O absurdo e a Graça

Na vida hoje caminhamos entre uma fome que condena ao sofrimento uma enorme parcela da humanidade e uma tecnologia moderníssima que garante um padrão de conforto e bem estar nunca antes imaginado. Um bilhão de seres humanos estão abaixo da linha da pobreza, na mais absoluta miséria, passam FOME ! Com a tecnologia que foi inventada seria possível produzir alimentos e acabar com TODA a fome no mundo, não fossem os interesses de alguns grupos detentores da tecnologia e do poder. "Para mim, o absurdo e a graça não estão mais separados. Dizer que "tudo é absurdo" ou dizer que "tudo é graça " é igualmente mentir ou trapacear... "Hoje a graça e o absurdo caminham, em mim lado a lado, não mais estranhos, mas estranhamente amigos" A cada dia, nas situações que se nos apresentam podemos decidir entre perpetuar o absurdo, ou promover a Graça. (Jean Yves Leloup) * O Blog tem o mesmo nome do livro autobiográfico de Jean Yves Leloup, e é uma forma de homenagear a quem muito tem me ensinado em seus livros retiros, seminários e workshops *

10 de agosto de 2013

UM HOMEM TORTURADO: Frei Tito de Alencar

No dia 10 de agosto de 1974, um morador dos arredores de Lyon encontrou o corpo de Frei Tito suspenso por uma corda. A causa da morte – suspeita de suicídio – tornou-se um enigma. Neste 10 de Agosto fica aqui mais um relato sobre esse mártir dos tempos modernos, vitima da Ditadura Brasileira 64/85.
Frei Tito !
PRESENTE !

Eu me autorizo falar psicanaliticamente da tortura por ter, como jovem psiquiatra, acolhido Tito de Alencar no hospital. Este intelectual, duplamente comprometido, religiosamente como dominicano, e politicamente como líder de um dos movimentos de liberação nacional que emergiram no Brasil depois do golpe de l964, foi preso em 1969, em decorrência do assassinato do líder comunista Marighela. Este assassinato foi a obra secreta do delegado Fleury e dos esquadrões da morte. Na mente dos autores dele, cumpria um duplo objetivo: liquidar Marighela e comprometer definitivamente os religiosos engajados na luta revolucionária. Durante um encarceramento de vários meses, Tito de Alencar foi submetido a interrogatórios policiais e a torturas, por este mesmo comissário Fleury. Daquela experiência da tortura que definitivamente o deixou alquebrado, nós possuímos um duplo testemunho: por um lado, são escritas que ele teve a coragem de escrever na prisão (isso foi publicado em uma compilação que foi dedicada a ele: " Então as pedras gritarão ", e por outro lado, a restituição desta experiência, como ele mesmo a transmitiu por meio de um estado melancólico e delirante apresentado nos meses que precederam sua morte.
Talvez porque, pela sua origem, pertencia à classe média, tradicionalmente favorável ao regime político da situação, mas também porque ele era religioso, parece que Fleury e os torturadores dele obstinaram-se sobre o Tito de Alencar com uma crueldade particular. Para escapar disto, ele teve recurso, na própria prisão, a uma tentativa de suicídio, seccionando a artéria do braço, e só escapou graças à vigilância dos executores dele, receiosos em ter que assumir a responsabilidade por este gesto. Tito evoca nas escritas dele a frase que ele ouviu no seu meio-coma: 'Doutor, aquele é absolutamente necessário salvá-lo, caso contrário nós estamos perdidos.' [1] É inclusive graças a este suicídio que a Igreja, em primeiro lugar e depois outras instâncias da sociedade, foram alertadas a respeito da prática da tortura nas prisões brasileiras.
Porque, como nós o veremos com mais detalhes, uma das condições da prática da tortura é a de poder se beneficiar com uma clandestinidade de fato.
Graças às circunstâncias excepcionais - o rapto do embaixador de Suíça pelos revolucionários brasileiros seguido pela liberação dele em troca de um certo número de presos políticos - Tito de Alencar pôde deixar a prisão em 1970, e foi expulso imediatamente. Depois de uma breve permanência no Chile e na Itália, ele foi acolhido na França.
Mas esta real liberdade só fez dramatizar a alienação interior para a qual a experiência da tortura o tinha definitivamente empurrado. De fato, desde as primeiras vezes, Tito mal conseguia iniciar, e logo os abandonava, estudos, psicoterapia e até mesmo psicanálise. Durante a sua longa permanência em Paris, de acordo com seus amigos, ele era um homem completamente aboulique, retomando sem parar um questionamento político, religioso, duvidando profundamente de si mesmo, e convencido de ter traído a causa dominicana como também a causa revolucionária. Ele passava horas escrevendo, como que para tentar reconstruir uma verdade interior, e é certo que foi neste exato ponto que a tortura teve pleno êxito contra ele.
Frente a este desespero, seus superiores religiosos tiveram a idéia de confiá-lo a uma outra comunidade dominicana, particularmente carinhosa, a de Éveux, neste convento bonito construído por Le Corbusier, em meio às colinas do país Lyonense. Depois de um período onde Tito se achava obviamente melhor, explodiram, ruidosamente e dramaticamente, as demonstrações delirantes que não iam deixá-lo jamais, até seu suicídio alguns meses mais tarde. Começou com as fugas inexplicadas, cada vez mais freqüentes, e mais longas. Inexplicadas até que um dos Irmãos dele, mais próximo, descobrisse a razão delas: O Fleury falava a Tito e lhe dava ordens – para não entrar, não deitar, para não comer... O Tito foi se redobrando cada vez mais em si mesmo, cada vez mais mutique, cada vez mais triste. Na seqüência de uma destas fugas, ele foi levado para o hospital.
Foi uma cena trágica aquela que presenciamos então: um homem como que encurralado, entregando-se a nós como se fôssemos seus executores. Quando foi para o quarto, ele logo se jogou na parede, braços para cima, como que para ser executado na hora. Depois quando foi para administrar-lhe um remédio para alívio, tomou-o como se fosse o veneno que devia acabar com ele. Cena dramática porque ali era reconstituída completamente, literalmente, a situação exata da tortura, situação que neste momento nós não tínhamos meio de entender, mas que, pouco a pouco, graças à cooperação com seus Irmãos Dominicanos, com os amigos dele, nós conseguimos levar à luz do dia.
Adquirimos rapidamente a convicção de que não estávamos na frente de uma patologia psiquiátrica habitual, nem de um ponto de vista semiológico nem num plano que eu chamarei ético. Os sintomas apresentados por este paciente, embora pudessem ser os de uma melancolia habitual, tomavam lugar em um mesmo contexto de exibição bastante particular. Eu falei de «cena» porque o painel clínico incluía uma dimensão muito intencionalmente teatral; apesar do mutismo quase total deste homem, apesar da força de sua crença delirante de que éramos algozes, pressentíamos também que sua consciência não tinha realmente virado para uma convicção delirante, e que o que o paciente nos expunha era mais um testemunho do que uma patologia. A intensidade do sofrimento psíquico - mais que da dor moral – ia no mesmo sentido.
Eu percebo agora que a aposta que nós fizemos naquele momento – a equipe de enfermagem e Irmãos Dominicanos – a de considerar este estado menos como uma patologia do que como um testemunho, ia no sentido da intenção de Tito de Alencar expressar por este "delírio" (ou talvez por esta exibição histérica, mas não importa...) os tipos de crueldade que ele tinha sofrido durante sua tortura, muito melhor e muito mais precisamente do que o que ele poderia escrever a respeito. Tocamos aqui ao limite da linguagem que só pode dar conta daquilo que não escapa à consciência, enquanto o delírio dele transmitia tudo o que pudera ser trocado inconscientemente entre a vítima e seu carrasco. Mas também, esta aposta queria proteger o Tito de uma decadência apontada pelo torturador. O projeto do torturador era exatamente "tornar louca" a sua vítima, mas em um pós-golpe distante, em um tempo onde a relação de causa a efeito com a tortura não seria mais óbvia. A loucura assim instalada denunciaria simplesmente uma constituição doentia do paciente e também geradora, por que não?, de seus equívocos na luta e no compromisso político. Um diagnóstico psiquiátrico de loucura teria definitivamente difamado Tito de Alencar.
Apesar de várias remissões onde os sintomas desapareceram, onde seu relacionamento com os outros melhorava, nada mudou verdadeiramente em Tito desta tendência em reviver, e fazer reviver, compulsivamente, a situação da tortura, como que testemunhando com isso a força e a qualidade particular – digamos logo erótico – do vínculo que o tinha amarrado indelevelmente e apesar dele mesmo a seus torturadores. Suas relações com os Irmãos de sua comunidade, aparentemente simples e calorosas de novo, arranhava-se com crises interpretativas onde Tito os suspeitava de ser os cúmplices do Fleury. De uma maneira permanente, porém subterrânea na maioria do tempo, a sobrevivência nele da situação da tortura seguia seu curso.
É provavelmente para escapar novamente da tortura que Tito de Alencar cometeu suicídio, em um momento em que estava aparentemente melhor e tinha aceitado a idéia de se inscrever socialmente assumindo um trabalho na periferia de Lyon. Não se pode evitar de ver neste suicídio exitoso a retomada do seu gesto fracassado nas prisões de São Paulo, gesto do qual tinha sido desapropriado por seus algozes, como da última liberdade à qual o homem pode pretender. E sentimo-nos autorizados a interpretar as circunstâncias do seu suicídio, já que se enforcou ao topo de um álamo, em uma descarga pública: assim o pássaro migratório se deixa pegar pelos fios elétricos... Poetizamos os fatos, em reação exatamente a este movimento de despoetização que a tortura realiza no ser? Se a própria linguagem é impotente em prestar conta dos acontecimentos, isto resulta na sua desqualificação como meio de expressão poética; daí a busca de meios substitutivos, como a patologia, tanto o delírio quanto o suicídio.
E neste suicídio, e sua cena particular, não estaríamos ouvindo seu infortúnio de exilado, sua erradicação, seu país obviamente de onde tinha sido expulso mas também a erradicação bem mais profunda que a tortura tinha provocado em relação a ele mesmo, à sua identidade, aos seus ideais...
O suicídio de Tito de Alencar desvela claramente a natureza destrutiva da tortura. Entre os significados que podem ser apurados deste suicídio – bem como da precedente tentativa - há essa vontade de dramatizar que ele tinha morrido, em um certo sentido, digamos espiritualmente, durante a prova da tortura, que não passava mais, de lá para cá, de um sobrevivente.
Certamente a tortura não inclui sempre um resultado tão destruidor, e, em particular, companheiros de Tito, igualmente torturados, não sofreram as mesmas conseqüências. O caso de Tito nos leva a nos interrogar sobre o que foi que tornou tão assassina essa experiência para ele. Se confrontarmos o que tivemos oportunidade de observar do seu delírio e as vicissitudes de sua sobrevivência, com os testemunhos escritos que ele deixou, precisamos admitir ou que o efeito psicológico que vem com qualquer tortura física foi particularmente agudo no caso dele, ou que, ao lado das crueldades meramente físicas, Tito sofreu uma forma particular de tortura psicológica. Isso é tanto mais provável que, por conta de seu status social de padre e intelectual, Tito de Alencar representava para seus algozes, e em particular para o delegado Fleury, um símbolo. Símbolo de uma nova aliança da fé e da revolução, opondo-se à aliança tradicional da Igreja e do Estado, e que era necessário desqualificá-la absolutamente para evitar sua propagação. Esta aliança, pela sua ambigüidade, pela sua novidade, representava uma déviance, suscetível de encontrar uma saída positiva, e da qual era necessário demonstrar a negatividade, absolutamente. A ambigüidade da aliança será o exato lugar onde o torturador agirá, e agirá psicologicamente, por meio de um duplo movimento de desqualificação da dialética que está em jogo aí, e de evidenciamento da incoerência que nela está também presente.
No testemunho que Tito de Alencar escreveu no cárcere em 1970, acha-se uma descrição muito literal dos fatos sofridos. Seu primeiro contato com a tortura é o «pau de arara », tortura que consiste em ajoelhar o preso nu, enfiar uma barra de ferro na dobra dos joelhos, prender por trás seus pulsos com seus calcanhares, e em seguida suspendê-lo de cabeça para baixo. «Assim suspendido, despido, eu recebi descargas elétricas de corrente contínua nos tendões dos pés e na cabeça. Os torturadores eram seis. Eles me aplicaram o "telefone" (bater as duas orelhas com a palma da mão ao mesmo tempo para fazer explodir os tímpanos) e eles me gritavam injúrias.» [2]
Identifica-se aqui, por parte dos torturadores, a busca de um efeito de estimulação (sommation) das diversas fontes de excitação: físicas, elétricas, sonoras e também verbais, e a nudez traz consigo uma excitação muito diretamente sexual. Mas reencontraremos essa estimulação de outro modo. De fato, os torturadores não vacilam acumular crueldades nas distintas partes do corpo. «Eles lançaram algumas descargas elétricas em minhas mãos, em meus pés, em minhas orelhas e em minha cabeça. A cada descarga todo meu corpo passava a tremer como se fosse despedaçar[3]» Por meio desta estimulação, além da brutalidade, busca-se provocar uma mutação psíquica do sujeito. Mas se podemos, nós, decifrar esta situação assim, Tito, ele, não podia discernir a estimulação que estava em jogo, nem a intenção que a ela presidia. O testemunho posterior do delírio é muito mais autêntico que o testemunho escrito porque nos mostra que Tito podia ter consciência somente de uma parte da situação; acontece desde o começo da tortura uma dissociação muito clara entre a consciência imediata dos fatos, e uma interiorização mais inconsciente onde não importa mais a diferença entre sevícias sofridas e sevícias desejadas. «Era eu impossível saber que parte do corpo era mais doída. Eu tinha a impressão de ser esmagado por toda parte. Minha mente não era mais coordenada, eu só tinha o desejo de perder os sentidos[4]”.
A estimulação visa de fato engajar, sem o conhecimento da vítima, seu desejo, e solicitar assim mesmo uma cumplicidade. Pois, pelo sofrimento, o corpo é solicitado eroticamente até o ponto onde uma auto-excitação interna é capaz de dar continuidade, de modo quase autônomo, à excitação externa. Confusão e culpabilidade virão como conseqüências de uma certa dissolução de categorias do interior e do exterior: não é o torturador que faz perder os sentidos, é ele mesmo que passa a sentir o desejo disso. Reencontramos, claro, o desejo à obra, de modo grotesco, na reconstrução delirante da tortura.
Um passo a mais na mutação psíquica secreta da vítima é perceptível no seguinte evento relatado por Tito: ele cai nas mãos de um novo torturador, o capitão AIbernaz. «Quando eu venho na Operação-Bandeirante, eu deixo o coração em casa. Eu tenho horror dos curas... Você conhece Fulano e Beltrano? (menciona os nomes de dois presos políticos torturados, com muita selvageria por ele), você vai ter direito ao mesmo tratamento: descargas elétricas o dia todo. Para cada um de seus NÃO, você receberá uma descarga mais importante. Havia três militares na sala. Um deles gritou: "Eu quero nomes de homens e de organizações clandestinas ".
Quando eu respondi: "Eu não sei, eu recebi uma descarga elétrica tão forte, daquelas diretamente plugadas na tomada, que eu perdi o controle de minhas funções fisiológicas [5]
É difícil superarmos o pathos desta situação, e o espanto onde é deixado o leitor. Medimos a decadência onde é levado o verbo nesta experiência, tanto pela nossa tendência em ficar sem voz perante este relato quanto pelo fato de que o torturador parece não esperar por outra resposta a não ser exatamente o NÃO. O desespero na tortura passa pela decadência da linguagem. Há algo realmente infame nesta estratégia que usa, com aparente objetivo de fazer falar, de um constrangimento que organicamente castra a pessoa de seus meios de expressão, a tal ponto que o leitor é submetido à convicção, nesta passagem, que a tortura não é usada como um método de interrogatório policial, mas que ela tem um objetivo autônomo que é o de uma compromissão.
De fato, as descargas elétricas visam precisamente aqui a levar a vítima a se sujar. Ainda em sua narração, Tito alude a alguns as várias pessoas presentes ao lado do torturador: uma multidão de olhares que, portanto, concorrem, através de voyeurismo, para erotizar o relaxamento dos esfíncteres e os afectos múltiplos que o sujeito passa a sentir. Insistimos no exibicionismo presente em seu delírio e pode-se ver neste exibicionismo delirante a retomada de um afecto sofrido na tortura, o qual Tito não tinha meios de controlar, ao escrever.
O horror continua para ele: «Ele (o torturador) entrou nos ataques morais: Quais os padres que têm amantes? Por que a Igreja não expulsou vocês todos? Quem são os padres terroristas? Disse que a Igreja é corrupta, que pratica malversações financeiras, que o Vaticano é o proprietário das maiores empresas. A todas minhas respostas negativas, eles me davam descargas, socos, pontapés, e golpes de vara no tórax. Num determinado momento, o capitão Albernaz ordenou que eu abrisse a boca para receber "a hóstia sagrada ". Ele introduziu um fio elétrico. Eu permaneci de boca inchada, sem poder falar adequadamente. Eles gritavam contra a Igreja. Eles gritavam que os padres são uns homossexuais porque eles não são casados... Eles só pararam às quatorze horas» (nota-se que tinham começado de manhã às oito horas)[6].
A densidade patética da narração vem da pressa com que foi escrito, como em uma luta contra o esquecimento, contra o recalque benfazejo a curto prazo, mas que o alienará posteriormente, ao ter que rememorar pelo viés do delírio.
Tito, como foi falado, nunca mais conseguiu habitar sua identidade de religioso, e uma parte grande de seus escritos expressará a busca dolorosa de uma espiritualidade nova, impossível porquanto a procurava exclusivamente na reconciliação de ideais contraditórios: Freud e Marx, Marx e Cristo, etc.
Neste último fragmento da narração, percebe-se melhor por que procedimento a tortura consegue a mutação psicológica do sujeito. Consiste na destruição de auto-representações idealizantes do eu. Mais justamente aqui, o que especificamente é contestado é a representação a mais espiritual, a mais especular também, a do padre. Destruição seguida pela imposição de uma nova identidade, como a negativa da anterior,: «Você é um falso padre», em contradição: “A Igreja é corrupta », e na sensação de uma decadência: «Os padres são uns homossexuais.»
Da maneira que o Tito consegue evocá-lo, o procedimento torturador parece desenvolver-se como um drama do qual a cena paródica da comunhão seria o ápice. Com uma malignidade estratégica que só uma relação muito apaixonada pode inspirar, a manipulação pelo torturador do simbolismo religioso visa desacreditar, tornar em derrisão um setor da identidade da vítima, aquele do qual pode-se dizer que ele é o lugar de todas as sublimações e todas as transcendências. Ele é desacreditado porque é reduzido a um gestual quase pornográfica, neste contexto de excitação corporal, depois de tantas horas de sevícias.
Imagina-se que foi neste momento preciso que Tito de Alencar perdeu toda possibilidade de se reconhecer como o padre que ele era. A razão pela qual deve ter aderido a esta paródia está em relação com o ardil que consiste, não tanto em denunciar ex-abrupto a religião, mas em fazer ressaltar o embasamento pulsional, a partir do qual a sublimação religiosa pôde desenvolver-se. De fato, o torturador só faz virar de sua vertente solar, sublimatória, para uma vertente sombria pulsional. A tortura se revela como uma operação de sublimação.
Também é uma operação de despoetização. Porque se prestamos atenção, neste fragmento de narração, à importância das palavras que são expressadas pelos carrascos, nota-se vários pontos. Como provavelmente em outros momentos, o carrasco não deixa de insultar a vítima, mas, notemo-lo, de um modo relativamente sincronizado com as crueldades físicas. Como se cada interjeição fosse lançada e fosse introduzida no sujeito após um trauma físico. De fato, esta linguagem diz coisas das quais não é possível evitar a falsidade, já que contém, apesar de tudo, sua parte de verdade. E é sobre a ambigüidade do verdadeiro e do falso que está jogando: sobre a palavra homossexual, por exemplo, verdadeira de uma verdade que, latente, concerne todo ser humano, verdadeira também de uma verdade de fato, na situação do ser Tito que está sofrendo passivamente uma paródia de felação em um contexto de exibicionismo-voyeurismo. Na realidade, não somente a linguagem se introduz no rasto das sevícias corporais, mas, bem mais, ela as acompanha e vem lhes dar um sentido que por si só não poderiam ter. A linguagem funciona aqui como um veredicto, melhor, como uma interpretação selvagem que vem estigmatizar de modo absolutamente irreversível a ressonância emocional que as sevícias tentam provocar no sujeito.
Pode-se dizer que com o insulto, o carrasco completa sua estratégia e encerra a experiência. A linguagem assumiria assim um papel análogo aos olhares das pessoas que assistem à cena. Pois como Tito poderá, para sempre, repensar este momento da experiência onde, despido, humilhado, constrangido, está apanhando, sendo passivamente estuprado, sem que seja através do veredicto das vozes e dos olhares: «Você é um homossexual», «Você se entrega e se expõe como uma mulher»?
Esta palavra que diz ao mesmo tempo o verdadeiro e o falso, que se impõe do exterior e acha sua ressonância dentro, não poderá mais ser objeto de uma elaboração espontânea. Caída de seu estatuto semântico, sofreu uma despoetização que a reduziu a um mero corpo estranho, uma coisa que habitará duravelmente o sujeito e que reencontraremos à obra, novamente, na hora das fases menos subterrâneas do seu delírio, quando a voz do torturador lhe ditará cada ato de sua vida.
Não há duvida que Tito de Alencar morreu no decorrer de suas torturas. Mesmo incorrendo no risco do pathos, estou inclinado a afirmar essa proposição na medida em que o que Tito era, o religioso, o lutador, mas também o homem inscrito numa história privada, doméstica, o filho, o irmão, não o era mais. Tito se tornou alguém outro, aquele que seu torturador teria querido que fosse. É neste sentido que pode-se dizer que era um sobrevivente do qual era talvez impossível, a nós que não havíamos passado por essa provas, entendermos o que dele sobrevivia.
Tudo aconteceu como se a tortura tivesse substituído um homem novo ao homem velho que ele era, o que só faz retomar o espírito da tortura onde o torturador focaliza seu olhar num só ângulo, o ser enquanto vítima, menosprezando absolutamente a realidade existencial do sujeito. Nos chamou muito a atenção ver que, quando uma de suas irmãs fez uma longa e cara viagem do Brasil para a França para ajudá-lo, mal a reconheceu, aceitou nenhuma familiaridade com ela, ficando impermeável a todas as tentativas para fazer reviver seu passado.
Ele era o novo personagem criado por Fleury, e isto é exatamente aquilo que a tortura visava. Pois anota-se um estreito parentesco entre a maneira com que o carrasco manipula as sevícias físicas e o modo com que manipula o insulto verbal. Nos dois casos, trata-se menos de ferir o exterior do que provocar um movimento interno de autodestruição e um movimento de autocrítica que devem continuar agindo por conta própria. É o que Tito de Alencar demonstrou em seu delírio quando impôs a si mesmo todas as privações que sabemos, mas também nesta atividade incessantemente repetida de auto-acusação. Seu caso poderia ser considerado como uma tortura exitosa, ou seja é possível que o ideal do torturador esteja em por a caminho o que, na pessoa humana, está disponível para uma auto-tortura (como conhecemos com freqüência na patologia): auto-desvalorização, autocrítica, autopunição. É talvez desta agudez psicológica que se vangloriou o Albernaz quando Tito lhe ouviu dizer: "Nós sabemos fazer coisas sem deixar rastros. Se sobreviver, nunca esquecerá do preço de sua audácia"[7].
Em um momento bem preciso, Tito teve o sentimento de ter traído, dando nomes. Ele se acusará precisamente por muito tempo, de modo melancólico, embora todos os testemunhos contrariam essa convicção: ele não teria entregado nenhum nome sob a tortura. Vê-se aí, nesta auto-acusação, um meio cômodo, imediato, para racionalizar sua culpabilidade, mas também, sobre esta culpa clássica de torturado, vem deslocando um sentimento mais escuro e expansivo da traição. Nas escritas, este sentimento de traição assume a forma de uma preocupação nascente para com o destino dos seus Irmãos Dominicanos. "Em minha cela eu não conseguia dormir. A dor aumentava cada vez mais. Eu tinha a impressão que minha cabeça era três vezes mais grossa que meu corpo. Era preciso acabar com isso uma vez por todas. Eu sentia que não poderia agüentar tamanho sofrimento por muito tempo. Eu estava angustiado à idéia que meus Irmãos Dominicanos pudessem sofrer a mesma coisa".
O desejo de morrer permanece indissociável deste sentimento de traição que representa a essência mesma da auto-tortura , tanto quanto é a meta suprema da tortura, pois é o grupo ao qual pertence a vítima que o algoz tenta alcançar por meio dela. Ora ao mesmo momento, uma campanha de imprensa é orquestrada publicamente contra o grupo dos Dominicanos. O jornal O Globo publicou o seguinte: «Eles (os Dominicanos) traíram a fé ao aderir ao comunismo, e traíram o comunismo ao entregar Marighela. São os novos Judas [8]» É impressionante como as mesmas acusações difamatórias, as mesmas calúnias, circulam aqui, no século, e ali, no espaço fechado, clandestino, inter-individual, da tortura. Sentimo-nos autorizados a considerar que é a mesma guerra que um certo grupo ideológico realiza contra um outro, aqui e ali. Daí a idéia de que a tortura poderia ser entendida como um tipo de microcosmo da guerra mais geral, oficial, uma guerra de «laboratório», onde os obstáculos, os fracassos que o poder enfrenta na realidade seriam como magicamente eliminados. Um microcosmo onde o poder se dá a ilusão de que a realidade é complacente com seu desejo: a tortura seria um campo de utopia. Ao esmagar Tito de Alencar fisicamente e espiritualmente, o torturador, e o grupo do qual ele é o representante, visavam talvez nada mais que reforçar-se na convicção de que eles poderiam acabar, sem dificuldade, com uma oposição de idéias, que ameaçava sua própria convicção.
A busca desta ilusão de vitória responde muito melhor pela crueldade das sevícias do que uma suposta busca de informações, já que, como se viu, estas sevícias quase sempre colocavam o Tito na impossibilidade de falar.
Tito, pessoa bem real, no entanto é torturado enquanto efígie do grupo dominicano do qual ele é o símbolo. Há na tortura um fundo de exorcismo que fica preso ao não-dito, ao não-sabido, de um lado e do outro, mas que traz sua própria confusão ao mistério da experiência. Freud, em Totem e Tabu, explica: "Um dos processos mágicos do qual se usa mais comumente para prejudicar um inimigo, consiste em fabricar sua efígie com materiais quaisquer. Poderá ainda se demonstrar que tal ou tal objeto representa sua imagem. Tudo o que se inflige a esta efígie atinge o modelo odiado. É suficiente ferir qualquer parte daquela, para que a parte correspondente do corpo deste fique doente”[9]. O material qualquer está aqui sendo Tito de Alencar, e o objeto que representa a imagem, é seu corpo.
Fiquemos com esta hipótese da tortura como prática exorcista, enquanto nos permite acompanhar a decadência da palavra e da linguagem tal qual acontece na tortura, até conduzir a esta forma semiótica particular que é a confissão. É de fato numa progressão experta que Tito de Alencar será despojado da sua palavra de homem, desde que a clandestinidade e a ilegalidade da tortura tiram toda referência ética. Despojado em seguida de sua palavra de homem, na medida em que a dominação sexual almejada pelo carrasco conduz a vítima a identificar-se a um corpo erógeno que só fala de excitação e compulsão à repetição. E enfim, com esta fase que a imagem de efígie ajuda a figurar, entendemos que a palavra chamada pelo torturador é não a palavra de Tito de Alencar, sobre Tito de Alencar, mas a palavra do representante de um certo grupo sobre o grupo em questão. É portanto uma palavra que, longe de ser ao serviço de uma verdade qualquer, não tem outra razão de ser senão tentar responder a uma expectativa bem precisa do torturador. Esta expectativa seria evidentemente a entrega de nomes, a prova de uma compromissão, de um erro, de uma traição, tanto faz. Porque, qualquer coisa que a vítima diz ou não diz,, esta será uma palavra que o executor ouvirá do jeito que ele esperava: eis a confissão.
Tudo fala em favor do torturador, como tudo concorre para provar à vítima que ela falou, porque a confissão nunca corresponde a uma declaração qualquer, mas a uma certa forma de decadência da linguagem onde o sinal verbal só se interpreta através do desejo daquele que o está escutando.
A ausência de terceiro, o livre desenvolvimento da onipotência do desejo do carrasco, caracterizam suficientemente o caráter furioso, psicótico, desta situação de tortura, que a decadência do verbo vem cristalizar.
Já há um século, um autor como Jules Michelet tinha percebido a dimensão delirante disto: «Uma bruxa confessa ter puxado ultimamente do cemitério o corpo de uma criança morta, para usar este corpo em suas composições mágicas. Seu marido diz: " Vá para o cemitério. A criança está ali". O corpo é exumado, encontrado exatamente no seu lençol. Mas o juiz decide, contra o testemunho de seus olhos, que é uma "aparência", uma ilusão do Diabo. Ele prefere a confissão da mulher ao fato em si. A mulher é queimada[10]
Esta decadência da palavra, Tito a denunciará no longo mutismo que pudemos observar, bem como no automatismo mental, onde uma voz que não era mais a sua falava dentro dele.
A prática do torturador é louca, e, frente a esta loucura passional, a denúncia e a luta política têm que se fazer, no mesmo grau, passionais e impiedosas. Mas ela é também louca no sentido psiquiátrico do termo. Sem que isso em nada contamina a luta política, devemos clarear isto porque esta loucura situacional exerce por si só um efeito psíquico destrutivo sobre a vítima; mas existe também um interesse antropológico em entender este fato realmente misterioso de que homens civilizados possam endossar a responsabilidade de tal prática.
Pierre Vidal-Naquet[11], a propósito de torturas praticadas na Argélia antes da independência, nos convence da idéia de que a tortura só foi possível porque políticos deixaram seriamente de cumprir com sua função de controle das instituições e autorizaram um vazio legal que só permitiu a instalação de práticas torturadoras. Abandonado pelo jurista, dispensado, não sem complacência, pela lei, o soldado se torna torturador e, se assim pode-se dizer, ele se torna também louco, autorizando-se de uma conduta exorcista e mágica que lhe serve no lugar de pensamento.
Realmente só uma loucura, ou digamos um enlouquecimento, permite entender a crueldade extraordinária demonstrada nestas situações, a implacabilidade sádica que amarra literalmente o carrasco à sua vítima e do qual a narração de Tito de Alencar dá uma descrição de um realismo comovente e uma grande agudez psicológica. De fato, é de uma certa face do torturador, com sua estarrecedora inumanidade, que, constantemente, este texto nos fala.
Imagina-se a revelação que constitui para a vítima o encontro com este rosto do homem que desvela brutalmente, sardonicamente, o torturador,:
Tito terá que se debater com essa imagem, ao mesmo tempo para nela se reconhecer a si mesmo enquanto homem, e para dela se livrar numa contra-identificação às vezes próxima ao angelismo.
Aludimos, na história de Tito de Alencar, ao exibicionismo um pouco histérico que demonstrava. Em sua indiferença para com os outros, não estava ausente uma certa arrogância, até mesmo a convicção secreta de ser um herói, por ter passado por uma prova conhecida de nenhum outro, de ser de certo modo um iniciado. Ao lado do que tirava para o sentimento de decadência, uma patologia do «Eu grandioso» presidia ao seu isolamento. A mesma talvez tinha achado sua justificação na estranheza da experiência que, na confusão onde ele se encontrava, ele elaborou nos termos de uma iniciação sacrificatória da qual teria sido o único depositário, igual ao Cristo ao qual lhe ocorreu repetidamente se comparar.
Por nossa vez, fomos fascinados pela experiência que viveu, porquanto nela nos tocamos com este encontro inédito do homem, em sua crueldade virtual, da qual a civilização nos protege e nos separa. Eu vejo, pessoalmente, na multidão de escritos que esta vida suscitou, uma vontade de transmitir - não sem a idéia de uma possível redenção - esta revelação, em um movimento quase angélico. Mas estes atos de palavra têm no entanto uma função autônoma: livrar a palavra de Tito da subversão que a tortura lhe teria infligido.
É sempre por ocasião de causas religiosas, espirituais, ideológicas, que a tortura se desenvolveu. Não podemos desconhecer que neste contexto de idealidade - e de predisposição mágica que o próprio ideal proporciona - a tortura é tanto mais tentadora quanto lhe é atribuída uma eficácia que não tem a ver com a objetividade, mas com o poder de anulação que ela sabe implementar. Os processos de feitiçaria, a Inquisição, as dragonadas, os recentes genocídios que intentavam destruir como representante do mal o que era da ordem da diferença, todos convidaram a tortura para este fim.
JEAN-CLAUDE ROLLAND
Tradução: Xavier Plassat

Título original: Un Homme torturé: Tito de Alencar

9 de agosto de 2013

Perfeição ou santidade

Esse texto me foi enviado pela amiga  Monica Valentim  como comentário a uma postagem minha numa rede social sobre santidade. O texto é maravilhoso e merece ser lido e refletido. Na verdade parece que é mais completo que o  que aparece no livro de mesmo nome do autor.
O meu agradecimento à Monica e ao Pe. Netto que não conheço, mas curto desde já o desejo de não só conhecê-lo, como poder manter boas conversas com ele.



 P. José Antônio Netto de Oliveira, S.J. 

 Não é necessário um grande esforço de observação para notar que muitos cristãos, e particularmente cristãos consagrados, não vivem sua fé com alegria, não dão um testemunho existencial de que o Evangelho é uma alvissareira Boa Notícia para todo ser humano, uma libertação de todo medo diante da revelação, em Jesus Cristo, da inexplicável misericórdia, do perdão, do amor incondicional de Deus para com suas criaturas.
Cristãos e cristãos consagrados parecem viver um interminável sentimento de culpa diante de Deus, sempre sentindo-se em dívida e conseqüentemente experimentando uma separação - ou pelo menos distância e frieza - no relacionamento com Ele. O Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo, revelado como infinita ternura, misericórdia, amor, proximidade para com o homem pecador não é então percebido como Pai, mas como um juiz mal humorado, eternamente esquadrinhando nossa vida atrás de infidelidades, desobediências e fraquezas. Em vez da intimidade, da proximidade e da alegria que Jesus manifesta no seu relacionamento com o Pai, nós, como Adão no Paraíso, sentimos medo de Deus e procuramos esconder-nos.
Nós, cristãos, nem sempre temos sabido refletir em nossos próprios rostos a alegria de Deus: desde o escrúpulo até a angústia, desde a estreiteza de espírito até a inimizade para com o corpo, desde um ascetismo não integrado até um legalismo sem calor... damos demasiadas vezes a impressão de que somos pessoas mais presas do que libertadas por nosso Deus.
As causas desses sentimentos e comportamentos dos cristãos, pouco reveladores da Boa Notícia de Jesus, podem ser procuradas em múltiplas direções: no tipo de educação religiosa recebida, na psicologia pessoal mais ou menos propensa a sentimentos de culpa e de escrupulosidade, na experiência de se ter sido ou não amado com gratuidade, na experiência pessoal de Deus, nas múltiplas camadas teológicas e ideológicas que se foram superpondo, obscurecendo muitas vezes a experiência original do cristianismo e, conseqüentemente, da alegria cristã.
Confundir santidade e perfeição, com a conotação que a palavra perfeição tem aos nossos ouvidos, hoje, é condenar-nos a uma eterna insatisfação conosco mesmos, a uma auto-condenação permanente, porque percebemos que somos a cada dia mais imperfeitos, na medida mesmo em que avançamos na vida. Passar desse sentimento à conclusão de que a santidade não é para nós... é um pulo. Desistimos, então, da santidade, não ouvimos mais o apelo de Deus -"sede santos porque eu sou santo"- e nos condenamos à mediocridade na vida cristã.
A perfeição
A interpretação da santidade como perfeição tem suas raízes no Evangelho de São Mateus: mais particularmente em Mt 5,48: "Sede perfeitos como vosso Pai celestial é perfeito". Examinemos rapidamente este texto.
Devemos notar, primeiramente, que a perfeição, segundo o Antigo Testamento, não é um atributo de Deus. Em nenhuma ocasião o Antigo Testamento chama Deus de "perfeito". Chama-o de "Santo". Nos evangelhos, o adjetivo "perfeito" (teleios) aparece somente duas vezes e ambas em Mateus: Mt 5,48 "Sede perfeitos como vosso Pai celestial é perfeito" e Mt 19,21 "Se queres ser perfeito" pergunta Jesus ao jovem rico.
Na mentalidade hebraica a perfeição é antes um atributo humano que expressa a idéia de totalidade, aplicando-se ao que é completo, intacto, àquilo que de nada carece. Quando em Mt 19,21, Jesus diz: "Se queres ser perfeito", quer significar: se queres que nada te falte, se queres não ter limite algum...
Ao afirmar "sede perfeitos como vosso Pai Celestial é perfeito", Mateus estaria projetando em Deus uma qualidade propriamente humana. Encontramo-nos diante de um antropomorfismo: (Antropomorfismo é uma forma de pensamento que atribui características ou aspectos humanos a Deus,elementos da natureza, animais e constituintes da realidade em geral.)
Mateus nos convida a imitar em Deus uma qualidade que não é propriamente divina, mas que é a projeção em Deus de um ideal humano.A perspectiva de Mateus aparentemente parece ser mais moralista que teológica: sua atenção está centrada no dever que se impõe ao homem, na conduta que este deve adotar com relação a seus irmãos para cumprir perfeitamente a vontade divina.
Verifica-se, pois, que neste texto de Mateus, o ponto de partida da santidade já não seria Deus em primeiro lugar, mas o que o homem deve fazer. A atenção se desloca da misericórdia de Deus - como na versão de Lucas - "Sede misericordiosos como vosso Pai é misericordioso", para a perfeição do homem, como um progresso no desenvolvimento ontológico do ser humano. A santidade passa a ser vista como a perfeição no cumprimento da lei, manifestação da vontade divina e na prática das boas obras, frutos, basicamente, do esforço do homem.
Santidade, perfeição e pecado
Outra realidade que chama nossa atenção é o fato de que os santos canonizados pela Igreja nunca terem se considerado santos. Antes, muito pelo contrário, todos se confessaram grandes pecadores, até o fim de suas vidas, e praticaram penitências por seus pecados que nos assustam.
Apesar dessa consciência de serem imperfeitos e pecadores, eram santos, e a Igreja reconheceu sua santidade, canonizando-os. Não existe, pois, uma incompatibilidade radical entre santidade e pecado. Pode-se ser simultaneamente santo e pecador.
Se passarmos à relação entre pecado e perfeição aí encontraremos essa incompatibilidade: não se pode ser simultaneamente perfeito e pecador uma vez que o pecado é a imperfeição por excelência. A perfeição exclui necessariamente o pecado. Esta breve consideração poderá ajudar a entender melhor as reflexões que se seguem.
Ter pecado e ser pecador
É igualmente importante para a intelecção do que se segue captar a distinção entre ter pecado(s) e ser pecador.
Ter pecado(s) é a consciência que temos de ter falhado objetivamente no amor para com Deus, para conosco mesmos ou para com o próximo. Antes de nos dirigirmos ao sacramento da penitência, costumamos parar, fazer um exame de consciência perguntando-nos "quais os pecados que tenho", quais minhas faltas objetivas de amor desde a última confissão. Comunicamos, então, ao sacerdote, os pecados que "temos" e, se estamos arrependidos, somos perdoados, Deus nos assegura o seu perdão. Saindo da confissão, já não temos mais pecados.
Ser pecador é a consciência que temos de nossa fragilidade. Saindo da confissão não temos mais pecado, mas reconhecemos que estamos num estado de fraqueza, que somos vasos de barro, muito quebradiços. O pecado atingiu, de certa maneira, algo de profundo em nós, atingiu de algum modo o nosso ser, o nosso coração, como diz a Bíblia (é do coração que saem os maus pensamentos, assassinatos etc.). Encontramo-nos todos numa situação de vulnerabilidade. Cada um percebe no seu "coração" certas tendências inatas para o mal e para o pecado que os teólogos chamam de concupiscências: tendências para o orgulho, a avareza, a gula, a luxúria, a preguiça etc.. É porque estamos neste estado de fragilidade, é porque somos pecadores que voltamos novamente a cometer pecados e assim teremos de confessar-nos uma e outra vez até o final de nossa vida.
Reconhecer não somente que temos pecado, mas também que somos pecadores, é abrir-se para a verdade do próprio ser, é o início do esvaziamento de si, é começar a descer à verdadeira humildade diante de Deus e diante dos homens.
Impasses da perfeição
O conceito de perfeição que cada um tem em sua própria cabeça não é puramente teórico, porque o conceito de perfeição forma-se ao longo da vida, é existencial; Portanto, vem marcado por cargas afetivas desde a primeira infância: os comportamentos corretos, perfeitos, eram premiados; os imperfeitos, incorretos, eram punidos. O conceito de perfeição foi-se formando em nós a partir de nossa educação, a partir de experiências integradoras ou traumatizantes, de sentimentos de culpabilidade e castigo, ou de libertação e perdão. Normalmente terminamos com um conceito de perfeição que se identifica, no plano pessoal, com não ter defeitos, não ter vícios, não ter traumas nem marcas psíquicas negativas, não ter nenhuma fraqueza, nenhuma falha, nenhum pecado etc.
A busca da perfeição é um projeto do homem, um ideal humano. Trata-se de um projeto fechado dentro do próprio eu orgulhoso, que exige o máximo de si, o máximo de esforço para não falhar em ponto algum, uma vez que o perfeccionista está convencido de que somente será amado por Deus e pelos demais se for perfeito. Nesse esforço ele tende a contar exclusivamente consigo mesmo, prescindindo de Deus e dos outros.
A perfeição estaria no fim do caminho que traçamos para nós, do ideal que nos propusemos, ou então no topo de uma escada que decidimos subir com nosso esforço, galgando degrau por degrau, eliminando vícios e adquirindo virtudes numa busca tensa. A perfeição não suporta o pecado, uma vez que o perfeccionista vê o pecado não como uma ruptura de laços de amor, não algo em relação a um outro, mas como um problema pessoal em relação ao próprio ideal: "falhei no meu ideal, no ideal que me havia proposto". Esta verificação é sempre sentida como humilhação.
O perfeccionista procura viver apenas com os melhores fragmentos de si mesmo, aqueles que estão conforme com as normas, com o ideal buscado, com o que pensa que os outros esperam dele. O resto, as fraquezas, as tendências obscuras, os fragmentos dos quais está menos orgulhoso, ficam trancados para sempre nas margens da consciência. Eles são recusados e negados. Desse modo, a chaga secreta que está fermentando, supurando e contaminando a vida nunca é reconhecida, nunca vem à luz. A perfeição, humilhada pelo pecado e pelas fraquezas, tende a fechar a pessoa sobre si, e fechá-la para Deus e para os outros. O amor desaparece. O perfeccionista tende a voltar-se sobre si, tornando-se seu próprio juiz e autocondenando-se. Após certo tempo de luta, sua vida pode tornar-se amargurada: amargurada consigo, com Deus, com os outros, com tudo.
Sede misericordiosos
A compaixão e a misericórdia são os mais característicos atributos divinos na teologia de Israel. Lucas nos convida, portanto, a imitar uma maneira de ser que é, antes de mais nada, a de Deus. Mostrando-se misericordiosos, os discípulos de Jesus se assemelham ao exemplo que Deus nos dá. A atenção aqui está voltada para a visão dos sentimentos da misericórdia de Deus para com seus filhos, na solicitude do Senhor para com os pecadores, os mais desamparados e necessitados. A conduta do homem deve se regular, deve imitar a conduta de Deus.
O versículo 6,36 conclui de modo natural à instrução sobre o amor aos inimigos. Lucas começa com uma recomendação: v. 27 "Amai os vossos inimigos..." Esta recomendação é reforçada por uma primeira consideração em forma negativa: "não imiteis os pagãos e os publicanos, que só amam aqueles que os amam" (v. 32). Finalmente uma segunda consideração em forma positiva convida a imitar a Deus: "mostrai-vos como filhos do Altíssimo... e sede misericordiosos como o vosso Pai é misericordioso".
Os exegetas nos asseguram que esta versão de Lucas reflete, mais exatamente que Mateus, o pensamento de Jesus, que nos convida a assemelhar-nos a seu Pai reproduzindo em nossas vidas os sentimentos de compaixão e misericórdia que Ele tem para com os homens. Por meio dessa conduta com os irmãos aderimos a Deus, reforça-se nosso vínculo de pertença a Ele e, nesse sentido, somos santos como Ele é santo.
O tema da santidade, por conseguinte, deve ser reconduzido à interpretação que Jesus dá da misericórdia de Deus e ao que, de tal imagem paterna deriva, como norma e caminho para a conduta do homem e sua pertença a Deus.
A santidade
Em vez de optarmos pela perfeição, podemos optar pela santidade, e santidade está relacionada com compaixão, com misericórdia, com amor, com esse convite que Deus nos faz: "Sede santos porque Eu sou santo". Deus é amor, e nisso consiste a santidade de Deus. Santificar-se é, pois, abrir-se para o amor, dentro mesmo dessa nossa realidade de criaturas limitadas, frágeis, pecadoras, “vasos de barro”, como diz São Paulo. Ora, essa capacidade de amar nos é dada por Deus, é um dom de Deus.
A santidade, portanto, me é dada por Deus e me é dada já, imediatamente: sou amado por Deus, sem condições, aqui e agora, com todas as minhas imperfeições, pecados, fraquezas, debilidades, limitações, traumas... e esse amor de Deus, sem condições, me torna capaz de amar agora, de fazer o bem agora, de servir agora, de ser santo agora, apesar de minhas imperfeições e fraquezas. A grande ilusão é pensar que só poderemos amar, servir, fazer o bem quando formos perfeitos. Somos santos agora e devemos amar agora, embora sejamos também pecadores: somos uma Igreja pecadora e santa.
A santidade nunca é humilhada pelo pecado, porque a santidade é humilde. Somos humilhados quando pensamos ser alguém, quando nos colocamos num pedestal, quando nos julgamos melhores do que os outros... somos humildes quando aceitamos ser pobres, ser frágeis, limitados, pecadores, mas amados na nossa pobreza e fragilidade.
A santidade é recusa de deixar-se fechar no próprio pecado, é a capacidade de ultrapassar as próprias condenações porque Outro nos acolhe e nos ama, apesar de nosso pecado. A superação da auto-condenação está na entrega da vida a Deus, em saber-se amado como pecador, porque pecadores seremos sempre até o fim da vida. Santidade é a certeza de não podermos nos salvar a nós mesmos e acolher, na ação de graças, uma salvação que nos é oferecida gratuitamente por Deus que nos ama. A santidade nunca leva ao fechamento, antes se abre para Deus acolhendo sempre o seu perdão e abre-se para os outros no amor, no serviço e no dom. Santidade é a recusa de ser o seu próprio juiz, deixando o juízo para Alguém que nos ama e vela por nós com amor. A santidade liberta, é confiante, é alegre; leva-nos a passar da recusa e condenação de nós mesmos e dos outros para a descoberta de nós e dos outros.
Se a perfeição era colocada em termos de uma subida laboriosa de uma escada, a santidade pode ser também representada por esse símbolo da escada, somente que se trata agora de uma descida progressiva a caminho de uma radical humildade. De fato, se meditamos atentamente o evangelho, encontramos Jesus convidando continuamente seus discípulos a uma descida: quem quiser ser o primeiro, seja o último, o servidor de todos; quem se exalta será humilhado, quem se humilha será exaltado; se não vos tornardes como crianças não entrareis no Reino; felizes os pobres porque deles é o Reino.
Trata-se de um esvaziar-se progressivo de toda auto-suficiência e orgulho, de toda ambição de riquezas, de prestígio e projeção, de poder de dominação e opressão, no seguimento do Filho de Deus que "esvaziou-se a si mesmo tomando nossa condição humana". O orgulho fecha o homem sobre si e o impede de amar, de ser santo. A humildade é o reconhecimento pacífico da própria condição de criatura pecadora e frágil, mas amada por Deus, é a porta para a santidade, isto é, para poder amar os irmãos e irmãs pecadores e frágeis como somos amados embora pecadores e frágeis.
Permanecer aí, no fundo do templo, como o publicano da parábola, reconhecendo a própria pobreza, numa súplica permanente: "tem piedade de mim, Senhor, porque sou um pecador", celebrando a misericórdia de Deus para com todos os homens, é tornar-se vulnerável à dor, ao sofrimento, à falta de vida e de sentido de muitos irmãos no mundo, é começar a ter compaixão, misericórdia, é começar a amar, é caminhar para a santidade: "sede santos porque eu sou santo".
Processo evolutivo
Terminemos com uma página de rara beleza sobre a pureza do coração e conseqüentemente sobre a santidade, que se encontra no livro Sabedoria de um pobre, de Elói Leclerc (Editorial Franciscana, Braga, 1975, pp.137-140).
"...Depois de um momento de silêncio, Francisco perguntou a Leão: Irmão, sabes acaso o que é a pureza de coração? - É não termos falta alguma de que nos acusemos, respondeu Leão sem hesitar. - Então compreendo a tua tristeza, disse Francisco, porque temos sempre alguma coisa de que nos acusar. - Sim, concordou Leão, e é precisamente isso que faz com que eu perca a esperança de chegar um dia à pureza de coração.
Ah! Frei Leão, acredita-me, retorquiu Francisco, não te preocupes tanto com a pureza de tua alma. Volta o olhar para Deus. Regozija-te por Ele ser todo santidade. Dá-lhe graças por causa dele mesmo. Isso é que é, irmãozinho, ter o coração puro. E quando estiveres voltado para Deus, não voltes a debruçar-te sobre ti. Não perguntes a ti próprio em que ponto estás em relação a Deus. A tristeza de não sermos perfeitos, de nos descobrirmos pecadores é, ainda, um sentimento humano, demasiadamente humano. É preciso que eleves o teu olhar mais alto, muito mais alto. Há Deus, a imensidade de Deus e o seu inalterável esplendor. O coração puro é aquele que não cessa de adorar o Senhor vivo e verdadeiro; o que toma um interesse profundo pela própria vida de Deus e é capaz, no meio de todas as suas misérias, de vibrar com a eterna inocência e a eterna alegria de Deus. Semelhante coração é, há um tempo, despojado e cumulado. Basta-lhe que Deus seja Deus. É mesmo nisso que ele encontra toda a sua paz, todo o seu amor. E então, é o próprio Deus que é toda a sua santidade.
Deus, no entanto, exige o nosso esforço e a nossa fidelidade, observou Leão.
Sim, sem dúvida, respondeu Francisco. Mas a santidade não é uma realização do nosso eu, nem uma plenitude que nos damos a nós mesmos. Acima de tudo ela é um vazio que descobrimos em nós, que aceitamos e que Deus vem encher na medida em que nos abrimos à sua plenitude. O nosso nada, compreendes, quando é aceito, transforma-se no espaço vazio onde Deus pode, ainda, criar. O Senhor não deixa que ninguém lhe roube a sua glória. Ele é o Senhor, o único, o Santo. Toma, porém o pobre pela mão, tira-o da lama e fá-lo sentar no meio dos príncipes do seu povo a fim de que ele veja a sua glória. Deus torna-se, então o céu da sua alma.
Contemplar a glória de Deus, Frei Leão, descobrir que Deus é Deus, eternamente Deus para além do que nós somos ou possamos ser, alegrar-se, em cheio, com aquilo que Ele é, extasiar-se diante de sua eterna juventude e dar-lhe graças por causa da sua indefectível misericórdia, eis a exigência mais profunda desse amor que o espírito do Senhor não cessa de derramar em nossos corações. Ter o coração puro é isto. Mas esta pureza não se obtém à força de punhos e de tensão.
Que fazer para a alcançar? perguntou Leão.
Basta simplesmente nada guardar para si. Nem sequer essa percepção aguda da nossa miséria. Desprender-se de tudo. Aceitar ser pobre. Renunciar a tudo o que é pesado, inclusive ao peso das nossas faltas. Já não ver senão a glória do Senhor e deixar-se iluminar por ela. Deus é, isto basta. O coração como a cotovia ébria de espaço e de azul abandonou todo e qualquer cuidado, toda e qualquer inquietação. O seu desejo de perfeição mudou-se num simples e puro querer de Deus.
Leão escutava com ar grave, enquanto ia caminhando adiante de seu pai. Porém, à medida que avançava, sentia que o coração se lhe tornava leve e que uma grande paz o invadia".
_______________________________
P. José Antônio Netto de Oliveira, S.J. Membro do Centro de Espiritualidade de Itaici. Atualmente, dedica-se à orientação espiritual dos estudantes jesuítas brasileiros. Este é um trecho de um artigo publicado na Revista de Espiritualidade Inaciana de Itaici


8 de agosto de 2013

No estás deprimido , estás distraido.

O bem é maioria, mas não se percebe porque é silencioso.
Uma bomba faz mais barulho que uma caricia, 
porém, para cada bomba que destrói há milhões de carícias que alimentam a vida
(Facundo Cabral )




Não estás deprimido, estás distraído Distraído em relação à vida que te preenche Distraído em relação à vida que te rodeia. Golfinhos, bosques, mares, montanhas, rios.

Não caia como caiu teu irmão que sofre por um único ser humano quando existem cinco bilhões e seiscentos milhões no mundo.

Além disso, não é assim tão ruim viver só. Eu fico bem decidindo a cada instante o que fazer e graças à solidão conheço-me. O que é fundamental para viver.

Não faça o que fez teu pai que tem setenta anos e esquece que Moisés comandou o êxodo aos oitenta e Rubinstein interpretava Chopin com maestria sem igual aos noventa, para citar apenas dois casos conhecidos.

Não estás deprimido, estás distraído. Por isso acreditas que perdeste algo, o que é impossível, porque tudo te foi dado.

Além disso, a vida não tira coisas, te liberta de coisas e até alivia-te para que possas voar mais alto, para que alcances a plenitude.

Do útero ao túmulo, vivemos numa escola; por isso o que chamas de problemas são apenas lições.

Não perdeste coisa alguma. Aquele que morre está adiantado em relação a nós, porque todos vamos na mesma direção. E não esqueças, o melhor Dele, o amor, continua vivo em teu coração.

Não existe a morte Apenas a mudança. E do outro lado te esperam pessoas maravilhosas: Gandhi, Madre Teresa, teu avô e a minha mãe, que acreditava que a pobreza está mais próxima do amor porque o dinheiro nos distrai com coisas demais e nos machuca porque nos torna desconfiados.

Faz apenas o que amas e serás feliz. Aquele que faz o que ama está benditamente condenado ao sucesso, que chegará quando for a hora, porque o que deve ser será e chegará de forma natural.

Não faças coisa alguma por obrigação ou por compromisso, apenas por amor. Então terás plenitude e nessa plenitude tudo é possível sem esforço, porque és movido pela força natural da vida, a mesma que me ergueu quando caiu o avião que levava minha mulher e minha filha; a mesma que me manteve vivo quando os médicos me deram três ou quatro meses de vida.

Deus te tornou responsável porém como ser humano que és tu. Deves trazer felicidade e liberdade para ti mesmo. E só então poderás compartilhar a vida com os outros.

Lembra-te: Amarás o próximo como a ti mesmo. Reconcilia-se contigo, coloca-te na frente do espelho e pensa que esta criatura que vês é uma obra de Deus, e decide neste exato momento ser feliz, porque a felicidade é uma aquisição. Aliás, a felicidade não é um direito, mas um dever, porque se não fores feliz estarás levando amargura para todos os teus vizinhos.

Um único homem, que não possuía talento ou valor para viver, mandou matar seis milhões de judeus, seus irmãos.

Existem tantas coisas para experimentar e a passagem pela Terra é tão curta, que sofrer é uma perda de tempo. Podemos experimentar: a neve no inverno, as flores na primavera, o chocolate de Peruggia, a baguete francesa, os tacos mexicanos, o vinho chileno, os mares, os rios, o futebol dos brasileiros, As Mil e Uma Noites, A Divina Comédia, Dom Quixote, Pedro Páramo, os boleros de Manzanero, as poesias de Whitman, a música de Mahler, Chopin, Bethoven, as pinturas de Caravaggio, Rembrandt, Velasquez, Picasso e Tamayo, entre tantas outras coisas.



Se estás com câncer ou AIDS podem acontecer duas coisas, e ambas são positivas: se a doença ganha, te liberta do corpo que é cheio de processos (tenho fome, tenho sono, tenho vontades, tenho dúvidas). Se tu vences serás mais humilde, mais agradecido, portanto, facilmente feliz, livre do enorme peso da culpa, da responsabilidade e da vaidade, disposto a viver cada instante profundamente. Como deve ser.

Não estás deprimido, estás desocupado.

Ajuda a criança que precisa de ti, essa criança será sócia do teu filho. Ajuda os velhos, e os jovens te ajudarão quando chegar a tua vez. Aliás, o serviço prestado é uma forma segura de ser feliz, como é gostar da natureza e cuidar dela para os que virão.

Dá sem medida e receberás sem

5 de agosto de 2013

O pensamento do papa Francisco expresso nos primeiros 100 dias de seu pontificado

25 frases de Papa Francisco nos seus 100 dias de Pontificado. 


A IGREJA NÃO É UMA ONG PIEDOSA« Podemos construir muitas coisas, mas se não cremos em Jesus Cristo, nos converteremos numa ONG humanitária, mas não na Igreja, Esposa do Senhor. A Igreja não é uma organização que nasce de um acordo entre pessoas, mas obra de Deus». 
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UMA IGREJA POBRE PARA OS POBRES «São Francisco de Assis é o homem que nos dá este espírito de paz, o homem pobre… Ah, como gostaria de uma Igreja pobre e para os pobres! A pobreza é aprendida com os humildes, os doentes e todos aqueles que estão nas periferias existenciais da vida. A pobreza teórica não serve para nós. A pobreza se aprende tocando a carne de Cristo pobre nos humildes, nos pobres, nos doentes e nas crianças».

QUEM NÃO ORA AO SENHOR, ORA AO DIABO : «Quando não confessamos Jesus Cristo vem à minha mente aquela frase de Léon Bloy: “Quem não ora ao Senhor, ora ao diabo”. Quando não confessamos Jesus Cristo, confessamos o mundanismo do diabo, o mundanismo do demônio». 
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A IGREJA DEVE DEIXAR AS SACRISTIAS E OS CRISTÃOS DEVEM ORIENTAR-SE UNS AOS OUTROS «Seguir, acompanhar a Cristo, permanecer com ele requer saída. Sair de si, da tentação de fechar-se em esquemas próprios que acabam por fechar o horizonte da ação criativa de Deus. (…) Temos de avançar ao encontro de nossos irmãos e irmãs, e especialmente de aqueles que estão mais distantes, que são esquecidos, quem precisa de compreensão, consolo e ajuda». 
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DEUS NÃO SE CANSA DE PERDOAR«O Senhor nunca se cansa de perdoar. Nunca! Somos nós que nos cansamos de pedir perdão. E peçamos a graça de não cansar-nos de pedir perdão, porque ele nunca se cansa nos perdoar».

UM PAPA DE SERVIÇO, NÃO DE PODER «Não podemos esquecer que o verdadeiro poder é o serviço e que o Papa, para exercer o poder também deve entrar cada vez mais nesse serviço que tem o seu cume brilhante na Cruz».

PASTORES COM CHEIRO DAS OVELHAS «Existem padres tristes, e convertidos em colecionadores de antiguidades ou de novidades, em vez de ser pastores com cheiro das ovelhas, em vez de ser pastores no meio de seu rebanho e pescadores de homens; só lhes peço o seguinte: sejam pastores com cheiro das ovelhas».

NÃO, VOCÊ NÃO PODE ANUNCIAR JESUS COM CARA DE FUNERAL :«Não sejam nunca mulheres e homens tristes: um cristão não pode estar nunca triste! Não se deixem ganhar nunca pelo desânimo! Quero católicos felizes. Não se pode anunciar a Jesus com cara de funeral». 
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UMA IGREJA QUE CUIDA A CRIAÇÃO«Nós somos guardiões da Criação, do projeto de Deus inscrito na natureza, guardiões do outro, do meio ambiente. A pessoa humana está em perigo: eis aqui a urgência da ecologia humana!»

DESPERDIÇAR COMIDA É ROUBAR«Em muitas partes do mundo, não obstante a fome e a desnutrição se desperdiçam alimentos. Quando o alimento é compartilhado do modo justo, a ninguém falta o necessário. Os alimentos que são jogados no lixo são os alimentos que são roubados da mesa do pobre, do que tem fome».

> CONTRA A CULTURA DO DESCARTE : «Egoísmo e cultura do descartado levaram a descartar as pessoas mais fracas e necessitadas». 
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CONTRA A CULTURA DO BEM-ESTAR«Dizem: ’Não, não, não mais do que um filho, porque não podemos ter férias, não pode ir a este lugar, não podemos comprar casa. É bom seguir o Senhor, mas até certo ponto’. Isso é o que faz o bem-estar: nos leva para baixo, nos tira a coragem, essa coragem forte para caminhar perto de Jesus».

CONTRA A TIRANIA DOS MERCADOS E O CULTO DO DINHEIRO«O antigo culto ao bezerro de ouro encontrou uma imagem nova e cruel no fetichismo do dinheiro e a ditadura de uma economia que não tem cara. Hoje não manda o homem, mas o dinheiro. O dinheiro deveria servir e não governar!» 
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RESPEITO AOS QUE NÃO CRÊEM«Considerando que muitos de vocês não pertencem à Igreja Católica e outros não creem, dou-lhes com todo o meu coração esta bênção, em silêncio, para cada um de vocês, respeitando a consciência de cada um, mas sabendo que todos são filhos de Deus. Deus lhes abençoe».
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ATEUS TAMBÉM SÃO SALVOS«O Senhor nos salvou com seu sangue, não só aos católicos. ‘Mas padre, e os ateus?’ Também a eles. Todos! Este Sangue nos faz filhos de Deus de primeira categoria. ‘Mas eu não creio, padre, sou um ateu!’ Mas você faz o bem, e ali nos encontramos todos! Todos temos o dever de fazer o bem».

A IGREJA NÃO É UMA ALFÂNDEGA «Pensem numa jovem mãe, que vai à igreja: ‘quero batizar o meu filho’. E dizem para ela: ‘Não, não pode porque você não é casada’. Esta jovem, que teve a coragem de realizar a sua gravidez e não devolveu seu filho ao remetente, o que encontra? Uma porta fechada! Isso afasta do Senhor! Jesus fica indignado quando vê estas coisas. Muitas vezes nos comportamos como controladores de fé e não como facilitadores. A Igreja não é uma estância aduaneira. Oremos ao Senhor para que todos aqueles que se aproximem à Igreja encontrem as portas abertas».

UMA IGREJA LIVRE DAS IDEOLOGIAS«Os ideólogos falsificam o Evangelho. Qualquer interpretação ideológica, vinda de uma parte ou de outra, é uma falsificação do Evangelho. Estes ideólogos – e já vimos na história da igreja – acabam tornando-se intelectuais sem talento, éticos sem bondade. E da beleza, nem falemos, já que eles não entendem nada».

JESUS, ÚNICA PORTA«Jesus é a única porta para entrar no Reino de Deus; Todas as outras trilhas são enganosas, não são verdadeiras, são falsas. […] A identidade cristã é uma pertença à Igreja… porque não é possível encontrar Jesus fora da Igreja». 
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AS FREIRAS NÃO SÃO “SOLTEIRONAS”«A castidade é um carisma que estende a liberdade da entrega a Deus e aos demais com a ternura, a misericórdia e a proximidade de Cristo (…). Mas, por favor, uma castidade fecunda, uma castidade que gera filhos espirituais na Igreja. A consagrada é mãe, tem de ser mãe e não uma solteirona. Perdoe-me se eu falo assim, mas é importante esta maternidade da vida consagrada, esta fecundidade».

A ORAÇÃO NÃO É UM ABORRECIMENTO, NEM A ETERNIDADE«A oração que é aborrecida é a que está dentro de nós mesmos como um pensamento que vai e vem; a oração em nome de Jesus nos faz sair de nós mesmos. […] A eternidade vai ser isto: louvar a Deus. Mas não vai ser aborrecido, será muito lindo». 
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A CONFISSÃO NÃO É UMA SESSÃO DE TORTURA OU UMA LAVANDERIA«Jesus, no confessionário, não é um produto de limpeza a seco. A possibilidade de ter vergonha é uma verdadeira virtude cristã e até mesmo humana. Santa vergonha (…). Assim é como tomamos consciência do mal feito (…) e se amanhã fazer a mesma coisa? Ir novamente… Ele sempre nos espera. O confessionário não é uma sessão de tortura, mas o lugar onde Deus nos convida a experimentar a sua ternura». 
>
DEUS NÃO É UM SPRAY«Deus é uma pessoa específica, não um Deus difuso, um Deus spray, que está um pouco por toda parte, mas que não se sabe o que é». 
>
> A IGREJA NÃO É UMA BABÁ«Se anunciamos a mudança, a Igreja se converte numa igreja mãe que gera filhos, para que nós, filhos da Igreja, levemos (o Espírito Santo). Mas quando não o fazemos, a Igreja se torna não em uma mãe mas numa babá, que cuida da criança para fazê-la dormir. É uma igreja adormecida».

PECADORES SIM, CORRUPTOS NÃO«O problema não é ser pecadores, mas não se arrepender do pecado, não ter vergonha do que fizemos. Mesmo que Pedro fosse pecador, Jesus manteve sua promessa de construir sobre ele a sua Igreja. Pedro era pecador, mas não corrupto. Pecadores, sim, todos: corruptos, não».

QUE OS CRISTÃOS TRABALHEM NA POLÍTICA«Os cristãos não podem lavar-se as mãos, devemos entrar na política porque a política é uma das formas mais altas de caridade porque busca o bem comum. Os cristãos devem trabalhar na política. A política é suja, se diz. Mas, por quê? Será porque os cristãos não entraram nela com o espírito do Evangelho?»

4 de agosto de 2013

Frei Tito por ele mesmo - Relato da tortura

Este é um documento histórico para ser preservado e lido pelas gerações futuras para que possam avaliar o horror deste anos de chumbo.




As próprias pedras gritarão


Este é o depoimento de um preso político, frei Tito de Alencar Lima, 24 anos. Dominicano. (redigido por ele mesmo na prisão). Este depoimento escrito em fevereiro de 1970 saiu clandestinamente da prisão e foi publicado, entre outros, pelas revistas Look e Europeo.
Fui levado do presídio Tiradentes para a "Operação Bandeirantes", OB (Polícia do Exército), no dia 17 de fevereiro de 1970, 3ª feira, às 14 horas. O capitão Maurício veio buscar-me em companhia de dois policiais e disse: "Você agora vai conhecer a sucursal do inferno". Algemaram minhas mãos, jogaram me no porta-malas da perua. No caminho as torturas tiveram início: cutiladas na cabeça e no pescoço, apontavam-me seus revólveres.
Preso desde novembro de 1969, eu já havia sido torturado no DOPS. Em dezembro, tive minha prisão preventiva decretada pela 2ª auditoria de guerra da 2ª região militar. Fiquei sob responsabilidade do juiz auditor dr Nelson Guimarães. Soube posteriormente que este juiz autorizara minha ida para a OB sob “garantias de integridade física”.
Ao chegar à OB fui conduzido à sala de interrogatórios. A equipe do capitão Maurício passou a acarear-me com duas pessoas. O assunto era o Congresso da UNE em Ibiúna, em outubro de 1968. Queriam que eu esclarecesse fatos ocorridos naquela época. Apesar de declarar nada saber, insistiam para que eu “confessasse”. Pouco depois levaram me para o “pau-de-arara”. Dependurado nu, com mãos e pés amarrados, recebi choques elétricos, de pilha seca, nos tendões dos pés e na cabeça. Eram seis os torturadores, comandados pelo capitão Maurício. Davam-me "telefones" (tapas nos ouvidos) e berravam impropérios. Isto durou cerca de uma hora. Descansei quinze minutos ao ser retirado do "pau-de-arara". O interrogatório reiniciou. As mesmas perguntas, sob cutiladas e ameaças. Quanto mais eu negava mais fortes as pancadas. A tortura, alternada de perguntas, prosseguiu até às 20 horas. Ao sair da sala, tinha o corpo marcado de hematomas, o rosto inchado, a cabeça pe sada e dolorida. Um soldado, carregou-me até a cela 3, onde fiquei sozinho. Era uma cela de 3 x 2,5 m, cheia de pulgas e baratas. Terrível mau cheiro, sem colchão e cobertor. Dormi de barriga vazia sobre o cimento frio e sujo.
Na quarta-feira fui acordado às 8 h. Subi para a sala de interrogatórios onde a equipe do capitão Homero esperava-me. Repetiram as mesmas perguntas do dia anterior. A cada resposta negativa, eu recebia cutiladas na cabeça, nos braços e no peito. Nesse ritmo prosseguiram até o início da noite, quando serviram a primeira refeição naquelas 48 horas: arroz, feijão e um pedaço de carne. Um preso, na cela ao lado da minha, ofereceu-me copo, água e cobertor. Fui dormir com a advertência do capitão Homero de que no dia seguinte enfrentaria a “equipe da pesada”.
Na quinta-feira três policiais acordaram-me à mesma hora do dia anterior. De estômago vazio, fui para a sala de interrogatórios. Um capitão cercado por sua equipe, voltou às mesmas perguntas. "Vai ter que falar senão só sai morto daqui", gritou. Logo depois vi que isto não era apenas uma ameaça, era quase uma certeza. Sentaram-me na "cadeira do dragão" (com chapas metálicas e fios), descarregaram choques nas mãos, nos pés, nos ouvidos e na cabeça. Dois fios foram amarrados em minhas mãos e um na orelha esquerda. A cada descarga, eu estremecia todo, como se o organismo fosse se decompor. Da sessão de choques passaram-me ao "pau-de-arara". Mais choques, pauladas no peito e nas pernas a cada vez que elas se curvavam para aliviar a dor. Uma hora depois, com o corpo todo ferido e sangrando, desmaiei. Fui desamarrado e reanimado. Conduziram-me a outra sala dizendo que passariam a carga elétrica para 230 volts a fim de que eu falasse "antes de morrer". Não cheg aram a fazê-lo. Voltaram às perguntas, batiam em minhas mãos com palmatória. As mãos ficaram roxas e inchadas, a ponto de não ser possível fechá-las. Novas pauladas. Era impossível saber qual parte do corpo doía mais; tudo parecia massacrado. Mesmo que quisesse, não poderia responder às perguntas: o raciocínio não se ordenava mais, restava apenas o desejo de perder novamente os sentidos. Isto durou até às 10 h quando chegou o capitão Albernaz.
"Nosso assunto agora é especial", disse o capitão Albernaz, ligou os fios em meus membros. "Quando venho para a OB - disse - deixo o coração em casa. Tenho verdadeiro pavor a padre e para matar terrorista nada me impede... Guerra é guerra, ou se mata ou se morre. Você deve conhecer fulano e sicrano (citou os nomes de dois presos políticos que foram barbaramente torturados por ele), darei a você o mesmo tratamento que dei a eles: choques o dia todo. Todo "não" que você disser, maior a descarga elétrica que vai receber". Eram três militares na sala. Um deles gritou: "Quero nomes e aparelhos (endereços de pessoas)". Quando respondi: "não sei" recebi uma descarga elétrica tão forte, diretamente ligada à tomada, que houve um descontrole em minhas funções fisiológicas. O capitão Albernaz queria que eu dissesse onde estava o Frei Ratton. Como não soubesse, levei choques durante quarenta minutos.
Queria os nomes de outros padres de São Paulo, Rio e Belo Horizonte "metidos na subversão". Partiu para a ofensa moral: "Quais os padres que têm amantes? Por que a Igreja não expulsou vocês? Quem são os outros padres terroristas?". Declarou que o interrogatório dos dominicanos feito pele DEOPS tinha sido "a toque de caixa" e que todos os religiosos presos iriam à OB prestar novos depoimentos. Receberiam também o mesmo "tratamento". Disse que a "Igreja é corrupta, pratica agiotagem, o Vaticano é dono das maiores empresas do mundo". Diante de minhas negativas, aplicavam-me choques, davam-me socos, pontapés e pauladas nas costas. À certa altura, o capitão Albernaz mandou que eu abrisse a boca "para receber a hóstia sagrada". Introduziu um fio elétrico. Fiquei com a boca toda inchada, sem poder falar direito. Gritaram difamações contra a Igreja, berraram que os padres são homossexuais porque não se casam. Às 14 horas encerraram a sessão. Carregado, voltei à cela onde fiquei estirado no chão.
Às 18 horas serviram jantar, mas não consegui comer. Minha boca era uma ferida só. Pouco depois levaram-me para uma "explicação". Encontrei a mesma equipe do capitão Albernaz. Voltaram às mesmas perguntas. Repetiram as difamações. Disse que, em vista de minha resistência à tortura, concluíram que eu era um guerrilheiro e devia estar escondendo minha participação em assaltos a bancos. O "interrogatório" reiniciou para que eu confessasse os assaltos: choques, pontapés nos órgãos genitais e no estomago palmatórias, pontas de cigarro no meu corpo. Durante cinco horas apanhei como um cachorro. No fim, fizeram-me passar pelo "corredor polonês". Avisaram que aquilo era a estréia do que iria ocorrer com os outros dominicanos. Quiseram me deixar dependurado toda a noite no "pau-de-arara". Mas o capitão Albernaz objetou: "não é preciso, vamos ficar com ele aqui mais dias. Se não falar, será quebrado por dentro, pois sabemos fazer as coisas sem deixar marcas visíveis". "Se sobreviver, jamais esquecerá o preço de sua valentia".
Na cela eu não conseguia dormir. A dor crescia a cada momento. Sentia a cabeça dez vezes maior do que o corpo. Angustiava-me a possibilidade de os outros padres sofrerem o mesmo. Era preciso pôr um fim àquilo. Sentia que não iria aguentar mais o sofrimento prolongado. Só havia uma solução: matar-me.
Na cela cheia de lixo, encontrei uma lata vazia. Comecei a amolar sua ponta no cimento. O preso ao lado pressentiu minha decisão e pediu que eu me acalmasse. Havia sofrido mais do que eu (teve os testículos esmagados) e não chegara ao desespero. Mas no meu caso, tratava-se de impedir que outros viessem a ser torturados e de denunciar à opinião pública e à Igreja o que se passa nos cárceres brasileiros. Só com o sacrifício de minha vida isto seria possível, pensei. Como havia um Novo Testamento na cela, li a Paixão segundo São Mateus. O Pai havia exigido o sacrifício do Filho como prova de amor aos homens. Desmaiei envolto em dor e febre.
Na sexta-feira fui acordado por um policial. Havia ao meu lado um novo preso: um rapaz português que chorava pelas torturas sofridas durante a madrugada. O policial advertiu-me: "o senhor tem hoje e amanhã para decidir falar. Senão a turma da pesada repete o mesmo pau. Já perderam a paciência e estão dispostos a matá-lo aos pouquinhos". Voltei aos meus pensamentos da noite anterior. Nos pulsos, eu havia marcado o lugar dos cortes. Continuei amolando a lata. Ao meio-dia tiraram-me para fazer a barba. Disseram que eu iria para a penitenciária. Raspei mal a barba, voltei à cela. Passou um soldado. Pedi que me emprestasse a "gillete" para terminar a barba. O português dormia. Tomei a gillete. Enfiei-a com força na dobra interna do cotovelo, no braço esquerdo. O corte fundo atingiu a artéria. O jato de sangue manchou o chão da cela. Aproximei-me da privada, apertei o braço para que o sangue jorrasse mais depressa. Mais tarde recobrei os sentidos num leito do pron to-socorro do Hospital das Clínicas. No mesmo dia transferiram-me para um leito do Hospital Militar. O Exército temia a repercussão, não avisaram a ninguém do que ocorrera comigo. No corredor do Hospital Militar, o capitão Maurício dizia desesperado aos médicos: "Doutor, ele não pode morrer de jeito nenhum. Temos que fazer tudo, senão estamos perdidos". No meu quarto a OB deixou seis soldados de guarda.
No sábado teve início a tortura psicológica. Diziam: "A situação agora vai piorar para você, que é um padre suicida e terrorista. A Igreja vai expulsá-lo". Não deixavam que eu repousasse. Falavam o tempo todo, jogavam, contavam-me estranhas histórias. Percebi logo que, a fim de fugirem à responsabilidade de meu ato e o justificarem, queriam que eu enlouquecesse.
Na segunda noite recebi a visita do juiz auditor acompanhado de um padre do Convento e um bispo auxiliar de São Paulo. Haviam sido avisados pelos presos políticos do presídio Tiradentes. Um médico do hospital examinou-me à frente deles mostrando os hematomas e cicatrizes, os pontos recebidos no hospital das Clínicas e as marcas de tortura. O juiz declarou que aquilo era "uma estupidez" e que iria apurar responsabilidades. Pedi a ele garantias de vida e que eu não voltaria à OB, o que prometeu.
De fato fui bem tratado pelos militares do Hospital Militar, exceto os da OB que montavam guarda em meu quarto. As irmãs vicentinas deram-me toda a assistência necessária Mas não se cumpriu a promessa do juiz. Na sexta-feira, dia 27, fui levado de manhã para a OB. Fiquei numa cela até o fim da tarde sem comer. Sentia-me tonto e fraco, pois havia perdido muito sangue e os ferimentos começavam a cicatrizar-se. À noite entregaram-me de volta ao Presídio Tiradentes.
É preciso dizer que o que ocorreu comigo não é exceção, é regra. Raros os presos políticos brasileiros que não sofreram torturas. Muitos, como Schael Schneiber e Virgílio Gomes da Silva, morreram na sala de torturas. Outros ficaram surdos, estéreis ou com outros defeitos físicos. A esperança desses presos coloca-se na Igreja, única instituição brasileira fora do controle estatal-militar. Sua missão é: defender e promover a dignidade humana. Onde houver um homem sofrendo, é o Mestre que sofre. É hora de nossos bispos dizerem um BASTA às torturas e injustiças promovidas pelo regime, antes que seja tarde.
A Igreja não pode omitir-se. As provas das torturas trazemos no corpo. Se a Igreja não se manifestar contra essa situação, quem o fará? Ou seria necessário que eu morresse para que alguma atitude fosse tomada? Num momento como este o silêncio é omissão. Se falar é um risco, é muito mais um testemunho. A Igreja existe como sinal e sacramento da justiça de Deus no mundo.





"Não queremos, irmãos, que ignoreis a tribulação que nos sobreveio. Fomos maltratados desmedidamente, além das nossas forças, a ponto de termos perdido a esperança de sairmos com vida. Sentíamos dentro de nós mesmos a sentença de morte: deu-se isso para que saibamos pôr a nossa confiança, não em nós, mas em Deus, que ressuscita os mortos" (2Cor, 8-9).
Faço esta denúncia e este apelo a fim de que se evite amanhã a triste notícia de mais um morto pelas torturas.
Frei Tito de Alencar Lima, OP
Fevereiro de 1970