O absurdo e a Graça

Na vida hoje caminhamos entre uma fome que condena ao sofrimento uma enorme parcela da humanidade e uma tecnologia moderníssima que garante um padrão de conforto e bem estar nunca antes imaginado. Um bilhão de seres humanos estão abaixo da linha da pobreza, na mais absoluta miséria, passam FOME ! Com a tecnologia que foi inventada seria possível produzir alimentos e acabar com TODA a fome no mundo, não fossem os interesses de alguns grupos detentores da tecnologia e do poder. "Para mim, o absurdo e a graça não estão mais separados. Dizer que "tudo é absurdo" ou dizer que "tudo é graça " é igualmente mentir ou trapacear... "Hoje a graça e o absurdo caminham, em mim lado a lado, não mais estranhos, mas estranhamente amigos" A cada dia, nas situações que se nos apresentam podemos decidir entre perpetuar o absurdo, ou promover a Graça. (Jean Yves Leloup) * O Blog tem o mesmo nome do livro autobiográfico de Jean Yves Leloup, e é uma forma de homenagear a quem muito tem me ensinado em seus livros retiros, seminários e workshops *

15 de agosto de 2014

O que é uma vida com êxito?


O famoso filósofo, teólogo ortodoxo e terapeuta Jean-Yves Leloup aponta
em palestra transcrita por Cláudio Azevedo o caminho da realização integral

Quem é que tem êxito? O que é a Vida? Jean-Yves diz que a Vida é algo que nos perpassa e que o êxito da vida se dá através de nós! Ele desenha um quadrado na tela, para representar essa vida em nós, baseado em Jung:

Razão Intuição
Sensação Emoção

1
Terra
Físico

Material

Sensação

Lucas

2
Água

Emocional

Afetivo

Emoção

Marcos

3
Fogo

Mental

Conhecimento

Razão

Mateus

4
Ar

Espiritual

Liberdade

Intuição

João



A palavra hebraica Shalom, traduzida como paz, na verdade tem o sentido de ‘ser-estar inteiro’. Só estaremos em paz se estivermos inteiros, e estar inteiro inclui todas essas quatro dimensões da existência: ter êxito nessas quatro dimensões. Mas o êxito inclui a aceitação de nossos fracassos. Aceitar nossos fracassos é reconhecer nossos limites!!

Mas estamos fragmentados! Para alguns o que interessa é o sentir, o tocar, o visualizar; para outros, o êxito afetivo-familiar ou sócio-profissional; para outros o êxito científico-intelectual; e para outros, o caminho da transcendência. Qual a nossa função dominante? Jean-Yves contrapõe ‘1’ e ‘4’ (sensação – intuição), o aterrado e o visionário, e ‘2’ e ‘3’ (emoção – razão), o compassivo e o inteligente, como caminhos complementares e não contrários.

Ele pergunta: como é o meu processo de tomada de decisões? Qual a minha função dominante? Quais as minhas funções esquecidas? Eu decido usando a razão ou num rompante de emoção? Eu decido esperando uma mensagem divina (ou angelical) ou usando meus instintos (a sabedoria que vem de minhas entranhas, de meu ventre)?

– Não existe outra realidade, a não ser a Realidade!

– Não existe outro infinito, a não ser o Infinito!

O que fez com que algumas de minhas funções adormecessem? O medo! Assim, ele pergunta: o que me dá medo?

• Recalcamos nossas sensações devido a experiências dolorosas vividas na infância, experiências registradas em meu corpo, traumas.

• Reprimimos nossos sentimentos, pois, no passado, nos deixamos levar por eles e acabamos sofrendo.

• Recalcamos e reprimimos nossa razão por traumas sofridos com as palavras e pensamentos dos outros. Passamos a desconfiar das palavras e pensamentos e não nos relacionamos bem com eles.

• Apesar disso, desconfiamos de tudo o que não pode ser explicado pela razão, dizendo simplesmente que não existe!

“Pouca ciência nos separa de Deus, mas muita ciência nos aproxima de Deus!”

Albert Einstein

Como viver essa síntese e integrar todos esses aspectos em nós; como viver essas inteligências: corporal, afetiva, racional e intuitiva? Como viver um momento de êxito, de inteireza, de Shalom? Para isso devemos estar atentos e perceber que funções nos dão medo e habitam em nós como sombras, esquecidas ou adormecidas. Jean-Yves pergunta: Como fazer minha sombra dançar com minha luz?

O lugar do êxito é no centro! Viver tudo a partir do Centro, nosso ‘Ponto C’. O que me falta para eu ser inteiro? Se há violência, é porque existe alguma necessidade não satisfeita! E temos quatro grandes delas: necessidades físicas, necessidade de reconhecimento, necessidade de conhecimento e necessidade de liberdade.

1. Necessidade de Segurança: como falar de êxito e de espiritualidade (ou de paz) a alguém que não tem o que comer, que não tem onde dormir ou que está doente?
2. Necessidade de Reconhecimento: como falar de êxito e de espiritualidade (ou de paz) para alguém que não é reconhecido como ser humano, na sua identidade humana? Temos necessidade de ser amados (da forma como somos) e de amar!
3. Necessidade de Conhecimento: como falar de êxito e de espiritualidade (ou de paz) se não sei qual o sentido de minha própria existência? Se não sei porque sofro?
4. Necessidade de Liberdade: como falar de êxito e de espiritualidade (ou de paz) se estou preso em meu próprio meio? Se não consigo sair de onde estou, se me sinto sufocado e sem ar? Com ter amigos e relacionamentos, mas me sentir livre?
– Sacramento é um gesto acompanhado de uma palavra...
Afinal, o que é uma refeição bem sucedida?? Preparar uma mesa pode ser como pintar um quadro: uma obra de arte! É necessário que tenha comida! É necessário que o alimento tenha qualidade! Mas também é necessário que tenha bons sentimentos à nossa volta, que boas palavras circulem no ambiente, nos fazendo aprender, e que nos sintamos livres para sair da mesa! Compartilhar o pão, o vinho, a amizade e as palavras, sem sermos obrigados a permanecer na mesa! Sem sermos sufocados!

– Como você gosta da sopa? – Quente e servida com amizade!

E o que é um casal bem sucedido? É necessário que a dimensão sexual exista! Em sua fecundidade, em seu prazer, em sua realização... é necessária muita paciência e muito respeito pelas memórias no corpo do outro: sua educação familiar, social e religiosa. É importante, também, a dimensão afetiva: a sexualidade com o coração presente! Com o coração presente nas mãos, o coração presente nos lábios. É importante que pelos lábios saiam palavras; saber o que o outro deseja, dizer-lhe: eu te amo. E também é importante a dimensão espiritual. Respeitar o caminho espiritual do outro:

– Eu respeito o que você pensa (e crê) e você respeita o que eu penso (e creio)!

Mas isso nem sempre é tão fácil! Não deixamos o outro livre em suas crenças! Temos que aprender a conhecer os nossos limites, e esses limites não incluem o outro! O que acontece é que amamos no outro uma imagem que temos de nós mesmos e quando o outro passa a ser ele mesmo nos decepcionamos. Queremos que o outro seja o que achamos que somos, quando deveríamos respeitar a dimensão corporal, afetiva, intelectual e espiritual do outro (e de nós mesmos). Orar juntos é tocar o Terceiro que existe entre nós dois...

Quando juntamos as mãos para orar, entre uma mão e a outra existe o espaço e sem o espaço não há uma mão separada da outra. O espaço entre as mãos é o que une e o que separa as mãos! O Terceiro é o Espaço entre os dois! O Terceiro é o Amor entre os dois! É Aquilo que nos une e nos diferencia, pois o outro não deve ser reduzido ao que eu sou nem eu ser reduzido ao que o outro é: “sem confusão (união) e sem separação!!

O vinho, em uma vida em comum, é despertar o deslumbramento e o embriagamento de estarmos juntos. E quando falta o vinho, quem deve ser chamado para nossas vidas? Cristo é quem transforma a água em vinho...

Pois tudo é solúvel no tempo! Do ponto de vista da pulsão (do instinto físico), fidelidade não existe! Do ponto de vista afetivo, fidelidade também não existe, pois podemos nos apaixonar por outro alguém. O mesmo ocorre do ponto de vista de uma escolha sensata e pensada. Quando as sensações e a paixão já não nos une, um projeto em comum, idéias e valores em comum, ou até pensamentos em comum, podem nos manter fiéis. Mas até isso é solúvel no tempo, pois nossos projetos, idéias, valores e pensamentos também mudam. E do ponto de vista religioso? Nossa religião muda, descobrimos outras práticas e religiões.

E o que é indissolúvel entre duas pessoas? Somente há união indissolúvel quando reconhecemos o Terceiro entre nós. Entre o amante e o amado existe o Amor. Somente o Amor, que está entre nós e nos perpassa, pode nos unir indissoluvelmente. Por isso devemos reconhecer essa Presença. Então, podemos não mais conviver juntos, mas uma ligação indelével persistirá! É o mesmo que acontece entre amigos que não mais convivem, mas que quando se encontram parece que nunca estiveram separados. É o que nos une quando as ligações sexual, afetiva, ideológica (profissional) ou religiosa se dissolvem no tempo.

E o que é uma empresa bem sucedida? Da mesma forma, as mesmas quatro dimensões têm que ser contempladas para o êxito. Uma empresa, no plano físico, tem que ganhar dinheiro, até por uma questão de justiça! Mas o que acontece é que a distribuição desse dinheiro se faz de uma forma não justa. Não há uma distribuição justa do lucro. Tem que haver respeito pelo trabalho de cada um, sem hierarquias de poder, mas hierarquias de competências. Reconhecer a nossa competência e a competência do outro.

Na tradição hebraica, numa cerimônia de casamento os noivos se coroam mutuamente. Isso é respeitar e reconhecer o outro e conduzir o outro à sua própria realização. Esse é o verdadeiro sentido do encontro com o outro, seja a dois, seja no campo das idéias, seja no campo profissional! Por isso a importância da dimensão afetiva, pois tenho que ir para a empresa em que trabalho por prazer. Além disso, temos que enriquecer culturalmente. Uma empresa tem que facilitar nosso aprendizado e nos manter crescendo intelectualmente.

Uma empresa com êxito é aquela que nos realiza internamente, que nos traz mais consciência e nos tira de nossos automatismos. Uma empresa que nos ajuda a, cada vez mais, sermos nós mesmos, a crescer em maturidade, a respeitar a liberdade dos outros funcionários é uma empresa que respeita a nossa própria liberdade.

Não podemos dar a nossa liberdade a ninguém, a nenhum patrão, a
nenhuma doutrina, pois Deus é a liberdade que existe em nós!

E o que é uma Igreja (um partido, ou uma Instituição) bem sucedida? Também temos que integrar os quatro níveis! Será que ela me torna mais vivo? Alimenta minhas fomes? Ou ela despreza o meu corpo? Será que ela me torna mais amoroso? Será que ela alimenta a minha confiança? Ou permanecemos desconfiando de todos os que não tem a nossa visão?

Será que ela me torna mais inteligente? Ou apenas me torna um repetidor de palavras e dogmas? Será que ela me ensina a pensar por mim mesmo? Ou minha própria reflexão não é respeitada?

E, por fim, será que ela me torna mais livre? Ou ela me torna mais culpado? Será que eu posso ir e vir? Será que ela me torna cada vez mais autônomo para viver em comunhão ou me distanciar quando sentir que devo, de acordo com os momentos de minha vida? Muitas vezes temos que usar um ‘barco’ (alguma doutrina) para nos ajudar a fazer alguma travessia em minha vida, mas depois que eu atravesso não há mais sentido em permanecer segurando o barco, pois isso vai retardar o meu prosseguir...

Liberdade é permitir que a vida se dê a cada momento, devemos permitir que a liberdade se expresse amorosamente... Existem coisas que não devem ser ditas, mas apenas cantadas, ou silenciadas... A beleza é o esplendor da Verdade (Platão), a beleza cura

E os nossos fracassos, o que fazemos com os nossos fracassos? Será que conseguimos ter êxito na doença, êxito na morte, êxito no divórcio, na falência ou no fracasso existencial? Será que nos deixamos expressar tanto a nossa grandeza quanto o nosso drama? Os nossos êxitos são apenas imagens que temos de nós mesmos. Quando o tempo passa, a fonte de nossos êxitos pode ser a fonte de nossa maior dor, quando não podemos mais sustentar o que fomos e conseguimos.

Uma vida bem sucedida é uma vida que responde ao nosso desejo. Mas não sabemos o que desejamos, no mais profundo de nosso ser. Qual o nosso desejo essencial? Para que estamos aqui? Qual o desejo da vida para conosco? O que podemos realizar que ninguém pode realizar? Os nossos fracassos são acontecimentos que nos trazem de volta ao essencial, pois num piscar de olhos podemos nos encontrar com a nossa fragilidade essencial.

Uma doença com êxito é quando fazemos dela uma ocasião de maturidade, um processo de Individuação acelerado. É quando somos o Sujeito, e não o objeto dos sintomas. É quando somos maiores que a doença. Sermos maiores que a doença é não nos identificarmos com ela. Tenho câncer, mas não sou o câncer.

O mais precioso no ser humano é sua maturidade, sua aceitação!

O fracasso nos traz à noção de Kairoz. Kairóz é uma ocasião de consciência, uma ocasião de crescimento, de despertar para algo mais elevado. Aliviar nossas dores sem perder a consciência... E o que é uma morte com êxito? Estamos preparados para morrer? A morte é sempre uma surpresa, algo inesperado, mas podemos fazer dela uma oferenda e um dom! O Livro Tibetano dos Mortos diz: que eu possa fazer desses derradeiros momentos, uma ocasião de despertar, para mim e para todos os seres!

Não é a morte que nos tira a vida, pois morrer é apenas perder nossos limites, perder o medo de morrer. A vida em mim prossegue sem o corpo. Não sou a vida que tenho, mas a vida que eu sou. Quando morro, eu vou para o local onde eu sou, onde estou desde sempre... Na realidade, a morte me aproxima da Vida que Sou. Aceitando minha vida mortal eu desperto para a minha dimensão eterna!!

Mas será que me lembrarei disso no momento de minha morte, quando passo para outro nível de realidade? A morte é a morte de uma realidade relativa!! Aceito que meu corpo e meu psiquismo nem sempre estão centrados no Ser que é, onde a morte sublime não aceita o medo. A doçura e a serenidade do intolerável demonstram que algo maior habita em nós mesmos e é maior que a nossa própria morte!! O desafio é nos abrir àquilo que não pode ser destruído...

Já estamos no Infinito, nosso inspirar vem do Infinito e retorna a Ele. Se soubéssemos o que existe no final de nosso expirar e antes de um inspirar, teríamos menos medo da morte. Amar é se dar; se perder... Não ter medo de morrer é não ter medo de viver nem de amar!! Um sofrimento, um fracasso ou uma doença com êxito é uma passagem para um novo nível de ser: uma Iniciação! A vida é um grande mestre, às vezes rude, às vezes doce! Um mestre zen usa um golpe de bastão para nos despertar. A vida não quer nos destruir, mas nos despertar para o melhor de nós mesmos.

Não devemos perdoar rápido demais, pois às vezes o que sofremos é real e devemos expressar isso, falar ao outro, reclamar justiça! Não é o ego que perdoa, mas o Self!! Às vezes é injusto demais, é nojento demais... e é por isso que chamamos Aquele que é maior que nós mesmos, que é capaz de amar o que o ‘eu’ não pode! Não somos obrigados a nos abrir a essa dimensão, mas nada pode nos impedir isso!!

O fracasso de um amor não é o fracasso do Amor!! Não devemos acrescentar culpa a um fracasso!

A cruz é o fracasso de um amor não aceito e a ressurreição nos mostra que o amor é maior que o fracasso! O sol brilha sobre o ouro e sobre o lixo, brilha até quando a janela está fechada! Aquele que compreende tudo pode perdoar tudo. Pode perdoar alguém e não fechar a pessoa nas conseqüências negativas de seus atos ou de meus atos. O perdão liberta o outro de seu karma: você me roubou, mas não é apenas um ladrão, me traiu, mas não é apenas um traidor...

A única falta que Deus não perdoa é aquela que não conseguimos perdoar

8 de agosto de 2014

Frei Clodovis e as críticas à Teologia da Libertação

Tenho a impressão que Frei Clodovis foi acometido de alguma  transformação que o fez esquecer do que está escrito em Mt 25,31 –ss.  Se é o próprio Cristo quem diz que : “ o que fizerdes a um desses meus pequeninos é a mim que o fareis” como ele pode pensar que a Teologia da Libertação está fazendo uma troca entre  Jesus e as questões sociais, ou os pobres como ele literalmente diz na entrevista? Ou que ela já tenha cumprido o seu papel?  Ora parece que o Frei Clodovis acha que já se resolveu a questão social, que não há mais famintos (“Eu tive fome e não me deste de comer”) ou sedentos (“eu tive sede e não me saciastes!”) ou doentes(“estive doente e não me visistastes!”) presos... desempregads... oprimidos... excluídos...
A tarefa da Teologia da Libertação penso eu, é levar a igreja de Cristo de volta ao seu eixo, o eixo que  era a razão de ser dos apóstolos e das primeiras comunidades, e que foi gradativamente sendo abandonado pela igreja a medida em que ela se imperializou, se rendeu ao Império romano, absorvendo os hábitos pagãos dos deuses romanos, suas praticas e seus sacríficos. Precisando inclusive produzir profundas modificações na doutrina para que ficasse mais palatável aos neo-convertidos, à força, por decreto de Constantino. Tudo isso piorou quando transformaram a “ceia”, o “ágape fraterno”, em sacrifício incruento, mesmo sabendo que os sacrifícios haviam terminado com a vitima perfeita, o Cristo, que se entregou para salvação de TODOS os pecados e pecadores.

Acho que o brilhante frei  encontrou alguma realidade paralela e passou a achar que a missão da TdL já está cumprida, ou talvez tenha passado para o lado, o dos teólogos acomodados que vivem repetindo a frase de Jesus , fora do contexto atual, de que “pobres sempre o tereis”.
É triste perceber essa atuação de frei Clodovis, em um momento tão importante para a igreja, quando depois de muito tempo pode-se perceber a ação clara do Espírito Santo atuando e se servindo do papa Francisco para recolocar a igreja nos objetivos propostos por Jesus.
Mas até Pedro negou Jesus, cabe a nós aguardar os acontecimentos e esperar. E ficar atentos ao que o Espírito Santo vai operar e nos cobrar quanto ao grande objetivo de Jesus, aquilo que ele nos incumbiu de realizar:  construir o Reino de seu Pai a começar aqui na terra. Para isso é fundamental que se compreenda que para que o Reino aconteça não poderá mais haver justificativas na hora que Jesus nos perguntar. Deus queira que nesta hora tenhamos uma resposta convincente para que ele não diga em alto e bom som:
“- Retirai-vos de mim, malditos! Ide para o fogo eterno destinado ao demônio e aos seus anjos. 42.Porque tive fome e não me destes de comer; tive sede e não me destes de beber;43.era peregrino e não me acolhestes; nu e não me vestistes; enfermo e na prisão e não me visitastes. ...- Em verdade eu vos declaro: todas as vezes que deixastes de fazer isso a um destes pequeninos, foi a mim que o deixastes de fazer.”(Mt 25,41-43, 45).
entretanto fico pensando se  esta atitude do Frei não é na realidade fruto da enorme pressão que a estrutura da igreja faz. Coim o irmão Leonardo o espremeram até que ele pediu para sair. Embora não lhe tenham dado a resposta ele seguiu de fotma mais loivre o seu caminho, e continua brilhante em seus artigos e livros. Fico me perguntando se é apropriado se chamar essa hierarquia de cristã. O estrago psicológico que todo esse rolo compressor produz nas pessoas, leigos e sacerdotes é assustador.

J. Ricardo A. de Oliveira



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Entrevista de Frei Clodovis Boff  -  Adital
Frei Clodovis Boff: só é possível uma Teologia da Libertação sob a condição de começar e acabar no horizonte da fé





Já faz algum tempo que se fala sobre uma crise da Teologia da Libertação (TdL), corrente teológica fundada há 42 anos, que se caracteriza por uma opção preferencial pelos pobres e pela luta por justiça social. Nas palavras do Frei Clodovis Boff - religioso da ordem dos Servos de Maria, que juntamente com seu irmão mais famoso, Leonardo Boff, foi um dos principais teólogos da TdL -, esse modo de teologizar "deu o que tinha que dar”, ou seja, conscientizou a Igreja sobre a opção preferencial pelos pobres, contudo "não tem mais futuro dentro da igreja” e por isso está perdendo cada vez mais espaço dentro dela.
Mesmo tendo participado da fundação da TdL, Frei Clodovis assegura que já tinha suas reservas em virtude da falta de rigor teórico e da priorização "do político às expensas da fé”. Com o passar dos anos, vendo que essa prioridade não mudava, mas se firmava cada vez mais, decidiu abrir suas críticas. Hoje, o religioso defende que é desaparecendo no caudal maior da teologia cristã que a Teologia da Libertação cumpre sua missão histórica. A ADITAL conversou com Frei Clodovis sobre o assunto. Confira a primeira de uma série especial de entrevistas a ser publicada todas as sextas-feiras pela Adital. 

Quarenta e dois anos depois, a Teologia da Libertação ainda vive?
Ela ainda faz sentido nos dias atuais?
Frei Clodovis M. Boff- Sim, existem teólogos da libertação que se reúnem e escrevem. Mas seu declínio como tendência à parte é inegável. A meu ver, a Teologia da Libertação "prescreveu” historicamente. Deu o que tinha que dar: conscientizar a Igreja sobre a opção preferencial pelos pobres. Ora, isso foi fundamentalmente incorporado, sem mais discussão, pelo discurso normal da Igreja. Assim, a corrente liberacionista reentra, finalmente, na grande correnteza da teologia católica ou universal, reforçando e atualizando aquilo que foi sempre uma riqueza da Igreja: o amor preferencial pelos sofredores de toda a sorte. A Teologia da Libertação poderia até permanecer como um espécimen da chamada "teologia do genitivo”, teologia necessariamente parcial, como quando se fala na "teologia da graça”, na "teologia do casamento” ou ainda na "teologia de São Paulo”. Essas teologias particulares são apenas tematizações de um aspecto da fé. Foi nesse sentido, como teologia parcial, sintonizada com o todo da fé, que a Teologia da Libertação foi declarada por João Paulo II, em Carta aos Bispos do Brasil (09/04/1986) "oportuna, útil e necessária” (n. 5). Mas até que a Teologia da Libertação pretende ser uma teologia completa, ela não tem futuro dentro da Igreja. Ela, de fato, vai perdendo cada vez espaço dentro dela.
"Quer-se mostrar aqui que a Teologia da Libertação partiu bem, mas, devido à sua ambiguidade epistemológica, acabou se desencaminhando: colocou os pobres em lugar de Cristo. Dessa inversão de fundo resultou um segundo equívoco: instrumentalização da fé "para” a libertação. Erros fatais, por comprometerem os bons frutos desta oportuna teologia” (artigo de 16.8.2008). Em qual momento e por que você se tornou um dos grandes críticos da Teologia da Libertação?
Fr. Clodovis M. Boff- Desde sempre, tive reservas em relação à Teologia da Libertação, quer por causa de sua falta de rigor teórico, quer devido ao seu pendor ideológico: o de priorizar o político às expensas da fé. Embora, em minha tese doutoral "Teologia e prática”, publicada há mais de 40 anos (Vozes, 1978), eu já tivesse estabelecido claramente a prioridade da fé sobre a política (especialmente na II Seção, cap. I), imaginei que a prioridade conferida ao político fosse coisa transitória, seja pelo urgentismo social, que se vivia naqueles tempos difíceis (ditadura e capitalismo selvagem), seja por se mostrar uma doença infantil, normal para todo movimento histórico novo. Mas quando, com o passar do tempo, fui me dando conta de que, desgraçadamente, aquela prioridade, em vez de refluir, ia se afirmando cada vez mais, com grave dano para a identidade da fé, a missão própria da Igreja e o destino último do ser humano, decidi então explicitar, sem rebuços, minhas críticas.
Em quais pontos há divergências entre os teólogos da TdL?
Fr. Clodovis M. Boff- As divergências não são de pouca monta, mas fundamentais, tocando os princípios mesmos da fé. Quem é Senhor da Igreja? Quem ocupa seus pensamentos? Cristo ou os pobres? Se dizemos: Cristo, é garantido, em princípio, que os pobres terão na Igreja seu "lugar eminente”, para falar como Bossuet. Mas se dizemos: os pobres, então Cristo pode ser facilmente despedido da sociedade e da vida, como foi com o marxismo.
Em alguns textos você fala em desgaste e crise da TdL. Como esse "modo de teologizar” pode enfrentar a crise e seguir forte?
Fr. Clodovis M. Boff- Como disse acima, é paradoxalmente desaparecendo no caudal maior da teologia cristã que a Teologia da Libertação cumpre sua missão histórica. É como o torrão de açúcar, que só existe para se dissolver no café: continuará aí presente, adoçando todo o café, mas invisível. Ou, numa metáfora mais bíblica, é como João Batista, que disse: "Importa que Ele cresça e eu diminua”, ao contrário dos judeus que, chamados a acolher o Messias, se recusaram a ser o que deveriam se tornar. Deveriam ter feito como Saulo, que só cumpriu seu destino tornando-se Paulo. Tal também deveria ser o termo final da Teologia da Libertação: tornar-se teologia cristã sem mais, depois de ter contribuído para seu enriquecimento.
Os teólogos da libertação estão envelhecendo, o senhor acredita em uma renovação?
Fr. Clodovis M. Boff- Quando se leem as produções atuais dos chamados "teólogos da libertação”, nota-se aí que o discurso se repete ad nauseamSão "variações sobre o mesmo tema”: os pobres socioeconômicos e sua libertação social. Insisto: só é possível uma Teologia da Libertação, como, aliás, qualquer outra espécie de teologia, sob a condição de começar e também acabar no horizonte transcendente da fé. Fora disso, a Teologia da Libertação só produzirá "mais do mesmo”. E, assim como o Papa Francisco costuma dizer que uma Igreja sem a fé incondicional no Cristo é uma "ONG piedosa”, assim também uma Teologia da Libertação (ou qualquer outra), sem essa mesma fé primacial no Cristo, é uma ideologia religiosa, concorrendo ou então colaborando com outras ideologias. Torna-se, com isso, cada vez mais irrelevante, pois, de ideologias o mundo atual está cansado.
A abertura que o Papa Francisco vem dando a teólogos da TdL pode ajudar a revigorá-la?
Fr. Clodovis M. Boff- O discurso e, mais ainda, o exemplo do Papa atual poderia servir de exemplo para um cristianismo que não precisa de ideologia, mesmo sob um rótulo teológico, para se ocupar a sério com os pobres. A Teologia da Libertação só pode se revigorar dentro da Igreja, no seio de seu pluralismo teológico, a título, portanto, de uma teologia particular.
Como os teólogos da libertação têm trabalhado e como deveriam pensar questões polêmicas como aborto, diversidade (união homoafetiva) e participação da mulher na igreja?
Fr. Clodovis M. Boff -Como para a questão do pobre, central na Teologia da Libertação, todas essas outras questões devem ser tratadas por qualquer teólogo a partir dos princípios perenes da fé. Mas, é claro – e esta é a função próprio do teólogo na Igreja –, esses princípios devem ser bem compreendidos e postos em confrontos com a experiência da história, que tem muito a ensinar à Igreja, como reconhece o Vaticano II na Gaudium et Spes (cf. GS 44).
E no caso da Igreja Católica, quais são seus desafios atuais diante de tantas demandas sociais, políticas e econômicas?
Fr. Clodovis M. Boff- Certamente, a Igreja já está fazendo muito no campo social, e precisará fazer mais. Mas, é preciso que fique claro: não é essa a missão originária, "própria” da Igreja, como repete expressamente o Vaticano II (cf. GS 42,2; e ainda 40,2-3 e 45,1). A missão social é, antes, uma missão segunda, embora derivada, necessariamente, da primeira, que é de natureza "religiosa”. Essa lição nunca foi bem compreendida pelo pensamento laico. Foram os Iluministas que queriam reduzir a missão da Igreja à mera função social. Daí terem cometido o crime, inclusive cultural, de destruírem celebres mosteiros e proibido a existência de ordens religiosas, por acharem tudo isso coisa completamente inútil, mentalidade essa ainda forte na sociedade e até mesmo dentro da Igreja. Agora, se perguntamos: Qual é o maior desafio da Igreja?, Devemos responder: É o maior desafio do homem: o sentido de sua vida. Essa é uma questão que transcende tanto as sociedades como os tempos. É uma questão eterna, que, porém, hoje, nos pós-moderno, tornou-se, particularmente angustiante e generalizada. É, em primeiríssimo lugar, a essa questão, profundamente existencial e hoje caracterizadamente cultural, que a Igreja precisa responder, como, aliás, todas as religiões, pois são elas, a partir de sua essência, as "especialistas do sentido”. Quem não viu a gravidade desse desafio, ao mesmo tempo existencial e histórico, e insiste em ver na questão social "a grande questão”, está "desantenado” não só da teologia, mas também da história.


Tenho a ligeira impressão que Frei Clodovis foi acometido de alguma  transformação que o fez esquecer do que está escrito em Mt 35,31 –ss. Se é o próprio Cristo quem diz que : “ o que fizerdes a um desses meus pequeninos é a mim que o fareis” como ele pode pensar que a Teologia da Libertação está fazendo uma troca entre  Jesus e as questões sociais, ou os pobres como ele literalmente diz na entrevista? Ou que ela já tenha cumprido o seu papael?  Ora parece que o Frei Clodovis acha que já se resolveu a questão social, que não há mais famintos (“Eu tive fome e não me deste de comer”) ou sedentos( “eu tive sede e não me saciastes!”) ou doentes( “estive doente e não me visistastes!”) presos... desempregads... oprimidos... excluídos...
A tarefa da Teologia da Libertação penso eu, é levar a igreja de Cristo de volta ao seu eixo, o eixo que  era a razão de ser dos apóstolos e das primeiras comunidades, e que foi gradativamente sendo abandonado pela igreja a medida em que ela se imperializou, se rendeu ao Império romano, absorvendo os hábitos pagãos dos deuses romanos, suas praticas e seus sacríficos. Precisando inclusive produzir profundas modificações na doutrina para que ficase mais palatável aos neo-convertidos, à força, por decreto de Constantino. Tudo isso piorou quando transformaram a “ceia”, o “ágape fraterno”, em sacrifício incruento, mesmo sabendo que os sacrifícios haviam terminado com a vitima perfeita, o Cristo, que se entregou para salvação de TODOS os pecados e pecadores.
Acho que o brilhante frei  encontrou alguma realidade paralela e passou a achar que a missão da TdL já está cumprida, ou talvez tenha passado para o lado, o dos teólogos acomodados que vivem repetindo a frase de Jesus , fora do contexto atual, de que “pobres sempre o tereis”.
É triste perceber essa atuação de frei Clodovis, em um momento tão importante para a igreja, quando depois de muito tempo pode-se perceber a ação clara do Espírito Santo atuando e se servindo do papa Francisco para recolocar a igreja nos objetivos propostos por Jesus.
Mas até Pedro negou Jesus, cabe a nós aguardar os acontecimentos e esperar. E ficar atentos ao que o Espírito Santo vai operar e nos cobrar quanto ao grande objetivo de Jesus, aquilo que ele nos incumbiu de realizar:  construir o Reino de seu Pai a começar aqui na terra. Para isso é fundamental que se compreenda que para que o Reino aconteça não poderá mais haver justificativas na hora que Jesus nos perguntar. Deus queira que nesta hora tenhamos uma resposta convincente para que ele não diga em alto e bom som:
“- Retirai-vos de mim, malditos! Ide para o fogo eterno destinado ao demônio e aos seus anjos. 42.Porque tive fome e não me destes de comer; tive sede e não me destes de beber;43.era peregrino e não me acolhestes; nu e não me vestistes; enfermo e na prisão e não me visitastes.
...- Em verdade eu vos declaro: todas as vezes que deixastes de fazer isso a um destes pequeninos, foi a mim que o deixastes de fazer.”(Mt 25,41-43, 45)


7 de agosto de 2014

UTOPIA

Eduardo Galeano.




“Ela está no horizonte.
Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos.
Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos.
Por mais que caminhe, jamais a alcançarei.
Para que serve a Utopia?
Serve para isso: para CAMINHAR.”.
.

6 de agosto de 2014

Seria cômico se nao representasse um sinal de nossa decadência como civilização

.
Não há mais dúvidas de que a civilização ocidental, capitalista e globalizada está em, processo de decomposição. Imagine "um sanduíche" como índice econômico !
E o pior é que não se trata de uma brincadeira, vejam os fatos. 
O Indic Big Mac existe desde 1986 !
https://br.financas.yahoo.com/noticias/brasil-tem-big-mac-caro-172800577.html
SÃO PAULO - Virou rotina para o brasileiro liderar os rankings de produtos mais caros do mundo. Agora, assume a liderança do famoso Índice Big Mac, em preços ajustados, da revista britânica The Economist, existente desde o ano de 1986. 
O levantamento revela que o Brasil tem o 5º sanduíche mais caro do mundo em termos absolutos, aos US$ 5,86, atrás de Noruega (US$ 7,76), Suíça (US$ 6,83), Venezuela (US$ 6,82) e Suécia (US$ 5,95), mostrando uma taxa de sobravalorização ao dólar de 22,1% - já que o mesmo sanduíche nos EUA custa apenas US$ 4,80.
Porém, no índice ajustado assumimos a primeira posição, com um Big Mac se mostrando 86,8% mais caro no Brasil do que nos Estados Unidos, quando se leva em conta o custo do trabalho e a renda média da população - que, naturalmente, são menores no Brasil do que nos países desenvolvidos.
Quando se leva em conta esse fator, descobre-se que o segundo lugar no mundo onde o Big Mac é mais caro em termos relativos é na Colômbia, onde cada sanduíche sai US$ 4,65 - 55,7% mais caro do que o equivalente nos Estados Unidos, mesmo que nominalmente ele seja mais barato. A terceira posição fica com a Turquia, onde o preço de US$ 4,42 é 42,9% superior ao preço do Big Mac em seu país de origem. 
O lanche mais barato em termos ajustados fica em Hong Kong, onde ele custa US$ 2,43, 41,8% menos do que nos EUA. A Índia tem o segundo sanduíche mais barato, aos US$ 1,75 - 35,9% menos do que nos EUA -, embora por lá o Big Mac seja feito de frango. Além disso, a Índia também é O sanduíche mais barato nominalmente fica na Ucrânica, ao valor de US$ 1,63. 
Confira abaixo os 10 sanduíches mais caros de julho:
PosiçãoValores absolutosValores relativos
PaísPreço% acima dos EUAPaísPreçp% acima dos EUA
Fonte: The Economist
* Média ponderada dos países membros 
1ª posiçãoNoruegaUS$ 7,7661,8%BrasilUS$ 5,8686,8%
2ª posiçãoSuíçaUS$ 6,8342,4%ColômbiaUS$ 4,6555,7%
3ª posiçãoVenezuelaUS$ 6,8242,2%TurquiaUS$ 4,4242,9%
4ª posiçãoSuéciaUS$ 5,9524,2%FilipinasUS$ 3,7033,7%
5ª posiçãoBrasilUS$ 5,8622,1%IsraelUS$ 5,1326,8%
6ª posiçãoCanadáUS$ 5,259,5%PeruUS$ 3,5922,3%
7ª posiçãoDinamarcaUS$ 5,157,3%SuéciaUS$ 5,9520,9%
8ª posiçãoIsraelUS$ 5,136,9%HungriaUS$ 3,7718,5%
9ª posiçãoZona do Euro*US$ 4,953,3%Zona do Euro*US$ 4,9518,4%
10ª posiçãoNova ZelândiaUS$ 4,943,3%Nova ZelândiaUS$ 4,9416,5%
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4 de agosto de 2014

PAPA FRANCISCO: ENCONTRO COM BISPOS, SACERDOTES E SEMINARISTAS

Em alguns trechos da entrevista o papa Francisco mais uma vez nos surpreende por sua simplicidade, por sua maneira profundamente humana e direta que nos leva a uma grande reflexão no que se refere ao que é  ser cristão.
Os diversos grifos no texto são meus.




1 - A UNIDADE ENTRE OS BISPOS

No último sábado, 26 de julho, o Papa Francisco realizou uma visita pastoral à cidade de Caserta, sul da Itália. Antes da Missa celebrada às 18h15min, o Bispo de Roma teve um "encontro familiar" com sacerdotes e seminaristas daquela diocese, ocasião em que lhe foram feitas várias perguntas, alguns questionamentos feitos ao Papa Francisco:

O Vigário Geral de Caserta, Pe. Pasquariello, após expor um problema de limites físicos na diocese, perguntou ao Papa Francisco "Quando os bispos chegam a um acordo?"

PERGUNTA (Pe. Pasquariello, Vigário Geral de Caserta): Santidade, o bem que o senhor está trazendo à Igreja Católica com suas homilias diárias, os documentos oficiais - especialmente a Evangelii Gaudium -, baseiam-se, sobretudo, na conversão espiritual, interior, pessoal. É uma reforma que diz respeito - no meu modesto parecer - somente à esfera da teologia, da exegese bíblica e da filosofia. Junto a esta conversão pessoal - que é essencial para a salvação eterna -, penso que seria útil algum pronunciamento, de Vossa Santidade, que possa envolver maiormente o povo de Deus, enquanto povo. Me explico: a nossa Diocese, há 900 anos, tem limites absurdos. Alguns territórios municipais são divididos pela metade com a Diocese de Capua e a de Acerra. Até mesmo a estação da cidade de Caserta, distante menos de 1 quilômetro do município, pertence à Capua. Por este motívo, Santo Padre, peço a sua intervenção para que as nossas comunidades não tenham mais que sofrer devido aos deslocamentos inúteis e não seja mortificada ulteriormente a unidade pastoral dos nossos fiéis. É claro, Santidade, que no n. 10 da Evangelii Gaudium, o senhor diz que estas coisas pertencem ao episcopado. Porém, eu recordo que desde que eu era um jovem sacerdote, há 47 anos , estivemos com Mons. Roberti, que trabalhava na Secretaria de Estado e ele disse que deveríamos chegar a um acordo com os bispos e depois ele assinaria. E isto é uma coisa bonita. Mas, quando os bispos se colocam de acordo?
Papa Francisco: "Alguns historiadores dizem que em alguns dos primeiros Concílios, os Bispos partiam prá briga, mas depois chegavam a um acordo. E isto é um mau sinal. É ruim quando os Bispos falam mal uns dos outros, ou fazem acordos. Não falo em ter unidade de pensamento ou unidade espiritual, porque isto é bom. Falo de acordos no sentido negativo da palavra. Isto é ruim pois rompe justamente a unidade da Igreja. Isto não é de Deus. E nós, Bispos, devemos dar o exemplo da unidade que Jesus pediu ao Pai para a Igreja. Mas não se pode ficar murmurando um doo outro: "E este faz assim e aquele outro faz daquele jeito". Mas, deve dizê-lo na cara! Os nossos antepassados nos primeiros Concílio chegavam às "vias de fato". Eu já prefiro que sejam gritadas quatro coisas, daquelas forte, e depois se abracem e não que fiquem falando escondido um contra o outro. Isto, como princípio geral, ou seja: na unidade da Igreja é importante a unidade entre os Bispos. Após, o senhor sublinhou um caminho que o Senhor desejou para a sua Igreja. E esta unidade entre os bispos é aquela que favorece o colocar-se em acordo sobre isto ou aquilo. Em um país - não na Itália, mas em outro lugar -, existia uma Diocese cujos limites foram refeitos, mas devido à localização do tesouro da catedral, ficaram em litígio nos tribunais por mais de 40 anos. Por dinheiro: isto não se entende! É aqui que o diabo festeja! É aqui que ele ganha. Depois, é bonito que o senhor diga que os Bispos devem sempre estar de acordo: mas de acordo na unidade, não na uniformidade. Cada um tem o seu carisma, cada um tem o seu modo de pensar, de ver as coisas: esta variedade, às vezes é fruto de erros, mas tantas vezes é fruto do mesmo Espírito. O Espírito Santo quis que na Igreja existisse esta variedade de carismas. O mesmo Espírito que faz a diversidade, depois consegue fazer a unidade; uma unidade na diversidade de cada um, sem que ninguém perca a própria personalidade. Mas, eu desejo que aquilo que o senhor disse vá em frente. E depois, todos somos bons, porque temos a água do Batismo, todos, temos o Espírito Santo dentro que nos ajuda a seguir em frente".

2 - SOBRE A PIEDADE POPULAR

"Santidade, na Exortação Apostólica 'Evangelii Gaudium' o senhor convidou a encorajar e reforçar a piedade popular, como precioso tesouro da Igreja Católica. Ao mesmo tempo, porém, mostrou o risco - infelizmente sempre mais real - da difusão de um cristianismo individual e sentimental, atento mais às formas tradicionais e à revelação, privado dos aspectos fundamentais da fé e privado de incidência na vida social. Qual sugestão poderias nos dar para uma pastoral que, sem mortificar a piedade popular, possa relançar o primado do Evangelho? Obrigado Santidade" (Padre Angelo Piscopo, Pároco de São Pedro Apóstolo e de São Pedro em Cátedra):

Papa Francisco: "Se ouve dizer que este é um tempo onde a religiosidade foi para baixo, mas eu não acredito muito nisto. Porque existem correntes, estas escolas de religiosidade intimista, tipo os gnósticos, que fazem uma pastoral parecida com uma oração pré-cristã, uma oração pré-bíblica, uma oração gnóstica, e o gnosticismo entrou na Igreja nestes grupos de piedade intimista: eu chamo isto de intimismo. O intimismo não faz bem, é uma coisa para mim, estou tranquilo, me sinto pleno de Deus. É um pouco - não é a mesma coisa - mas é um pouco o caminho da New Age. Existe religiosidade, sim, mas uma religiosidade pagã, ou até mesmo herética; não devemos ter medo de pronunciar esta palavra, porque o gnosticismo é uma heresia, foi a primeira heresia na Igreja. Quando falo da religiosidade, falo daquele tesouro de piedade, com tantos valores, que o grande Paulo VI descreveu na 'Evangelii Nuntiandi'. Pensem numa coisa: o Documento de Aparecida - que foi o documento da V Conferência do Episcopado Latino-americano - para fazer uma síntese no fim do documento, no penúltimo parágrafo - os outros dois eram de agradecimento e de oração -, teve que retroceder 40 anos e pegar um trecho da 'Evangelii Nuntiandi', que é um documento pastoral pós-Conciliar não ainda superado. É de uma atualidade enorme. Naquele documento, Paulo VI descreve a piedade popular, afirmando que ela, algumas vezes, deve ser ainda evangelizada. Sim, porque como toda piedade, existe o risco de ir um pouco de um lado, um pouco para outro ou de não ter uma expressão de fé forte. Mas a piedade que as pessoas tem, a piedade que entra no coração com o Batismo é uma força enorme, a tal ponto que o povo de Deus que tem esta piedade, no seu conjunto, não pode errar, é infalível acreditando: assim diz a 'Lumen Gentium' N. 12. A piedade popular verdadeira nasce daquele 'sensus fidei' de que fala este documento conciliar e guia a devoção dos Santos, de Nossa Senhora, também com expressões folclorísticas, no bom sentido da palavra. Por isto a piedade popular é fundamentalmente inculturada, não pode ser uma piedade popular de laboratório, mas nasce sempre a partir da nossa vida. Mesmo se cometem pequenos erros - por isto é necessário vigiar - , a religiosidade popular é um instrumento de evangelização. Pensemos aos jovens de hoje. Os jovens - ao menos a experiência que eu tive na outra Diocese - os jovens, os movimentos juvenis em Buenos Aires não funcionavam. Por que? Se dizia a eles: façamos uma reunião para falar.... e no final os jovens se chateavam. Mas quando os párocos encontraram o caminho para envolver os jovens em pequenas missões, fazer missão nas férias, a catequese para o povo que tem necessidade dela, nas cidadezinhas que não tem padre, então sim, havia uma boa adesão. Os jovens, na verdade, querem este protagonismo missionário e aprendem daqui e viver uma forma de piedade que se pode também dizer, popular: o apostolado missionário dos jovens tem alguma coisa da piedade popular. A piedade popular é ativa, é um sentido de fé - dizia Paulo VI - profundo, que somente os simples e os humildes tem capacidade de ter. E isto é grandioso! Nos Santuários, por exemplo, se vêem milagres! Em todo 27 de julho íamos ao Santuário de São Pantaleão, em Buenos Aires e eu confessava pela manhã. Mas, eu voltava novo daquela experiência, voltava envergonhado da santidade que encontrava nas pessoas simples, pecadoras mas santas, porque diziam os próprios pecados e depois contavam como viviam, como era o problema do filho ou da filha, ou deste ou daquele e como iam visitar os doentes. Transparecia um sentido evangélico. Nos Santuários se encontra destas coisas. Os confessionários dos Santuários são um local de renovação para nós sacerdotes e bispos; são um curso de atualização espiritual, devido ao contato com a piedade popular. E os fiéis quando vem confessar te contam as suas misérias, mas você vê por trás daquelas misérias a graça de Deus que os conduz àquele momento. este contato com o povo de Deus que reza, que é peregrino, que manifesta a sua fé nesta forma de piedade, nos ajuda tanto na nossa vida sacerdotal".

3 - O PERFIL DO SACERDOTE DO TERCEIRO MILÊNIO

"Um homem de criatividade, que segue o mandamento de Deus - "criar as coisas" -; um homem de transcendência, quer com Deus na oração, quer com os outros, sempre; um homem de proximidade, que se aproxima das pessoas".

Pergunta: Se me permite chamar-lhe de padre Francisco, mesmo porque a paternidade implica, inevitavelmente uma santidade, quando é autêntica. Como aluno dos Padres Jesuítas aos quais devo a minha formação, cultural e sacerdotal, primeiro falo sobre uma impressão pessoal e após, uma pergunta dirigida ao senhor, em particular. O perfil do padre do terceiro milênio: equilíbrio humano e espiritual; consciência missionária; abertura dialógica com outras fés, religiosas ou não. Por que isto? O senhor certamente está operando uma revolução copernicana pela linguagem, estilo de vida, comportamento e testemunho sobre temas que dizem respeito mais a nível mundial, mas também em relação aos ateus e aos afastados da Igreja cristã-católica. A pergunta que lhe faço: como é possível nesta sociedade, com uma Igreja que se espera cresça e desenvolva, nesta sociedade que vive uma evolução dinâmica e conflitual e muito frequentemente afastada dos valores do Evangelho de Cristo, nós somos uma Igreja muito frequentemente atrasada. A sua revolução linguistica, semântica, cultural, de testemunho evangélico, está suscitando nas consciências certamente uma crise existencial para nós sacerdotes. Que caminhos - imaginativos e criativos - o senhor sugere a nós, para superar, ou pelo menor atenuar, esta crise que nós sentimos?

Papa Francisco: Como é possível, com a Igreja crescendo e se desenvolvendo, seguir em frente? Você dizia algumas coisas: equilíbrio, abertura dialógica...Mas, como é possível prosseguir? Você disse uma palavra que me agrada tanto: é uma palavra divina, se é humana é porque é um dom de Deus: criatividade. É o mandamento que Deus deu à Abraão: "Vai e faça crescer a Terra. Seja criativo". É também o mandamento que Jesus deu aos seus, mediante o Espírito Santo, por exemplo a criatividade da primeira Igreja nas relações com o judaísmo: Paulo foi um criativo; Pedro, naquele dia, foi ter com Cornélio, tinha medo dele, pois estava fazendo uma coisa nova, criativa. Mas ele foi lá. Criatividade é a palavra. E como se pode encontrar esta criatividade? Antes de tudo - e esta é a condição se nós quisermos ser criativos no Espírito, isto é, no Espírito do Senhor Jesus - não existe outro caminho senão a oração. Um bispo que não reza, um padre que não reza, fechou a porta, fechou o caminho da criatividade. É justamente na oração, quando o Espírito te faz sentir uma coisa, vem o diabo e te faz sentir outra; mas a oração é a condição para seguir em frente. Mesmo se a oração muitas vezes possa parecer chata. A oração é tão importante. Não somente a oração do Ofício Divino, mas a Liturgia da Missa, tranquila, bem feita com devoção, a oração pessoal com o Senhor. Se nós não rezamos, seremos talvez bons empreendedores pastorais e espirituais, mas a Igreja sem oração se torna uma ONG, não tem aquele 'unctio Spiritu Sancti'. A oração é o primeiro passo, porque é abrir-se ao Senhor para poder abrir-se aos outros. É o Senhor que diz: "Vai lá, vem aqui, faz isto...", suscita em você aquela criatividade que a muitos santos custou tanto. Pensem no Beato Antonio Rosmini, aquele que escreveu 'As cinco chagas da Igreja', , foi um crítico criativo, porque rezava. Escreveu aquilo que o Espírito lhe inspirou, por isto foi enviado ao cárcere espiritual, isto é, na sua casa: não podia falar, não podia ensinar, não podia escrever, os seus livros estavam no Index. Hoje é Beato! Tantas vezes a criatividade te leva à Cruz. Mas quando vem da oração, dá frutos. Não a criatividade um pouco, "a 'sans façon' e revolucionária, porque hoje está na moda ser revolucionário; não, isto não é do Espírito. Mas quando a criatividade vem do Espírito e nasce na oração, pode te trazer alguns problemas. A criatividade que vem da oração tem uma dimensão antropológica de transcendência, porque mediante a oração tu te abres à transcendência de Deus. Mas existe também a outra transcendência: abrir-se aos outros, ao próximo. Não precisa ser uma Igreja fechada em si mesma, que olha o próprio umbigo, uma Igreja auto-referencial, que olha a si mesma e não é capaz de transcender. É importante a transcendência dupla: para Deus e para o próximo. Sair de si não é uma aventura, é um caminho, é o caminho que Deus indicou aos homens, ao povo desde o primeiro momento quando disse a Abraão: "Sai da tua terra". Sair de si. E quando eu saio de mim encontro Deus e encontro os outros. E como encontro os outos? De longe ou de perto? Precisa encontrá-los de perto, a proximidade. Criatividade, transcendência, proximidade. Proximidade é uma palavra chave: ser próximo. Não assustar-se com nada. Estar próximos. O homem de Deus não se apavora. O próprio Paulo quando viu tantos ídolos em Atenas não se assustou, disse àquelas pessoas: "Vocês são religiosos, tantos ídolos ... mas, eu, vos falarei de um outro". Não se assustou e se aproximou deles, também citou os seus poetas: "Como dizem os vossos poetas...". Trata-se de proximidade a uma cultura, proximidade às pessoas, ao seu modo de pensar, às suas dores, aos seus resentimentos. Tantas vezes esta proximidade é justamente uma penitência, pois devemos ouvir coisas chatas, coisas ofensivas. Há dois anos, um sacerdote que foi fazer missão na Argentina - era da Diocese de Buenos Aires e foi à uma Diocese do sul, em uma região onde há anos não havia sacerdote, e haviam chegado os evangélicos - me contou que foi na casa de uma senhora que foi professora do povo da região e depois diretora de uma escola da cidade. Esta senhora o fez sentar e começou a insultá-lo, não com palavrões, mas insultá-lo com força: "Vocês nos abandonaram, nos deixaram sozinhos, e eu que tenho necessidade da Palavra de Deus tive que ir ao culto protestante e me converti ao protestantismo". Este sacerdote jovem, que é muito humilde, reza, quando a senhora acabou 'a catarata' (ndr - o desabafo), disse: "Senhora, somente uma palavra: perdão. Perdoe-nos. Perdoe-nos. Abandonamos o rebanho". E o tom daquela senhora mudou. Todavia permaneceu protestante e o sacerdote não entrou na questão sobre qual fosse a verdadeira religião: "Padre, queres um café?". "Sim, tomemos um café". E quando o sacerdote estava para sair, disse: "Pare Padre, venha!", e o levou até o quarto, abriu o armário e havia uma imagem de Nossa Senhora: "O senhor deve saber que eu nunca a abandonei. A escondi por causa do Pastor, mas ela está aqui em casa!". É uma história que ensina como a proximidade, a brandura, fizeram com que esta senhora se reconciliasse com a Igreja, pois havia se sentido abandonada por ela. E eu fiz uma pergunta que não se deve fazer nunca: "E depois, como acabou? Como acabaram as coisas?". Mas o Padre me corrigiu: "Ah, não, eu não pedi nada: ela continua a ir ao culto protestante, mas se percebe que é uma mulher que reza. Que faça o Senhor Jesus". E não foi além, não convidou para que retornasse à Igreja Católica. É aquela proximidade prudente, que sabe até onde se deve ir. Mas, proximidade significa também diálogo; é necessário ler na 'Ecclesiam Suam', a doutrina sobre o diálogo, depois repetida por outros Papas. O diálogo é tão importante, mas para dialogar são necessárias duas coisas: a própria identidade como ponto de partida e a empatia com os outros. Se eu não estou seguro quanto à minha identidade e vou dialogar, acabo mudando a minha fé. Não se pode dialogar senão partindo da própria identidade, e a empatia, isto é, não sair condenando. Cada homem, cada mulher, tem alguma coisa para nos dar; cada homem, cada mulher, tem a própria história, a própria situação e devemos escutá-la. Após, a prudência do Espírito Santo nos dirá como responder a eles. Partir da própria identidade para dialogar, mas o diálogo, não é fazer apologética, mesmo se algumas vezes deva ser feita, quando não são colocadas questões que exigem uma explicação. O diálogo é coisa humana, são os corações, as almas que dialogam, e isto é tão importante. Não ter medo de dialogar com ninguém. Se dizia de um santo, um pouco na brincadeira - não recordo, mas talvez fosse São Felipe Neri, mas não estou certo disto - que era capaz de dialogar também com o diabo. Por que? Porque tinha aquela liberdade de escutar todas as pessoas, mas partindo da própria identidade. Era tão seguro, mas ser seguro da própria identidade não significa fazer proselitismo. O proselitismo é uma armadilha, que também Jesus um pouco condena, 'en passant', quando fala aos fariseus e saduceus: "Vocês que fazem o giro do mundo para encontrar um prosélito e depois se recordam disto...". Mas, é uma armadilha. E o Papa Bento tem um expressão muito bonita, a disse em Aparecida, mas acredito que a tenha repetido em outro lugar: "A Igreja cresce não por proselitismo, mas por atração". E o que é a atração? É esta empatia humana que depois é guiada pelo Espírito Santo. Assim, como será o perfil do sacerdote deste século assim secularizado? Um homem de criatividade, que segue o mandamento de Deus - "criar as coisas" -; um homem de transcendência, quer com Deus na oração, quer com os outros, sempre; um homem de proximidade, que se aproxima das pessoas. Afastar as pessoas não é sacerdotal e deste comportamento as pessoas, às vezes, se cansam. Mas quem acolhe as pessoas e está próximo a elas, dialoga com elas, está seguro da própria identidade, que o impele a ter o coração aberto à empatia. Isto é o que me veio de dizer a você, para responder à sua pergunta".


- A ESPIRITUALIDADE DO SACERDOTE DIOCESANO

"Mas, você é um homem, portanto, se tens alguma coisa contra o Bispo, vá e diga a ele. Mas depois terá suas consequências não muito boas. Levarás a cruz, mas seja homem!"

PERGUNTA: Caríssimo Padre, a minha pergunta diz respeito ao lugar onde nós vivemos: a Diocese, com os nossos bispos, as relações com os nossos irmãos. Pergunto ao senhor: este momento histórico que nós estamos vivendo traz consigo expectativas em relação a nós, presbíteros, isto é, de um testemunho claro, aberto, alegre - como o senhor está nos convidando - justamente aberto à novidade do Espírito Santo. Qual poderia ser, na sua opinião, justo no específico, o fundamento de uma espiritualidade do sacerdote diocesano? Tenho presente ter lido em algum lugar, que o senhor dizia: "O sacerdote não é um contemplativo". Mas antes, não era assim. Portanto, se o senhor pudesse nos apresentar um ícone a ter presente para o renascimento, para o crescimento da comunhão da nossa Diocese. E sobretudo, me interessa saber como podemos ser fiéis, hoje, aos homens tanto quanto a Deus:

PAPA FRANCISCO: "Você falou na 'novidade do Espírito Santo'. É verdade. Mas Deus é o Deus das surpresas, sempre nos surpreende, sempre, sempre. Lemos o Evangelho e descobrimos uma surpresa após outra. Jesus nos surpreende porque chega antes de nós: Ele nos espera primeiro, nos ama primeiro. Quando nós o buscamos, Ele já está nos procurando. Como disse o Profeta Jeremias, ou Isaías, não recordo bem: Deus é como a flor da amendoeira, floresce por primeiro na primavera. É o primeiro, sempre a primeiro, sempre nos espera. E esta é a surpresa. Tantas vezes nós buscamos Deus aqui e Ele está lá. E, passamos à espiritualidade do clero diocesano. Padre contemplativo, mas não alguém que está na Cartuxa, não entendo esta contemplação. O sacerdote deve ter uma 'contemplatividade', uma capacidade de contemplação para com Deus e também para com os homens. É um homem que olha, que enche os seus olhos e o seu coração com esta contemplação: com o Evangelho diante de Deus e com os problemas humanos diante dos homens. Neste sentido deve ser um contemplativo. Não é necessário fazer confusão: o monge é outra coisa. Mas onde está o centro da espiritualidade do clero diocesano? Eu diria que está na 'diocesanidade'. É ter a capacidade de abrir-se à 'diocesanidade'.

A espiritualidade de um religioso, por exemplo, é a capacidade de abrir-se a Deus e aos outros na comunidade: seja a menor, seja a maior da congregação. Ao contrário, a espiritualidade do sacerdote diocesano é abrir-se à diocesanidade. E vocês religiosos que trabalham na paróquia devem fazer as duas coisas, por isto o dicastério dos Bispos e o dicastério da Vida Consagrada estão trabalhando em uma nova versão da 'Mutuae relationes', porque o religioso tem as duas pertenças. Mas voltemos à diocesanidade: o que significa? Significa ter uma relação com o Bispo e ter uma relação com os outros sacerdotes. A relação com o Bispo é importante, é necessária. Um sacerdote diocesano não pode ser separado do Bispo. "Mas, o Bispo não me quer bem, o Bispo aqui, o Bispo alí...": O Bispo talvez poderá ser um homem com um caráter difícil: mas é o teu Bispo. E tu deves encontrar, também naquele comportamento não-positivo, um caminho para manter a relação com ele. Isto, no entanto, é a exceção. Eu sou padre diocesano porque tenho uma relação com o Bispo, uma relação necessária. É muito significativo quando no rito de ordenação se faz o voto de obediência ao Bispo. "Eu prometo obediência a ti e aos teus sucessores". Diocesanidade significa uma relação com o Bispo que deve agir e fazer crescer continuamente. Na maior parte dos casos não é um problema catastrófico, mas uma realidade normal. Em segundo lugar a diocesanidade comporta uma relação com os outros sacerdotes, com todo o presbitério. Não existe espiritualidade do padre diocesano sem estas duas relações: com o bispo e com o presbítero. E são necessárias. "Eu, sim, com o Bispo vai tudo bem, mas nas reuniões do clero não vou porque dizem bobagens". Mas com este comportamente vai ter fazer falta alguma coisa: não tens aquela verdadeira espiritualidade do padre diocesano.
Tudo está nisto: é simples, mas ao mesmo tempo não é fácil. Não é fácil, porque colocar-se de acordo com o Bispo não é sempre fácil, pois um pensa de uma maneira e outro de outra, mas se pode discutir....e se discute! E se pode fazer a alta voz? Se faça! Quantas vezes um filho com o seu pai discute e no final permanecem sempre pai e filho. Todavia, quando nestas duas relações, quer com o Bispo quer com o presbítero, entra a diplomacia, não tem o Espírito do Senhor, porque falta o espírito de liberdade. É necessário ter a coragem de dizer "Eu não penso assim, penso diferente", e também a humildade de aceitar uma correção. É muito importante. 

E qual é o maior inimigo destas duas relações? As fofocas, as murmurações. Tantas vezes penso - porque também eu tenho esta tentação de murmurar, a temos dentro, o diabo sabe que esta semente lhe dá frutos e a semeia bem - eu penso se não é uma consequência de uma vida celibatária vivida como esterilidade, não como fecundidade. Um homem sozinho acaba amargurado, não é fecundo e fala mal dos outros. Este é um ar que não faz bem, é justamente o que impede aquela relação evangélica e espiritual e fecunda com o Bispo e com o presbítero
. As fofocas são o maior inimigo da diocesanidade, isto é, da espiritualidade. Mas, você é um homem, portanto, se tens alguma coisa contra o Bispo, vá e diga a ele. Mas depois terá suas consequências não muito boas. Levarás a cruz, mas seja homem! Se tu és um homem maduro e vê alguma coisa no teu irmão sacerdote que não te agrada e que acreditas ser errada, vá e diga a ele na cara, ou, se percebes que ele não tolera ser corrigido, vá e diga ao Bispo ou ao amigo mais íntimo daquele sacerdote, para que possa ajudá-lo a corrigir-se. Mas não deves dizer aos outros: porque isto é sujar um ao outro. E o diabo fica feliz com este "banquete", porque assim ataca justamente o centro da espiritualidade diocesana. Para mim, as fofocas fazem tanto mal. E não são uma novidade pós-conciliar... Já São Paulo teve que enfrentar isto. Recordem a frase: 'Eu sou de Paulo, eu sou de Apolo....". As fofocas são uma realidade presente já no início da Igreja, porque o demônio não quer que a Igreja seja uma mãe fecunda, unida, alegre.

Qual é, pelo contrário, o sinal de que estas duas relações, entre sacerdote e Bispo e entre padres e os outros padres, estão bem? É a alegria. Assim como a amargura é o sinal de que não existe uma verdadeira espiritualidade diocesana - porque falta uma bonita relação com o Bispo e com o presbítero -, a alegria é o sinal que as coisas funcionam. Se pode discutir, se pode ficar brabo, mas existe a alegria acima de tudo, e é importante que esta permaneça sempre nestas duas relações que são essenciais para a espiritualidade do sacerdote diocesano.

Gostaria de voltar a um outro sinal, o sinal da amargura. Uma vez um sacerdote me dizia, aqui em Roma: "Mas, eu vejo que tantas vezes nós somos uma Igreja de enraivecidos, sempre brabos um contra o outro; sempre temos alguma coisa para nos irritar". Isto leva à tristeza e à amargura: não existe a alegria. Quando encontramos em uma diocese um sacerdote que está sempre assim irritado e com esta tensão, pensamos: mas este homem no café da manhã deve tomar vinagre. Após, no almoço, verdura com vinagre e à noite um belo suco de limão. Assim a sua vida não está bem, porque é a imagem de uma Igreja dos irritados. Pelo contrário, a alegria é o sinal de que está bem. Alguém pode ficar brabo: também é saudável embrabecer-se de vez em quando. Mas o estado de brabeza não é do Senhor e leva à tristeza e à desunião.

E no final, você disse "a fidelidade a Deus e ao homem". É a mesma coisa que dissemos antes. É a dupla fidelidade e a dupla trascendência: ser fiéis a Deus é buscá-lo, abrir-se a Ele na oração, recordando que Ele é fiel, Ele não pode renegar a si mesmo, é sempre fiel. E depois, abrir-se ao homem; é aquela empatia, aquele respeito, aquele ouvi-lo, e dizer a palavra certa com paciência".

(Tradução livre do Programa Brasileiro)
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3 de agosto de 2014

Dia 4 de agosto dia do Padre



A Igreja comemora neste 4 de agosto o dia do sacerdote. Quero neste dia, em primeiro lugar deixar um abraço fraterno para todos os meus amigos que abraçaram  o sacerdócio nas igrejas cristãs, seja a Ortodoxa, a Romana, a Anglicana, na Igreja Católica Brasileira e na Igreja Católica Liberal.

Entretanto acho que é  oportuno refletirmos sobre o sacerdócio nas igrejas. Atualmente  tão carente nas igrejas e, em especial neste momento em que temos na igreja de Roma um papa bem mais afinado com o Concilio Ecumênico Vaticano II. Na verdade o concilio  determinou que o papel de ministro, ou padres, não está limitado aos ordenados, mas é um chamado a todos os batizados.
O Papa Bento XVI declarou em junho de 2009 como o começo do Ano Sacerdotal.
Bento 16 proclamou na época em que instituiu o ano sacerdotal que, "sem o ministério presbiteral, não haveria Eucaristia, não haveria missão e nem mesmo Igreja".
Infelizmente não é bem assim: a Eucaristia, a missão e a Igreja já existiam bem antes do surgimento do sacerdócio. De acordo com os Evangelhos, Jesus não era um padre, nem os seus discípulos. Vemos referências a Jesus como sacerdote na Carta aos Hebreus. O autor usa a palavra para se referir a Jesus como o novo e último "Sumo Sacerdote", encerrando uma grande sucessão de líderes judeus. O autor afirma que os sacerdotes não são mais necessários, porque não se precisa mais de sacrifícios. Jesus foi o sacrifício último e é o nosso sumo sacerdote último.  Talvez o Papa tenha esquecido que Jesus não estava focado no sacerdócio. Ele estava focado no ministério. Ele chamou as pessoas a ministrar junto com ele, independentemente de seu status na sociedade. Ele chamou pescadores e coletores de impostos e a mulher com sete demônios. Todos eram responsáveis pela edificação do Reino de Deus. Todos eram convidados a ministrar, e fizeram isso com vários títulos dados a eles pela comunidade, baseados em seus dons. Alguns eram chamados de profetas, outros, de mestres, e outros ainda de apóstolos. Foi apenas depois que se começou a ver a emergência de uma estrutura ministerial formal com uma terminologia correspondente, quando os seguidores de Jesus foram influenciados e integrados ao Império Romano. 




Até 215 d.C., não temos evidências de uma ordenação ritual de bispos, padres e diáconos.O surgimento de uma estrutura clerical levou, eventualmente, à divisão da fé cristã em "clero" e "leigos". Nos primeiros anos do surgimento do cristianismo, porém, Paulo lembrou os seguidores de Jesus: "Já não há judeu nem grego, nem escravo nem livre, nem homem nem mulher, pois todos vós sois um em Cristo Jesus" (Gálatas 3, 28).Depois do surgimento da ordenação e do sacerdócio, desenvolveu-se uma ordem hierárquica entre os fiéis. A palavra "ordenação" deriva do latim "ordinare", que significa "criar ordem". Desenvolveu-se do uso romano da palavra "ordines", que se referia às classes de pessoas de Roma de acordo com a sua elegibilidade para as posições de governo. Os leigos se tornaram "des-ordenados" do clero. A palavra "leigo" se origina da palavra "laikoi", que se refere àqueles que, na sociedade greco-romana, não eram "ordenados" no âmbito da estrutura política estabelecida. O termo "clero" vem da palavra "kleros", que significa "grupo separado". Enquanto muitos cristãos continuaram a ministrar dentro da Igreja, e até algumas mulheres sustentavam os títulos de diaconisas, sacerdotisas e bispas, muitos dos que possuíam esses títulos faziam parte de um grupo limitado de homens pertencentes ao contexto de uma ordem sócio-política e religiosa particular. Isso perdurou até 1964, quando o Concílio Vaticano II lembrou para a Igreja que o papel de ministro, ou padres, não estava limitado aos ordenados, mas era um chamado a todos os batizados. O documento "Lumen Gentium" proclamava que os leigos se tornavam " participantes, a seu modo, da função sacerdotal, profética e real de Cristo, e exercem, pela parte que lhes toca, a missão de todo o Povo cristão na Igreja se no mundo" (31). O presbiterato, que deriva do fundamento dos ministérios primitivos dos seguidores de Jesus, voltou então para todos os cristãos. Todas as pessoas são novamente chamadas ao ministério. Todos os cristãos são chamados a participar dos papéis proféticos, soberanos e, sim, até mesmo sacerdotais dentro da missão da Igreja




A Eucaristia, a missão e a Igreja existiam bem antes do sacerdócio, todos os fiéis cristãos devem refletir sobre o ministério presbiteral e, fazendo isso, reivindicar o nosso próprio ministério.

Este artigo baseia-se na publicação  de Nicole Sotelo, autora de "Women Healing from Abuse: Meditations for Finding Peace" (Paulist Press), e coordenadora do sítio www. Womenhealing .com. E foi publicado  em  National Catholic Reporter, 11-06-2009. A tradução é de Moisés Sbardelotto e foi distribuído pela Unisinos