O absurdo e a Graça

Na vida hoje caminhamos entre uma fome que condena ao sofrimento uma enorme parcela da humanidade e uma tecnologia moderníssima que garante um padrão de conforto e bem estar nunca antes imaginado. Um bilhão de seres humanos estão abaixo da linha da pobreza, na mais absoluta miséria, passam FOME ! Com a tecnologia que foi inventada seria possível produzir alimentos e acabar com TODA a fome no mundo, não fossem os interesses de alguns grupos detentores da tecnologia e do poder. "Para mim, o absurdo e a graça não estão mais separados. Dizer que "tudo é absurdo" ou dizer que "tudo é graça " é igualmente mentir ou trapacear... "Hoje a graça e o absurdo caminham, em mim lado a lado, não mais estranhos, mas estranhamente amigos" A cada dia, nas situações que se nos apresentam podemos decidir entre perpetuar o absurdo, ou promover a Graça. (Jean Yves Leloup) * O Blog tem o mesmo nome do livro autobiográfico de Jean Yves Leloup, e é uma forma de homenagear a quem muito tem me ensinado em seus livros retiros, seminários e workshops *

28 de agosto de 2022

O Rio da minha vida. As 71 voltas em torno do sol.

E o sol deu mais uma volta pelo céu.  Confesso que tenho a impressão, que desta vez, o acelerador estava o tempo todo acionado. É como se eu tivesse dormido e acordado 365 dias depois em uma só noite. Mas quando penso com mais cuidado, percebo que muita coisa aconteceu neste um ano. Foram dias de apreensão, de medo até. Temos tido que aprender a viver sob as mais variadas ameaças. Cada dia parece ter uma, ou várias provas a serem vencidas. Tenho a nítida impressão que aqueles anos de paz e tranquilidade, como um rio que corre lentamente em direção ao oceano, se transformaram em verdadeiras corredeiras que exigem atenção e cuidado o tempo todo. O importante, na verdade, é não esquecer de fluir e ter a certeza de que no final, o que se vai encontrar, não há a menor dúvida, é o grande mar.

É lá que todos iremos nos encontrar um dia.
A todo momento, e em tudo, não podemos esquecer que que o principal é a aprendizagem, o crescimento e o fluir, tendo o amor como regra e a fraternidade como princípio.

Sou muito grato ao criador que me proporcionou essas 71 (setenta e uma) voltas em torno do sol.
Sou grato pela luz desse sol, que iluminou sempre o meu caminho.
Sinto muito pelos tropeços que me detiveram no caminho, e dos momentos em que recusei temporariamente a ir adiante.
Peço ao grande criador que me perdoe por minha imaturidade e se algumas vezes fui rebelde e me recusei a aprender a lição.
Faço questão aqui de declarar o meu eterno amor a Ele , fonte de toda a vida, e de todo amor que banha nosso universo.


É como eu certa vez escrevi:
A minha vida é como um rio.
Da nascente à grande vazão,
A novidade é a constante.
Nenhuma gota repete um caminho já feito.
Tudo é novo, similar, parecido talvez,
mas sempre novo.
Numa curva como agora, 
O murmurar das aguas ansioso
Repete a eterna pergunta:
Quanto ainda falta para ao grande mar chegar?
Loucuras de rio afoito,
Que não percebe que o melhor do trajeto
É a simplicidade do suave marulhar.

Que eu continue a agradecer esse fluir de energia, que há cada ano, me presenteia sempre com um novo, simples e desafiante marulhar cotidiano. 


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11 de agosto de 2022

"Alfredinho" um padre que escolheu viver entre os rejeitados.

 

"ALFREDINHO", foi um padre suíço  que  pertenceu à congregação dos filhos da caridade, que na década de 1980, criou a "irmandade do servo sofredor".



BIOGRAFIA

Frédy Kunz, nasceu no dia 12 de fevereiro de 1920, em Berna (Suíça)

Em 1926, mudou-se, juntamente com a sua família, para Arbois (França).

Na infância, devido ao sobrenome de origem alemã era discriminado por outras crianças, no contexto de grande rivalidade entre os países no período posterior à primeira guerra mundial.

Aos onze anos de idade, começou a trabalhar em na cozinha de um hotel, no início, apenas durante as férias escolares. a partir dos 13 anos, quando terminou os estudos, passou a trabalhar até quinze horas por dia. o patrão o tratava com muita severidade, incluindo tapas da na cara e chutes no traseiro, quando executava tarefas com lentidão e, em troca, recebia uma baixa remuneração.

Aos 16 anos de idade, ingressou na Juventude Operária Católica (JOC).
Em 1940, durante a conquista da França pela Alemanha nazista, o regimento no qual servia foi capturado. Durante a época na qual foi prisioneiro de guerra, organizou grupos de oração e de assistência aos doentes.

Enquanto era prisioneiro de guerra, recusou-se a trabalhar para os nazistas em troca de um melhor tratamento como prisioneiro.

O contato com o sofrimento no campo de concentração o levou a meditar sobre o Cântico do Servo Sofredor, (Isaías,53), que contém os seguintes versos:

“.. desprezado e rejeitado pelos homens,

homem do sofrimento e experimentado na dor;

como indivíduo de quem a gente esconde o rosto,

ele era desprezado e nem tomamos conhecimento dele.

Todavia, eram as nossas doenças que ele carregava,

eram as nossas dores que ele levava em suas costas.

E nós achávamos que ele era um homem castigado,

um homem ferido por deus e humilhado.

Mas ele estava sendo transpassado por causa de nossas revoltas,

esmagado por nossos crimes.

Caiu sobre ele o castigo que nos deixaria quites;

e por suas feridas é que veio a cura para nós.  ”


 

Posteriormente, diria que:

“ É nos cânticos do servo de Deus que Jesus descobriu sua missão. Ele é o servo sofredor por excelência. E hoje, ele continua sua paixão e ressurreição na carne dos pobres humilhados, rejeitados, conduzidos ao matadouro. São esses pobres que purificam nossa humanidade corrompida pelo consumismo, pelo luxo, pelo desperdício, pela sexualidade desenfreada, pela violência. São as suas feridas que nos curam. Se nosso mundo de estupidez e de horrores não afunda de vez, é graças a esses servos sofredores. Seu espírito de resistência, sua disposição a perdoar pode converter aquele que detém o poder e o dinheiro, aquele que é vítima dos falsos deuses do mundo materialista. Quando o pobre, mergulhado nesse mistério, sem saber, adquire a inteligência do que ele vive, alguma coisa nasce. Porque a vocação do servo sofredor não é de ficar eternamente pisado. Ele é portador de uma esperança. Quando Isaías fala no meio dos cativos, ele pressente uma libertação. ”

Após a segunda guerra mundial, ingressou em um seminário, depois, alguém que conhecia suas características, o aconselhou a ingressar na Congregação dos Filhos da Caridade, uma congregação fundada em Paris (França), no dia 25 de dezembro de 1918, pelo padre Jean-Emile Anizan (1853-1928) e que tem como propósito a evangelização das classes trabalhadoras.

Em 1954, foi ordenado sacerdote.

Em 1955, depois de um ano atuando em uma paróquia em Paris, foi enviado para Montreal (Canadá), onde foi capelão da JOC e organizou o círculo Mximiliano Maria Kolbe que tinha como missão conseguir ajuda para pessoas necessitadas.

Entre 1962 e 1968, dedicou-se à Pastoral Vocacional e passou a pregar em retiros espirituais.

Em 1968, foi enviado para a diocese de Crateús (Ceará - Brasil), então dirigida por Dom Antônio Batista Fragoso, um dos participantes do Pacto das Catacumbas, que pretendia transformar a igreja católica em uma entidade a serviço dos mais pobres e das suas lutas para sair da miséria e da exploração.

Naquela cidade, concedeu a unção dos enfermos a uma jovem prostituta, de apenas 22 anos, que, duas semanas depois, faleceria de Tuberculose. Após o falecimento, Alfredinho alugou o barraco onde vivia a prostituta e naquele local, exerceria por três anos suas funções religiosas, convivendo com pessoas marginalizadas.

Em 1976, quando sofria de uma hérnia de disco, indagou ao biblista Carlos Mesters o sentido de tamanho sofrimento. Esse questionamento, levou Mesters a escrever o A Missão do Povo que Sofre", que apresenta Os Quatro Cânticos do Servo de Javé como quatro passos que o sofredor faz para descobrir-se servo.

No início de março de 1981, em decorrência de uma forte seca na região, dezenas de flagelados chegaram à cidade de Crateús em busca de alimentos. Naquele contexto, organizou a campanha "Porta Aberta aos Famintos" (PAF), pelo qual, às pessoas dispostas a doar comida aos famintos colocavam um cartaz com os referidos dizes na porta de suas casas. Essa campanha ajudou a alimentar milhares de camponeses pobres.

Irmandade do Servo Sofredor ( ISSO)

No dia 7 de janeiro de 1977, Alfredinho começou a pregar em um retiro que tinha como tema a figura do "Servo Sofredor" no Seminário da Prainha, em Fortaleza. Esse encontro contou com sete participantes que decidiram se reencontrar uma vez por ano, esse foi o surgimento da “Irmandade do Servo Sofredor” (ISSO), que teria como padroeiro São Maximiliano Maria Kolbe.

Alfredinho, um verdadeiro santo que viveu entre nós fez sua Páscoa no dia 12 de agosto de 2000, em Santo André (Brasil).


17 de julho de 2022

Parada para ouvir a voz interior


É preciso ouvir a sabedoria que vem de dentro e o momento é de silenciar e observar. 
Fora o que acontece no plano físico temos que considerar a grande batalha no plano espiritual. 
Atravessamos momentos muito difíceis. 
Além disso é preciso colocar em pratica o que se aprendeu com a física quântica e com a lei de Atração. Se ficarmos vibrando, só reclamação Das coisas que estão erradas, vamos pouco a pouco nos enredando neste novelo negativo até estarmos totalmente sufocados. 

É preciso muita serenidade e atenção.
Temos que plasmar internamente a mudança para que ela ocorra do lado de fora,
 

É tempo de ação e não de reclamação.
Pode parecer muito difícil, mas no momento é o que nos compete fazer.


Paz, silêncio e Luz a todos!

5 de junho de 2022

Pentecostes

 

A Festa de Pentecostes é um marco solido da fé cristã. A narrativa de Lucas no livro dos Atos dos Apóstolos (At 2,1-13) revela que os discípulos estavam reunidos no mesmo local dos encontros anteriores (os discípulos se reuniam de modo secreto e escondido, pois temiam perseguições por estarem envolvidos com Jesus, que fora condenado como malfeitor).

Pentecostes é o evento em que os discípulos perdem o medo e encontram através da força do Espírito Santo a coragem de testemunhar o Evangelho e assumir todos os riscos inerentes à vocação.

As línguas de fogo representam a força do alto, a intervenção divina e a luz do Espírito Santo que ilumina, aquece e encoraja. Pode-se dizer que as línguas de fogo são a unção de Deus para a nova missão dos discípulos. Eles até agora reunidos a portas fechadas, deixam o lugar e partem corajosamente para anunciar a missão, a paixão e a ressureição de Jesus.     (Frei Isidoro Mazzarolo)


                              
Quando vejo esta imagem, tão divulgada pela igreja nesta época de Pentecostes, fico me perguntando: se Maria e as outras mulheres que seguiam Jesus estavam também entre os apóstolos, Certamente que sim, pois o relato afirma que eram muitos. Com toda certeza também como eles, receberam a efusão do Espírito Santo.  Não deixaram de ser mulheres. Por que então resolveram ir além das decisões de Deus e privar as mulheres do sacerdócio?

Será que o Espírito de Deus escolheu em quem se manifestar?
Tenho pavor de incoerências.

Pedro pelo menos teve a humildade de admitir em uma outra situação que se o espírito havia se derramado sobre os "impuros", não seria ele que faria objeção. Mas parece que o magistério atual prefere outro caminho... 

 

Que o Espírito Santa traga Luz, muita Luz para que se possa ter um novo caminho mais inclusivo e genuinamente Cristão.
 Que ele nos dê coragem neste momento difícil de nossa história.



21 de abril de 2022

Tretas e mais tretas ...

 No país da "treta", está claro que tudo é possível, de minha parte já estou bastante indisposto e seguir com isso seria forçar o vômito.

Há dias venho observando e tentando me adaptar á algumas interferências e pequenas discordâncias daquilo que eu venho postando. Seja o "pavão misterioso" de Petrolina, em que me disseram que eu devia aprender a não julgar, ou o 19 de Abril que aprendi que não posso mais chamar de "Dia do Índio" ou até mesmo numa piada sobre o carnaval fora de época. Há um quê de gozo das pessoas em procurar tretas. Ontem estava vendo, por acaso, uma youtuber que falava da importância das discórdias e das tretas como entretenimento nos reality shows, e concluía que o atual reality global "flopou" porque teve pouca discórdia e poucas discussões e muito poucas brigas. E para culminar, até treta com STF o chefe máximo da nação resolveu criar com seu indulto.
Doravante, até que a náusea melhore fico com amenidades como músicas e fotos de minha cidade amada ou comentários sem maiores consequências.

28 de janeiro de 2022

Quem nasce lá na Vila, nem sequer vacila, ao abraçar o samba...( Noel Rosa)

 Eu nasci aqui, neste bairro e neste Boulevard, em uma maternidade que ficava a poucos metros e tinha o mesmo nome da Basílica de Nossa Senhora de Lourdes. Fiz o meu ensino primário numa escola também no Boulevard 28 de Setembro. Escola que existe até hoje "escola Argentina". Moro na vizinhança de Vila Isabel, no bairro do Maracanã, que é um bairro entre a Vila Isabel e a Tijuca. Vila Isabel.


João Batista Viana Drumond (1825-1897), o abolicionista Barão de Drumond, resolveu levantar, em 1872, um bairro nas terras da Fazenda dos Macacos que havia recém-adquirido. Encantado com Paris, o barão entregou o traçado do bairro ao arquiteto e engenheiro Francisco Bitencourt da Silva (fundador do Liceu de Artes e Ofícios do Rio de Janeiro). O bairro foi projetado com toques franceses, e batizado de Vila Isabel, em homenagem à filha de D.Pedro II, tendo ruas com nomes de abolicionistas.
A principal avenida recebeu o nome de Boulevard 28 de Setembro, em comemoração à data da assinatura da Lei do Ventre Livre. A praça do bairro foi nomeada Sete de Março, em homenagem ao dia da constituição do Gabinete do Primeiro Ministro Visconde de Rio Branco, que promoveu a famosa Lei de 1871, que determinava a libertação dos nascidos de mães escravas. A segunda rua em importância recebeu o nome de Teodoro da Silva, que havia assinado a Lei com a Princesa. Após a morte de Drumond, a praça passou a chamar-se Barão de Drumond.
Em 1873, o Barão havia criado a Companhia Ferro Carril de Vila Isabel, para a ligação do centro da cidade com o bairro.
Além de ter sido o primeiro bairro planejado da cidade, Vila Isabel abrigou o primeiro jardim zoológico do Rio de Janeiro. Como pretexto para incentivar a visita, o ingresso possuia um número representando um animal; no final do dia era efetuado um sorteio com prêmios em dinheiro. Esta a origem do jogo do bicho.
A foto é um cartão postal que mostra o boulevard. O canteiro central fora construído para facilitar o acesso do público ao bonde. O texto sobre a Vila Isabel foi copiado do Facebook Celia Fernanda FontouraFotos, Fatos e Histórias do Rio Antigo

21 de janeiro de 2022

O maravilhoso Thay nos deixou

Ele que espalhou tanta luz que possa repousar na clara luz.

A Comunidade Internacional da Aldeia de Plum do Budismo No vo anuncia que o nosso querido professor Thich Nhat Hanh faleceu pacificamente no Templo T ừ Hi ếu em Hu ế, Vietname, às 00:00 horas de 22 de Janeiro de 2022, aos 95 anos. Convidamos a nossa família espiritual global a tirar alguns momentos para estar quieta, para voltar à nossa respiração consciente, enquanto juntos mantemos Thay nos nossos corações em paz e amorosa gratidão por tudo o que ele ofereceu ao mundo.



22 de dezembro de 2021

Nasceu sem luxo, quase no lixo em meio aos animais...


"Estando eles ali, completaram-se os dias dela. E deu à luz seu filho primogênito, e, envolvendo-o em faixas, reclinou-o num presépio; porque não havia lugar para eles na hospedaria." Lc 2,6-7


E assim ele nasceu, sem teto, sem terra, sem luxo quase no lixo e a despeito disso os anjos cantavam e anunciavam:
Que aqueles que tem boa vontade, alcançarão a Paz ainda na Terra...

Ficou conhecido como um malfeitor que incomodava aos poderosos de seu tempo, 
que desafiava Reis e sacerdotes. 
Seu fim, deu-se prematuramente, mal saído da juventude, condenado a morte entre dois ladrões. 
Seu grande e único pecado foi desafiar a toda a humanidade a AMAR da mesma forma que Ele amava.

Seu nome? 
Yeshua, nascido em Belém, mais conhecido como Jesus de Nazaré, um jovem filho de carpinteiro que estranhamente tinha mais sabedoria que os doutores da Lei...
O reverenciam como Deus, embora ele mesmo nunca tenha se atribuído essa majestade, dizia apenas ser o filho de Deus, ou o filho do Homem, ou ainda que ele e o pai são UM e que também devemos ser UM com o Pai.
Pregava o Reino, o Reino do Pai, e disse que esse Reino está no meio de nós.
Sua presença, por incrível que possa parecer atravessa os séculos , embora alguns insistam em dizer que ele nunca existiu...

De certo só sei que ele vive em mim, e em tudo que irradia vida.







13 de novembro de 2021

Monge que levou o mindfulness para o Ocidente se prepara para morrer

                          Thich Nhat Hanh        Thây

                               

Thich Nhat Hanh, o monge que popularizou a atenção plena (mindfulness) no Ocidente, voltou para o Vietnã para aproveitar o resto de sua vida. Devotos de muitas partes do mundo estão o visitando. Aos 92 anos, ele se retirou em um templo budista fora  da cidade de Huế.

         
        

.Em 2014,  Thây,sofreu um derrame. Desde então, tem sido incapaz de falar ou continuar seus ensinamentos. Em outubro de 2018, ele expressou seu desejo, usando gestos, de retornar ao templo no Vietnã, onde foi ordenado como um jovem monge.



"Este corpo não sou eu;

Eu não estou preso neste corpo, sou a vida sem limites, eu nunca nasci e eu nunca morrerei.
Lá o vasto oceano e o céu com muitas galáxias todos manifestos na base da consciência. Desde tempos sem início sempre fui livre. Nascimento e morte são apenas um meio - uma porta que nós entramos e saimos. Nascimento e morte são apenas um jogo de esconde-esconde. Então sorria para mim e pegue minha mão e acene um adeus. Amanhã vamos nos encontrar de novo ou até mesmo antes. Estaremos sempre nos encontrando novamente na verdadeira fonte, sempre encontrando novamente nos caminhos inumeráveis da vida. "   
Thich Nhat Hanh  no livro Nenhuma morte, Nenhum medo




Minha gratidão a esse grande mestre


11 de novembro de 2021

Um passeio pelas redes e pelo noticiário.

 Hoje resolvi fazer uma coisa que já não fazia há algum tempo. Ler notícias e ver o que dizem as redes sobre a situação atual. Vi bem o que isso produz em mim. As postagens que compartilhei, uma parte delas mostram bem como essas coisas nos afetam, pelo menos afetam a mim de forma muito pouco positiva. Despertam uma revolta que pouco utilidade tem e afetam de forma bem negativa o meu projeto de ser uma pessoa melhor. Eu tenho como um projeto muito importante o fato de que quando nasci recebi um “ego”, e pretendo devolver quando for embora, um bem melhor. Pelo menos tenho me empenhado neste sentido.

Sinceramente não dá mais pra mim assistir a esse show de horrores e ficar de boa. Tenho uma grande responsabilidade porque cuido diariamente do ajustamento psicológico das pessoas, e preciso estar bem.
Vou cuidar das minhas flores e voltar a passar mais tempo no interior do meu interior.
Nada me alegra mais do que a floração da minhas micro orquídeas, algumas cujas flores são pouco maiores do que a cabeça de um alfinete, as flores amarelas da Phalaenopsis tão linda e tão rara em sua simplicidade, são motivo de gratidão ao criador. Nada disso me provoca raiva e mal estar.

Vou em busca do conselho da querida Teresona:

“Nada te perturbe, Nada te espante.
Tudo passa. Só Deus permanece.
A paciência tudo alcança.
Quem a Deus tem, nada lhe falta:
Só Deus basta.
Eleva o pensamento. Ao céu sobe.
Por nada te angusties. Nada te perturbe.
A Jesus Cristo segue, Com grande entrega,
E, venha o que vier, Nada te espante.
Vês a glória do mundo? É glória vã;
Nada tem de estável, Tudo passa.
Deseje as coisas celestes, Que sempre duram;
Fiel e rico em promessas, Deus não muda.
Ama-o como merece, Bondade Imensa;
Quem a Deus tem, Mesmo que passe por momentos difíceis;
Sendo Deus o seu tesouro, Nada lhe falta.
SÓ DEUS BASTA!"
( Teresa d’Ávila – Santa Teresa de Jesus)
Coleção de Microorquídeas



Coisas que acontecem em dia qualquer nestes tempos difíceis.


“… um menino de uns 10 anos estava parado, na frente de uma loja de sapatos olhando a vitrine e tremendo de frio. Uma senhora aproximou-se do menino e disse-lhe:

“Meu pequeno o que você está olhando com tanto interesse nesta vitrine”.
O menino então respondeu :
“Estava pedindo a Deus que me desse um par de sapatos”.
A senhora o tomou pela mão e o levou para dentro da loja, pediu ao empregado que lhe desse meia dúzia de pares de sapatos para o menino. Perguntou ao empregado se poderia lhe emprestar uma bacia com água e uma toalha. O empregado trouxe-lhe rapidamente o que pediu. A senhora levou o menino à parte traseira da loja, retirou as luvas, lavou os pés do menino e secou-os com a toalha. Então o empregado chegou com os sapatos, a senhora pôs-lhe um par deles no menino e os comprou-lhe. Juntou os outros pares e os deu ao menino. Afagou o menino na cabeça e disse-lhe:
“não há dúvida que você se sente agora mais confortável”.
O menino a abraçou, e quando ela já se voltava para sair, o menino com lágrimas nos olhos, lhe perguntou:
“A senhora é a esposa de Deus?

20 de outubro de 2021

E o ódio abunda em Pindorama

E o ódio abunda em Pindorama. O cardápio é variado:
Temos ataques racistas em POA, códigos secretos para avisar a presença de pobres e pretos na Zara.
Mas temos também o destempero do deputado que com Xingamentos agride o Bipo, e sobraram até para o Papa.
Tem também gente faminta revirando caminhão de lixo, disputa de ossos, na cidade maravilhosa gente em situação de grave miserabilidade.
O caos vai se estabelecendo de norte a sul deste Brasil varonil, coração do mundo (melhor seria dizer, coração imundo) pátria do evangelho ( ou seria do evangélico?).
O dólar sobe, a bolsa desce, o desemprego aumenta e o desespero começa a tomar conta. Mas temos piadas, memes, musiquinhas a cada dia mais atuais, para nos fazer rir. Para nos manter adestrados e comportados.
Fiquei pensando cá comigo, bem que podiam escolher a hiena como representante dessa nossa gente varonil. Ou terá algum outro animal mais “positivo” do que elas? Já que mesmo comendo merda estão sempre a sorrir.
Ela não é fofa



27 de setembro de 2021

Salve as crianças ! Salvem as Crianças e todos nós !


Parece que essa ausência das crianças, da alegria barulhenta delas, nos denuncia que há uma mudança muito ruim à nossa volta. Há gente que está desvirtuando e demonizando esse jeito simples de ser criança, de correr arás de doces, de reverenciar  os santos médicos, que para o gosto popular, foram sincretizados como crianças. Verdadeiros arquétipos da alegria, da simplicidade do jeito bom de ser eternamente criança. Não há espaço para isso mais. Mas não culpem a pandemia. Isso começou bem antes. Começou quando a intolerância seletiva passou a ter espaço, quando gente corrupta resolveu acabar com a corrupção, dos outros. Quando os supostos evangélicos passaram a agir na contramão do que pregam os evangelhos, quando o preconceito, o racismo, a homofobia e tudo mais de ruim que  os auto proclamados “gente de bem“ perderam a vergonha de mostrar publicamente. 

Foi desde aí que espancar pessoas homoafetivas, amarrar meninos negros em postes e começaram a bradar que bandido bom é bandido morto. Mas  eles só não dizem que depende do bandido. Porque bandido branco e rico, esses estão acima de qualquer condenação, e dependendo são merecedores de votos e de cargos nos altos escalões governamentais.
Hoje  minha oração tem endereço certo, eu a dirijo aos santos médicos, aos santos meninos, peço a eles que pelo bem desta nação, que dizem ter sido abençoada por Deus, e que parece caiu nas garras de algum espírito trevoso, que eles venham em nosso socorro. Que eles tomem Jesus, o verdadeiro, o que disse que o reino era dos puros, das crianças, dos ladrões e das prostitutas, antes de ser dos sacerdotes e auto proclamados “homens de bem”, que de mãos dadas com ele, o divino mestre e que ele, como fez no tempo quando andava nesta terra, de chicote na mão, expulse essa gente falsa, esses vendilhões que dizem falar em seu nome, que usam trechos do evangelho que exalta a verdade, para esconder suas mentiras. Que ele, o senhor dos senhores expulse de uma vez por todas esse verdadeiro câncer que adoenta a nossa terra de Santa Cruz, o Brasil de todos os brasileiros: índios, negros, brancos, mulatos, pobres e também ricos, desde que tenham boa vontade.
 São Cosme e São  Damião, os santos médicos, Doum, Crispim Crispiniano, Caboclinhos da mata e toda sorte de crianças nós estamos pedindo, venham salvar este país, porque já estamos perdendo a alegria, essa alegria infantil de nossas crianças interiores que sempre nos ajudaram a seguir em frente com confiança.
Salve Cosme e Damião ! Salve  os Erês !
SALVEM AS NOSSAS CRIANÇAS!
SALVEM-NOS!

28 de agosto de 2021

Alvorecer aos 70...


Silencio e me recolho para contemplar.
sirvo-me daquela oração havaiana:

“Minhas queridas memórias, eu as amo...”

Olhar o desenrolar da vida traz um gosto doce,
Que vez por outra, se mistura com o sal daquela lágrima
De alegre emoção, ou de uma  lembrança saudosa.
As vezes é  uma dor funda
Que vem de um canto triste da memória...
Mas há também lembrança boa,
Lembrar da risada gostosa de minha mãe preta,
E também dos carinhos da minha vó branca,
As reuniões familiares, o alvoroço dos primos...
De um tempo em que a vida passava bem devagar.
    
               

Quanta ternura neste baú de lembranças...
Remexendo encontro o pátio da escola pública,
Amigos, professora, comemorações cívicas...
E de repente o desafio do curso de admissão ao ginasial.
Revejo então a chegada no ginasial,
A insegurança de um mundo novo,
Depois o colegial, a universidade o primeiro emprego...
Os anos de chumbo, os tempos cinzentos...
As muitas perdas, pai, irmã, mãe...
Amigos que foram exterminados pelo regime da época...
Mas nem tudo é  só cinza neste baú.
Salta então da memória
O casamento, os filhos as realizações...
São muitos os recortes de lembranças,
Tantos, nestas setenta voltas do sol
Que se relatados aqui se tornariam um livro.

Mas, olhando daqui,
Me parece que passaram tão rápido.
Teriam sido setenta mesmo ?

Mas, é tempo de olhar adiante.
Há muito que fazer ainda.
É hora de rever a bagagem
Abandonar, desapegar.
Há muita coisa, coisa demais até
Que só pertence ao passado,
É urgente libertá-las:

Minhas queridas memórias, eu as amo.
 Sou grato por poder libertá-las
E assim também me libertar...

É hora de transformar lembranças em experiência.

Minhas queridas memórias...

Lembro que ultrapassei, e muito, o meio da viagem,
Não faz  mais sentido acumular bagagem.
Pra onde eu vou agora,
Nas urgências desta vida,
Uma pequena maleta de  sonhos,
Uma mochila com boas esperanças,
Cheia de muito amor e bem querer,
Que acondicione bem uma boa porção
De bom humor e muitos sorrisos,
É só o que eu preciso, pra terminar bem
Essa minha feliz e bem sucedida viagem.
Hoje a palavra e o sentimento são um só:
Gratidão.

Sinto muito,
Se no caminho desapontei alguém.

Me perdoe,
Se mais que desapontar eu magoei ou ofendi alguém.

Sou Grato ,
Ao Divino Criador que tudo me deu,

E, é a ele que não me canso de dizer
Eu te amo

25 de agosto de 2021

«Oração do Coração»

meditação / Oração Hesicasta)   Henri Nouwen

A oração hesicástica, que leva ao descanso em que a alma habita com Deus, é a oração do coração. Para nós que damos tanta importância à mente, aprender a rezar com o coração e a partir dele tem importância especial. Os monges do deserto nos mostram o caminho. Embora não exponham nenhuma teoria sobre a oração, suas narrativas e seus conselhos concretos apresentam as pedras com as quais os autores espirituais ortodoxos mais tardios construíram uma espiritualidade magnífica. Os autores espirituais do monte Sinai, do monte Atos e os startsi da Rússia oitocentista apóiam-se todos na tradição do deserto. Encontramos a melhor formulação da oração do coração nas palavras do místico russo Teófano, o Recluso: "Rezar é descer com a mente ao coração e ali ficar diante da face do Senhor, onipresente, onividente dentro de nós". No decorrer dos séculos, essa perspectiva da oração tem sido central no hesicasmo Rezar é ficar na presença de Deus com a mente no coração, isto é, naquele ponto de nossa existência em que não há divisões nem distinções e onde somos totalmente um. Ali habita o Espírito de Deus e ali acontece o grande encontro. Ali, coração fala a coração, porque ali ficamos diante da face do Senhor, onividente, dentro de nós. É bom saber que aqui a palavra "coração" é usada em seu sentido bíblico pleno. em nosso meio, ela se tornou lugar-comum. Refere-se à sede da vida sentimental. Expressões como "coração partido" e "sentido no coração" mostram ser comum pensarmos no coração como o lugar quente onde se localizam as emoções, em contraste com o frio intelecto onde têm lugar nossos pensamentos. Mas, na tradição judeu-cristã, a palavra "coração" refere-se à fonte de todas as energias físicas, emocionais, intelectuais, volitivas e morais.


No coração, originam-se impulsos impenetráveis, além de sentimentos, disposições e desejos conscientes. O coração também tem suas razões e é o centro da percepção e do entendimento. Finalmente, ele é a sede da vontade: faz planos e chega a uma boa decisão. Assim, é o órgão central e unificador de nossa vida pessoal. Nosso coração determina nossa personalidade e é, portanto, não só o lugar onde Deus habita mas também o lugar ao qual Satanás dirige seus ataques mais ferozes. Esse coração é o lugar da oração. A oração do coração dirige-se a Deus a partir do centro da pessoa e, assim, afeta toda a nossa compaixão.

Um dos monges do deserto, Macário, o Grande, diz: "A tarefa principal do atleta (isto é, do monge) é entrar em seu coração". Isso não significa que o monge deva procura encher sua oração de sentimento; signfica que deve esforçar-se para deixar que ela remodele toda a sua pessoa. O discernimento mais profundo dos monges do deserto é que entrar no coração é entrar no Reino de Deus. Em outras palavras, o caminho para Deus é pelo coração. Isaac, o Sírio, escreve:

«Procure entrar na câmara do tesouro... que está dentro de você e então descobrirá a câmara do tesouro do céu. Pois ambas são a mesma coisa. Se conseguir entrar em uma, você verá ambas. A escada para este Reino está escondida dentro de você, em sua alma. Se você purificar a alma, ali verá os degraus da escada que deve subir.»

E João de Cárpato diz:

«É preciso grande esforço e luta na oração para alcançar aquele estado da mente que é livre de toda perturbação; é um céu dentro do coração (literalmente 'intracardíaco'), o lugar onde, como o apóstolo Paulo assegura, "Cristo está em vós.» (2Cor13,5).

Em suas falas, os monges do deserto nos indicam uma visão bastante holística de oração. Eles nos afastam de nossas práticas intelectuais, nas quais Deus se transforma em um dos muitos problemas com os quais temos de lidar. Mostram-nos que a verdadeira oração penetra no âmago de nossa alma e não deixa nada sem tocar. A oração do coração não nos permite limitar nosso relacionamento com Deus a palavras interessantes ou emoções piedosas. Por sua própria natureza, essa oração transforma todo o nosso ser em Cristo, precisamente porque abre os olhos de nossa alma à verdade de nós mesmos e também à verdade de Deus. Em nosso coração passamos a nos ver como pecadores abraçados pela misericórdia de Deus. É essa visão que nos faz clamar: "Senhor Jesus Cristo, Filho do Deus vivo, tem misericórdia de mim, pecador". A oração do coração nos exorta a não esconder absolutamente nada de Deus e a nos entregar incondicionalmente a sua misericórdia.

Assim, a oração do coração é a oração da verdade. Desmascara as muitas ilusões sobre nós mesmos e sobre Deus e nos conduz ao verdadeiro relacionamento do pecador com o Deus misericordioso. Essa verdade é o que nos dá o "descanso" do hesicasta. Quando ela se abriga em nosso coração, somos menos distraídos por pensamentos mundanos e nos voltamos mais sinceramente para o Senhor de nossos corações e do universo. Assim, as palavras de Jesus: "Felizes os corações puros: eles verão a Deus" (Mt 5,8) tornam-se reais em nossa oração. As tentações e as lutas continuam até o fim de nossas vidas, mas com um coração puro ficamos tranqüilos, mesmo em meio a uma existência agitada.

Isso levanta o problema de como praticar a oração do coração em um ministério bastante agitado. É a essa questão de disciplina para a qual precisamos agora voltar a atenção.

                                  

                                                       Kombuskini ou Chapelet   

Oração e ministério

Como nós, que não somos monges nem vivemos no deserto, praticamos a oração do coração? Como ela influencia nosso ministério cotidiano?

A resposta a essa pergunta está na formulação de uma disciplina definitiva, uma regra de oração. As características da oração do coração que nos ajudam a formular essa disciplina:

— A oração do coração alimenta-se de orações breves e simples.

— A oração do coração é incessante.

— A oração do coração inclui tudo.

— Alimenta-se de Orações Breves

No contexto de nossa cultura verbosa, é significativo ouvir os monges do deserto nos aconselhando a não usar palavras em excesso:

«Perguntaram ao aba Macário: 'Como se deve rezar?' O ancião respondeu: 'Não há, em absoluto, necessidade de fazer longos discursos; basta estender a mão e dizer: Senhor, como queres e como sabes, tem misericórdia. E se o conflito ficar mais ameaçador, dizer: Senhor, ajuda. Ele sabe muito bem do que precisamos e nos mostra sua misericórdia.»

João Clímaco é ainda mais explícito:

«Quando rezar, não procure se expressar em palavras extravagantes pois, quase sempre, são as frases simples e repetitivas de uma criancinha que nosso Pai do céu acha mais irresistíveis. Não se esforce em muito falar, para que a busca de palavras não lhe distraia a mente da oração. Uma única frase nos lábios do coletor de impostos foi suficiente para lhe alcançar a misericórdia divina; um pedido humilde feito com fé foi suficiente para salvar o bom ladrão. A tagarelice na oração sujeita a mente à fantasia e à dissipação; por sua natureza, as palavras simples tendem a concentrar a atenção. Quando encontrar satisfação ou contrição em determinada palavra de sua oração, pare nesse ponto.»

Essa é uma sugestão muito útil para nós que tanto dependemos da capacidade verbal. A tranqüila repetição de uma única palavra ajuda-nos a descer com a mente ao coração. (Também a base da OC, nota da autora do site). Essa repetição nada tem a ver com mágica. Não tem o propósito de enfeitiçar Deus, nem de forçá-lo a nos ouvir. Pelo contrário, uma palavra ou sentença repetida com freqüência ajuda-nos a nos concentrar, a nos mover para o centro, a criar uma tranqüilidade interior e, assim, a ouvir a voz de Deus. Quando simplesmente tentamos ficar sentados em silêncio e esperar que Deus nos fale, nos vemos bombardeados por intermináveis pensamentos e idéias conflitantes. Mas quando usamos uma sentença bastante simples como: "Ó Deus, vem em meus auxílio", ou "Jesus, mestre, tem piedade de mim", ou uma palavra como "Senhor" ou "Jesus", é mais fácil deixar as muitas distrações passarem sem nos deixarmos iludir por elas. Essa oração simples, repetida com facilidade, esvazia aos poucos nossa vida interior apinhada e cria o espaço sossegado onde habitamos com Deus. É como uma escada pela qual descemos ao coração e subimos a Deus. Nossa escolha de palavras depende de nossas necessidades e das circunstâncias do momento, mas é melhor usar palavras da Escritura.

Quando somos fiéis a essa oração simples e a praticamos com regularidade, ela nos conduz devagar a uma experiência de descanso e nos abre à presença ativa de Deus. Além disso, em um dia muito atarefado, podemos levar essa oração conosco. Quando, por exemplo, passamos, no início da manhã, 20 minutos sentados na presença de Deus com as palavras: "O Senhor é meu pastor", elas lentamente constroem em nosso coração um pequeno ninho para si mesmas e ali ficam o restante de nosso dia atarefado. Até enquanto falamos, estudamos, cuidamos do jardim ou construímos alguma coisa, a oração continua em nosso coração e nos mantém conscientes da orientação onipresente de Deus. A disciplina não é agora dirigida para um discernimento mais profundo do que significa chamar Deus de nosso Pastor, mas para a íntima experiência da ação pastoral de Deus em tudo que pensamos, dizemos ou fazemos.

Incessante

A segunda característica da oração do coração é ser incessante. A pergunta de como seguir a ordem de Paulo: "Orai incessantemente" foi fundamental no hesicasmo desde a época dos monges do deserto até a Rússia oitocentista. Há muitos exemplos desse interesse nos dois extremos da tradição hesicástica. (Vejamos um dos principais:)

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Na famosa história do Peregrino Russo lemos:

«Pela graça de Deus sou cristão, mas pelas minhas ações sou um grande pecador... No vigésimo quarto domingo depois de Pentecostes, fui à igreja para ali fazer minhas orações durante a liturgia. Estava sendo lida a primeira Epístola de S. Paulo aos Tessalonicenses e, entre outras palavras, ouvi estas: 'Orai incessantemente' (1Ts 5,17). Foi esse texto, mais que qualquer outro, que se inculcou em minha mente, e comecei a pensar como seria possível rezar incessantemente, já que um homem tem de se preocupar também com outras coisas a fim de ganhar a vida.»

O camponês foi de igreja em igreja, para ouvir sermões, mas não encontrou a resposta que queria. Finalmente, encontrou um santo staretz que lhe disse:

«A oração interior incessante é um anseio contínuo do espírito humano por Deus. Para sermos bem-sucedidos nesse exercício consolador, precisamos suplicar com mais freqüência a Deus que nos ensine a rezar sem cessar. Rezar mais e rezar com mais fervor. É a própria oração que lhe revela como rezá-la sem cessar; mas leva algum tempo.»

Então, o santo staretz ensinou ao camponês a Oração de Jesus: "Senhor Jesus Cristo, tem misericórdia de mim". Enquanto viajava como peregrino pela Rússia, o camponês passou a repetir essa oração com os lábios. Até considerava a oração de Jesus sua companheira verdadeira. E, então, um dia, teve a sensação de que a oração passou sozinha de seus lábios para seu coração. Ele diz:

«... parecia que, pulsando normalmente, meu coração começava a dizer as palavras da oração a cada batida... Desisti de dizer a oração com os lábios. Passei simplesmente a ouvir o que meu coração dizia.»

Aqui aprendemos outro jeito de chegar à oração incessante. A oração continua a rezar dentro de mim, até enquanto falo com os outros ou me concentro no trabalho manual. Ela se torna a presença ativa do Espírito de Deus que me guia pela vida.

Desse modo vemos como, pela caridade e pela atividade da oração de Jesus em nosso coração, nosso dia todo se transforma em oração contínua. Não sugiro que imitemos o peregrino russo, mas que, também nós, em nosso ministério atarefado, nos preocupemos em rezar sem cessar, para que, seja o que for que comamos ou bebamos, seja o que for que façamos o façamos pela glória de Deus. (Veja 1Cor 10,31). Amar e trabalhar pela glória de Deus não pode permanecer uma idéia sobre a qual pensamos de vez em quando. Deve se tornar uma incessante doxologia interior.

Inclui tudo

Uma última característica da oração do coração é que ela inclui todos os nossos interesses. Quando entramos com a mente no coração e ali ficamos na presença de Deus, então todas as nossa preocupações mentais se transformam em oração. O poder da oração do coração é precisamente que, por meio dela, tudo que está em nossa mente se transforma em oração.

Quando dizemos a alguém: "Vou rezar por você", assumimos um compromisso muito importante. É uma pena que esse comentário muitas vezes não passe de uma expressão de interesse. Mas, quando aprendemos a descer com nossa mente em nosso coração, todos os que fazem parte de nossa vida são guiados à presença curativa de Deus e tocados por ele no centro de nosso ser. Falamos aqui de um mistério para o qual palavras são inadequadas. É o mistério em que o coração, centro de nosso ser, é transformado por Deus em seu coração, um coração grande o bastante para abraçar todo o universo. pela oração, carregamos em nosso coração toda a dor e tristeza humanas, todos os conflitos agonias, toda a tortura e a guerra, toda a fome, solidão e miséria, não por causa de alguma grande capacidade psicológica ou emocional, mas porque o coração de Deus uniu-se ao nosso.

Aqui vislumbramos o sentidos das palavras de Jesus:

«Tomais sobre vós o meu jugo e sede discípulos meus, porque eu sou manso e humilde de coração, e encontrareis descanso para vossas almas. Sim, o meu jugo é fácil de carregar, e o meu fardo é leve.» (Mt 11,29-30).

Jesus nos convida a aceitar seu fardo, que é o do mundo todo, um fardo que inclui o sofrimento humano em todos os tempos e lugares. Mas esse fardo divino é leve e podemos carregá-lo quando nosso coração se transforma no coração manso e humilde de nosso Senhor.

Vemos aqui o íntimo relacionamento entre oração e ministério. A disciplina de conduzir todo o nosso povo com suas lutas ao coração manso e humilde de Deus é a disciplina de oração e também do ministério. Enquanto o ministério significar apenas que nos preocupamos muito com as pessoas e seus problemas; enquanto significar um número interminável de atividades que dificilmente conseguimos coordenar, ainda dependeremos muito de nosso coração tacanho e ansioso. Mas quando nossas preocupações são elevadas ao coração de Deus e ali se transformam em oração, ministério e oração se tornam duas manifestações do mesmo amor universal de Deus.

Vimos como a oração do coração se nutre de orações breves, é incessante e inclui tudo. Essas três características mostram como a oração do coração é o alento da vida espiritual e de todo o ministério. Na verdade, essa oração não é apenas uma atividade importante, mas o próprio centro da nova vida que queremos representar e na qual queremos iniciar nosso povo. As características da oração do coração deixam claro que ela exige uma disciplina pessoal. Para levar uma vida de oração não podemos passar sem orações específicas. Precisamos dizê-las de uma forma que nos ajude a ouvir melhor o Espírito que reza em nós. Precisamos continuar a incluir em nossa oração todas as pessoas com as quais e para as quais vivemos e trabalhamos. Essa disciplina vai nos ajudar a passar de um ministério entontecedor, fragmentário e muitas vezes frustrante para um ministério integrador, holístico e muito gratificante. Ela não vai facilitar o ministério, mas simplificá-lo; não vai torná-lo doce e piedoso, mas sim espiritual; não vai fazê-lo indolor e sem lutas, mas tranqüilo no verdadeiro sentido hesicástico."

FONTE:

NOUWEN, Henri J. M. A Espiritualidade do Deserto e o Ministério Contemporâneo - O Caminho do Coração. São Paulo: Ed. Loyola, 2000.