Absurdo e graça!

.Na vida hoje caminhamos entre uma fome que condena ao sofrimento uma enorme parcela da humanidade
e uma tecnologia moderníssima que garante um padrão de conforto e bem estar nunca antes imaginado.
Um bilhão de seres humanos estão abaixo da linha da pobreza, na mais absoluta miséria, passam FOME !
Com a tecnologia que foi inventada seria possível produzir alimentos e acabar com TODA a fome no mundo,
não fossem os interesses de alguns grupos detentores da tecnologia e do poder.

"Para mim, o absurdo e a graça não estão mais separados.
Dizer que "tudo é absurdo" ou dizer que "tudo é graça "
é igualmente mentir ou trapacear...
Como morrer e ressuscitar, o absurdo e a graça são só dois lados da mesma moeda."
"Hoje a graça e o absurdo caminham, em mim lado a lado,
não mais estranhos,
mas estranhamente amigos"
A cada dia,nas situações que se nos apresentam podemos decidir entre perpetuar o absurdo ou promover a Graça. (Jean Yves Leloup)

* O Blog tem o mesmo nome do livro autobiográfico de Jean Yves Leloup, e é uma forma de homenagear a quem muito tem me ensinado em seus retiros, seminários e workshops *

Receba "O Absurdo e a Graça" por Email

Total de visualizações de página

21 de fevereiro de 2017

Plim Plim ! CARNAVAL : você não vai ver por aqui !


Ainda ontem me peguei lembrando dos carnavais do passado, e recordei dos carnavais  passados quando as TVs se esforçavam para mostrar um carnaval de rua que ano a ano minguava.
 A “Poderosa” nunca se preocupou com isso. Na verdade eles odeiam povo, ou melhor, só gostam mesmo de povo quando este lhes faz aumentar seus lucros. Mas havia as outras TVs: TV Tupi, TV Rio, TVE, TV Continental canal nove! Quem se lembra? Todas faziam plantão na Av. Rio Branco e na Cinelândia para mostrar  os foliões  e os “blocos  de Sujo” e blocos de empolgação, os “bate bolas”.  Além do “Cordão do Bola Preta”, que resiste e cresce até hoje, ano a ano, havia ainda o  “Bafo da Onça” ,  “Cacique de Ramos”,  “Boêmios de Irajá” e mais tarde o “Clube do Samba”, do João Nogueira, presença obrigatória nos sábados à tarde.  À noite transmitam os Bailes de Gala, os desfiles de Fantasias e as agremiações de Frevo, os  Ranchos , as Escolas de Samba e na terça feira de Carnaval  as Grandes Sociedades Carnavalescas com seus carros alegóricos  e os seus divertidos carros de critica política. Era um carnaval mais democrático mesmo nos tempos em que o  país vivia uma ditadura.
 O tempo passou,  os bailes perderam muito do glamour, as sociedades carnavalescas sumiram, os blocos de Rancho então desapareceram, ninguém mais dança frevo na avenida... Nem Bafo da Onça nem Cacique de Ramos levam mais as multidões para a avenida, não há mais disputa de quem fica mais tempo desfilando ...


Mas no entanto, o carnaval de rua , apesar das profecias apocalípticas não morreu, pelo contrário, vem crescendo ano a ano. Há blocos  por toda a cidade. O Rio ressuscitou o seu carnaval de rua, que hoje é animadíssimo, mas as TVs parecem ignorar esse fato. Chego a ter dúvidas se  não fazem questão de não divulgar isso. Aliás, o antigo prefeito já limitou o numero de blocos. Ele achava que podia controlar a alegria do povo ! O Atual  eu acho que se pudesse transformava o carnaval numa "Marcha Prá Jesus", pena (pra ele) que Jesus prefira os blocos de sujo do povão a essa chatice pseudo-evangélica.


Nenhuma TV transmite mais o que está acontecendo na avenida, a despeito de haver muita atividade por lá. Tenho a impressão de que a “Toda Poderosa” impôs as suas regras. Dominou a transmissão do carnaval e ganha fortunas  transmitindo para o mundo as cenas da maior festa popular do mundo, ou a visão parcial do que ela acha que é essa festa..  Mas faz isso de forma muito pouco eficiente, transmite o que quer, e de forma precária, parcial  privando a quem está do outro lado da tela de detalhes,  informações e o que realmente está acontecendo. Mostra o que não interessa, como entrevistas intermináveis num sambódromo vazio. Na transmissão do desfile pula de uma imagem para outra comprometendo  a compreensão do enredo para quem não está lá na Passarela do Samba. Além disso faz de conta que o carnaval do Rio de Janeiro é só a Marques de Sapucaí. Pouco se fala até mesmo nos telejornais, sobre os blocos que desfilam pelas ruas da cidade, ou da criatividade dos foliões anônimos que fazem do Rio uma grande festa por onde quer que se possa andar.
 Em casa, os velhos, e os impossibilitados de acompanhar essa festa  ficam sem poder assisti-la, ou sequer ter ideia do que está acontecendo.
Fiquei pensando que tipo de jornalismo é este que só transmite más notícias, que entra no ar em edição até extraordinária para mostrar qualquer desgraça que aconteça, ao VIVO e em cores. Um jornalismo que se recusa a mostrar a ALEGRIA, a VIDA !  A celebração de uma festa onde o povo faz da fantasia a sua grande oportunidade de viver algo que durante o ano inteiro lhe é impedido viver.
A quem será que interessa divulgar o mau humor, o ódio, a violência, as desgraças e o sentimento de que não tem mais jeito?
A quem interessa boicotar a alegria?
A quem interessa destruir a esperança do povo?

Só me resta pedir a Deus poder cantar com Vinícius e Toquinho os versos finais da “Marcha da Quarta feira de Cinzas:
............................................................................

E, no entanto é preciso cantar,
Mais que nunca é preciso cantar,
É preciso cantar e alegrar a cidade.

A tristeza que a gente tem
Qualquer dia vai se acabar.
Todos vão sorrir,
Voltou a esperança
É o povo que dança,
Contente da vida, feliz a cantar.
Porque são tantas coisas azuis,
E há tão grandes promessas de luz?
Tanto amor para amar de que a gente nem sabe.

Quem me dera viver pra ver,
E brincar outros carnavais,
Com a beleza dos velhos carnavais,
Que marchas tão lindas
E o povo cantando seu canto de paz.
Seu canto de paz!


4 de fevereiro de 2017

Pedro Casaldáliga ainda enfrenta "lobos" e fala de esperança



Dia 16 de Fevereiro ele completa 89 anos

Bispo emérito de São Félix do Araguaia (MT) resiste a ameaças, critica o sistema político, o agronegócio, os impérios. E se apresenta como soldado de uma causa invencível

Por Sônia Oddi e Celso Maldos,

São Félix do Araguaia, nordeste mato-grossense, 10 de maio de 2014. Numa pequena capela, no fundo do quintal, uma oração inaugura o dia na casa do bispo emérito de São Félix, dom Pedro Casaldáliga. A simplicidade da arquitetura ganha força com o significado dos objetos ali dispostos.
No altar, uma toalha com grafismos indígenas. Na parede, um relevo do mapa da África Crucificada, um Cristo rústico no crucifixo, uma cerâmica de mãe que protege seu filho com um braço e carrega um pote no outro. No chão de cimento, bancos feitos de toras de madeira, que lembram aqueles de buriti, usados pelos Xavante, em uma competição tradicional, em que duas equipes se enfrentam numa corrida de revezamento, carregando as toras nos ombros, demonstração de resistência e força, qualidades de um povo conhecido por suas habilidades guerreiras. Cercada de plantas, a luz entra por todas as faces das tímidas e incompletas paredes. Nesse ambiente orgânico, assim como tem sido a vida de Pedro, os amigos se aninham para tomar parte da oração.
José Maria Concepción, companheiro de Pedro de longa data, e recém-chegado da Espanha, inicia a leitura: “1795: José Leonardo Chirino, mestiço, lidera a insurreição de Coro, Venezuela, com índios e negros lutando pela liberdade dos escravos e a eliminação de impostos. 1985: Irne García e Gustavo Chamorro, mártires da justiça. Guanabanal, Colômbia.
1986: Josimo Morais Tavares, padre, assassinado pelo latifúndio. Imperatriz, Maranhão, Brasil”
Os martírios lembrados referem-se àquela data, 10 de maio. Inúmeros outros, centenas deles, são e serão lembrados ao longo de todo o ano, de acordo com a Agenda Latino-Americana. E continua: “2013: Ríos Montt, ex-ditador guatemalteco, condenado a 80 anos de prisão por genocídio e crimes contra a humanidade. A Comissão da Verdade calcula que ele cometeu 800 assassinatos por mês, nos 17 meses em que governou, depois de um golpe de Estado.”
O jovem padre Felipe Cruz, agostiniano, de origem pernambucana, conduz um canto, a reza do pai-nosso e a leitura de uma passagem da edição pastoral da Bíblia. O encerramento se dá com a Oração da Irmandade dos Mártires da Caminhada Latino-Americana, escrita por dom Pedro, onde na última linha pode-se ler “Amém, Axé, Awere, Aleluia!”, em respeito à diversidade de crenças do povo brasileiro.
Em nome desse respeito, dom Pedro nunca celebrou uma missa na Terra Indígena Marãiwatsédé, dos Xavante, comunidade que desde sempre contou com o seu apoio na luta pela retomada da terra, de onde haviam sido deportados em 1968 e para onde começaram a retornar em 2004. “Se o bispo está aqui celebrando a missa, significa que nós estamos em pleno direito aqui. E, por orientação do Cimi (Conselho Indigenista Missionário) e da igreja da Prelazia, ele, pessoalmente, não fez nenhuma celebração na reserva”, testemunha José Maria.
Por apoiar a luta quase cinquentenária dos povos originários daquela região de Mato Grosso, Pedro foi ameaçado de morte algumas vezes. Na última, no final de 2012, quando o processo de desintrusão (medida legal para efetivar a posse) dos fazendeiros e posseiros da TI (terra indígena) Marãiwatsédé avançava e se efetivava, decorrente da determinação da Justiça e do governo federal, ele teve de se ausentar de São Félix.
Perseguições, ameaças de morte e processos de expulsão do país têm marcado a trajetória de Pedro, que chegou à longínqua região do Araguaia, como missionário claretiano, em 1968, aos 40 anos. De origem catalã, ele nasceu em 1928 – e aos 8 anos teve sua primeira experiência com o martírio, quando um irmão de sua mãe, padre, foi assassinado quando a Espanha estava mergulhada em uma sangrenta guerra civil.
A Prelazia de São Félix, uma divisão geográfica da Igreja Católica, foi criada em 1969 e abrange 15 municípios: Santa Cruz do Xingu, São José do Xingu, Vila Rica, Santa Terezinha, Luciara, Novo Santo Antônio, Bom Jesus do Araguaia, Confresa, Porto Alegre do Norte, Canabrava do Norte, Serra Nova Dourada, Alto Boa Vista, Ribeirão Cascalheira, Querência e São Félix do Araguaia. Atualmente, conta com uma população estimada em 135 mil habitantes, uma área aproximada de 102 mil quilômetros quadrados e 22 chamadas paróquias.
Pedro, em meio às distâncias, encontrou um povo carente, sofrido, abandonado, à mercê das ameaças dos grandes proprietários criadores de gado. Os pobres do Evangelho, a quem havia escolhido dedicar a sua vida, estavam ali.
Em 1971, pelas mãos de dom Tomás Balduíno (que morreu em maio último, aos 91 anos) foi sagrado bispo da prelazia. A partir de 2005, quando renunciou, recebeu o título de bispo emérito.
Um dos fundadores da Teologia da Libertação, o seu engajamento nas lutas dos ribeirinhos, indígenas e camponeses incomodou os latifundiários e a ditadura. Ainda hoje, incomoda os homens ricos e poderosos do Centro-Oeste brasileiro.
A política dos incentivos fiscais, levada a cabo pelos militares, por meio da Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia (Sudam), foi o berço do agronegócio. E também dos conflitos advindos da expropriação da terra das populações originárias, da exploração da mão de obra, do trabalho escravo e toda sorte de violências, que indignou o missionário Pedro e o fez escolher do lado de quem estaria.
“O direito dos povos indígenas são interesses que contestam a política oficial”, diz dom Pedro. “São culturas contrárias ao capitalismo neoliberal e às exigências das empresas de mineração, das madeireiras. Os povos indígenas reivindicam uma atuação respeitosa e ecológica.”
Em plena ditadura, nos anos 1970, fundou, junto com dom Tomás Balduíno, o Cimi e a Comissão Pastoral da Terra (CPT), como resposta à grave situação dos trabalhadores rurais, indígenas, posseiros e peões, sobretudo na Amazônia. Ainda nesse período, em 1976, presenciou o assassinato do padre João Bosco Burnier, baleado na nuca quando ambos defendiam duas mulheres que eram torturadas em uma delegacia de Ribeirão Cascalheira (MT).
Pedro faz seções de fisioterapia algumas vezes na semana. Aos 86 anos, e com o Parkinson diagnosticado há cerca de 30, esse cuidado se faz necessário para minimizar os avanços do mal que provoca atrofia muscular e tremores. Ele segue disciplinadamente uma dieta alimentar, o que de certa maneira retardou, mas não cessou, segundo seu médico, o avanço da doença.
A disciplina se repete na leitura diária de e-mails, notícias, artigos, acompanhado mais frequentemente por frei Paulo, agostiniano, que assim como dom Pedro tem sempre as portas abertas para moradores da comunidade e viajantes. Durante a visita da Revista do Brasil, por exemplo, há uma pausa para acolher Raimundo, homem alto, pardo, magro que, aflito, emocionado, de joelhos, pedia a sua bênção.
A casa é simples, de tijolos aparentes, sem acabamento nas paredes. Porém, tal como a capela no fundo do quintal, é plena de significados e ícones que atestam o compromisso com as causas humanas, de quem vive sob aquele teto.

Che, Jesus, Milton

No quarto, na salinha, na cozinha, no alpendre dos fundos, no escritório, um devaneio para os olhos e para o coração. Imagens de significados diversos: Che Guevara, Jesus Cristo, Milton Nascimento, padre João Bosco Burnier, dom Hélder Câmara, monsenhor Romero, Pablo Neruda. Textos de Martín Fierro, São Francisco de Assis, Joan Maragall, Exodus. Pôsteres da Missa dos Quilombos, da Romaria dos Mártires da Caminhada, da Semana da Terra Padre Josimo. Calendários da Guerra de Canudos, de operários no 1º de Maio. E ainda fotos, pequenas lembranças e artefatos populares, em meio a estatuetas de prêmios recebidos.
O seu compromisso com as causas populares extrapola as fronteiras do país. Em 1994, dom Pedro apoiou a revolta de Chiapas, no México, afirmando que quando o povo pega em armas deve ser respeitado e compreendido. Em 1999, publicou a Declaração de Amor à Revolução Total de Cuba. Fala com convicção da importância da unidade latino-americana, idealizada por Simon Bolívar (1783-1830) e defendida pelo ex-presidente da Venezuela Hugo Chávez (1954-2013).
“Eu dizia que o Brasil era pouco latino-americano, a língua comum dos povos castelhanos fez com que o Brasil se sentisse um pouco à parte do resto”, diz dom Pedro. “Por outro lado, o Brasil tem umas condições de hegemonia que provocava nos outros povos uma atitude de desconfiança. Hugo Chávez fez uma proposta otimista, militante, apelando para o espírito de Bolívar, com isso se conseguiu vitórias interessantes, como impedir a vitória da Alca.”
Ele recorda de um encontro com o ex-presidente brasileiro. “Quando Lula esteve na assembleia da CNBB, estávamos nos despedindo, ele se aproximou de mim e me deu um abraço. E eu falei, vou te pedir três coisas. Primeiro, que não nos deixe cair na Alca, segunda, que não nos deixe cair na Alca, terceira, que não nos deixe cair na Alca. Só te peço isso”, conta, em referência a Área de Livre Comércio das Américas, ícone do neoliberalismo.
“E realmente não entramos na Alca. Porque a América Latina tem de se salvar continentalmente, temos histórias comuns, os mesmos povos, as mesmas lutas, os mesmos carrascos. Os mesmos impérios sujeitando-nos, uma tradição de oligarquias vendidas. Tem sido sempre assim. Começavam com o império, o que submetia as oligarquias locais. Os exércitos e as forças de segurança garantiam uma segurança interesseira. Melhorou, inclusive os Estados Unidos não têm hoje o poder que tinham com respeito ao controle da América Latina. Somos menos americanos, para ser mais americanos.”

Esperança e diálogo

É preciso de todo jeito salvar a esperança, defende dom Pedro. “Insistir nas lutas locais, frente à globalização. Se somar as reivindicações, sentir como próprios, as lutas que estão acontecendo nos vários países da América Latina. El Salvador, Uruguai, Bolívia, Equador… Claramente são países muito próximos nas lutas sociais.”
Há tempos dom Pedro Casaldáliga não concede entrevistas pela dificuldade que tem encontrado em conciliar a agilidade do raciocínio com o tempo possível da articulação das palavras. A ajuda de José Maria, seu amigo e conterrâneo, foi fundamental para a compreensão das pausadas e esforçadas falas, enquanto discorria sobre assuntos por ele escolhidos.
Otimista com a atuação do papa Francisco, ressalta que “ele fez gestos emblemáticos, muito significativos”. “A Teologia da Libertação se sentiu respaldada por ele. Tem valorizado as Comunidades Eclesiais de Base, com o objetivo de uma Igreja pobre para os pobres. Estimulou o diálogo com outras igrejas… Chama a atenção nele o diálogo com o mundo muçulmano e com o mundo judeu, e agora essa visita a Israel… Muito significativa. Desmantelou todo o aparato eclesiástico, seus colaboradores tiveram de se adaptar.”
Ele reconhece as limitações que o sistema político impõe à atuação do governo, que segundo dom Pedro tem “um pecado original”: as alianças. “Quando há alianças, há concessões e claudicações. Enquanto esses governos todos se submeterem ao capitalismo neoliberal teremos essas falhas graves. A política será sempre uma política condicionada. Tanto o Lula como a Dilma gostariam de governar a serviço do povo mesmo, mas as alianças fizeram com que os governos populares estivessem sempre condicionados”. Para ele, deve haver uma “atitude firme, quase revolucionária”, em relação a temas como saúde, educação e comunicação.
Morto em março do ano passado, o ex-presidente da Venezuela Hugo Chávez é lembrado com determinação pelo religioso. “Ele tentou romper, rompeu o esquema. Por isso, a direita faz questão de queimar, queimar mesmo, a Venezuela. Nos diários e noticiários, a cada dia tem de aparecer alguma coisa negativa da Venezuela”.

Direitos indígenas x ruralistas

Ele aponta a “atualidade” da causa indígena, e as ameaças que não cessam. “Nunca como agora, se tem atacado tanto. Tem várias propostas para transformar a política que seria oficial, pela Constituição de 1988, que reconhece o direito dos povos indígenas de um modo muito explícito. Começam a surgir propostas para que seja o Congresso quem defina as demarcações das terras indígenas, sendo assim já sabemos como será a definição. A bancada ruralista é muito grande…”, observa dom Pedro.
Por outro lado, prossegue, nunca os povos indígenas se organizaram como agora. E o país criou uma “espécie de consciência” em relação a essa causa. “Se querem impedir que haja uma estrutura oficial com respeito à política indígena, tentam suprimir organismos que estão a serviço dessas causas. Isso afeta os povos indígenas e o mundo rural . Tudo isso é afetado pelo agronegócio, o agronegócio é o que manda. E manda globalmente. Não é só um problema do Mato Grosso, é um problema do país e do mundo todo. As multinacionais condicionam e impõem.
“A retomada da TI Marãiwatsédé é bonita e emblemática. Os Xavante foram constantes em defender os seus direitos. Quando foram expulsos, deportados – esta é a palavra, eles foram deportados –, seguiram vinculados a esse terreno, vinham todos os anos recolher pati, uma palmeira para fazer os enfeites. E reivindicavam sempre a terra onde estão enterrados nossos velhos. E foram sempre presentes”, testemunha. “Aqui, nós sempre recordamos que essa terra é dos Xavante, que esta terra é dos Xavante. Os moradores jovens, meninos, outro dia diziam – nossos vovôs contam que essa terra é dos índios, nossos papais contam que essa terra é dos índios.”
A essa altura, dom Pedro lembra de “momentos difíceis” em que o Cimi se vê obrigado a contestar certas ações do governo. “Quando se diz que não há vontade política pelas causas indígenas, eu digo que há uma vontade contrária ao direito dos povos indígenas, isso é sistemático. A Dilma, eu não sei se se sentisse um pouco mais livre, respaldaria as causas indígenas. Alguns pensam que ela pessoalmente não sintoniza com a causa indígena. Tem sido criticada porque nunca recebeu os índios. Faz pouco foi o primeiro encontro com um grupo. Todos esses projetos de Belo Monte, as hidrelétricas. Se ela tem uma política desenvolvimentista, ela tem de desrespeitar o que a causa indígena exige: em primeiro lugar seria terra, território, demarcação, desintrusar os invasores. Seria também estimular as culturas indígenas e quilombolas”, diz, sem meio-termo. “Se você está a favor dos índios, você está contra o sistema. Não adianta colocar panos quentes aí.”
Dom Pedro defende a presença de sindicatos, mas critica o movimento. “Eles são a voz dessas reivindicações todas dos povos indígenas, do mundo operário. Na América Latina, estiveram muito bem os sindicatos, ultimamente vêm falhando bastante. Foram cooptados. Quando se vê um líder sindicalista transformado em deputado, senador, ele se despede”, afirma, vendo a Via Campesina como uma alternativa, por meio de alianças de grupos populares em vários países.
“Daí voltamos à memória de Hugo Chávez, que estimulou essa participação”, observa. “De ordinário acontece que antes as únicas vozes que os operários tinham eram o sindicato e o partido. Nos últimos anos, tanto o partido como o sindicato perderam representatividade. Em parte foram substituídos por associações, alguns movimentos. Mas continuam sendo válidos. Os sindicatos e partidos são instrumentos conaturais a essas causas do povo operário, camponês.”
Para fazer campanha eleitoral, todo candidato operário a deputado, senador, tem de “claudicar” em algum aspecto, acredita dom Pedro. “Por isso, é melhor que não se candidate. Por outra parte, não se pode negar completamente a função dos partidos e dos sindicatos. Não é realista, ainda continuam sendo espaços que se deve preencher.”
Lúcido, Pedro conclui a conversa lembrando a frase de um soldado que lutava contra a ditadura franquista na Guerra Civil Espanhola: “Somos soldados derrotados de uma causa invencível”.

Descalço sobre a terra vermelha

A minissérie em dois capítulos de uma hora Descalço sobre a Terra Vermelha, baseada em livro homônimo do jornalista catalão Francesc (Paco) Escribano, é uma produção da TVE (Educativa da Espanha), da TV3 da Catalunha, da produtora Minoria Absoluta, da TV Brasil e da produtora paulista Raiz Produções Cinematográficas. Descalço sobre a Terra Vermelha estreou na TV3 em março e está programada para ser exibida na TV Brasil no segundo semestre.
Trata da vida de dom Pedro Casaldáliga, desde sua chegada ao Brasil até sua visita ad Limina ao Vaticano, quando se apresentou ao Papa João Paulo II e ao conservador cardeal Joseph Ratzinger, então à frente da Congregação para a Doutrina da Fé, herdeira da Santa Inquisição, onde deveria explicar sua ação teológica a favor dos pobres e dos oprimidos.
O filme, uma belíssima e apurada produção, contou com a participação de mais de mil figurantes de povoados e das cidades de Luciara e São Félix do Araguaia, locais onde foram construídas verdadeiras cidades cenográficas, representando como eram esses lugares nos idos dos anos 1970.
Dirigido por Oriol Ferrer, tendo Eduard Fernández, premiado ator catalão, no papel de Casaldáliga, contou com um elenco de ótimos atores espanhóis e brasileiros.
Rodado como uma espécie de western teológico, retrata com grande força e sensibilidade a violência e tensão existentes, ainda hoje, nos conflitos entre latifundiários, invasores de terras indígenas, posseiros e a ação pastoral da Prelazia de São Félix que, tendo dom Pedro à frente, desde sempre esteve ao lado dos despossuídos.
De acordo com a descrição que aparece no site da Minorita Absoluta, a série combina ação e misticismo “no cenário exuberante de Mato Grosso, em contraste com a paisagem humana e social chocante”. A história de Pedro Casaldáliga se desenvolve “em torno de valores universais”, no contexto da teoria filosófica e teológica da libertação e da situação geopolítica dos anos 1970, na ditadura brasileira. O jornalista e produtor executivo Francesc Escribano salienta que a produção se tornou “seu coração” para contar “uma história notável de um catalão universal”.
Durante o making of, impressionou como a historia e principalmente o próprio dom Pedro teve impacto na vida de todos os envolvidos na produção. Confirma a impressão que tive desde a primeira vez que viajei com ele, há mais de 30 anos: estar na sua presença é sentir-se na presença de um espirito muito elevado; sem exagero, um verdadeiro santo do povo.

19 de janeiro de 2017

Mudança de paradigmas - espiritualidade em transição – Cristianismo em crise

J. Ricardo A. de Oliveira
Fritjof Cappra, autor do livro “O Ponto de Mutação”, alerta para o fato de que as civilizações após um logo período de amadurecimento tendem à estagnação e acabam por entrar em colapso. A História mostra claramente isso e, é neste momento que surge uma outra civilização, com novos valores, novos paradigmas, que gradativamente vai como que substituindo a velha civilização. Isto se dá quando as principais questões já não conseguem ser respondidas pelos meios usuais. A civilização se vê paralisada e sem condições de avançar. São necessárias novas formas de penar, novas respostas, procedimentos realmente novos que possam atender as novas demandas. A isso se dá, segundo o autor, o nome de mudança de paradigmas. Estas mudanças se dão geralmente em meio a crises. È como um jogo de disputa de forças entre os defensores dos antigos métodos e os que buscam novas alternativas para a solução   dos problemas.


Ao longo da história da humanidade estas lutas são intensas e duram muitas vezes um tempo prolongado, até que o novo paradigma consiga se instalar e mudar o curso da história. Mas enquanto isso não acontece tem-se um período de estagnação, de caos, de sofrimento, de dor e desespero.
O mundo está justamente atravessando esse período e esta situação crítica. Infelizmente ainda não conseguimos superar as polaridades. Ainda estamos vivendo a disputa entre os opostos: Capitalismo X Socialismo, um enfrentamento em que certamente nenhuma das duas formas será a solução definitiva. Por onde quer que se olhe pode-se observar a polaridade, os opostos se enfrentando e produzindo crises e caos. Em todos os campos da vida humana encontramos essas disputas: Direita x Esquerda, tradicionalistas x Progressistas, fundamentalistas x renovados, Bem x Mal,  Luz x Sombra. Polaridades, dualidade em oposição à unidade.  A questão é bem ampla.

Todo este introito é uma tentativa de entender a questão da espiritualidade que também aparentemente está em crise, seja internamente nas religiões ou entre religiões diferentes, neste caso se manifestando como intolerância. Há em nossos dias, um interesse muito grande pela espiritualidade, pelas manifestações religiosas em suas várias denominações. Percebo um sentimento de orfandade de Deus e uma busca espiritual muito grande. Mas as pessoas parece não encontrar o que procuram ou não se satisfazem com o que encontram.
No que se refere ao catolicismo, percebe-se uma crise sem precedentes dentro da própria cúria romana, cardeais desafiando o papa e não se submetendo as decisões do colegiado.
De um lado um papa que pretende restaurar o cristianismo fazendo com que ele retorne a seu eixo principal praticado e pregado pelo Jovem galileu, do outro lado bispos tradicionalistas agarrados aos conceitos pouco familiares a tradição dos apóstolos, mas sacramentados no concilio de Trento.


Na verdade, percebe-se que houve uma grande deturpação ao longo dos séculos da mensagem do mestre. Isso começa quando o movimento “o caminho”, transforma-se na religião oficial do império. De perseguidos passam a perseguidores. São introduzidas inúmeras mudanças e adaptação para que a nova religião oficial e obrigatória do império não fosse tão estranha ao povo acostumado a práticas ditas pagãs. Começa então um processo de paganização. As antigas comunidades começam a ter que se organizar. De comunidades auto-céfalas que se reunião em concílios para dirimir dúvidas, as “igrejas” passam ater uma sede e a se submeter à autoridade da Sé Romana. 


Há uma crescente exigência por doutrinas e liturgias, o que vai acabar por exigir a presença de coordenadores, “sacerdotes” para oficiar e controlar que as doutrinas seja, respeitadas. Numa mistura de judaísmo e paganismo romano, faz-se então uma gradativa mudança. O pão que anteriormente era partido nas casas, como se lê no livro de Atos dos Apóstolos, passa a precisar de um sacerdote que oficie e faça a transubstanciação. O povo reunido, antes tido como corpo e presença real do Cristo, dá lugar ao pão e vinho transubstanciados em corpo e sangue. A presença mística transforma-se em presença real e o povo passa então a ser presença mística. Os batizados, antes tidos como sacerdotes passam a ser “leigos”, agora perdem lugar para os ordenados, e só eles podem fazer o milagre da transubstanciação, criando assim um grupo de elite.

 
Mudam-se as práticas e as orações, estabelecem-se regras. O Ágape fraterno e a ação de graças (Eucaristia) transforma-se em sacrifício do cordeiro imolado, a despeito de Jesus ter afirmado que já bastava de sacrifícios.
A construção do Reino, “o Caminho” dá lugar a uma religião e a uma instituição, que gradativamente passa a ser mais importante até do que seu fundamento: O Cristo Jesus.
Aquilo que Jesus veio trazer, a introdução de um novo paradigma, que fizesse frente à violência, à sede de poder, e ao desamor de Judeus e Romanos, aos poucos vai se deteriorando. É curioso como uma nova maneira de se relacionar com o criador, com o Abah, com aquele que Jesus nos ensinou a ver como um pai, que não habita em tendas nem em templos feitos por mãos vai assumindo e se tornando uma regra. Jesus não precisava e não precisa de templos, sacerdotes, de doutrinas, de doutores da Lei e muito menos de imperadores, mas aos poucos é essa a nova realidade de um cristianismo que aos poucos vais se distanciando de suas origens. Uma hierarquia é criada com padres, bispos, arcebispos, papa, templos, catedrais...
 Mas o que é mais triste, “o caminho”, aquilo que Jesus veio nos trazer e comunicar da parte do Pai, ensinando que os últimos serão os primeiros, que não deveria faltar a uns o que sobra a outros, que a regra máxima e única é o amor, se desfez, dando lugar a outras “crenças”.
 Se o filho do Homem não tinha nem onde recostar a sua cabeça, com que justificativas foram construídos templos e as catedrais, para manter Jesus trancafiado em um cofre de ouro? Como se justifica tanta adoração e tanta pompa para alguém que disse com todas as letra que não veio para ser servido e sim para servir?


Aquele grupo de homens e mulheres que pretendia a transformação do mundo através do amor, do perdão e do serviço, acabou se transformando em um império, com corte, palácio e até um imperador. Olhar para isso hoje, ver as pressões que o atual papa está tendo que enfrentar, por defender um retorno às origens do cristianismo verdadeiro é desanimador.
Tenho a impressão de que a humanidade foi enganada por muitos séculos. As estratégias de dominação engendradas por aqueles que adulteraram a mensagem do Mestre vem sobrevivendo durante esses quase dois milênios, . Não seria demais afirmar que me sinto profundamente enganado e ludibriado, revoltado por ceder às estratégias que implantaram na vida de tantos o medo e a culpa.
 Olhar para isso em perspectiva faz com que a instituição que se fez maior e mais forte  que seu fundamento desaba no meu conceito e me traz uma estranha sensação de orfandade. Talvez seja este o maior dos pecados cometidos contra o Espírito Santo.
Práticas religiosas, dogmas, conceitos de pecado, mal, inúmeros deveres e um incentivo à baixa autoestima parece estar mais presentes no discurso e na pratica da instituição, do que as importantes mensagens de despego e libertação que o Mestre não cansava de ensinar. Uma instituição que diz se basear na escritura e na tradição. Mas cuja escritura parece sofrer uma censura e, enquanto alguns trechos são super valorizados outros são simplesmente como que omitidos. Como entender que algumas abominações do Levitico sequer sejam levadas em consideração, como “raspar a barba”, “usar roupas com mais de um tipo de tecido’, “comer frutos do mar”, enquanto outras são super valorizadas, como a condenação das relações homoafetivas. Qual foi o critério para estabelecer as relevâncias? Como respeitar e defender tanta incoerência como palavra inspirada?
 E a tradição? Qual tradição? Aquela das primeiras comunidades apostólicas, ou a tradição inventada que adulterou as práticas dos primeiros cristãos? Onde encontrar semelhança da igreja de hoje com a descrita nos Atos dos apóstolos?
 É como se o antigo paradigma, anterior a Jesus, tivesse ganho a batalha e novamente assumido o controle.  Os acontecimentos recentes nos permitem ver a prática da “Lei de Talião” em franca utilização. É o velho paradigma se fazendo presente. Por outro lado pode-se  perceber claramente como que um país poderoso age como a velha Roma, querendo dominar todo mundo.
A igreja católica ao longo dos séculos supervalorizou o sacrifício, o sofrimento, o medo, a culpa, a desvalorização do homem, muitas vezes sugerindo sua pequenez, quando está dito que ele foi feito à imagem e semelhança de Deus.  Onde foi parar a afirmativa de Jesus de que não veio para os sãos e sim para os que estavam necessitando de salvação. De onde vem a ideia de que para receber Jesus é preciso estar em estado de graça?
 Será que a mulher adultera estava em estado de graça quando Jesus se deu em comunhão e a livrou do apedrejamento? E a Samaritana e seus cinco maridos? Será que Ele não se deu a ela em comunhão, tanto como a qualquer um de nós quando o recebemos na hóstia consagrada? E o efebo do centurião Romano que ele curou em uma só palavra? Será que um efebo para os atuais “doutores da lei” estaria em “estado de graça” para receber a cura?
 Porque manter e supervalorizar a pratica da confissão auricular? Não me conste que Jesus pedisse a alguém que confessasse seus pecados antes de curar. O movimento de arrepender-se é interno e não algo que alguém de fora possa comandar. Ainda mais que esta prática controladora foi implantada 600 anos após a ressurreição. É desesperador pensar que um papa é visto como ameaçador por defender aquilo que Jesus viveu em seus dias na terra. É perfeita a informação de Francisco de que a igreja não pode ser a “alfandega de Deus”. Quantos perderam a fé, quantos abandonaram o caminho, depois de serem condenados peo nesta “alfandega”.
O mundo hoje vive uma ausência de Deus, a saudade de um Deus que se fez presença e anunciava a misericórdia e o amor.
Nossa nação Brasileira, prometida como “Coração do mundo” e “Pátria do evangelho”, parece que foi sequestrada de sua sublime missão. É uma verdadeira abominação que governantes que se dizem cristãos, ajam na contramão daquele que em sua passagem pela Terra optou por libertar os pobres e excluídos das garras dos poderosos que os oprimiam e os mantinham presos à penúria e à miséria, que agem na contramão de um Jesus que se colocava contra os poderosos do império de Roma, os doutores da Lei e a hierarquia Judaica. Um Jesus que escolheu viver entre os excluídos, os pobres, prostituas e os banidos pela sociedade. Tem-se a impressão de que esses senhores seguem um outro Jesus completamente diferente daquele descrito nos evangelhos.
Acho que até consigo entender porque a instituição mantém Jesus trancafiado em um cofre, acho que tem medo que ele saia e volte a fazer o que fazia há dois mil anos atrás.
Tenho a impressão de que quando se faz o silêncio necessário, quando nos colocamos meditativamente na escuta, podemos ouví-Lo criticar os sepulcros caiados, as víboras e os fariseus hipócritas... porque eles continuam em sua ânsia louca de dominar e controlar tudo.
Quem tiver a percepção aguçada há de perceber os lamentos de um mundo em dores de parto. Há um nascimento cujo parto parece bastante difícil. Os novos paradigmas precisam vir à luz e mudar o rumo da história, mas até que se consiga vencer a dualidade, a fantasia da separatividade e o medo da fusão com a consciência cística, ainda estaremos sofrendo com as contradições.
Que consigamos seguir como a mãe parturiente que embora sofrendo, se alegra com  a perspectiva da chegada do “novo”. Que aqueles que já entenderam a importância de orar, no sopro e na atenção, consigam manter a sintonia com o sublime criador e se tornem canais da grande mudança e não cansem de repetir o mantra: “ Maranatah” (vem senhor Jesus!)  
Certamente que Ele virá. Não como anunciam os usurpadores da fé. Ele sabe que se vier como na primeira vez, será outra vez preso e assassinado. A nova vinda será certamente será da forma que Ele ensinou à Samaritana a orar e adorar: em espírito e em verdade, em pneuma e alethéia, no sopro e na atenção. Ele vira e fortificará a sua presença nos nossos corações. 



Não esperem uma vinda espalhafatosa, com efeitos especiais nos céus. Não ! Isso não é do feitio dEle, mas do feitio dos usurpadores da fé. Ele vira preservando aquilo que pregoum a humildade, a simplicidade. Ele não vira como o mundo acha que seria a vinda de um rei, de um Deus. Ele sempre se fez pequeno para caber em nossoscoraçoes e porque se reconhece um com o Pai. A sua vinda será o despertar das qualidades adormecidas que ele nos ensinou há dois mil anos. No silêncio, reservadamente, como Ele ensinou que deveríamos orar ao Pai.
Aqueles que ao longo de suas existências o tem procurado imitar, aqueles que tem se esforçado e silenciado para ouvir o que Ele tem a nos falar, a estes está reservada a dádiva d e sua segunda vinda. Ele virá e então compreenderemos o que é ser UM com o Pai.
Enquanto isso, no silencio, na atenção na sintonia do sopro:

 Maranatah !

5 de janeiro de 2017

Entrevista com Jean Yves Leloup

http://www.oracaodejesus.com/textos-entrevista-com-jean-yves-leloup.html




Padre ortodoxo e pessoa de intensa vida espiritual, Jean-Yves Leloup diz em entrevista exclusiva que o ser humano pode ser um pacificador num mundo em guerra, mas precisa, primeiro, investir na busca da paz interior e na entrega e confiança em Deus.

Todas as vezes que vem a Brasília, o padre ortodoxo francês Jean-Yves Leloup hospeda-se na casa de seu velho amigo, o psicólogo e reitor da Universidade da Paz (Unipaz), Pierre Weil. Anualmente, Leloup vem à capital para proferir seminários organizados pela Unipaz.
Trajando vestes claras, este homem de 57 anos de idade e 35 anos de sacerdócio, com formação em Psicologia Transpessoal, Filosofia e Teologia, tem, como sua referência de vida, o Ser, que encontra-se presente no interior de cada homem que busca a paz e o sentido da vida. Ora, o Ser é, nada mais nada menos, que uma das várias alcunhas pelas quais ele denomina Deus. Leloup refere-se à Suprema Divindade de diversas formas, com reverência surpreendente: Clara Luz, Pura Consciência, Consciência Absoluta, Ser Essencial, Absoluto.
Autor de 43 livros, entre eles Terapeutas do Deserto, A Arte de Cuidar e a autobiografia O Absurdo e a Graça, Leloup também traduziu e comentou os evangelhos de Felipe, de Tomé e de Maria Madalena, considerados apócrifos na tradição cristã. Sua fé em Jesus Cristo não o impede de ter um profundo respeito por outras crenças, numa postura claramente ecumênica. Ele é pertencente a uma corrente espiritual da ortodoxia cristã, chamada hesicasmo, que, em grego, significa: calma, paz, tranqüilidade e ausência de preocupação. O sacerdote hesicasta procura devotar sua vida ao recolhimento interior e à oração.
Nesta entrevista ao Comunidade VIP, Jean-Yves Leloup revela como descobriu a espiritualidade em sua vida e mostra que a busca pelo aperfeiçoamento interior é a chave para pacificar as “guerras” que cada um trava em seu cotidiano.
Como descobriu a espiritualidade?
Nasci numa família de ateus. Tive formação muito racionalista. Saí da casa de meus pais para conhecer o mundo. Com apenas 19 anos, fiquei muito doente em Istambul (Turquia), em decorrência de uma comida estragada. E ali, naquela cidade, vivi uma experiência impressionante. Fui declarado clinicamente morto e até quiseram me enterrar. Quando voltei ao meu corpo, comecei a me interrogar: “O que não morre, quando todo o resto morre?”. Há o momento em que o pássaro sai da gaiola, e também há o momento em que o vôo sai do pássaro. Nesse momento em que o vôo sai do pássaro, tem um instante de luz e de presença que permanece. Em Istambul, encontrei o patriarca Atenágoras, da Igreja Ortodoxa, que me levou até um ícone do Cristo. Ao lado desse ícone estava uma inscrição em grego, que dizia “Eu Sou”. Naquele momento, o “Eu Sou” não eram meras palavras, mas o que eu tinha acabado de viver, durante a morte clínica. E foi a partir desse momento que me interessei pelo Cristianismo.
Nas chamadas “experiências de quase morte”, há relatos de pessoas que vêem um túnel de luz ou imagens referentes a sua crença. O que o senhor viu, naquela hora?
Vi apenas a vastidão, pois meu inconsciente não guardava nenhuma imagem religiosa. Foi até normal não ter visto nada. Senti apenas o espaço que contém todas as coisas. É como se estivesse vendo o dia, ao invés das coisas que aparecem no dia. E o dia permanece. Em latim, a palavra “dia” quer dizer dies, que, por sua vez, significa Deus. Essas palavras têm a mesma raiz, no latim. Então, ver o dia é ver Deus.
Após o encontro com Atenágoras, o que ocorreu?
Fui para o Monte Athos, na Grécia. Lá, encontrei a tradição cristã-ortodoxa, as raízes do Cristianismo. Para mim, ele é a síntese entre o interior e o exterior, entre os lados material e espiritual. São duas coisas que não podem ser separadas. É a síntese da encarnação. O visível e o invisível devem ser mantidos unidos; a eternidade e o tempo; o finito e o infinito. Precisamos sair da dualidade.
Como surgiu a vocação para ser padre?
Quando descobri Cristo, ao invés de ser apenas um professor de Psicologia e Filosofia preferi ser também padre, onde pude transmitir também essa dimensão espiritual. Não apenas de ensinamentos intelectuais, mas também através da prática, de forma a levar a transformação interior ao ser humano.
Como descobriu a Unipaz e conheceu Pierre Weil?
Na França eu era diretor de um centro internacional chamado Sainte Baume. Convidei Pierre a visitar o local e a participar de colóquios sobre Psicologia Transpessoal. Foi em Sainte Baume que concretizamos a visão da Universidade Holística Internacional, cujo princípio é o de uma educação que leve em conta todos os componentes do ser humano: físico, afetivo, emocional, religioso e intelectual.
O que recomenda para desenvolvermos a paz interior e sermos também pacificadores?
A primeira coisa é descobrir a paz interior. É importante, nesse aspecto, cultivar práticas que acalmem a nossa mente, pois é aí que residem todas as espécies de medos e resistências. Na prática hesicasta do cristianismo ortodoxo damos muita atenção à respiração, pois, quando ela está calma, a mente encontra-se calma também. Nessas condições, podemos encontrar esse lugar de paz dentro de nós mesmos. Mas tudo isso ainda são práticas externas. Talvez o mais importante seja o abandono, não tentar controlar nada. Devemos confiar no Ser Essencial que nos ajuda. E é nessa confiança, nessa fé, que descobrimos um centro que nos ajuda a atravessar as dificuldades da existência. Uma vida que não tem sentido é uma vida sem centro. Podemos fazer as mesmas coisas estando centrados ou não. E aí a gente consegue observar as diferenças.
A prática hesicasta é semelhante à meditação oriental?
Sim. É o mesmo princípio, porque o ser humano é igual, não importa onde esteja. A respiração não pertence a nenhuma religião em particular. E a luz também. A abertura do coração também pertence a todos. O ser humano está em busca da verdade, não importa se ele está no Oriente ou Ocidente. Ele está orientado em direção a esta mesma realidade. No evangelho de São João está escrito que o Verbo, o Logos, é aquele que esclarece e ilumina todo homem que vem a esse mundo, não apenas os cristãos.
Ultimamente, surgiu uma onda de livros em defesa do ateísmo, vindos de autores como o biólogo inglês Richard Dawkins e o jornalista inglês Christopher Hitchens. O que acha desse movimento?
Depende de qual imagem de Deus estamos rejeitando. Em nível psicológico, muitos ateus estão rejeitando aquilo que eles viveram no passado. Mas o Deus que eles estão rejeitando muitas vezes não tem nada a ver com o Deus verdadeiro. É, simplesmente, uma certa imagem ou representação divina que eles estão rejeitando. A questão é o que fazer com a religião, Deus e a razão. Com a mesma flor a abelha pode fazer o seu mel e a vespa pode fazer o seu veneno. E a culpa não é da flor.
O livro O Segredo, de Rhonda Byrne é um sucesso de vendas, ao relatar como funciona a chamada Lei da Atração. Como o senhor conceitua esse fenômeno?
O poder mental é algo conhecido há muito tempo e depende basicamente do que pensamos. Um antigo provérbio diz que, quando Deus quer punir alguém, Ele cumpre todos os seus desejos. Na realidade, não sabemos o que é verdadeiramente bom para a nossa vida. No filme O Segredo, um menino consegue a bicicleta vermelha que ele tanto desejava. Mas depois não é dito que ele pode ter tido um acidente com aquela mesma bicicleta. Da mesma forma, alguém que obtém uma casa imensa, enorme, pode ser, à primeira vista, maravilhoso. Mas depois, o que ocorre naquela casa pode ser algo muito destrutivo. Essa prática é muito superficial, porque, na verdade, a questão é saber o que é realmente bom para o ser humano.
Então, como devemos pedir o que queremos?
Temos nossos próprios pensamentos e desejos, mas devemos colocá-los nas mãos de uma Vontade maior. O Pai-Nosso diz: “Que seja feita a Vossa Vontade”. Eu quero isso, mas será que realmente será bom para mim? Que seja feita a vontade da Vida. Que seja feita a vontade do Amor. Que muitas vezes nossos desejos são egoístas e esta é uma maneira de colocarmos nosso ser dentro de um Ser Maior. Eu tenho o poder do pensamento, mas devemos também confiar numa força maior, mais elevada.
Ou seja, é uma entrega a Deus?
É um abandono, uma entrega, uma confiança em Deus.
Os anjos são referências constantes nos textos bíblicos, inclusive no episódio da vinda de Jesus. Qual o papel desses seres na nossa vida?
Da mesma forma que entre o ser humano e a matéria existem mundos intermediários, o vegetal e o animal, entre o ser humano e a Clara Luz, a Pura Consciência, também existem níveis de consciência intermediários. Os anjos são esses planos de consciência, esses níveis de ser que podem fazer esse elo entre a consciência ordinária e a Consciência Absoluta. Muitas vezes somos mais inteligentes do que a inteligência que temos, como se nossa consciência entrasse em contato com uma de âmbito mais elevado. E é isso que chamamos de anjos. Num nível mais humano, o anjo também pode ser um mestre interior, uma voz que nos guia. Ou seja, é nossa inteligência que está aberta a uma dimensão mais ampla.
Existem anjos da guarda, na sua concepção?
Cada ser humano tem uma maneira particular de entrar em relação com o Absoluto. E é essa maneira particular que chamamos de nosso anjo. Isso tem relação com o Absoluto, o Infinito Real. Quando a gente está nessa abertura, inteligência e fé, certas manifestações nos mostram que estamos acompanhados, guiados. A gente pode chamar a isso de anjo da guarda. Em outras tradições, recebem outros nomes. O importante não é o nome que damos, mas a realidade que está por trás das experiências que vivemos. A tradição cristã diz para não idolatrarmos esses mundos intermediários. E hoje em dia muitas pessoas tomam experiências do tipo psicológicas por experiências espirituais, e experiências do mundo intermediário como experiências do mundo absoluto. A gente deve colocar cada coisa em seu lugar.
É difícil diferenciar uma coisa da outra – o intermediário e o absoluto?
Não, não é difícil. Aquilo que faz parte do mundo intermediário faz parte do mundo terreno. São coisas que passam. São coisas emotivas, intelectuais, mas fazem parte do mundo mortal. O mundo do Absoluto está além do tempo. É aquilo que não conseguimos agarrar ou compreender, que a gente não consegue reduzir a nossas pequenas experiências.
As religiões cristãs em geral são caracterizadas como dogmáticas. Como funciona essa questão para você?
Na origem, o dogma era um paradoxo. Era algo feito para despertar a consciência para além do funcionamento binário do cérebro. Por exemplo, o dogma que diz que Cristo é verdadeiramente homem e verdadeiramente Deus tem o sentido de ultrapassar, ir além da consciência ordinária. O dogma então é um pouco como o Koan, do japonês. Ou seja, um paradoxo que nos ajuda a ir além da razão, mas sem perder a razão. Mas hoje em dia o dogma é confundido com dogmatismo, que significa obrigar alguém a acreditar em algo. Isso é destrutivo. O dogma, na realidade, foi criado para que saíssemos do dogmatismo. É um convite para que verifiquemos se isto é verdade.
Poderia deixar uma mensagem de Natal?
Pouco importa se Cristo nasceu há 2 mil anos, se Ele não nascer hoje, no interior de mim mesmo. O Natal é o momento onde podemos aceitar o nascimento do Ser no interior de nós mesmos, para o nosso bem-estar e o bem-estar de todos.
Devemos lembrar que somos poeira e ao pó retornaremos. A meditação diária sobre essas realidades tem sido sustentada pelos Padres do Deserto como essencial para a vida espiritual e como um meio de evitar o pecado; mas sobretudo como forma de atender às palavras de nosso Senhor, que nos adverte que não conhecemos nem o dia nem a hora. Aqui está a reflexão de um homem bem formado na sabedoria e tradição dos Santos Padres:

"Nunca devemos nos privar da contemplação da morte ou destas meditações... Todas estas contemplações criam vigilância na alma e purificam a mente... Essa contemplação é uma barreira para os maus pensamentos... Quando essa contemplação espiritual está dentro de nós, fechamos as portas aos maus pensamentos... Não deveriamos nunca parar de nos Lembrar da Morte. Os Santos Padres disseram que eles não foram dominados pela negligência em suas celas, porque traziam a Lembrança da Morte diante de Si, noite e dia. Os Padres continuamente pensavam: "Se hoje ou amanhã for o meu último dia, o que devo fazer?". Desta forma, essa Lembrança mantinha a mente no temor de Deus, e o temor de Deus iluminava sua consciência. O que virá com mais certeza do que a morte? É a coisa mais certa que cada pessoa encontrará... Devemos manter a Lembrança da Morte viva dentro de nós constantemente, para que, por meio desta lembrança salvífica, possamos evitar a morte da alma... Comprometa-se violentamente, diz o Senhor no evangelho, pois você não sabe quando o Noivo da vossa alma vos visitará, e ai daquele que Ele achar indolente e negligente da sua salvação: A verdade de Deus soa como uma trombeta de poder e diz: "Vaidade das vaidades, tudo é vaidade!" Pois, que aproveita o homem se ganha o mundo inteiro e perde a sua própria alma, ou o que dará o homem em troca da sua alma? Lembre-se do seu fim e não pecará pelos séculos. "As riquezas não permanecem, a glória não acompanha ninguém ao outro mundo, porque quando a morte vem, todas estas coisas são obliteradas." Eis a verdade, que esmaga a mentira... Quando visitarmos nossa morada final, nossa sepultura, veremos com nossos próprios olhos toda a vaidade do homem, como fez Abba Sisoes quando viu o túmulo de Alexandre, o Grande, e clamou: "Ai, ai, ó morte! O mundo inteiro não era grande o suficiente para ti, Alexandre." Como então te encaixaste em dois metros de terra agora? "Minha criança, tenha cuidado com este mundo que é como um teatro. Pessoas ignóbeis no palco do teatro usam roupas de reis, magnatas, etc. e parecem ser diferentes do que realmente são e enganam o público. Mas quando o show acaba e eles tiram suas máscaras, então suas verdadeiras faces são reveladas".  (Élder Efraim - Conselhos da Montanha Sagrada)

31 de dezembro de 2016

Ano Novo , Tudo novo


Daqui há algumas horas o ponteiro do relógio vai dar a ultima volta de 2016 e logo será um novo ano.
Quero então enquanto ainda restam algumas horas agradecer:
Deus pai e mãe, espírito, pneuma, Ruah, fonte de toda a vida neste universo, sou grato a Ti hoje e sempre por absolutamente tudo o que proporcionastes aos meus ancestrais que tornaram possível esta minha vida e a tudo que a mim proporcionas e também aos meus descendentes que certamente receberão como eu as suas bênçãos.
Quero agradecer pelas flores, pelo ar e pelo sol e pela chuva. Pela alegria e pela dor. Agradecer pela família maravilhosa, minha mulher, filhos, minha netinha e os demais que chegaram depois. Agradecer pelo que foi possível e pelo que teve que ficar para mais tarde, pelos amigos, virtuais e os do olho no olho. Agradecer pela ajuda que recebi e pela que pude dar. Agradecer pelas realizações pela palavra ouvida que fez crescer e pela que foi dita e encontrou solo fértil para florescer.
2016 não foi um ano fácil para o mundo, mas não posso me queixar e sim agradecer por ter sido preservado assim como os mais próximos a mim das catástrofes, das guerras, dos absurdos que vimos nas manchetes dos jornais. Agradecer por ter sido abençoado com uma vida nova, uma neta linda e muito amada por todos nós.
Quero ainda pedir ao criador que seja compassivo para com meus erros, meus defeitos que ainda falta muito para serem vencidos. Pedir que perdoe toda palavra mal dita, toda ofensa que eu ou algum de meus antepassados proferimos contra Ele, o sublime criador .
Aproveito para agradecer às minhas memórias e a oportunidade que estou tendo de poder libertá-las e me libertar através do perdão e da compaixão.
Quero por fim dizer que sou grato e sempre serei pela oportunidade de ter esta experiência neste planeta lindo.
Assim é , porque Tu queres que seja assim
Que assim seja, então,

Amém!

24 de dezembro de 2016

Parabéns amigo !



Olá meu amigo.
Hoje vim só te dar um abraço pelo seu aniversário.
Você deve estar feliz, afinal o seu,  é o aniversário mais comemorado no mundo.
As ruas estão cheias, as lojas abarrotadas, as cozinhas em rebuliço, tudo e todos em função da festa do seu aniversário.

Meu querido José,
eu fico vendo toda essa agitação e me perguntando: o que foi que as pessoas não entenderam?
Como posso me alegrar se na maioria das casas não há o que comer. e muito menso o que comemorar. Falta o básico, falta tudo...
Como eu posso pensar em festa se eu continuo nu, com fome, com sede, desempregado, preso, doente, jogado na rua...

Eu vou aceitar o seu abraço, e agradecer a sua visita, mas não vou mentir para você meu amigo,
A profecia ainda está por se realizar. Ainda precisamos esperar para ver  a profecia de Isaias se cumprir, Ver o lobo e o cordeiro pastando lado a lado. Ver irmãos cuidando uns dos outros sem escraviza-los, sem que um se sinta mais e maior que o outro.
A profecia só estará cumprida quando a justiça se realizar e então alcançarmos a PAZ.
Por  enquanto vivemos um longo advento, a longa espera de que o Reino de meu Pai comece a ser construído.
Siga com animo meu amigo, siga vigiando e esperando a hora e buscando os meus sinais.
Vá em Paz , e logo mais, quando a agitação for maior apenas agradeça, agradeça por está caminhando e esperando e pelas graças que recebeu ao longo de sua vida, sua família  sua vida.
Não esqueça de pedir Paz, desejar a Paz e principalmente distribuir PAZ .



22 de dezembro de 2016

Quando a luz maior vem iluminar os mais humildes e necssitados


“ O povo que andava em trevas viu uma grande luz, e aos que habitavam na região da sombra da morte, resplandeceu-lhes a luz.” Is 9.2



"Jesus não só não vem de Roma, capital do império, nem de Jerusalém, capital dos judeus, mas vem de Belém, uma aldeia periférica na Judeia. E mais. Se Belém já é uma aldeia periférica, Jesus nasce ainda mais na periferia, nasce numa estrebaria, num estábulo nos arredores de Belém. Ali, seu primeiro berço foi uma manjedoura, um cocho onde os animais comem seu alimento. Também não é por acaso que o primeiro berço de Jesus é uma vasilha em que se coloca a comida, o pão cotidiano dos animais. Segundo o relato, os pais de Jesus eram forasteiros no lugar e não tinham onde pernoitar. É a partir dessa realidade extrema de marginalidade e de fragilidade, de abandono e de solidão de uma mãe dando à luz a sua criança, que vem a força do Deus libertador que quer incluir todas as pessoas de boa vontade em seu Reinado de justiça e de paz."
(Ildo BohnGass).



Só não entendo, como uma realidade tão simples e clara foi dar lugar a algo tão díspar: um império, luxo, pompa,  realeza, autoritarismo, tão distantes daquilo que Deus se dispôs a realizar. 

( J.Ricardo )

Uma Reflexão de Natal - os meus Natais.



Em meio a tantas mensagens de Natal, li algumas nas redes sociais e uma delas conseguiu me espantar. A pessoa dizia na mensagem que não desejaria Feliz Natal porque Jesus não nasceu em 25 de Dezembro e que isso era uma invenção etc, etc, etc. Dizia inclusive que a importância de Jesus era relativa se comparada a outras figuras miticas no mundo. Sugeria que esse tipo de manipulação só servia ao comercio e uma série de outras coisas que na verdade caberiam bem em alguém que pretendesse fazer um discurso ateu e revolucionário. Mas não, o depoimento era de alguém que se diz espiritualista, mística, holística e sei lá mais quantos "istica".

Na verdade eu nem discordo de alguns dos argumentos que foram distorcidos ao longo dos séculos, muito menos que o sistema venha investindo pesado no Natal do Papai Noel e dispensando o aniversariante como uma incomoda figura de segunda importância, um figurante que só traz problemas com suas ideias de amor, fraternidade e coisas no gênero.
 Por outro lado, vi também gente questionando o fato de se dizer que Jesus é o aniversariante, porque Ele  na verdade é maior, é da ordem dos mistérios e reduzí-lo a aniversariante é diminuir sua importância.

Não comentei, até porque  tenho procurado polemizar ao mínimo nas redes sociais depois que percebi que essas situações acabam sempre em barracos,e em alguns casos até em processos judiciais e na verdade nada mudam. Mas confesso que fiquei pensando nos meus sessenta e dois natais, dos quais apenas os primeiros não estão bem vivos gravados na minha memória.

Que importa se Jesus nasceu em 25 de dezembro ou em maio ou talvez abril ou setembro? Porque me exasperar se a sociedade capitalista transformou o papai Noel na figura central do Natal, ou se as pessoas fazem do Natal uma ocasião de excessos ?

Há muito tempo que descobri que toda e qualquer mudança precisa começar primeiro em mim para que depois possa pretender que ela atinja as demais pessoas da sociedade. E entre a minha mudança e a mudança da sociedade vai um longo e demorado caminho a percorrer. Certamente não é pelo discurso, pela crítica direta e desprovida de caridade e pelo revolta à questões mal resolvidas em meu íntimo  que as pessoas vão mudar. É principalmente pelo exemplo, pelo testemunho de vida que eu posso fazer a diferença e posso me alegrar com os pequenos gestos de mudança das pessoas.
Se há mais de mil anos se repete em uma mesma data um festejo que coloca a fraternidade, o amor e a caridade em evidencia, porque não me alegrar e incentivar isto? Porque não aproveitar esse incentivo para exercitar estas virtudes?

O Natal para mim sempre foi ocasião de muita alegria, sempre foi lembrança de dias felizes na convivência dos primos, e tios, da família em uma mesa rodeada de sorrisos e afetos e abundancia de afeto e alegria e oportunidade  de celebrar a união com quem se ama.
É uma época de caridade farta, até mesmo por pessoas pouco dadas a essa prática. É também uma época em que as pessoas se esforçam para pelo menos parecerem melhores. 
Não acho que seja o dia da hipocrisia, como alguns insistem em ressaltar. Até mesmo porque se for por alguns instantes, qualquer gesto de amor e fraternidade é louvável. Não sou palmatória do mundo, prefiro errar por acreditar nas pessoas do que acertar sempre não confiando nelas.

Os meus natais , na maiorias deles sempre foram momentos de muita Alegria, Paz, entusiasmo e Contentamento.
 Eu tive a graça de ter convivido com meus avós, tanto paternos como maternos.  E natal  sempre vai me remeter à casa dos avós. Na casa dos meus avós maternos a lembrança mais forte desta época é a do presépio, majestoso na sala de visitas, das orações em volta do presépio na noite de Natal.  Era lá que passávamos a véspera de Natal. A ceia  não era como hoje, com comilanças exageradas. Tínhamos as rabanadas  as frutas secas e alguns doces da tradição portuguesa:o Formigos ou Mexido.  Era na verdade uma espécie de creme  onde de tudo um pouco entrava  na sua confecção: pão esfarelado lentamente até quase virar farinha, água, ovos , mel, vinho, amêndoas e uma quantidade enorme de paciência para mexer a grande panela de barro em fogo brando por horas e horas a fio. Uma tradição que minha avó manteve até seus oitenta e nove anos quando partiu e o mexido  passou a só existir junto com ela, em nossas lembranças.
No dia de natal, o almoço era na casa dos avós paternos e ali, a família por ser maior, a atividade é imensa.  Acho que nenhum de nós os netos conseguirá esquecer, por mais que o tempo passe aquelas festas, aquela algazarra de crianças por todo lado, e adultos atarefados. No quintal a mesa de pingue-pongue armada com uma toalha e a sua volta bancos, cadeiras e o que mais servisse para que TODOS pudessem sentar-se à volta da mesa e saborear o almoço de natal. O Almoço durava horas...
Terminado o almoço começava uma arenga, quase briga, era a disputa para quem ia lavar a louça... Por incrível que pareça todas, filhas e noras, disputavam a honra de pilotar a pia.

Mas, a coisa mais sagrada, depois do almoço era quando vovó fazia questão de buscar o saco das pedras e os cartões do jogo de víspora e a tarde voava entre o canto de um número e outro e a tensão de não perder nenhuma marcação com os caroços de feijão e os gritos: "duque", "terno!”...
De repente alguém dizia: Ah! Peraí ! Eu tinha marcado esses...  e o vovô dizia : comeu barriga ! Perdeu...  Muitos risos e muita alegria e já alguém gritava:  “ duque de ponta”,  ou terminava aquela série com um sonoro: V I S P O R A !!!!!

Desta época de natal minha memória acusa a lembrança de uma iguaria que só era feita nesta época do ano: os Mantecais. Durante a semana que antecedia o Natal uma bacia era posta na sala de jantar sobre a mesa e nela alguns quilos de banha de porco que minha avó batia com uma colher de pau até que virasse um creme quase líquido em que eram acrescentados outros ingredientes até virar uma massa clara como massa de empada. Depois vinha o momento de enformar os “mantecais”, e eu sempre dava um jeitinho de roubar um pouco daquela massa doce e gostosa. As formas eram como que barquinhos e aos montes eram colocadas para assar e o cheiro ia longe. Assados os mantecais (que na verdade eram uma espécie de biscoitos amanteigados ) eram passados no açúcar e canela e guardados em grandes latas para serem saboreados nas festas de fim de ano. Nunca consegui recuperar a receita para comer e reavivar aquele gosto de infância feliz.
A lembrança da vovó está muito associada àquelas festas na vila da rua Dona Maria e a alegria de tempos que embora difíceis, não foram capazes de escurecer a lembrança viva da alegria da família reunida no Natal.
Mais tarde o tempo se encarregou das transformações, algumas bem dolorosas e significativas.
Por ironia a vovó Bebel, essa avó paterna, nos deixou em um dia de Natal bem cedo. Lembro bem e eu devia ter meus 19 anos, a notícia chegando no dia 25 de dezembro  com o raiar do dia.

Depois que eu casei e os filhos chegaram eu tomei como tradição fazer o Natal, reunir a família e comemorar esta data, que até hoje é para mim muito especial.
Trouxe para mim o mesmo presépio que meu avô comprou lá pelos anos 30 e o gosto de reunir a família e celebrar. Celebrar algo que só quem não quer ver não percebe. São os judeus e a festa da luz , ou pode ser  a comemoração do  Deus pagão como Mitra, ou para nós cristãos  o nascimento da Luz. “O povo que andava nas trevas viu uma grande luz naquela noite”. É assim que a bíblia se refere à chegada de Jesus. E o natal é exatamente isso, "Luz".  O mistério da Luz que não se apaga nunca. 
Sejam as luzes artificiais das fachadas, ou a luz que cada um, se quiser e permitir, se acende em nossos corações, neste tempo de grandes transformações. E qual sarça ardente jamais se apaga.
Natal é oportunidade de renascimento, é tempo de nos lembrarmos de que existe algo luminoso em nós e que só depende de cada um de nós querer manter aceso, ou ocultar e alardear  que não há mais esperança para esse mundo.

 De minha parte, continuo acreditando em utopias e buscando manter acesa a chama da vida que a cada natal é avivada por uma onda de paz, e alegria.

É natal, pelo menos por hoje troque as reclamações por agradecimentos, Troque a cara feia por um sorriso. Nós podemos se quisermos transformar esse mundo em algo mais alegre, e digno de seres criados à semelhança de um Deus.

Feliz Natal ! A transformação é possível, vamos manter bem forte esta chama, nós podemos.