O absurdo e a Graça
29 de agosto de 2020
Uma reflexão depois das sessenta e nove voltas em torno do sol.

8 de agosto de 2020
Missão de Dom Pedro Casaldáliga
Missão de Dom Pedro Casaldáliga em Documentário da Verbo Filmes – 2011:

Pedro Profeta da Esperança
( Pedro Casaldáliga)

Pedro Casaldáliga - ‘’Jesus de Nazaré, a sua causa e o seu Reino’’ é o que devemos buscar, afirma dom Pedro Casaldáliga
Denunciar a iniqüidade do mercado total, do consumismo desenfreado, do lucro excluidor das maiorias. Fazer da Fé ![]() Eis a entrevista. Caro Pedro para começar gostaríamos de lhe perguntar, do seu ponto de vista quais foram os acertos dos governos do PT até aqui, e qual é sua grande dívida com o Povo Brasileiro? Com todas as ambigüidades e corrupções o PT tem facilitado certa presença e atuação do movimento popular, não o tem satanizado, tem exercido uma política exterior bastante correta e tem estimulado a integração latinoamericana, tem promovido políticas sociais de urgência reduzindo a fome e a marginalização.Daqui, da Amazônia, cobramos sobre tudo do Governo de PT três dívidas urgentes: a causa indígena, a reforma agrária e a substituição dos grandes projetos transnacionais por projetos verdadeiramente populares e sustentáveis ecologicamente. O PT não deveria fazer alianças que exigem claudicações. O PT, como toda pessoa e toda entidade que se considerem de esquerda, deve contestar ativamente o capitalismo neoliberal. O inimigo é o sistema. A teologia da libertação teve um impacto no nosso país principalmente nas comunidades eclesiais de base, hoje ela encontra-se um pouco distante da juventude, você acredita que ela precisa de uma renovação para se tornar mais acessível aos jovens brasileiros? A renovação sempre é necessária e a Teologia da Libertação tem-se renovado constantemente, sobre tudo, assumindo mais explicitamente as identidades étnico-culturais e outras causas que num primeiro momento não eram destacadas: partiu-se da libertação socioeconômica e vem-se abrangendo cada vez mais a libertação integral, holística, da luta contra a fome à vivência da mística. Sempre a verdadeira renovação será voltar mais e mais a Jesus de Nazaré, a sua causa, que é o Reino. Hoje há um debate na igreja brasileira no que diz respeito ao tema da homossexualidade, tem acontecido divisões em relação ao assunto, qual é seu ponto de vista em relação ao tema? A sexualidade é parte integral da pessoa humana e é, por definição, relação. Se vive dentro de uma cultura, na história das pessoas e dos povos. Como toda vertente humana tem sua dimensão ética. Isso faz com que a sexualidade (heterossexualidade, homossexualidade...) seja debate, polêmica, dependendo dos pontos de vista e das situações histórico-culturais. A homossexualidade tem sido estigmatizada, sobre tudo na Igreja, e facilmente se tem enfrentado como doença e como vício. Exige-se, na Igreja principalmente, uma revisão a fundo da sexualidade e particularmente da homossexualidade, como de uma condição humana que pode e deve responder dignamente á realização da pessoa, com as exigências morais em sociedade e à vivência da fé religiosa. Os movimentos que visam um Evangelho próspero, financeiramente falando, têm crescido significativamente na América Latina. Como você enxerga este acontecimento? É só abrir o Evangelho de Jesus de Nazaré e escutar seu coração e sua palavra. Tudo o que seja dinheiro é suspeito. “Não podeis servir a dois senhores” A evangelização não deve procurar a prosperidade financeira da Igreja mas a partilha fraterna de todas as filhas e filhos de Deus. Não se deve optar pelo lucro, mas pelos pobres. Não é com a riqueza que a Igreja vai dar testemunho de Jesus. O Evangelho pede sobriedade, despojamento, a favor dessa Humanidade jogada à beira da estrada da exclusão. A Eucaristia é a mesa da partilha fraterna e sororal. Qual deve ser a posição da Igreja latino americana na sociedade atual diante globalização, de um neoliberalismo que traz um discurso que materializou a felicidade e que a cada dia deixa mais ao margem os pobres? A posição da nossa Igreja só pode ser de profecia que contesta o materialismo neoliberal e anuncia uma sociedade alternativa, esse Outro Mundo Possível que está sendo consigna de tantas pessoas e entidades em toda a Terra. Denunciar a iniqüidade do mercado total, do consumismo desenfreado, do lucro excluidor das maiorias. Fazer da Fé cristã luz e força para combater esse sistema de iniqüidade que mata de fome milhões de pessoas da grande família de Deus. Como você imagina a construção de uma nova alternativa em relação ao sistema que vivemos hoje? A construção de uma nova sociedade, alternativa à que é imposta hoje ao mundo, é um processo complexo, uma caminhada histórica, não tem uma cartilha pronta em detalhes dentro da plural humanidade. De todo jeito eu só posso imaginar esse processo como socializador: socializar a terra de lavoura e de moradia, socializar a saúde, a educação, a comunicação, as oportunidades para viver ‘o bem viver’ que proclamam os nossos povos primigênios. Você acredita que projetos como Belo Monte realmente visam trazer melhorias para o nosso povo ou há outros interesses por trás? Os projetos como Belo Monte, os chamados ‘grandes projetos’, são projetos do capitalismo neoliberal, do agronegócio depredador, de um progresso que ignora a dignidade e os direitos essenciais das pessoas e dos povos. O único verdadeiramente ‘grande projeto’ é viver em harmonia com a natureza e a serviço da vida digna de todas as pessoas e de todos os povos. Tenho a impressão que no nosso país as pessoas que lutam por justiça ainda são “crucificadas”, como no caso de Maria e José no Pará, ou Dorothy Stang há alguns anos, são casos de pessoas que avisaram o perigo que corriam, mas novamente nada foi feito ao respeito. A quais meios o povo pode recorrer ou está só nesta luta? Sempre foi e sempre será um risco a entrega total da própria vida às grandes causas da justiça, da fraternidade, da paz. Nos, os cristãos, sabemos por que Jesus acabou crucificado. Ser profeta é facilmente ser mártir. Aqui, na Prelazia de São Félix do Araguaia, estamos celebrando nos dias 16 e 17 de julho a Romaria dos Mártires de Caminhada; milhares de irmãos e irmãs que foram dando a vida pelas causas do Reino de Deus; que continuam dando a vida, como Dorothy Stang, como o casalJosé Cláudio e Maria do Espírito Santo. Felizmente o próprio povo têm o seus profetas e, no meio desse sistema de morte que domina no mundo, há muita indignação, muita vitalidade alternativa, muita solidariedade; o bem está vencendo o mal; a vida e o amor, dons do Deus do Amor e da Vida, têm a palavra. Porque Deus é Amor, nós somos esperança. A Humanidade não está só, Deus é Deus conosco; sobre tudo com os pobres e com os lutadores. Essa fé, que é esperança, deve ser prática, luta, dia a dia; e deve-se traduzir em outro ‘poder’, ‘outra política’ verdadeiramente popular, sem corrupção, sem disparidades escandalosas, sem impunidade assassina. Caro Pedro gostaríamos de te agradecer a oportunidade de poder entrevista-lo, pois sabemos da luta contra o Parkinson que você enfrenta, e dizer-lhe que foi um prazer ter a oportunidade e que através desta entrevista mais jovens saibam sobre a pessoa humana que você tem sido em relação a defesa do pobre e luta contra a injustiça. Para finalizar poderia nos deixar algumas palavras? Palavras que deixo para vocês e que primeiro devo-me dizer a mim mesmo: A paixão por Jesus Cristo e por sua causa, o Reino. A construção diária de uma convivência verdadeiramente humana, na família, na sociedade, com a natureza, com toda a família de Deus. O compromisso diário com as lutas do povo e na caminhada de uma Igreja sempre mais evangélica, samaritana, ecumênica, que responda ao sonho de Jesus. |

Confissões do Latifúndio

Pedro Casaldáliga ainda enfrenta "lobos" e fala de esperança
Dia 16 de Fevereiro de 2018 completou 90 anos
Bispo emérito de São Félix do Araguaia (MT) resiste a ameaças, critica o sistema político, o agronegócio, os impérios. E se apresenta como soldado de uma causa invencível
1986: Josimo Morais Tavares, padre, assassinado pelo latifúndio. Imperatriz, Maranhão, Brasil”
Por apoiar a luta quase cinquentenária dos povos originários daquela região de Mato Grosso, Pedro foi ameaçado de morte algumas vezes. Na última, no final de 2012, quando o processo de desintrusão (medida legal para efetivar a posse) dos fazendeiros e posseiros da TI (terra indígena) Marãiwatsédé avançava e se efetivava, decorrente da determinação da Justiça e do governo federal, ele teve de se ausentar de São Félix.
Che, Jesus, Milton
Esperança e diálogo
Direitos indígenas x ruralistas
“A retomada da TI Marãiwatsédé é bonita e emblemática. Os Xavante foram constantes em defender os seus direitos. Quando foram expulsos, deportados – esta é a palavra, eles foram deportados –, seguiram vinculados a esse terreno, vinham todos os anos recolher pati, uma palmeira para fazer os enfeites. E reivindicavam sempre a terra onde estão enterrados nossos velhos. E foram sempre presentes”, testemunha. “Aqui, nós sempre recordamos que essa terra é dos Xavante, que esta terra é dos Xavante. Os moradores jovens, meninos, outro dia diziam – nossos vovôs contam que essa terra é dos índios, nossos papais contam que essa terra é dos índios.”
Lúcido, Pedro conclui a conversa lembrando a frase de um soldado que lutava contra a ditadura franquista na Guerra Civil Espanhola: “Somos soldados derrotados de uma causa invencível”.
Descalço sobre a terra vermelha
Rodado como uma espécie de western teológico, retrata com grande força e sensibilidade a violência e tensão existentes, ainda hoje, nos conflitos entre latifundiários, invasores de terras indígenas, posseiros e a ação pastoral da Prelazia de São Félix que, tendo dom Pedro à frente, desde sempre esteve ao lado dos despossuídos.

Ir. Pedro Casaldáliga respondendo a perguntas em 1988

Pedro Casaldáliga, um santo que vive entre nós
Foi sagrado Bispo de S. Feliz do Araguaia:
Não poder nada, não pedir nada
E em contrapartida, não matar nada.
Não Calar nunca.

São Pedro Casaldáliga, (vídeo) Descalço sobre a terra roxa
O link abaixo é de uma série da TV espanhola de nome " Descalço sobre a terra Roxa" . Conta parte da vida do Bispo Pedro Casaldáliga, nascido na Catalunia, mas que tomou o Brasil, ou a região de São Felix do Araguaia, em Goiás como sua terra natal. O filme é uma importante parte da história recente do Brasil em seus anos mais duros e vergonhosos, a ditadura militar.
Ao assistir a esse filme tem-se a nítida certeza de que estamos assistindo a um filme da vida de um santo de nosso tempo.
É um filme longo, em duas partes. Um filme realista e por vezes bastante forte. Na minha opinião um filme que não pode ser deixado á margem da vida de quem se diz cristão.
copie e cole este endereço em seu navegador:
http://www.rtve.es/alacarta/videos/descalzo-sobre-la-tierra-roja/descalzo-sobre-tierra-roja-1-parte/2748214/

7 de agosto de 2020
Perplexidade
Nos muitos anos que já vivi, acho que é a primeira vez que me sinto assim, como se a estrada à minha frente estivesse encoberta por um forte nevoeiro, tão forte que não consigo ver nada adiante. É uma sensação muito estranha. Sempre gostei de uma frase que afirma que quando acho que tenho todas as respostas, a vida me mostra uma infinidade de novas perguntas. Mas agora não é isso, a sensação é de estar diante de um paredão, onde não consigo ver o horizonte, é como se o projeto humano estivesse por um fio muito tênue, prestes a se romper...
Não pensem que seja depressão, ou
pessimismo, o termo que melhor definiria seria perplexidade.
A mentira passou a ser a forma mais
utilizada para enganar as pessoas, todas as pessoas. Já não é possível confiar
na notícia que um amigo envia, ou que se vê numa rede social. A todo momento
temos que desconfiar, de tudo e de todos. Os valores éticos parecem se desfazer
em meio a um mar de corrupção, onde justiça se confunde com levar vantagens. É
desesperador perceber que uma quantidade enorme de réus em que se tem menos
dúvidas sobre a sua idoneidade do que as que pairam sobre os seus acusadores, e
muito pior, não há garantia de isenção daqueles que deveriam estar isentos para
julgar...
Esse estado de coisas parece estar
corrompendo uma imensa parcela da população. Haja perplexidade quando leio que
na instituição igreja católica, eminências pardas que possibilitam lavagem de
dinheiro e investimentos em armas de morte, se colocam de forma covarde contra
um papa que veio restaurar os ensinamentos do mestre Jesus... Quando vejo
pastores distorcendo a Bíblia em busca do próprio enriquecimento, e gente de
todos os tipos de manifestação religiosa e espiritual mais preocupadas com o
aspecto material, ou em fazer conchavos com quem está e detém o poder, eu sinto
uma estranha sensação de não saber onde estou e para onde quero ir.
Como posso entender que traficantes e
milicianos se apresentem para perseguir as religiões de matriz africana,
causando dor e destruição em nome de Jesus? E o que dizer do racismo, da misoginia e da
homofobia oficializadas neste Brasil de tantos horrores. O que pensar de quase
100 MIL mortes vistas como algo natural e desdenhadas pelos órgãos oficiais.
Diante disso eu sinto uma sensação de perplexidade diante de um país que virou
isto que estamos vendo.
Só o que me resta são dúvidas, muitas
dúvidas, e no meio delas uma única certeza de que o que quer que eu ainda
acredite, está dentro de mim, bem lá no fundo do meu coração. E é para essa
certeza que não ouso nomear, é para essa realidade que me aquece e ainda
ilumina os meus pensamentos, a minha consciência e alguma frágil esperança que
eu rezo todos os dias..
.Eu deveria saber há mais tempo,
afinal Ele disse:
"O reino de Deus está no meio de
vós"

Filme "O Anel de Tucum"
Filme liberado pela Vebo Filmes
neste momento em que rezamos pelo irmão Pedro
