Absurdo e graça!

.Na vida hoje caminhamos entre uma fome que condena ao sofrimento uma enorme parcela da humanidade
e uma tecnologia moderníssima que garante um padrão de conforto e bem estar nunca antes imaginado.
Um bilhão de seres humanos estão abaixo da linha da pobreza, na mais absoluta miséria, passam FOME !
Com a tecnologia que foi inventada seria possível produzir alimentos e acabar com TODA a fome no mundo,
não fossem os interesses de alguns grupos detentores da tecnologia e do poder.

"Para mim, o absurdo e a graça não estão mais separados.
Dizer que "tudo é absurdo" ou dizer que "tudo é graça "
é igualmente mentir ou trapacear...
Como morrer e ressuscitar, o absurdo e a graça são só dois lados da mesma moeda."
"Hoje a graça e o absurdo caminham, em mim lado a lado,
não mais estranhos,
mas estranhamente amigos"
A cada dia,nas situações que se nos apresentam podemos decidir entre perpetuar o absurdo ou promover a Graça. (Jean Yves Leloup)

* O Blog tem o mesmo nome do livro autobiográfico de Jean Yves Leloup, e é uma forma de homenagear a quem muito tem me ensinado em seus retiros, seminários e workshops *

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Agradeço por sua visita, ela é muito oportuna.
Aqui eu reúno pensamentos meus
e de outras pessoas com quem sinto afinidade de idéias e ideais.


"Vamos precisar de todo mundo
pra banir do mundo a opressão
Para construir a vida nova
vamos precisar de muito amor...

Vamos precisar de todo mundo,
um mais um é sempre mais que dois
Pra melhor juntar as nossas forças
é só repartir melhor o pão...

Deixa nascer o amor/Deixa fluir o amor
Deixa crescer o amor/Deixa viver o amor

O sal da terra,..." (
Beto Guedes)

5 de abril de 2014

* João XXIII * O Revolucionário Sorridente


O cardeal Roncalli certamente não era um dos expoentes da Igreja,quando Pio XII morreu. E aquele homem gordo, bonachão, filho de humildes camponeses, já estava beirando os 80 anos. Ninguém o via papa.
Quando foi eleito, a impressão que se tinha era de que se tratava de uma espécie de "mandato tampão", um pontífice para reinar pouco tempo, enquanto se preparava a verdadeira sucessão de Pio XII.
Mas João XXIII não foi nada disso. Sorridente, sem pretensões preferindo comer macarrão a jejuar, desencadeou uma revolução na Igreja.

O "mandato tampão" acabou sendo um mandato “bomba”
O modesto camponês que não se fazia notar pela inteligência nem pela cultura, sacudiu o Vaticano de alto a baixo, devolvendo aos católicos a consciência que se estava amortecendo de suas res¬ponsabilidades sociais


Na longa série dos 263 papas que governaram a Igreja, nenhum gozou de tanta simpatia e foi tão popular como João XXIII, que antes de ser eleito se chamava Angelo Giuseppe Roncalli.
Ao ser escolhido a 28 de outubro de 1958 para suceder a Pio XII, que falecera 19 dias antes, depois de ocupar o sólio pontifício durante quase 20 anos, muitos quiseram ver nele um "papa de transição", devido à sua idade avançada, ao seu aspecto de homem bonachão e tranqüilo e ao pouco que a imprensa tinha falado dele até aquela data. Contudo, ao serem anunciadas, em fins de setembro de 1962, as primeiras manifestações da doença do papa, o mundo todo se co¬moveu, e foi com um sentimento de profunda tristeza que recebeu a notícia de sua morte no dia 3 de junho de 1963.
Entre a eleição e a morte de João XXIIl tinha transcorrido apenas o período de cinco anos, esse tem¬po, apesar de breve, fora suficiente para marcar seu pontificado. Com as energias que escondia em seu íntimo e cuja existência seu aspecto de homem atarracado, de fronte larga e ros¬to sereno, não deixava entrever, realizou uma obra que marcou época e passará à História.
Cabe a João XXIII o mérito de ter dado impulso ao movimento de renovação da igreja, de ter convocado o Concílio Ecumênico Vaticano II para atualizar a liturgia e a disciplina eclesiástica, de ter des¬pertado o interesse dos cristãos pelo angustiantes problemas sociais do mundo moderno, de ter lembrado aos povos os princípios da justiça social por meio das encíclicas “Mater et Ma¬gistra” e “Pacem in Terris” e de ter iniciado, na prática, o movimento de união dos cristãos, que até então figurava como um ideal longínquo e um desejo muito vago nos discursos escritos de papas, bispos e sacerdotes.
Graças aos modernos meios de comunicação, os atos e palavras de João XXIII tornaram-se conhecidos do mundo todo e alguns sensibilizaram, pelo seu profundo humanismo, não apenas os católicos, mas também dos membros de outras confissões religiosas. Essa influência foi reconhecida, por exemplo, pelo presidente da Federação protestante da França, o pastor Westphal, que, interpretando o sentir de sua comunidade ao receber a notícia da morte dc Joao XXIII, disse que era a primeira vez na História que os protestantes choravam a morte de um papa.
Não se pode dizer que João XXIII atraia a atenção para a sua pessoa por meio de uma inteligência extraordinária. Embora ele tenha obtido boas notas durante os estudos que fez em Bér¬gamo e em Roma, e escrito alguns livros de caráter histórico que mereceram elogios dos críticos, suas qualidades intelectuais não foram as de um homem superdotado, mas se situaram Não se pode acusá-lo de ter recorrido à demagogia para se tornar popular. Todos os que o conheceram sustentam que os artifícios para enganar, os gestos estudados, o fingimento, a imula¬ção e a mentira eram totalmente estranhos a seus atos e palavras.

"O conhecimento da minha pequenez e do meu nada foi o meu bom companheiro de sempre. Este é o mistério de minha vida."



Seria injusto também dizer que a posição que ocupava como chefe da Igreja foi aproveitada por uma máquina de propaganda bem montada para exaltá-la à face do mundo. Por tudo o que se sabe, não foi João XXIII quem correu atrás dos meios de comunicação, mas eles é que se interessaram pelo homem simples, colocado à frente da Igreja, e tornaram conhecida a sua vida e iniciativas.

Alma iluminada, coração terno.

Qual terá sido então, o segredo do fascínio que exerceu este homem, que alguns de seus críticos consideravam demasiadamente ingênuo? De que meio lançou mão para comover os corações e conquistar a simpatia de cristãos e não cristãos?
A melhor resposta a esta pergunta foi dada pelo próprio papa numa das notas que escreveu em seu diário:
"O conhecimento de minha pequenez e do meu nada foi o meu bom companheiro de sempre, conservando-me humilde e pacífico e concedendo-me a alegria de me consagrar, com todas as minhas forças, à prática ininterrupta da obediência e da caridade. Este é o mistério de minha vida. Não procurei outra explicação. Repeti sempre a frase de São Gregório Nazianzeno:
A tua vontade, ó Senhor, é a minha paz" .

Avançando um pouco mais na inter¬pretação da personalidade de João XXIII, da influência que exerceu e do prestígio que conquistou o pastor Marc Boergner, da Academia France¬sa, escreveu em outubro de 1963:

"João XXIII foi um verdadeiro discípulo de Jesus Cristo, de coração abrasado de amor, que irradiava o espírito de pobreza cantado nas Bem-aventurançase ofertoua vida pela renovação de sua Igreja, a unidade dos cristãos e a paz do mundo. Em João XXIII vemos uma alma iluminada, um coração infinitamente terno, um espírito cheio de bom senso, um homem, enfim, que foi padre, bispo e papa, mas que se conservou sempre profundamente humano, próximo dos homens seus irmãos e, particularmente, os pobres e dos humildes , sempre pronto a amá-los e a servi-los".

Dom Giovanni Urbani, que sucedeu ao cardeal Roncalli no patriarcado de Veneza, deu uma explicação parecida, mas com o mérito de colocar em destaque os principais fatores da popularidade do papa:
"As armas por ele utilizadas para conquistar essa simpatia foram a simplicidade, a sinceridade e a bondade.
Tratando com ele, inclusive, de assuntos mais complicados, o seu interlocutor se admira¬vam-se de sua habilidade para destrinchá-los, reduzi-los ao seu esquema essencial e encontrar para ele rapi¬damente a solução mais conveniente e eficaz. Ninguérn se lembra de tê-lo visto irado, ninguém o surpreendeu num momento de cólera, ninguém notou jamais na sua voz quente e robusta uma tonalidade marcada pelo mau humor ou. azedume"

Estas e outras explicações servem para mostrar a razões da popularidade de João XXIII, mas se nos detivermos nelas, conheceremos apenas uma faceta de sua vida. Ficaremos nos efei¬tos e manifestações de sua personalidade, sem descermos às causas que fizeram dele um discípulo perfeito de Cristo que, pelo seu modo de entender o Evangelho e de vivê-lo em todos os momentos, projetou sobre o mundo cIarões de luz que o homem desejariam ver permanentemente na instituições da Igreja na atividade de seu sacerdotes e bispos.
A simplicidade, sinceridade, bondade e outra qualidade que caracterizaram sua personalidade não foram dom inato, mas fruto de um aprendizado de virtude que começou no primeiro ano e se prolongou por toda a vida. Embora tenha passado a infância num meio simples e pobre como era a aldeia de Sotto il Monte onde nasceu a 25 de novembro de 1881 as condições do lugar e do meio fami¬liar podem ser consideradas, quando muito, um ponto de partida de sua ascensão espiritua1, mas não explicam a serenidade que irradiava de seu semblante ao 82 anos, o constante bom humor que transparecia de seus gestos e palavras, eu interesse pelo bem de todas a pessoas e sua tendência a ver sempre o lado bom da coisa em lugar de apegar-se aos pontos negativos e a de culpar a intenção, quando a obra não merecia aprovação.
A formação da personalidade de João XXIII começou no seminário de Bérgamo, onde se matriculou m 1892.
Quando iniciou seus estudos naquela casa, era ainda criança mas já revelava o amadurecimento de uma pessoa que abe o que quer. Seu ideal era ser sacerdote para servir a Deus e ser útil ao próximo; e, animado pelo desejo de realizar esse sonho que aumentava desde quando fazia o estudo primário, sujeitou-se à normas disciplinares da escola de sacrifício, abnegação e renúncia que é o seminário.

"Não importa o que acham de mim. "

o primeiro ano do seminário traçou um programa de vida e recolheu do Evangelho e dos livros que leu um conjunto de normas que prometeu observar. Tudo foi anotado
cuidadosamente num diário que começou a escrever nesta época e a notas que registrou posteriormente revelam que se manteve sempre fiel as essas normas de conduta. As anotações estavam ao alcance de sua mão e eram utilizadas como tema de meditação e de exame. E com base nos progressos e defeitos observados, renovava os propósitos de ser cada dia melhor.
Essa ascese, iniciada no seminário, Roncalli as continuou como secretário do bispo de Bérgamo, presidente do Conselho Superior das Obras Missionárias Pontifícias, visitador apostólico na Bulgária, delegado apostólico na Turquia e Grécia, núncio apostólico na França, cardeal-patriarca de Veneza e, finalmente, papa. Os retiros a que se entregava periodicamente eram aproveitados para um balanço entre o que e propusera atingir e o que realmente conseguira; e, das ano¬tações que deixou em seu diário, o que e pode concluir é que ele realmente levava a sério o seu propósito de traduzir em sua vida os ensinamentos evangélicos e de ser sempre bom para ser realmente um cristão.

em 1927,Angelo Roncalli, ainda bispo, entre duas tias:
Aneilla, à esquerda, e Caterina. A vida religiosa do futuro
João XXIII começou no seminário de Bérgamo,
onde se matriculou em 1882. Nunca se afastou da família



"Devo ser fiel ao meu propósito a todo custo:
quero ser bom, sempre, com todos."
Seu ideal: a perfeição evangélica.
Quando cardeal patriarca de Veneza, ao fazer uma visita à prefeitura da cidade, onde estavam reunidas pessoas das mais variadas tendências, entre a quais socialistas e comunistas, definiu com clareza o sentido que dava ao nome de cristão, ao afirmar que "só é cristão quem faz o bem": "Aqui na prefeitura estamos na casa de todos e sinto-me à vontade, porque nela se busca o bem comum. Também é a minha casa. Entre os que trabalham pelo bem dos outros, sinto-me muito bem, porque só quem faz o bem é que é cristão. Quer dizer, a única maneira de ser cristão é fazendo o bem. Por isso repito que aqui me acho à vontade e se, por acaso, houver alguém que não se considera cristão, se estiver fazendo o bem, ele realmente o é, embora assim não pense".
De si mesmo costumava dizer: "Não me importa o que pensam e dizem de mim: que eu chegue tarde ou mesmo que não chegue. Devo ser fiel ao meu propósito a todo custo: quero ser bom sempre, com todos".
Realmente João XXIII se manteve fiel a esse propósito de realizar em sua vida o ideal de perfeição proposto por Cristo no Evangelho. Contudo, no seu esforço para ser cada dia melhor, não se fechava em si mesmo nem se isolava como um eremita, mas se mostrava sempre comunicativo, um com¬panheiro sempre disposto a uma boa conversa.

Na primeira fila o cardeal Roncalli entre seus irmãos

No início do seminário, escolheu São Francisco de Sales e alguns outros santos como seus modelos; mas ao voltar do serviço militar, onde tomara contato com o mais variados problemas e pudera apalpar com a mão a realidade da vida de que o mantinham afastado as paredes do seminário, modificou algumas de suas idéias. Em lugar de procurar copiar na sua vida os exemplos deixados por outros, como um pintor que tenta reproduzir fielmente um quadro de Rafael, decidiu impregnar sua vida do Evangelho, de acordo com o próprio gênio suas aptidões pessoais e as circunstâncias especiais de tempo e lugar em que se encontrava.
Graças a esse modo de entender e realizar o ideal de perfeição evangélica, João XXIII foi sempre ele mesmo, sereno em face de toda as contingências da vida, sem se deixar abater pelo acontecimentos adversos nem exaltar pelos prósperos. Seu bom humor era constante e fazia com que tivesse sempre uma palavra alegre, um sorriso e até um piscar de olhos para amenizar uma conversa, dar sabor a um gracejo e suavizar uma repreensão que costumava fazer no momento oportuno e sempre dosada de muita prudência e caridade.

Seu método de ação: o exemplo.

Na Bulgária, onde passou dez anos como visitador e delegado apostólico, fiel ao lema de obedecer sempre, que adotara em seu brasão episcopal, demonstrou com palavras e exemplos que estava à altura da missão para a qual fora escolhido pelo papa Pio XI.
Não se limitava a exortar os cristãos dos diferentes ritos a se manterem unidos entre si e com os ortodoxos, mas procurava, com o exemplo de sua a vida, tornar realidade a caridade evan¬gélica, tal como ele a entendia. Mantinha freqüentes contatos com
sacerdotes e bispos ortodoxos, colaborava nas suas obras e fugia a qualquer tipo de polêmica, porque sabia que estas disputas não costumam fazer brilhar e a luz, mas só acentuam a divergên¬cias e o desacordo com prejuízo da caridade.
Os resultados desse modo de agir foram sentido no dia 4 de janeiro de 1935, quando deixou Sófia para assumir, em Constantinopla, o cargo de delegado apostólico na Turquia e Grécia. O representante do papa, que, e ao chegar à capital búlgara no dia 25 n de abril de 1925, só encontrara à sua a espera um sacerdote do rito oriental, a ao partir para sua nova missão rece¬beu manifestações de estima, de respeito e de gratidão de representantes do rei Bóris, do metropolita ortodoxo Stephan Gheorghiev e de outra confissões religiosas .
E não foi para fazer figura de retórica ou utilizar um recurso oratório que, no discurso de despedida numa alusão a um costume natalino da Irlanda, disse que, onde quer que ele estivesse, haveria sempre uma vela em sua janela a indicar que os "irmão búlgaros" seriam sempre bem acolhidos em sua casa. O delegado apostólico falou com sinceridade nessa como em outras ocasiões, como demons¬trou com todas as pessoas que bateram à sua porta à procura de um conselho, de uma palavra amiga ou de ajuda.

João XXIII visita a prisão de Regina Coelli em Roma
Seu interesse pelos desafortunados nunca esmoreceu
Depois do intelectualismo frio de um Pio XII,
o estilo do papa Roncalli foi um contraste.

Foi hostilizado por muitos.

Na Turquia, que vivia o efeito do movimento de democratização e liber¬tação, liderado por Mustafá Kemal, que passou à História com o nome de Ataturk (o pai dos turcos), o
delegado apostólico sugeriu a mesma linha de conduta. Mantendo-se à margem da política como fizera na Bulgária e na Itália e continuaria a fazer na França ao ser nomeado núncio apostólico nesse país , durante o dez anos que passou entre os turcos e os gregos esforçou-se para estreitar os laços de união entre todos, católicos ou não.

Roncalli é o quarto da direita para a esquerda,
visita a um convento na Grecia.
Passou meses naquele pais ajudando
as vitimas da segunda guerra mundial

"Entre os que trabalham pelo bem dos outros, sinto-me muito bem. A única maneira de " ser cristão é sempre fazer o bem."

Foi na Grécia, porém, que o delegado apostólico teve oportunidade de revelar os valores cristãos de sua personalidade e toda a grandeza de sua alma.
A despeito de seus esforços para se aproximar do representantes do go¬verno e da Igreja ortodoxa, com a finalidade de mostrar que sua missão era dar assistência ao católico sem se envolver nos problemas políticos do país nem criar embaraços à religião oficial, foi hostilizado incessantemente por uns como por outros. Em seu diário, ele lamenta a incompreensão e intolerância que tornavam quase impossível ao católico a prática religiosa. Contudo, fiel ao seu propósito de conciliar em lugar de acentuar as divergências e de construir uma ponte para fazer desaparecer um abismo, Roncalli colocou-se acima da animosidade e dos interesses mesquinhos. Com o pensamento voltado para o seu ideal de ser útil ao próximo, cumpriu fielmente sua missão de dar assistência aos católicos dos diferentes ritos espalhados por todo o território grego.

A pobreza: velha companheira.

Nos momentos de provação que se abateram sobre a Grécia durante a segunda Guerra Mundial e quando a fome fazia centenas de vítimas nas ruas de Atenas, Salônica, Corinto e outras cidades, o delegado apostólico abandonou a relativa tranqüilidade de que gozava em Constantinopla, para per¬manecer ao lado dos que tinham sido atingidos pelos conflitos e assim poder minorar seus sofrimentos. Esquecido das dificuldades que enfrentara no desempenho de sua missão e superando a natural aversão que sentia para trabalhar na Grécia, permaneceu longos meses no país, coordenando a obra de assistência aos famintos e doentes, e visitando os campos de concentração e o hospitais , para levar uma palavra de conforto ao prisioneiro e ferido.
A pedido do primeiro-ministro Seragioglu e do patriarca ortodoxo Damaskinos, recorreu ao papa Pio XII, para conseguir dosa Grécia estava submetida por mar. Foi assim que o país pôde receber 370 mil toneladas de trigo, que permitiram salvar a vida de milhares de pessoas que, devido à má colheita, teriam aliados a atenuação do bloqueio a que perecido durante o inverno.
Ao lado dessas manifestações do sacerdote e do bispo que, no desempenho de suas funções religiosas, não esquecia sua condição de homem nem fugia aos seu deveres para com a
sociedade da qual sempre se considerou um membro solidário, convém colocar em
destaque a pobreza evangélica que dominou toda a sua vida.

Nascido de uma família de humildes agricultores, que do amanho da terra tirava os parcos recursos com que alimentava os numerosos filhos, a pobreza foi uma companheira não apenas na infância, mas ao longo de toda a sua vida. Jamais se envergonhou dessa condição e mesmo depois de elevado ao sólio pontifício, costurnava lembrar com freqüência suas origens humildes:
" Venho de família humilde e fui educado numa pobreza comedida e bendita. que tem pouca exigências. Éramos muito pobres mas felizes. Não sentíamos falta de nada. Nossa pobreza era uma pobreza digna e sóbria".


Depois de ordenar-se sacerdote e no cargo que ocupou como secretário do bispo de Bérgamo, representante do papa na Bulgária Turquia, Grécia e França, patriarca de Veneza e como papa, teve oportunidade de melhorar sua condição de vida, guardando o que ganhava pelo seu trabalho. Assim teriam agido outro, preocupados em assegurar seu futuro, mas não foi isto o que fez João XXIII, pois a pobreza deixara de ser para ele, desde seus anos de seminário, apenas uma con¬dição social, para se transformar numa virtude que procurava cultivar com carinho.
"Devo evitar ser interesseiro. "
Numa da notas que escreveu em seu diário ainda no seminário, aparece essa norma de vida: "Evitar cuidadosamente ser interesseiro, ávido de possuir dinheiro ou apegado ao bens terrenos ", e por ela João XXIII pautou toda a sua vida. Apesar de estudar com a ajuda de um sacerdote da diocese de Bérgamo, o cônego Giovanni Moriani, ainda no seminário, demonstrou que o que escrevera não era letra morta, pois , como testemunharam alguns de seus colegas, muita vezes se privava do pouco dinheiro que recebia dos pais para ajudar os companheiro mais necessitados.

Uma da prova de seu desprendimento foi a Casa do estudante, que fundou em Bérgamo, para acolher os jovens em recurso. Aproveitou para isto uma casa de propriedade da diocese e ali instalou os jovens que freqüentavam os colégio da cidade . A mobília, cobertores , roupas e demais utensílios foram adquiridos por Roncalli com o dinheiro que recebera pelo serviços que prestara no Exército durante a Primeira Guerra Mundial. Mais tarde, como bispo e cardeal, reservava parte do dinheiro que recebia pelo seu trabalho, para custear a despesa de um asilo de órfãos que fun¬dara em Sotto il Monte. A obra, que funcionava numa casa por ele alugada e confiada aos cuidado de religiosas , só se tornou conhecida depois de sua elevação ao sólio pontifício. Roncalli procurou manter sempre em segredo sua boa obra, pois seu único desejo era fazer o bem sem chamar a atenção para a ua pessoa.
João XXIII distribuía com largueza tudo o que chegava às suas mãos sem jamais reservar nada para si. Em certa ocasião, ao ver seu secretário dar uma esmola que considerou
insuficiente para resolver o problema mais prementes do pedinte, chamou-o de parte mandou elevar o montante da ajuda, para que a esmola não acabasse desvalorizada como o dinheiro.
Contudo, esse homem, que fizera da pobreza uma condição de vida a que adaptara livremente, valia-se do Evangelho com a mesma energia para defender os injustiçados, pois não admitia que se confundisse a pobreza livremente aceita com aquela que é resultado da negação dos direitos alheios.
As encíclicas “Mater et Magistra” e “Pacem in Terris” são fruto de e seu modo de interpretar o Evangelho e do que aprendera nos diferentes lugares onde exerceu o
apostolado. Em Bérgarno, as lições de Dom Radini Tedeschi marcaram profundamente
sua vida e numa época em que a palavra greve soava como sinônimo de revolta e subversão e a formação de sindicatos era olhada com desconfiança, a exemplo do bispo, dava apoio financeiro e moral ao que, s de esgotados todos os meios pacíficos entravam em greve para defender seu direitos e forçar o governo a ditar normas para conter a ganância dos empresários.
No Vaticano, uma das primeiras coisas que fez, logo depois de eleito, foi conhecer a
situação econômica e financeira dos guardas e funcionários. Alarmado com o que constatou na conversa que manteve com ele, prometeu aumentar substancialmente seu
salário, a fim de que , como disse, a justiça começa-se em casa. Ao anunciar o aumento, houve algumas objeções da parte do encarregado das finanças do Vaticano, mas o papa a desfez com facilidade, ao indicar que, se necessário, reduziria o vencimento dos funcionários de maior cate¬goria para, com o dinheiro economizado, equilibrar as despesas exigidas pelos aumentos prometidos aos mais humildes.


Ainda como núncio apostólico em Paris,
o cardeal Roncalli recebe o chapeu das mãos
do presidente da França

"Respeitar é o melhor meio de tornar os homens dóceis aos bons conselhos. A Igreja não é um museu.
É uma fonte."

Ao contrário de muitas pessoas que, à medida que progridem na vida, se esquecem de suas origens, João XXIII manteve sempre seus vínculos com a terra natal, com seus parentes humil¬des e pobres e com os agricultores simples da aldeia onde nasceu. Como bispo, sacerdote e cardeal, ia muitas vezes passar as férias no meio dos seus e depois de eleito papa, um de seus desejos era poder sair do Vati¬cano por alguns dias, para ir a “Soto il Monte” dedicar-se ao cultivo dos campos com seus irmãos.

"Guardas da minha prisão. "

Esses vínculos que o conservaram ligado à pobreza e à simplicidade influíram em muitas de suas idéias e foram responsáveis pela sua aversão aos títulos pomposos, pela fuga às honrarias e às manifestações ruidosas e pelas suas reações diante do formalismo de muitos usos e costumes rigo¬rosamente observados no Vaticano. Jamais se sujeitou a eles, preferindo ser ele mesmo, em lugar de se sub¬meter a um protocolo complicado que o distanciava do povo com o qual sempre procurara viver.

A exemplo do que costumava fazer em Sófia, Constantinopla, Paris e Veneza, onde saía com freqüência a pé e se misturava com o povo nos transportes coletivos, porque isto lhe per¬mitia aproximar-se do homem simples da rua, no Vaticano eram freqüentes suas saídas sem aviso prévio e sem guardas de segurança, para visitar ltospitais, prisões, colégios, igrejas e asilos de velhos. A um cardeal que lhe recomendou que reduzisse as saídas que costumava fazer durante o dia, respondeu, em tom de gracejo, que passaria a sair à noite.

Um do costume a que jamais se adaptou foi o de comer sozinho, obervado pelos seus predecessores. De início, aceitou aquele uso, mas com o correr do dias, não conseguiu
escon¬der o desagrado que lhe causava ter de fazer as refeições sem a companhia de outras pessoas. Falando com um de seus auxiliares, disse que, lendo atentamente o Evangelho, não tinha encontrado uma passagem sequer que obrigasse o papa a comer sozinho.
Era contrário ao trajes pomposos usados no Vaticano e dentro deles sentia-se como um sátrapa persa, como costumava dizer. Da mesma forma, não se sentia bem ao ver-se cercado de tanto sacerdotes, bispos e monenhores , preocupados em serví-lo, co¬mo se não tivesse condições de se va¬ler para nada. Em mais de uma ocasião, com sua maneira
Simples de dizer as coisas, qualificou de "guarda da minha prisão" o chefe do cerimo¬nial, os monsenhores e os outros eclesiásticos que o cercavam.

Assim era João XXIII e assim se manteve toda a vida. Com palavrsa e atos, mostrou que um papa não é apenas um chefe de Estado, um soberano, um homem colocado acima dos demais para mandar e governar, um letrado com a missão de instruir, uma figura cercada de uma auréola de misticismo a quem se deve venerar como Vigário de Cristo, mas um homem igual aos demais, que sente como ele, que conhece suas dificuldades, que se interesa por eu problemas.
João XXIII procurava ver o homem tal como eles são, com seus defeitos, misérias e erros, para assim compreendê-lo e ajudá-Io . Em lugar de condenar, como muito fazem, a
peque¬nas falhas, apegava- sse ao lado bom de tudo, esforçando-se para não deixar apagar a mecha que ainda fumegava, de acordo com o conselho do Evangelho.
Prova disto foi a expressão que usou: "É uma decisão lamentável", ao saber que o Santo Ofício havia publicado uma advertência a respeito da obra de Teillard de Chardin.



Morte de João XXIII, o papa de transição que marcou mais a igreja
do que qualquer outro de seus antecessores. Sua morte foi lamentada no mundo todo

Para ele, "respeitar é o melhor meio de tomar os homens benevolentes e dóceis aos bons conselhos". Com essa visão dos homens e com seu modo de interpretar e viver o Evangelho, que o aproxima muito de São Francisco de Assis, João XXIII via na Igreja uma fonte de águas límpidas e, nos bispos e sacerdotes, os encearregados de dar de beber a quem tem sede, sejam católicos ou não. Era assim que ele entendia a sua missão, cemo se pode concluir da seguinte passagem de seu diário: "Homens de todas as categorias aproximam-se de minha pobre fonte. Cabe-me dar de beber a todos. Deixar uma boa
impressão, mesmo no coração de um malfeítor, parece-me um ato de caridade, que a seu tempo será abençoado. A Igreja não é um museu de arqueologia, mas a velha fonte. que dá de beber às gerações de hoje, como fez com as do passado".

Era assim que ele pensava e assim que ele vivia. A sinceridade de suas convicções que se refletiam nos seus gestos e palavras e nas relações com seus semelhantes transparece
luminosa na passagem de seu diário em que resume toda a sua vida:
"Não cavei abismos de cisão nem de descontentamento. Não afligi as almas imortais, semeando a dúvida ou o medo. Fui franco, leal e confiante. Com fraternal simpatia olhei nos olhos de todos, daquele que não partilhavam de meus ideais , na esperança de que, quando soar a hora, todos sejamos um, de acordo com o desejo de Jesus ".

Texto de Wanderlan Corte Gama










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