Absurdo e graça!

.Na vida hoje caminhamos entre uma fome que condena ao sofrimento uma enorme parcela da humanidade
e uma tecnologia moderníssima que garante um padrão de conforto e bem estar nunca antes imaginado.
Um bilhão de seres humanos estão abaixo da linha da pobreza, na mais absoluta miséria, passam FOME !
Com a tecnologia que foi inventada seria possível produzir alimentos e acabar com TODA a fome no mundo,
não fossem os interesses de alguns grupos detentores da tecnologia e do poder.

"Para mim, o absurdo e a graça não estão mais separados.
Dizer que "tudo é absurdo" ou dizer que "tudo é graça "
é igualmente mentir ou trapacear...
Como morrer e ressuscitar, o absurdo e a graça são só dois lados da mesma moeda."
"Hoje a graça e o absurdo caminham, em mim lado a lado,
não mais estranhos,
mas estranhamente amigos"
A cada dia,nas situações que se nos apresentam podemos decidir entre perpetuar o absurdo ou promover a Graça. (Jean Yves Leloup)

* O Blog tem o mesmo nome do livro autobiográfico de Jean Yves Leloup, e é uma forma de homenagear a quem muito tem me ensinado em seus retiros, seminários e workshops *

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18 de agosto de 2016

CANTO PARA AS TRANSFORMAÇÕES DO HOMEM *

Moacyr Felix


A todos os que sonham e trabalham por um mundo melhor, libertado dos obscurantismos e dos dogmas, do apodrecimento da própria existência pela
miséria física e da perda dos valores dos humanismo pela miséria moral.


(I) INICIAÇÃO

- Meu pai, o que é a liberdade?

- É o seu rosto, meu filho,
o seu jeito de indagar
o mundo a pedir guarida
no brilho do seu olhar.
A liberdade, meu filho,
é o próprio rosto da vida
que a vida quis desvendar.
É sua irmã numa escada
iniciada há milênios
em direção ao amor,
seu corpo feito de nuvens
carne, sal, desejo, cálcio
e fundamentos de dor.
A liberdade, meu filho,
é o próprio rosto do amor.

- Meu pai, o que é a liberdade?

A mão limpa, o copo d’água
na mesa qual num altar
aberto ao homem que passa
com o vento verde do mar.
É o ato simples de amar
o amigo, o vinho, o silêncio
da mulher olhando a tarde
- laranja cortada ao meio,
tremor de barco que parte,
esto de crina sem freio.

- Meu pai, o que é a liberdade?

È um homem morto na cruz
por ele próprio plantada,
é a luz que sua morte expande
pontuda como uma espada.
É Cuauhtemoc a criar
sobre o brasileiro que o mata
uma rosa de ouro e prata
para altivez mexicana.
São quatro cavalos brancos
quatro bússolas de sangue
na praça de Vila Rica
e mais Felipe dos Santos
de pé a cuspir nos mantos
do medo que a morte indica.
É a blusa aberta do povo
bandeira branca atirada
jardim de estrelas de sangue
do céu de maio tombadas
dentro da noite goyesca.
É a guilhotina madura
cortando o espanto e o terror
sem cortar a luz e o canto
de uma lágrima de amor.
É a branca barba de Karl
a se misturar com a neve
de Londres fria e sem lã,
seu coração sobre as fábricas
qual gigantesca maçã.
É Van Gogh e sua tortura
de viver num quarto em Arles
com o sol preso em sua pintura.
É o longo verso de Whitman
fornalha descomunal
cozendo o barro da Terra
para o tempo industrial.
É Federico em Granada.
É o homem morto na cruz
por ele próprio plantada
e a luz que sua morte expande
pontuda como uma espada.

- Meu pai, o que é a liberdade?

A liberdade, meu filho,
é coisa que assusta:
visão terrível (que luta!)
da vida contra o destino
traçado de ponta a ponta
como já contada conta
pelo som dos altos sinos.
É o homem amigo da morte
Por querer demais a vida
- a vida nunca podrida.
É sonho findo em desgraça
desta alma que, combalida,
deixou suas penas de graça
na grade em que foi ferida...
a liberdade, meu filho,
é a realidade do fogo
do meu rosto quando eu ardo
na imensa noite a buscar
a luz que pede guarida
nas trevas do meu olhar.



(II) ENREDO


I

Onde se destrói o mundo em que vivo
aí estou.
Onde há destruição, aí se define o meu caminho.
Onde os deuses se desmoronam é que apareço
sem rosto
atrás de suas formas feitas de noite e de medo.
Onde se morre, onde se nasce.
Onde se morre é que eu renasço.

- Stirb und werde!
- “Morre e transmuda-te!”
Está não é, meu velho Goethe, a verdade das verdades, a ignorada
pelos que apenas
“um hóspede triste sobre a escura terra”?!
A morte e o fogo e a humilhação e o ódio
em vida e verde devem ser devolvidos.


II


Depois de silenciar o vozerio das cores
nas coisas cinzas que não dizem mais
do olhar humano que as fizera humanas,
a chama desce, e em rodopios tontos
retorna ao calor íntimo da terra,
ao berço rubro, à causa que realiza
este mistério grande de existir
o peixe e a estrela, o movimento e a cor
e o som do homem a se querer de amor.
Medo e humilhação e ódio
Assim alimentados serão devolvidos.


III


Medo e humilhação e ódio
devem ser devolvidos:
infenso ao homem é guardá-los em sua alma
receptáculo de coisas maiores
(como as águas da lua a perlavar a noite
num rosto de criança que dorme
ou numa anca macia de mulher nua).
Porque emudeceu a voz mais alta de minha infância?
Que ternura imunda rouba
A fala do mar dos pés de uma criança?
Que nos faz sobreviver, adultos
somente em medo e humilhação e ódio?
Querer-me novo é querer-me mais que morto
em mim ou nesta existência que me olha.
É querer-me outro que não este em que me instalaram.
É não parar, não querer parar os eixos
desta roda de luz
- plural de eternidades
a dissolver o bronze entre os escombros do que eu era.
Nesta banda podre do tempo
A água não inventa rios
nem ouve os cantos do mar.
Nestas escarpa onde habitam os dourados senhores do sul
ninguém nasce, ninguém agoniza mais de uma vez.
Aqui o sangue se enclausura
numa ordem arrumada como a das geladeiras.
E não sabe mais a ciência do orvalho numa alegria de flor.
Aqui a morte interrompe apenas o esforço de durar.
Aqui
Medo e humilhação e ódio
não devem ser recebidos
Muitas vezes essa é a única forma concreta de amar
aqui.


IV


Quando ensolarada pelas raízes do fogo, a vida
é o coração ligado ao velocíssimo novelo das galáxias
e na fúria de uma lágrima, senhores, e no desejo
de todo amor que se descobre
fogo e movimento e transformação
eu poderia doar-vos o acontecimento ilimitado,
o reinado da ordem e do caos anteriores a todos os deuses.


Porém a treva, a treva deste mundo em que eu escuto
estilhaçar-se a vida em seu cristal escuro,
a treva
só me permite em vossas mãos (e nas minhas)
apenas com esses parcos cacos de mim próprio...


Os vossos mitos são fortes, senhores, muito fortes.


V


Nos álbuns de família quem ganha e perde
és tu, sombra de Heráclito,
a transformar em chuva o sol em nossos rios.


Nos álbuns de família com brasões, a sepultura ideal
dos que já morreram
tantas vezes
quantas as que se deixaram fotografar
singulares
sobre uma data, uma conquista ou uma verdade
que pensaram imóveis.
Se o camponês não possui maquinas
Fotográficas
Para re-saltar o instante de sua morte como servo,
que família imóvel é essa que se quer sagrada?
Ignora ela a vazia tristeza dos seus domingos,
quando os cupins também a devoram ao lado da Casa Grande?
Nos álbuns de família, qual a vida que está neles?

Se em cada página o tempo ri
velho devasso, avô caduco
a negar ajuda e mão
estranha-mente
aos netos acordados pelo dor em fundo chão.

Nos álbuns de família quem ganha e perde
és tu, sombra de Heráclito,
a transformar em chuva o sol de nossos rios.


VI


De repartição em repartição a poesia
fugiu, tentou fugir
do engavetado mundo das mesas
alinhadas
como leitos fúnebres
à disposição das
necrófilas orgias de generais e beatas e banqueiros
e exporta-dores.
Ah, o clima de cemitério que reina nos ministérios!
Ah, a essencial recusa da poesia,
suas explosões de sangue naufragando
o destino e a infiníta infância da vida
entre os ruídos do mar e a rouquidão dos homens
agachados.
Agachados
sob o pensamento natimorto dos que divinizam
o Poder, o Estado, e a Política.
Ah, a aurora guardada no tinteiro dos poetas
em que o amor apenas autoriza o dia
na praça
sem o discurso hipócrita
ou na cidade sem bancos e sem forças armadas.


VII


Assim como defende
a perfeição da flor
acabada
e em si mesma fechada,
o poeta não defende
até hoje governo algum:

seu lado é o lado do povo
sempre e sempre roubado
por mil, por cem ou por um.

O pelego se untou
nas banhas do negocista
e engordou engordou
tanto
que a sua barriga tão grande
esmagou

a menina do povo
que vinha com a flor,
que vinha com a flor.

O poeta defende
o direito de andar

até o outro lado da vida
em que o homem é o seu avesso
o chão de seu próprio mar
e a verdade a rosa nua
solta na praia e na rua
como um convite a bailar.

O poeta defende
o direito de amar.


VIII


Do princípio e do fim das horas que o dinheiro envilece
foi então que chegaram os matadores de pássaros,
os que invadiram a minha ilimitada gaiola de ossos
e arrastaram de lá o poeta
para os depósitos de preços ou de presos.

A roda dos olhos quebrada ou o acanalhamento.
O mundo, ou o interior do exterior, tinha que ser quebrado
alguma coisa, a vida, tinha que ser quebrada
já que os homens inteiros estavam ainda no ventre
dos que reivindicavam uma história nova
nos campos e nas fábricas.
Ou no pensamento daqueles que sabiam escutar, mas
com um punhal na cintura,
o abraço das coisas e dos seres.

De re-partição em re-partição a poesia
Comprimiu o poeta no coração de uma bala.


IX


Segregada pelos amiantos do medo nos comutadores
e nos lustres, a luz
despe-se de todo berro e toda flama,
enquanto no morno ritual da sala
a saltar de colarinhos e colares
a palavra do homem assassina o homem: repetição de quando
o sílex, afiado, trazia a morte para as suas carótidas.
Os antigos porém, desconheciam os terríveis cortejos
a enterrar na tarde movida pela fala inglesa
a mudez de um Cristo sempre de madeira
e a histórica possibilidade de liberdade na existência.
E não gelavam o sangue da palavra injustiça
Em fáceis copos de uísque.

Nem mediam também a construção do homem pelo número de suas latrinas

sabiam eles, os antigos, pelo menos a diferença
entre o conforto das jaulas e o fogo aceso no topo das montanhas.
Mais alto do que eles, o coração do povo tem que saber isso!
Mais alto do que eles, o carvão que faz a noite
vestir a chama do silêncio em chamas
escreve

na estupidez moderna destes nossos muros
indicações escritas pelo sol nos mapas do futuro.


X


O homem, os homens
São vitórias da morte a circular as vidas
ou sombras opacas de uma Vida
em que esse anti-salto, a morte
não existe e nem nunca existiu
a não ser em seu não-ser de ser
desvão ao lado de desvão na ponte?

Se os câes falassem, ah, como ririam
(em frente ao sol)
dos nossos medrosos altares.


(III) CONCLUSÃO

É inútil querer parar o Homem,
o que transforma a pedra em piso,
o piso em casa e a casa em fonte
de novas músicas da carne
sob as velocidades da luz e da sombra.
É inútil querer parar o Homem
acolher sempre um pouco de si próprio
no mistério da vida a cavalgar
os cavalos aéreos da semântica
sob uma indeferida eternidade.
É inútil querer parar o Homem
e o impulso que o transforma sempre
na pátria sem fim do ato livre
que arranca a vida e o tempo e as coisas
do espelho imóvel dos conceitos.
Ah, que mistério maior é este
que liga a liberdade e o homem
e une o homem a outros homens
como o curso de um rio ao mar!
(quando a noite é una e indivisível,
nos olhos da mulher que eu amo
acende-se o deus deste segredo
-e uma sombra só nos transporta
ao fundo sem nome da vida.)

É inútil querer parar o Homem.
Do que morre fica o gesto alto
a ser o germe de outro gesto
que ainda nem vemos no tempo.
Isto as crianças nos lembram
quando rodam em nossas portas
os ossos do dia que foi nosso
e agora são os eixos do pedalar
nas bicicletas com que os deuses
as vão levando para outros dias
do acaso, do desejo e do fazer
em que não seremos mais, eternamente.
É inútil querer parar o Homem
e o seu sonho a dar longas voltas
ou a inventar estradas no cárcere,
o seu sonho mais essencial
a destruir e a enferrujar
metais de qualquer ditadura.
É inútil querer parar o Homem
e o seu sonho, o mais de flor,
de apagar dos lábios da terra
o ricto do medo que estica
no céu de aço a bomba atômica;
o seu sonho, que é o seu movimento
onde a razão dança mais bela,
de ver no armário dos museus
o manual oco e sem asas
que aprisiona o corpo e o sexo
en desrazões dadas na infância
e os livros de Deve & Haver
dos poderosos de Manhattan
comerciando Deus e o mundo.

É inútil querer parar o Homem
e o seu sonho de enterrar
sob o verde passo de uma história livre
os dogmas do stalinismo
grudado como esparadrapo
sobra a boca múltipla da vida
(e a subdesenvolvida farda
dos tiranos que bebem uísque
pago com o sangue de sua pátria).
É inútil querer parar o Homem:
em tudo que de amor cantar
o seu sonho caminhará
a encaminhá-lo na direção dele próprio
inteirado quando históricamente liberto
do econômmico em que ora o algemam.
É inútil querer parar o Homem,
o que transforma a pedra em piso,
o piso em casa e a casa em fonte
de novas músicas de carne.
A andar em formas de palavras
sob os arvoredos da vida
o sonho do Homem caminhará
do pensamento para as mãos
e das mãos para o pensamento,
noite e dia caminhará.
até tornar as mãos em pássaros
livres, inteiramente livres, para amar
o azul ou as várias almas do céu
dentro do Homem que se movimenta
na liberdade, no amor e no desejo
em que a si próprio inventa.



____
* Deste poema, escrito em maio de 1964, o fragmemto inicial foi então publicado no Correio da Manhã. Diagramado com eficiência na seleção intelectual de cada fragmento do seu texto e no uso adequado das ilustrações feitas pelo talento criador de Poty, o célebre gráfico Rubens de Barros Lima, neste mesmo ano, armou também um livro de 84 páginas, no formato de 18x24 cm, e tão graficamente bonito, que à Editora foi concedida, por essa beleza gráfica, a Medalha de Ouro da Câmara Municipal do Livro em São Paulo.
Sendo um dos primeiros livros contra o golpe militar de 1964, a livrariada Civilização Brasileira, em gesto típico de Ênio Silveira, colocou-o no espaço total de suas estantes para a rua e sobre elas estendeu uma longa faixa onde estava escrito ”A poesia é a arma do povo contra a tirania”. O livro esgotou-se rapidamente. (N. do A.)

Moacyr Félix de Oliveira (Rio de JaneiroRJ, 11 de março de 1926 — Rio de JaneiroRJ, 25 de outubro de 2005) foi um poetaescritoreditor e intelectual brasileiro.

Começou sua trajetória como editor em 1954, quando integra a equipe de redação da revista literária Marco, e de 1954; em 1956 integrou a comissão de redação da revista Caderno do Nosso Tempo, do Ibesp. De 1956 e 1958, foi o responsável pela seção de poesia e escreveu artigos de crítica e balanços literários no Para Todos, jornal de cultura do antigo Partido Comunista Brasileiro (PCB), dirigido por Jorge Amado e Oscar Niemeyer, e redator-chefe Moacyr Werneck de Castro; de 1963 a 1971, diretor da Coleção Poesia Hoje, da editora Civilização Brasileira, que juntamente com as coleções Poesia Sempre e Poesia Viva; em 1965, faz parte do conselho de redação e depois secretário da famosa Revista Civilização Brasileira, editada por Ênio Silveira e em 1966, torna-se diretor. Como poeta, de 1955 a 1960, colaborou em vários jornais, como o Correio da Manhã, o Diário de Notícias, o Diário Carioca e Jornal do Brasil. Como jornalista, de 1955 a 1962, fez parte também do conselho de redatores e redator-chefe do Jornal de Letras. Em 1962, escrevia ao domingos, no Diário de Notícias, a seção "Radiografia de um livro", dedicada a autores de filosofiasociologiapolítica e economia. Como intelectual e ativista, foi um dos fundadores do Comando de Trabalhadores Intelectuais (CTI), que teve a adesão no Rio de Janeiro de mais de quatrocentos intelectuais de todas as áreas das artes, da literatura, da ciência e das profissões liberais. Em 1964, foi eleito membro do Conselho Deliberativo deste comando.
Obras
  • Cubo de Treva (1948);
  • Lenda e Areia (1950);
  • Itinerário de uma Tarde (1953);
  • O pão e o Vinho (1959);
  • Canto para as Transformações do Homem (1964);
  • Um Poeta na Cidade e no Tempo (1966);
  • Canção do Exílio Aqui (1977);
  • Neste Lençol (1977);
  • Invenção de Crença e Descrença (1978);
  • Em Nome da Vida (1981);
  • Encontros com a Civilização Brasileira (1981);
  • Singular Plural (1988);
  • Introdução a Escombros (1998);

17 de agosto de 2016

Meu anel de Tucun quebrou...

J. Ricardo A. de Oliveira

Um amigo vendo que eu estava querendo um outro para substituí-lo, perguntou o porquê de eu usar esse anel. E eu então expliquei a opção preferencial pelos pobres e pelas minorias. Ele então intrigado depois de um tempo em silêncio me disse muito sério: me desculpe, mas você /vocês que usam este anel estão errados. Eu espantado olhei para ele já pronto para iniciar uma discussão, mas antes que eu começasse a falar, ele então me disse: a opção não pode ser pela pobreza, ela tem que ser pela superação. A causa precisa ser pela superação da pobreza, pelo pleno restabelecimento da dignidade... E depois de muito falar ainda arrematou: eu tenho muito medo de algumas pessoas que se utilizam dos pobres para se promover, sem que tenham qualquer interesse pela superação. Há políticos que precisam dos pobres para fazer a assistência social e ganhar votos, outros precisam dos pobres para fazer deles sua muleta para seu discurso pseudo social. A Igreja salvo algumas exceções e do papa Francisco, que por acaso não usa o anel parece que em sua maioria fica só no discurso. Pobres são um achado, tanto para a direita quanto para a esquerda. A direita porque precisa de mão de obra barata e servil que trabalhe em troca de um salário que jamais lhes trará dignidade. A esquerda, alguns setores da esquerda há anos fazem o discurso de defesa dos pobres, mas ainda não conseguiram ir além de medidas paliativas e nunca fizeram investimentos sérios em educação que possibilitasse elevar o nível crítico destas pessoas de forma a torna-las mais conscientes e capazes de exigir seus direitos. Muito pouca gente está disposta a estar com os pobres para tirá-los da pobreza. É mais fácil fazer o discurso em defesa deles ou distribuir quentinhas nas noites para os mendigos nas ruas, mas até hoje não vi nada sério o bastante no sentido da erradicação da pobreza. Não é que eu critique os programas sociais como as bolsas do governo petista, mas até isso que é saudado pelo mundo como uma grande conquista, não é ainda um trabalho que faça a verdadeira mudança no pensamento crítico destas pessoas marginalizadas. E arrematou me espetando: vejo muita gente usando este anel, há muito tempo, mas temo que ele seja isso mesmo, uma marca da opção preferencial pelos pobres, mas infelizmente muitos poucos estão empenhados em ir além da opção de aparência e do discurso... Fiquei pensando e acho que tenho que concordar com esse meu amigo.

16 de agosto de 2016

Consumismo, Capitalismo, Teologia da libertação e Teologia da Prosperidade

J Ricardo A. de Oliveira


Tenho pensado muito sobre essa questão. Lembrei do Joãozinho 30 que dizia que quem gosta de pobreza é intelectual, pobre gosta de luxo de riqueza e de brilho. Acho que é isso que vem acontecendo, a teologia da prosperidade fala a linguagem que foi usada para domesticar as grandes massas, o capitalismo e seu infernal consumismo.



A Teologia da prosperidade baseia-se em que os indivíduos têm como objetivo na vida tornarem-se ricos, para serem felizes. A suprema felicidade é ter cada vez mais para atingir a riqueza material, para ai sim ser feliz. Os bordões clamam que Deus vai abençoar a vida de seus filhos, se eles tiverem fé e “se entregarem”a Jesus, assim sem maiores lutas, ou esforços. É o próprio Deus quem vai abençoar a vida de seus filhos, com riquezas abundantes e prosperidade constante. Convenhamos que para quem passa fome, esta é uma proposta muito tentadora.
O indivíduo passa a vida sendo doutrinado:  fume "Free" e seja um intelectual de óculos caros, livros, mulheres e carros. Roupas impecáveis, com etiquetas milionárias. Ou ainda: tenha o carro do ano e descubra a felicidade e a liberdade! Compre uma TV de Plasma e sinta-se como um jogador da copa, dentro do campo!
De manhã à noite o bombardeio é incansável mostrando a essas pessoas, e porque não dizer a muitos de nós também, que tudo, absolutamente tudo, pode ser COMPRADO. De saúde a felicidade, tudo parece ter um preço...



Os jovens, preocupados com prazeres imediatos, porque sabem que a vida é curta e as oportunidades quase inexistentes querem tudo prá já, aqui e agora.
A Teologia da libertação tem como perspectiva o aumento da consciência dos indivíduos, a formação destes indivíduos num projeto de cidadania, o consumo regrado e consciente, o desenvolvimento sustentável, o não desperdício de recursos, a simplicidade voluntária, uma divisão de renda que implique na inexistência de exploradores e explorados e consciência da liberdade que cada individuo vem ao mundo. Para a TdL o amor de Deus se manifesta não pela acumulação de bens materiais, mas pela fraternidade, pela ajuda mútua, pelos elos de ligação fraterna entre os indivíduos. Era assim que eram reconhecidos os primeiros cristãos: "Vejam como se amam".
A TdL em suas atividades convida a todos a se posicionar : vamos juntos, aprender, buscar uma melhor educação, uma melhoria cultural, ampliar a nossa consciência de cidadãos e lutar pela igualdade de oportunidades.
Na verdade, esta perspectiva libertadora não aparece como libertadora para as camadas sociais mais pobres. Esse discurso está na contramão do que esses indivíduos tiveram como formação. Isso é a antítese do consumismo, que é apresentado como um  saboroso doce a ser consumido por todos, e apregoado pela mídia em geral. É essa a “deformação” que precisamos  suplantar para levar adiante o discurso libertador. A cada dia percebe-se nos grandes centros o povo mais avesso a isso. A Lei de Gerson, a cultura da "farinha pouca meu pirão primeiro" impera. É mais fácil fazer uma oração alienante e cruzar os braços e esperar a "Bênção" do que lutar pela realização desta.
Talvez por isso que muitas CEBs andam namorando com a CN e com os programas dos padres cantores, ou os arautos da Teologia da facilidade ou da Prosperidade.
Não sei onde perdemos o fio da meada, mas temos que nos voltar para uma nova educação, uma nova estratégia que revitalize o valor da cidadania, da realização pessoas através do trabalho honesto, a recondução da moral e da ética ao lugar de destaque na formação do caráter de nossa gente.
Só pela educação de qualidade, pelo empenho de cada um de nós, primeiro através de uma vigilância de nossos próprios atos, não burlando, não nos permitindo participar de nenhum tipo de suborno, principalmente os mais corriqueiros, no trânsito, nas repartições. Cuidando de nossos excessos de consumo de supérfluos, no excesso da valorização das grifes e etiquetas.
Precisamos em primeiro lugar assumir uma conduta ética, séria para que com nosso exemplo possamos transmitir essa postura de verdadeiros revolucionários.
A teologia da Prosperidade é justamente a resposta de acomodação ao mundo capitalista que estimula cada vez mais o consumo.



A teologia da Libertação procura justamente o contrário, ou seja, a valorização do indivíduo, o predomínio da ética e da verdade, a busca da simplicidade e do necessário, a formação de cidadãos que sabem os seus direitos e não se deixam manipular.
Para finalizar pode-se dizer que enquanto a Teologia da Prosperidade está empenhada em TER para consumir, a Teologia da Libertação empenha-se para que os indivíduos SEJAM para comungar com o próximo.

Eis a diferença: Consumir X comungar.

10 de agosto de 2016

Salve Santa Clara de Assis a companheira de Francisco


                              Santa Clara de Assis  16/6/1194 - 11/8/1253

Segundo a tradição, o seu nome vem de uma inspiração dada à sua religiosa mãe, de que haveria de ter uma filha que iluminaria o mundo.
Pertencia a uma família e era dotada de grande beleza. Destacou-se desde cedo  aos pequenos, tanto que, ao deparar-se com a pobreza evangélica vivida por Francisco foi tomada pela irresistível tendência religiosa de segui-lo.
Clara a despeito do que muitos dizem era apaixonada por Francisco e ele por ela, é uma pena que a realidade do relacionamento deles tenha ficado sepultada pelos preconceitos puritanos que acham que a santidade está acima das característica básicas do ser humano.



Ouvi, pobrezinhas, pelo Senhor chamadas,
que de muitas partes e províncias fostes congregadas:
vivei sempre na verdade, para morrerdes na obediência.
Não olheis a vida de fora, porque a do espírito é melhor.
Eu vos rogo com grande amor,
que tenhais discrição nas esmolas que vos dá o Senhor.
As que estão por doença agravadas
e as outras que por elas estão fatigadas,
umas e outras suportai-o em paz,
pois havereis de vender bem caro essa fadiga,
porque cada uma ser rainha
no céu coroada com a Virgem
 Maria.

Este cântico foi composto por São Francisco, já à beira da morte, para as Irmãs clarissas de São Damião entre 1225 e 1226.

26 de julho de 2016

Por favor me digam que esse túnel tem saída !


Confesso que me assusta o fato de a cada dia as coisas que já eram tenebrosas ficarem um pouco pior... A sensação é de uma imensa perda. Já deixei de ler jornais, de assistir TV, e agora estou questionando se vale a pena abrir essa rede social e ser assaltado por essa imensa gama de absurdos. Em poucos meses o país perce que retroagiu mais de um século. A alegria parece que deixou de ser a marca do Brasil, a intolerância cresce assustadoramente, e junto com ela o racismo, a homofobia, a misoginia e a intolerância religiosa, tudo quanto é preconceito e absurdo. O deboche por parte dos políticos para com o povo que os elegeu parece não ter fim. Leio aqui que policiais sequestraram um esportista, que o prefeito do Rio ofereceu um canguru para uma delegação que se recusou a passar pela humilhação de habitar uma vila olímpica inabitável. Vejo também que já privatizaram a Petrobras distribuidora ...Aqui e fora daqui as noticias só deprimem, é atentado na Alemanha, padre degolado na França...
Será que não há noticia boa ? Alguma coisa que nos devolva a esperança? Que acenda luz no final deste túnel que parece não ter mais fim ?

25 de julho de 2016

Hoje eu só tenho absurdos para comentar...


Agora acho que conseguiram, Nunca a frase do general De Gaulle fez tanto sentido: 
"O Brasil não é um país sério." E não é mesmo!
Triste, muito triste... não há justificativa que possa nos convencer, qualquer coisa que possam dizer sobre o atual estado de coisas, ou sobre os valores que norteiam este país só servirão para piorar as coisas. As justificativas para a prisão dos supostos “Terroristas", o perdão da dívida do "trensalão", o Canguru do prefeito debochado do Rio e ainda a absurda prisão do Senador Suplicy versus a leniência para com o chefe desta organização criminosa que tomou o país de assalto.
O Brasil hoje é uma piada internacional, uma piada sem graça.
Os nossos governantes oferecem cangurus para disfarçar sua incompetência, ou justificam suas burradas como medidas preventivas, querem nos convencer que é melhor que uma parcela considerável da população, volte a passar fome, para que empresários safados, que desviaram milhões tenham suas maracutaias perdoadas. O mundo dá gargalhadas para o fato de que afastaram uma chefe da nação porque ela estava sendo muito dura contra a corrupção e um bando de corruptos, bradando contra a corrupção, tomam o poder.
É demais para mim.
Em 68 havia um brado de revolta do povo, mas hoje há um grande silêncio, o Brasil parece que está anestesiado, acho que a indignação foi trocada por um comprimido de Rivotril ou por um baseado...
O povo rí, aplaude figuras que elogiam torturadores e acobertam estupradores, e pasmem há mulheres que o defendem; devem concordar com ele quando diz que mulheres gostam de ser estupradas...
Acho que fiquei velho, já não consigo entender como se pode ser tão hipócrita a ponto de ter uma persona de "gente de bem" quando o mundo, sem nenhum esforço, consegue ver a podridão por trás da máscara.

Mas por favor, antes de me rotularem de petista saibam que há muito tempo não aprovo as medidas deste partido que desde a primeira vez que subiu ao governo escolheu um liberal para gerir o banco central, da mesma forma que não consigo encontrar logica no apoio a  alguém que tramou conta o partido no pedido de impedimento da presidente. Também não me chamem de comunista, eu não defendo ideias de divisão igualitária de bens. 


Sou muito mais por atender às necessidades dos menos favorecidos do que simplesmente dividir bens. Aliás eu ando desgostoso e insatisfeito com essa esquerda que não abre mão de buscar o poder, ao invés de se organizar para ter força para fazer mudanças. Veja a próxima eleição no Rio de Janeiro, vão fazer acordo de coligação para o segundo turno, como se algum dos candidatos da esquerda fosse ter chance de chegar ao segundo turno...

O gosto é amargo, muito amargo e desta vez eu só estou conseguindo ver “Absurdos”, espero que as “Graças” não demorem muito para aparecer.

22 de julho de 2016

22 de Julho - Myrian de Magdala

Maria Madalena


Todas as incertezas a respeito de Maria Madalena deve-se à uma projeção totalmente alterada. Ela acabou presa entre as incongruências da interjeição moral cristã e a imagem arquetípica da natureza feminina erótica. 


Tudo que se sabe de Maria Madalena é retirado da bíblia ou de fontes apócrifas. A discussão a respeito dessa figura feminina que acompanhou Jesus e seus discípulos no final de sua vida pública perdura por séculos. Pouco se sabe na verdade


Para alguns, ela foi mulher de Jesus, a mais sábia dos apóstolos e a causadora das revoltas de Pedro, líder do grupo dos 12, que não suportava vê-la receber de Jesus ensinamentos ocultos. Para outros, apenas uma seguidora fiel que ajudava financeiramente a causa do Nazareno


Existem poucas citações diretas sobre ela nos quatro evangelhos, porém ela está nominalmente presente nas passagens mais marcantes na vida do Cristo, como a Paixão e a Ressurreição. Ela é a discípula que ama o mestre acima de tudo e é testemunha da Sua Ressurreição, sendo a portadora da Boa Nova. Por isso ela pode ser considerada a primeira apóstola. 


Marcos se refere a Maria Madalena como "aquela que Jesus havia tirado sete demônios" a referencia da expulsão de sete demônios (Marcos 16:9 / Lucas 8:2), que na linguagem evangélica significa libertar da totalidade do poder que aprisiona o homem. 
É a partir do que Jesus a transforma, um ser livre e preparada para servir e doar-se ao projeto de Deus, que devemos conhecer Maria Madalena. Nada mais interessa.Lucas fala de uma mulher que segue Jesus, e que "havia sido curada de espíritos malignos e enfermidades"; se chamava Maria, provinha de uma cidade de Magdala, e Jesus expulsou dela sete diabos. Imediatamente antes disto, Lucas relata a cena com o fariseu, quando uma mulher sem nome lavou os pés de Jesus com suas lágrimas, os secou com seus cabelos e logo o unge, em agradecimento ao perdão por parte de Jesus por seus pecados. 






A justaposição nos leva a acreditar que as duas mulheres se identificam em uma só. A mesma história aparece em Mateus e Marcos, mas a mulher sem nome não é tachada de pecadora e lhe foi dada muita importância ao colocá-la na última Ceia, em Betania. Não unge os pés de Jesus, mas sim sua cabeça, de modo mais cerimonial em que se unge os reis, durante a cerimônia de um sacrifício ritual. Ante a indignação dos discípulos, que argumentam que o azeite foi mal gasto, pois poderia ser vendido e dado aos pobres, Jesus pede que sua ação seja considerada como um ato de celebração, dizendo: " Porque os pobres tereis sempre convosco, porém a mim não me tereis sempre (Marcos). 




João, no entanto, acrescenta uma complicação a mais ao descrever a ressurreição de Lázaro, onde identifica de forma explícita a Maria de Betania com "a que ungiu ao Senhor com perfumes e lhe ungiu os pés com seus cabelos". João relata a cena no capítulo seguinte de forma muito similar aos outros Evangélicos, não tachando Maria como pecadora: "Então Maria, tomando uma libra de perfume de nardo puro, muito caro, ungiu os pés de Jesus e os secou com seus cabelos. E a casa se encheu do odor do perfume". Porém João não identifica em modo algum a Maria de Betania e a Maria Madalena. 

Há inúmeras outra citações e publicações sobre esta mulher importantíssima na vida do cristianismo primitivo. Sem dúvida Madalena foi muito mais do que quiseram nos fazer crer.








Myriam de Magdala - O PODER QUE TRANSFORMA LIBERDADE EM PROSTITUIÇÃO

O PODER QUE TRANSFORMA LIBERDADE EM PROSTITUIÇÃO
Tudo que se sabe de Maria Madalena é retirado da bíblia ou de fontes não canônicas- apócrifas. A discussão a respeito dessa figura feminina que acompanhou Jesus e seus discípulos no final de sua vida pública perdura por séculos. Pouco se sabe na verdade.
Para alguns, ela foi mulher de Jesus, a mais sábia dos apóstolos e a causadora das revoltas de Pedro, líder do grupo dos 12, que não suportava vê-la receber de Jesus ensinamentos ocultos. Para outros, apenas uma seguidora fiel que ajudava financeiramente a causa do Nazareno.
O que nos interessa saber não é o que Maria Madalena foi, fato que se perdeu na história, mas no que a transformaram. A Igreja, em seu poder monárquico absolutista e patriarcal transformou-a em mulher da rua. Prostituta arrependida do evangelho. Acontece que nenhum dos quatro evangelhos narram tal história. A prostituta arrependida não tem nome.
A respeito de Madalena temos apenas a referencia da expulsão de sete demônios (Marcos 16:9 / Lucas 8:2), que na linguagem evangélica significa libertar da totalidade do poder que aprisiona o homem. É a partir do que Jesus a transforma, um ser livre e preparada para servir e doar-se ao projeto de Deus, que devemos tomar/conhecer Maria Madalena. Nada mais interessa.
Ou a tomamos como exemplo da primeira mulher que se libertou da ideologia do poder e dos demônios dos poderosos, ou estamos a correr o risco de nos perdermos nos títulos impostos pela maioria religiosa, que transforma mulheres livres e autônomas quanto à seu corpo em prostitutas, pecadoras.
Matheus Brito.

Mirian de Magdala: que mulher é essa?

. .
Mulher e principal discípula de Jesus.

Quem é esta mulher que junto a Maria de Nazaré permaneceu aos pés da cruz?
Porque Jesus a escolheu para primeiro aparecer depois da Ressurreição? 
Maria de Magdala pecadora perdoada ?

Discípula que mais estava próxima do mestre, a ponto de despertar ciúmes ?
Nunca saberemos, o tempo e o preconceito se encarregaram de apagar sua história...
De companheira de Jesus a prostituta, muito ao longo dos séculos foi dito,
mas só mesmo o mestre, o raboni Yeshua poderia dizer com segurança
quem foi, quem é, Myrian de Magdala .


Com o relato da ressurreição e, a aparição de Jesus, depois de ressuscitado à Maria Madalena reacende-se a dúvida quanto ao papel desta mulher
na comunidade primitiva dos seguidores de Jesus.


Ao ler o O código Da Vinci, o jornalista e escritor Juan Arias lamentou as dezenas de erros de pesquisa na trama de Dan Brown. Como teólogo e vaticanista, no entanto, reconheceu que
o best-seller havia conseguido o que tentam há anos centenas de estudiosos,
levar ao grande público polêmicas religiosas que a Igreja, segundo ele, esforça-se em ocultar.
As discussões provocadas pelo livro foram a deixa para que Arias iniciasse uma busca pela verdadeira identidade da mulher que teria sido casada com Jesus, trabalho reunido em
"Madalena, o último tabu do cristianismo" (editora Objetiva).


Madalena Grávida
Imagem na Notre Dame de paris

A notícia é do jornal Globo, 19-6-2006.
Para autor, Madalena foi "apóstolo" mais importante.
Em um misto de reportagem e pesquisa histórica, Arias, autor de estudos religiosos como Jesus, esse grande desconhecido,
vasculhou centenas de documentos.
Textos como os Evangelhos Gnósticos (não reconhecidos
pelo Vaticano) e preciosos pergaminhos
descobertos no Egito na década de 40.
O livro redefine a origem do celibato e sacerdócio masculino exclusivo e derruba a imagem de Maria Madalena como meretriz convertida. "
À instituição interessa que Madalena seja a prostituta arrependida e não a esposa e escolhida de Jesus para continuar seus ensinamentos, porque isso ressaltaria o sexismo da Igreja.
Mas como explicar por que Madalena
foi a primeira a ver Jesus ressuscitado?
E a intimidade entre os dois nos Evangelhos Gnósticos,
onde Jesus beija Madalena na boca?
Ou as cenas de ciúmes dos apóstolos ao perceberem
o quanto ela era importante ao profeta?", polemiza ele.
Em vez de investir na teoria de que Jesus teria se casado com Maria Madalena, dando origem a uma linhagem que seguiria até hoje, principal tema de O código Da Vinci, Arias reúne provas históricas que conferem a Madalena um papel muito maior na formação da Igreja Católica, a de "apóstolo" mais importante para Jesus.
"Como me disse José Saramago, se Jesus ressuscitado apareceu a Madalena antes de todos, é porque ela era a mulher que mais amava. Ele sabia que duvidariam do testemunho de Madalena, como o fez Pedro, mas a escolheu",explica o teólogo.
Um outro exemplo é o pedido de Madalena ao chegar ao sepulcro de Jesus, quando ela se desespera ao não encontrar o corpo do profeta. Madalena pergunta a um homem onde estava o seu senhor, pois ela iria recolhê-lo.
Para os judeus, o corpo era sagrado e responsabilidade da família.
Que direitos tinha Madalena em reclamar o corpo de Jesus?
O direito de esposa.
O jornalista espanhol, que foi correspondente no Vaticano por 14 anos, constrói o livro com capítulos-ensaios, submetendo os trechos bíblicos a análises semiológicas e formulando uma hermenêutica acessível mesmo aos leigos nos textos sagrados.
Para Arias, Madalena pertencia à corrente gnóstica, que valorizava o conhecimento intuitivo e a palavra, e era contrária à hierarquização do cristianismo.
Ela acreditava que, por meio do conhecimento, o eu e a divindade tornavam-se um só.
"A Igreja seria menos dogmática e mais universal" Culta e de família abastada, Madalena teria sido responsável pela construção existencial e filosófica do cristianismo, que ainda não havia fixado um corpo definitivo de doutrina.
Ela foi a escolhida do profeta, definido por Arias como "um semeador de liberdades" que considerava as mulheres inteiramente aptas ao sacerdócio.
Com a morte de Jesus, porém, entre a corrente gnóstica de Madalena e a oficialista de Pedro, venceu a primazia masculina.
"Um dia a Igreja terá que pedir perdão, como fez com Galileu Galilei, por ter corrompido a figura de Madalena utilizando-a como símbolo do pecado sexual.
Se isso não tivesse acontecido, a Igreja seria menos dogmática e mais universal. E o feminismo teria sido adiantado em muitos séculos",
calcula Juan Arias.
.

Jesus e Maria Madalena - Para os puros, tudo é puro



No princípio de toda filosofia há um assombro, um maravilhamento; o assombro, por exemplo, diante da mudança e da impermanência de todas as coisas... e das questões que isso incita: Existe uma realidade que permanece dentre tudo aquilo que passa? O que resta quando não resta mais nada?
Quer respondamos através da substância , como os pré-socráticos, ou através da vacuidade, como no madyamika , isso não diminui em nada o assombro e leva a questão um pouco mais adiante: o que é a substância? Que experiência de vacuidade podemos fazer?...

O assombro de nossos contemporâneos não recai tanto sobre o ser ou o não ser quanto sobre o desejo (de viver) e o não desejo (de viver) e sobre aquilo que o sustenta ou o expressa, aquilo que, utilizando uma palavra mais ou menos redutora, chamaremos “a sexualidade”, outros preferirão “o élan vital”(Bergson), “a libido”(Freud) ou ainda, “a energia vital”, “força criadora”...
O assombro diante da sexualidade raramente é filosófico. As dificuldades de algumas funções e disfunções clamam por respostas mais pragmáticas e repelem todas as formas de especulação...
Uma abordagem menos trivial da sexualidade seria, então, impossível?

Psicólogos e sociólogos já responderam a diversas dessas questões, mas talvez ainda não tenham respondido ao nosso assombro fundamental, “de sermos um ser que deseja”. Se nos inclinarmos para o lado da teologia, nos assombraremos até mesmo diante do termo “da encarnação”; o Ser encarnado seria então um ser que deseja? Como se expressa esse desejo? Não apenas através das formas sublimes que conhecemos e que foram, algumas vezes, celebradas de maneira soberba pelas igrejas, mas, o que dizer da sexualidade do Cristo?

Para muitos essa questão não é mais da ordem do assombro, do maravilhamento, mas antes do estupor e para alguns, até mesmo da blasfêmia.
Por que?
Por que tais resistências, outrora e ainda hoje em dia? No entanto, a questão é importante, não apenas para melhor conhecermos o Cristo e para respeitá-lo em todas as dimensões de sua humanidade, mas também tendo em vista sua função “exemplar”, “arquetípica” e reveladora, para melhor conhecermos o ser humano na sua realidade sexuada, sendo esta considerada hoje em dia dimensão essencial de sua identidade e de seu advir (sua substância “e” sua falta), não apenas como lugar de transmissão da vida, mas como condição para nosso prazer ou para nosso desgosto pela vida.

Nossa abordagem permanece neste assombro, neste maravilhamento, ela não deseja ser nem polêmica, nem moralizante, nem dogmática, ela se questiona o mais honestamente possível acerca do realismo da encarnação, até aonde o Verbo se fez carne? Existem elementos da nossa humanidade que escapam à Sua luz e à Sua ternura?

Se o Amor encarnou-se na História e hoje em dia continua apenas pedindo para encarnar-se, como ele não o faria nas carnes que lhe são normalmente e naturalmente consagradas?
“Aquele que é carnal, o é até mesmo nas obras do espírito, aquele que é espiritual, o é até mesmo nas obras da carne” dizia Santo Agostinho.
Nós talvez tenhamos que redescobrir uma espiritualidade vivida dentro das obras do corpo e do quotidiano que respeitaria prioritariamente o Espírito d’Aquele que se fez homem e “inteiramente homem”, “a fim de que”, como dizem os Padres, “o homem se fizesse Deus”.

Porque, repetidas vezes, o Cristianismo nos apresentou a sexualidade como sendo algo aviltante, degradante, “mãe de todos os pecados” e raramente como algo divinizante, fonte da vida e da criatividade, participação à imagem e à semelhança do Deus Vivo e Criador.

Não deveríamos, assim hoje como ontem, ir procurar a sexualidade reduzida a seus apêndices nos sex-shop e outros locais obscuros, lá onde ela “enclausurou-se” e perdeu-se, e trazê-la de volta ao santuário que foi sua morada, seu “sacrum”, a câmara nupcial que é, de acordo com o Evangelho de Felipe, um templo aonde “oramos de verdade”?
O Cristo não veio salvar, curar e divinizar aquilo que estava perdido?

Não seria a vida sexual transfigurada, quer seja numa vida de casal ou em um celibato escolhido e assumido, a grande Aventura e Alquimia que devemos incessantemente descobrir e renovar? devolver a Deus um dos maiores dons que nos foram dados? e não pararmos de nos assombrar...

Editora Vozes, 2007