Absurdo e graça!

.Na vida hoje caminhamos entre uma fome que condena ao sofrimento uma enorme parcela da humanidade
e uma tecnologia moderníssima que garante um padrão de conforto e bem estar nunca antes imaginado.
Um bilhão de seres humanos estão abaixo da linha da pobreza, na mais absoluta miséria, passam FOME !
Com a tecnologia que foi inventada seria possível produzir alimentos e acabar com TODA a fome no mundo,
não fossem os interesses de alguns grupos detentores da tecnologia e do poder.

"Para mim, o absurdo e a graça não estão mais separados.
Dizer que "tudo é absurdo" ou dizer que "tudo é graça "
é igualmente mentir ou trapacear...
Como morrer e ressuscitar, o absurdo e a graça são só dois lados da mesma moeda."
"Hoje a graça e o absurdo caminham, em mim lado a lado,
não mais estranhos,
mas estranhamente amigos"
A cada dia,nas situações que se nos apresentam podemos decidir entre perpetuar o absurdo ou promover a Graça. (Jean Yves Leloup)

* O Blog tem o mesmo nome do livro autobiográfico de Jean Yves Leloup, e é uma forma de homenagear a quem muito tem me ensinado em seus retiros, seminários e workshops *

Receba "O Absurdo e a Graça" por Email

Total de visualizações de página

19 de janeiro de 2017

Mudança de paradigmas - espiritualidade em transição – Cristianismo em crise

J. Ricardo A. de Oliveira
Fritjof Cappra, autor do livro “O Ponto de Mutação”, alerta para o fato de que as civilizações após um logo período de amadurecimento tendem à estagnação e acabam por entrar em colapso. A História mostra claramente isso e, é neste momento que surge uma outra civilização, com novos valores, novos paradigmas, que gradativamente vai como que substituindo a velha civilização. Isto se dá quando as principais questões já não conseguem ser respondidas pelos meios usuais. A civilização se vê paralisada e sem condições de avançar. São necessárias novas formas de penar, novas respostas, procedimentos realmente novos que possam atender as novas demandas. A isso se dá, segundo o autor, o nome de mudança de paradigmas. Estas mudanças se dão geralmente em meio a crises. È como um jogo de disputa de forças entre os defensores dos antigos métodos e os que buscam novas alternativas para a solução   dos problemas.


Ao longo da história da humanidade estas lutas são intensas e duram muitas vezes um tempo prolongado, até que o novo paradigma consiga se instalar e mudar o curso da história. Mas enquanto isso não acontece tem-se um período de estagnação, de caos, de sofrimento, de dor e desespero.
O mundo está justamente atravessando esse período e esta situação crítica. Infelizmente ainda não conseguimos superar as polaridades. Ainda estamos vivendo a disputa entre os opostos: Capitalismo X Socialismo, um enfrentamento em que certamente nenhuma das duas formas será a solução definitiva. Por onde quer que se olhe pode-se observar a polaridade, os opostos se enfrentando e produzindo crises e caos. Em todos os campos da vida humana encontramos essas disputas: Direita x Esquerda, tradicionalistas x Progressistas, fundamentalistas x renovados, Bem x Mal,  Luz x Sombra. Polaridades, dualidade em oposição à unidade.  A questão é bem ampla.

Todo este introito é uma tentativa de entender a questão da espiritualidade que também aparentemente está em crise, seja internamente nas religiões ou entre religiões diferentes, neste caso se manifestando como intolerância. Há em nossos dias, um interesse muito grande pela espiritualidade, pelas manifestações religiosas em suas várias denominações. Percebo um sentimento de orfandade de Deus e uma busca espiritual muito grande. Mas as pessoas parece não encontrar o que procuram ou não se satisfazem com o que encontram.
No que se refere ao catolicismo, percebe-se uma crise sem precedentes dentro da própria cúria romana, cardeais desafiando o papa e não se submetendo as decisões do colegiado.
De um lado um papa que pretende restaurar o cristianismo fazendo com que ele retorne a seu eixo principal praticado e pregado pelo Jovem galileu, do outro lado bispos tradicionalistas agarrados aos conceitos pouco familiares a tradição dos apóstolos, mas sacramentados no concilio de Trento.


Na verdade, percebe-se que houve uma grande deturpação ao longo dos séculos da mensagem do mestre. Isso começa quando o movimento “o caminho”, transforma-se na religião oficial do império. De perseguidos passam a perseguidores. São introduzidas inúmeras mudanças e adaptação para que a nova religião oficial e obrigatória do império não fosse tão estranha ao povo acostumado a práticas ditas pagãs. Começa então um processo de paganização. As antigas comunidades começam a ter que se organizar. De comunidades auto-céfalas que se reunião em concílios para dirimir dúvidas, as “igrejas” passam ater uma sede e a se submeter à autoridade da Sé Romana. 


Há uma crescente exigência por doutrinas e liturgias, o que vai acabar por exigir a presença de coordenadores, “sacerdotes” para oficiar e controlar que as doutrinas seja, respeitadas. Numa mistura de judaísmo e paganismo romano, faz-se então uma gradativa mudança. O pão que anteriormente era partido nas casas, como se lê no livro de Atos dos Apóstolos, passa a precisar de um sacerdote que oficie e faça a transubstanciação. O povo reunido, antes tido como corpo e presença real do Cristo, dá lugar ao pão e vinho transubstanciados em corpo e sangue. A presença mística transforma-se em presença real e o povo passa então a ser presença mística. Os batizados, antes tidos como sacerdotes passam a ser “leigos”, agora perdem lugar para os ordenados, e só eles podem fazer o milagre da transubstanciação, criando assim um grupo de elite.

 
Mudam-se as práticas e as orações, estabelecem-se regras. O Ágape fraterno e a ação de graças (Eucaristia) transforma-se em sacrifício do cordeiro imolado, a despeito de Jesus ter afirmado que já bastava de sacrifícios.
A construção do Reino, “o Caminho” dá lugar a uma religião e a uma instituição, que gradativamente passa a ser mais importante até do que seu fundamento: O Cristo Jesus.
Aquilo que Jesus veio trazer, a introdução de um novo paradigma, que fizesse frente à violência, à sede de poder, e ao desamor de Judeus e Romanos, aos poucos vai se deteriorando. É curioso como uma nova maneira de se relacionar com o criador, com o Abah, com aquele que Jesus nos ensinou a ver como um pai, que não habita em tendas nem em templos feitos por mãos vai assumindo e se tornando uma regra. Jesus não precisava e não precisa de templos, sacerdotes, de doutrinas, de doutores da Lei e muito menos de imperadores, mas aos poucos é essa a nova realidade de um cristianismo que aos poucos vais se distanciando de suas origens. Uma hierarquia é criada com padres, bispos, arcebispos, papa, templos, catedrais...
 Mas o que é mais triste, “o caminho”, aquilo que Jesus veio nos trazer e comunicar da parte do Pai, ensinando que os últimos serão os primeiros, que não deveria faltar a uns o que sobra a outros, que a regra máxima e única é o amor, se desfez, dando lugar a outras “crenças”.
 Se o filho do Homem não tinha nem onde recostar a sua cabeça, com que justificativas foram construídos templos e as catedrais, para manter Jesus trancafiado em um cofre de ouro? Como se justifica tanta adoração e tanta pompa para alguém que disse com todas as letra que não veio para ser servido e sim para servir?


Aquele grupo de homens e mulheres que pretendia a transformação do mundo através do amor, do perdão e do serviço, acabou se transformando em um império, com corte, palácio e até um imperador. Olhar para isso hoje, ver as pressões que o atual papa está tendo que enfrentar, por defender um retorno às origens do cristianismo verdadeiro é desanimador.
Tenho a impressão de que a humanidade foi enganada por muitos séculos. As estratégias de dominação engendradas por aqueles que adulteraram a mensagem do Mestre vem sobrevivendo durante esses quase dois milênios, . Não seria demais afirmar que me sinto profundamente enganado e ludibriado, revoltado por ceder às estratégias que implantaram na vida de tantos o medo e a culpa.
 Olhar para isso em perspectiva faz com que a instituição que se fez maior e mais forte  que seu fundamento desaba no meu conceito e me traz uma estranha sensação de orfandade. Talvez seja este o maior dos pecados cometidos contra o Espírito Santo.
Práticas religiosas, dogmas, conceitos de pecado, mal, inúmeros deveres e um incentivo à baixa autoestima parece estar mais presentes no discurso e na pratica da instituição, do que as importantes mensagens de despego e libertação que o Mestre não cansava de ensinar. Uma instituição que diz se basear na escritura e na tradição. Mas cuja escritura parece sofrer uma censura e, enquanto alguns trechos são super valorizados outros são simplesmente como que omitidos. Como entender que algumas abominações do Levitico sequer sejam levadas em consideração, como “raspar a barba”, “usar roupas com mais de um tipo de tecido’, “comer frutos do mar”, enquanto outras são super valorizadas, como a condenação das relações homoafetivas. Qual foi o critério para estabelecer as relevâncias? Como respeitar e defender tanta incoerência como palavra inspirada?
 E a tradição? Qual tradição? Aquela das primeiras comunidades apostólicas, ou a tradição inventada que adulterou as práticas dos primeiros cristãos? Onde encontrar semelhança da igreja de hoje com a descrita nos Atos dos apóstolos?
 É como se o antigo paradigma, anterior a Jesus, tivesse ganho a batalha e novamente assumido o controle.  Os acontecimentos recentes nos permitem ver a prática da “Lei de Talião” em franca utilização. É o velho paradigma se fazendo presente. Por outro lado pode-se  perceber claramente como que um país poderoso age como a velha Roma, querendo dominar todo mundo.
A igreja católica ao longo dos séculos supervalorizou o sacrifício, o sofrimento, o medo, a culpa, a desvalorização do homem, muitas vezes sugerindo sua pequenez, quando está dito que ele foi feito à imagem e semelhança de Deus.  Onde foi parar a afirmativa de Jesus de que não veio para os sãos e sim para os que estavam necessitando de salvação. De onde vem a ideia de que para receber Jesus é preciso estar em estado de graça?
 Será que a mulher adultera estava em estado de graça quando Jesus se deu em comunhão e a livrou do apedrejamento? E a Samaritana e seus cinco maridos? Será que Ele não se deu a ela em comunhão, tanto como a qualquer um de nós quando o recebemos na hóstia consagrada? E o efebo do centurião Romano que ele curou em uma só palavra? Será que um efebo para os atuais “doutores da lei” estaria em “estado de graça” para receber a cura?
 Porque manter e supervalorizar a pratica da confissão auricular? Não me conste que Jesus pedisse a alguém que confessasse seus pecados antes de curar. O movimento de arrepender-se é interno e não algo que alguém de fora possa comandar. Ainda mais que esta prática controladora foi implantada 600 anos após a ressurreição. É desesperador pensar que um papa é visto como ameaçador por defender aquilo que Jesus viveu em seus dias na terra. É perfeita a informação de Francisco de que a igreja não pode ser a “alfandega de Deus”. Quantos perderam a fé, quantos abandonaram o caminho, depois de serem condenados peo nesta “alfandega”.
O mundo hoje vive uma ausência de Deus, a saudade de um Deus que se fez presença e anunciava a misericórdia e o amor.
Nossa nação Brasileira, prometida como “Coração do mundo” e “Pátria do evangelho”, parece que foi sequestrada de sua sublime missão. É uma verdadeira abominação que governantes que se dizem cristãos, ajam na contramão daquele que em sua passagem pela Terra optou por libertar os pobres e excluídos das garras dos poderosos que os oprimiam e os mantinham presos à penúria e à miséria, que agem na contramão de um Jesus que se colocava contra os poderosos do império de Roma, os doutores da Lei e a hierarquia Judaica. Um Jesus que escolheu viver entre os excluídos, os pobres, prostituas e os banidos pela sociedade. Tem-se a impressão de que esses senhores seguem um outro Jesus completamente diferente daquele descrito nos evangelhos.
Acho que até consigo entender porque a instituição mantém Jesus trancafiado em um cofre, acho que tem medo que ele saia e volte a fazer o que fazia há dois mil anos atrás.
Tenho a impressão de que quando se faz o silêncio necessário, quando nos colocamos meditativamente na escuta, podemos ouví-Lo criticar os sepulcros caiados, as víboras e os fariseus hipócritas... porque eles continuam em sua ânsia louca de dominar e controlar tudo.
Quem tiver a percepção aguçada há de perceber os lamentos de um mundo em dores de parto. Há um nascimento cujo parto parece bastante difícil. Os novos paradigmas precisam vir à luz e mudar o rumo da história, mas até que se consiga vencer a dualidade, a fantasia da separatividade e o medo da fusão com a consciência cística, ainda estaremos sofrendo com as contradições.
Que consigamos seguir como a mãe parturiente que embora sofrendo, se alegra com  a perspectiva da chegada do “novo”. Que aqueles que já entenderam a importância de orar, no sopro e na atenção, consigam manter a sintonia com o sublime criador e se tornem canais da grande mudança e não cansem de repetir o mantra: “ Maranatah” (vem senhor Jesus!)  
Certamente que Ele virá. Não como anunciam os usurpadores da fé. Ele sabe que se vier como na primeira vez, será outra vez preso e assassinado. A nova vinda será certamente será da forma que Ele ensinou à Samaritana a orar e adorar: em espírito e em verdade, em pneuma e alethéia, no sopro e na atenção. Ele vira e fortificará a sua presença nos nossos corações. 



Não esperem uma vinda espalhafatosa, com efeitos especiais nos céus. Não ! Isso não é do feitio dEle, mas do feitio dos usurpadores da fé. Ele vira preservando aquilo que pregoum a humildade, a simplicidade. Ele não vira como o mundo acha que seria a vinda de um rei, de um Deus. Ele sempre se fez pequeno para caber em nossoscoraçoes e porque se reconhece um com o Pai. A sua vinda será o despertar das qualidades adormecidas que ele nos ensinou há dois mil anos. No silêncio, reservadamente, como Ele ensinou que deveríamos orar ao Pai.
Aqueles que ao longo de suas existências o tem procurado imitar, aqueles que tem se esforçado e silenciado para ouvir o que Ele tem a nos falar, a estes está reservada a dádiva d e sua segunda vinda. Ele virá e então compreenderemos o que é ser UM com o Pai.
Enquanto isso, no silencio, na atenção na sintonia do sopro:

 Maranatah !

5 de janeiro de 2017

Entrevista com Jean Yves Leloup

http://www.oracaodejesus.com/textos-entrevista-com-jean-yves-leloup.html




Padre ortodoxo e pessoa de intensa vida espiritual, Jean-Yves Leloup diz em entrevista exclusiva que o ser humano pode ser um pacificador num mundo em guerra, mas precisa, primeiro, investir na busca da paz interior e na entrega e confiança em Deus.

Todas as vezes que vem a Brasília, o padre ortodoxo francês Jean-Yves Leloup hospeda-se na casa de seu velho amigo, o psicólogo e reitor da Universidade da Paz (Unipaz), Pierre Weil. Anualmente, Leloup vem à capital para proferir seminários organizados pela Unipaz.
Trajando vestes claras, este homem de 57 anos de idade e 35 anos de sacerdócio, com formação em Psicologia Transpessoal, Filosofia e Teologia, tem, como sua referência de vida, o Ser, que encontra-se presente no interior de cada homem que busca a paz e o sentido da vida. Ora, o Ser é, nada mais nada menos, que uma das várias alcunhas pelas quais ele denomina Deus. Leloup refere-se à Suprema Divindade de diversas formas, com reverência surpreendente: Clara Luz, Pura Consciência, Consciência Absoluta, Ser Essencial, Absoluto.
Autor de 43 livros, entre eles Terapeutas do Deserto, A Arte de Cuidar e a autobiografia O Absurdo e a Graça, Leloup também traduziu e comentou os evangelhos de Felipe, de Tomé e de Maria Madalena, considerados apócrifos na tradição cristã. Sua fé em Jesus Cristo não o impede de ter um profundo respeito por outras crenças, numa postura claramente ecumênica. Ele é pertencente a uma corrente espiritual da ortodoxia cristã, chamada hesicasmo, que, em grego, significa: calma, paz, tranqüilidade e ausência de preocupação. O sacerdote hesicasta procura devotar sua vida ao recolhimento interior e à oração.
Nesta entrevista ao Comunidade VIP, Jean-Yves Leloup revela como descobriu a espiritualidade em sua vida e mostra que a busca pelo aperfeiçoamento interior é a chave para pacificar as “guerras” que cada um trava em seu cotidiano.
Como descobriu a espiritualidade?
Nasci numa família de ateus. Tive formação muito racionalista. Saí da casa de meus pais para conhecer o mundo. Com apenas 19 anos, fiquei muito doente em Istambul (Turquia), em decorrência de uma comida estragada. E ali, naquela cidade, vivi uma experiência impressionante. Fui declarado clinicamente morto e até quiseram me enterrar. Quando voltei ao meu corpo, comecei a me interrogar: “O que não morre, quando todo o resto morre?”. Há o momento em que o pássaro sai da gaiola, e também há o momento em que o vôo sai do pássaro. Nesse momento em que o vôo sai do pássaro, tem um instante de luz e de presença que permanece. Em Istambul, encontrei o patriarca Atenágoras, da Igreja Ortodoxa, que me levou até um ícone do Cristo. Ao lado desse ícone estava uma inscrição em grego, que dizia “Eu Sou”. Naquele momento, o “Eu Sou” não eram meras palavras, mas o que eu tinha acabado de viver, durante a morte clínica. E foi a partir desse momento que me interessei pelo Cristianismo.
Nas chamadas “experiências de quase morte”, há relatos de pessoas que vêem um túnel de luz ou imagens referentes a sua crença. O que o senhor viu, naquela hora?
Vi apenas a vastidão, pois meu inconsciente não guardava nenhuma imagem religiosa. Foi até normal não ter visto nada. Senti apenas o espaço que contém todas as coisas. É como se estivesse vendo o dia, ao invés das coisas que aparecem no dia. E o dia permanece. Em latim, a palavra “dia” quer dizer dies, que, por sua vez, significa Deus. Essas palavras têm a mesma raiz, no latim. Então, ver o dia é ver Deus.
Após o encontro com Atenágoras, o que ocorreu?
Fui para o Monte Athos, na Grécia. Lá, encontrei a tradição cristã-ortodoxa, as raízes do Cristianismo. Para mim, ele é a síntese entre o interior e o exterior, entre os lados material e espiritual. São duas coisas que não podem ser separadas. É a síntese da encarnação. O visível e o invisível devem ser mantidos unidos; a eternidade e o tempo; o finito e o infinito. Precisamos sair da dualidade.
Como surgiu a vocação para ser padre?
Quando descobri Cristo, ao invés de ser apenas um professor de Psicologia e Filosofia preferi ser também padre, onde pude transmitir também essa dimensão espiritual. Não apenas de ensinamentos intelectuais, mas também através da prática, de forma a levar a transformação interior ao ser humano.
Como descobriu a Unipaz e conheceu Pierre Weil?
Na França eu era diretor de um centro internacional chamado Sainte Baume. Convidei Pierre a visitar o local e a participar de colóquios sobre Psicologia Transpessoal. Foi em Sainte Baume que concretizamos a visão da Universidade Holística Internacional, cujo princípio é o de uma educação que leve em conta todos os componentes do ser humano: físico, afetivo, emocional, religioso e intelectual.
O que recomenda para desenvolvermos a paz interior e sermos também pacificadores?
A primeira coisa é descobrir a paz interior. É importante, nesse aspecto, cultivar práticas que acalmem a nossa mente, pois é aí que residem todas as espécies de medos e resistências. Na prática hesicasta do cristianismo ortodoxo damos muita atenção à respiração, pois, quando ela está calma, a mente encontra-se calma também. Nessas condições, podemos encontrar esse lugar de paz dentro de nós mesmos. Mas tudo isso ainda são práticas externas. Talvez o mais importante seja o abandono, não tentar controlar nada. Devemos confiar no Ser Essencial que nos ajuda. E é nessa confiança, nessa fé, que descobrimos um centro que nos ajuda a atravessar as dificuldades da existência. Uma vida que não tem sentido é uma vida sem centro. Podemos fazer as mesmas coisas estando centrados ou não. E aí a gente consegue observar as diferenças.
A prática hesicasta é semelhante à meditação oriental?
Sim. É o mesmo princípio, porque o ser humano é igual, não importa onde esteja. A respiração não pertence a nenhuma religião em particular. E a luz também. A abertura do coração também pertence a todos. O ser humano está em busca da verdade, não importa se ele está no Oriente ou Ocidente. Ele está orientado em direção a esta mesma realidade. No evangelho de São João está escrito que o Verbo, o Logos, é aquele que esclarece e ilumina todo homem que vem a esse mundo, não apenas os cristãos.
Ultimamente, surgiu uma onda de livros em defesa do ateísmo, vindos de autores como o biólogo inglês Richard Dawkins e o jornalista inglês Christopher Hitchens. O que acha desse movimento?
Depende de qual imagem de Deus estamos rejeitando. Em nível psicológico, muitos ateus estão rejeitando aquilo que eles viveram no passado. Mas o Deus que eles estão rejeitando muitas vezes não tem nada a ver com o Deus verdadeiro. É, simplesmente, uma certa imagem ou representação divina que eles estão rejeitando. A questão é o que fazer com a religião, Deus e a razão. Com a mesma flor a abelha pode fazer o seu mel e a vespa pode fazer o seu veneno. E a culpa não é da flor.
O livro O Segredo, de Rhonda Byrne é um sucesso de vendas, ao relatar como funciona a chamada Lei da Atração. Como o senhor conceitua esse fenômeno?
O poder mental é algo conhecido há muito tempo e depende basicamente do que pensamos. Um antigo provérbio diz que, quando Deus quer punir alguém, Ele cumpre todos os seus desejos. Na realidade, não sabemos o que é verdadeiramente bom para a nossa vida. No filme O Segredo, um menino consegue a bicicleta vermelha que ele tanto desejava. Mas depois não é dito que ele pode ter tido um acidente com aquela mesma bicicleta. Da mesma forma, alguém que obtém uma casa imensa, enorme, pode ser, à primeira vista, maravilhoso. Mas depois, o que ocorre naquela casa pode ser algo muito destrutivo. Essa prática é muito superficial, porque, na verdade, a questão é saber o que é realmente bom para o ser humano.
Então, como devemos pedir o que queremos?
Temos nossos próprios pensamentos e desejos, mas devemos colocá-los nas mãos de uma Vontade maior. O Pai-Nosso diz: “Que seja feita a Vossa Vontade”. Eu quero isso, mas será que realmente será bom para mim? Que seja feita a vontade da Vida. Que seja feita a vontade do Amor. Que muitas vezes nossos desejos são egoístas e esta é uma maneira de colocarmos nosso ser dentro de um Ser Maior. Eu tenho o poder do pensamento, mas devemos também confiar numa força maior, mais elevada.
Ou seja, é uma entrega a Deus?
É um abandono, uma entrega, uma confiança em Deus.
Os anjos são referências constantes nos textos bíblicos, inclusive no episódio da vinda de Jesus. Qual o papel desses seres na nossa vida?
Da mesma forma que entre o ser humano e a matéria existem mundos intermediários, o vegetal e o animal, entre o ser humano e a Clara Luz, a Pura Consciência, também existem níveis de consciência intermediários. Os anjos são esses planos de consciência, esses níveis de ser que podem fazer esse elo entre a consciência ordinária e a Consciência Absoluta. Muitas vezes somos mais inteligentes do que a inteligência que temos, como se nossa consciência entrasse em contato com uma de âmbito mais elevado. E é isso que chamamos de anjos. Num nível mais humano, o anjo também pode ser um mestre interior, uma voz que nos guia. Ou seja, é nossa inteligência que está aberta a uma dimensão mais ampla.
Existem anjos da guarda, na sua concepção?
Cada ser humano tem uma maneira particular de entrar em relação com o Absoluto. E é essa maneira particular que chamamos de nosso anjo. Isso tem relação com o Absoluto, o Infinito Real. Quando a gente está nessa abertura, inteligência e fé, certas manifestações nos mostram que estamos acompanhados, guiados. A gente pode chamar a isso de anjo da guarda. Em outras tradições, recebem outros nomes. O importante não é o nome que damos, mas a realidade que está por trás das experiências que vivemos. A tradição cristã diz para não idolatrarmos esses mundos intermediários. E hoje em dia muitas pessoas tomam experiências do tipo psicológicas por experiências espirituais, e experiências do mundo intermediário como experiências do mundo absoluto. A gente deve colocar cada coisa em seu lugar.
É difícil diferenciar uma coisa da outra – o intermediário e o absoluto?
Não, não é difícil. Aquilo que faz parte do mundo intermediário faz parte do mundo terreno. São coisas que passam. São coisas emotivas, intelectuais, mas fazem parte do mundo mortal. O mundo do Absoluto está além do tempo. É aquilo que não conseguimos agarrar ou compreender, que a gente não consegue reduzir a nossas pequenas experiências.
As religiões cristãs em geral são caracterizadas como dogmáticas. Como funciona essa questão para você?
Na origem, o dogma era um paradoxo. Era algo feito para despertar a consciência para além do funcionamento binário do cérebro. Por exemplo, o dogma que diz que Cristo é verdadeiramente homem e verdadeiramente Deus tem o sentido de ultrapassar, ir além da consciência ordinária. O dogma então é um pouco como o Koan, do japonês. Ou seja, um paradoxo que nos ajuda a ir além da razão, mas sem perder a razão. Mas hoje em dia o dogma é confundido com dogmatismo, que significa obrigar alguém a acreditar em algo. Isso é destrutivo. O dogma, na realidade, foi criado para que saíssemos do dogmatismo. É um convite para que verifiquemos se isto é verdade.
Poderia deixar uma mensagem de Natal?
Pouco importa se Cristo nasceu há 2 mil anos, se Ele não nascer hoje, no interior de mim mesmo. O Natal é o momento onde podemos aceitar o nascimento do Ser no interior de nós mesmos, para o nosso bem-estar e o bem-estar de todos.
Devemos lembrar que somos poeira e ao pó retornaremos. A meditação diária sobre essas realidades tem sido sustentada pelos Padres do Deserto como essencial para a vida espiritual e como um meio de evitar o pecado; mas sobretudo como forma de atender às palavras de nosso Senhor, que nos adverte que não conhecemos nem o dia nem a hora. Aqui está a reflexão de um homem bem formado na sabedoria e tradição dos Santos Padres:

"Nunca devemos nos privar da contemplação da morte ou destas meditações... Todas estas contemplações criam vigilância na alma e purificam a mente... Essa contemplação é uma barreira para os maus pensamentos... Quando essa contemplação espiritual está dentro de nós, fechamos as portas aos maus pensamentos... Não deveriamos nunca parar de nos Lembrar da Morte. Os Santos Padres disseram que eles não foram dominados pela negligência em suas celas, porque traziam a Lembrança da Morte diante de Si, noite e dia. Os Padres continuamente pensavam: "Se hoje ou amanhã for o meu último dia, o que devo fazer?". Desta forma, essa Lembrança mantinha a mente no temor de Deus, e o temor de Deus iluminava sua consciência. O que virá com mais certeza do que a morte? É a coisa mais certa que cada pessoa encontrará... Devemos manter a Lembrança da Morte viva dentro de nós constantemente, para que, por meio desta lembrança salvífica, possamos evitar a morte da alma... Comprometa-se violentamente, diz o Senhor no evangelho, pois você não sabe quando o Noivo da vossa alma vos visitará, e ai daquele que Ele achar indolente e negligente da sua salvação: A verdade de Deus soa como uma trombeta de poder e diz: "Vaidade das vaidades, tudo é vaidade!" Pois, que aproveita o homem se ganha o mundo inteiro e perde a sua própria alma, ou o que dará o homem em troca da sua alma? Lembre-se do seu fim e não pecará pelos séculos. "As riquezas não permanecem, a glória não acompanha ninguém ao outro mundo, porque quando a morte vem, todas estas coisas são obliteradas." Eis a verdade, que esmaga a mentira... Quando visitarmos nossa morada final, nossa sepultura, veremos com nossos próprios olhos toda a vaidade do homem, como fez Abba Sisoes quando viu o túmulo de Alexandre, o Grande, e clamou: "Ai, ai, ó morte! O mundo inteiro não era grande o suficiente para ti, Alexandre." Como então te encaixaste em dois metros de terra agora? "Minha criança, tenha cuidado com este mundo que é como um teatro. Pessoas ignóbeis no palco do teatro usam roupas de reis, magnatas, etc. e parecem ser diferentes do que realmente são e enganam o público. Mas quando o show acaba e eles tiram suas máscaras, então suas verdadeiras faces são reveladas".  (Élder Efraim - Conselhos da Montanha Sagrada)

31 de dezembro de 2016

Ano Novo , Tudo novo


Daqui há algumas horas o ponteiro do relógio vai dar a ultima volta de 2016 e logo será um novo ano.
Quero então enquanto ainda restam algumas horas agradecer:
Deus pai e mãe, espírito, pneuma, Ruah, fonte de toda a vida neste universo, sou grato a Ti hoje e sempre por absolutamente tudo o que proporcionastes aos meus ancestrais que tornaram possível esta minha vida e a tudo que a mim proporcionas e também aos meus descendentes que certamente receberão como eu as suas bênçãos.
Quero agradecer pelas flores, pelo ar e pelo sol e pela chuva. Pela alegria e pela dor. Agradecer pela família maravilhosa, minha mulher, filhos, minha netinha e os demais que chegaram depois. Agradecer pelo que foi possível e pelo que teve que ficar para mais tarde, pelos amigos, virtuais e os do olho no olho. Agradecer pela ajuda que recebi e pela que pude dar. Agradecer pelas realizações pela palavra ouvida que fez crescer e pela que foi dita e encontrou solo fértil para florescer.
2016 não foi um ano fácil para o mundo, mas não posso me queixar e sim agradecer por ter sido preservado assim como os mais próximos a mim das catástrofes, das guerras, dos absurdos que vimos nas manchetes dos jornais. Agradecer por ter sido abençoado com uma vida nova, uma neta linda e muito amada por todos nós.
Quero ainda pedir ao criador que seja compassivo para com meus erros, meus defeitos que ainda falta muito para serem vencidos. Pedir que perdoe toda palavra mal dita, toda ofensa que eu ou algum de meus antepassados proferimos contra Ele, o sublime criador .
Aproveito para agradecer às minhas memórias e a oportunidade que estou tendo de poder libertá-las e me libertar através do perdão e da compaixão.
Quero por fim dizer que sou grato e sempre serei pela oportunidade de ter esta experiência neste planeta lindo.
Assim é , porque Tu queres que seja assim
Que assim seja, então,

Amém!

24 de dezembro de 2016

Parabéns amigo !



Olá meu amigo.
Hoje vim só te dar um abraço pelo seu aniversário.
Você deve estar feliz, afinal o seu,  é o aniversário mais comemorado no mundo.
As ruas estão cheias, as lojas abarrotadas, as cozinhas em rebuliço, tudo e todos em função da festa do seu aniversário.

Meu querido José,
eu fico vendo toda essa agitação e me perguntando: o que foi que as pessoas não entenderam?
Como posso me alegrar se na maioria das casas não há o que comer. e muito menso o que comemorar. Falta o básico, falta tudo...
Como eu posso pensar em festa se eu continuo nu, com fome, com sede, desempregado, preso, doente, jogado na rua...

Eu vou aceitar o seu abraço, e agradecer a sua visita, mas não vou mentir para você meu amigo,
A profecia ainda está por se realizar. Ainda precisamos esperar para ver  a profecia de Isaias se cumprir, Ver o lobo e o cordeiro pastando lado a lado. Ver irmãos cuidando uns dos outros sem escraviza-los, sem que um se sinta mais e maior que o outro.
A profecia só estará cumprida quando a justiça se realizar e então alcançarmos a PAZ.
Por  enquanto vivemos um longo advento, a longa espera de que o Reino de meu Pai comece a ser construído.
Siga com animo meu amigo, siga vigiando e esperando a hora e buscando os meus sinais.
Vá em Paz , e logo mais, quando a agitação for maior apenas agradeça, agradeça por está caminhando e esperando e pelas graças que recebeu ao longo de sua vida, sua família  sua vida.
Não esqueça de pedir Paz, desejar a Paz e principalmente distribuir PAZ .



22 de dezembro de 2016

Quando a luz maior vem iluminar os mais humildes e necssitados


“ O povo que andava em trevas viu uma grande luz, e aos que habitavam na região da sombra da morte, resplandeceu-lhes a luz.” Is 9.2



"Jesus não só não vem de Roma, capital do império, nem de Jerusalém, capital dos judeus, mas vem de Belém, uma aldeia periférica na Judeia. E mais. Se Belém já é uma aldeia periférica, Jesus nasce ainda mais na periferia, nasce numa estrebaria, num estábulo nos arredores de Belém. Ali, seu primeiro berço foi uma manjedoura, um cocho onde os animais comem seu alimento. Também não é por acaso que o primeiro berço de Jesus é uma vasilha em que se coloca a comida, o pão cotidiano dos animais. Segundo o relato, os pais de Jesus eram forasteiros no lugar e não tinham onde pernoitar. É a partir dessa realidade extrema de marginalidade e de fragilidade, de abandono e de solidão de uma mãe dando à luz a sua criança, que vem a força do Deus libertador que quer incluir todas as pessoas de boa vontade em seu Reinado de justiça e de paz."
(Ildo BohnGass).



Só não entendo, como uma realidade tão simples e clara foi dar lugar a algo tão díspar: um império, luxo, pompa,  realeza, autoritarismo, tão distantes daquilo que Deus se dispôs a realizar. 

( J.Ricardo )

Uma Reflexão de Natal - os meus Natais.



Em meio a tantas mensagens de Natal, li algumas nas redes sociais e uma delas conseguiu me espantar. A pessoa dizia na mensagem que não desejaria Feliz Natal porque Jesus não nasceu em 25 de Dezembro e que isso era uma invenção etc, etc, etc. Dizia inclusive que a importância de Jesus era relativa se comparada a outras figuras miticas no mundo. Sugeria que esse tipo de manipulação só servia ao comercio e uma série de outras coisas que na verdade caberiam bem em alguém que pretendesse fazer um discurso ateu e revolucionário. Mas não, o depoimento era de alguém que se diz espiritualista, mística, holística e sei lá mais quantos "istica".

Na verdade eu nem discordo de alguns dos argumentos que foram distorcidos ao longo dos séculos, muito menos que o sistema venha investindo pesado no Natal do Papai Noel e dispensando o aniversariante como uma incomoda figura de segunda importância, um figurante que só traz problemas com suas ideias de amor, fraternidade e coisas no gênero.
 Por outro lado, vi também gente questionando o fato de se dizer que Jesus é o aniversariante, porque Ele  na verdade é maior, é da ordem dos mistérios e reduzí-lo a aniversariante é diminuir sua importância.

Não comentei, até porque  tenho procurado polemizar ao mínimo nas redes sociais depois que percebi que essas situações acabam sempre em barracos,e em alguns casos até em processos judiciais e na verdade nada mudam. Mas confesso que fiquei pensando nos meus sessenta e dois natais, dos quais apenas os primeiros não estão bem vivos gravados na minha memória.

Que importa se Jesus nasceu em 25 de dezembro ou em maio ou talvez abril ou setembro? Porque me exasperar se a sociedade capitalista transformou o papai Noel na figura central do Natal, ou se as pessoas fazem do Natal uma ocasião de excessos ?

Há muito tempo que descobri que toda e qualquer mudança precisa começar primeiro em mim para que depois possa pretender que ela atinja as demais pessoas da sociedade. E entre a minha mudança e a mudança da sociedade vai um longo e demorado caminho a percorrer. Certamente não é pelo discurso, pela crítica direta e desprovida de caridade e pelo revolta à questões mal resolvidas em meu íntimo  que as pessoas vão mudar. É principalmente pelo exemplo, pelo testemunho de vida que eu posso fazer a diferença e posso me alegrar com os pequenos gestos de mudança das pessoas.
Se há mais de mil anos se repete em uma mesma data um festejo que coloca a fraternidade, o amor e a caridade em evidencia, porque não me alegrar e incentivar isto? Porque não aproveitar esse incentivo para exercitar estas virtudes?

O Natal para mim sempre foi ocasião de muita alegria, sempre foi lembrança de dias felizes na convivência dos primos, e tios, da família em uma mesa rodeada de sorrisos e afetos e abundancia de afeto e alegria e oportunidade  de celebrar a união com quem se ama.
É uma época de caridade farta, até mesmo por pessoas pouco dadas a essa prática. É também uma época em que as pessoas se esforçam para pelo menos parecerem melhores. 
Não acho que seja o dia da hipocrisia, como alguns insistem em ressaltar. Até mesmo porque se for por alguns instantes, qualquer gesto de amor e fraternidade é louvável. Não sou palmatória do mundo, prefiro errar por acreditar nas pessoas do que acertar sempre não confiando nelas.

Os meus natais , na maiorias deles sempre foram momentos de muita Alegria, Paz, entusiasmo e Contentamento.
 Eu tive a graça de ter convivido com meus avós, tanto paternos como maternos.  E natal  sempre vai me remeter à casa dos avós. Na casa dos meus avós maternos a lembrança mais forte desta época é a do presépio, majestoso na sala de visitas, das orações em volta do presépio na noite de Natal.  Era lá que passávamos a véspera de Natal. A ceia  não era como hoje, com comilanças exageradas. Tínhamos as rabanadas  as frutas secas e alguns doces da tradição portuguesa:o Formigos ou Mexido.  Era na verdade uma espécie de creme  onde de tudo um pouco entrava  na sua confecção: pão esfarelado lentamente até quase virar farinha, água, ovos , mel, vinho, amêndoas e uma quantidade enorme de paciência para mexer a grande panela de barro em fogo brando por horas e horas a fio. Uma tradição que minha avó manteve até seus oitenta e nove anos quando partiu e o mexido  passou a só existir junto com ela, em nossas lembranças.
No dia de natal, o almoço era na casa dos avós paternos e ali, a família por ser maior, a atividade é imensa.  Acho que nenhum de nós os netos conseguirá esquecer, por mais que o tempo passe aquelas festas, aquela algazarra de crianças por todo lado, e adultos atarefados. No quintal a mesa de pingue-pongue armada com uma toalha e a sua volta bancos, cadeiras e o que mais servisse para que TODOS pudessem sentar-se à volta da mesa e saborear o almoço de natal. O Almoço durava horas...
Terminado o almoço começava uma arenga, quase briga, era a disputa para quem ia lavar a louça... Por incrível que pareça todas, filhas e noras, disputavam a honra de pilotar a pia.

Mas, a coisa mais sagrada, depois do almoço era quando vovó fazia questão de buscar o saco das pedras e os cartões do jogo de víspora e a tarde voava entre o canto de um número e outro e a tensão de não perder nenhuma marcação com os caroços de feijão e os gritos: "duque", "terno!”...
De repente alguém dizia: Ah! Peraí ! Eu tinha marcado esses...  e o vovô dizia : comeu barriga ! Perdeu...  Muitos risos e muita alegria e já alguém gritava:  “ duque de ponta”,  ou terminava aquela série com um sonoro: V I S P O R A !!!!!

Desta época de natal minha memória acusa a lembrança de uma iguaria que só era feita nesta época do ano: os Mantecais. Durante a semana que antecedia o Natal uma bacia era posta na sala de jantar sobre a mesa e nela alguns quilos de banha de porco que minha avó batia com uma colher de pau até que virasse um creme quase líquido em que eram acrescentados outros ingredientes até virar uma massa clara como massa de empada. Depois vinha o momento de enformar os “mantecais”, e eu sempre dava um jeitinho de roubar um pouco daquela massa doce e gostosa. As formas eram como que barquinhos e aos montes eram colocadas para assar e o cheiro ia longe. Assados os mantecais (que na verdade eram uma espécie de biscoitos amanteigados ) eram passados no açúcar e canela e guardados em grandes latas para serem saboreados nas festas de fim de ano. Nunca consegui recuperar a receita para comer e reavivar aquele gosto de infância feliz.
A lembrança da vovó está muito associada àquelas festas na vila da rua Dona Maria e a alegria de tempos que embora difíceis, não foram capazes de escurecer a lembrança viva da alegria da família reunida no Natal.
Mais tarde o tempo se encarregou das transformações, algumas bem dolorosas e significativas.
Por ironia a vovó Bebel, essa avó paterna, nos deixou em um dia de Natal bem cedo. Lembro bem e eu devia ter meus 19 anos, a notícia chegando no dia 25 de dezembro  com o raiar do dia.

Depois que eu casei e os filhos chegaram eu tomei como tradição fazer o Natal, reunir a família e comemorar esta data, que até hoje é para mim muito especial.
Trouxe para mim o mesmo presépio que meu avô comprou lá pelos anos 30 e o gosto de reunir a família e celebrar. Celebrar algo que só quem não quer ver não percebe. São os judeus e a festa da luz , ou pode ser  a comemoração do  Deus pagão como Mitra, ou para nós cristãos  o nascimento da Luz. “O povo que andava nas trevas viu uma grande luz naquela noite”. É assim que a bíblia se refere à chegada de Jesus. E o natal é exatamente isso, "Luz".  O mistério da Luz que não se apaga nunca. 
Sejam as luzes artificiais das fachadas, ou a luz que cada um, se quiser e permitir, se acende em nossos corações, neste tempo de grandes transformações. E qual sarça ardente jamais se apaga.
Natal é oportunidade de renascimento, é tempo de nos lembrarmos de que existe algo luminoso em nós e que só depende de cada um de nós querer manter aceso, ou ocultar e alardear  que não há mais esperança para esse mundo.

 De minha parte, continuo acreditando em utopias e buscando manter acesa a chama da vida que a cada natal é avivada por uma onda de paz, e alegria.

É natal, pelo menos por hoje troque as reclamações por agradecimentos, Troque a cara feia por um sorriso. Nós podemos se quisermos transformar esse mundo em algo mais alegre, e digno de seres criados à semelhança de um Deus.

Feliz Natal ! A transformação é possível, vamos manter bem forte esta chama, nós podemos.


21 de dezembro de 2016

Natal é coisa de criança...


J Ricardo A de Oliveira




Sem dúvida, afinal a festa gira em torno de um menino que veio  ensinar que só há uma lei : Amar. 
Ninguém está  mais propenso a se entregar de cabeça no amor do que as crianças. Criança não tem preconceito, não discrimina, não pensa antes de falar, não tem censura para amar a quem quer que seja.
Já repararam como as crianças ficam agitadas e felizes com a proximidade  do Natal? Certamente elas guardam mais de perto a memória do convívio com o aniversariante. Tenho um amigo que  diz que é porque elas saíram recentemente da fábrica...
O natal traz em nós um gosto de infância, a espera do presente, a dúvida se o Noel vai atender ao pedido, se o comportamento durante o ano vai mesmo ser levado em consideração...
Quando se é criança e tivemos a graça de viver em uma família onde o amor é o sentimento mais presente e também o mais cultivado, o Natal é uma festa da realização deste ideal. Tive Natais muito felizes.  As lembranças que chegam à minha mente, vem com a casa cheia de primos, tios e uma grande algazarra de crianças. Mas vem também o cheiro da manteiga batida e rebatida que a vovó Bebel  usava para fazer seus "mantecais". Eram quilos e quilos para que ninguém ficasse sem os deliciosos biscoitões típicos de sua aldeia Malagueña na época do Natal. Eram feitos com muito carinho e a participação da Tia belinha e da Tia Nair, as quituteiras mais competentes da famila que a essa altura devem estar preparando a ceia de natal lá no céu.

Me salta na lembrança também, avó Corintha, a que me criou , essa de descendência  lusitana,  preparando o mexido ou formigos. Era um tal de esfarelar miolos de pães dormidos que eram molhados e  levados para a panela de barro ao fogo e por horas eram mexidos e remexidos enquanto eram acrescentados os ovos, as amêndoas, o mel, o vinho e sei lá eu mais quantas iguarias eram postas naquilo que virava uma espécie de um creme, delicioso, servido solenemente na ceia.
Quantas lembranças e quanta saudade! Quanto AMOR!  Mas Natal é fundamentalmente isso: Amor.
A minha criança interna se enche de ansiedade nesta época.  Sinto falta das grandes mesas cheias de coisas gostosas, das brincadeiras, do riso farto, a felicidade contagiando e unindo os nossos corações. Sinto falta da briga depois do almoço para decidir quem ia lavar a louça. Todas, minha mãe e tias queriam lavar e participar da arrumação. Quando o amor está presente , todo serviço é feito com alegria e prazer.
Eram muitos netos e depois do almoço, invariavelmente havia para alegria da vovó Bebel, o jogo de víspora. Ela sentava-se ao lado dos netos, cada qual com seus cartões e os  montinhos de grãos de feijão para marcar. Aos poucos o vovô Zezé, cantava os números: dois patinhos na lagoa ( 22), bico de pato (4), terminou o jogo (99) , vai começar a  brincadeira ( 1) . E, de repente alguém gritava: Duque de ponta! E parava tudo para o vovô conferir. E a tarde seguia animada e muito alegre. Acho curioso que as lembranças mais vivas não são dos presentes, mas da alegria do convívio daqueles a quem tanto amávamos.
Hoje essas lembranças me fazem rir sozinho como a criança daquele tempo que faço força para que  continue viva em mim, apesar dos muitos anos. Junto com o riso, as lágrimas também insistem em rolar pelo meu rosto, fruto da grande saudade que  também tempera a alma da criança que sente a  ausência de quase todas aquelas presenças, nas festas de final de ano. Consola-me saber que foram comemorar o Natal junto do aniversariante. Fora isso é muito bom além de relembrar sentir-se que se está criando memória junto aos mais novos que hoje são as atuais crianças do Natal.

Um feliz e abençoado Natal, que o “Menino Eterno” renasça sempre no nosso coração, e que o  Natal ,  nos lembre sempre  que é preciso ser criança para entrar no Reino de justiça, Paz e amor que o Pai os reservou.

19 de dezembro de 2016

Nasceu sem luxo, quase no lixo em meio aos animais...


"Estando eles ali, completaram-se os dias dela. E deu à luz seu filho primogênito, e, envolvendo-o em faixas, reclinou-o num presépio; porque não havia lugar para eles na hospedaria." Lc 2,6-7


E assim ele nasceu, sem teto, sem terra, sem luxo quase no lixo e a despeito disso os anjos cantavam e anunciavam:
Que aqueles que tem boa vontade, alcançarão a Paz ainda na Terra...

Ficou conhecido como um malfeitor que incomodava aos poderosos de seu tempo, 
que desafiava Reis e sacerdotes. 
Seu fim, deu-se prematuramente, mal saído da juventude, condenado a morte entre dois ladrões. 
Seu grande e único pecado foi desafiar a toda a humanidade a AMAR da mesma forma que Ele amava.

Seu nome? 
Yeshua, nascido em Belém, mais conhecido como Jesus de Nazaré, um jovem filho de carpinteiro que estranhamente tinha mais sabedoria que os doutores da Lei...
O reverenciam como Deus, embora ele mesmo nunca tenha se atribuído essa majestade, dizia apenas ser o filho de Deus, ou o filho do Homem, ou ainda que ele e o pai são UM e que também devemos ser UM com o Pai.
Pregava o Reino, o Reino do Pai, e disse que esse Reino está no meio de nós.
Sua presença, por incrível que possa parecer atravessa os séculos , embora alguns insistam em dizer que ele nunca existiu...

De certo só sei que ele vive em mim, e em tudo que irradia vida.







15 de dezembro de 2016

Reflexão de Natal

J Ricardo A. de Oliveira



Há alguns anos, quando eu ainda trabalhava numa multi nacional, eu ouvi uma conversa de elevador entre o gerente de marketing e um contato de uma grande agência de publicidade eo publicitário dizia: " Graças a Deus cada ano que passa o Natal é mais papai Noel e menos Jesus Cristo." Esse parece ser o novo "espírito" do Natal, uma grande oportunidade de vendas, de aumento do lucro, da tentativa de superar falta de atenção e cuidado com presentes materiais. Ninguém se lembra mais do aniversariante que fica esquecido. A grande Luz, quem diria, fica ofuscada pelas luzes dos neons, pelas lâmpadas das árvores de natal. A voz dos anjos cantando Glória, já não podem ser ouvidas porque nos aparelhos de som, em altura máxima, à meia note tocam os mais novos sucessos enlatados e pasteurizados para ter venda garantida nesta época. Nas lojas agora surgem presépios dourados com a sagrada família em roupas de Gala, mas parecendo a família real de algum reino deste mundo.


Reflita,
e se tiver coragem mude!
Dê de presente o seu afeto, a sua atenção,
o seu sorrizo, um pouco da sua alegria.
Distribua Paz, dê compaixão.
AME !
Faça aquilo que o aniversariante nos pediu que fizéssemos.
Amar como Ele nos ama.
Este será certamente um Feliz Natal!

24 de novembro de 2016

tempos sombrios

  

Essa situação está insustentável, isso está adoecendo as pessoas e deixando-as completamente apáticas. É preocupante a sensação de impotência que as pessoas estão relatando. Tendo a acreditar nas muitas mensagens que tenho recebido de amigos espíritas e esotéricos que insistem que há uma enorme batalha espiritual no mundo sutil sobre a terra. Eles pedem que todos nós rezemos incessantemente em apoio aos espíritos superiores que combatem para que a terra não se perca.
A coisa está muito feia, e a única forma de sair disso, nestes tempos escuros é buscar a alegra que sustenta a fé. Funcionou assim no tempo da ditadura e acho que este é o caminho que precisamos trilhar.
Enquanto nós ficarmos só apontando o que está ruim, vamos espalhar mais desanimo e apatia e depressão. É tempo de fazer das tripas coração e afirmar, como os apóstolos depois da morte de Jesus, que a Ressureição era certa. Estamos justamente entre a sexta feira da paixão e o domingo da ressurreição, é uma comparação grosseira e imperfeita, eu sei, mas se continuarmos crendo e afirmando a morte, com certeza vamos impedir a ressureição.
É preciso sair desta armadilha que nos colocaram. Não é de hoje que a mídia vem vendendo essa imagem de que não tem mais jeito. Ou será que só eu percebi que já há alguns anos os noticiários só divulgam notícias ruins: desgraças, violência, cenas as mais chocantes. Não existe noticiário de notícias boas. E elas existem, mas não interessa divulga-las, Há muito tempo o povo vem sendo conduzido para o pessimismo, para ficar no ponto de não reagir.


Dizem os estudiosos da nova física, do mundo das infinitas possibilidades que aquilo que vibramos e jogamos no universo, é o que recebemos de volta.  A mecânica, segundo estes cientistas é a seguinte: O universo sempre devolverá aquilo que pedimos. Se emitimos sorrisos, vamos receber situações que nos façam sorris. Se vibramos raiva e ódio, vamos receber de volta situações que nos façam ter raiva. Parece simples. O Universo trabalha sempre a nosso favor, assim se eu vivo repetindo que a vida é uma merda, ela será. São inúmeras as crenças limitantes que foram colocadas em nosso software mental, e muitos de nós sequer percebem isso, e outros mesmo que percebam, não conhecem o antivírus para limpar suas consciências.
 As redes sociais estão repletas de denúncias e reclamações, compartilhadas ao infinito. Seria o caso de perguntar que efeito isso tem conseguido. Se essa mobilização pela divulgação é maciça, o empenho na participação e nas tentativas de mudança das situações denunciadas é quase inócua. É como se o fato de denunciar aliviasse as consciências e não exigisse mais nenhuma ação. O problema é que isso tem um subproduto muito nocivo, que é dar a sensação de que tudo vai de mal a pior e de que não há solução. O subproduto é o que estamos vendo, uma estrondosa apatia e uma grande sentimento de impotência.


 Esta situação é insustentável e precisa ser urgentemente mudada. 
Nestas horas lembro-me de Pedro Casaldáliga dizendo que o que se opõe ao MEDO, não é a coragem, mas a FÉ.  Não há também como não levar em conta a frase comum de Jesus quando libertava algum doente de seus males: Tua fé te salvou.
Concluo então que é este o caminho que temos que trilhar nestes momentos de escuridão que atravessamos. È pela Fé, é ela que tem que nos conduzir de volta à Luz. Mas por favor não confundam fé com apatia ou imobilismo. Com atitudes isoladas de joelhos dobrados em oração.
Não descarto essa possibilidade, mas insisto que é preciso ação, ação primeiramente de mudança de foco e de atitude. Mudança na maneira de olhar a realidade e de expressá-la. Mudança no sentido de esforçar-se para encontrar e expressar o positivo em toda e qualquer situação, mesmo que ela seja negativa.

Ainda esta semana uma pessoa me dizia que não consegue se conter e não falar mal de uma desafeto. Dizia ela que já não queria mais falar disso, mas que não conseguia. Perguntei a ela se essa pessoa não havia feito ou proporcionado nada de bom a ela. Qualquer coisa, mesmo que fosse bem pequena. Ela então me disse: essa pessoa sempre me usou, mas não posso negar que me proporcionou várias oportunidades, me abriu portas, mesmo que eu saiba que era para eu poder melhor servi-lo.
E eu lhe disse: mas você teve ganhos. Então todas as vezes que você se pegar falando mal dessa pessoa, arremate o final de seu comentário dizendo algo do tipo: é ele era um safado, mas não posso mentir, também me deu muitas oportunidades. Desta forma, aos poucos, o ranço vai passar e a libertação desta amarra acontecerá sem muito esforço.
Não esqueço o comentário de um cientista político nos anos 90 que dizia: o golpe militar foi um grande mal para o Brasil, mas temos que agradecer que foi para rechaçá-lo que surgiram grandes nomes na música, nas artes, na filosofia e em inúmeras outras áreas do conhecimento.

É isso, buscar o alento, a possibilidade de ter esperança, conseguir encontrar a promessa da luz, mesmo em meio a escuridão.
E vamos em frente, caminhando, cantando e seguindo a canção...