O absurdo e a Graça

Na vida hoje caminhamos entre uma fome que condena ao sofrimento uma enorme parcela da humanidade e uma tecnologia moderníssima que garante um padrão de conforto e bem estar nunca antes imaginado. Um bilhão de seres humanos estão abaixo da linha da pobreza, na mais absoluta miséria, passam FOME ! Com a tecnologia que foi inventada seria possível produzir alimentos e acabar com TODA a fome no mundo, não fossem os interesses de alguns grupos detentores da tecnologia e do poder. "Para mim, o absurdo e a graça não estão mais separados. Dizer que "tudo é absurdo" ou dizer que "tudo é graça " é igualmente mentir ou trapacear... "Hoje a graça e o absurdo caminham, em mim lado a lado, não mais estranhos, mas estranhamente amigos" A cada dia, nas situações que se nos apresentam podemos decidir entre perpetuar o absurdo, ou promover a Graça. (Jean Yves Leloup) * O Blog tem o mesmo nome do livro autobiográfico de Jean Yves Leloup, e é uma forma de homenagear a quem muito tem me ensinado em seus livros retiros, seminários e workshops *

12 de setembro de 2013

A correspondência entre Eugenio Scalfari do periódico La república e o Papa Francisco




Sexta, 09 de agosto de 2013

As perguntas de um não crente ao papa jesuíta chamado Francisco. Artigo de Eugenio Scalfari


Eu acredito que o papa, que prega a Igreja pobre, é um milagre que faz bem ao mundo. Mas também acredito que não haverá um Francisco II. Uma Igreja pobre, que expulse o poder e desmantele os instrumentos de poder se tornaria irrelevante.
A opinião é de Eugenio Scalfari, jornalista e fundador do jornal italiano La Repubblica, 07-08-2013. A tradução é deMoisés Sbardelotto.
Eis o texto.
O Papa Francisco foi eleito ao sólio petrino há pouquíssimos meses, mas continua provocando escândalo a cada dia. Por como ele se veste, por onde mora, por aquilo que diz, por aquilo que decide. Escândalo, mas benéfico, tonificante, inovador.
Com os jornalistas, ele fala pouco ou, melhor, de fato não fala; o circo midiático não é para ele, não é do seu gosto, mas o seu diálogo com as pessoas é contínuo, coletivo e individual, escuta, pergunta, responde, vai aos lugares mais disparatados e sempre tem um texto para ler entre as mãos, mas logo o descarta. Improvisa sem esforço algum, ao ar livre ou em uma igreja, em uma cabana de pescadores ou na praia de Copacabana, no salão das audiências ou do "papamóvel" que fende docemente a multidão dos fiéis.
Ele é bom como o Papa João XXIII, fascina as pessoas como Wojtyla, cresceu entre os jesuítas, escolheu se chamarFrancisco, porque quer a Igreja do pobrezinho de Assis. Enfim: é cândido como uma pomba, mas esperto como uma raposa. Todos escrevem a respeito, todos o olham admirados, e todos, presbíteros e leigos, homens e mulheres, jovens e velhos, crentes e não crentes, esperam ver o que ele vai fazer no dia seguinte.
Ele não se ocupa com a política; nunca o fez nem na Argentina como bispo, nem no Vaticano como papa. CriticouVidela sistematicamente, mas não pela horrível ditadura por ele instaurada, mas porque ele não estava ajudando os pobres, os fracos, os necessitados. No fim do governo, para se livrar daquela voz irritante, colocou à sua disposição uma estrutura assistencial até aquele momento inerte, e ele abandonou a sua diocese a um vigário e começou a bater por todo o país como missionário, mas não para converter, mas sim para ajudar, educar, infundir esperança e caridade.
Há dois meses, publicou uma encíclica sobre a fé, um texto já escrito pelo seu antecessor, com o qual convive sem nenhum constrangimento a poucas centenas de metros de distância. Retocou aquele texto em pouco pontos, assinou-o e o tornou público.
A encíclica é bastante inovadora com relação a outras sobre o mesmo assunto emitidas pelos seus antecessores. A novidade está no fato de que ela não se ocupa da relação entre fé e razão. De fato,não exclui que essa relação exista, mas a ele (e a Bento XVI) interessa a graça que flui do Senhor e desce sobre os fiéis. A graça coincide com a fé, e a fé com a caridade, o amor pelo próximo, que é o único modo – atenção: o único modo – de amar o Senhor.
Sente-se o perfume intelectual de Agostinho. Mais de Agostinho do que de Paulo. Mas aqui já estamos em dificuldades. Seria preciso pensar que são três os santos de referência para o atual bispo de Roma (que insiste muito nessa sua qualificação que acompanha e até mesmo precede o título pontifício): Agostinho, Inácio, Francisco.
Mas é este último que dá ao papa que tomou o seu nome a conotação mais evidente e por ele ressaltada em cada ocasião. Ele quer uma Igreja pobre que pregue o valor da pobreza; uma Igreja militante e missionária; uma Igreja pastoral; uma Igreja construída à semelhança de um Deus misericordioso, que não julga, mas perdoa, que busque a ovelha perdida, que acolha o filho pródigo.
Certamente, a Igreja Católica também é uma instituição, mas a instituição, assim como Francisco a vê, é uma estrutura de serviço, como a intendência de um exército com relação às tropas combatentes. A intendência segue, não precede. E assim são a instituição, a Cúria, a Secretaria de Estado, o banco, o Governatorato do Vaticano, as Congregações, os núncios e os Tribunais, toda a imensa e imensamente complexa arquitetura que a Igreja, Esposa de Cristo, mantém de pé há 2.000 anos.
Esse, até agora, tem sido o rosto da Igreja. A pastoralidade? Certamente, um bem precioso. A Igreja pregadora? A Igreja missionária? A Igreja pobre? Certamente, a verdadeira substância que a instituição contém como uma joia preciosa dentro de uma caixa de aço.
Mas, atenção: por 2.000 anos, a Igreja falou, decidiu, agiu como instituição. Nunca houve um papa que tenha hasteado a bandeira da pobreza, nunca houve um papa que não tem gerido o poder, que não tenha defendido, reforçado, amado o poder, nunca houve um papa que tenha sentido como próprio o pensamento e o comportamento do pobrezinho de Assis. E nunca houve, exceto nos casos de fraqueza e de agitação, uma Igreja horizontal, ao invés de vertical.
Em 2.000 anos de história, a Igreja Católica convocou 21 concílios ecumênicos, principalmente condensados entre os séculos III e V da era cristã e entre os séculos IX e XIII. Desde o Concílio de Trento, passaram-se mais de 300 anos até o Vaticano I precedido pelo Sílabus, e depois passaram-se 80 anos até o Vaticano II.
Os Sínodos, obviamente, foram muito mais numerosos, mas todos convocados e liderados pela Cúria e pelo papa. O cardeal Martini (aliás, também ele jesuíta) queria ao lado do magistério do papa a estrutura horizontal dos concílios e dos sínodos, das Conferências Episcopais e da pastoralidade. Ele não foi amado em Roma, assim como Bergoglio no conclave que terminou com a eleição de Ratzinger.
Bergoglio também gosta da estrutura horizontal. A sua missão contém, em suma, duas escandalosas novidades: a Igreja pobre de Francisco, a Igreja horizontal de Martini. E uma terceira: um Deus que não julga, mas perdoa. Não há condenação, não há inferno. Talvez Purgatório? Seguramente, arrependimento como condição para o perdão. "Quem sou eu para julgar os gays ou os divorciados que buscam a Deus?", assim diz Bergoglio.
* * *
Mas eu gostaria, neste ponto, de lhe fazer algumas perguntas. Eu não acredito que ele vai responder, mas, aqui e hoje, eu não sou um jornalista, sou um não crente que, há muitos anos, está interessado e fascinado pela pregação de Jesus de Nazaré, filho de Maria e de José, judeu da estirpe de Davi. Eu tenho uma cultura iluminista e não busco a Deus. Penso que Deus é uma invenção consolatória e fascinante da mente dos homens.
Pois bem, é nessa veste que eu me permito fazer ao Papa Francisco algumas perguntas e acrescentar algumas reflexões minhas.
Primeira pergunta: se uma pessoa não tem fé nem a busca, mas comete o que para a Igreja é um pecado, ela será perdoada pelo Deus cristão?
Segunda pergunta: o crente crê na verdade revelada, o não crente pensa que não existe nenhum absoluto e, portanto, nem mesmo uma verdade absoluta, mas sim uma série de verdades relativas e subjetivas. Esse modo de pensar, para a Igreja, é um erro ou um pecado?
Terceira pergunta: o Papa Francisco disse durante a sua viagem ao Brasil Brasil que a nossa espécie também perecerá, assim como todas as coisas que têm um início e um fim. Eu também penso do mesmo modo, mas também penso que, com o desaparecimento da nossa espécie, também desaparecerá o pensamento capaz de pensar Deus e que, portanto, quando a nossa espécie desaparecer, então Deus também desaparecerá, porque ninguém mais será capaz de pensá-lo. O papa certamente tem uma resposta sua a esse tema, e eu gostaria muito de conhecê-la.
E agora uma reflexão. Eu acredito que o papa, que prega a Igreja pobre, é um milagre que faz bem ao mundo. Mas também acredito que não haverá um Francisco II. Uma Igreja pobre, que expulse o poder e desmantele os instrumentos de poder se tornaria irrelevante. Isso aconteceu com Lutero, e hoje as seitas luteranas são milhares e continuam se multiplicando. Elas não impediram a laicização, ao contrário, favoreceram a sua expansão.
A Igreja Católica, repleta de defeitos e de pecados, resistiu e, ao contrário, é forte porque não renunciou ao poder. Aos não crentes como eu, Francisco agrada muito ou, melhor, muitíssimo, assim como Francisco de Assis e Jesus de Nazaré. Mas eu não acredito que Jesus teria se tornado Cristo sem um São Paulo.
Longa vida ao Papa Francisco.

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 Papa responde carta do fundador do jornal La Repubblica: "Chegou o tempo de caminharmos juntos"
  
Quarta, 11 de setembro de 2013

No dia 07-07-2013, o fundador do jornal La Repubblica, Eugenio Scalfari, escreveu uma carta aberta ao PapaFrancisco. Em artigo posterior, publicado no dia 7 de agosto, ele complementa o artigo anterior com novas reflexões pessoais.
Eugênio Scalfari sempre manteve um vivo intercâmbio de diálogos com Carlo Maria Martini, cardeal-arcebispo de Milão.
Hoje o jornal La Repubblica publica uma longa resposta de Papa Francisco aos dois artigos do jornalista e fundador do importante jornal italiano.
O papa agradece a atenção que o jornalista deu comentar a encíclica Lumen Fidei.
O papa escreve:
"Entre a Igreja e a cultura de inspiração cristã, de um lado, e a cultura moderna de inspiração iluminista, de outro, instaurou-se a incomunicabilidade. Chego o tempo, e o Vaticano II inaugurou esta nova estação, de um diálogo aberto e sem preconceitos capaz de reabrir as portas para um verdadeiro e fecundo encontro".
E mais adiante, Francisco afirma:
"A fé cristã crê nisto: que Jesus é o Filho de Deus que veio dar a sua vida para abrir a todos o caminho do amor. Por isso o senhor tem razão quando vê na encarnação do Filho de Deus o núcleo central da fé cristã. Já Tertuliano escrevia; "Caro cardo salutis", a carne (de Cristo) é o núcleo da salvação. Porque a encarnação, ou seja, o fato de que o Filho de Deus veio na nossa carne e tenha compartilhado conosco alegrias e dores, vitórias e derrotas da nossa existência, até o grito da cruz, vivendo cada coisa no amor e na fidelidade ao Abbá, testemunha o incrível amor que Deus tem por cada um ser humano, o valor inestimável que lhe reconhece. Cada um de nós, por isso, é chamado a fazer seu o olhar e a opção do amor de Jesus, a entrar no seu modo de ser, de pensar e de agir. Esta é a fé, com todas as expressões que são descritas pontualmente na Encíclica".
A longa resposta de Papa Francisco, a ser publicada na íntegra, nesta página, conclui assim:
"Egrégio Dr. Scalfari, concluo assim estas minhas reflexões, suscitadas por aquilo que o senhor quis me comunicar e me interrrogar. Acolha-as como uma resposta tentativa e provisória, mas sincera e confiante, ao convite de fazermos juntos um pedaço do caminho. A Igreja, acredite, apesar de toda a lentidão, as infedilidades, os erros e os pecados que pode ter cometido e ainda pode cometer naqueles que a compõem, não tem outro sentido do que o de viver e testemunha Jesus: Ele que foi enviado por Abbá "a anunciar aos pobres o alegre anúncio, a proclamar aos presos a liberdação e aos cegos a vista, a colocar em libertade os oprimidos, a proclamar o ano da graça do Senhor" (Lucas 4, 18-19). Com fraterna proximidade, Francisco".

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Papa Francisco escreve ao La Repubblica: ''Um diálogo aberto com os não crentes''

Quinta, 12 de setembro de 2013


O pontífice responde às perguntas que lhe tinham sido feitas por Eugenio Scalfari, fundador do jornal La Repubblica, sobre fé e laicidade. "Chegou o tempo de fazer um trecho de estrada juntos". "Deus perdoa quem segue a própria consciência".
Publicamos aqui a íntegra da carta enviada pelo Papa Francisco ao jornal e publicada no dia 11-09-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
Eis o texto.
Ilustríssimo Doutor Scalfari, é com viva cordialidade que, embora somente em grandes linhas, gostaria de tentar com esta minha carta responder à sua, que, a partir das páginas do La Repubblica, o senhor quis me endereçar no dia 7 de julho com uma série de reflexões pessoais suas, que depois o senhor enriqueceu nas páginas do mesmo jornal, no dia 7 de agosto.
Agradeço-lhe, acima de tudo, pela atenção com que quis ler a Encíclica Lumen fidei. Ela, de fato, na intenção do meu amado Antecessor, Bento XVI, que a concebeu e em grande medida a redigiu, e do qual, com gratidão, eu a herdei, é dirigida não somente para confirmar na fé em Jesus Cristo aqueles que nela já se reconhecem, mas também para suscitar um diálogo sincero e rigoroso com aqueles que, como o senhor, se definem como "um não crente há muitos anos interessado e fascinado pela pregação de Jesus de Nazaré".
Parece-me, portanto, certamente positivo não só para nós, individualmente, mas também para a sociedade em que vivemos determo-nos para dialogar sobre uma realidade tão importante como a fé, que se refere à pregação e à figura deJesus. Eu penso que há, em particular, duas circunstâncias que tornam hoje necessário e precioso esse diálogo.
Ele, aliás, constitui, como se sabe, um dos objetivos principais do Concílio Vaticano II, desejado por João XXIII, e do ministério dos Papas que, cada um com a sua sensibilidade e o seu aporte, desde então e até hoje caminharam no sulco traçado pelo Concílio. A primeira circunstância – como se refere nas páginas iniciais da Encíclica – deriva do fato que, ao longo dos séculos da modernidade, assistiu-se a um paradoxo: a fé cristã, cuja novidade e incidência sobre a vida do ser humano, desde o início, foram expressadas precisamente através do símbolo da luz, foi muitas vezes rotulada como a escuridão da superstição que se opõe à luz da razão. Assim, entre a Igreja e a cultura de inspiração cristã, de um lado, e a cultura moderna de marca iluminista, de outro, chegou-se à incomunicabilidade. Chegou agora o tempo, e o Vaticano II inaugurou justamente a sua época, de um diálogo aberto e sem preconceitos que reabra as portas para um sério e fecundo encontro.
A segunda circunstância, para quem busca ser fiel ao dom de seguir Jesus na luz da fé, deriva do fato de que esse diálogo não é um acessório secundário da existência do crente: ao invés, é uma expressão íntima e indispensável dela. Permita-me citar-lhe, a propósito, uma afirmação a meu ver muito importante da Encíclica: como a verdade testemunhada pela fé é a do amor – sublinha-se – "resulta claro que a fé não é intransigente, mas cresce na convivência que respeita o outro. O crente não é arrogante; ao contrário, a verdade o torna humilde, sabendo que, mais do que possuirmo-la nós, é ela que nos abraça e nos possui. Longe de nos enrijecer, a segurança da fé nos põe a caminho e torna possível o testemunho e o diálogo com todos" (n. 34). É esse o espírito que anima as palavras que eu lhe escrevo.
A fé, para mim, nasceu do encontro com Jesus. Um encontro pessoal, que tocou o meu coração e deu uma direção e um sentido novo à minha existência. Mas, ao mesmo tempo, um encontro que se tornou possível pela comunidade de fé em que eu vivia e graças à qual eu encontrei o acesso à inteligência da Sagrada Escritura, à vida nova que, como água que jorra, brota de Jesus através dos Sacramentos, à fraternidade com todos e ao serviço dos pobres, imagem verdadeira do Senhor. Sem a Igreja – acredite-me –, eu não teria podido encontrar Jesus, embora na consciência de que aquele imenso dom que é a fé é custodiado nos frágeis vasos de barro da nossa humanidade.
Ora, é precisamente a partir daí, dessa experiência pessoal de fé vivida na Igreja, que eu me sinto confortável para ouvir as suas perguntas e para buscar, junto com o senhor, as estradas ao longo das quais possamos, talvez, começar a fazer um trecho de caminho juntos.
Perdoe-me se eu não seguir passo a passo as argumentações propostas pelo senhor no editorial do dia 7 de julho. Parece-me mais frutífero – ou, ao menos, é mais natural para mim – ir de certo modo ao coração das suas considerações. Não vou entrar nem na modalidade expositiva seguida pela Encíclica, em que o senhor entrevê a falta de uma seção dedicada especificamente à experiência histórica de Jesus de Nazaré.
Observo apenas, para começar, que uma análise desse tipo não é secundária. Trata-se, de fato, seguindo, além disso, a lógica que guia o desdobramento da Encíclica, de deter a atenção sobre o significado do que Jesus disse e fez, e, assim, em última instância, sobre o que Jesus foi e é para nós. As Cartas de Paulo e o Evangelho de João, aos quais se faz referência particular na Encíclica, são construídos, de fato, sobre o sólido fundamento do ministério messiânico de Jesus de Nazaré que chegou ao seu auge resolutivo na páscoa de morte e ressurreição.
Portanto, é preciso se confrontar com Jesus, eu diria, na concretude e na rudeza da sua história, como nos é narrada sobretudo pelo mais antigo dos Evangelho, o de Marcos. Constata-se então que o "escândalo" que a palavra e a práxis de Jesus provocam em torno dele deriva da sua extraordinária "autoridade": uma palavra, esta, atestada desde oEvangelho de Marcos, mas que não é fácil traduzir bem em italiano. A palavra grega é "exousia", que, literalmente, refere-se ao que "provém do ser" que se é. Não se trata de algo exterior ou forçado, portanto, mas de algo que emana de dentro e que se impõe por si só. Jesus, com efeito, impressiona, surpreende, inova a partir – ele mesmo o diz – da sua relação com Deus, chamado familiarmente de Abbá, que lhe confere essa "autoridade" para que ele a gaste em favor dos homens.
Assim, Jesus prega "como quem tem autoridade", cura, chama os discípulos a segui-lo, perdoa... todas coisas que, noAntigo Testamento, são de Deus, e somente de Deus. A pergunta que mais vezes retorna no Evangelho de Marcos: "Quem é este que...?", e que diz respeito à identidade de Jesus, nasce da constatação de uma autoridade diferente da do mundo, uma autoridade que não tem como fim exercer um poder sobre os outros, mas servi-los, dar-lhes liberdade e plenitude de vida. E isso até o ponto de pôr em jogo a sua própria vida, até experimentar a incompreensão, a traição, a rejeição, até ser condenado à morte, até desabar no estado de abandono sobre a cruz. Mas Jesus permanece fiel a Deus, até o fim.
E é precisamente então – como exclama o centurião romano aos pés da cruz, no Evangelho de Marcos – que Jesus se mostra, paradoxalmente, como o Filho de Deus! Filho de um Deus que é amor e que quer, com todo o seu próprio ser, que o ser humano, cada ser humano, se descubra e viva também ele como seu verdadeiro filho. Isso, para a fé cristã, é certificado pelo fato de que Jesus ressuscitou: não para trazer novamente o triunfo sobre quem o rejeitou, mas para atestar que o amor de Deus é mais forte do que a morte, o perdão de Deus é mais forte do que todo o pecado, e que vale a pena gastar a própria vida, até o fim, para testemunhar esse imenso dom.
A fé cristã crê nisto: que Jesus é o Filho de Deus que veio para dar a sua vida para abrir a todos o caminho do amor. Por isso, o senhor tem razão, ilustre Dr. Scalfari, quando vê na encarnação do Filho de Deus o eixo da fé cristã. Tertulianojá escrevia: "Caro cardo salutis", a carne (de Cristo) é o eixo da salvação. Porque a encarnação, isto é, o fato de que o Filho de Deus veio na nossa carne e compartilhou alegrias e dores, vitórias e derrotas da nossa existência, até o grito da cruz, vivendo todas as coisas no amor e na fidelidade ao Abbá, testemunha o incrível amor que Deus tem por cada ser humano, o valor inestimável que lhe reconhece. Cada um de nós, por isso, é chamado a fazer seu o olhar e a escolha de amor de Jesus, a entrar no seu modo de ser, de pensar e de agir. Essa é a fé, com todas as expressões que são descritas pontualmente na Encíclica.
Ainda no editorial do dia 7 de julho, o senhor me pergunta, além disso, como entender a originalidade da fé cristã, uma vez que ela se articula justamente na encarnação do Filho de Deus com relação a outras fés que gravitam, ao invés, em torno da transcendência absoluta de Deus.
A originalidade, eu diria, está precisamente no fato de que a fé nos faz participar, em Jesus, da relação que Ele tem com Deus que é Abbá e, nessa luz, da relação que Ele tem com todos os outros seres humanos, incluindo os inimigos, no sinal do amor. Em outros termos, a filiação de Jesus, como ela é apresentada pela fé cristã, não é revelada para marcar uma separação intransponível entre Jesus e todos os outros: mas para nos dizer que, n'Ele, todos somos chamados a ser filhos do único Pai e irmãos entre nós. A singularidade de Jesus é pela comunicação, não pela exclusão.
Certamente, segue-se também disso – e não é uma coisa pequena – aquela distinção entre a esfera religiosa e a esfera política que é sancionada no "dar a Deus o que é de Deus e a César o que é de César", afirmada com clareza por Jesuse sobre a qual, laboriosamente, se construiu a história do Ocidente. A Igreja, de fato, é chamada a semear o fermento e o sal do Evangelho, isto é, o amor e a misericórdia de Deus que alcançam todos os seres humanos, apontando para a meta ultraterrena e definitiva do nosso destino, enquanto à sociedade civil e política cabe a tarefa árdua de articular e encarnar na justiça e na solidariedade, no direito e na paz, uma vida cada vez mais humana. Para quem vive a fé cristã, isso não significa fuga do mundo ou busca de qualquer hegemonia, mas sim serviço ao ser humano, a todo o ser humano e a todos os seres humanos, a partir das periferias da história e mantendo desperto o senso da esperança que impulsiona a fazer o bem apesar de tudo e olhando sempre além.
O senhor me pergunta também, na conclusão do seu primeiro artigo, o que dizer aos irmãos judeus acerca da promessa feita a eles por Deus: ela foi totalmente esvaziada? Esta é – acredite-me – uma interrogação que nos interpela radicalmente, como cristãos, porque, com a ajuda de Deus, sobretudo a partir do Concílio Vaticano II, redescobrimos que o povo judeu ainda é, para nós, a raiz santa a partir da qual germinou Jesus. Eu também, na amizade que cultivei ao longo de todos esses anos com os irmãos judeus na Argentina, muitas vezes na oração interroguei a Deus, de modo particular quando a mente ia ao encontro das recordações da terrível experiência do Holocausto. Aquilo que eu posso lhe dizer, com o apóstolo Paulo, é que nunca falhou a fidelidade de Deus à aliança feita com Israel e que, através das terríveis provações desses séculos, os judeus conservaram a sua fé em Deus. E por isso, a eles, nós nunca seremos suficientemente gratos, como Igreja, mas também como humanidade. Eles, além disso, justamente perseverando na fé no Deus da aliança, lembram a todos, também a nós, cristãos, o fato de que estamos sempre à espera, como peregrinos, do retorno do Senhor e que, portanto, sempre devemos estar abertos a Ele e nunca nos encastelarmos naquilo que já alcançamos.
Chego, assim, às três perguntas que o senhor me faz no artigo do dia 7 de agosto. Parece-me que, nas duas primeiras, o que está no seu coração é entender a atitude da Igreja para com aqueles que não compartilham a fé em Jesus. Acima de tudo, o senhor me pergunta se o Deus dos cristãos perdoa quem não crê e não busca a fé. Posto que – e é a coisa fundamental – a misericórdia de Deus não tem limites se nos dirigimos a Ele com coração sincero e contrito, a questão para quem não crê em Deus está em obedecer à própria consciência. O pecado, mesmo para quem não tem fé, existe quando se vai contra a consciência. Ouvir e obedecer a ela significa, de fato, decidir-se diante do que é percebido como bem ou como mal. E nessa decisão está em jogo a bondade ou a maldade do nosso agir.
Em segundo lugar, o senhor me pergunta se o pensamento segundo o qual não existe nenhum absoluto e, portanto, nem mesmo uma verdade absoluta, mas apenas uma série de verdades relativas e subjetivas, é um erro ou um pecado. Para começar, eu não falaria, nem mesmo para quem crê, em verdade "absoluta", no sentido de que absoluto é aquilo que é desvinculado, aquilo que é privado de toda relação. Ora, a verdade, segundo a fé cristã, é o amor de Deus por nós em Jesus Cristo. Portanto, a verdade é uma relação! Tanto é verdade que cada um de nós a capta, a verdade, e a expressa a partir de si mesmo: da sua história e cultura, da situação em que vive etc. Isso não significa que a verdade é variável e subjetiva, longe disso. Mas significa que ela se dá a nós sempre e somente como um caminho e uma vida. Talvez não foi o próprio Jesus que disse: "Eu sou o caminho, a verdade e a vida"? Em outras palavras, a verdade, sendo definitivamente uma só com o amor, exige a humildade e a abertura a ser buscada, acolhida e expressada. Portanto, é preciso entendermo-nos bem sobre os termos, e, talvez, para sair dos impasses de uma contraposição... absoluta, refazer profundamente a questão. Penso que isso seja absolutamente necessário hoje para entabular aquele diálogo sereno e construtivo que eu esperava no início deste meu dizer.
Na última pergunta, o senhor me questiona se, com o desaparecimento do ser humano sobre a terra, também desaparecerá o pensamento capaz de pensar Deus. Certamente, a grandeza do ser humano está em poder pensar Deus. Isto é, em poder viver uma relação consciente e responsável com Ele. Mas a relação entre duas realidades. Deus – este é o meu pensamento e esta é a minha experiência, mas quantos, ontem e hoje, os compartilham! – não é uma ideia, embora altíssima, fruto do pensamento do ser humano. Deus é Realidade, com "R" maiúsculo. Jesus no-lo revela – e vive a relação com Ele – como um Pai de bondade e misericórdia infinitas. Deus não depende, portanto, do nosso pensamento. Além disso, mesmo quando viesse a acabar a vida do ser humano sobre a terra – e para a fé cristã, em todo caso, este mundo como nós o conhecemos está destinado a desaparecer –, o ser humano não deixará de existir e, de um modo que não sabemos, assim também o universo criado com ele. A Escritura fala de "novos céus e nova terra" e afirma que, no fim, no onde e no quando que está além de nós, mas para o qual, na fé, tendemos com desejo e expectativa, Deus será "tudo em todos".
Ilustre Dr. Scalfari, concluo assim estas minhas reflexões, suscitadas por aquilo que o senhor quis me comunicar e me perguntar. Acolha-as como a resposta tentativa e provisória, mas sincera e confiante, ao convite que nelas entrevi de fazer um trecho de estrada juntos. A Igreja, acredite-me, apesar de todas as lentidões, as infidelidades, os erros e os pecados que pode ter cometido e ainda pode cometer naqueles que a compõem, não tem outro sentido e fim senão o de viver e testemunhar Jesus: Ele que foi enviado pelo Abbá "para levar aos pobres o alegre anúncio, para proclamar aos presos a libertação e aos cegos a recuperação da vista, para libertar os oprimidos, para proclamar o ano de graça do Senhor" (Lc 4, 18-9).
Com proximidade fraterna,
Francisco
  
                                                                ////////////////////////////// 

 (A carta que o Papa Francisco me enviou é "escandalosamente fascinante")

O Artigo de E. Scalfari


Quinta, 12 de setembro de 2013
Jesus, fé e razão: o diálogo do pontífice com a ovelha perdida. Artigo de Eugenio Scalfari
A carta que o Papa Francisco me enviou é "escandalosamente fascinante", mais uma prova da sua capacidade e desejo de superar as barreiras dialogando com todos em busca da paz, do amor e do testemunho. Dito isso, resumo aqui as perguntas e as reflexões que eu fiz e às quais o papa responde, a fim de que os leitores tenham bem claro o quadro dentro do qual se desenvolve este diálogo.
A opinião é de Eugenio Scalfari, jornalista e fundador do jornal italiano La Repubblica, 11-09-2013. A tradução é deMoisés Sbardelotto.
Eis o texto.
Francisco decidiu responder às perguntas que eu lhe havia endereçado em dois artigos, respectivamente publicados no nosso jornal no dia 7 de julho (1) e 7 de agosto passados. Francamente, eu não esperava que ele o fizesse tão difusamente e com espírito tão afetuosamente fraterno. Talvez porque a ovelha perdida mereça mais atenção e cuidado? Digo isso porque, nos artigos acima citados, eu especifiquei ao papa que eu sou um "não crente e não busco a Deus", embora "estou há muitos anos interessado e fascinado pela pregação de Jesus de Nazaré, filho de Maria e José, judeu da estirpe de Davi". E, mais adiante, eu escrevo que "Deus, a meu ver, é uma invenção consolatória da mente dos homens".
Permito-me lembrar esta minha posição de interlocutor, até porque ela torna ainda mais "escandalosamente fascinante" aos nossos olhos a carta que o Papa Francisco me enviou, mais uma prova da sua capacidade e desejo de superar as barreiras dialogando com todos em busca da paz, do amor e do testemunho.
Dito isso, resumo as perguntas e as reflexões que eu fiz e às quais o papa responde, a fim de que os leitores tenham bem claro o quadro dentro do qual se desenvolve este diálogo.
1 – A modernidade iluminista pôs em discussão o tema do "absoluto", começando pela verdade. Existe uma única verdade ou tantas quantas cada indivíduo configura?
2 – Os Evangelhos e a doutrina da Igreja afirmam que o Unigênito de Deus se fez carne, certamente não vestindo uma roupa e imitando os movimentos dos homens e permanecendo Deus, mas sim assumindo também as suas dores, suas alegrias e seus desejos. Isso significa que Jesus teve todas as tentações da carne e as venceu não como Deus, mas como homem que tinha se colocado o fim de levar o amor aos outros no mesmo nível de intensidade do amor por si mesmo. Daí a incitação: ama o teu próximo como a ti mesmo. Até que ponto a pregação de Jesus e da Igreja fundada pelos seus discípulos realizou esse objetivo?
3 – As outras religiões monoteístas, a judaica e o Islã, preveem um só Deus; o mistério da Trindade lhes é totalmente estranho. O cristianismo é, portanto, um monoteísmo bastante particular. Como ele se explica para uma religião que tem como raiz o Deus bíblico, que não tem nenhum Filho Unigênito e nem pode ser nomeado, muito menos mostrado, como Alá?
4 – O Deus encarnado sempre afirmou que o seu reino não era e nunca seria deste mundo. Daí o "dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus". Esse "limite" teve como consequência lógica que o cristianismo nunca deveria ter a tentação da teocracia, que, ao invés, domina nas terras islâmicas. No entanto, o cristianismo, principalmente na sua versão católica, também sentiu fortemente a tentação do poder terreno; a temporalidade muitas vezes superou a pastoralidade da Igreja. O Papa Francisco representa finalmente a prevalência da Igreja pobre e pastoral sobre a institucional e temporalista?
5 – Deus prometeu a Abraão e ao povo eleito de Israel prosperidade e felicidade, mas essa promessa nunca foi realizada e culminou, depois de muitos séculos de perseguições e discriminações, no horror do Holocausto. O Deus de Abraão, que também é o dos cristãos, portanto, não manteve a sua promessa?
6 – Se uma pessoa não tem fé, nem a busca, mas comete aquilo que para a Igreja é um pecado, será perdoada pelo Deus cristão?
7 – O crente crê na verdade revelada, o não crente crê que não existe nenhum "absoluto", mas sim uma série de verdades relativas e subjetivas. Esse modo de pensar para a Igreja é um erro ou um pecado?
8 – O papa disse durante a sua viagem ao Brasil que a nossa espécie também vai acabar, assim como todas as coisas que têm um início e um fim. Mas quando a nossa espécie desaparecer, o pensamento também desaparecerá, e ninguém mais pensará Deus. Então, nesse ponto, Deus estará morto junto com todos os homens?
Os leitores encontrarão nestas páginas as respostas do papa contidas na sua carta, pela qual, ainda com grande afeto e respeito, eu lhe agradeço. No nosso jornal dessa quinta-feira, eu formularei algumas reflexões para aprofundar os temas e levar adiante um diálogo que, eu também penso, assim como o papa, é útil e até mesmo precioso para os leitores, crentes em Jesus Cristo, ou em outras religiões, ou em nenhuma, mas animados pelo desejo de conhecimento e pela boa vontade de colaborar com o bem comum.
Notas:

(1) "As respostas que os dois papas ainda não deram"

A retomada das atividades de construção do Reino que andava bastante atrasada.




O papa Francisco escreveu uma carta a Eugenio Scalfari fundador do jornal La Repubblica que está em
http://www.ihu.unisinos.br/noticias/523614-papa-francisco-escreve-ao-la-repubblica-um-dialogo-aberto-com-os-nao-crentes#.UjHgxS_l1Es.twitter
É um primor, uma obra de amor à missão que Jesus nos deu de construir o Reino do Pai. Inspirado na carta e também em algumas conversas nas comunidades eu resolvi escrever a reflexão abaixo.

O caminho da construção do Reino não é em linha reta, nem tampouco da maneira como nós achamos que é o mais certo.  Hoje tenho clareza disso. Já vi e viví uma igreja caminhando na direção que o evangelho aponta e quando isso mais crescia, uma eleição de um papa mudou o rumo e por longos anos andamos na mesmice e perseguidos como hereges. Quando pensamos que tudo ia mudar veio um outro papa mais radical e chegamos até a pensar que seria o fim da igreja fiel ao evangelho e ai, mais uma vez nos surpreendemos, e um novo papa nos acena com o resgate da opção preferencial pelos pobres.
O Espirito Santo já deixou claro que o tempo é dele. Tudo caminha e aos poucos vai se organizando. Muitos grupos carismáticos já começaram a mudar o seu perfil. O papa já disse com toas as letras que não ássistencialismo que ele está falndo. Não é fazer caridade "PARA" os menos favorecidos, trata-se de fazer " COM " eles. Ir as periferias, ir até onde estão os excluídos. Se tudo seguir como parece, daqui ha alguns anos teremos uma igreja mais de acordo com o evangelho de Jesus. Mas isso leva tempo, não é do dia para noite e terá certamente muita resistência.
Devemos ficar atentos porque às vezes de onde menos se espera vem a mudança ... Basta  Confiar e seguir em frente sendo a mudança que queremos que seja a realidade. È preciso acreditar que  o mundo muda quando nós mudamos.
No caminho de Jesus tem lugar para todos os que tem boa vontade, tem lugar até mesmo para aleluiados, para conservadores desde que estejam abertos à mudança e à realidade do evangelho. Importa a intensão e a ação na construção do reino, a forma como isso for ser feita, tem pouca importância. Toda a importância reside em cuidar dos pequeninos do reino, aqueles que Jesus disse que são na realidade, Ele próprio.
 A Teologia da Libertação duante as ultims déadas foi surrada com criticas que a chamavam de Marxista- Socilaista.  Eu tenho repetido e quase já estou rouco de tanto dizer que QUEM É CRISTÃO NÃO PRECISA SER MARXISTA OU SOCIALISA. O cristianismo é muito mais radical do que estas duas ideologias juntas. Mas há uma grande diferença entre estas ideologias e a teologia que não é ideologia. No Marxismo e no socialismo é permitido matar pela causa, no cristianismo há um pequeno detalhe para diferenciar esta questão, não é permitido matar em hipótese alguma, na verdade no cristianismo só é permitido MORRER pala causa.
Já estou muito velho para frequentar PJs, anda não inventaram uma PV, a pastoral da velhice , mas fico muito preocupado porque o que tenho visto até aqui nas nossas comunidades, o principal interesse é sempre a politica partidária e a revolução. Como se, para se fazer TdL fosse preciso sempre ser contra, sempre pregar a revolução e desculpar os atos de uma pseudo esquerda e condenar o que parece não ser "de esquerda".
Há sim uma revolução a ser feita, mas é uma revolução de valores, de aprimoramento das atitudes individuais. Uma Guerra contra todo e qualquer preconceito que ai está. Até aquele preconceito tão comum que temos com relação ao que é diferente de nós. Coisa do tipo: se é RCC é alienado, se é louvor é coisa sentimentaloide, se é oração é coisa de carolas... E assim vamos criando divisões e nos afastando de uma espiritualidade que não é só luta, discussão, mas é fundamentalmente AÇÃO. E por ação eu entendo coisas como abrir mão de levar vantagem em tudo ( Lei de Gerson), ter uma atitude respeitosa pra com o parceiro (a) e não usar apenas as pessoas como muleta ou apoio e descartar quando aparecer alguém mais interessante para ”ficar”. A responsabilidade pela vida. Tem muita gente que defende o aborto para poder tansar sem responsabilidade, sem respeitar a seriedade e a beleza de uma união entre duas pessoas. Neste tipo de ora-ação está a nossa capacidade de ser solidário, investir tempo em trabalhar pela educação e conscientização daqueles que tem menos oportunidade. Demonstrar com nosso comportamento e atitude que somos pessoas comprometidas com valores muito diferentes, valores de respeito ao semelhantes, de prioridade pelos menos favorecidos e excluídos. Valores que se expressam em atitudes contrárias ao consumismo , ao desperdício e à pilhagem do meio ambiente.
Neste caminho traçado por Jesus há espaço para todos, desde um Pedro, pescador ignorante e bronco a um José de Arimatéia, membro do sinédrio e homem de posses que pode proporcionar a Jesus uma sepultura. Tem lugar para um centurião Romano do império opressor e que queria que Jesus curasse seu amante. Para um Mateus que era cobrador de impostos. Tem lugar para as mulheres excluídas pela sociedade Judaica. Tem lugar até para os revolucionários como o Che, desde que não o confundamos como o modelo de cristão a ser copiado e adorado.
Neste caminho só não tem lugar para quem não pretende se questionar e se modificar e se abrir às necessidades de construir o reino de justiça, amor e paz.

10 de setembro de 2013

O Pe. João Egg hoje voltou para casa do Pai.


A lembrança mais forte que vai ficar do Pe. João, nas duas vezes que ele esteve na Santo Afonso, é a da sua imensa disponibilidade para com os paroquianos. Sua presença junto à cantina ou Lojinha do Redentor, ali no adro da igreja, sempre pronto para um conselho, um abraço, um papo e principalmente para um estímulo a quem se mostrasse mais abatido. "Melhor, melhor, melhor!" Quem é capaz de pensar nele sem lembrar desta afirmação?
Pe. João deixa saudade e isso pode-se perceber pela reação das pessoas nas comunidades por onde ele passou. Apesar da saudade tenho certeza de que ele não gostaria de nos ver tristes. Vamos fazer força para espantar a tristeza e pedir a Nossa Senhora a quem ele tanto amava que o receba com seu amor e o conduza aos braços do Redentor a quem ele dedicou toda a sua vida.

10 de setembro de 2013


10 de agosto de 2013

UM HOMEM TORTURADO: Frei Tito de Alencar

No dia 10 de agosto de 1974, um morador dos arredores de Lyon encontrou o corpo de Frei Tito suspenso por uma corda. A causa da morte – suspeita de suicídio – tornou-se um enigma. Neste 10 de Agosto fica aqui mais um relato sobre esse mártir dos tempos modernos, vitima da Ditadura Brasileira 64/85.
Frei Tito !
PRESENTE !

Eu me autorizo falar psicanaliticamente da tortura por ter, como jovem psiquiatra, acolhido Tito de Alencar no hospital. Este intelectual, duplamente comprometido, religiosamente como dominicano, e politicamente como líder de um dos movimentos de liberação nacional que emergiram no Brasil depois do golpe de l964, foi preso em 1969, em decorrência do assassinato do líder comunista Marighela. Este assassinato foi a obra secreta do delegado Fleury e dos esquadrões da morte. Na mente dos autores dele, cumpria um duplo objetivo: liquidar Marighela e comprometer definitivamente os religiosos engajados na luta revolucionária. Durante um encarceramento de vários meses, Tito de Alencar foi submetido a interrogatórios policiais e a torturas, por este mesmo comissário Fleury. Daquela experiência da tortura que definitivamente o deixou alquebrado, nós possuímos um duplo testemunho: por um lado, são escritas que ele teve a coragem de escrever na prisão (isso foi publicado em uma compilação que foi dedicada a ele: " Então as pedras gritarão ", e por outro lado, a restituição desta experiência, como ele mesmo a transmitiu por meio de um estado melancólico e delirante apresentado nos meses que precederam sua morte.
Talvez porque, pela sua origem, pertencia à classe média, tradicionalmente favorável ao regime político da situação, mas também porque ele era religioso, parece que Fleury e os torturadores dele obstinaram-se sobre o Tito de Alencar com uma crueldade particular. Para escapar disto, ele teve recurso, na própria prisão, a uma tentativa de suicídio, seccionando a artéria do braço, e só escapou graças à vigilância dos executores dele, receiosos em ter que assumir a responsabilidade por este gesto. Tito evoca nas escritas dele a frase que ele ouviu no seu meio-coma: 'Doutor, aquele é absolutamente necessário salvá-lo, caso contrário nós estamos perdidos.' [1] É inclusive graças a este suicídio que a Igreja, em primeiro lugar e depois outras instâncias da sociedade, foram alertadas a respeito da prática da tortura nas prisões brasileiras.
Porque, como nós o veremos com mais detalhes, uma das condições da prática da tortura é a de poder se beneficiar com uma clandestinidade de fato.
Graças às circunstâncias excepcionais - o rapto do embaixador de Suíça pelos revolucionários brasileiros seguido pela liberação dele em troca de um certo número de presos políticos - Tito de Alencar pôde deixar a prisão em 1970, e foi expulso imediatamente. Depois de uma breve permanência no Chile e na Itália, ele foi acolhido na França.
Mas esta real liberdade só fez dramatizar a alienação interior para a qual a experiência da tortura o tinha definitivamente empurrado. De fato, desde as primeiras vezes, Tito mal conseguia iniciar, e logo os abandonava, estudos, psicoterapia e até mesmo psicanálise. Durante a sua longa permanência em Paris, de acordo com seus amigos, ele era um homem completamente aboulique, retomando sem parar um questionamento político, religioso, duvidando profundamente de si mesmo, e convencido de ter traído a causa dominicana como também a causa revolucionária. Ele passava horas escrevendo, como que para tentar reconstruir uma verdade interior, e é certo que foi neste exato ponto que a tortura teve pleno êxito contra ele.
Frente a este desespero, seus superiores religiosos tiveram a idéia de confiá-lo a uma outra comunidade dominicana, particularmente carinhosa, a de Éveux, neste convento bonito construído por Le Corbusier, em meio às colinas do país Lyonense. Depois de um período onde Tito se achava obviamente melhor, explodiram, ruidosamente e dramaticamente, as demonstrações delirantes que não iam deixá-lo jamais, até seu suicídio alguns meses mais tarde. Começou com as fugas inexplicadas, cada vez mais freqüentes, e mais longas. Inexplicadas até que um dos Irmãos dele, mais próximo, descobrisse a razão delas: O Fleury falava a Tito e lhe dava ordens – para não entrar, não deitar, para não comer... O Tito foi se redobrando cada vez mais em si mesmo, cada vez mais mutique, cada vez mais triste. Na seqüência de uma destas fugas, ele foi levado para o hospital.
Foi uma cena trágica aquela que presenciamos então: um homem como que encurralado, entregando-se a nós como se fôssemos seus executores. Quando foi para o quarto, ele logo se jogou na parede, braços para cima, como que para ser executado na hora. Depois quando foi para administrar-lhe um remédio para alívio, tomou-o como se fosse o veneno que devia acabar com ele. Cena dramática porque ali era reconstituída completamente, literalmente, a situação exata da tortura, situação que neste momento nós não tínhamos meio de entender, mas que, pouco a pouco, graças à cooperação com seus Irmãos Dominicanos, com os amigos dele, nós conseguimos levar à luz do dia.
Adquirimos rapidamente a convicção de que não estávamos na frente de uma patologia psiquiátrica habitual, nem de um ponto de vista semiológico nem num plano que eu chamarei ético. Os sintomas apresentados por este paciente, embora pudessem ser os de uma melancolia habitual, tomavam lugar em um mesmo contexto de exibição bastante particular. Eu falei de «cena» porque o painel clínico incluía uma dimensão muito intencionalmente teatral; apesar do mutismo quase total deste homem, apesar da força de sua crença delirante de que éramos algozes, pressentíamos também que sua consciência não tinha realmente virado para uma convicção delirante, e que o que o paciente nos expunha era mais um testemunho do que uma patologia. A intensidade do sofrimento psíquico - mais que da dor moral – ia no mesmo sentido.
Eu percebo agora que a aposta que nós fizemos naquele momento – a equipe de enfermagem e Irmãos Dominicanos – a de considerar este estado menos como uma patologia do que como um testemunho, ia no sentido da intenção de Tito de Alencar expressar por este "delírio" (ou talvez por esta exibição histérica, mas não importa...) os tipos de crueldade que ele tinha sofrido durante sua tortura, muito melhor e muito mais precisamente do que o que ele poderia escrever a respeito. Tocamos aqui ao limite da linguagem que só pode dar conta daquilo que não escapa à consciência, enquanto o delírio dele transmitia tudo o que pudera ser trocado inconscientemente entre a vítima e seu carrasco. Mas também, esta aposta queria proteger o Tito de uma decadência apontada pelo torturador. O projeto do torturador era exatamente "tornar louca" a sua vítima, mas em um pós-golpe distante, em um tempo onde a relação de causa a efeito com a tortura não seria mais óbvia. A loucura assim instalada denunciaria simplesmente uma constituição doentia do paciente e também geradora, por que não?, de seus equívocos na luta e no compromisso político. Um diagnóstico psiquiátrico de loucura teria definitivamente difamado Tito de Alencar.
Apesar de várias remissões onde os sintomas desapareceram, onde seu relacionamento com os outros melhorava, nada mudou verdadeiramente em Tito desta tendência em reviver, e fazer reviver, compulsivamente, a situação da tortura, como que testemunhando com isso a força e a qualidade particular – digamos logo erótico – do vínculo que o tinha amarrado indelevelmente e apesar dele mesmo a seus torturadores. Suas relações com os Irmãos de sua comunidade, aparentemente simples e calorosas de novo, arranhava-se com crises interpretativas onde Tito os suspeitava de ser os cúmplices do Fleury. De uma maneira permanente, porém subterrânea na maioria do tempo, a sobrevivência nele da situação da tortura seguia seu curso.
É provavelmente para escapar novamente da tortura que Tito de Alencar cometeu suicídio, em um momento em que estava aparentemente melhor e tinha aceitado a idéia de se inscrever socialmente assumindo um trabalho na periferia de Lyon. Não se pode evitar de ver neste suicídio exitoso a retomada do seu gesto fracassado nas prisões de São Paulo, gesto do qual tinha sido desapropriado por seus algozes, como da última liberdade à qual o homem pode pretender. E sentimo-nos autorizados a interpretar as circunstâncias do seu suicídio, já que se enforcou ao topo de um álamo, em uma descarga pública: assim o pássaro migratório se deixa pegar pelos fios elétricos... Poetizamos os fatos, em reação exatamente a este movimento de despoetização que a tortura realiza no ser? Se a própria linguagem é impotente em prestar conta dos acontecimentos, isto resulta na sua desqualificação como meio de expressão poética; daí a busca de meios substitutivos, como a patologia, tanto o delírio quanto o suicídio.
E neste suicídio, e sua cena particular, não estaríamos ouvindo seu infortúnio de exilado, sua erradicação, seu país obviamente de onde tinha sido expulso mas também a erradicação bem mais profunda que a tortura tinha provocado em relação a ele mesmo, à sua identidade, aos seus ideais...
O suicídio de Tito de Alencar desvela claramente a natureza destrutiva da tortura. Entre os significados que podem ser apurados deste suicídio – bem como da precedente tentativa - há essa vontade de dramatizar que ele tinha morrido, em um certo sentido, digamos espiritualmente, durante a prova da tortura, que não passava mais, de lá para cá, de um sobrevivente.
Certamente a tortura não inclui sempre um resultado tão destruidor, e, em particular, companheiros de Tito, igualmente torturados, não sofreram as mesmas conseqüências. O caso de Tito nos leva a nos interrogar sobre o que foi que tornou tão assassina essa experiência para ele. Se confrontarmos o que tivemos oportunidade de observar do seu delírio e as vicissitudes de sua sobrevivência, com os testemunhos escritos que ele deixou, precisamos admitir ou que o efeito psicológico que vem com qualquer tortura física foi particularmente agudo no caso dele, ou que, ao lado das crueldades meramente físicas, Tito sofreu uma forma particular de tortura psicológica. Isso é tanto mais provável que, por conta de seu status social de padre e intelectual, Tito de Alencar representava para seus algozes, e em particular para o delegado Fleury, um símbolo. Símbolo de uma nova aliança da fé e da revolução, opondo-se à aliança tradicional da Igreja e do Estado, e que era necessário desqualificá-la absolutamente para evitar sua propagação. Esta aliança, pela sua ambigüidade, pela sua novidade, representava uma déviance, suscetível de encontrar uma saída positiva, e da qual era necessário demonstrar a negatividade, absolutamente. A ambigüidade da aliança será o exato lugar onde o torturador agirá, e agirá psicologicamente, por meio de um duplo movimento de desqualificação da dialética que está em jogo aí, e de evidenciamento da incoerência que nela está também presente.
No testemunho que Tito de Alencar escreveu no cárcere em 1970, acha-se uma descrição muito literal dos fatos sofridos. Seu primeiro contato com a tortura é o «pau de arara », tortura que consiste em ajoelhar o preso nu, enfiar uma barra de ferro na dobra dos joelhos, prender por trás seus pulsos com seus calcanhares, e em seguida suspendê-lo de cabeça para baixo. «Assim suspendido, despido, eu recebi descargas elétricas de corrente contínua nos tendões dos pés e na cabeça. Os torturadores eram seis. Eles me aplicaram o "telefone" (bater as duas orelhas com a palma da mão ao mesmo tempo para fazer explodir os tímpanos) e eles me gritavam injúrias.» [2]
Identifica-se aqui, por parte dos torturadores, a busca de um efeito de estimulação (sommation) das diversas fontes de excitação: físicas, elétricas, sonoras e também verbais, e a nudez traz consigo uma excitação muito diretamente sexual. Mas reencontraremos essa estimulação de outro modo. De fato, os torturadores não vacilam acumular crueldades nas distintas partes do corpo. «Eles lançaram algumas descargas elétricas em minhas mãos, em meus pés, em minhas orelhas e em minha cabeça. A cada descarga todo meu corpo passava a tremer como se fosse despedaçar[3]» Por meio desta estimulação, além da brutalidade, busca-se provocar uma mutação psíquica do sujeito. Mas se podemos, nós, decifrar esta situação assim, Tito, ele, não podia discernir a estimulação que estava em jogo, nem a intenção que a ela presidia. O testemunho posterior do delírio é muito mais autêntico que o testemunho escrito porque nos mostra que Tito podia ter consciência somente de uma parte da situação; acontece desde o começo da tortura uma dissociação muito clara entre a consciência imediata dos fatos, e uma interiorização mais inconsciente onde não importa mais a diferença entre sevícias sofridas e sevícias desejadas. «Era eu impossível saber que parte do corpo era mais doída. Eu tinha a impressão de ser esmagado por toda parte. Minha mente não era mais coordenada, eu só tinha o desejo de perder os sentidos[4]”.
A estimulação visa de fato engajar, sem o conhecimento da vítima, seu desejo, e solicitar assim mesmo uma cumplicidade. Pois, pelo sofrimento, o corpo é solicitado eroticamente até o ponto onde uma auto-excitação interna é capaz de dar continuidade, de modo quase autônomo, à excitação externa. Confusão e culpabilidade virão como conseqüências de uma certa dissolução de categorias do interior e do exterior: não é o torturador que faz perder os sentidos, é ele mesmo que passa a sentir o desejo disso. Reencontramos, claro, o desejo à obra, de modo grotesco, na reconstrução delirante da tortura.
Um passo a mais na mutação psíquica secreta da vítima é perceptível no seguinte evento relatado por Tito: ele cai nas mãos de um novo torturador, o capitão AIbernaz. «Quando eu venho na Operação-Bandeirante, eu deixo o coração em casa. Eu tenho horror dos curas... Você conhece Fulano e Beltrano? (menciona os nomes de dois presos políticos torturados, com muita selvageria por ele), você vai ter direito ao mesmo tratamento: descargas elétricas o dia todo. Para cada um de seus NÃO, você receberá uma descarga mais importante. Havia três militares na sala. Um deles gritou: "Eu quero nomes de homens e de organizações clandestinas ".
Quando eu respondi: "Eu não sei, eu recebi uma descarga elétrica tão forte, daquelas diretamente plugadas na tomada, que eu perdi o controle de minhas funções fisiológicas [5]
É difícil superarmos o pathos desta situação, e o espanto onde é deixado o leitor. Medimos a decadência onde é levado o verbo nesta experiência, tanto pela nossa tendência em ficar sem voz perante este relato quanto pelo fato de que o torturador parece não esperar por outra resposta a não ser exatamente o NÃO. O desespero na tortura passa pela decadência da linguagem. Há algo realmente infame nesta estratégia que usa, com aparente objetivo de fazer falar, de um constrangimento que organicamente castra a pessoa de seus meios de expressão, a tal ponto que o leitor é submetido à convicção, nesta passagem, que a tortura não é usada como um método de interrogatório policial, mas que ela tem um objetivo autônomo que é o de uma compromissão.
De fato, as descargas elétricas visam precisamente aqui a levar a vítima a se sujar. Ainda em sua narração, Tito alude a alguns as várias pessoas presentes ao lado do torturador: uma multidão de olhares que, portanto, concorrem, através de voyeurismo, para erotizar o relaxamento dos esfíncteres e os afectos múltiplos que o sujeito passa a sentir. Insistimos no exibicionismo presente em seu delírio e pode-se ver neste exibicionismo delirante a retomada de um afecto sofrido na tortura, o qual Tito não tinha meios de controlar, ao escrever.
O horror continua para ele: «Ele (o torturador) entrou nos ataques morais: Quais os padres que têm amantes? Por que a Igreja não expulsou vocês todos? Quem são os padres terroristas? Disse que a Igreja é corrupta, que pratica malversações financeiras, que o Vaticano é o proprietário das maiores empresas. A todas minhas respostas negativas, eles me davam descargas, socos, pontapés, e golpes de vara no tórax. Num determinado momento, o capitão Albernaz ordenou que eu abrisse a boca para receber "a hóstia sagrada ". Ele introduziu um fio elétrico. Eu permaneci de boca inchada, sem poder falar adequadamente. Eles gritavam contra a Igreja. Eles gritavam que os padres são uns homossexuais porque eles não são casados... Eles só pararam às quatorze horas» (nota-se que tinham começado de manhã às oito horas)[6].
A densidade patética da narração vem da pressa com que foi escrito, como em uma luta contra o esquecimento, contra o recalque benfazejo a curto prazo, mas que o alienará posteriormente, ao ter que rememorar pelo viés do delírio.
Tito, como foi falado, nunca mais conseguiu habitar sua identidade de religioso, e uma parte grande de seus escritos expressará a busca dolorosa de uma espiritualidade nova, impossível porquanto a procurava exclusivamente na reconciliação de ideais contraditórios: Freud e Marx, Marx e Cristo, etc.
Neste último fragmento da narração, percebe-se melhor por que procedimento a tortura consegue a mutação psicológica do sujeito. Consiste na destruição de auto-representações idealizantes do eu. Mais justamente aqui, o que especificamente é contestado é a representação a mais espiritual, a mais especular também, a do padre. Destruição seguida pela imposição de uma nova identidade, como a negativa da anterior,: «Você é um falso padre», em contradição: “A Igreja é corrupta », e na sensação de uma decadência: «Os padres são uns homossexuais.»
Da maneira que o Tito consegue evocá-lo, o procedimento torturador parece desenvolver-se como um drama do qual a cena paródica da comunhão seria o ápice. Com uma malignidade estratégica que só uma relação muito apaixonada pode inspirar, a manipulação pelo torturador do simbolismo religioso visa desacreditar, tornar em derrisão um setor da identidade da vítima, aquele do qual pode-se dizer que ele é o lugar de todas as sublimações e todas as transcendências. Ele é desacreditado porque é reduzido a um gestual quase pornográfica, neste contexto de excitação corporal, depois de tantas horas de sevícias.
Imagina-se que foi neste momento preciso que Tito de Alencar perdeu toda possibilidade de se reconhecer como o padre que ele era. A razão pela qual deve ter aderido a esta paródia está em relação com o ardil que consiste, não tanto em denunciar ex-abrupto a religião, mas em fazer ressaltar o embasamento pulsional, a partir do qual a sublimação religiosa pôde desenvolver-se. De fato, o torturador só faz virar de sua vertente solar, sublimatória, para uma vertente sombria pulsional. A tortura se revela como uma operação de sublimação.
Também é uma operação de despoetização. Porque se prestamos atenção, neste fragmento de narração, à importância das palavras que são expressadas pelos carrascos, nota-se vários pontos. Como provavelmente em outros momentos, o carrasco não deixa de insultar a vítima, mas, notemo-lo, de um modo relativamente sincronizado com as crueldades físicas. Como se cada interjeição fosse lançada e fosse introduzida no sujeito após um trauma físico. De fato, esta linguagem diz coisas das quais não é possível evitar a falsidade, já que contém, apesar de tudo, sua parte de verdade. E é sobre a ambigüidade do verdadeiro e do falso que está jogando: sobre a palavra homossexual, por exemplo, verdadeira de uma verdade que, latente, concerne todo ser humano, verdadeira também de uma verdade de fato, na situação do ser Tito que está sofrendo passivamente uma paródia de felação em um contexto de exibicionismo-voyeurismo. Na realidade, não somente a linguagem se introduz no rasto das sevícias corporais, mas, bem mais, ela as acompanha e vem lhes dar um sentido que por si só não poderiam ter. A linguagem funciona aqui como um veredicto, melhor, como uma interpretação selvagem que vem estigmatizar de modo absolutamente irreversível a ressonância emocional que as sevícias tentam provocar no sujeito.
Pode-se dizer que com o insulto, o carrasco completa sua estratégia e encerra a experiência. A linguagem assumiria assim um papel análogo aos olhares das pessoas que assistem à cena. Pois como Tito poderá, para sempre, repensar este momento da experiência onde, despido, humilhado, constrangido, está apanhando, sendo passivamente estuprado, sem que seja através do veredicto das vozes e dos olhares: «Você é um homossexual», «Você se entrega e se expõe como uma mulher»?
Esta palavra que diz ao mesmo tempo o verdadeiro e o falso, que se impõe do exterior e acha sua ressonância dentro, não poderá mais ser objeto de uma elaboração espontânea. Caída de seu estatuto semântico, sofreu uma despoetização que a reduziu a um mero corpo estranho, uma coisa que habitará duravelmente o sujeito e que reencontraremos à obra, novamente, na hora das fases menos subterrâneas do seu delírio, quando a voz do torturador lhe ditará cada ato de sua vida.
Não há duvida que Tito de Alencar morreu no decorrer de suas torturas. Mesmo incorrendo no risco do pathos, estou inclinado a afirmar essa proposição na medida em que o que Tito era, o religioso, o lutador, mas também o homem inscrito numa história privada, doméstica, o filho, o irmão, não o era mais. Tito se tornou alguém outro, aquele que seu torturador teria querido que fosse. É neste sentido que pode-se dizer que era um sobrevivente do qual era talvez impossível, a nós que não havíamos passado por essa provas, entendermos o que dele sobrevivia.
Tudo aconteceu como se a tortura tivesse substituído um homem novo ao homem velho que ele era, o que só faz retomar o espírito da tortura onde o torturador focaliza seu olhar num só ângulo, o ser enquanto vítima, menosprezando absolutamente a realidade existencial do sujeito. Nos chamou muito a atenção ver que, quando uma de suas irmãs fez uma longa e cara viagem do Brasil para a França para ajudá-lo, mal a reconheceu, aceitou nenhuma familiaridade com ela, ficando impermeável a todas as tentativas para fazer reviver seu passado.
Ele era o novo personagem criado por Fleury, e isto é exatamente aquilo que a tortura visava. Pois anota-se um estreito parentesco entre a maneira com que o carrasco manipula as sevícias físicas e o modo com que manipula o insulto verbal. Nos dois casos, trata-se menos de ferir o exterior do que provocar um movimento interno de autodestruição e um movimento de autocrítica que devem continuar agindo por conta própria. É o que Tito de Alencar demonstrou em seu delírio quando impôs a si mesmo todas as privações que sabemos, mas também nesta atividade incessantemente repetida de auto-acusação. Seu caso poderia ser considerado como uma tortura exitosa, ou seja é possível que o ideal do torturador esteja em por a caminho o que, na pessoa humana, está disponível para uma auto-tortura (como conhecemos com freqüência na patologia): auto-desvalorização, autocrítica, autopunição. É talvez desta agudez psicológica que se vangloriou o Albernaz quando Tito lhe ouviu dizer: "Nós sabemos fazer coisas sem deixar rastros. Se sobreviver, nunca esquecerá do preço de sua audácia"[7].
Em um momento bem preciso, Tito teve o sentimento de ter traído, dando nomes. Ele se acusará precisamente por muito tempo, de modo melancólico, embora todos os testemunhos contrariam essa convicção: ele não teria entregado nenhum nome sob a tortura. Vê-se aí, nesta auto-acusação, um meio cômodo, imediato, para racionalizar sua culpabilidade, mas também, sobre esta culpa clássica de torturado, vem deslocando um sentimento mais escuro e expansivo da traição. Nas escritas, este sentimento de traição assume a forma de uma preocupação nascente para com o destino dos seus Irmãos Dominicanos. "Em minha cela eu não conseguia dormir. A dor aumentava cada vez mais. Eu tinha a impressão que minha cabeça era três vezes mais grossa que meu corpo. Era preciso acabar com isso uma vez por todas. Eu sentia que não poderia agüentar tamanho sofrimento por muito tempo. Eu estava angustiado à idéia que meus Irmãos Dominicanos pudessem sofrer a mesma coisa".
O desejo de morrer permanece indissociável deste sentimento de traição que representa a essência mesma da auto-tortura , tanto quanto é a meta suprema da tortura, pois é o grupo ao qual pertence a vítima que o algoz tenta alcançar por meio dela. Ora ao mesmo momento, uma campanha de imprensa é orquestrada publicamente contra o grupo dos Dominicanos. O jornal O Globo publicou o seguinte: «Eles (os Dominicanos) traíram a fé ao aderir ao comunismo, e traíram o comunismo ao entregar Marighela. São os novos Judas [8]» É impressionante como as mesmas acusações difamatórias, as mesmas calúnias, circulam aqui, no século, e ali, no espaço fechado, clandestino, inter-individual, da tortura. Sentimo-nos autorizados a considerar que é a mesma guerra que um certo grupo ideológico realiza contra um outro, aqui e ali. Daí a idéia de que a tortura poderia ser entendida como um tipo de microcosmo da guerra mais geral, oficial, uma guerra de «laboratório», onde os obstáculos, os fracassos que o poder enfrenta na realidade seriam como magicamente eliminados. Um microcosmo onde o poder se dá a ilusão de que a realidade é complacente com seu desejo: a tortura seria um campo de utopia. Ao esmagar Tito de Alencar fisicamente e espiritualmente, o torturador, e o grupo do qual ele é o representante, visavam talvez nada mais que reforçar-se na convicção de que eles poderiam acabar, sem dificuldade, com uma oposição de idéias, que ameaçava sua própria convicção.
A busca desta ilusão de vitória responde muito melhor pela crueldade das sevícias do que uma suposta busca de informações, já que, como se viu, estas sevícias quase sempre colocavam o Tito na impossibilidade de falar.
Tito, pessoa bem real, no entanto é torturado enquanto efígie do grupo dominicano do qual ele é o símbolo. Há na tortura um fundo de exorcismo que fica preso ao não-dito, ao não-sabido, de um lado e do outro, mas que traz sua própria confusão ao mistério da experiência. Freud, em Totem e Tabu, explica: "Um dos processos mágicos do qual se usa mais comumente para prejudicar um inimigo, consiste em fabricar sua efígie com materiais quaisquer. Poderá ainda se demonstrar que tal ou tal objeto representa sua imagem. Tudo o que se inflige a esta efígie atinge o modelo odiado. É suficiente ferir qualquer parte daquela, para que a parte correspondente do corpo deste fique doente”[9]. O material qualquer está aqui sendo Tito de Alencar, e o objeto que representa a imagem, é seu corpo.
Fiquemos com esta hipótese da tortura como prática exorcista, enquanto nos permite acompanhar a decadência da palavra e da linguagem tal qual acontece na tortura, até conduzir a esta forma semiótica particular que é a confissão. É de fato numa progressão experta que Tito de Alencar será despojado da sua palavra de homem, desde que a clandestinidade e a ilegalidade da tortura tiram toda referência ética. Despojado em seguida de sua palavra de homem, na medida em que a dominação sexual almejada pelo carrasco conduz a vítima a identificar-se a um corpo erógeno que só fala de excitação e compulsão à repetição. E enfim, com esta fase que a imagem de efígie ajuda a figurar, entendemos que a palavra chamada pelo torturador é não a palavra de Tito de Alencar, sobre Tito de Alencar, mas a palavra do representante de um certo grupo sobre o grupo em questão. É portanto uma palavra que, longe de ser ao serviço de uma verdade qualquer, não tem outra razão de ser senão tentar responder a uma expectativa bem precisa do torturador. Esta expectativa seria evidentemente a entrega de nomes, a prova de uma compromissão, de um erro, de uma traição, tanto faz. Porque, qualquer coisa que a vítima diz ou não diz,, esta será uma palavra que o executor ouvirá do jeito que ele esperava: eis a confissão.
Tudo fala em favor do torturador, como tudo concorre para provar à vítima que ela falou, porque a confissão nunca corresponde a uma declaração qualquer, mas a uma certa forma de decadência da linguagem onde o sinal verbal só se interpreta através do desejo daquele que o está escutando.
A ausência de terceiro, o livre desenvolvimento da onipotência do desejo do carrasco, caracterizam suficientemente o caráter furioso, psicótico, desta situação de tortura, que a decadência do verbo vem cristalizar.
Já há um século, um autor como Jules Michelet tinha percebido a dimensão delirante disto: «Uma bruxa confessa ter puxado ultimamente do cemitério o corpo de uma criança morta, para usar este corpo em suas composições mágicas. Seu marido diz: " Vá para o cemitério. A criança está ali". O corpo é exumado, encontrado exatamente no seu lençol. Mas o juiz decide, contra o testemunho de seus olhos, que é uma "aparência", uma ilusão do Diabo. Ele prefere a confissão da mulher ao fato em si. A mulher é queimada[10]
Esta decadência da palavra, Tito a denunciará no longo mutismo que pudemos observar, bem como no automatismo mental, onde uma voz que não era mais a sua falava dentro dele.
A prática do torturador é louca, e, frente a esta loucura passional, a denúncia e a luta política têm que se fazer, no mesmo grau, passionais e impiedosas. Mas ela é também louca no sentido psiquiátrico do termo. Sem que isso em nada contamina a luta política, devemos clarear isto porque esta loucura situacional exerce por si só um efeito psíquico destrutivo sobre a vítima; mas existe também um interesse antropológico em entender este fato realmente misterioso de que homens civilizados possam endossar a responsabilidade de tal prática.
Pierre Vidal-Naquet[11], a propósito de torturas praticadas na Argélia antes da independência, nos convence da idéia de que a tortura só foi possível porque políticos deixaram seriamente de cumprir com sua função de controle das instituições e autorizaram um vazio legal que só permitiu a instalação de práticas torturadoras. Abandonado pelo jurista, dispensado, não sem complacência, pela lei, o soldado se torna torturador e, se assim pode-se dizer, ele se torna também louco, autorizando-se de uma conduta exorcista e mágica que lhe serve no lugar de pensamento.
Realmente só uma loucura, ou digamos um enlouquecimento, permite entender a crueldade extraordinária demonstrada nestas situações, a implacabilidade sádica que amarra literalmente o carrasco à sua vítima e do qual a narração de Tito de Alencar dá uma descrição de um realismo comovente e uma grande agudez psicológica. De fato, é de uma certa face do torturador, com sua estarrecedora inumanidade, que, constantemente, este texto nos fala.
Imagina-se a revelação que constitui para a vítima o encontro com este rosto do homem que desvela brutalmente, sardonicamente, o torturador,:
Tito terá que se debater com essa imagem, ao mesmo tempo para nela se reconhecer a si mesmo enquanto homem, e para dela se livrar numa contra-identificação às vezes próxima ao angelismo.
Aludimos, na história de Tito de Alencar, ao exibicionismo um pouco histérico que demonstrava. Em sua indiferença para com os outros, não estava ausente uma certa arrogância, até mesmo a convicção secreta de ser um herói, por ter passado por uma prova conhecida de nenhum outro, de ser de certo modo um iniciado. Ao lado do que tirava para o sentimento de decadência, uma patologia do «Eu grandioso» presidia ao seu isolamento. A mesma talvez tinha achado sua justificação na estranheza da experiência que, na confusão onde ele se encontrava, ele elaborou nos termos de uma iniciação sacrificatória da qual teria sido o único depositário, igual ao Cristo ao qual lhe ocorreu repetidamente se comparar.
Por nossa vez, fomos fascinados pela experiência que viveu, porquanto nela nos tocamos com este encontro inédito do homem, em sua crueldade virtual, da qual a civilização nos protege e nos separa. Eu vejo, pessoalmente, na multidão de escritos que esta vida suscitou, uma vontade de transmitir - não sem a idéia de uma possível redenção - esta revelação, em um movimento quase angélico. Mas estes atos de palavra têm no entanto uma função autônoma: livrar a palavra de Tito da subversão que a tortura lhe teria infligido.
É sempre por ocasião de causas religiosas, espirituais, ideológicas, que a tortura se desenvolveu. Não podemos desconhecer que neste contexto de idealidade - e de predisposição mágica que o próprio ideal proporciona - a tortura é tanto mais tentadora quanto lhe é atribuída uma eficácia que não tem a ver com a objetividade, mas com o poder de anulação que ela sabe implementar. Os processos de feitiçaria, a Inquisição, as dragonadas, os recentes genocídios que intentavam destruir como representante do mal o que era da ordem da diferença, todos convidaram a tortura para este fim.
JEAN-CLAUDE ROLLAND
Tradução: Xavier Plassat

Título original: Un Homme torturé: Tito de Alencar

9 de agosto de 2013

Perfeição ou santidade

Esse texto me foi enviado pela amiga  Monica Valentim  como comentário a uma postagem minha numa rede social sobre santidade. O texto é maravilhoso e merece ser lido e refletido. Na verdade parece que é mais completo que o  que aparece no livro de mesmo nome do autor.
O meu agradecimento à Monica e ao Pe. Netto que não conheço, mas curto desde já o desejo de não só conhecê-lo, como poder manter boas conversas com ele.



 P. José Antônio Netto de Oliveira, S.J. 

 Não é necessário um grande esforço de observação para notar que muitos cristãos, e particularmente cristãos consagrados, não vivem sua fé com alegria, não dão um testemunho existencial de que o Evangelho é uma alvissareira Boa Notícia para todo ser humano, uma libertação de todo medo diante da revelação, em Jesus Cristo, da inexplicável misericórdia, do perdão, do amor incondicional de Deus para com suas criaturas.
Cristãos e cristãos consagrados parecem viver um interminável sentimento de culpa diante de Deus, sempre sentindo-se em dívida e conseqüentemente experimentando uma separação - ou pelo menos distância e frieza - no relacionamento com Ele. O Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo, revelado como infinita ternura, misericórdia, amor, proximidade para com o homem pecador não é então percebido como Pai, mas como um juiz mal humorado, eternamente esquadrinhando nossa vida atrás de infidelidades, desobediências e fraquezas. Em vez da intimidade, da proximidade e da alegria que Jesus manifesta no seu relacionamento com o Pai, nós, como Adão no Paraíso, sentimos medo de Deus e procuramos esconder-nos.
Nós, cristãos, nem sempre temos sabido refletir em nossos próprios rostos a alegria de Deus: desde o escrúpulo até a angústia, desde a estreiteza de espírito até a inimizade para com o corpo, desde um ascetismo não integrado até um legalismo sem calor... damos demasiadas vezes a impressão de que somos pessoas mais presas do que libertadas por nosso Deus.
As causas desses sentimentos e comportamentos dos cristãos, pouco reveladores da Boa Notícia de Jesus, podem ser procuradas em múltiplas direções: no tipo de educação religiosa recebida, na psicologia pessoal mais ou menos propensa a sentimentos de culpa e de escrupulosidade, na experiência de se ter sido ou não amado com gratuidade, na experiência pessoal de Deus, nas múltiplas camadas teológicas e ideológicas que se foram superpondo, obscurecendo muitas vezes a experiência original do cristianismo e, conseqüentemente, da alegria cristã.
Confundir santidade e perfeição, com a conotação que a palavra perfeição tem aos nossos ouvidos, hoje, é condenar-nos a uma eterna insatisfação conosco mesmos, a uma auto-condenação permanente, porque percebemos que somos a cada dia mais imperfeitos, na medida mesmo em que avançamos na vida. Passar desse sentimento à conclusão de que a santidade não é para nós... é um pulo. Desistimos, então, da santidade, não ouvimos mais o apelo de Deus -"sede santos porque eu sou santo"- e nos condenamos à mediocridade na vida cristã.
A perfeição
A interpretação da santidade como perfeição tem suas raízes no Evangelho de São Mateus: mais particularmente em Mt 5,48: "Sede perfeitos como vosso Pai celestial é perfeito". Examinemos rapidamente este texto.
Devemos notar, primeiramente, que a perfeição, segundo o Antigo Testamento, não é um atributo de Deus. Em nenhuma ocasião o Antigo Testamento chama Deus de "perfeito". Chama-o de "Santo". Nos evangelhos, o adjetivo "perfeito" (teleios) aparece somente duas vezes e ambas em Mateus: Mt 5,48 "Sede perfeitos como vosso Pai celestial é perfeito" e Mt 19,21 "Se queres ser perfeito" pergunta Jesus ao jovem rico.
Na mentalidade hebraica a perfeição é antes um atributo humano que expressa a idéia de totalidade, aplicando-se ao que é completo, intacto, àquilo que de nada carece. Quando em Mt 19,21, Jesus diz: "Se queres ser perfeito", quer significar: se queres que nada te falte, se queres não ter limite algum...
Ao afirmar "sede perfeitos como vosso Pai Celestial é perfeito", Mateus estaria projetando em Deus uma qualidade propriamente humana. Encontramo-nos diante de um antropomorfismo: (Antropomorfismo é uma forma de pensamento que atribui características ou aspectos humanos a Deus,elementos da natureza, animais e constituintes da realidade em geral.)
Mateus nos convida a imitar em Deus uma qualidade que não é propriamente divina, mas que é a projeção em Deus de um ideal humano.A perspectiva de Mateus aparentemente parece ser mais moralista que teológica: sua atenção está centrada no dever que se impõe ao homem, na conduta que este deve adotar com relação a seus irmãos para cumprir perfeitamente a vontade divina.
Verifica-se, pois, que neste texto de Mateus, o ponto de partida da santidade já não seria Deus em primeiro lugar, mas o que o homem deve fazer. A atenção se desloca da misericórdia de Deus - como na versão de Lucas - "Sede misericordiosos como vosso Pai é misericordioso", para a perfeição do homem, como um progresso no desenvolvimento ontológico do ser humano. A santidade passa a ser vista como a perfeição no cumprimento da lei, manifestação da vontade divina e na prática das boas obras, frutos, basicamente, do esforço do homem.
Santidade, perfeição e pecado
Outra realidade que chama nossa atenção é o fato de que os santos canonizados pela Igreja nunca terem se considerado santos. Antes, muito pelo contrário, todos se confessaram grandes pecadores, até o fim de suas vidas, e praticaram penitências por seus pecados que nos assustam.
Apesar dessa consciência de serem imperfeitos e pecadores, eram santos, e a Igreja reconheceu sua santidade, canonizando-os. Não existe, pois, uma incompatibilidade radical entre santidade e pecado. Pode-se ser simultaneamente santo e pecador.
Se passarmos à relação entre pecado e perfeição aí encontraremos essa incompatibilidade: não se pode ser simultaneamente perfeito e pecador uma vez que o pecado é a imperfeição por excelência. A perfeição exclui necessariamente o pecado. Esta breve consideração poderá ajudar a entender melhor as reflexões que se seguem.
Ter pecado e ser pecador
É igualmente importante para a intelecção do que se segue captar a distinção entre ter pecado(s) e ser pecador.
Ter pecado(s) é a consciência que temos de ter falhado objetivamente no amor para com Deus, para conosco mesmos ou para com o próximo. Antes de nos dirigirmos ao sacramento da penitência, costumamos parar, fazer um exame de consciência perguntando-nos "quais os pecados que tenho", quais minhas faltas objetivas de amor desde a última confissão. Comunicamos, então, ao sacerdote, os pecados que "temos" e, se estamos arrependidos, somos perdoados, Deus nos assegura o seu perdão. Saindo da confissão, já não temos mais pecados.
Ser pecador é a consciência que temos de nossa fragilidade. Saindo da confissão não temos mais pecado, mas reconhecemos que estamos num estado de fraqueza, que somos vasos de barro, muito quebradiços. O pecado atingiu, de certa maneira, algo de profundo em nós, atingiu de algum modo o nosso ser, o nosso coração, como diz a Bíblia (é do coração que saem os maus pensamentos, assassinatos etc.). Encontramo-nos todos numa situação de vulnerabilidade. Cada um percebe no seu "coração" certas tendências inatas para o mal e para o pecado que os teólogos chamam de concupiscências: tendências para o orgulho, a avareza, a gula, a luxúria, a preguiça etc.. É porque estamos neste estado de fragilidade, é porque somos pecadores que voltamos novamente a cometer pecados e assim teremos de confessar-nos uma e outra vez até o final de nossa vida.
Reconhecer não somente que temos pecado, mas também que somos pecadores, é abrir-se para a verdade do próprio ser, é o início do esvaziamento de si, é começar a descer à verdadeira humildade diante de Deus e diante dos homens.
Impasses da perfeição
O conceito de perfeição que cada um tem em sua própria cabeça não é puramente teórico, porque o conceito de perfeição forma-se ao longo da vida, é existencial; Portanto, vem marcado por cargas afetivas desde a primeira infância: os comportamentos corretos, perfeitos, eram premiados; os imperfeitos, incorretos, eram punidos. O conceito de perfeição foi-se formando em nós a partir de nossa educação, a partir de experiências integradoras ou traumatizantes, de sentimentos de culpabilidade e castigo, ou de libertação e perdão. Normalmente terminamos com um conceito de perfeição que se identifica, no plano pessoal, com não ter defeitos, não ter vícios, não ter traumas nem marcas psíquicas negativas, não ter nenhuma fraqueza, nenhuma falha, nenhum pecado etc.
A busca da perfeição é um projeto do homem, um ideal humano. Trata-se de um projeto fechado dentro do próprio eu orgulhoso, que exige o máximo de si, o máximo de esforço para não falhar em ponto algum, uma vez que o perfeccionista está convencido de que somente será amado por Deus e pelos demais se for perfeito. Nesse esforço ele tende a contar exclusivamente consigo mesmo, prescindindo de Deus e dos outros.
A perfeição estaria no fim do caminho que traçamos para nós, do ideal que nos propusemos, ou então no topo de uma escada que decidimos subir com nosso esforço, galgando degrau por degrau, eliminando vícios e adquirindo virtudes numa busca tensa. A perfeição não suporta o pecado, uma vez que o perfeccionista vê o pecado não como uma ruptura de laços de amor, não algo em relação a um outro, mas como um problema pessoal em relação ao próprio ideal: "falhei no meu ideal, no ideal que me havia proposto". Esta verificação é sempre sentida como humilhação.
O perfeccionista procura viver apenas com os melhores fragmentos de si mesmo, aqueles que estão conforme com as normas, com o ideal buscado, com o que pensa que os outros esperam dele. O resto, as fraquezas, as tendências obscuras, os fragmentos dos quais está menos orgulhoso, ficam trancados para sempre nas margens da consciência. Eles são recusados e negados. Desse modo, a chaga secreta que está fermentando, supurando e contaminando a vida nunca é reconhecida, nunca vem à luz. A perfeição, humilhada pelo pecado e pelas fraquezas, tende a fechar a pessoa sobre si, e fechá-la para Deus e para os outros. O amor desaparece. O perfeccionista tende a voltar-se sobre si, tornando-se seu próprio juiz e autocondenando-se. Após certo tempo de luta, sua vida pode tornar-se amargurada: amargurada consigo, com Deus, com os outros, com tudo.
Sede misericordiosos
A compaixão e a misericórdia são os mais característicos atributos divinos na teologia de Israel. Lucas nos convida, portanto, a imitar uma maneira de ser que é, antes de mais nada, a de Deus. Mostrando-se misericordiosos, os discípulos de Jesus se assemelham ao exemplo que Deus nos dá. A atenção aqui está voltada para a visão dos sentimentos da misericórdia de Deus para com seus filhos, na solicitude do Senhor para com os pecadores, os mais desamparados e necessitados. A conduta do homem deve se regular, deve imitar a conduta de Deus.
O versículo 6,36 conclui de modo natural à instrução sobre o amor aos inimigos. Lucas começa com uma recomendação: v. 27 "Amai os vossos inimigos..." Esta recomendação é reforçada por uma primeira consideração em forma negativa: "não imiteis os pagãos e os publicanos, que só amam aqueles que os amam" (v. 32). Finalmente uma segunda consideração em forma positiva convida a imitar a Deus: "mostrai-vos como filhos do Altíssimo... e sede misericordiosos como o vosso Pai é misericordioso".
Os exegetas nos asseguram que esta versão de Lucas reflete, mais exatamente que Mateus, o pensamento de Jesus, que nos convida a assemelhar-nos a seu Pai reproduzindo em nossas vidas os sentimentos de compaixão e misericórdia que Ele tem para com os homens. Por meio dessa conduta com os irmãos aderimos a Deus, reforça-se nosso vínculo de pertença a Ele e, nesse sentido, somos santos como Ele é santo.
O tema da santidade, por conseguinte, deve ser reconduzido à interpretação que Jesus dá da misericórdia de Deus e ao que, de tal imagem paterna deriva, como norma e caminho para a conduta do homem e sua pertença a Deus.
A santidade
Em vez de optarmos pela perfeição, podemos optar pela santidade, e santidade está relacionada com compaixão, com misericórdia, com amor, com esse convite que Deus nos faz: "Sede santos porque Eu sou santo". Deus é amor, e nisso consiste a santidade de Deus. Santificar-se é, pois, abrir-se para o amor, dentro mesmo dessa nossa realidade de criaturas limitadas, frágeis, pecadoras, “vasos de barro”, como diz São Paulo. Ora, essa capacidade de amar nos é dada por Deus, é um dom de Deus.
A santidade, portanto, me é dada por Deus e me é dada já, imediatamente: sou amado por Deus, sem condições, aqui e agora, com todas as minhas imperfeições, pecados, fraquezas, debilidades, limitações, traumas... e esse amor de Deus, sem condições, me torna capaz de amar agora, de fazer o bem agora, de servir agora, de ser santo agora, apesar de minhas imperfeições e fraquezas. A grande ilusão é pensar que só poderemos amar, servir, fazer o bem quando formos perfeitos. Somos santos agora e devemos amar agora, embora sejamos também pecadores: somos uma Igreja pecadora e santa.
A santidade nunca é humilhada pelo pecado, porque a santidade é humilde. Somos humilhados quando pensamos ser alguém, quando nos colocamos num pedestal, quando nos julgamos melhores do que os outros... somos humildes quando aceitamos ser pobres, ser frágeis, limitados, pecadores, mas amados na nossa pobreza e fragilidade.
A santidade é recusa de deixar-se fechar no próprio pecado, é a capacidade de ultrapassar as próprias condenações porque Outro nos acolhe e nos ama, apesar de nosso pecado. A superação da auto-condenação está na entrega da vida a Deus, em saber-se amado como pecador, porque pecadores seremos sempre até o fim da vida. Santidade é a certeza de não podermos nos salvar a nós mesmos e acolher, na ação de graças, uma salvação que nos é oferecida gratuitamente por Deus que nos ama. A santidade nunca leva ao fechamento, antes se abre para Deus acolhendo sempre o seu perdão e abre-se para os outros no amor, no serviço e no dom. Santidade é a recusa de ser o seu próprio juiz, deixando o juízo para Alguém que nos ama e vela por nós com amor. A santidade liberta, é confiante, é alegre; leva-nos a passar da recusa e condenação de nós mesmos e dos outros para a descoberta de nós e dos outros.
Se a perfeição era colocada em termos de uma subida laboriosa de uma escada, a santidade pode ser também representada por esse símbolo da escada, somente que se trata agora de uma descida progressiva a caminho de uma radical humildade. De fato, se meditamos atentamente o evangelho, encontramos Jesus convidando continuamente seus discípulos a uma descida: quem quiser ser o primeiro, seja o último, o servidor de todos; quem se exalta será humilhado, quem se humilha será exaltado; se não vos tornardes como crianças não entrareis no Reino; felizes os pobres porque deles é o Reino.
Trata-se de um esvaziar-se progressivo de toda auto-suficiência e orgulho, de toda ambição de riquezas, de prestígio e projeção, de poder de dominação e opressão, no seguimento do Filho de Deus que "esvaziou-se a si mesmo tomando nossa condição humana". O orgulho fecha o homem sobre si e o impede de amar, de ser santo. A humildade é o reconhecimento pacífico da própria condição de criatura pecadora e frágil, mas amada por Deus, é a porta para a santidade, isto é, para poder amar os irmãos e irmãs pecadores e frágeis como somos amados embora pecadores e frágeis.
Permanecer aí, no fundo do templo, como o publicano da parábola, reconhecendo a própria pobreza, numa súplica permanente: "tem piedade de mim, Senhor, porque sou um pecador", celebrando a misericórdia de Deus para com todos os homens, é tornar-se vulnerável à dor, ao sofrimento, à falta de vida e de sentido de muitos irmãos no mundo, é começar a ter compaixão, misericórdia, é começar a amar, é caminhar para a santidade: "sede santos porque eu sou santo".
Processo evolutivo
Terminemos com uma página de rara beleza sobre a pureza do coração e conseqüentemente sobre a santidade, que se encontra no livro Sabedoria de um pobre, de Elói Leclerc (Editorial Franciscana, Braga, 1975, pp.137-140).
"...Depois de um momento de silêncio, Francisco perguntou a Leão: Irmão, sabes acaso o que é a pureza de coração? - É não termos falta alguma de que nos acusemos, respondeu Leão sem hesitar. - Então compreendo a tua tristeza, disse Francisco, porque temos sempre alguma coisa de que nos acusar. - Sim, concordou Leão, e é precisamente isso que faz com que eu perca a esperança de chegar um dia à pureza de coração.
Ah! Frei Leão, acredita-me, retorquiu Francisco, não te preocupes tanto com a pureza de tua alma. Volta o olhar para Deus. Regozija-te por Ele ser todo santidade. Dá-lhe graças por causa dele mesmo. Isso é que é, irmãozinho, ter o coração puro. E quando estiveres voltado para Deus, não voltes a debruçar-te sobre ti. Não perguntes a ti próprio em que ponto estás em relação a Deus. A tristeza de não sermos perfeitos, de nos descobrirmos pecadores é, ainda, um sentimento humano, demasiadamente humano. É preciso que eleves o teu olhar mais alto, muito mais alto. Há Deus, a imensidade de Deus e o seu inalterável esplendor. O coração puro é aquele que não cessa de adorar o Senhor vivo e verdadeiro; o que toma um interesse profundo pela própria vida de Deus e é capaz, no meio de todas as suas misérias, de vibrar com a eterna inocência e a eterna alegria de Deus. Semelhante coração é, há um tempo, despojado e cumulado. Basta-lhe que Deus seja Deus. É mesmo nisso que ele encontra toda a sua paz, todo o seu amor. E então, é o próprio Deus que é toda a sua santidade.
Deus, no entanto, exige o nosso esforço e a nossa fidelidade, observou Leão.
Sim, sem dúvida, respondeu Francisco. Mas a santidade não é uma realização do nosso eu, nem uma plenitude que nos damos a nós mesmos. Acima de tudo ela é um vazio que descobrimos em nós, que aceitamos e que Deus vem encher na medida em que nos abrimos à sua plenitude. O nosso nada, compreendes, quando é aceito, transforma-se no espaço vazio onde Deus pode, ainda, criar. O Senhor não deixa que ninguém lhe roube a sua glória. Ele é o Senhor, o único, o Santo. Toma, porém o pobre pela mão, tira-o da lama e fá-lo sentar no meio dos príncipes do seu povo a fim de que ele veja a sua glória. Deus torna-se, então o céu da sua alma.
Contemplar a glória de Deus, Frei Leão, descobrir que Deus é Deus, eternamente Deus para além do que nós somos ou possamos ser, alegrar-se, em cheio, com aquilo que Ele é, extasiar-se diante de sua eterna juventude e dar-lhe graças por causa da sua indefectível misericórdia, eis a exigência mais profunda desse amor que o espírito do Senhor não cessa de derramar em nossos corações. Ter o coração puro é isto. Mas esta pureza não se obtém à força de punhos e de tensão.
Que fazer para a alcançar? perguntou Leão.
Basta simplesmente nada guardar para si. Nem sequer essa percepção aguda da nossa miséria. Desprender-se de tudo. Aceitar ser pobre. Renunciar a tudo o que é pesado, inclusive ao peso das nossas faltas. Já não ver senão a glória do Senhor e deixar-se iluminar por ela. Deus é, isto basta. O coração como a cotovia ébria de espaço e de azul abandonou todo e qualquer cuidado, toda e qualquer inquietação. O seu desejo de perfeição mudou-se num simples e puro querer de Deus.
Leão escutava com ar grave, enquanto ia caminhando adiante de seu pai. Porém, à medida que avançava, sentia que o coração se lhe tornava leve e que uma grande paz o invadia".
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P. José Antônio Netto de Oliveira, S.J. Membro do Centro de Espiritualidade de Itaici. Atualmente, dedica-se à orientação espiritual dos estudantes jesuítas brasileiros. Este é um trecho de um artigo publicado na Revista de Espiritualidade Inaciana de Itaici