O absurdo e a Graça

Na vida hoje caminhamos entre uma fome que condena ao sofrimento uma enorme parcela da humanidade e uma tecnologia moderníssima que garante um padrão de conforto e bem estar nunca antes imaginado. Um bilhão de seres humanos estão abaixo da linha da pobreza, na mais absoluta miséria, passam FOME ! Com a tecnologia que foi inventada seria possível produzir alimentos e acabar com TODA a fome no mundo, não fossem os interesses de alguns grupos detentores da tecnologia e do poder. "Para mim, o absurdo e a graça não estão mais separados. Dizer que "tudo é absurdo" ou dizer que "tudo é graça " é igualmente mentir ou trapacear... "Hoje a graça e o absurdo caminham, em mim lado a lado, não mais estranhos, mas estranhamente amigos" A cada dia, nas situações que se nos apresentam podemos decidir entre perpetuar o absurdo, ou promover a Graça. (Jean Yves Leloup) * O Blog tem o mesmo nome do livro autobiográfico de Jean Yves Leloup, e é uma forma de homenagear a quem muito tem me ensinado em seus livros retiros, seminários e workshops *

8 de abril de 2014

50 anos sem João XXII

( D. Helder Câmara)

João XXIII - O Santo que Eu Conheci (por D. Helder)





Em junho de 1963, há cinco anos [Esta reportagem é de 1968] , morria João, o camponês que ocupava a cadeira de Pedro, o pescador. João deixou, além do exemplo de uma vida santa, um punhado de historinhas humanas, reunidas no livro "Fioretti do Bom Papa João". “REALIDADE” [uma famosa revista dos anos 60] publica algumas dessas histórias, um diário dos últimos dias do papa e este relato exclusivo do padre Helder Câmara, arcebispo de Olinda e Recife.




Um dia, o Presidente Juscelino Kubitschek perguntou-me se eu aceitaria ir ao Vaticano em missão especial, como embaixador extraordinário, acompanhado de dois diplomatas, transmitir ao Papa João um recado em nome do Brasil.
Quando ouvi o recado, achei-o tão belo, que nem vacilei em aceitar a missão.
Caber-me-ia dizer ao papa:
- Santo Padre, se um filho vai inaugurar uma casa, casa de seu futuro, de seu sonho, mes¬mo que saiba que o Pai não vai poder comparecer, tem, assim mesmo, a obrigação sagrada de convidar o Pai.
Tratava-se, já se vê, da inauguração de Brasília: Mesmo tendo certeza de que o Papa João não poderia vir à nossa terra, o Brasil tinha a fineza de convidá-lo.
Os dois diplomatas que estariam comigo seriam embaixador Moacir Briggs, então nosso representante junto à Santa Sé, e o embaixador Hildebrando Acioli, que também lá estivera representando o Brasil.
A saúde do embaixador Acioli, já então combalida, não permitiu que o tivéssemos conosco. Apenas o embaixador Briggs e eu participamos da missão que, salvo engano, se manteve secreta até hoje.
O próprio papa nos abriu a porta e fez, de início, um comentário que eu só conto porque é flagrante da alma de Angelo Roncalli:
"- Oh! Tinham-me dito que eu ia receber um grande arcebispo e vejo um pequeno arcebispo ..."
Mas logo se formalizou e disse:
"- Mas eu sei que vem em missão especial do Brasil.
Como vai o presidente? "
Quando transmiti, textualmente, o recado que me cabia transmitir, o Santo Padre se comoveu profundamente e disse:
"- Nunca se ouviu dizer que um chefe de Estado mandasse ao papa um recado tão cristão. "
E três vezes repetiu:
"- Eu preciso ir ao Brasil". Mas logo ajuntou:
"- Mas eu não posso ir ao Brasil", lamentou o papa.
Perguntei ao Santo Padre se ele me permitia pôr termo à missão oficial e se ele me consentia falar como filho.
O Papa João me olhou como se não estivesse entendendo.
Acrescentei:
"- Permita-me aproveitar esta oportunidade única e abrir-lhe meu coração de filho."
Prontamente me autorizou a dizer o que bem entendesse. Sem perda de tempo, comentei:
"- O que me parece importante, Santo Padre, não é sua viagem ao Brasil. Sonho com uma viagem sua incomparavelmente mais importante. "
Falei, então, do esforço desesperado que a Ásia e a África tinham feito reunindo-se em Bandung. Lembrei que o escândalo do século é o distanciamento sempre maior entre o mundo desenvolvido e o mundo subdesenvolvido. Tive a audácia filial de sugerir que ele reunisse, por exemplo, em Jerusalém, a meio caminho entre o Oriente e o Ocidente os técnicos dos países de abundância e dos países de miséria. O indispensável seria que ele comparecesse, em pessoa, ao encontro. A viagem do papa teria o alcance do lançamento de um Sputnik - os primeiros estavam, então, sendo lançados - e a Igreja levaria uma contribuição decisiva à causa do
desenvolvimento.
O Santo Padre foi generosíssimo ao escutar o filho audacioso. E comentou:
"- é preciso fazer isto. É preciso. Mas eu não posso fazer."
Pressentindo que ele aludia a obstáculos surgidos no caminho e usando da liberdade de dizer o que bem entendesse, levei ao auge a audácia e disse:
"- Desde menino, Santo Padre, me acostumei a pensar que acima do papa só existe Deus."
E veio uma resposta deliciosa, cem por cento roncalliana:
"- Se você estivesse no meu lugar, saberia que oito pessoas me controlam aqui dentro. "



O Papa João, pouco depois, teve audácias santas como a convocação do Concílio Ecumênico. Em matéria de viagens, não conseguiu ir mais longe do que a Assis. A Providência reservava ao seu grande sucessor a responsabilidade e a glória de partir em todas as direções, aonde leva o Espírito de Deus, como Peregrino da Paz.
Em outra audiência extraordinária assisti a duas lições extraordinárias do Papa João.
O Concílio se iniciara, despertando enorme euforia em todos os bispos que sonhavam com a atualização e renovação da Igreja. Um dia, uns quinze bispos, de vários países, foram ao Santo Padre e um deles falou em nome de todos:
"- O senhor é feliz, Santo Padre. Deus lhe inspirou um Concílio diferente. O senhor foi logo afirmando que o Vaticano II não vinha para novas condenações, porque o que havia a condenar já estava condenado e mais que condenado. O senhor disse que o Concílio vinha para reformar a Igreja."
O entusiasmo que as primeiras votações do Concílio despertavam, o intérprete ousou acrescentar:
"- Mas como é possível, Santo Padre, que bispos da Cúria Romana fiquem sabotando o Concílio? "
O Santo Padre sorriu e comentou:
- Pensando bem, o obstáculo é uma bênção de Deus.
Se caminhamos, caminhamos sem nenhum empecilho, corremos o risco de ir mais longe do que desejamos.
A esta lição de prudência humana, ajuntou outra de sabedoria divina:
- Vão para a Basílica. E lá, cada um sustente tudo o que, diante de Deus, em consciência, julgar necessário sustentar. Estarei aqui para defender a inteira liberdade de vocês.
Mas acrescentou;
- Não saiam, porém, da caridade, para vocês não saírem de Deus. Palavras de um santo!
Ao longo do Concílio, quando um padre conciliar falava e havia a tentação de nos irritarmos, de nos rebelarmos, a voz do papa santo ajudava, recomendando:
"- Não saiam da caridade para não saírem de Deus."
No encerramento do Concílio, numerosos bispos chegamos a pensar em pedir ao Santo Padre Paulo VI, por aclamação, que canonizasse pura e simplesmente o Papa João. Para que processo, se havia milagres gritantes, dos quais os dois maiores pareciam: a morte do papa e o Concílio Ecumênico.

Católicos e não-católicos, crentes e descrentes choraram a morte do Papa João. Protestantes, judeus, maometanos, budistas, agnósticos, ateus o amavam tanto quanto nós. Ele não era mais nosso do que deles. E, quanto ao Concílio, há pormenores que só a audácia de um santo se animaria a enfrentar.
Quando li a lista dos perigos do Concílio e vi nomes de grandes teólogos até as vésperas tidos em suspeição e que, de repente, eram chamados, oficialmente, pelo papa, comovi-me profundamente. Lá estavam, entre outros, De Lubac, Congar, Chénu, Rabner, cujos escritos eram de¬saconselhados nos seminários. Se ainda estivesse neste chão dos homens, Teilhard de Chardin, certamente, estaria convocado e encabeçaria a lista dos peritos, ele que foi uma das grandes presenças invisíveis do Vaticano li.
Não foi menos audacioso receber dentro da Basílica, e colocar no nível dos cardeais, observadores ortodoxos, anglicanos e protestantes, para os quais, do começo ao fim, o Concílio não teve segredos.
De certo modo, ele indicou o próprio sucessor: durante Concilio, um único padre conciliar foi por ele convidado a hospedar-se no Vaticano. Tratava-se do cardeal arcebispo de Milão, Monsenhor Giovanni Battista Montini.



HISTORINHAS DO BOM JOÃO

Depois de sua eleição, João XXIII convoca o Conde della Torre, diretor do Osservatore Romano, jornal do Vaticano, que havia doze anos não recebia semelhante honra. O papa exprime-lhe o seu interesse pelos assuntos relativos à imprensa e promete-lhe o seu apoio. Insiste, porém, em que, daí em diante, o Osservatore Romano evite empregar, a propósito do papa, os habituais superlativos, tais como: augustos lábios, iluminado pela graça, e outros lugares-comuns.
- Escreva simplesmente: "O papa disse... O papa fez ...
Verdade seja dita que, neste ponto, João XXDI não foi atendido.

Para visitar um velho prelado agonizante, João XXDI irrompe, de imprevisto, numa clínica dirigida por religiosas. Bate à porta e a irmã- de serviço julga desmaiar de emoção ao ver; diante de si, o papa.
- Não se assuste, minha irmã, e vá chamar a superiora. No fim de contas, sou apenas o papa.
E João XXIII, como toda a gente, aguardou de pé, na antecâmara, que chegasse a superiora.

Ao instalar-se nos seus aposentos, enquanto os carregadores armavam o mobiliário, o Santo Padre sentou-se num caixote a ler o breviário. Só depois de o terminar, partiu a explorar as salas que ainda não conhecia. Quando chegou ao salão, os operários transportavam caixotes. Escondido por um deles estava um operário, que trabalhava, curvado.
- Não os incomodo, meus filhos'? - disse o papa. O operário que se encontrava por detrás do caixote jul¬gou reconhecer a voz de um dos seus companheiros:
- Quando é que você vai largar mão de ser bolo?
Vê se me dá aqui uma mãozinha.
João XXIII avançou e segurou o outro lado do caixote.
Neste instante o operário ergueu os olhos. Pálido de emoção, balbuciou:
- Santidade, Santidade ...
João XXIII abençoou-o, bem como aos seus compa¬nheiros. Vendo que o operário que lhe respondera estava ainda muito confuso, quis pô-lo à vontade:
- Pertencemos ambos ao mesmo partido.
- Mas eu não pertenço a partido algum - respondeu o operário.
- Repare bem no meu tamanho, disse o papa. As pessoas como você e eu estão automàticamente inscritas no Partido dos Gordos.
Convidou, então, os operários para almoçarem com ele, mas os trabalhadores estavam muito intimidados e quase não comiam. Ao aperceber-se disso, o papa dese¬jou-lhes bom apetite e deixou-os sós.

Logo após a sua entronização, João XXIII aumentou consideravelmente os vencimentos dos empregados da Cidade do Vaticano, começando por baixo. É por isso que um guarda recebe salário de 70 mil liras por mês, mais uma importância de 12 500 liras por filho e 10 mil
liras de subsídio pela mulher e um mês de gratificação. E os cardeais tiveram os seus
vencimentos fixados em 400 mil liras mensais (uma lira vale cerca de seis cruzeiros velhos).
Um prelado, achando exagerado o aumento dos pequenos vencimentos, fêz-lhe lembrar, respeitosamente, que isso representaria um grande encargo para o orçamento pontifício. Então o papa respondeu, para provocá-lo:
- Não nos limitamos a aumentar os vencimentos dos mais humildes, baixamos também os dos altos funcionários. Assim, conseguimos para a nossa tesouraria uma economia de 20 milhões por mês ...


João XXIII detestava a solidão, particularmente durante as refeições. Ora, o protocolo estabelece que o papa coma sozinho. Ele não se resignava a tal, dizendo: "Pareço um seminarista de castigo." Ou ainda: "Li atentamente o Evangelho sem conseguir encontrar passagem alguma que me obrigue a comer sozinho. Jesus, como é sabido, gostava de comer acompanhado."
A pompa pontifical desagradava-lhe. Tinha horror às cerimônias oficiais e à complicação de certos, ornamentos de vestuário. E reclamava;
Ando vestido como um faraó!

Outrora, o acesso do público à cúpula de São Pedro era proibido enquanto o papa passeava nos jardins do Vaticano. João XXIII fez suprimir essa restrição, alegando:
- Mas por que é que os fiéis não hão de poder ver-me? Não faço nada de escandaloso ...

No decurso de uma audiência, João XXIII reconhece o Padre Pignatello, capelão-geral do exército italiano, sob as ordens do qual servira durante a guerra, quando ainda era apenas o Padre Roncalli.
O capelão ajoelha-se para lhe beijar o anel. O papa, então põe-se em sentido, faz continência e diz-lhe, com um sorriso:
- Sargento Roncalli! Às suas ordens, meu general!

João XXIII continuava a exprimir-se como se não fosse mais do que um homem igual aos outros. Assim, quando tinha pressa de regressar ao Vaticano, no fim de uma visita, dizia:
- Estou atrasado. Tenho que voltar para casa.

Recebendo um congresso de padres, em junho de 1960, João XXIII, numa conversa familiar com os seus hóspedes, antes de os abençoar, teve esta tirada que os deixou boquiabertos:
- Não sou um papa que tenha visões. E, no entanto,
dizem-me que não vou lá muito mal!

Isto não o impediu, contudo, de dizer um dia, durante a primeira sessão do Concílio:
- Gostaria bem que Nosso Senhor me aparecesse para me dizer quando acabará o Concílio, que, para o começar, sou eu quem manda, mas para acabar ...

Um embaixador asiático é recebido em audiência. João XXIII aproxima-se dele e começa a conversar com a sua habitual cordialidade perguntando-lhe pela família.
O outro interrompe-o dizendo não sou casado."
- Ah! é solteiro! Então é exatamente como eu! - exclamou o papa.
- Não exatamente, Santo Padre! afirma, honestamente, o embaixador.

A multidão reunida, domingo de Páscoa, na Praça de São Pedro, em Roma, para receber a bênção pontifical, teve a surpresa de ouvir estas palavras do papa, em frente da janela que acabava de ser aberta : - Aqui há uma corrente de ar, terrível! .

Ao ouvir, por a caso numa rua de Roma uma mulher impressionada pela gordura do papa, dizer a outra: "Meu Deus, como ele é gordo!",
João XXIII volta-se e diz-lhe:
- Saiba, minha senhora, que o Concílio não é um concurso de beleza!

Aludindo às suas freqüentes saídas do Vaticano:
- Dizem que saio muitas vezes por dia. Pois bem, passarei a sair à noite!

João XXIII visita em Roma, o Hospital do Espírito Santo, dirigido por religiosas.
A superiora aparece muito confusa, e diz-lhe apresentando-se:
- Santíssimo Padre, sou a superiora do Espírito Santo.
- Está bem, tem sorte - respondeu o papa. - Eu sou apenas o vigário de Cristo.

Relendo um esquema preparatório do Concilio, particularmente hostil aos trabalhos dos teólogos e dos modernos estudiosos, João XXIII pegou uma régua graduada, mediu o tamanho da folha e disse para um seu familiar:
- Repare: neste esquema há 30 centímetros de pecados!

A um prelado da Cúria, que lhe dizia: " absolutamente impossível abrir o Concílio em 1963", o papa respondeu:
- Vamos abri-lo em 1962!







Este é o resumo do diário dos últimos dias do Papa João XXllI. Giovanni Roncalli morreu sereno como viveu, tranqüilizando os que o cercavam.

“Minhas malas estão prontas”

Terça feira 25 de maio de 1963
Comunhão com os que sofrem.

Ah, como estou reconhecido". O fato de ser objeto de delicadas atenções comove-me; mas deixa-me exata¬mente na minha habitual simplicidade, ao mesmo tempo que me sinto mais do que nunca em comunhão com todos os que sofrem nos hospitais ou em suas casas e que, por razões diversas, estão angustiados. Este interesse testemunhado ao papa, que humildemente representa o Senhor, deve suscitar um aumento de orações, de pensamentos e propósitos de paz, uma convicção segura e clara de que, na vida, o que tem valor está sempre no espírito do Evangelho: doçura, bondade, caridade.
- Desejo que todos recebam o sinal da minha comovida gratidão, para que ele lhes seja causa de mútuo amor fraternal, já que querem permanecer em união comigo. Abençôo e encorajo...


"Quando soar o momento, não perderei tempo."
Sexta-feira, 31 de maio de 1963 o encontro, em Cristo

- Nas minhas vigílias noturnas tenho sempre diante de mim Jesus crucificado, com os braços estendidos para abarcar o mundo inteiro. É papel da Igreja católica e apostólica, da Igreja romana, trabalhar para a realização da oração do Divino Mestre: "Ut unum, ut unum sint".
- Estou pronto a ir aonde o Senhor me chamar.
- Desejo desaparecer e encontrar-me em Cristo
.
O papa tem os braços em cruz sobre o leito.
A Monsenhor Rocca:
- Agradeço-lhe muito o auxílio que me prestou. Continuaremos a amar-nos no Céu.


Sábado, 1.0 de junho de 1963: a morte é vida nova
O papa solicita que lhe recitem o Magníficat:
- Então, coragem! Não é o momento de chorar, é um momento de alegria e glória.
- Sofro muito, mas com amor.
Ao secretário:
- Quando tudo acabar, não deixe de ir visitar a sua mãe.

O papa beija os seus irmãos e diz:
- Sou a ressurreição e a vida! Jesus! Jesus! Rezemos pelo nosso pai e pela nossa mãe.
Pensei sempre muito neles e estou contente porque, dentro em pouco, voltarei a vê-los, no Paraíso. Com a morte é uma nova vida que começa, a glorificação em Cristo.

Ao Cardeal Testa, que manifestava a intenção de sair:
- Fique um pouco mais!

Ao professor Gasparrini:
- Querido professor, não se inquiete, as minhas malas estão sempre feitas.
Quando soar o momento da partida, não perderei tempo
.


Domingo, 2 de junho de 1963: a última bênção


- Cristo acolhe-me. Estou perto de Jesus.
- É um dia grande para a Igreja (era o Pentecostes).
O papa dá urna última bênção ao mundo.

Segunda-feira, 3 de junho de 1963:

João :XXIII morre às 19 horas e 4S minutos depois de ter dito: .
- Mater mea, fiducia mea. (Minha mãe, minha con¬fiança.)
No mesmo instante, o Professor Gasparrini, que recebia
o seu último suspiro, ouve, distintamente,
o padre, que celebrava missa na sala ao lado, dizer:

-Ite missa est !



5 de abril de 2014

* João XXIII * O Revolucionário Sorridente


O cardeal Roncalli certamente não era um dos expoentes da Igreja,quando Pio XII morreu. E aquele homem gordo, bonachão, filho de humildes camponeses, já estava beirando os 80 anos. Ninguém o via papa.
Quando foi eleito, a impressão que se tinha era de que se tratava de uma espécie de "mandato tampão", um pontífice para reinar pouco tempo, enquanto se preparava a verdadeira sucessão de Pio XII.
Mas João XXIII não foi nada disso. Sorridente, sem pretensões preferindo comer macarrão a jejuar, desencadeou uma revolução na Igreja.

O "mandato tampão" acabou sendo um mandato “bomba”
O modesto camponês que não se fazia notar pela inteligência nem pela cultura, sacudiu o Vaticano de alto a baixo, devolvendo aos católicos a consciência que se estava amortecendo de suas res¬ponsabilidades sociais


Na longa série dos 263 papas que governaram a Igreja, nenhum gozou de tanta simpatia e foi tão popular como João XXIII, que antes de ser eleito se chamava Angelo Giuseppe Roncalli.
Ao ser escolhido a 28 de outubro de 1958 para suceder a Pio XII, que falecera 19 dias antes, depois de ocupar o sólio pontifício durante quase 20 anos, muitos quiseram ver nele um "papa de transição", devido à sua idade avançada, ao seu aspecto de homem bonachão e tranqüilo e ao pouco que a imprensa tinha falado dele até aquela data. Contudo, ao serem anunciadas, em fins de setembro de 1962, as primeiras manifestações da doença do papa, o mundo todo se co¬moveu, e foi com um sentimento de profunda tristeza que recebeu a notícia de sua morte no dia 3 de junho de 1963.
Entre a eleição e a morte de João XXIIl tinha transcorrido apenas o período de cinco anos, esse tem¬po, apesar de breve, fora suficiente para marcar seu pontificado. Com as energias que escondia em seu íntimo e cuja existência seu aspecto de homem atarracado, de fronte larga e ros¬to sereno, não deixava entrever, realizou uma obra que marcou época e passará à História.
Cabe a João XXIII o mérito de ter dado impulso ao movimento de renovação da igreja, de ter convocado o Concílio Ecumênico Vaticano II para atualizar a liturgia e a disciplina eclesiástica, de ter des¬pertado o interesse dos cristãos pelo angustiantes problemas sociais do mundo moderno, de ter lembrado aos povos os princípios da justiça social por meio das encíclicas “Mater et Ma¬gistra” e “Pacem in Terris” e de ter iniciado, na prática, o movimento de união dos cristãos, que até então figurava como um ideal longínquo e um desejo muito vago nos discursos escritos de papas, bispos e sacerdotes.
Graças aos modernos meios de comunicação, os atos e palavras de João XXIII tornaram-se conhecidos do mundo todo e alguns sensibilizaram, pelo seu profundo humanismo, não apenas os católicos, mas também dos membros de outras confissões religiosas. Essa influência foi reconhecida, por exemplo, pelo presidente da Federação protestante da França, o pastor Westphal, que, interpretando o sentir de sua comunidade ao receber a notícia da morte dc Joao XXIII, disse que era a primeira vez na História que os protestantes choravam a morte de um papa.
Não se pode dizer que João XXIII atraia a atenção para a sua pessoa por meio de uma inteligência extraordinária. Embora ele tenha obtido boas notas durante os estudos que fez em Bér¬gamo e em Roma, e escrito alguns livros de caráter histórico que mereceram elogios dos críticos, suas qualidades intelectuais não foram as de um homem superdotado, mas se situaram Não se pode acusá-lo de ter recorrido à demagogia para se tornar popular. Todos os que o conheceram sustentam que os artifícios para enganar, os gestos estudados, o fingimento, a imula¬ção e a mentira eram totalmente estranhos a seus atos e palavras.

"O conhecimento da minha pequenez e do meu nada foi o meu bom companheiro de sempre. Este é o mistério de minha vida."



Seria injusto também dizer que a posição que ocupava como chefe da Igreja foi aproveitada por uma máquina de propaganda bem montada para exaltá-la à face do mundo. Por tudo o que se sabe, não foi João XXIII quem correu atrás dos meios de comunicação, mas eles é que se interessaram pelo homem simples, colocado à frente da Igreja, e tornaram conhecida a sua vida e iniciativas.

Alma iluminada, coração terno.

Qual terá sido então, o segredo do fascínio que exerceu este homem, que alguns de seus críticos consideravam demasiadamente ingênuo? De que meio lançou mão para comover os corações e conquistar a simpatia de cristãos e não cristãos?
A melhor resposta a esta pergunta foi dada pelo próprio papa numa das notas que escreveu em seu diário:
"O conhecimento de minha pequenez e do meu nada foi o meu bom companheiro de sempre, conservando-me humilde e pacífico e concedendo-me a alegria de me consagrar, com todas as minhas forças, à prática ininterrupta da obediência e da caridade. Este é o mistério de minha vida. Não procurei outra explicação. Repeti sempre a frase de São Gregório Nazianzeno:
A tua vontade, ó Senhor, é a minha paz" .

Avançando um pouco mais na inter¬pretação da personalidade de João XXIII, da influência que exerceu e do prestígio que conquistou o pastor Marc Boergner, da Academia France¬sa, escreveu em outubro de 1963:

"João XXIII foi um verdadeiro discípulo de Jesus Cristo, de coração abrasado de amor, que irradiava o espírito de pobreza cantado nas Bem-aventurançase ofertoua vida pela renovação de sua Igreja, a unidade dos cristãos e a paz do mundo. Em João XXIII vemos uma alma iluminada, um coração infinitamente terno, um espírito cheio de bom senso, um homem, enfim, que foi padre, bispo e papa, mas que se conservou sempre profundamente humano, próximo dos homens seus irmãos e, particularmente, os pobres e dos humildes , sempre pronto a amá-los e a servi-los".

Dom Giovanni Urbani, que sucedeu ao cardeal Roncalli no patriarcado de Veneza, deu uma explicação parecida, mas com o mérito de colocar em destaque os principais fatores da popularidade do papa:
"As armas por ele utilizadas para conquistar essa simpatia foram a simplicidade, a sinceridade e a bondade.
Tratando com ele, inclusive, de assuntos mais complicados, o seu interlocutor se admira¬vam-se de sua habilidade para destrinchá-los, reduzi-los ao seu esquema essencial e encontrar para ele rapi¬damente a solução mais conveniente e eficaz. Ninguérn se lembra de tê-lo visto irado, ninguém o surpreendeu num momento de cólera, ninguém notou jamais na sua voz quente e robusta uma tonalidade marcada pelo mau humor ou. azedume"

Estas e outras explicações servem para mostrar a razões da popularidade de João XXIII, mas se nos detivermos nelas, conheceremos apenas uma faceta de sua vida. Ficaremos nos efei¬tos e manifestações de sua personalidade, sem descermos às causas que fizeram dele um discípulo perfeito de Cristo que, pelo seu modo de entender o Evangelho e de vivê-lo em todos os momentos, projetou sobre o mundo cIarões de luz que o homem desejariam ver permanentemente na instituições da Igreja na atividade de seu sacerdotes e bispos.
A simplicidade, sinceridade, bondade e outra qualidade que caracterizaram sua personalidade não foram dom inato, mas fruto de um aprendizado de virtude que começou no primeiro ano e se prolongou por toda a vida. Embora tenha passado a infância num meio simples e pobre como era a aldeia de Sotto il Monte onde nasceu a 25 de novembro de 1881 as condições do lugar e do meio fami¬liar podem ser consideradas, quando muito, um ponto de partida de sua ascensão espiritua1, mas não explicam a serenidade que irradiava de seu semblante ao 82 anos, o constante bom humor que transparecia de seus gestos e palavras, eu interesse pelo bem de todas a pessoas e sua tendência a ver sempre o lado bom da coisa em lugar de apegar-se aos pontos negativos e a de culpar a intenção, quando a obra não merecia aprovação.
A formação da personalidade de João XXIII começou no seminário de Bérgamo, onde se matriculou m 1892.
Quando iniciou seus estudos naquela casa, era ainda criança mas já revelava o amadurecimento de uma pessoa que abe o que quer. Seu ideal era ser sacerdote para servir a Deus e ser útil ao próximo; e, animado pelo desejo de realizar esse sonho que aumentava desde quando fazia o estudo primário, sujeitou-se à normas disciplinares da escola de sacrifício, abnegação e renúncia que é o seminário.

"Não importa o que acham de mim. "

o primeiro ano do seminário traçou um programa de vida e recolheu do Evangelho e dos livros que leu um conjunto de normas que prometeu observar. Tudo foi anotado
cuidadosamente num diário que começou a escrever nesta época e a notas que registrou posteriormente revelam que se manteve sempre fiel as essas normas de conduta. As anotações estavam ao alcance de sua mão e eram utilizadas como tema de meditação e de exame. E com base nos progressos e defeitos observados, renovava os propósitos de ser cada dia melhor.
Essa ascese, iniciada no seminário, Roncalli as continuou como secretário do bispo de Bérgamo, presidente do Conselho Superior das Obras Missionárias Pontifícias, visitador apostólico na Bulgária, delegado apostólico na Turquia e Grécia, núncio apostólico na França, cardeal-patriarca de Veneza e, finalmente, papa. Os retiros a que se entregava periodicamente eram aproveitados para um balanço entre o que e propusera atingir e o que realmente conseguira; e, das ano¬tações que deixou em seu diário, o que e pode concluir é que ele realmente levava a sério o seu propósito de traduzir em sua vida os ensinamentos evangélicos e de ser sempre bom para ser realmente um cristão.

em 1927,Angelo Roncalli, ainda bispo, entre duas tias:
Aneilla, à esquerda, e Caterina. A vida religiosa do futuro
João XXIII começou no seminário de Bérgamo,
onde se matriculou em 1882. Nunca se afastou da família



"Devo ser fiel ao meu propósito a todo custo:
quero ser bom, sempre, com todos."
Seu ideal: a perfeição evangélica.
Quando cardeal patriarca de Veneza, ao fazer uma visita à prefeitura da cidade, onde estavam reunidas pessoas das mais variadas tendências, entre a quais socialistas e comunistas, definiu com clareza o sentido que dava ao nome de cristão, ao afirmar que "só é cristão quem faz o bem": "Aqui na prefeitura estamos na casa de todos e sinto-me à vontade, porque nela se busca o bem comum. Também é a minha casa. Entre os que trabalham pelo bem dos outros, sinto-me muito bem, porque só quem faz o bem é que é cristão. Quer dizer, a única maneira de ser cristão é fazendo o bem. Por isso repito que aqui me acho à vontade e se, por acaso, houver alguém que não se considera cristão, se estiver fazendo o bem, ele realmente o é, embora assim não pense".
De si mesmo costumava dizer: "Não me importa o que pensam e dizem de mim: que eu chegue tarde ou mesmo que não chegue. Devo ser fiel ao meu propósito a todo custo: quero ser bom sempre, com todos".
Realmente João XXIII se manteve fiel a esse propósito de realizar em sua vida o ideal de perfeição proposto por Cristo no Evangelho. Contudo, no seu esforço para ser cada dia melhor, não se fechava em si mesmo nem se isolava como um eremita, mas se mostrava sempre comunicativo, um com¬panheiro sempre disposto a uma boa conversa.

Na primeira fila o cardeal Roncalli entre seus irmãos

No início do seminário, escolheu São Francisco de Sales e alguns outros santos como seus modelos; mas ao voltar do serviço militar, onde tomara contato com o mais variados problemas e pudera apalpar com a mão a realidade da vida de que o mantinham afastado as paredes do seminário, modificou algumas de suas idéias. Em lugar de procurar copiar na sua vida os exemplos deixados por outros, como um pintor que tenta reproduzir fielmente um quadro de Rafael, decidiu impregnar sua vida do Evangelho, de acordo com o próprio gênio suas aptidões pessoais e as circunstâncias especiais de tempo e lugar em que se encontrava.
Graças a esse modo de entender e realizar o ideal de perfeição evangélica, João XXIII foi sempre ele mesmo, sereno em face de toda as contingências da vida, sem se deixar abater pelo acontecimentos adversos nem exaltar pelos prósperos. Seu bom humor era constante e fazia com que tivesse sempre uma palavra alegre, um sorriso e até um piscar de olhos para amenizar uma conversa, dar sabor a um gracejo e suavizar uma repreensão que costumava fazer no momento oportuno e sempre dosada de muita prudência e caridade.

Seu método de ação: o exemplo.

Na Bulgária, onde passou dez anos como visitador e delegado apostólico, fiel ao lema de obedecer sempre, que adotara em seu brasão episcopal, demonstrou com palavras e exemplos que estava à altura da missão para a qual fora escolhido pelo papa Pio XI.
Não se limitava a exortar os cristãos dos diferentes ritos a se manterem unidos entre si e com os ortodoxos, mas procurava, com o exemplo de sua a vida, tornar realidade a caridade evan¬gélica, tal como ele a entendia. Mantinha freqüentes contatos com
sacerdotes e bispos ortodoxos, colaborava nas suas obras e fugia a qualquer tipo de polêmica, porque sabia que estas disputas não costumam fazer brilhar e a luz, mas só acentuam a divergên¬cias e o desacordo com prejuízo da caridade.
Os resultados desse modo de agir foram sentido no dia 4 de janeiro de 1935, quando deixou Sófia para assumir, em Constantinopla, o cargo de delegado apostólico na Turquia e Grécia. O representante do papa, que, e ao chegar à capital búlgara no dia 25 n de abril de 1925, só encontrara à sua a espera um sacerdote do rito oriental, a ao partir para sua nova missão rece¬beu manifestações de estima, de respeito e de gratidão de representantes do rei Bóris, do metropolita ortodoxo Stephan Gheorghiev e de outra confissões religiosas .
E não foi para fazer figura de retórica ou utilizar um recurso oratório que, no discurso de despedida numa alusão a um costume natalino da Irlanda, disse que, onde quer que ele estivesse, haveria sempre uma vela em sua janela a indicar que os "irmão búlgaros" seriam sempre bem acolhidos em sua casa. O delegado apostólico falou com sinceridade nessa como em outras ocasiões, como demons¬trou com todas as pessoas que bateram à sua porta à procura de um conselho, de uma palavra amiga ou de ajuda.

João XXIII visita a prisão de Regina Coelli em Roma
Seu interesse pelos desafortunados nunca esmoreceu
Depois do intelectualismo frio de um Pio XII,
o estilo do papa Roncalli foi um contraste.

Foi hostilizado por muitos.

Na Turquia, que vivia o efeito do movimento de democratização e liber¬tação, liderado por Mustafá Kemal, que passou à História com o nome de Ataturk (o pai dos turcos), o
delegado apostólico sugeriu a mesma linha de conduta. Mantendo-se à margem da política como fizera na Bulgária e na Itália e continuaria a fazer na França ao ser nomeado núncio apostólico nesse país , durante o dez anos que passou entre os turcos e os gregos esforçou-se para estreitar os laços de união entre todos, católicos ou não.

Roncalli é o quarto da direita para a esquerda,
visita a um convento na Grecia.
Passou meses naquele pais ajudando
as vitimas da segunda guerra mundial

"Entre os que trabalham pelo bem dos outros, sinto-me muito bem. A única maneira de " ser cristão é sempre fazer o bem."

Foi na Grécia, porém, que o delegado apostólico teve oportunidade de revelar os valores cristãos de sua personalidade e toda a grandeza de sua alma.
A despeito de seus esforços para se aproximar do representantes do go¬verno e da Igreja ortodoxa, com a finalidade de mostrar que sua missão era dar assistência ao católico sem se envolver nos problemas políticos do país nem criar embaraços à religião oficial, foi hostilizado incessantemente por uns como por outros. Em seu diário, ele lamenta a incompreensão e intolerância que tornavam quase impossível ao católico a prática religiosa. Contudo, fiel ao seu propósito de conciliar em lugar de acentuar as divergências e de construir uma ponte para fazer desaparecer um abismo, Roncalli colocou-se acima da animosidade e dos interesses mesquinhos. Com o pensamento voltado para o seu ideal de ser útil ao próximo, cumpriu fielmente sua missão de dar assistência aos católicos dos diferentes ritos espalhados por todo o território grego.

A pobreza: velha companheira.

Nos momentos de provação que se abateram sobre a Grécia durante a segunda Guerra Mundial e quando a fome fazia centenas de vítimas nas ruas de Atenas, Salônica, Corinto e outras cidades, o delegado apostólico abandonou a relativa tranqüilidade de que gozava em Constantinopla, para per¬manecer ao lado dos que tinham sido atingidos pelos conflitos e assim poder minorar seus sofrimentos. Esquecido das dificuldades que enfrentara no desempenho de sua missão e superando a natural aversão que sentia para trabalhar na Grécia, permaneceu longos meses no país, coordenando a obra de assistência aos famintos e doentes, e visitando os campos de concentração e o hospitais , para levar uma palavra de conforto ao prisioneiro e ferido.
A pedido do primeiro-ministro Seragioglu e do patriarca ortodoxo Damaskinos, recorreu ao papa Pio XII, para conseguir dosa Grécia estava submetida por mar. Foi assim que o país pôde receber 370 mil toneladas de trigo, que permitiram salvar a vida de milhares de pessoas que, devido à má colheita, teriam aliados a atenuação do bloqueio a que perecido durante o inverno.
Ao lado dessas manifestações do sacerdote e do bispo que, no desempenho de suas funções religiosas, não esquecia sua condição de homem nem fugia aos seu deveres para com a
sociedade da qual sempre se considerou um membro solidário, convém colocar em
destaque a pobreza evangélica que dominou toda a sua vida.

Nascido de uma família de humildes agricultores, que do amanho da terra tirava os parcos recursos com que alimentava os numerosos filhos, a pobreza foi uma companheira não apenas na infância, mas ao longo de toda a sua vida. Jamais se envergonhou dessa condição e mesmo depois de elevado ao sólio pontifício, costurnava lembrar com freqüência suas origens humildes:
" Venho de família humilde e fui educado numa pobreza comedida e bendita. que tem pouca exigências. Éramos muito pobres mas felizes. Não sentíamos falta de nada. Nossa pobreza era uma pobreza digna e sóbria".


Depois de ordenar-se sacerdote e no cargo que ocupou como secretário do bispo de Bérgamo, representante do papa na Bulgária Turquia, Grécia e França, patriarca de Veneza e como papa, teve oportunidade de melhorar sua condição de vida, guardando o que ganhava pelo seu trabalho. Assim teriam agido outro, preocupados em assegurar seu futuro, mas não foi isto o que fez João XXIII, pois a pobreza deixara de ser para ele, desde seus anos de seminário, apenas uma con¬dição social, para se transformar numa virtude que procurava cultivar com carinho.
"Devo evitar ser interesseiro. "
Numa da notas que escreveu em seu diário ainda no seminário, aparece essa norma de vida: "Evitar cuidadosamente ser interesseiro, ávido de possuir dinheiro ou apegado ao bens terrenos ", e por ela João XXIII pautou toda a sua vida. Apesar de estudar com a ajuda de um sacerdote da diocese de Bérgamo, o cônego Giovanni Moriani, ainda no seminário, demonstrou que o que escrevera não era letra morta, pois , como testemunharam alguns de seus colegas, muita vezes se privava do pouco dinheiro que recebia dos pais para ajudar os companheiro mais necessitados.

Uma da prova de seu desprendimento foi a Casa do estudante, que fundou em Bérgamo, para acolher os jovens em recurso. Aproveitou para isto uma casa de propriedade da diocese e ali instalou os jovens que freqüentavam os colégio da cidade . A mobília, cobertores , roupas e demais utensílios foram adquiridos por Roncalli com o dinheiro que recebera pelo serviços que prestara no Exército durante a Primeira Guerra Mundial. Mais tarde, como bispo e cardeal, reservava parte do dinheiro que recebia pelo seu trabalho, para custear a despesa de um asilo de órfãos que fun¬dara em Sotto il Monte. A obra, que funcionava numa casa por ele alugada e confiada aos cuidado de religiosas , só se tornou conhecida depois de sua elevação ao sólio pontifício. Roncalli procurou manter sempre em segredo sua boa obra, pois seu único desejo era fazer o bem sem chamar a atenção para a ua pessoa.
João XXIII distribuía com largueza tudo o que chegava às suas mãos sem jamais reservar nada para si. Em certa ocasião, ao ver seu secretário dar uma esmola que considerou
insuficiente para resolver o problema mais prementes do pedinte, chamou-o de parte mandou elevar o montante da ajuda, para que a esmola não acabasse desvalorizada como o dinheiro.
Contudo, esse homem, que fizera da pobreza uma condição de vida a que adaptara livremente, valia-se do Evangelho com a mesma energia para defender os injustiçados, pois não admitia que se confundisse a pobreza livremente aceita com aquela que é resultado da negação dos direitos alheios.
As encíclicas “Mater et Magistra” e “Pacem in Terris” são fruto de e seu modo de interpretar o Evangelho e do que aprendera nos diferentes lugares onde exerceu o
apostolado. Em Bérgarno, as lições de Dom Radini Tedeschi marcaram profundamente
sua vida e numa época em que a palavra greve soava como sinônimo de revolta e subversão e a formação de sindicatos era olhada com desconfiança, a exemplo do bispo, dava apoio financeiro e moral ao que, s de esgotados todos os meios pacíficos entravam em greve para defender seu direitos e forçar o governo a ditar normas para conter a ganância dos empresários.
No Vaticano, uma das primeiras coisas que fez, logo depois de eleito, foi conhecer a
situação econômica e financeira dos guardas e funcionários. Alarmado com o que constatou na conversa que manteve com ele, prometeu aumentar substancialmente seu
salário, a fim de que , como disse, a justiça começa-se em casa. Ao anunciar o aumento, houve algumas objeções da parte do encarregado das finanças do Vaticano, mas o papa a desfez com facilidade, ao indicar que, se necessário, reduziria o vencimento dos funcionários de maior cate¬goria para, com o dinheiro economizado, equilibrar as despesas exigidas pelos aumentos prometidos aos mais humildes.


Ainda como núncio apostólico em Paris,
o cardeal Roncalli recebe o chapeu das mãos
do presidente da França

"Respeitar é o melhor meio de tornar os homens dóceis aos bons conselhos. A Igreja não é um museu.
É uma fonte."

Ao contrário de muitas pessoas que, à medida que progridem na vida, se esquecem de suas origens, João XXIII manteve sempre seus vínculos com a terra natal, com seus parentes humil¬des e pobres e com os agricultores simples da aldeia onde nasceu. Como bispo, sacerdote e cardeal, ia muitas vezes passar as férias no meio dos seus e depois de eleito papa, um de seus desejos era poder sair do Vati¬cano por alguns dias, para ir a “Soto il Monte” dedicar-se ao cultivo dos campos com seus irmãos.

"Guardas da minha prisão. "

Esses vínculos que o conservaram ligado à pobreza e à simplicidade influíram em muitas de suas idéias e foram responsáveis pela sua aversão aos títulos pomposos, pela fuga às honrarias e às manifestações ruidosas e pelas suas reações diante do formalismo de muitos usos e costumes rigo¬rosamente observados no Vaticano. Jamais se sujeitou a eles, preferindo ser ele mesmo, em lugar de se sub¬meter a um protocolo complicado que o distanciava do povo com o qual sempre procurara viver.

A exemplo do que costumava fazer em Sófia, Constantinopla, Paris e Veneza, onde saía com freqüência a pé e se misturava com o povo nos transportes coletivos, porque isto lhe per¬mitia aproximar-se do homem simples da rua, no Vaticano eram freqüentes suas saídas sem aviso prévio e sem guardas de segurança, para visitar ltospitais, prisões, colégios, igrejas e asilos de velhos. A um cardeal que lhe recomendou que reduzisse as saídas que costumava fazer durante o dia, respondeu, em tom de gracejo, que passaria a sair à noite.

Um do costume a que jamais se adaptou foi o de comer sozinho, obervado pelos seus predecessores. De início, aceitou aquele uso, mas com o correr do dias, não conseguiu
escon¬der o desagrado que lhe causava ter de fazer as refeições sem a companhia de outras pessoas. Falando com um de seus auxiliares, disse que, lendo atentamente o Evangelho, não tinha encontrado uma passagem sequer que obrigasse o papa a comer sozinho.
Era contrário ao trajes pomposos usados no Vaticano e dentro deles sentia-se como um sátrapa persa, como costumava dizer. Da mesma forma, não se sentia bem ao ver-se cercado de tanto sacerdotes, bispos e monenhores , preocupados em serví-lo, co¬mo se não tivesse condições de se va¬ler para nada. Em mais de uma ocasião, com sua maneira
Simples de dizer as coisas, qualificou de "guarda da minha prisão" o chefe do cerimo¬nial, os monsenhores e os outros eclesiásticos que o cercavam.

Assim era João XXIII e assim se manteve toda a vida. Com palavrsa e atos, mostrou que um papa não é apenas um chefe de Estado, um soberano, um homem colocado acima dos demais para mandar e governar, um letrado com a missão de instruir, uma figura cercada de uma auréola de misticismo a quem se deve venerar como Vigário de Cristo, mas um homem igual aos demais, que sente como ele, que conhece suas dificuldades, que se interesa por eu problemas.
João XXIII procurava ver o homem tal como eles são, com seus defeitos, misérias e erros, para assim compreendê-lo e ajudá-Io . Em lugar de condenar, como muito fazem, a
peque¬nas falhas, apegava- sse ao lado bom de tudo, esforçando-se para não deixar apagar a mecha que ainda fumegava, de acordo com o conselho do Evangelho.
Prova disto foi a expressão que usou: "É uma decisão lamentável", ao saber que o Santo Ofício havia publicado uma advertência a respeito da obra de Teillard de Chardin.



Morte de João XXIII, o papa de transição que marcou mais a igreja
do que qualquer outro de seus antecessores. Sua morte foi lamentada no mundo todo

Para ele, "respeitar é o melhor meio de tomar os homens benevolentes e dóceis aos bons conselhos". Com essa visão dos homens e com seu modo de interpretar e viver o Evangelho, que o aproxima muito de São Francisco de Assis, João XXIII via na Igreja uma fonte de águas límpidas e, nos bispos e sacerdotes, os encearregados de dar de beber a quem tem sede, sejam católicos ou não. Era assim que ele entendia a sua missão, cemo se pode concluir da seguinte passagem de seu diário: "Homens de todas as categorias aproximam-se de minha pobre fonte. Cabe-me dar de beber a todos. Deixar uma boa
impressão, mesmo no coração de um malfeítor, parece-me um ato de caridade, que a seu tempo será abençoado. A Igreja não é um museu de arqueologia, mas a velha fonte. que dá de beber às gerações de hoje, como fez com as do passado".

Era assim que ele pensava e assim que ele vivia. A sinceridade de suas convicções que se refletiam nos seus gestos e palavras e nas relações com seus semelhantes transparece
luminosa na passagem de seu diário em que resume toda a sua vida:
"Não cavei abismos de cisão nem de descontentamento. Não afligi as almas imortais, semeando a dúvida ou o medo. Fui franco, leal e confiante. Com fraternal simpatia olhei nos olhos de todos, daquele que não partilhavam de meus ideais , na esperança de que, quando soar a hora, todos sejamos um, de acordo com o desejo de Jesus ".

Texto de Wanderlan Corte Gama










3 de abril de 2014

A doença de ser normal

revista Superinteressante Julho 2013

A humanidade pode estar sendo acometida por uma epidemia global: a normose, uma obsessão doentia por ser normal

por Carolina BergierJá foi normal duas pessoas se digladiarem até a morte para entreter a multidão. Também já foi normal queimar mulheres na fogueira por bruxaria e fazer pessoas trabalharem sem remuneração com direito a castigos físicos só pela cor da pele. Era normal também humanos se alimentarem de sua própria espécie e casarem sem amor. Já foi normal passar 40 horas da semana fazendo algo que se detesta, mentir para ganhar dinheiro e devastar florestas inteiras em busca de um suposto desenvolvimento. Peraí, este último ainda é normal. Afinal, será que ser normal - e achar normais coisas que não deveriam ser - pode ser uma doença?

Segundo alguns psicólogos, sim. A doença de ser normal chama-se, segundo eles, normose: um conjunto de hábitos considerados normais pelo consenso social que, na realidade, são patogênicos em graus distintos e nos levam à infelicidade, à doença e à perda de sentido na vida.

O conceito foi cunhado quase que simultaneamente pelo psicólogo e antropólogo brasileiro Roberto Crema e pelo filósofo, psicólogo e teólogo francês Jean-Ives Leloup, na década de 1980. Eles vinham trabalhando o tema separadamente até que um terceiro psicólogo, o francês Pierre Weil, se deu conta da coincidência. Perplexo, Weil conectou os dois, e os três juntos organizaram um simpósio sobre o tema em Brasília, uma década atrás. Do encontro, nasceu uma parceria e o livro Normose: A patologia da normalidade.

No fim dos anos 70, Crema estava encucado com o fato de muitos autores apontarem uma "patologia da pequenez": o medo de se deixar ser em sua totalidade. Ele deparou-se com muitos pensadores, entre eles o alemão Erich Fromm (1900-1980), que falava do medo da liberdade, e o suíço Carl Jung (1875-1961), que afirmava que só os medíocres aspiram à normalidade. Crema misturou ao caldo a célebre declaração do escritor britânico G.K. Chesterton (1874-1936), que disse que "louco é quem perdeu tudo, exceto a razão", e acrescentou os anos de observação e prática em sua clínica pedagógica.

Assim nasceu o conceito de normose, que, segundo ele, "ocorre quando o contexto social que nos envolve caracteriza-se por um desequilíbrio crônico e predominante". A normose torna-se epidêmica em períodos históricos de grandes transições culturais - quando o que era normal subitamente passa a parecer absurdo, ou até desumano. Foi o que aconteceu no final do período romano, em relação à perseguição de cristãos, ou no início da Idade Moderna, com o fim da legitimidade da Santa Inquisição, ou no século 19, com a perda de sustentação moral da escravidão. E, segundo Crema, Leloup e Weil, é o que está acontecendo de novo, com a crise dos nossos sistemas de produção, trabalho e valores.

"O novo modelo é ainda embrionário, e os visionários dessa possibilidade de sociedade não-normótica ainda são minoria", diz Crema. Enquanto a maioria de nós se adapta a um ambiente social doente, quem resiste à normose acaba considerado desajustado, por não obedecer ao estado "normal" das coisas.

Como aquele cara que, mesmo ganhando o suficiente para fornecer educação, moradia e alimentação para si e seus filhos, é considerado vagabundo e louco por, em plena quarta-feira ensolarada, liberar as crianças da aula e levá-las à praia. Mas como? Em dia de semana? As crianças vão faltar aula? Pois é. De repente, ele acha que um dia na natureza vai fazer mais bem a seus filhos do que horas sentados em sala de aula. Será que ele não é saudável, e doentes estão os outros?

Desnormotização


Para a filósofa Dulce Magalhães, que escreve sobre mudanças de paradigmas, o normótico acredita que geração de renda e falta de tempo para si ou para a família são indissociáveis. "As pessoas consideram que trabalhar muitas horas, colocar em risco sua saúde e suas relações é normal", diz ela. "Mas isso tem um custo pessoal e social alto demais, que acabam levando a problemas de saúde pública e violência, por exemplo."

Dulce acha que a cura para a normose está em mudarmos de modo mental, abandonando o modelo da escassez, que hoje rege o mundo, e abraçando o da abundância. Ela explica: "Desde a infância, aprendemos que o que vem fácil vai fácil e que, se a vida não for difícil, não é digna. Precisamos mudar isso e entender que esforço não é tarefa." Quantos de nós chegamos em casa reclamando para mostrarmos (a nós mesmos e aos outros) que trabalhamos muito e tivemos um dia duro, como se isso trouxesse algum tipo de mérito?

Segundo Crema, cada um de nós tem talentos diversos, mas "o normótico padece de falta de empenho em fazer florescer seus dons e enterra seus talentos com medo da própria grandeza, fugindo da sua missão individual e intransferível". "Quando temos necessidade de, a todo custo, ser como os outros, não escutamos nossa própria vocação", acredita.

O carioca Eduardo Marinho, hoje com 50 anos, percebeu cedo que não queria ser como os outros. Filho de militar, abriu mão de sua condição financeira e de sua faculdade ao se dar conta, aos 18 anos, que não queria olhar para sua vida quando velho e pensar que não tinha feito nada relevante. "Não queria ser bem-sucedido e me sentir fracassado". Eduardo saiu pelo País pedindo abrigo e comida em troca de favores e buscando algo que o preenchesse. Depois de passar por poucas e não tão boas pelo Brasil, deu voz a sua vocação. Hoje é artista plástico.

Ele acredita que a desnormotização se inicia dentro de cada um: "Que tal olhar para dentro de si mesmo? É aí que começa a revolução", sugere. Claro que, para isso, não é mandatório dormir nas ruas. Fazer o trajeto que Eduardo escolheu para si pode ser perigoso e não há nenhuma garantia de sucesso.

Bug cerebral


A cura da normose é trabalho individual, mas alguns esforços sociais podem ajudar. Para começar, seria um adianto se tivéssemos um novo modelo educacional. A escola poderia ser o lugar onde as crianças descobrem suas verdadeiras vocações - em vez de tentar padronizar os alunos e convencê-los a serem normais.

Mundo afora, estão surgindo escolas com uma nova lógica, como a Escola da Ponte, em Portugal. A instituição não segue um sistema baseado em séries, e os professores não são responsáveis por uma disciplina ou por turmas específicas. As crianças e os adolescentes que lá estudam definem quais são suas áreas de interesse e desenvolvem seus próprios projetos de pesquisa, tanto em grupo como individuais.

Algo similar parece estar acontecendo no mundo empresarial, onde mais e mais empreendimentos estão dando voz à liberdade individual. O caso clássico, sempre citado, é o do Google, cuja sede, em Mountain View, na Califórnia, conta com salas de jogos, videogames, espaços ao ar livre e tempo reservado para que cada funcionário desenvolva seus próprios projetos para a empresa, com total autonomia.

Claro que não há vagas para todos nós no Google nem para todos os nossos filhos na Escola da Ponte. A cura da normose não vai ser resultado de uma ou outra iniciativa isolada - ela só vai ser possível quando houver no mundo gente suficiente disposta a questionar tudo o que achamos normal.

E talvez isso demore anos para acontecer. A explicação para isso pode estar num bug que todos carregamos no cérebro, que tem uma tendência de recusar sempre novos jeitos de olhar o mundo. É o que explica o psicólogo israelense Daniel Kahneman, ganhador do Prêmio Nobel de Economia de 2002, em seu livro Rápido e Devagar: Duas formas de pensar. Segundo ele, nosso cérebro confunde o que é familiar com o que é correto: ao ver ou sentir algo que desperta alguma memória, o cérebro define aquele "familiar" como "correto", da mesma maneira que o novo é decodificado como passível de desconfiança.

Esse sistema foi muito útil para nossos antepassados homens das cavernas, que não podiam mesmo sair comendo qualquer frutinha nova que aparecesse à sua frente. Mas, nos dias de hoje, que exigem novas ideias para lidar com um mundo em mudança constante, esse mecanismo cerebral virou um entrave à inovação. Segundo essa tese, a normose não é uma doença: é uma característica humana, moldada pela evolução. Ou seja, talvez ser normótico seja normal.

Você tem normose?


Normose é um conjunto de hábitos considerados normais pelo consenso social que, na realidade, são patogênicos e nos levam à infelicidade, à doença e à perda de sentido na vida.

"Que tal olhar para dentro de si mesmo?

É aí que começa a revolução". Importante notar que, para olhar para dentro e descobrir sua vocação, não é mandatório dormir pelas ruas do país.

Para saber mais

Normose: A patologia da normalidade
Jean-Yves Leloup, Pierre Weil e Roberto Crema, Verus, 2003

Nosso querido São João

Quando João XXIII escapava do Vaticano


O ajudante de câmara do papa Roncalli, Guido Gusso, conta algumas peripécias do Papa Buono
Cidade do Vaticano, 02 de Abril de 2014 
O desejo de "dar algumas escapadas" do Vaticano parece que fez parte da vida de mais do que um papa! É o que nos conta Guido Gusso, que foi ajudante de câmara de João XXIII e conhecia muito bem o papa Roncalli. Gusso participou da coletiva de apresentação do projeto de digitalização dos arquivos da Rádio Vaticano. Ele trabalhou durante cinco anos com Roncalli no patriarcado de Veneza e continuou como auxiliar dele depois que o patriarca foi eleito papa e assumiu o nome de João XXIII.
Certa vez, passeando pelos jardins do Vaticano, o papa Roncalli disse a Gusso: "O passeio é sempre este aqui! Leve-me à fonte do Janículo ou à Villa Borghese". E Gusso respondia: "Santidade, não podemos!". E o papa rebatia: "Mas como é que não? Pegue o carro e vamos". E a cena se repetia quando o papa estava em Castel Gandolfo.
Gusso contou um caso em que eles “escaparam” da vigilância dos gendarmes e guardas suíços, já que o papa não se sentia à vontade com tanto protocolo ao seu redor onde quer que fosse: “Eu contei ao papa que tinha estado em Patroni del Vivaro, perto de Roma, um lugar parecido com Sappada, na nossa região. Ele tinha curiosidade, queria ver. E falou assim: ‘Vamos fazer uma coisa. Tem uma porta perto do cemitério de Albano. Consiga as chaves. Abra e vamos deixar aberto uns dez dias, assim ninguém vai saber o que está acontecendo’. Depois, um dia que estávamos nos jardins, ele me disse: ‘Vamos pegar o carro, damos alguma volta a mais para despistar os gendarmes, você abre a porta e nós vamos lá’. E foi assim que os dois visitaram Vivaro. Quando chegaram ao trevo entre Artena e Frascati, Gusso perguntou ao papa aonde ele queria ir e o papa respondeu: ‘Vamos voltar para casa, porque se não...’. Quando chegaram, os gendarmes já estavam em crise, assim como a polícia italiana. "Vocês tinham que ver a cara dos guardas suíços...", recordou Gusso, divertido.
O antigo ajudante de câmara do “Papa Buono” citou mais duas situações em que João XXIII "escapou" do Vaticano. Em uma delas, ele foi visitar o embaixador inglês que estava hospitalizado. Em outra, visitou um jornalista. Já da residência de Castel Gandolfo, eles “escaparam” para ver os trabalhos das Olimpíadas de Roma, em 1960.
Mas nem tudo eram sustos para os gendarmes. Naquela época, os gendarmes não podiam se casar antes dos 28 anos, explicou Gusso. "Havia um que tinha 24 anos. Ele veio falar comigo e se lamentou porque não tinha dinheiro para se casar. Eu contei ao papa e ele deu um donativo para que o gendarme pudesse comprar os móveis da sala", relatou Guido aos jornalistas.
Outra das lembranças girou em torno do conclave em que Roncalli foi eleito papa. "Ele me pediu para ir à Domus Mariae pegar alguns objetos pessoais. Eu pedi permissão ao cardeal Tisserant (então decano do colégio cardinalício) e o cardeal me respondeu: ‘Ainda estamos em conclave, não podemos sair. Se você sair, eu o excomungo'". Gusso contou o caso a Roncalli, que replicou: “Vá e diga ao cardeal que, se ele excomungar você, eu desexcomungo”.
Depois que a fumaça branca indicou a eleição do sucessor de Pedro, chegaram ao Vaticano, vindas de Bérgamo, algumas caixas com os livros e quadros de Roncalli. O Vaticano se encarregou de colocar os quadros, mas o resultado ficou ruim. O papa João XXIII pediu então que Gusso conseguisse pregos, martelo e escada. E eles mesmos recolocaram os quadros.
Outra história engraçada aconteceu com Cesidio Lolli, então vice-diretor de L'Osservatore Romano. Ele foi ao encontro de João XXIII para corrigir alguns textos e se ajoelhou diante da sua escrivaninha. "Mas o que é que você está fazendo? Sente-se na cadeira!", disse logo Roncalli, espantado.
Antes das audiências das quartas-feiras, João XXIII lia o evangelho do dia. O papa levava o discurso preparado por escrito e o lia para o público, na Sala das Bênçãos. A Sala Paulo VI não existia ainda. Depois, ele fechava a pasta e dizia para as pessoas: "Terminamos. Agora vamos dizer umas palavras entre nós!". E o ajudante completa que "quando ele falava sem os papéis, suas palavras eram maravilhosas".
Quando trabalhava com Roncalli em Veneza, Gusso pediu certa vez que o patriarca o ajudasse a encontrar outro trabalho, porque queria se casar e estava ganhando pouco. Roncalli respondeu: "Não se preocupe. O seu futuro está seguro, ninguém vai tocar em você". E pediu que ele lesse o evangelho de Mateus. Depois de um ano, Roncalli virou papa e sua vida mudou de um dia para o outro. O papa quis que o ajudante continuasse sempre próximo, em especial quando adoeceu. Naquela época, Gusso lia o Osservatore Romano à noite para o papa enfermo.
O ex-ajudante se lembra também da primeira impressão de Roncalli como papa: "Olhamos para fora e vimos a Praça de São Pedro vazia e escura". Para ele foi uma "decepção", porque estava acostumado com Veneza, onde a Praça de São Marcos estava sempre cheia de música e luzes.
Gusso contou que João XXIII só "lhe puxou as orelhas" uma vez, dois dias antes de morrer. Naqueles dias, seus irmãos e sua irmã foram visitá-lo. Depois, ele conversou com Gusso, que recorda: "Ele me deu um pequeno sermão. O que não tinha me dito em dez anos, ele me disse antes de morrer: pediu que eu recorresse mais aos sacramentos. E falou também: ‘Não se apegue ao dinheiro, porque com o dinheiro você não vai fazer nada na vida’. E disse: ‘Se você precisar, em qualquer momento, me chame, que eu vou responder’. E ele cumpriu, porque em vários problemas da vida eu fui pedir socorro e ele sempre me respondeu".

Ao terminar seu testemunho, Gusso declarou que o papa Francisco se parece muito com João XXIII: "Ele tem a mesma bondade, se preocupa muito com os pobres e com os humildes". E contou que, depois de participar de uma missa com Francisco, foi saudá-lo e lhe disse: "O senhor é quase igual ao papa João". O papa argentino respondeu dando a sua simpática e característica risada.

11 de fevereiro de 2014

''A Igreja está distante demais dos fiéis, mas os inovadores são maioria''

Entrevista com Hans Küng

"Agora, o Papa Francisco pode apelar à resposta da maioria dos fiéis sobre questões tão importantes no debate com os reacionários da Cúria. O Papa Emérito Bento XVI escreveu há pouco para mim, eterno rebelde, uma carta afetuosa em que se compromete a apoiar Francisco, esperando em cada sucesso seu." Em suma, substancialmente, é quase como dizer que Francisco é como Gorbachev, o homem novo contra os ortodoxos, mas com as pessoas ao seu lado. Eis a voz de Hans Küng, máximo teólogo católico crítico vivo, sobre a pesquisa chocante publicada nesse domingo no jornal La Repubblica e sobre o seu efeito na Igreja.
A reportagem é de Andrea Tarquini, publicada no jornal La Repubblica, 10-02-2014. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
Eis a entrevista.
Professor Küng, como você avalia a sondagem sobre os cristãos no mundo?
Tomados conjuntamente e analisados, esses dados revelam a extraordinária discrepância entre os ensinamentos da Igreja sobre questões fundamentais, como a família, e, ao contrário, a visão real dos católicos no mundo.
Para você, entre os muitos resultados da sondagem, quais são os mais importantes?
Para mim, o mais importante é a imensa maioria de consensos para o Papa Francisco: 87% dos católicos entrevistados em todo o mundo e 99% dos italianos estão de acordo com ele. É uma enorme manifestação de confiança para o Sumo Pontífice. Para mim, é um pequeno milagre, depois dos anos da crise de confiança que tinha investido contra a Igreja nos anos do Papa Bento XVI. Agora, em menos de um ano, o Papa Francisco conseguiu inverter a tendência dos sentimentos dos fiéis de todo o mundo.
E o Papa Emérito Bento XVI, a seu ver, ficará feliz ou triste com a resposta da sondagem?
Naturalmente, ver esses resultados irá lhe entristecer, especialmente repensando hoje nos últimos meses vividos por ele como pontífice, no seu mandato. Mas, seguramente, ele irá se alegrar com o fato de que agora se segue em frente, e ele, a meu ver, pensa mais no destino da Igreja do que naquilo que diz respeito a ele mesmo.
É só uma suposição sua ou você pode provar sobre o que você diz sobre os sentimentos de Joseph Ratzinger neste momento?
Eu acredito que explicarei melhor o pensamento de Bento XVI citando frases da sua recentíssima carta para mim.
Bento XVI lhe escreveu depois de anos de conflitos? E o que lhe escreveu?
Bem, espere só um momento, deixe-me pegar aqui na minha escrivaninha lotada esse manuscrito com a carta da Santa Séendereçada por ele, pessoalmente, da sua residência de papa emérito. Data: 24 de janeiro de 2014. Remetente: "Pontifex emeritus Benedictus XVI". "Sou grato por poder estar ligado por uma grande identidade de pontos de vista e por uma amizade de coração ao Papa Francisco. Hoje, vejo como minha única e última tarefa é apoiar o seu Pontificado na oração." Acredito que são palavras muito belas. Certamente, escritas antes da publicação da sondagem. Essa escolha de inclinação do Papa Emérito Bento XVI me convence ainda mais.
E o que significa a sondagem para os bispos e, em geral, para a hierarquia eclesiástica?
Eu gostaria de distinguir três categorias de prelados. Para os bispos prontos para as reformas, e eles existem em todo o mundo, os resultados da sondagem significam um grande encorajamento: eles deverão se comprometer abertamente com as suas convicções e não ficar tímidos demais. Segundo, para os conservadores que têm as suas reservas: eles deveriam refletir sobre as suas reservas e deveriam ouvir os argumentos dos reformadores. Terceiro, para os bispos reacionários, presentes não só no Vaticano, mas em todo o mundo, eles deveriam abandonar a sua resistência obstinada e escolher a razoabilidade.
E o que significa a sondagem para a base, para os cristãos? Encorajamento à reforma a partir de dentro, como Gorbachev sonhou em vão para o socialismo real e o Império Soviético?
É importante o sinal de que o movimento para a reforma dentro da Igreja tem do seu lado a grande maioria dos fiéis. O movimento de reforma é apoiado pela base – movimentos de reforma, como o Nós Somos Igreja – mais do que apareceu até agora, mais do que dentro da Igreja oficial. É um fato em nível internacional.
Professor, há décadas, você pede mudanças e aberturas na Igreja. Foi o primeiro e pagou as consequências por isso. Para você, essa sondagem é uma vitória, uma vitória amarga, ou outra coisa?
Eu não me considero um vencedor, não liderei uma batalha por mim, mas sim pela Igreja. Evidentemente, eu tive muitas experiências amargas, mas é bom ver uma mudança na direção do Concílio Vaticano II. Eu tive a grande alegria de poder ver, ainda vivo, o sucesso das ideias de reforma da Igreja para a qual eu combati por tanto tempo, de poder ver o início da virada. Para mim, é um novo impulso vital, como diz Bento XVI, para este último trecho do percurso da vida que nós agora temos pela frente.
Que consequências o Papa Francisco deveria tirar dos resultados dessa sondagem?
Se eu pudesse lhe dar um humilde conselho, ele deveria seguir em frente com coragem no caminho em que está encaminhado e não ter medo das consequências.
Concretamente, o que isso significa?

Espero que ele use a arte da Distinção que ambos aprendemos na Pontifícia Universidade Gregoriana: onde há, segundo a sondagem, consenso na Comunidade eclesial, ele deveria propor uma solução positiva para o Sínodo. Onde há desacordo, ele deveria permitir e suscitar um livre debate na Igreja. Onde ele mesmo é de outra opinião com relação à maioria dos católicos, como sobre o sacerdócio para as mulheres, ele deveria nomear uma força-tarefa de teólogos e de outros cientistas, de homens e mulheres, para abordar o tema.

 Fonte: http://www.ihu.unisinos.br/

6 de fevereiro de 2014

Diante do ícone

Jean Yves Leloup

O rosto do Cristo tinha a serenidade dos budas, os traços eram suaves, mas precisos e sem languidez, os olhos estavam abertos e eles não estavam vazios.
Para mim, aquilo foi o que eu passei a chamar de o “choque da síntese”. Dentro e fora não estavam mais separados, a interioridade não se opunha à exterioridade. Era realmente o rosto de um homem, mas transparente à uma outra Vida. A expressão do rosto não era psíquica como é o caso de certas imagens pias, mas ontológico; não era a expressão de uma emoção ou de um sentimento qualquer, mas a expressão de um “estado de Ser”, um “Eu” que é Amor... As palavras do patriarca me vieram à mente: “Nele, Deus e o homem não estão nem separados nem embaralhados.”
Não era o rosto de um separado, do individuo fechado na densidade do seu mármore e das suas moléculas, não era o rosto de um homem sem ego, sem traços particulares, dissolvido no oceano de um Todo de beatitude e, no entanto, havia algo de ambos, uma interioridade que não deixava nada a desejar à dos budas e uma presença carnal que não deixava nada a desejar à dos Apolos.
Será que eu não estava projetando no semblante do Cristo a síntese difícil que meu espírito estava procurando elaborar? Sem dúvida, mas o ícone estava ali, com o seu rosto sem sorriso que, no entanto, era todo acolhimento, com seus olhos abertos que me fitavam e que, no entanto, olham o interior, “para o Pai”. Mas isso eu aprenderia em seguida...
Naquele momento preciso, eu apenas recebia o “choque da síntese”. Essa síntese não era uma soma de pensamentos, uma nova ideologia, mas “Alguém”, uma “verdade em pessoa”. Não uma verdade científica, nem filosófica, sequer teológica: uma verdade em presença, um “Eu sou a Verdade”, um “Eu sou verdadeiro”, verdadeiramente Deus, verdadeiramente homem, no interior e no exterior, no início, no fim; eu sou o alpha e o omega.


Do livro “O Absurdo e a Graça” –Jean Yves leloup

16 de dezembro de 2013

'Nunca tenham medo da ternura'

Entrevista do Papa Francisco ao jornal La Stampa



"O Natal para mim é esperança e ternura...Francisco relata ao La Stampa o seu primeiro Natal como bispo de Roma.
Casa Santa Marta, terça-feira, 10 de dezembro, 12h50min. O papa nos acolhe em uma sala ao lado do refeitório. O encontro duraria uma hora e meia. Por duas vezes, durante a conversa, desaparece do rosto de Francisco a serenidade que todo o mundo aprendeu a conhecer, quando ele se refere ao sofrimento inocente das crianças e fala da tragédia da fome no mundo.
Na entrevista, o papa também fala das relações com as outras confissões cristãs e do "ecumenismo de sangue" que as une na perseguição. Ele se refere às questões do casamento e da família que serão abordadas pelo próximo Sínodo, responde aos que o criticaram nos EUA definindo-o como “um marxista” e fala da relação entre Igreja e política.
A reportagem é de Andrea Tornielli, publicada no jornal La Stampa, 15-12-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
Eis a entrevista.
O que significa o Natal para o senhor?
É o encontro com Jesus. Deus sempre procurou o seu povo, conduziu-o, conservou-o, prometeu estar sempre perto dele. No livro do Deuteronômio, lemos que Deus caminha conosco, nos conduz pela mão como um pai faz com o filho. Isso é bonito. O Natal é o encontro de Deus com o seu povo. E é também uma consolação, um mistério de consolação. Muitas vezes, depois da missa da meia-noite, eu passei algumas horas sozinho, na capela, antes de celebrar a missa da aurora. Com esse sentimento de profunda consolação e paz. Lembro uma vez aqui em Roma, acho que era o Natal de 1974, uma noite de oração depois da missa na residência do Centro Astalli. Para mim, o Natal sempre foi isto: contemplar a visita de Deus ao seu povo.
O que o Natal diz ao homem de hoje?
Ele nos fala da ternura e da esperança. Deus, encontrando-nos, nos diz duas coisas. A primeira é: tenham esperança. Deus sempre abre as portas, nunca as fecha. Ele é o pai que abre as portas. Segundo: não tenham medo da ternura. Quando os cristãos se esquecem da esperança e da ternura, tornam-se uma Igreja fria, que não sabe para onde ir e se refreia nas ideologias, nas atitudes mundanas. Enquanto a simplicidade de Deus te diz: segue em frente, eu sou um Pai que te acaricia. Tenho medo quando os cristãos perdem a esperança e a capacidade de abraçar e acariciar. Talvez por isso, olhando para o futuro, eu falo muitas vezes das crianças e dos idosos, isto é, dos mais indefesos. Na minha vida de padre, indo à paróquia, eu sempre tentei transmitir essa ternura, especialmente às crianças e aos idosos. Me faz bem e me faz pensar na ternura que Deus tem por nós.
Como se pode acreditar que Deus, considerado pelas religiões como infinito e onipotente, se faz tão pequeno?
Os Padres gregos chamavam isso de synkatabasis, condescendência divina. Deus que desce e está conosco. É um dos mistérios de Deus. Em Belém, no ano 2000, João Paulo II disse que Deus se tornou uma criança totalmente dependente dos cuidados de um pai e de uma mãe. Por isso, o Natal nos dá tanta alegria. Não nos sentimos mais sozinhos, Deus desceu para estar conosco. Jesus se fez um de nós e sofreu por nós na cruz, o fim mais horrível, o de um criminoso.
O Natal é apresentado muitas vezes como uma fábula açucarada. Mas Deus nasce em um mundo onde há também muito sofrimento e miséria.
O que lemos nos Evangelhos é um anúncio de alegria. Os evangelistas descreveram uma alegria. Não se fazem considerações sobre o mundo injusto, sobre como Deus faz para nascer em um mundo assim. Tudo isso é fruto de uma contemplação nossa: os pobres, a criança que deve nascer na precariedade. O Natal não foi a denúncia da desigualdade social, da pobreza, mas sim um anúncio de alegria. Todo o resto são consequências que nós tiramos. Algumas certas, algumas menos certas, outras ainda ideologizadas. O Natal é alegria, alegria religiosa, alegria de Deus, interior, de luz e de paz. Quando não se tem a capacidade ou se está em uma situação humana que não permite compreender essa alegria, vive-se a festa com a alegria mundana. Mas, entre a alegria profunda e a alegria mundana, há diferença.
É o seu primeiro Natal [como papa], em um mundo onde não faltam conflitos e guerras...
Deus nunca dá um dom a quem não é capaz de recebê-lo. Se Ele nos oferece o dom do Natal é porque todos nós temos a capacidade de compreendê-lo e recebê-lo. Todos, desde o mais santo ao mais pecador, do mais limpo ao mais corrupto. O corrupto também tem essa capacidade: pobrezinho, talvez a tenha um pouco enferrujada, mas a tem. O Natal, neste tempo de conflitos, é um chamado de Deus, que nos dá esse dom. Queremos recebê-lo ou preferimos outros presentes? Este Natal, em um mundo conturbado pelas guerras, me faz pensar na paciência de Deus. A principal virtude de Deus explicitada na Bíblia é que Ele é amor. Ele nos espera, nunca se cansa de nos esperar. Ele dá o dom e depois nos espera. Isso também acontece na vida de cada um de nós. Há aqueles que o ignoram. Mas Deus é paciente, e a paz, a serenidade da noite de Natal é um reflexo da paciência de Deus conosco.
Em janeiro, serão 50 anos da histórica viagem de Paulo VI à Terra Santa. O senhor também irá?
O Natal sempre nos faz pensar em Belém, e Belém está um ponto preciso, na Terra Santa, onde Jesus viveu. Na noite de Natal, eu penso acima de tudo nos cristãos que vivem lá, naqueles que têm dificuldades, em muitos deles que tiveram de deixar aquela terra por vários problemas. Mas Belém continua sendo Belém. Deus veio em um ponto determinado, em uma terra determinada, lá apareceu a ternura de Deus, a graça de Deus. Não podemos pensar no Natal sem pensar na Terra Santa. Cinquenta anos atrás, Paulo VI teve a coragem de sair para ir lá, e assim começou a época das viagens papais. Eu também desejo ir até lá, para encontrar o meu irmão Bartolomeu, patriarca de Constantinopla, e com ele comemorar esse cinquentenário, renovando o abraço entre o Papa Montini e Atenágoras, ocorrido em Jerusalém em 1964. Estamos nos preparando para isso.
O senhor encontrou-se várias vezes com crianças gravemente doentes. O que se pode dizer diante desse sofrimento inocente?
Um mestre de vida para mim foi  Dostoievsky, e aquela sua pergunta, explícita e implícita, sempre girou no meu coração: por que as crianças sofrem? Não há explicação. Vem-me esta imagem: em um certo ponto da sua vida, a criança se "desperta", não entende muitas coisas, se sente ameaçada, começa a fazer perguntas ao pai ou à mãe. É a idade dos "porquês". Mas, quando o filho pergunta, ele não ouve tudo o que você tem a dizer. Ele logo pressiona você com novos "porquês". O que ele busca, mais do que a explicação, é o olhar do pai que dá segurança. Diante de uma criança sofredora, a única oração que me vem é a oração do porquê. "Senhor, por quê?" Ele não me explica nada. Mas eu sinto que Ele me olha. E assim eu posso dizer: "Tu sabes o porquê, eu não sei, e Tu não me o dizes. Mas Tu me olhas, e eu confio em Ti, Senhor, confio no teu olhar".
Falando do sofrimento das crianças, não podemos esquecer a tragédia daqueles que passam fome. Com a comida que sobra e jogamos fora, poderíamos dar de comer a muitos. Se conseguíssemos não desperdiçar, reciclar a comida, a fome no mundo diminuiria muito. Fiquei impressionado ao ler uma estatística que fala de 10 mil crianças mortas de fome a cada dia no mundo. Há muitas crianças que choram porque têm fome. Outro dia, na audiência da quarta-feira, atrás de uma barreira, havia uma jovem mãe com o seu bebê de poucos meses. Quando eu passei, a criança chorava muito. A mãe o acariciava. Eu lhe disse: "Senhora, acho que o pequeno tem fome". Ela respondeu: "Sim, já está na hora"... Eu respondi: "Mas dê-lhe de comer, por favor!" Ela tinha pudor, não queria amamentá-lo em público, enquanto o papa passava. Eis, eu gostaria de dizer o mesmo para a humanidade: deem de comer! Aquela mulher tinha leite para o seu bebê. No mundo, temos comida suficiente para saciar a todos. Se trabalharmos com as organizações humanitárias e conseguirmos estar todos de acordo em não desperdiçar comida, fazendo com que ela chegue a quem dela precisa, daremos uma grande contribuição para resolver a tragédia da fome no mundo. Gostaria de repetir à humanidade o que eu disse àquela mãe: deem de comer a quem tem fome! Que a esperança e a ternura do Natal do Senhor nos sacudam da indiferença.
Alguns trechos da Evangelli Gaudiun atraíram-lhe as acusações dos ultraconservadores norte-americanos. Qual é a sensação de um papa ao ouvir que é definido como "marxista"?
A ideologia marxista é equivocada. Mas, na minha vida, eu conheci muitos marxistas bons como pessoas, e por isso eu não me sinto ofendido.
As palavras que mais chamaram a atenção são aquelas sobre a economia que “mata”...
Na exortação, não há nada que não se encontre na Doutrina Social da Igreja. Eu não falei de um ponto de vista técnico. Eu tentei apresentar uma fotografia do que acontece. A única citação específica foi sobre as teorias da "recaída favorável", segundo as quais todo crescimento econômico, favorecido pelo livre mercado, consegue produzir por si só uma maior equidade e inclusão social no mundo. Havia a promessa de que, quando o copo estivesse cheio, ele transbordaria, e os pobres seriam beneficiados com isso. O que acontece, ao invés, é que, quando está cheio, o copo magicamente se engrandece, e assim nunca sai nada para os pobres. Essa foi a única referência a uma teoria específica. Repito, eu não falei como técnico, mas segundo a doutrina social da Igreja. E isso não significa ser marxista.
O senhor anunciou uma “conversão do papado”. Os encontros com os patriarcas ortodoxos lhe sugeriram algum caminho concreto?
João Paulo II falara de modo ainda mais explícito de uma forma de exercício do primado que se abra a uma situação nova. Mas não só do ponto de vista das relações ecumênicas, mas também nas relações com a Cúria e com as Igrejas locais. Nesses primeiros nove meses, eu recebi a visita de muitos irmãos ortodoxosBartolomeu, Hilario, o teólogoZiziolulas, o copta Tawadros: este último é um místico, entrava na capela, tirava os sapatos e ia rezar. Senti-me seu irmão. Eles têm a sucessão apostólica. Eu os recebi como irmãos bispos. É uma dor ainda não poder celebrar a Eucaristia juntos, mas a amizade existe. Acredito que o caminho é este: amizade, trabalho comum e rezar pela unidade. Abençoamo-nos uns aos outros, um irmão abençoa o outro, um irmão se chama Pedro, e o outro se chama André,MarcosTomás...
A unidade dos cristãos é uma prioridade para o senhor?
Sim, para mim o ecumenismo é prioritário. Hoje, existe o ecumenismo do sangue. Em alguns países, matam os cristãos porque carregam uma cruz ou têm uma Bíblia, e, antes de matá-los, não lhes perguntam se são anglicanos, luteranos, católicos ou ortodoxos. O sangue é misturado. Para aqueles que matam, somos cristãos. Unidos no sangue, embora entre nós ainda não consigamos dar os passos necessários rumo à unidade, e talvez o tempo ainda não chegou. A unidade é uma graça, que deve ser pedida. Eu conhecia um pároco em Hamburgo que acompanhava a causa de beatificação de um padre católico guilhotinado pelos nazistas porque ensinava o catecismo às crianças. Depois dele, nas filas dos condenados, havia um pastor luterano, morto pelo mesmo motivo. O sangue deles se misturou. Aquele pároco me contava que tinha ido ao encontro do bispo e lhe dissera: "Eu continuo acompanhando a causa, mas de todos os dois, e não só do católico". Esse é o ecumenismo do sangue. Ele também existe hoje, basta ler os jornais. Aqueles que matam os cristãos não pedem para você a carteira de identidade para saber em qual Igreja você foi batizado. Devemos levar em consideração essa realidade.
Na exortação, o senhor convidou a escolhas pastorais prudentes e audazes com relação aos sacramentos. A que o senhor se referia?
Quando eu falo de prudência, não penso em uma atitude paralisante, mas sim em uma virtude de quem governa. A prudência é uma virtude de governo. A audácia também é. Deve-se governar com audácia e com prudência. Eu falei do batismo e da comunhão como alimento espiritual para seguir em frente, a serem considerados como um remédio, e não como um prêmio. Alguns logo pensaram nos sacramentos para os divorciados em segunda união, mas eu não entrei em casos particulares: eu só queria indicar um princípio. Devemos buscar facilitar a fé das pessoas, mais do que controlá-la. No ano passado, na Argentina, eu havia denunciado a atitude de alguns padres que não batizavam os filhos das mães solteiras. É uma mentalidade doente.
E quanto aos divorciados em segunda união?
A exclusão da comunhão para os divorciados que vivem uma segunda união não é uma sanção. É bom lembrar disso. Mas eu não falei disso na exortação.
O próximo Sínodo dos Bispos irá tratar disso?
A sinodalidade  na Igreja é importante: falaremos sobre o matrimônio em seu conjunto nas reuniões do consistório em fevereiro. Depois, o tema será abordado no Sínodo Extraordinário de outubro de 2014 e, novamente, durante o Sínodo Ordinário do ano seguinte. Nesses âmbitos, muitas coisas serão aprofundadas e se esclarecerão.
Como procede o trabalho dos seus oito “conselheiros”para a reforma da Cúria?
O trabalho é longo. Quem queria fazer propostas ou enviar ideias o fez. O cardeal Bertello recolheu os pareceres de todos os dicastérios vaticanos. Recebemos sugestões dos bispos de todo o mundo. Na última reunião, os oito cardeais disseram que chegamos ao momento de fazer propostas concretas, e no próximo encontro, em fevereiro, eles me entregarão as suas primeiras sugestões. Eu sempre estou presente nos encontros, exceto na manhã da quarta-feira, por causa da audiência. Mas eu não falo, apenas ouço, e isso me faz bem. Um cardeal idoso, há alguns meses, me disse: "O senhor já começou a reforma da Cúria com a missa cotidiana em Santa Marta". Isso me fez pensar: a reforma começa sempre com iniciativas espirituais e pastorais, antes que com mudanças estruturais.
Qual é a relação certa entre a Igreja e a política?
A relação deve ser ao mesmo tempo paralela e convergente. Paralela, porque cada um tem o seu caminho e as suas diversas tarefas. Convergente, apenas em ajudar o povo. Quando as relações convergem primeiro, sem o povo, ou não se importando com o povo, começa aquele conúbio com o poder político que acaba apodrecendo a Igreja: os negócios, os compromissos... É preciso prosseguir paralelamente, cada um com o seu próprio método, as suas próprias tarefas, a sua própria vocação. Convergentes só no bem comum. A política é nobre, é uma das formas mais altas de caridade, como dizia Paulo VI. Nós a sujamos quando a usamos para os negócios. A  relação entre a Igreja e o poder político também pode ser corrupta, se não converge no bem comum.
Posso perguntar-lhe se teremos mulheres cardeais?
É uma brincadeira que saiu não sei de onde. As mulheres na Igreja devem ser valorizadas, e não "clericalizadas". Quem pensa nas mulheres cardeais sofre um pouco de clericalismo.
Como está o trabalho de limpeza do IOR?
As comissões referentes estão trabalhando bem. O Moneyval nos deu um relatório bom, estamos no caminho certo. Sobre o futuro do IOR, veremos. Por exemplo, o "banco central" do Vaticano seria a APSA [Administração do Patrimônio da Sé Apostólica]. O IOR foi instituído para ajudar as obras de religião, missões, as Igrejas pobres. Depois se tornou como é agora.
Há um ano, o senhor podia imaginar que celebraria o Natal de 2013 em São Pedro?
Absolutamente não.
Esperava ser eleito?

Não esperava. Eu não perdi a paz enquanto os votos aumentavam. Permaneci tranquilo. E essa paz ainda existe agora, eu a considero um dom do Senhor. Terminado o último escrutínio, levaram-me ao centro da Capela Sistina e me perguntaram se eu aceitava. Eu respondi que sim, disse que me chamaria Francisco. Apenas então me afastei. Eles me levaram para a sala adjacente para trocar de hábito. Depois, pouco antes de me assomar, me ajoelhei para rezar por alguns minutos, juntamente com os cardeais Vallini e Hummes, na Capela Paulina.