O absurdo e a Graça

Na vida hoje caminhamos entre uma fome que condena ao sofrimento uma enorme parcela da humanidade e uma tecnologia moderníssima que garante um padrão de conforto e bem estar nunca antes imaginado. Um bilhão de seres humanos estão abaixo da linha da pobreza, na mais absoluta miséria, passam FOME ! Com a tecnologia que foi inventada seria possível produzir alimentos e acabar com TODA a fome no mundo, não fossem os interesses de alguns grupos detentores da tecnologia e do poder. "Para mim, o absurdo e a graça não estão mais separados. Dizer que "tudo é absurdo" ou dizer que "tudo é graça " é igualmente mentir ou trapacear... "Hoje a graça e o absurdo caminham, em mim lado a lado, não mais estranhos, mas estranhamente amigos" A cada dia, nas situações que se nos apresentam podemos decidir entre perpetuar o absurdo, ou promover a Graça. (Jean Yves Leloup) * O Blog tem o mesmo nome do livro autobiográfico de Jean Yves Leloup, e é uma forma de homenagear a quem muito tem me ensinado em seus livros retiros, seminários e workshops *

3 de setembro de 2014

"Não esperava ver uma mudança radical na Igreja"


O teólogo Hans Küng, "reformista crítico", celebra o papado de Francisco, critica a canonização de João Paulo II e fala de Céu, Inferno, eutanásia, amor carnal...
por Markus Grill — publicado 03/09/2014 05:08
Papa Francisco, o verdadeiro revolucionário
Hans küng lutou durante toda a sua vida pelas reformas hoje avaliadas pelo Vaticano. Nesta entrevista, o teólogo suíço fala sobre as probabilidades de o papa Francisco revolucionar a Igreja, por que João Paulo II não deveria ser canonizado e o que ele espera aprender no Céu.
Küng tem sido uma voz a favor da reforma da Igreja Católica há décadas: da infalibilidade papal ao celibato dos padres e à eutanásia. Sua atuação custou-lhe a licença para ensinar teologia católica e levou muitos a considerá-lo um herege. Aos 85 anos, afetado por mal de Parkinson e outras doenças, o suíço vê a Igreja sob Francisco contemplar várias das ideias defendidas por ele faz muito tempo.
Markus Grill: Professor Küng, o senhor irá para o Céu?
Hans Küng: Certamente, espero que sim.
MG: Alguns diriam que o senhor irá para o Inferno, por ser um herege aos olhos da Igreja.
HK: Não sou um herege, mas um teólogo reformista crítico. Diferentemente de muitos de meus detratores, uso como parâmetro o Evangelho, em vez da teologia medieval, a liturgia e a lei da Igreja.
MG: O Inferno existe?
HK: A referência ao Inferno é uma advertência ao fato de um ser humano poder negligenciar completamente seu propósito na vida. Não acredito em um Inferno eterno.
MG: Se o Inferno significa perder seu propósito na vida, deve ser uma noção muito secular.
HK: Os indivíduos criam seu próprio inferno, em guerras, assim como no capitalismo desenfreado.
MG: Em seu ensaio “Fragmento sobre o tema da religião”, Thomas Mann admitiu pensar na morte quase todos os dias. E o senhor?
HK: Na verdade, sempre pensei que morreria jovem, pois acreditava que, diante da minha vida louca, não chegaria aos 50 anos. Hoje estou surpreso por ter 85 e continuar vivo.
MG: O senhor é um homem idoso e doente. Tem perda auditiva aguda, osteoartrite e degeneração macular, que destruirá sua capacidade de ler.
HK: Essa seria a pior coisa, não ser mais capaz de ler.
MG: O senhor foi diagnosticado com doença de Parkinson.
HK: Entretanto, ainda trabalho muito duro todos os dias. Mas interpreto todas essas coisas como sinais de advertência sobre minha morte iminente. Minha caligrafia tem ficado pequena e muitas vezes ilegível, quase como se estivesse prestes a desaparecer. Meus dedos falham. É um fato que minha condição geral deteriorou. Mas eu também combato isso. Nado 15 minutos todos os dias onde moro e faço exercícios de fisioterapia, assim como exercícios para a voz e para os dedos, e me dedico a novas tarefas. Além disso, tomo vários remédios por dia.
MG: O senhor escreveu mais de 60 livros e sempre foi um homem muito produtivo, que gostava de entrar em discussões. Em suas memórias, o senhor avalia se em breve não será nada além de uma sombra de si mesmo.
HK: É claro, os diagnósticos e prognósticos dos médicos são imprecisos. Minha visão, por exemplo, deteriora-se mais lentamente do que o previsto. Dois anos atrás, meu médico disse que eu só conseguiria ler por mais dois anos. E hoje ainda consigo ler. Mas vivo em aviso prévio, e estou preparado para me despedir a qualquer momento.
MG: Seu amigo, o escritor e intelectual Walter Jens, caiu em um estado de demência que rapidamente se deteriorou nove anos atrás. Ele morreu faz pouco tempo.
HK: Eu o visitei várias vezes, inclusive pouco antes de sua morte. Até alguns anos atrás, seu rosto ainda se iluminava quando eu o visitava. Mas nos últimos anos ele não se lembrava mais se tinha me visto na véspera ou um mês antes. No final, não me reconhecia mais. Foi deprimente pensar que Jens, um dos intelectuais mais importantes do pós-Guerra, havia recuado para uma espécie de infância.
MG: A demência também foi dura para Jens, ou apenas para seus parentes e amigos?
HK: No início de sua doença, quando você perguntava como se sentia, ele quase sempre dizia “péssimo” ou “mal”. Ao mesmo tempo, ele passou a apreciar pequenas coisas, como crianças, animais e doces. Eu costumava levar-lhe chocolates. No início ele comia sozinho, mas depois eu tinha de colocá-los em sua boca. Não podemos saber o que Jens experimentou no final. Mas não se pode esperar que eu aceite estar em uma condição semelhante.
MG: Em 1995, o senhor e Jens coescreveram o livro Dying With Dignity (Morrendo com Dignidade). Como cristão, o senhor pode pôr fim à sua própria vida?
HK: Sinto que a vida é um dom de Deus. Mas Deus me tornou responsável por esse dom. O mesmo se aplica à última fase da vida, a morte. O Deus da Bíblia é um Deus de compaixão, e não um déspota cruel que quer ver os seres humanos passarem o maior tempo possível em um inferno de sua própria dor. Em outras palavras, o suicídio assistido pode ser a forma definitiva de ajuda na vida.
MG: A Igreja Católica considera a eutanásia um pecado, uma infração à soberania do criador.
HK: Não apreciei quando o porta-voz do bispo de Rotemburgo declarou que o que eu havia escrito representava os ensinamentos de Küng, e não os ensinamentos da Igreja. Uma hierarquia eclesiástica que errou tanto sobre o controle de natalidade, a pílula e a inseminação artificial não deveria cometer os mesmos erros agora sobre questões relativas ao fim da vida. Nossa situação mudou fundamentalmente no século XXI. A expectativa média de vida cem anos atrás era de 45 anos, e a maioria morria cedo. Hoje tenho 85, mas é uma extensão artificial da minha vida, graças às dez pílulas que tomo diariamente, e graças aos progressos na higiene e na medicina.
MG: O senhor tem medo de uma doença prolongada?
HK: Escrevi instruções cuidadosamente formuladas e recentemente entrei para uma organização de suicídio assistido. Isso não significa que desejo cometer suicídio. Mas, caso minha doença piore, quero ter uma garantia de que posso morrer de maneira digna. Em nenhum lugar a Bíblia diz que um ser humano tem de se manter até o fim ordenado. Ninguém nos diz o que “ordenado” significa.
MG: O senhor tem de ir para outro país para ter acesso ao suicídio assistido.
HK: Sou um cidadão suíço.
MG: Como funciona exatamente? O senhor telefona e diz: estou indo?
HK: Ainda não tenho um mapa do caminho. Mas escrevi minha própria liturgia da morte no último volume de minhas memórias.
MG: Um padre não poderá lhe administrar os últimos ritos.
HK: Terei comigo um amigo que é padre, um de meus alunos.
MG: Em Os Sofrimentos do Jovem Werther, de Goethe, o protagonista se mata por amor. O livro termina com a sentença: “Nenhum padre esteve presente”. Essa é a posição da Igreja.
HK: Eu sempre objetei a que minha posição sobre a morte fosse considerada um protesto contra a autoridade da Igreja. Não quero fornecer regras gerais, e só posso decidir por mim mesmo. Seria ridículo encenar a própria morte como um protesto contra a autoridade da Igreja. O que eu quero, entretanto, é que a questão seja discutida de maneira aberta e amigável.
MG: Mas que ser humano com uma doença incurável desejará impor uma carga a seus parentes quando o suicídio assistido se tornar socialmente aceito?
HK: Existe, é claro, o risco que você descreve. Mas hoje o suicídio assistido ocorre em uma zona cinzenta, pois é proibido. Muitos médicos aumentam a dose de morfina quando chega a hora, e ao fazê-lo correm o risco de ser condenados por um crime. Alguns pacientes, quando não conseguem encontrar esses médicos, saltam da janela do hospital. Isso é intolerável. Não podemos deixar essa questão à discrição de cada médico. Precisamos de um regulamento legal, em parte para proteger os médicos.
MG: Não nos agarramos demais à vida no final, de modo que perdemos o momento certo?
HK: Isso é possível, é claro.
MG: O senhor se agarra à vida?
HK: Eu não me agarro à vida terrena, porque acredito na vida eterna. Essa é a grande distinção entre meu ponto de vista e uma posição puramente secular.
MG: O senhor escreve em suas memórias: “Meu coração dói quando penso em todas as coisas que terei de abandonar”.
HK: É verdade. Não me despeço da vida por ser um misantropo ou por desprezá-la, mas porque, por outros motivos, está na hora de seguir em frente. Estou firmemente convencido de que existe vida após a morte, não em um sentido primitivo, mas como a entrada de minha natureza completamente finita no infinito de Deus, como uma transição para outra realidade além da dimensão do espaço e do tempo que a pura razão não pode afirmar nem negar. É uma questão de razoável confiança. Não tenho evidência matemática e científica disso, mas tenho bons motivos para confiar na mensagem da Bíblia, e acredito em ser recebido por um Deus misericordioso.
MG: O senhor tem um conceito de céu?
HK: A maioria das maneiras de falar sobre o céu são imagens puras que não podem ser tomadas literalmente. Estamos muito distantes das noções de céu no período anterior a Copérnico. No céu, espero, porém, conhecer as respostas para os grandes mistérios do mundo, para perguntas como: Por que uma coisa é uma coisa e não nada? De onde vêm o big-bang e as constantes físicas? Em outras palavras,  há perguntas que nem a astrofísica nem a filosofia responderam. De qualquer modo, falo sobre um estado de paz eterna e felicidade eterna.
MG: Hoje a física pode explicar o cosmo escuro, com seus bilhões de estrelas, muito melhor do que no passado. Isso abalou a sua fé?
HK: Quando consideramos como o universo é enorme e escuro, certamente não facilita as coisas para a fé. Quando Beethoven compôs a Nona Sinfonia, ainda podia esperar que “acima da abóbada de estrelas vivesse um pai amoroso”. Nós, entretanto, temos de aceitar que sabemos pouco. Noventa e cinco por cento do universo é desconhecido para nós, e nada sabemos sobre os 27% de matéria escura ou 68% de energia escura. A física se aproxima cada vez mais da origem, no entanto não consegue explicar a origem em si.
MG: O que acontece atualmente no Vaticano é aquilo pelo qual o senhor passou a vida a lutar: uma liberalização e reforma da Igreja. Isso acontece no momento em que o senhor envelhece e se torna frágil. É uma ironia da história?
HK: A ironia aplica-se mais a meu ex-colega Joseph Ratzinger do que a mim. Eu não esperava ver uma mudança radical na Igreja Católica durante minha vida. Sempre acreditei, e passei a aceitar, que Küng partiria e Ratzinger ficaria. Por isso fiquei tão surpreso ao ver Bento XVI sair e o papa Francisco assumir o cargo em 19 de março de 2013, meu aniversário e dia onomástico de Ratzinger.
MG: Como foi possível que um colégio de cardeais formado por homens conservadores e de modo geral retrógrados elegesse um revolucionário para papa?
HK: Em primeiro lugar, eles nem sabiam o quanto ele é revolucionário. Mas, fora o núcleo duro da Cúria, muitos cardeais sabiam que a Igreja está em uma crise profunda, simbolizada pela corrupção no Vaticano, o encobrimento de casos de abuso e o escândalo do VatiLeaks. Os cardeais muitas vezes foram confrontados com duras críticas de suas congregações nativas.
MG: Um indivíduo pode revolucionar uma instituição como a Igreja Católica?
HK: Sim, se ela receber bons conselhos como papa e tiver uma equipe capaz. Do ponto de vista jurídico, o papa tem mais poder que o presidente dos Estados Unidos.
MG: Mas só dentro da igreja, porque suas decisões não são submetidas à aprovação de um órgão legislativo.
HK: Também não há Suprema Corte. Se quisesse, o papa poderia abolir imediatamente a lei do celibato adotada no século XII.
MG: A Primavera Árabe poderia ser seguida por uma Primavera Católica?
HK: Já está aqui, mas existe o mesmo risco de reveses e movimentos contrários, como houve na Primavera Árabe. Existem grupos poderosos no Vaticano e na Igreja em todo o mundo que gostariam de reverter o tempo. Eles estão preocupados com seus privilégios.
MG: O senhor se incomoda por não poder mais se envolver nesses debates?
HK: Aceito isso calmamente. Para mim é mais importante o papa ler o que eu lhe envio do que me convidar para ir a Roma.
MG: Recentemente, ele lhe escreveu e disse ter gostado de ler os dois livros que o senhor lhe enviou, e que permanece “à sua disposição”.
HK: Recebi recentemente duas cartas manuscritas e muito amigáveis dele. O endereço do remetente nos envelopes dizia apenas “F., Domus Sanctae Marthae, Vaticano”, e ele assinou as cartas “com saudações fraternas”. Até isso é um novo estilo. Em 27 anos, João Paulo II não me considerou digno de uma única resposta.
MG: Com quem Francisco pode ser comparado?
HK: Provavelmente, com João XXIII, mas ele não tem uma de suas fraquezas. João XXIII fez reformas apressadas e sem uma agenda. Ele cometeu sérios erros administrativos.
MG: A questão é se Francisco impressiona apenas com gestos, ou há mais por trás disso.
HK: Os trajes mais simples, as mudanças no protocolo e o tom de voz completamente diferente não são coisas superficiais. Ele introduziu uma mudança de paradigmas. Com esse papa, ressurgiu o caráter de serviço do cargo papal. Ele quer que os padres saiam das igrejas e encontrem os fiéis. Recentemente, enviou aos bispos uma pesquisa para obter as opiniões dos laicos sobre assuntos familiares. Sua primeira viagem o levou aos refugiados em Lampedusa. Tudo isso é um distanciamento da maneira como Bento XVI interpretava o cargo. O apelo por uma Igreja pobre leva a uma maneira de pensar diferente. Com Bento, o extravagante bispo de Limburg provavelmente ainda estaria no cargo.
MG: Mas Francisco confirmou o arcebispo linha-dura Gerhard Ludwig Müller como chefe da Congregação para a Doutrina da Fé, o vigilante do Vaticano e policial em questões da doutrina aceita.
HK: Poderia imaginar que Bento fizesse uma forte campanha para manter Müller no cargo. Mas o teste definitivo será se o novo papa continuará a permitir que ele interprete o supervisor da fé e o grande inquisidor.
MG: E a canonização de João Paulo II, que reforçou grupos controversos como o Opus Dei e a Legião de Cristo?
HK: Não posso entender a canonização. Trata-se do papa mais contraditório do século XX. Ele venerava a Virgem Maria, mas negava às mulheres cargos na Igreja. Ele pregava contra a pobreza em massa, no entanto proibia a contracepção. Discuti extensamente 11 dessas enormes contradições no último volume de minhas memórias. Suas palavras divergiam constantemente de seus atos. Ele considerava o padre Marcial Maciel, um dos piores molestadores de meninos e fundador da Legião de Cristo, seu amigo e o defendeu contra todas as críticas.
MG: O senhor perdoa Francisco por essa canonização?
HK: Bento XVI acelerou a canonização de Wojtyla e ignorou todos os períodos de espera requeridos. Deter o processo agora não apenas seria uma afronta a Bento, mas a muitos poloneses. Posso entender que Francisco não queira fazer isso. Ao menos o papa reformista João XXIII também foi canonizado. Devemos pensar se as canonizações, uma invenção medieval, ainda têm sentido hoje.
MG: Há alguma coisa em sua vida que gostaria de desfazer?
HK: Fui muito polêmico às vezes, e gostaria de não ter dito certas coisas. Minha experiência mais drástica foi, porém, a revogação da licença para ensinar como teólogo católico, em 1979. Foi devastador para mim, emocional e fisicamente. Houve um dia em que eu estava deitado neste sofá amarelo e não conseguia ir à reunião de professores marcada para discutir meu caso.
MG: O senhor espera ser reabilitado em vida?
HK: Não. A Conferência Episcopal Alemã poderia iniciar o processo e Roma só teria de concordar. Mas não prevejo ou espero isso. O papa Francisco não deveria pôr em risco outras tarefas importantes ao me reabilitar e aproximar-se demais de mim.
MG: O senhor foi acusado de vaidade durante toda a sua vida. Existe até um capítulo inteiro sobre isso em suas memórias.
HK: Provavelmente, não sou mais vaidoso que a média.
MG: Parte do motivo de sua licenciatura ter sido revogada deveu-se ao fato de o senhor pôr em dúvida a necessidade de celibato dos padres. O senhor acredita que as regras poderão ser modificadas com Francisco?
HK: Não posso realmente imaginar que essa questão continue a ser adiada. A cada dia há menos sacerdotes paroquiais. Não sei como a Igreja poderá oferecer atendimento pastoral na próxima geração. A questão é relevante há algum tempo e os fiéis apoiam amplamente essa reforma.
MG: O senhor vive em celibato?
HK: Não sou casado e não tenho esposa nem filhos.
MG: Há uma mulher em suas memórias a quem o senhor se refere como “minha companheira ideal na vida”.
HK: Sim, no sentido de uma companheira de viagem ideal. Temos propriedades separadas, vivemos em andares separados e temos apartamentos separados. Eu descrevo tudo isso em minhas memórias 

"Não esperava ver uma mudança radical na Igreja"

O teólogo Hans Küng, "reformista crítico", celebra o papado de Francisco, critica a canonização de João Paulo II e fala de Céu, Inferno, eutanásia, amor carnal...
por Markus Grill — publicado 03/09/2014 05:08



Papa Francisco, o verdadeiro revolucionário
Hans küng lutou durante toda a sua vida pelas reformas hoje avaliadas pelo Vaticano. Nesta entrevista, o teólogo suíço fala sobre as probabilidades de o papa Francisco revolucionar a Igreja, por que João Paulo II não deveria ser canonizado e o que ele espera aprender no Céu.
Küng tem sido uma voz a favor da reforma da Igreja Católica há décadas: da infalibilidade papal ao celibato dos padres e à eutanásia. Sua atuação custou-lhe a licença para ensinar teologia católica e levou muitos a considerá-lo um herege. Aos 85 anos, afetado por mal de Parkinson e outras doenças, o suíço vê a Igreja sob Francisco contemplar várias das ideias defendidas por ele faz muito tempo.
Markus Grill: Professor Küng, o senhor irá para o Céu?
Hans Küng: Certamente, espero que sim.
MG: Alguns diriam que o senhor irá para o Inferno, por ser um herege aos olhos da Igreja.
HK: Não sou um herege, mas um teólogo reformista crítico. Diferentemente de muitos de meus detratores, uso como parâmetro o Evangelho, em vez da teologia medieval, a liturgia e a lei da Igreja.
MG: O Inferno existe?
HK: A referência ao Inferno é uma advertência ao fato de um ser humano poder negligenciar completamente seu propósito na vida. Não acredito em um Inferno eterno.
MG: Se o Inferno significa perder seu propósito na vida, deve ser uma noção muito secular.
HK: Os indivíduos criam seu próprio inferno, em guerras, assim como no capitalismo desenfreado.
MG: Em seu ensaio “Fragmento sobre o tema da religião”, Thomas Mann admitiu pensar na morte quase todos os dias. E o senhor?
HK: Na verdade, sempre pensei que morreria jovem, pois acreditava que, diante da minha vida louca, não chegaria aos 50 anos. Hoje estou surpreso por ter 85 e continuar vivo.
MG: O senhor é um homem idoso e doente. Tem perda auditiva aguda, osteoartrite e degeneração macular, que destruirá sua capacidade de ler.
HK: Essa seria a pior coisa, não ser mais capaz de ler.
MG: O senhor foi diagnosticado com doença de Parkinson.
HK: Entretanto, ainda trabalho muito duro todos os dias. Mas interpreto todas essas coisas como sinais de advertência sobre minha morte iminente. Minha caligrafia tem ficado pequena e muitas vezes ilegível, quase como se estivesse prestes a desaparecer. Meus dedos falham. É um fato que minha condição geral deteriorou. Mas eu também combato isso. Nado 15 minutos todos os dias onde moro e faço exercícios de fisioterapia, assim como exercícios para a voz e para os dedos, e me dedico a novas tarefas. Além disso, tomo vários remédios por dia.
MG: O senhor escreveu mais de 60 livros e sempre foi um homem muito produtivo, que gostava de entrar em discussões. Em suas memórias, o senhor avalia se em breve não será nada além de uma sombra de si mesmo.
HK: É claro, os diagnósticos e prognósticos dos médicos são imprecisos. Minha visão, por exemplo, deteriora-se mais lentamente do que o previsto. Dois anos atrás, meu médico disse que eu só conseguiria ler por mais dois anos. E hoje ainda consigo ler. Mas vivo em aviso prévio, e estou preparado para me despedir a qualquer momento.
MG: Seu amigo, o escritor e intelectual Walter Jens, caiu em um estado de demência que rapidamente se deteriorou nove anos atrás. Ele morreu faz pouco tempo.
HK: Eu o visitei várias vezes, inclusive pouco antes de sua morte. Até alguns anos atrás, seu rosto ainda se iluminava quando eu o visitava. Mas nos últimos anos ele não se lembrava mais se tinha me visto na véspera ou um mês antes. No final, não me reconhecia mais. Foi deprimente pensar que Jens, um dos intelectuais mais importantes do pós-Guerra, havia recuado para uma espécie de infância.
MG: A demência também foi dura para Jens, ou apenas para seus parentes e amigos?
HK: No início de sua doença, quando você perguntava como se sentia, ele quase sempre dizia “péssimo” ou “mal”. Ao mesmo tempo, ele passou a apreciar pequenas coisas, como crianças, animais e doces. Eu costumava levar-lhe chocolates. No início ele comia sozinho, mas depois eu tinha de colocá-los em sua boca. Não podemos saber o que Jens experimentou no final. Mas não se pode esperar que eu aceite estar em uma condição semelhante.
MG: Em 1995, o senhor e Jens coescreveram o livro Dying With Dignity (Morrendo com Dignidade). Como cristão, o senhor pode pôr fim à sua própria vida?
HK: Sinto que a vida é um dom de Deus. Mas Deus me tornou responsável por esse dom. O mesmo se aplica à última fase da vida, a morte. O Deus da Bíblia é um Deus de compaixão, e não um déspota cruel que quer ver os seres humanos passarem o maior tempo possível em um inferno de sua própria dor. Em outras palavras, o suicídio assistido pode ser a forma definitiva de ajuda na vida.
MG: A Igreja Católica considera a eutanásia um pecado, uma infração à soberania do criador.
HK: Não apreciei quando o porta-voz do bispo de Rotemburgo declarou que o que eu havia escrito representava os ensinamentos de Küng, e não os ensinamentos da Igreja. Uma hierarquia eclesiástica que errou tanto sobre o controle de natalidade, a pílula e a inseminação artificial não deveria cometer os mesmos erros agora sobre questões relativas ao fim da vida. Nossa situação mudou fundamentalmente no século XXI. A expectativa média de vida cem anos atrás era de 45 anos, e a maioria morria cedo. Hoje tenho 85, mas é uma extensão artificial da minha vida, graças às dez pílulas que tomo diariamente, e graças aos progressos na higiene e na medicina.
MG: O senhor tem medo de uma doença prolongada?
HK: Escrevi instruções cuidadosamente formuladas e recentemente entrei para uma organização de suicídio assistido. Isso não significa que desejo cometer suicídio. Mas, caso minha doença piore, quero ter uma garantia de que posso morrer de maneira digna. Em nenhum lugar a Bíblia diz que um ser humano tem de se manter até o fim ordenado. Ninguém nos diz o que “ordenado” significa.
MG: O senhor tem de ir para outro país para ter acesso ao suicídio assistido.
HK: Sou um cidadão suíço.
MG: Como funciona exatamente? O senhor telefona e diz: estou indo?
HK: Ainda não tenho um mapa do caminho. Mas escrevi minha própria liturgia da morte no último volume de minhas memórias.
MG: Um padre não poderá lhe administrar os últimos ritos.
HK: Terei comigo um amigo que é padre, um de meus alunos.
MG: Em Os Sofrimentos do Jovem Werther, de Goethe, o protagonista se mata por amor. O livro termina com a sentença: “Nenhum padre esteve presente”. Essa é a posição da Igreja.
HK: Eu sempre objetei a que minha posição sobre a morte fosse considerada um protesto contra a autoridade da Igreja. Não quero fornecer regras gerais, e só posso decidir por mim mesmo. Seria ridículo encenar a própria morte como um protesto contra a autoridade da Igreja. O que eu quero, entretanto, é que a questão seja discutida de maneira aberta e amigável.
MG: Mas que ser humano com uma doença incurável desejará impor uma carga a seus parentes quando o suicídio assistido se tornar socialmente aceito?
HK: Existe, é claro, o risco que você descreve. Mas hoje o suicídio assistido ocorre em uma zona cinzenta, pois é proibido. Muitos médicos aumentam a dose de morfina quando chega a hora, e ao fazê-lo correm o risco de ser condenados por um crime. Alguns pacientes, quando não conseguem encontrar esses médicos, saltam da janela do hospital. Isso é intolerável. Não podemos deixar essa questão à discrição de cada médico. Precisamos de um regulamento legal, em parte para proteger os médicos.
MG: Não nos agarramos demais à vida no final, de modo que perdemos o momento certo?
HK: Isso é possível, é claro.
MG: O senhor se agarra à vida?
HK: Eu não me agarro à vida terrena, porque acredito na vida eterna. Essa é a grande distinção entre meu ponto de vista e uma posição puramente secular.
MG: O senhor escreve em suas memórias: “Meu coração dói quando penso em todas as coisas que terei de abandonar”.
HK: É verdade. Não me despeço da vida por ser um misantropo ou por desprezá-la, mas porque, por outros motivos, está na hora de seguir em frente. Estou firmemente convencido de que existe vida após a morte, não em um sentido primitivo, mas como a entrada de minha natureza completamente finita no infinito de Deus, como uma transição para outra realidade além da dimensão do espaço e do tempo que a pura razão não pode afirmar nem negar. É uma questão de razoável confiança. Não tenho evidência matemática e científica disso, mas tenho bons motivos para confiar na mensagem da Bíblia, e acredito em ser recebido por um Deus misericordioso.
MG: O senhor tem um conceito de céu?
HK: A maioria das maneiras de falar sobre o céu são imagens puras que não podem ser tomadas literalmente. Estamos muito distantes das noções de céu no período anterior a Copérnico. No céu, espero, porém, conhecer as respostas para os grandes mistérios do mundo, para perguntas como: Por que uma coisa é uma coisa e não nada? De onde vêm o big-bang e as constantes físicas? Em outras palavras,  há perguntas que nem a astrofísica nem a filosofia responderam. De qualquer modo, falo sobre um estado de paz eterna e felicidade eterna.
MG: Hoje a física pode explicar o cosmo escuro, com seus bilhões de estrelas, muito melhor do que no passado. Isso abalou a sua fé?
HK: Quando consideramos como o universo é enorme e escuro, certamente não facilita as coisas para a fé. Quando Beethoven compôs a Nona Sinfonia, ainda podia esperar que “acima da abóbada de estrelas vivesse um pai amoroso”. Nós, entretanto, temos de aceitar que sabemos pouco. Noventa e cinco por cento do universo é desconhecido para nós, e nada sabemos sobre os 27% de matéria escura ou 68% de energia escura. A física se aproxima cada vez mais da origem, no entanto não consegue explicar a origem em si.
MG: O que acontece atualmente no Vaticano é aquilo pelo qual o senhor passou a vida a lutar: uma liberalização e reforma da Igreja. Isso acontece no momento em que o senhor envelhece e se torna frágil. É uma ironia da história?
HK: A ironia aplica-se mais a meu ex-colega Joseph Ratzinger do que a mim. Eu não esperava ver uma mudança radical na Igreja Católica durante minha vida. Sempre acreditei, e passei a aceitar, que Küng partiria e Ratzinger ficaria. Por isso fiquei tão surpreso ao ver Bento XVI sair e o papa Francisco assumir o cargo em 19 de março de 2013, meu aniversário e dia onomástico de Ratzinger.
MG: Como foi possível que um colégio de cardeais formado por homens conservadores e de modo geral retrógrados elegesse um revolucionário para papa?
HK: Em primeiro lugar, eles nem sabiam o quanto ele é revolucionário. Mas, fora o núcleo duro da Cúria, muitos cardeais sabiam que a Igreja está em uma crise profunda, simbolizada pela corrupção no Vaticano, o encobrimento de casos de abuso e o escândalo do VatiLeaks. Os cardeais muitas vezes foram confrontados com duras críticas de suas congregações nativas.
MG: Um indivíduo pode revolucionar uma instituição como a Igreja Católica?
HK: Sim, se ela receber bons conselhos como papa e tiver uma equipe capaz. Do ponto de vista jurídico, o papa tem mais poder que o presidente dos Estados Unidos.
MG: Mas só dentro da igreja, porque suas decisões não são submetidas à aprovação de um órgão legislativo.
HK: Também não há Suprema Corte. Se quisesse, o papa poderia abolir imediatamente a lei do celibato adotada no século XII.
MG: A Primavera Árabe poderia ser seguida por uma Primavera Católica?
HK: Já está aqui, mas existe o mesmo risco de reveses e movimentos contrários, como houve na Primavera Árabe. Existem grupos poderosos no Vaticano e na Igreja em todo o mundo que gostariam de reverter o tempo. Eles estão preocupados com seus privilégios.
MG: O senhor se incomoda por não poder mais se envolver nesses debates?
HK: Aceito isso calmamente. Para mim é mais importante o papa ler o que eu lhe envio do que me convidar para ir a Roma.
MG: Recentemente, ele lhe escreveu e disse ter gostado de ler os dois livros que o senhor lhe enviou, e que permanece “à sua disposição”.
HK: Recebi recentemente duas cartas manuscritas e muito amigáveis dele. O endereço do remetente nos envelopes dizia apenas “F., Domus Sanctae Marthae, Vaticano”, e ele assinou as cartas “com saudações fraternas”. Até isso é um novo estilo. Em 27 anos, João Paulo II não me considerou digno de uma única resposta.
MG: Com quem Francisco pode ser comparado?
HK: Provavelmente, com João XXIII, mas ele não tem uma de suas fraquezas. João XXIII fez reformas apressadas e sem uma agenda. Ele cometeu sérios erros administrativos.
MG: A questão é se Francisco impressiona apenas com gestos, ou há mais por trás disso.
HK: Os trajes mais simples, as mudanças no protocolo e o tom de voz completamente diferente não são coisas superficiais. Ele introduziu uma mudança de paradigmas. Com esse papa, ressurgiu o caráter de serviço do cargo papal. Ele quer que os padres saiam das igrejas e encontrem os fiéis. Recentemente, enviou aos bispos uma pesquisa para obter as opiniões dos laicos sobre assuntos familiares. Sua primeira viagem o levou aos refugiados em Lampedusa. Tudo isso é um distanciamento da maneira como Bento XVI interpretava o cargo. O apelo por uma Igreja pobre leva a uma maneira de pensar diferente. Com Bento, o extravagante bispo de Limburg provavelmente ainda estaria no cargo.
MG: Mas Francisco confirmou o arcebispo linha-dura Gerhard Ludwig Müller como chefe da Congregação para a Doutrina da Fé, o vigilante do Vaticano e policial em questões da doutrina aceita.
HK: Poderia imaginar que Bento fizesse uma forte campanha para manter Müller no cargo. Mas o teste definitivo será se o novo papa continuará a permitir que ele interprete o supervisor da fé e o grande inquisidor.
MG: E a canonização de João Paulo II, que reforçou grupos controversos como o Opus Dei e a Legião de Cristo?
HK: Não posso entender a canonização. Trata-se do papa mais contraditório do século XX. Ele venerava a Virgem Maria, mas negava às mulheres cargos na Igreja. Ele pregava contra a pobreza em massa, no entanto proibia a contracepção. Discuti extensamente 11 dessas enormes contradições no último volume de minhas memórias. Suas palavras divergiam constantemente de seus atos. Ele considerava o padre Marcial Maciel, um dos piores molestadores de meninos e fundador da Legião de Cristo, seu amigo e o defendeu contra todas as críticas.
MG: O senhor perdoa Francisco por essa canonização?
HK: Bento XVI acelerou a canonização de Wojtyla e ignorou todos os períodos de espera requeridos. Deter o processo agora não apenas seria uma afronta a Bento, mas a muitos poloneses. Posso entender que Francisco não queira fazer isso. Ao menos o papa reformista João XXIII também foi canonizado. Devemos pensar se as canonizações, uma invenção medieval, ainda têm sentido hoje.
MG: Há alguma coisa em sua vida que gostaria de desfazer?
HK: Fui muito polêmico às vezes, e gostaria de não ter dito certas coisas. Minha experiência mais drástica foi, porém, a revogação da licença para ensinar como teólogo católico, em 1979. Foi devastador para mim, emocional e fisicamente. Houve um dia em que eu estava deitado neste sofá amarelo e não conseguia ir à reunião de professores marcada para discutir meu caso.
MG: O senhor espera ser reabilitado em vida?
HK: Não. A Conferência Episcopal Alemã poderia iniciar o processo e Roma só teria de concordar. Mas não prevejo ou espero isso. O papa Francisco não deveria pôr em risco outras tarefas importantes ao me reabilitar e aproximar-se demais de mim.
MG: O senhor foi acusado de vaidade durante toda a sua vida. Existe até um capítulo inteiro sobre isso em suas memórias.
HK: Provavelmente, não sou mais vaidoso que a média.
MG: Parte do motivo de sua licenciatura ter sido revogada deveu-se ao fato de o senhor pôr em dúvida a necessidade de celibato dos padres. O senhor acredita que as regras poderão ser modificadas com Francisco?
HK: Não posso realmente imaginar que essa questão continue a ser adiada. A cada dia há menos sacerdotes paroquiais. Não sei como a Igreja poderá oferecer atendimento pastoral na próxima geração. A questão é relevante há algum tempo e os fiéis apoiam amplamente essa reforma.
MG: O senhor vive em celibato?
HK: Não sou casado e não tenho esposa nem filhos.
MG: Há uma mulher em suas memórias a quem o senhor se refere como “minha companheira ideal na vida”.
HK: Sim, no sentido de uma companheira de viagem ideal. Temos propriedades separadas, vivemos em andares separados e temos apartamentos separados. Eu descrevo tudo isso em minhas memórias 

30 de agosto de 2014

Alguns embasamentos bíblicos da Teologia da Libertação

Coletânea - J. Ricardo A. de Oliveira 





Ex 3,7-8

“Eu vi muito bem a miséria do meu povo que está no Egito. Ouvi o seu clamor contra seus opressores, e conheço os seus sofrimentos. Por isso, desci para libertá-lo...”


Mateus 25, 31-46  

31. Quando o Filho do Homem voltar na sua glória e todos os anjos com ele, sentar-se-á no seu trono glorioso.
32. Todas as nações se reunirão diante dele e ele separará uns dos outros, como o pastor separa as ovelhas dos cabritos.
33. Colocará as ovelhas à sua direita e os cabritos à sua esquerda.
34. Então o Rei dirá aos que estão à direita: - Vinde, benditos de meu Pai, tomai posse do Reino que vos está preparado desde a criação do mundo,
35. porque tive fome e me destes de comer; tive sede e me destes de beber; era peregrino e me acolhestes;
36. nu e me vestistes; enfermo e me visitastes; estava na prisão e viestes a mim.
37. Perguntar-lhe-ão os justos: - Senhor, quando foi que te vimos com fome e te demos de comer, com sede e te demos de beber?
38. Quando foi que te vimos peregrino e te acolhemos, nu e te vestimos?
39. Quando foi que te vimos enfermo ou na prisão e te fomos visitar?
40. Responderá o Rei: - Em verdade eu vos declaro: todas as vezes que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, foi a mim mesmo que o fizestes.
41. Voltar-se-á em seguida para os da sua esquerda e lhes dirá: - Retirai-vos de mim, malditos! Ide para o fogo eterno destinado ao demônio e aos seus anjos.
42. Porque tive fome e não me destes de comer; tive sede e não me destes de beber;
43. era peregrino e não me acolhestes; nu e não me vestistes; enfermo e na prisão e não me visitastes.
44. Também estes lhe perguntarão: - Senhor, quando foi que te vimos com fome, com sede, peregrino, nu, enfermo, ou na prisão e não te socorremos?
45. E ele responderá: - Em verdade eu vos declaro: todas as vezes que deixastes de fazer isso a um destes pequeninos, foi a mim que o deixastes de fazer.
46. E estes irão para o castigo eterno, e os justos, para a vida eterna. Mt 25,31-46

Atos 2,41-47

Os que receberam a sua palavra foram batizados. E naquele dia elevou-se a mais ou menos três mil o número dos adeptos.
42. Perseveravam eles na doutrina dos apóstolos, na reunião em comum, na fração do pão e nas orações.
43. De todos eles se apoderou o temor, pois pelos apóstolos foram feitos também muitos prodígios e milagres em Jerusalém e o temor estava em todos os corações.

44. Todos os fiéis viviam unidos e tinham tudo em comum.
45. Vendiam as suas propriedades e os seus bens, e dividiam-nos por todos, segundo a necessidade de cada um.
46. Unidos de coração frequentavam todos os dias o templo. Partiam o pão nas casas e tomavam a comida com alegria e singeleza de coração,
47. louvando a Deus e cativando a simpatia de todo o povo. E o Senhor cada dia lhes ajuntava outros que estavam a caminho da salvação AT 2,41-47


Atos 4, 32-37

32 A multidão dos fiéis era um só coração e uma só alma. Ninguém considerava propriedade particular as coisas que possuía, mas tudo era posto em comum entre eles.

33 Com grande poder, os apóstolos davam testemunho da ressurreição do Senhor Jesus. E todos eles gozavam de grande aceitação.

34 Entre eles ninguém passava necessidade, pois aqueles que possuíam terras ou casas as vendiam, traziam o dinheiro

35 e o colocavam aos pés dos apóstolos; depois, ele era distribuído a cada um conforme a sua necessidade.

36 Foi assim que procedeu José, levita nascido em Chipre, apelidado pelos apóstolos com o nome de Barnabé, que significa «filho da exortação».

37 Ele vendeu o campo que possuía, trouxe o dinheiro e o colocou aos pés dos apóstolos.

João 3,16  

Nisto temos conhecido o amor: Cristo deu a vida por nós, também devemos dar a nosta vida aos nossos irmãos. Quem possuir bens deste mundo e vir o seu irmão sofrer necessidade, mas lhe fechar o coração, como pode estar nele o amor de Deus?


Mateus 19,16-22

O Reino é dom e partilha
16 Um jovem se aproximou, e disse a Jesus: «Mestre, que devo fazer de bom para possuir a vida eterna?»
17 Jesus respondeu: «Por que você me pergunta sobre o que é bom? Um só é o bom. Se você quer entrar para a vida, guarde os mandamentos.»
18 O homem perguntou: «Quais mandamentos?» Jesus respondeu: «Não mate; não cometa adultério; não roube; não levante falso testemunho;
19 honre seu pai e sua mãe; e ame seu próximo como a si mesmo.»
20 O jovem disse a Jesus: «Tenho observado todas essas coisas. O que é que ainda me falta fazer?»
21 Jesus respondeu: «Se você quer ser perfeito, vá, venda tudo o que tem, dê o dinheiro aos pobres, e você terá um tesouro no céu. Depois venha, e siga-me.»
22 Quando ouviu isso, o jovem foi embora cheio de tristeza, porque era muito rico.


Mateus 6,18-21e24

A escolha fundamental
19 «Não ajuntem riquezas aqui na terra, onde a traça e a ferrugem corroem, e onde os ladrões assaltam e roubam.
20 Ajuntem riquezas no céu, onde nem a traça nem a ferrugem corroem, e onde os ladrões não assaltam nem roubam.
21 De fato, onde está o seu tesouro, aí estará também o seu coração.

24 Ninguém pode servir a dois senhores. Porque, ou odiará a um e amará o outro, ou será fiel a um e desprezará o outro. Vocês não podem servir a Deus e às riquezas.»


As Origens da teologia da libertação

(Coletânea de diversos autores)

A Teologia da Libertação nasceu da influência de três frentes de pensamento: o Evangelho Social das igrejas norte-americanas, trazido ao Brasil pelo missionário e teólogo presbiteriano Richard Shaull; a Teologia da Esperança, do teólogo reformado Jürgen Moltmann; e a teologia política que tinha como seus grandes expoentes o teólogo católico Johann Baptist Metz, na Europa, e o teólogo batista Harvey Cox, nos EUA.
Há uma série de eventos que precederam o nascimento da Teologia da Libertação:
1952: O missionário presbiteriano Richard Shaull chega ao Brasil trazendo o Evangelho Social e cria uma estreita relação com os pastores presbiterianos Rubem Alves e Jaime Wright;
1964: O teólogo reformado Jürgen Moltmann publica sua obra Teologia da Esperança;
1965: O teólogo batista Harvey Cox publica A Cidade Secular;
1967: O teólogo católico Johann Baptist Metz pronuncia a conferência Sobre a Teologia do Mundo;
O marco do nascedouro da Teologia da Libertação está na publicação da obra Da Esperança, de Rubem Alves, que tinha o título de Teologia da Libertação, criticando a teologia metafísica de uma forma geral e propondo o nascimento de novas comunidades de cristãos animados por uma visão e por uma paixão pela libertação humana e cuja linguagem teológica se tornava histórica.
A primeira participação católica no lançamento da Teologia da Libertação foi a publicação da Teologia da Revolução, em 1970, pelo teólogo belga radicado no Brasil José Comblin. Em 1971, Gustavo Gutiérrez publicou Teologia da Libertação. Somente em 1972, Leonardo Boff surge no cenário teológico com a publicação de Jesus Cristo Libertador. Como Rubem Alves estava asilado nos EUA neste período, Boff passou a ser o mais conhecido representante desta corrente teológica que vivia no Brasil, devido à proteção recebida pela ordem dos franciscanos, à qual ele pertencia

O método destas teologias é indutivo[4] : não parte da Revelação e da Tradição eclesial para fazer interpretações teológicas e aplicá-las à realidade, mas partem da interpretação da realidade da pobreza e exclusão e do compromisso com a libertação para fazer a reflexão teológica e convidar à ação transformadora desta mesma realidade. Ocorre também uma crítica à teologia moderna e sua pretensão de universalidade. Consideram esta teologia eurocêntrica e desconectada da realidade dos países periféricos.
Na Igreja Católica, a Congregação para a Doutrina da Fé publicou dois documentos sobre esta teologia: Libertatis Nuntius, em 1984 e Libertatis conscientia de 1986. Neles adverte sobre o uso do marxismo na teologia e alerta para o risco da instrumentalização política da fé. Em carta aos bispos brasileiros, o papa João Paulo II considera teologia da libertação é não só oportuna, mas útil e necessária e confia aos bispos brasileiros a tarefa de assegurar o seu desenvolvimento de modo homogêneo e não heterogêneo com relação à teologia de todos os tempos, em plena fidelidade à doutrina da Igreja, atenta a um amor preferencial e não excludente nem exclusivo para com os pobres[5].
Fonte Wikipédia
http://pt.wikipedia.org/wiki/Teologia_da_Liberta%C3%A7%C3%A3o#Nascimento




Teologia da Libertação se propaga, apesar do veto do Vaticano
Leonardo Boff

Roma incorre na profunda ilusão de acreditar que com seus documentos doutrinários emitidos por burocracias frias e distantes da vida concreta dos fiéis conseguirá frear a Teologia da Libertação. Ela nasceu ouvindo o grito dos pobres e hoje a comove o grito da Terra.

Desde seu início, ao final dos anos 60, a Teologia da Libertação adotou uma perspectiva global, focada na condição dos pobres e oprimidos no mundo inteiro, vítimas de um sistema que vive da exploração do trabalho e da depredação da natureza. Esse sistema explora as classes trabalhadoras e as nações mais fracas. Além disso, reprime aqueles que oprimem e, portanto, contrariam seus próprios sentimentos humanitários. Em uma palavra, todos devem ser libertados de um sistema que perdura há pelo menos três séculos e foi imposto a todo o planeta.

A Teologia da Libertação é a primeira teologia moderna que assumiu este objetivo global: pensar o destino da humanidade desde a condição das vítimas. Em consequência, sua primeira opção é comprometer-se com os pobres, a vida e a liberdade para todos. Surgiu na periferia das Igrejas centrais, não nos centros metropolitanos do pensamento consagrado. Por essa origem, sempre foi considera como suspeita pelos teólogos acadêmicos e principalmente pelas burocracias eclesiásticas e especialmente pela da Igreja mais importante, a católica-romana.


A partir de sua cunha na América latina, a Teologia da Libertação passou para a África e se estendeu para a Ásia e também a setores do primeiro mundo identificados com os direitos humanos e a solidariedade aos despossuídos. A pobreza entendida como opressão revela muitos rostos: o dos indígenas que desde sua sabedoria ancestral conceberam uma fecunda teologia da libertação indígena, o da teologia negra da libertação que ressente as marcas dolorosas deixadas nas nações que foram escravagistas, o das mulheres submetidas desde a era neolítica à dominação patriarcal, dos trabalhadores utilizados como combustível da maquinaria produtiva. A cada opressão concreta corresponde uma libertação concreta.

A questão teológica de base que até agora não terminamos de responder é: como anunciar um Deus que é um pai bondoso em um mundo repleto de miseráveis? Só tem sentido se implica a transformação deste mundo, de maneira que os miseráveis deixem de gritar. Para que uma mudança semelhante tenha lugar eles próprios têm que tomar consciência, organizar-se e começar uma prática política de transformação e libertação social. Como a grande maioria dos pobres em nossos países era formada por cristãos, tratava-se de fazer da fé um fator de libertação. As igrejas que sentem herdeiras de Jesus, que foi um pobre e que não morreu de velho, mas sim na cruz como consequência de seu compromisso com Deus e com sua justiça, seriam as aliadas naturais deste movimento de cristãos pobres.

Esse apoio ocorreu de fato em muitas igrejas nas quais houve bispos e cardeais proféticos como Helder Câmara e Paulo Evaristo Arns no Brasil, Arnulfo Romero em El Salvador e muitos outros, assim como numerosos sacerdotes, religiosas e religiosas e laicos comprometidos politicamente.


Em razão de sua causa universal, já no início dos anos 70 a Teologia da Libertação era um movimento internacional e convocava verdadeiros fóruns teológicos mundiais. Estabeleceu-se um conselho editorial integrado por mais de cem teólogos latinoamericanos para compilar uma sistematização teológica em 53 volumes, desde a perspectiva da libertação. Já tinham sido publicados 13 volumes quando o Vaticano interveio para abortar o projeto. O então cardeal Joseph Ratzinger foi rigoroso. Cortou pela raiz um trabalho promissor e benéfico para todas as igrejas periféricas e especialmente para os pobres. Passará à história como o cardeal – e depois Papa – inimigo da inteligência dos pobres.

A Teologia da Libertação criou uma cultura política, Ajudou a formar organizações sociais como o Movimento dos Sem Terra, a Pastoral Indígena, o Movimento Negro e foi fundamental na criação do Partido dos Trabalhadores no Brasil, cujo líder, o presidente Lula, sempre se reconheceu na Teologia da Libertação.


Hoje em dia, essa teologia transcendeu os limites confessionais das Igrejas e se converteu em uma força político-social. Além de Lula, identificam-se publicamente com a Teologia da Libertação o presidente Rafael Correa, do Equador, o presidente (e ex-bispo) Fernando Lugo, do Paraguai, o presidente Daniel Ortega, da Nicarágua, o presidente Hugo Chávez, da Venezuela, e o atual presidente da Assembléia das Nações Unidas, o sacerdote nicaragüense Miguel de Escoto. Sua força maior não reside na cátedra dos teólogos, mas sim nas inumeráveis comunidades eclesiais de base (só no Brasil existem cerca de cem mil), nos milhares e milhares de círculos nos quais se lê a Bíblia no contexto da opressão social e nas chamadas pastorais sociais.

Roma incorre na profunda ilusão de acreditar que com seus documentos doutrinários emitidos por burocracias frias e distantes da vida concreta dos fiéis conseguirá frear a Teologia da Libertação. Ela nasceu ouvindo o grito dos pobres e hoje a comove o grito da Terra. Enquanto os pobres continuarem lamentando-se e a Terra gemendo sob a virulência produtivista e consumista, haverá mil razões para sentir o chamado de uma interpretação libertária e revolucionária dos evangelhos. A Teologia da Libertação é a resposta a uma realidade injusta e salva a Igreja central de sua alienação e de um certo cinismo.

O QUE É TEOLOGIA DA LIBERTAÇÃO?


Este texto foi produzido pelo nosso saudoso amigo  Claudemiro Godoy do Nascimento

Quando ainda era diácono da ICAR. E que nos deixou no ano de 2010 em um acidente automobilístico.
A Ele a nossa gratidão, nossas orações e a nossa saudade.



O QUE É TEOLOGIA DA LIBERTAÇÃO?  
 TEOLOGIA DA LIBERTAÇÃO: EM DEFESA DOS EXCLUÍDOS A TEOLOGIA DA LIBERTAÇÃO: O CRISTIANISMO A FAVOR DOS EXCLUÍDOS

Claudemiro Godoy 


A palavra teologia vem da conjugação de TÉOS e LÓGOS, dois termos gregos. Poder-se-ia dizer que teologia é todo discurso acerca de Deus. Assim, por exemplo, foi denominado por Aristóteles em seu livro “Filosofia Primeira”, que hoje conhecemos com o nome de metafísica. Para Aristóteles o TÉOS seria objeto de pesquisa da maior de todas as ciências: a ciência do ser enquanto ser – esta que hoje denominamos de metafísica. Portanto, para ser estagirita – Aristóteles, a metafísica, ou seja, a filosofia primeira, é sinônimo de teologia.

Apesar de podermos falar de teologia em um sentido lato, tal como abordamos acima, atualmente o significado deste termo difere-se deste que expusemos. Teologia hoje é o discurso racional acerca de Deus a partir dos dados advindos de um livro revelado: Bíblia, Alcorão, etc. À teologia compete, portanto, a atualização dos dados revelados através do discurso (lógos), segundo as exigências históricas vigentes. Com isso, se mostra o caráter transitório do discurso teológico: a transitoriedade do discurso deve-se à transitoriedade própria da história humana, da cultura e de suas diversas problemáticas. Deus, por isso, deve sempre aparecer ao homem, através do discurso teológico, historicamente situado. Esta, última informação nos leva a perceber a imbricação necessária entre teólogo, revelação e história.

Não obstante à imbricação supracitada, não poucas vezes a teologia cristã se configurou de forma totalmente anacrônica em seus discursos e, conseqüentemente, em seus conceitos. A teologia cristã durante séculos, preocupou-se com o hyperurânio de Platão, com o motor imóvel de Aristóteles, com a cidade de Deus de Agostinho, menos com as problemáticas históricas que fatalmente orientavam a vida social do homem. É comum nos depararmos com textos clássicos da teologia e sermos levados às nuvens, aos céus, como, por exemplo, num texto de Irineu ou de S. Agostinho de Hipona. Mas, qual a razão disto? Isto ocorreu por mera vontade dos teólogos? Certamente, não.

A teologia cristã configurou-se de forma anacrônica por muito tempo, devido ao instrumental filosófico que ela utilizou para discursar acerca de Deus. Tal instrumental derivava-se da metafísica clássica que tem como característica formular conceitos anacrônicos, desconsiderando o caráter histórico do homem – ou seja, desconsiderando o homem enquanto ser histórico, que se faz (constrói) no tempo. A conseqüência disto, é que os dados da revelação cristã – Bíblia – foram entendidos como realidades atemporais e ahistóricas. Por isso, por muito tempo – certamente, também ainda hoje – entendeu-se Deus, Reino dos Céus, inferno, etc., como realidades totalmente transcendentais, totalmente destacadas dos processos e fases históricas da humanidade.

Esta forma de discurso acerca de Deus foi submetida à crítica com o advento da modernidade e do pensamento contemporâneo. A metafísica, que foi a “pedra angular” da teologia clássica, foi fortemente criticada a partir da modernidade. Descobriu-se, após séculos de especulação, a história como característica essencial do homem e a cultura como âmbito de toda construção histórica. Com isso, o pensamento ocidental, largou aquele transcendentalismo metafísico, tornando-se por isso mais imamentista. Isto influenciou fortemente a teologia. O encontro do homem com Deus – chamado pela teologia da GRAÇA – passou a ser pensado como realidade histórica: Deus se manifesta ao homem situando-se histórica e culturalmente, ou seja, o encontro de Deus com o homem difere-se na história em suas diversas épocas, e difere-se na pluralidade cultural que se dá no seio da humanidade. Obviamente, isto gerou uma certa relativização no discurso sobre Deus; porém, valorizou a historicidade como característica essencial do ser humano, além de valorizar a multiplicidade de formas de Deus se apresentar ao homem, superando, assim, o anacronismo clássico metafísico que norteava o pensamento teológico no entendimento da relação homem – DEUS.

A chamada Teologia da Libertação está inserida nesta última fase do pensamento ocidental que destacamos acima: a fase da valorização da história, da cultura e da diversidade de formas de manifestação do encontro do homem com Deus. Ela é uma teologia propriamente cristã; por isso, utiliza a Bíblia como pressuposto necessário de seus discursos.

A expressão “teologia da libertação”, já mostra o sentido norteador deste discurso teológico. O genitivo que aparece na expressão citada – DA LIBERTAÇÃO -, mostra-nos que a libertação é o horizonte regulador do discurso acerca de Deus, e, ao mesmo tempo, mostra-nos que o Deus do discurso é fonte de libertação. Esta se manifesta concretamente nos diversos momentos do processo histórico de um povo. Conseqüentemente, a teologia da libertação torna-se força geradora de ações que viabilizam uma práxis libertadora, segundo as necessidades advindas das diversas circunstâncias sob as quais um povo está submetido.

“A teologia da libertação é um movimento teológico que quer mostrar aos cristãos que a fé deve ser vivida numa práxis libertadora e que ela pode contribuir para tornar esta práxis mais autenticamente libertadora” (MONDIN, 1980, p. 25). Neste sentido, o cristão é impelido a viver a práxis libertadora nas diversas épocas da história.

O termo libertação foi cunhado a partir da realidade cultural, social, econômica e política sob a qual se encontrava a América Latina, a partir das décadas de 60/70 do último século. Os teólogos deste período, católicos e protestantes, assumiram a libertação como paradigma de todo fazer teológico. Vejamos o quadro social da América Latina no período originário da teologia da libertação:

“O ambiente político é geralmente caracterizado pela presença de governos que administram o poder arbitrariamente em vantagem dos ricos e dos poderosos, fazendo amplo uso da força e da violência. (...) O ambiente econômico e social está marcado pelamiséria e pela marginalização da maior parte da população. Os recursos econômicos são controlados por um pequeno grupo de privilegiados. (...) No ambiente cultural se verifica ainda uma notável dependência da Europa e dos Estados Unidos. Na ciência como na filosofia, na arte como na literatura, quase nada é concedido à originalidade das populações latino-americanas” (Ibidem, p. 25-26).

O quadro de degradação apresentado na América Latina é o fundamento gerador do conceito de libertação. A libertação, então, é toda “ação que visa criar espaço para a liberdade” (BOFF, 1980, p. 87). Ser livre, neste sentido, é não estar sob o jugo da lei alheia; é poder construir-se autonomamente. O processo histórico da América Latina foi e é dominado por diversas leis estranhas a ela. A América do Norte, em especial os EUA, e os países europeus, sempre impuseram aos latino–americanos seus valores, suas políticas, sua cultura, etc. Neste sentido, a libertação no seio da América Latina, é a luta pela liberdade da cultura, dos valores, da economia, da política latino-americanos, frente às diversas opressões advindas de um modelo imperialista que rege a práxis do hemisfério norte em suas relações com o hemisfério sul, especialmente como o povo latino–americano. Tal relação impõe ao hemisfério sul a cultura do hemisfério norte.

Devido à pobreza e à nefasta degradação do povo latino-americano, a libertação deve ser entendida como superação de um processo de exclusão; já que esta é a conseqüência direta da relação norte–sul, onde milhões de homens e mulheres empobrecem e se deterioram porque ficam à margem (excluídos) do processo econômico e político norteado pelo capitalismo imposto pelos EUA e Europa.
Desta forma compete à teologia da libertação a tarefa de discursar sobre Deus a partir da ótica de um processo excludente e a partir da realidade concreta dos excluídos. O teólogo da libertação, portanto, deve ter este duplo olhar: olhar para Deus e olhar para o excluído. Olhar para Deus é a fonte de toda libertação possível e o olhar para o excluído identifica onde há necessidade de libertação. Olhando para Deus – ou Cristo -, a teologia da libertação diferencia-se de todo movimento libertador laico, já que a libertação apresentada pela teologia enxerga nos processos históricos a possibilidade de presentificação da nova ordem escatológica anunciada por Cristo, ou seja, o Reino de Deus – ordem de justiça e da superação de toda opressão possível, na sociedade e no cosmos. Ao pretender olhar para o excluído e para o sistema gerador de opressão, como pressuposto de todo fazer teológico, a teologia da libertação difere-se radicalmente das teologias clássicas, pois supera o anacronismo destas, circunscrevendo a experiência de Deus no âmbito do engajamento do fiel na luta contra todo o sofrimento humano historicamente situado.
Para que haja elaboração da teologia da libertação é mister que se compreenda os fenômenos da opressão e da exclusão. Estes devem ser compreendidos através de uma mediação sócio-analítica, “Libertação é libertação do oprimido. Por isso, a teologia da libertação deve começar por se debruçar sobre as condições reais em que se encontra o oprimido de qualquer ordem que ele seja.” (BOFF, 1996, p. 40). O método utilizado para elucidar sócio–analiticamente o fenômeno da opressão e da exclusão pela teologia da libertação, é o método histórico-dialético.
O marxismo passa a ser a filosofia predominante na análise sócio–analítica feita pela teologia da libertação. Porém, o marxismo é utilizado como instrumento, não tendo fim em si mesmo. “Na teologia da libertação o marxismo nunca é tratado em si mesmo, mas sempre a partir, e em função dos pobres” (Ibidem, p. 45). O sentido último da teologia não é Marx, mas Deus.
Após a leitura sócio–analítica, o teólogo da libertação deve-se deparar com a Bíblia Sagrada. A Bíblia deve fornecer subsídios para que se possa identificar a face de Deus e sua ação libertadora, nos diversos momentos históricos, sob as quais vive o teólogo e seu povo. Há, então, no processo deelaboração da teologia da libertação, uma imbricação necessária entre a análise sócio–analítica da realidade e a Bíblia Sagrada. Esta última fornece o sentido teológico da práxis libertadora proposta pela teologia da libertação.
Com a gênese da teologia da libertação na América Latina, “a religião passa a ser um fator de mobilização e não do freio” (BOFF, 1980, p. 102). A religião não mais se apresenta como “ópio do povo”. Ela passa a ser fonte de libertação e de esperança para o homem. A religião, desta forma, não se reduz a uma ideologia que mantém o status quo social e político; também não é mais fonte de discursos etéreos. A teologia da libertação pretende mostrar que Deus não está em uma esfera trans–histórica; mas, ela quer mostrar que Deus encarna-se na história, gera libertação de um povo humilhado, gera vida e esperança a um povo crucificado e sem sonhos. Podemos dizer, metaforicamente, que a teologia da libertação anuncia a ‘’descida’’ de Deus de sua esfera transcendente e “celeste” e mostra-o como agente dignificador dos humilhados da terra. Deus não é mais um conjunto de doutrinas e especulações, mas é a fonte de toda a luta pela justiça e igualdade. Por isso, Deus se manifesta nas lutas históricas pela justiça, pela inclusão e pela superação de toda opressão vigente na humanidade. “Eu sou o Senhor, teu Deus, que te tirei da terra do Egito, da casa da servidão.”(Ex 20,2). Eis a face de Deus anunciada pela teologia da libertação: Deus que tira o povo da opressão, da servidão.
O céu almejado pela humanidade, não é pensado como realidade post mortem. Este céu que fora pensado pela teologia clássica como realidade distante que se manifestaria no porvir, encarna-se no “agora”, através da práxis do povo em prol da dignidade humana: cada conquista popular, no que tange a uma relação mais justa entre os homens, presentifica o céu no seio da humanidade.
A teologia da libertação surge para mostrar que Deus é “Pai – Nosso”; portanto os homens e as mulheres devem se relacionar como irmãos e irmãs, sem haver exclusão, sem haver opressão ou sem qualquer tipo de violação da dignidade humana. Lutar pela libertação é valorizar a paternidade universal de Deus, que se manifesta nas relações justas e fraternas entre todos os seres humanos.

Bibliografia:
1. BÍBLIA SAGRADA. São Paulo: CNBB, 1996.

2. BOFF, Leonardo, BOFF, Clodovis. Como fazer teologia da libertação. Petrópolis: Vozes, 1986.

3. BOFF, Leonardo. Teologia do cativeiro e da libertação. Petrópolis: Vozes, 1980.

4. _____________ O caminhar da Igreja com os oprimidos: do vale das lágrimas à terra prometida. Rio de Janeiro: Codecri, 1980.

5. MONDIN, B. Os teólogos da libertação. São Paulo: Paulinas, 1980.




29 de agosto de 2014

uma manhã aos 6.3



A vida passa...
Primeiro os anos verdes, sentimento muito,
Mas pouco se sabe bem para quê.

Passa a vida...
Chegam os anos quentes,
e de uma quentura tanta,
que perigam queimar o pensar.
Busca-se, mas geralmente não se sabe o quê...

E a vida,
essa incansável passageira,
continua o seu passar...

E eis que se chega ao meio dela,  a vida.
Os anos, nem quentes nem frios,
São mormaço úmido,
numa seqüência de outonos
de céus sem nuvens, expectantes,
de dúvida, se haverá noites frias de inverno.

E anos após ano se descobre que mais de uma década se passou
E é, neste ponto do caminho que parei para descansar...
O quê mais passará ainda, amiga vida?

Que a esperança, me seja sempre companheira.
Que as lembranças, não sufoquem a euforia da descoberta
da nova infância,que tenho certeza, já se pré-(a)nuncia no horizonte.

Ah, amiga vida, não quero perder essa oportunidade,
por nada deste mundo.
Quero  poder recuperar a simplicidade e a ingenuidade,
depois de ter experimentado a experiência
e de ser merecedor da sabedoria.

Quero então me preparar, amiga vida,
para daqui há muitos anos, eu imagino e espero,
poder saborear o momento de feliz te agradecer,
e me despedir dando: 

“Gracias a la Vida,  que me há dado tanto...”


21 de agosto de 2014

Entrevista coletiva do Papa a bordo do avião de volta da Coreia

Texto da entrevista  concedida pelo Papa Francisco a bordo do avião que o levava de volta a Roma, após sua visita pastoral à Coreia do Sul.



A entrevista está publicada no sítio espanhol Religión Digital, 19-08-2014. A tradução é de André Langer.
1. As vítimas do afundamento do ferry sul-coreano Sewol e o risco de ser utilizado
Quando você se encontra diante da dor humana, tem que fazer o que seu coração o leva a fazer. Então, dirão: fez porque tem alguma intenção política. Pode-se dizer tudo, mas quando se pensa nestes homens e mulheres, nestes pais e mães que perderam filhos, irmãos e irmãs... diante da dor tão grande de uma catástrofe, meu coração – sou sacerdote, já sabe – me diz que tenho que me fazer próximo.
Sinto-o dessa maneira. Sei que o consolo que posso dar com uma palavra minha não é um remédio, não devolve a vida aos que morreram. Mas a proximidade humana nestes momentos nos dá força, há solidariedade.
Recordo que, como arcebispo de Buenos Aires, experimentei dois desastres: um era um incêndio em uma boate [a boateCromañón], em que morreram 193 jovens. Outra vez foi um desastre com os trens. Nesse momento senti a mesma necessidade de estar próximo. A dor humana é forte e se nestes momentos tristes nos aproximamos, nos ajudamos mutuamente. Tomei isto (assinalando para o arco amarelo na capa). Tomei-o para me solidarizar com eles. Alguém me disse: “é melhor tirá-lo, você deve ser neutro”. Mas quando senti o sofrimento humano dei-me conta de que não se pode ser neutro.
2. Os ataques do Isis [Estado Islâmico do Iraque e do Levante] contra as minorias cristãs no Iraque e as bombas estadunidenses
Nestes casos, nos quais há uma agressão injusta, só posso dizer que é lícito “deter” o agressor injusto. Destaco o verbo “deter”, não digo bombardear, fazer a guerra, mas detê-lo. Os meios com os quais se pode deter deverão ser avaliados.Deter o agressor injusto é lícito. Mas devemos ter memória: quantas vezes, sob o pretexto de deter o agressor injusto, as potências se adonaram dos povos e fizeram a guerra de conquista. Uma só nação não pode julgar como se detém um agressor injusto.
Depois da Segunda Guerra Mundial nasceu a ideia das Nações Unidas; é ali onde se deve discutir e dizer: ‘Há um agressor injusto? Parece que sim. Então, como vamos detê-lo?’ Só isto, nada mais. Em segundo lugar, as minorias. Obrigado por ter usado esta palavra. Porque me falam de cristãos, os que sofrem, os mártires. Sim, há muitos mártires. Mas aqui há homens e mulheres, minorias religiosas, não são todos cristãos, e todos são iguais perante Deus. Deter o agressor injusto é um direito que a humanidade tem, mas também é um direito que o agressor tem de ser detido, para que não faça mal.

3. A possibilidade de uma visita ao Iraque, na zona de conflito
Estou disposto a ir ao Iraque e creio poder dizê-lo: quando com meus colaboradores soubemos da notícia desta situação, das minorias religiosas e também naquele momento que o Curdistão não podia receber tanta gente, pensamos muitas coisas. A primeira coisa foi escrever o comunicado feito pelo padre Federico Lombardi. Depois, esse comunicado foi enviado a todas as Nunciaturas para que fosse transmitido aos governos. Em seguida, escrevemos ao secretário-geral dasNações Unidas e decidimos mandar um enviado pessoal, o cardeal Filoni, ao Iraque. Ao final, dissemos que, se fosse necessário depois da viagem à Coreia, poderia ir para lá; era uma das possibilidades. Estou disposto! Neste momento, não é a melhor coisa a se fazer, mas estou disposto a isso.

4. As relações entre a Santa Sé e a China; a possibilidade de uma viagem papal




Quando, na ida, estávamos para sobrevoar o espaço aéreo chinês, fui à cabine e um dos pilotos me mostrou um registro e me explicou que faltavam apenas 10 minutos para entrar no espaço aéreo chinês e que tínhamos que pedir autorização (uma coisa normal que é preciso fazer sempre com cada país) e vi como pediam a autorização e como respondiam; fui testemunha desse momento. O piloto disse: agora parte o telegrama, não sei como fez, mas o fez. Depois me despedi dos pilotos e voltei a sentar-me e rezei tanto por esse belo povo chinês: um povo sábio. Penso em todos os grandes sábios chineses, penso na história de ciência, de sabedoria...
Também nós, os jesuítas, temos nossa história ali, como Matteo Ricci... Se quero ir à China? Mas, claro! Amanhã! Nós respeitamos o povo chinês. A Igreja pediu somente a liberdade para o seu ministério, para o seu trabalho. Nenhuma outra condição. E depois não devemos esquecer a carta fundamental para o problema chinês, aquela que o Papa Bento XVIenviou aos chineses. Essa carta ainda hoje segue sendo atual. Faz bem voltar a lê-la. A Santa Sé sempre esteve aberta aos contatos, sempre, porque tem um verdadeiro afeto pelo povo chinês.

5. As próximas viagens e a esperança de vê-lo na Espanha, em Ávila, em 2015
Este ano temos previsto a viagem para a Albânia. Vou por dois motivos importantes. Em primeiro lugar, porque conseguiram fazer um governo (pensemos nos Bálcãs), um governo de unidade nacional, entre muçulmanos, ortodoxos, católicos, com um conselho inter-religioso que ajuda muito e que é equilibrado. Senti como se minha presença fosse uma ajuda a esse nobre povo. O segundo motivo é este: pensemos na história da Albânia, o único dos países comunistas que em sua Constituição tinha o ateísmo prático. Se tu ias à missa, era inconstitucional!
Além disso, me dizia um dos ministros, foram destruídas (e quero ser preciso com o número) 1.820 igrejas, ortodoxas e católicas. Naquele tempo muitas igrejas foram transformadas em cinemas, teatros, salões de festa. Eu senti que tinha que ir, e um dia é preciso fazê-lo. Depois, no próximo ano, quisera ir à Filadélfia, ao encontro das famílias, e também fui convidado pelo presidente dos Estados Unidos para o parlamento estadunidense e também pelo secretário das Nações Unidas a Nova York (talvez as três cidades juntas: FiladélfiaWashington e Nova York). Os mexicanos querem que vá nessa ocasião também à Virgem de Guadalupe, e se poderia aproveitar, mas não está certo. E, finalmente, à Espanha. Os reis me convidaram, o episcopado me convidou, mas ainda não decidimos.

6. A relação com Bento XVI
Encontramo-nos. Antes de partir fui visitá-lo. Duas semanas antes, enviou-me um escrito interessante e pedia a minha opinião. Temos uma relação normal. Porque ao redor desta ideia, que talvez não seja do agrado de alguns teólogos (eu não sou teólogo), creio que o Papa emérito não é uma exceção. Eu creio que o Papa emérito segue sendo uma instituição, porque a nossa vida se alonga e a uma certa idade já não se tem a capacidade para governar bem, porque o corpo se cansa... A saúde talvez seja boa, mas já não se tem a capacidade de tratar e resolver todos os problemas de um governo como o da Igreja... E se eu sentisse que já não posso continuar? Faria o mesmo. Rezarei, mas creio que faria o mesmo. Somos irmãos, e já lhe disse que é como ter um avô em casa, por sua sabedoria. É um homem de sabedoria. Faz-me bem escutá-lo. E ele me anima bastante.





7. Como se sentiu quando saudou esta manhã as sete “confort women”? Ver-se-ão em Nagasaki no ano que vem?
Seria bonito, bonito! Fui convidado pelo governo, assim como pelo episcopado. O sofrimento... Remonta-se a uma das primeiras perguntas. O povo coreano é um povo que não perdeu a dignidade. Era um povo invadido, humilhado. Sofreu guerras e se divide. Com tanto sofrimento. Ontem, quando fui ao encontro com os jovens, visitei o museu dos mártires. É terrível o sofrimento destas pessoas. (Mártires), simplesmente por não quererem pisotear a cruz. É um sofrimento histórico. A capacidade de sofrer deste povo é parte da sua dignidade. Houve inclusive atualmente estas mulheres idosas na frente, na missa. Pensar que com a invasão foram levadas, quando crianças, aos quartéis, para serem exploradas. Elas não perderam sua dignidade. Hoje, estavam ali as mulheres idosas, mostrando seu rosto do passado vivido. É um povo forte em sua dignidade. Mas voltamos a estas coisas dos mártires, do sofrimento, e destas mulheres: estes são os frutos da guerra!
Hoje, nos vivemos em um mundo em guerra por todas as partes! Alguém me dizia: ‘Você sabe, padre, que estamos na terceira guerra mundial, mas em pedacinhos. Em capítulos’. É um mundo em guerra onde se cometem estas crueldades. Uma vez se falava sobre a guerra convencional, agora já não conta. Não digo que as guerras convencionais sejam algo bom, não. Mas hoje vai a bomba e mata o inocente junto com o culpado, a criança junto com a mulher, com a mãe, mata a todos. Mas, paremos para pensar um pouco no nível da crueldade: aonde chegamos? Isto deveria nos espantar. Não é para dar medo. O nível de crueldade da humanidade neste momento espanta um pouco.
Hoje, a tortura é um dos meios quase ordinários nos comportamentos dos serviços de inteligência e em alguns processos judiciais. E a tortura é um pecado contra a humanidade, um crime de lesa humanidade. Digo aos católicos: torturar uma pessoa é um pecado mortal, é pecado grave. Mas é muito mais: é um pecado contra a humanidade. A crueldade e a tortura. Gostaria muito que vocês, em seus meios, fizessem uma reflexão sobre qual é, hoje, o nível de crueldade da humanidade, e sobre o que pensam sobre a tortura. Creio que faria bem a todos nós refletir sobre isto.

8. Você tem uma vida cheia de compromissos. Pouco descanso, nada de férias. Viagens massacrantes. É preciso preocupar-se com o ritmo que leva?
Sim, há quem já me alertou. Eu passei as férias em casa, como faço normalmente. Uma vez li um livro, interessante, que se intitulava: “Alegra-te por ser um neurótico’. Eu também tenho alguma neurose e é preciso curá-la bem, eh? A minha é que sou um pouco apegado ao meu habitat. A última vez que saí para fazer férias, com a comunidade jesuíta, foi em 1975. Sempre faço férias, mas no meu habitat, mudança de ritmo: durmo mais, leio coisas que gosto, ouço música, rezo mais. E isto me descansa. Em julho, fiz muito tudo isto. É certo, no dia que tinha que ir ao Gemelli, até 10 minutos antes tinha que ir, mas não pude. Foram dias muito cheios. Agora sei que tenho que ser prudente. Tem razão...

9. Quando a multidão gritava Francisco!, no Rio, respondia: Cristo! Cristo! Como vive a imensa popularidade de que goza?
Eu a vivo agradecendo ao Senhor de que seu povo seja feliz, esperando o melhor para o povo. Vivo-a como generosidade do povo, do verdadeiro povo... Internamente, procuro pensar em meus pecados, em meus erros, para não me deixar levar por isso, porque sei que isto durará como eu, dois ou três anos, e depois... a casa do Pai! Vivo-a como presença do Senhor no meio do seu povo que usa o bispo, que é o pastor do povo, para manifestar muitas coisas. Vivo-a com mais naturalidade que antes, porque ficava um pouco assustado.

10. Como vive no Vaticano, além do trabalho?
Procuro ser mais livre. Há reuniões de trabalho, mas a vida para mim é o mais normal que pode ser. Gostaria de sair mais, mas não é possível. E depois, em Santa Marta, levo a vida normal de trabalho, de descanso, de conversas... Se me sinto prisioneiro? Não. No princípio, sim, mas depois caíram alguns muros... Por exemplo (sorri): o Papa não podia usar o elevador sozinho, imediatamente alguém vinha para acompanhá-lo! ‘Tu, vai para o teu lugar, que eu desço sozinho!’ E se acabou a história. É assim... a normalidade, a normalidade.

11. Seu time, o San Lorenzo, ficou campeão da Libertadores pela primeira vez. Como está vivendo esta sensação?
É uma boa notícia, depois do segundo lugar no Brasil! Fiquei sabendo em Seul, me disseram. E me disseram que na quarta-feira estarão na audiência pública. Para mim, o San Lorenzo é o time para quem toda a minha família torcia.

12. A próxima encíclica dedicada à defesa da criação
Conversei sobre esta encíclica com o cardeal Turkson e também com os outros. E pedi a Turkson que reunisse todas as contribuições que tivessem chegado. Antes da viagem, o cardeal me entregou o primeiro rascunho. É desse tamanho, um terço a mais que a Evangelii Gaudium. É o primeiro rascunho. Trata-se de um problema nada fácil, porque se trata dacustódia da criação também da ecologia (há ecologia humana); pode-se falar com certa segurança, mas até certo ponto. E depois vêm todas as hipóteses científicas, algumas bastante seguras e outras não. É uma encíclica que deve ser magistral e deve seguir em frente só com as seguranças, com as coisas sobre as quais estamos seguros. Se o Papa diz que o centro do universo é a Terra e não o Sol, se equivoca, porque está dizendo uma coisa que cientificamente não está correta. É o que acontece agora; devemos fazer um estudo parágrafo por parágrafo. Creio que será menor, porque é preciso ater-se ao essencial, que é o que se pode afirmar com segurança. Pode-se acrescentar nas notas de rodapé que sobre este ou aquele argumento há esta ou aquela hipótese. Mas dá-lo como informação, não no corpo de uma encíclica, que é doutrina e deve ser segura.

13. Uma nova pergunta sobre a divisão forçada, “confort women” e sobre a divisão da Coreia
Atualmente, estas mulheres estavam ali porque apesar de tudo o que sofreram têm dignidade e queriam mostrar o rosto. E pensei isto, pensei na guerra e na crueldade das guerras, em que estas mulheres foram exploradas, foram escravizadas com toda esta crueldade. Pensei na dignidade que têm e também o muito que sofreram, e o sofrimento é um legado. Os primeiros mártires da Igreja disseram que o sangue dos mártires é semente de cristãos. Vocês, os coreanos, semearam muito, muito, por coerência. Vê-se agora o fruto dessa semente dos mártires.
Sobre a Coreia do Norte, sei que é uma dor, sei disso com certeza, que há alguns parentes, muitos parentes não podem se encontrar, isto dói, isso é verdade. É uma dor que divide o país.
Hoje, na Catedral, no lugar em que coloquei as vestimentas para a missa, havia um presente que me deram, uma coroa de espinhos de Cristo feita com arame farpado que divide em dois lados a única Coreia. E o levamos no avião, mas é um presente que levo... o sofrimento da divisão de uma família dividida. Como disse ontem, em declarações aos bispos, e o recordo: ainda temos esperança, as duas Coreias são irmãs e falam o mesmo idioma. Quando falamos o mesmo idioma, é porque se tem a mesma mãe, e isso nos dá esperança. O sofrimento da divisão é grande. Entendo e rezo para que termine.




14. A beatificação do arcebispo salvadorenho Romero




A causa estava bloqueada, dizia-se que por prudência, na Congregação para a Doutrina da Fé. Agora já não. Passou à Congregação para os Santos e segue o caminho normal de um processo; depende de como se movam os postuladores. É muito importante fazê-lo rapidamente. Porque eu gostaria que se esclarecesse quando há um martírio ‘in odium fidei’, por confessar o Credo ou por fazer as obras que Jesus nos manda fazer com o próximo. Este é um trabalho de teólogos, que o estão estudando. Por trás deRomero está Rutilio Grande e há outros. Outros que foram assassinados e que não têm a mesma estatura de Romero; é preciso distinguir teologicamente tudo isto. Para mim,Romero é um homem de Deus. Deve-se continuar o processo, o Senhor deve dar um de seus sinais; se o quer fazer, o fará. Agora os postuladores devem se mexer, porque já não há impedimentos.

15. O fracasso da Oração pela Paz: imediatamente depois os mísseis e bombas sobre Gaza
oração pela paz não foi absolutamente nenhum fracasso. Estes dois homens são homens de paz, são homens que acreditam em Deus e que viveram muitas coisas feias, muitas coisas feias, e estão convencidos de que a única via para resolver os problemas é a da negociação, do diálogo, da paz. Foi um fracasso? Eu creio que a porta está aberta. A paz é um dom de Deus, que merece o nosso trabalho, mas é um dom. E preciso dizer a toda a humanidade que a mesa da negociação é importante, mas também o é a da oração. Mas isto é conjuntural. Esse encontro não era uma conjuntura; é um passo fundamental da atitude humana, uma oração. Agora, a fumaça das bombas e das guerras não deixa ver essa porta, mas a porta permanece ali, aberta, desde aquele momento. Creio que Deus, creio no Senhor, essa porta está aberta, e peçamos que nos ajude.

Fonte:
http://www.ihu.unisinos.br/noticias/534460-entrevista-coletiva-do-papa-a-bordo-do-aviao-de-volta-da-coreia