferno". Algemaram minhas mãos, jogaram me no porta-malas da perua. No caminho as torturas tiveram início: cutiladas na cabeça e no pescoço, apontavam-me seus revólveres.
Preso desde novembro de 1969, eu já havia sido torturado no DOPS. Em dezembro, tive minha prisão preventiva decretada pela 2ª auditoria de guerra da 2ª região militar. Fiquei sob responsabilidade do juiz auditor dr Nelson Guimarães. Soube posteriormente que este juiz autorizara minha ida para a OB sob “garantias de integridade física”.
Ao chegar à OB fui conduzido à sala de interrogatórios. A equipe do capitão Maurício passou a acarear-me com duas pessoas. O assunto era o Congresso da UNE em Ibiúna, em outubro de 1968. Queriam que eu esclarecesse fatos ocorridos naquela época. Apesar de declarar nada saber, insistiam para que eu “confessasse”. Pouco depois levaram me para o “pau-de-arara”. Dependurado nu, com mãos e pés amarrados, recebi choques elétricos, de pilha seca, nos tendões dos pés e na cabeça. Eram seis os torturadores, comandados pelo capitão Maurício. Davam-me "telefones" (tapas nos ouvidos) e berravam impropérios. Isto durou cerca de uma hora. Descansei quinze minutos ao ser retirado do "pau-de-arara". O interrogatório reiniciou. As mesmas perguntas, sob cutiladas e ameaças. Quanto mais eu negava mais fortes as pancadas. A tortura, alternada de perguntas, prosseguiu até às 20 horas. Ao sair da sala, tinha o corpo marcado de hematomas, o rosto inchado, a cabeça pe sada e dolorida. Um soldado, carregou-me até a cela 3, onde fiquei sozinho. Era uma cela de 3 x 2,5 m, cheia de pulgas e baratas. Terrível mau cheiro, sem colchão e cobertor. Dormi de barriga vazia sobre o cimento frio e sujo.
Na quarta-feira fui acordado às 8 h. Subi para a sala de interrogatórios onde a equipe do capitão Homero esperava-me. Repetiram as mesmas perguntas do dia anterior. A cada resposta negativa, eu recebia cutiladas na cabeça, nos braços e no peito. Nesse ritmo prosseguiram até o início da noite, quando serviram a primeira refeição naquelas 48 horas: arroz, feijão e um pedaço de carne. Um preso, na cela ao lado da minha, ofereceu-me copo, água e cobertor. Fui dormir com a advertência do capitão Homero de que no dia seguinte enfrentaria a “equipe da pesada”.
Na quinta-feira três policiais acordaram-me à mesma hora do dia anterior. De estômago vazio, fui para a sala de interrogatórios. Um capitão cercado por sua equipe, voltou às mesmas perguntas. "Vai ter que falar senão só sai morto daqui", gritou. Logo depois vi que isto não era apenas uma ameaça, era quase uma certeza. Sentaram-me na "cadeira do dragão" (com chapas metálicas e fios), descarregaram choques nas mãos, nos pés, nos ouvidos e na cabeça. Dois fios foram amarrados em minhas mãos e um na orelha esquerda. A cada descarga, eu estremecia todo, como se o organismo fosse se decompor. Da sessão de choques passaram-me ao "pau-de-arara". Mais choques, pauladas no peito e nas pernas a cada vez que elas se curvavam para aliviar a dor. Uma hora depois, com o corpo todo ferido e sangrando, desmaiei. Fui desamarrado e reanimado. Conduziram-me a outra sala dizendo que passariam a carga elétrica para 230 volts a fim de que eu falasse "antes de morrer". Não cheg aram a fazê-lo. Voltaram às perguntas, batiam em minhas mãos com palmatória. As mãos ficaram roxas e inchadas, a ponto de não ser possível fechá-las. Novas pauladas. Era impossível saber qual parte do corpo doía mais; tudo parecia massacrado. Mesmo que quisesse, não poderia responder às perguntas: o raciocínio não se ordenava mais, restava apenas o desejo de perder novamente os sentidos. Isto durou até às 10 h quando chegou o capitão Albernaz.
"Nosso assunto agora é especial", disse o capitão Albernaz, ligou os fios em meus membros. "Quando venho para a OB - disse - deixo o coração em casa. Tenho verdadeiro pavor a padre e para matar terrorista nada me impede... Guerra é guerra, ou se mata ou se morre. Você deve conhecer fulano e sicrano (citou os nomes de dois presos políticos que foram barbaramente torturados por ele), darei a você o mesmo tratamento que dei a eles: choques o dia todo. Todo "não" que você disser, maior a descarga elétrica que vai receber". Eram três militares na sala. Um deles gritou: "Quero nomes e aparelhos (endereços de pessoas)". Quando respondi: "não sei" recebi uma descarga elétrica tão forte, diretamente ligada à tomada, que houve um descontrole em minhas funções fisiológicas. O capitão Albernaz queria que eu dissesse onde estava o Frei Ratton. Como não soubesse, levei choques durante quarenta minutos.
Queria os nomes de outros padres de São Paulo, Rio e Belo Horizonte "metidos na subversão". Partiu para a ofensa moral: "Quais os padres que têm amantes? Por que a Igreja não expulsou vocês? Quem são os outros padres terroristas?". Declarou que o interrogatório dos dominicanos feito pele DEOPS tinha sido "a toque de caixa" e que todos os religiosos presos iriam à OB prestar novos depoimentos. Receberiam também o mesmo "tratamento". Disse que a "Igreja é corrupta, pratica agiotagem, o Vaticano é dono das maiores empresas do mundo". Diante de minhas negativas, aplicavam-me choques, davam-me socos, pontapés e pauladas nas costas. À certa altura, o capitão Albernaz mandou que eu abrisse a boca "para receber a hóstia sagrada". Introduziu um fio elétrico. Fiquei com a boca toda inchada, sem poder falar direito. Gritaram difamações contra a Igreja, berraram que os padres são homossexuais porque não se casam. Às 14 horas encerraram a sessão. Carregado, voltei à cela onde fiquei estirado no chão.
Às 18 horas serviram jantar, mas não consegui comer. Minha boca era uma ferida só. Pouco depois levaram-me para uma "explicação". Encontrei a mesma equipe do capitão Albernaz. Voltaram às mesmas perguntas. Repetiram as difamações. Disse que, em vista de minha resistência à tortura, concluíram que eu era um guerrilheiro e devia estar escondendo minha participação em assaltos a bancos. O "interrogatório" reiniciou para que eu confessasse os assaltos: choques, pontapés nos órgãos genitais e no estomago palmatórias, pontas de cigarro no meu corpo. Durante cinco horas apanhei como um cachorro. No fim, fizeram-me passar pelo "corredor polonês". Avisaram que aquilo era a estréia do que iria ocorrer com os outros dominicanos. Quiseram me deixar dependurado toda a noite no "pau-de-arara". Mas o capitão Albernaz objetou: "não é preciso, vamos ficar com ele aqui mais dias. Se não falar, será quebrado por dentro, pois sabemos fazer as coisas sem deixar marcas visíveis". "Se sobreviver, jamais esquecerá o preço de sua valentia".
Na cela eu não conseguia dormir. A dor crescia a cada momento. Sentia a cabeça dez vezes maior do que o corpo. Angustiava-me a possibilidade de os outros padres sofrerem o mesmo. Era preciso pôr um fim àquilo. Sentia que não iria aguentar mais o sofrimento prolongado. Só havia uma solução: matar-me.
Na cela cheia de lixo, encontrei uma lata vazia. Comecei a amolar sua ponta no cimento. O preso ao lado pressentiu minha decisão e pediu que eu me acalmasse. Havia sofrido mais do que eu (teve os testículos esmagados) e não chegara ao desespero. Mas no meu caso, tratava-se de impedir que outros viessem a ser torturados e de denunciar à opinião pública e à Igreja o que se passa nos cárceres brasileiros. Só com o sacrifício de minha vida isto seria possível, pensei. Como havia um Novo Testamento na cela, li a Paixão segundo São Mateus. O Pai havia exigido o sacrifício do Filho como prova de amor aos homens. Desmaiei envolto em dor e febre.
Na sexta-feira fui acordado por um policial. Havia ao meu lado um novo preso: um rapaz português que chorava pelas torturas sofridas durante a madrugada. O policial advertiu-me: "o senhor tem hoje e amanhã para decidir falar. Senão a turma da pesada repete o mesmo pau. Já perderam a paciência e estão dispostos a matá-lo aos pouquinhos". Voltei aos meus pensamentos da noite anterior. Nos pulsos, eu havia marcado o lugar dos cortes. Continuei amolando a lata. Ao meio-dia tiraram-me para fazer a barba. Disseram que eu iria para a penitenciária. Raspei mal a barba, voltei à cela. Passou um soldado. Pedi que me emprestasse a "gillete" para terminar a barba. O português dormia. Tomei a gillete. Enfiei-a com força na dobra interna do cotovelo, no braço esquerdo. O corte fundo atingiu a artéria. O jato de sangue manchou o chão da cela. Aproximei-me da privada, apertei o braço para que o sangue jorrasse mais depressa. Mais tarde recobrei os sentidos num leito do pron to-socorro do Hospital das Clínicas. No mesmo dia transferiram-me para um leito do Hospital Militar. O Exército temia a repercussão, não avisaram a ninguém do que ocorrera comigo. No corredor do Hospital Militar, o capitão Maurício dizia desesperado aos médicos: "Doutor, ele não pode morrer de jeito nenhum. Temos que fazer tudo, senão estamos perdidos". No meu quarto a OB deixou seis soldados de guarda.
No sábado teve início a tortura psicológica. Diziam: "A situação agora vai piorar para você, que é um padre suicida e terrorista. A Igreja vai expulsá-lo". Não deixavam que eu repousasse. Falavam o tempo todo, jogavam, contavam-me estranhas histórias. Percebi logo que, a fim de fugirem à responsabilidade de meu ato e o justificarem, queriam que eu enlouquecesse.
Na segunda noite recebi a visita do juiz auditor acompanhado de um padre do Convento e um bispo auxiliar de São Paulo. Haviam sido avisados pelos presos políticos do presídio Tiradentes. Um médico do hospital examinou-me à frente deles mostrando os hematomas e cicatrizes, os pontos recebidos no hospital das Clínicas e as marcas de tortura. O juiz declarou que aquilo era "uma estupidez" e que iria apurar responsabilidades. Pedi a ele garantias de vida e que eu não voltaria à OB, o que prometeu.
De fato fui bem tratado pelos militares do Hospital Militar, exceto os da OB que montavam guarda em meu quarto. As irmãs vicentinas deram-me toda a assistência necessária Mas não se cumpriu a promessa do juiz. Na sexta-feira, dia 27, fui levado de manhã para a OB. Fiquei numa cela até o fim da tarde sem comer. Sentia-me tonto e fraco, pois havia perdido muito sangue e os ferimentos começavam a cicatrizar-se. À noite entregaram-me de volta ao Presídio Tiradentes.
É preciso dizer que o que ocorreu comigo não é exceção, é regra. Raros os presos políticos brasileiros que não sofreram torturas. Muitos, como Schael Schneiber e Virgílio Gomes da Silva, morreram na sala de torturas. Outros ficaram surdos, estéreis ou com outros defeitos físicos. A esperança desses presos coloca-se na Igreja, única instituição brasileira fora do controle estatal-militar. Sua missão é: defender e promover a dignidade humana. Onde houver um homem sofrendo, é o Mestre que sofre. É hora de nossos bispos dizerem um BASTA às torturas e injustiças promovidas pelo regime, antes que seja tarde.
A Igreja não pode omitir-se. As provas das torturas trazemos no corpo. Se a Igreja não se manifestar contra essa situação, quem o fará? Ou seria necessário que eu morresse para que alguma atitude fosse tomada? Num momento como este o silêncio é omissão. Se falar é um risco, é muito mais um testemunho. A Igreja existe como sinal e sacramento da justiça de Deus no mundo.
"Não queremos, irmãos, que ignoreis a tribulação que nos sobreveio. Fomos maltratados desmedidamente, além das nossas forças, a ponto de termos perdido a esperança de sairmos com vida. Sentíamos dentro de nós mesmos a sentença de morte: deu-se isso para que saibamos pôr a nossa confiança, não em nós, mas em Deus, que ressuscita os mortos" (2Cor, 8-9).
Faço esta denúncia e este apelo a fim de que se evite amanhã a triste notícia de mais um morto pelas torturas.
Frei Tito de Alencar Lima, OP
Fevereiro de 1970
As próprias pedras gritarão
Este é o depoimento de um preso político, frei Tito de Alencar Lima, 24 anos. Dominicano. (redigido por ele mesmo na prisão). Este depoimento escrito em fevereiro de 1970 saiu clandestinamente da prisão e foi publicado, entre outros, pelas revistas Look e Europeo.
Fui levado do presídio Tiradentes para a "Operação Bandeirantes", OB (Polícia do Exército), no dia 17 de fevereiro de 1970, 3ª feira, às 14 horas. O capitão Maurício veio buscar-me em companhia de dois policiais e disse: "Você agora vai conhecer a sucursal do inferno". Algemaram minhas mãos, jogaram me no porta-malas da perua. No caminho as torturas tiveram início: cutiladas na cabeça e no pescoço, apontavam-me seus revólveres.
Preso desde novembro de 1969, eu já havia sido torturado no DOPS. Em dezembro, tive minha prisão preventiva decretada pela 2ª auditoria de guerra da 2ª região militar. Fiquei sob responsabilidade do juiz auditor dr Nelson Guimarães. Soube posteriormente que este juiz autorizara minha ida para a OB sob “garantias de integridade física”.
Ao chegar à OB fui conduzido à sala de interrogatórios. A equipe do capitão Maurício passou a acarear-me com duas pessoas. O assunto era o Congresso da UNE em Ibiúna, em outubro de 1968. Queriam que eu esclarecesse fatos ocorridos naquela época. Apesar de declarar nada saber, insistiam para que eu “confessasse”. Pouco depois levaram me para o “pau-de-arara”. Dependurado nu, com mãos e pés amarrados, recebi choques elétricos, de pilha seca, nos tendões dos pés e na cabeça. Eram seis os torturadores, comandados pelo capitão Maurício. Davam-me "telefones" (tapas nos ouvidos) e berravam impropérios. Isto durou cerca de uma hora. Descansei quinze minutos ao ser retirado do "pau-de-arara". O interrogatório reiniciou. As mesmas perguntas, sob cutiladas e ameaças. Quanto mais eu negava mais fortes as pancadas. A tortura, alternada de perguntas, prosseguiu até às 20 horas. Ao sair da sala, tinha o corpo marcado de hematomas, o rosto inchado, a cabeça pe sada e dolorida. Um soldado, carregou-me até a cela 3, onde fiquei sozinho. Era uma cela de 3 x 2,5 m, cheia de pulgas e baratas. Terrível mau cheiro, sem colchão e cobertor. Dormi de barriga vazia sobre o cimento frio e sujo.
Na quarta-feira fui acordado às 8 h. Subi para a sala de interrogatórios onde a equipe do capitão Homero esperava-me. Repetiram as mesmas perguntas do dia anterior. A cada resposta negativa, eu recebia cutiladas na cabeça, nos braços e no peito. Nesse ritmo prosseguiram até o início da noite, quando serviram a primeira refeição naquelas 48 horas: arroz, feijão e um pedaço de carne. Um preso, na cela ao lado da minha, ofereceu-me copo, água e cobertor. Fui dormir com a advertência do capitão Homero de que no dia seguinte enfrentaria a “equipe da pesada”.
Na quinta-feira três policiais acordaram-me à mesma hora do dia anterior. De estômago vazio, fui para a sala de interrogatórios. Um capitão cercado por sua equipe, voltou às mesmas perguntas. "Vai ter que falar senão só sai morto daqui", gritou. Logo depois vi que isto não era apenas uma ameaça, era quase uma certeza. Sentaram-me na "cadeira do dragão" (com chapas metálicas e fios), descarregaram choques nas mãos, nos pés, nos ouvidos e na cabeça. Dois fios foram amarrados em minhas mãos e um na orelha esquerda. A cada descarga, eu estremecia todo, como se o organismo fosse se decompor. Da sessão de choques passaram-me ao "pau-de-arara". Mais choques, pauladas no peito e nas pernas a cada vez que elas se curvavam para aliviar a dor. Uma hora depois, com o corpo todo ferido e sangrando, desmaiei. Fui desamarrado e reanimado. Conduziram-me a outra sala dizendo que passariam a carga elétrica para 230 volts a fim de que eu falasse "antes de morrer". Não cheg aram a fazê-lo. Voltaram às perguntas, batiam em minhas mãos com palmatória. As mãos ficaram roxas e inchadas, a ponto de não ser possível fechá-las. Novas pauladas. Era impossível saber qual parte do corpo doía mais; tudo parecia massacrado. Mesmo que quisesse, não poderia responder às perguntas: o raciocínio não se ordenava mais, restava apenas o desejo de perder novamente os sentidos. Isto durou até às 10 h quando chegou o capitão Albernaz.
"Nosso assunto agora é especial", disse o capitão Albernaz, ligou os fios em meus membros. "Quando venho para a OB - disse - deixo o coração em casa. Tenho verdadeiro pavor a padre e para matar terrorista nada me impede... Guerra é guerra, ou se mata ou se morre. Você deve conhecer fulano e sicrano (citou os nomes de dois presos políticos que foram barbaramente torturados por ele), darei a você o mesmo tratamento que dei a eles: choques o dia todo. Todo "não" que você disser, maior a descarga elétrica que vai receber". Eram três militares na sala. Um deles gritou: "Quero nomes e aparelhos (endereços de pessoas)". Quando respondi: "não sei" recebi uma descarga elétrica tão forte, diretamente ligada à tomada, que houve um descontrole em minhas funções fisiológicas. O capitão Albernaz queria que eu dissesse onde estava o Frei Ratton. Como não soubesse, levei choques durante quarenta minutos.
Queria os nomes de outros padres de São Paulo, Rio e Belo Horizonte "metidos na subversão". Partiu para a ofensa moral: "Quais os padres que têm amantes? Por que a Igreja não expulsou vocês? Quem são os outros padres terroristas?". Declarou que o interrogatório dos dominicanos feito pele DEOPS tinha sido "a toque de caixa" e que todos os religiosos presos iriam à OB prestar novos depoimentos. Receberiam também o mesmo "tratamento". Disse que a "Igreja é corrupta, pratica agiotagem, o Vaticano é dono das maiores empresas do mundo". Diante de minhas negativas, aplicavam-me choques, davam-me socos, pontapés e pauladas nas costas. À certa altura, o capitão Albernaz mandou que eu abrisse a boca "para receber a hóstia sagrada". Introduziu um fio elétrico. Fiquei com a boca toda inchada, sem poder falar direito. Gritaram difamações contra a Igreja, berraram que os padres são homossexuais porque não se casam. Às 14 horas encerraram a sessão. Carregado, voltei à cela onde fiquei estirado no chão.
Às 18 horas serviram jantar, mas não consegui comer. Minha boca era uma ferida só. Pouco depois levaram-me para uma "explicação". Encontrei a mesma equipe do capitão Albernaz. Voltaram às mesmas perguntas. Repetiram as difamações. Disse que, em vista de minha resistência à tortura, concluíram que eu era um guerrilheiro e devia estar escondendo minha participação em assaltos a bancos. O "interrogatório" reiniciou para que eu confessasse os assaltos: choques, pontapés nos órgãos genitais e no estomago palmatórias, pontas de cigarro no meu corpo. Durante cinco horas apanhei como um cachorro. No fim, fizeram-me passar pelo "corredor polonês". Avisaram que aquilo era a estréia do que iria ocorrer com os outros dominicanos. Quiseram me deixar dependurado toda a noite no "pau-de-arara". Mas o capitão Albernaz objetou: "não é preciso, vamos ficar com ele aqui mais dias. Se não falar, será quebrado por dentro, pois sabemos fazer as coisas sem deixar marcas visíveis". "Se sobreviver, jamais esquecerá o preço de sua valentia".
Na cela eu não conseguia dormir. A dor crescia a cada momento. Sentia a cabeça dez vezes maior do que o corpo. Angustiava-me a possibilidade de os outros padres sofrerem o mesmo. Era preciso pôr um fim àquilo. Sentia que não iria aguentar mais o sofrimento prolongado. Só havia uma solução: matar-me.
Na cela cheia de lixo, encontrei uma lata vazia. Comecei a amolar sua ponta no cimento. O preso ao lado pressentiu minha decisão e pediu que eu me acalmasse. Havia sofrido mais do que eu (teve os testículos esmagados) e não chegara ao desespero. Mas no meu caso, tratava-se de impedir que outros viessem a ser torturados e de denunciar à opinião pública e à Igreja o que se passa nos cárceres brasileiros. Só com o sacrifício de minha vida isto seria possível, pensei. Como havia um Novo Testamento na cela, li a Paixão segundo São Mateus. O Pai havia exigido o sacrifício do Filho como prova de amor aos homens. Desmaiei envolto em dor e febre.
Na sexta-feira fui acordado por um policial. Havia ao meu lado um novo preso: um rapaz português que chorava pelas torturas sofridas durante a madrugada. O policial advertiu-me: "o senhor tem hoje e amanhã para decidir falar. Senão a turma da pesada repete o mesmo pau. Já perderam a paciência e estão dispostos a matá-lo aos pouquinhos". Voltei aos meus pensamentos da noite anterior. Nos pulsos, eu havia marcado o lugar dos cortes. Continuei amolando a lata. Ao meio-dia tiraram-me para fazer a barba. Disseram que eu iria para a penitenciária. Raspei mal a barba, voltei à cela. Passou um soldado. Pedi que me emprestasse a "gillete" para terminar a barba. O português dormia. Tomei a gillete. Enfiei-a com força na dobra interna do cotovelo, no braço esquerdo. O corte fundo atingiu a artéria. O jato de sangue manchou o chão da cela. Aproximei-me da privada, apertei o braço para que o sangue jorrasse mais depressa. Mais tarde recobrei os sentidos num leito do pron to-socorro do Hospital das Clínicas. No mesmo dia transferiram-me para um leito do Hospital Militar. O Exército temia a repercussão, não avisaram a ninguém do que ocorrera comigo. No corredor do Hospital Militar, o capitão Maurício dizia desesperado aos médicos: "Doutor, ele não pode morrer de jeito nenhum. Temos que fazer tudo, senão estamos perdidos". No meu quarto a OB deixou seis soldados de guarda.
No sábado teve início a tortura psicológica. Diziam: "A situação agora vai piorar para você, que é um padre suicida e terrorista. A Igreja vai expulsá-lo". Não deixavam que eu repousasse. Falavam o tempo todo, jogavam, contavam-me estranhas histórias. Percebi logo que, a fim de fugirem à responsabilidade de meu ato e o justificarem, queriam que eu enlouquecesse.
Na segunda noite recebi a visita do juiz auditor acompanhado de um padre do Convento e um bispo auxiliar de São Paulo. Haviam sido avisados pelos presos políticos do presídio Tiradentes. Um médico do hospital examinou-me à frente deles mostrando os hematomas e cicatrizes, os pontos recebidos no hospital das Clínicas e as marcas de tortura. O juiz declarou que aquilo era "uma estupidez" e que iria apurar responsabilidades. Pedi a ele garantias de vida e que eu não voltaria à OB, o que prometeu.
De fato fui bem tratado pelos militares do Hospital Militar, exceto os da OB que montavam guarda em meu quarto. As irmãs vicentinas deram-me toda a assistência necessária Mas não se cumpriu a promessa do juiz. Na sexta-feira, dia 27, fui levado de manhã para a OB. Fiquei numa cela até o fim da tarde sem comer. Sentia-me tonto e fraco, pois havia perdido muito sangue e os ferimentos começavam a cicatrizar-se. À noite entregaram-me de volta ao Presídio Tiradentes.
É preciso dizer que o que ocorreu comigo não é exceção, é regra. Raros os presos políticos brasileiros que não sofreram torturas. Muitos, como Schael Schneiber e Virgílio Gomes da Silva, morreram na sala de torturas. Outros ficaram surdos, estéreis ou com outros defeitos físicos. A esperança desses presos coloca-se na Igreja, única instituição brasileira fora do controle estatal-militar. Sua missão é: defender e promover a dignidade humana. Onde houver um homem sofrendo, é o Mestre que sofre. É hora de nossos bispos dizerem um BASTA às torturas e injustiças promovidas pelo regime, antes que seja tarde.
A Igreja não pode omitir-se. As provas das torturas trazemos no corpo. Se a Igreja não se manifestar contra essa situação, quem o fará? Ou seria necessário que eu morresse para que alguma atitude fosse tomada? Num momento como este o silêncio é omissão. Se falar é um risco, é muito mais um testemunho. A Igreja existe como sinal e sacramento da justiça de Deus no mundo.
"Não queremos, irmãos, que ignoreis a tribulação que nos sobreveio. Fomos maltratados desmedidamente, além das nossas forças, a ponto de termos perdido a esperança de sairmos com vida. Sentíamos dentro de nós mesmos a sentença de morte: deu-se isso para que saibamos pôr a nossa confiança, não em nós, mas em Deus, que ressuscita os mortos" (2Cor, 8-9).
Faço esta denúncia e este apelo a fim de que se evite amanhã a triste notícia de mais um morto pelas torturas.
Frei Tito de Alencar Lima, OP
Fevereiro de 1970
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FREI TITO,
Teologia da Libertação
Psicoterapeuta / Psicólogo Clínico - Membro do Colégio Internacional de Terapeutas (Terapeutas de Alexandria) – Terapeuta Holístico - Pós graduado em Arteterapia e em Terapia Floral - Formação Holística de Base na Unipaz - Formação básica em Teologia pelo Centro Loyola de Fé e Cultura -PUC/RJ. Ger.de Rec.Humanos na Cia Souza Cruz Ind. e Comércio - Consultor empresarial - consultor Psicopedagógico dos projetos Sociais de Capacitação Solidária
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