Absurdo e graça!

.Na vida hoje caminhamos entre uma fome que condena ao sofrimento uma enorme parcela da humanidade
e uma tecnologia moderníssima que garante um padrão de conforto e bem estar nunca antes imaginado.
Um bilhão de seres humanos estão abaixo da linha da pobreza, na mais absoluta miséria, passam FOME !
Com a tecnologia que foi inventada seria possível produzir alimentos e acabar com TODA a fome no mundo,
não fossem os interesses de alguns grupos detentores da tecnologia e do poder.

"Para mim, o absurdo e a graça não estão mais separados.
Dizer que "tudo é absurdo" ou dizer que "tudo é graça "
é igualmente mentir ou trapacear...
Como morrer e ressuscitar, o absurdo e a graça são só dois lados da mesma moeda."
"Hoje a graça e o absurdo caminham, em mim lado a lado,
não mais estranhos,
mas estranhamente amigos"
A cada dia,nas situações que se nos apresentam podemos decidir entre perpetuar o absurdo ou promover a Graça. (Jean Yves Leloup)

* O Blog tem o mesmo nome do livro autobiográfico de Jean Yves Leloup, e é uma forma de homenagear a quem muito tem me ensinado em seus retiros, seminários e workshops *

Seja Bem vindo (a)!

Agradeço por sua visita, ela é muito oportuna.
Aqui eu reúno pensamentos meus
e de algumas outras pessoas com quem sinto afinidade de idéias e ideais.


"Vamos precisar de todo mundo
pra banir do mundo a opressão
Para construir a vida nova
vamos precisar de muito amor...

Vamos precisar de todo mundo,
um mais um é sempre mais que dois
Pra melhor juntar as nossas forças
é só repartir melhor o pão...

Deixa nascer o amor/Deixa fluir o amor
Deixa crescer o amor/Deixa viver o amor

O sal da terra,..." (
Beto Guedes)

26 de setembro de 2018

Jean-Yves Leloup: "É um longo caminho aprender a doçura"

Entrevista realizado por Tatiana Mendonça 
(http://atarde.uol.com.br/muito/noticias/1996608-jeanyves-leloup-e-um-longo-caminho-aprender-a-docura)



Antes Deus era uma ideia, depois passou a ser uma imagem, agora é um silêncio. Talvez por isso o francês Jean-Yves Leloup, 68, use tantas metáforas para falar dele, num esforço de traduzir o intraduzível. A relação cambiante entre os dois começou num hospital em Istambul. Leloup, até então ateu, estava entre a vida e a morte, vítima de uma grave intoxicação alimentar, quando reparou, num relance, que a consciência podia habitar fora do corpo. Desperto, saiu em busca de entender este além. Tornou-se doutor nas áreas de psicologia, filosofia e teologia e também padre da Igreja Ortodoxa. Mas ele não acredita que o cristianismo seja melhor que qualquer outra religião. “Todos os caminhos são bons. A condição é que a gente não pare no meio do caminho”, ri.  Presidente da Universidade Holística Internacional de Paris e autor de mais de 50 livros, Leloup vem frequentemente ao Brasil participar de palestras e seminários. Este mês, ele esteve em Salvador na abertura do 13º Simpósio Internacional sobre Consciência e Autoconhecimento: Nada Ocorre, promovido pela Fundação Ocidemnte – Organização Científica de Estudos Materiais, Naturais e Espirituais e pelo Instituto Superior de Educação Ocidemnte (Iseo). Antes do evento, Leloup conversou com a Muito – com tradução de Lucinei Caroso – sobre meditação, espiritualidade, sexo e política. Em tempos tumultuados de polarização, ele defende que é preciso investigar a real intenção dos políticos. Saber se são cordeiros ou dragões.
O senhor teve uma experiência de quase-morte em Istambul e depois enveredou por um caminho espiritual. Essa trajetória se repete com outras pessoas, talvez de modo não tão extremo... Quando estão num momento muito difícil da vida, vivendo uma situação-limite, é que passam a buscar algo ‘maior’ que a vida cotidiana. Por que isso acontece, na opinião do senhor?
Não é necessário beber o vinagre para saber que o vinho é bom. Não é necessário morrer para saber que a vida é boa. Alguém como eu precisava de uma situação extrema. Deus fala para cada um a linguagem que seja capaz de entender. Para alguns, é a linguagem da beleza e da natureza, para outros, é através de um acidente. Quando temos o ouvido entupido, é necessário falar mais alto. Quando temos o coração fechado, Deus precisa falar uma linguagem mais dura. Mas é sempre com o objetivo de nos despertar.
Ainda sobre este tema, fiquei impressionada com uma frase que o senhor escreveu: “Minha vida está em ruínas, não há obstáculo à visão daquilo que é”. E no entanto a gente vai num sentido contrário, lutando com todos os meios para que essa ruína nunca chegue, tentando a todo custo fugir da dor e do sofrimento...
Quanto mais nós procuramos o prazer, mais ele nos foge. Quanto mais a gente foge da dor, mais ela consegue nos alcançar. A morte faz parte da vida. Tentar negar a morte não impede que ela chegue. Isso faz com que a morte seja dolorosa. Eu amo muito o livro do Apocalipse, porque ele mostra que através da desintegração, seja no nível econômico, social ou cósmico, a vida se revela. O Apocalipse não é um livro dedicado às catástrofes, mas às revelações através das catástrofes. A grande questão é o que nós fazemos dos nossos fracassos. No cristianismo, acho muito interessante a imagem da cruz ser o caminho da ressurreição. A cruz não é o fim do caminho. A destruição não é o fim do caminho. O objetivo é a ressurreição. Mas quando nós estamos no sofrimento e na dor, a gente não sabe disso ainda. É necessário atravessar o caminho. Jesus não explica o sofrimento como um filósofo. Como uma criança, ele recebe, vive nele o sofrimento. Ele o atravessa, sem concessões. Não existe prazer em sofrer. É necessário atravessar o sofrimento.
O senhor é vinculado à Igreja Ortodoxa. Acredita que para desenvolver a espiritualidade é preciso estar conectado a uma religião, qualquer que seja ela, ou pelo menos à ideia de Deus, de uma força maior na qual se possa confiar?
Cada religião é como um poço. Podemos ficar na superfície e fazer uma publicidade para dizer que a nossa água é a melhor, mas o importante é ter sede. E beber na fonte. Não importa qual seja o poço que você vá beber. Existe um momento onde a forma é importante, mas são formas exteriores. Mas no fundo do fundo tem a fonte. E nesse caso, quando nós estamos no fundo, nós estamos além da forma, e fora inclusive do próprio poço, para além da religião. Mas cada um deve procurar o seu poço para ir na direção da fonte.
Mas o senhor acredita que esse poço precise ser religioso, necessariamente? Um ateu pode desenvolver sua espiritualidade? De que modo?
Sim, o importante é cavar (risos). No Evangelho de João, ele diz que a luz habita todos os homens vindos ao mundo. E todos os homens que procuram a luz, que procuram a fonte da vida, podem encontrá-la. O importante não é a forma do poço, mas a sede daquele que cava, que se aproxima da fonte. 

em salvador com crianças que meditam na escola
Para o senhor, a meditação é uma forma de reconectar-se com o divino. E muitas pessoas reclamam que é difícil meditar, apesar da popularização desta prática nos últimos anos. Estão lá sentadas brigando com seus pensamentos... Entre tantas técnicas, qual é a que o senhor prefere?
Meditar é estar consciente, estar atento, estar presente, quer estejamos em pé, sentados ou deitados. O que pode nos colocar na direção do interior é a atenção à respiração. Com a respiração, nós podemos nos aproximar do mistério da vida. Nossa vida se mantém através deste sopro. Este sopro é o fio que nos interliga à fonte. O sopro é uma maneira muito simples de estar atento, de estar presente. Eu gosto também muito de meditar estando na natureza, meditar como uma montanha, com todo meu peso, meditar como uma árvore, interligada ao céu e à terra. Meditar como um oceano... A meditação não é nem laica nem religiosa. Ela é natural. E é necessário reencontrar a oração primeira, a meditação original, a meditação de todos os elementos. É necessário aprender a orar como o pássaro que canta. Respirar com consciência. É importante não tentar controlar os pensamentos, mas abandonar-se.
O senhor é um ativista da paz, um dos criadores da Unipaz. O Brasil regista um dos maiores índices de violência do mundo. Foram 63 mil assassinatos no ano passado. Como promover de modo prático uma cultura da paz num cenário como este que vivemos?
É necessário não ter medo. O medo cria a violência. A violência é uma energia. A questão é como transformar essa energia de uma maneira criadora. Com a mesma força que nós carregamos as malas de alguém, nós podemos golpeá-lo na cabeça. Acredito que o esporte possa desempenhar um papel importante nessa transformação, como prática de energia. Mas isso não é o suficiente. É necessário introduzir a consciência, para que a gente possa saber o que fazer com a nossa energia, descobrir que existe mais prazer em construir do que em demolir. Mas a situação do Brasil é, de fato, um grande problema. É preciso se debruçar nas causas desta violência, nas suas origens, na desigualdade econômica, social que existe no país, mas também nas causas psicológicas e interiores. É preciso transformar a violência que está em nós. Antes de fazer grandes discursos contra a violência, é necessário aprender a transformá-la em si mesmo. Muitas vezes, são os nossos pensamentos que são violentos, nossos julgamentos. E é um longo caminho aprender a doçura. Jesus disse: ‘Aprendam de mim porque sou doce e humilde de coração’. E é o único momento que ele diz ‘aprendam de mim’. Como se fosse a coisa mais importante... E também é a coisa mais difícil. É necessário ser muito forte para ser doce. É necessário muita energia e muito autocontrole.
"
É necessário ser muito forte para ser doce. É necessário muita energia e muito autocontrole.
Jean-yves Leloup
Nós estamos às vésperas das eleições, e o país vive uma polarização exacerbada. É como se as pessoas fossem votar contra algo e não a favor de algo. Como podemos alimentar a serenidade nestes momentos de conflitos ideológicos?
Lembro das crianças com quem estive meditando na escola Ananda. No momento da meditação, se nós olhássemos de fora, havia crianças de diferentes cores. Quando olhamos para dentro, a consciência não tem cor, e nem tampouco tamanho. Não existe grande ou pequeno. Quando a gente olha para fora, existem diferentes partidos políticos, como existem diferentes religiões. Quando a gente olha para dentro, existem apenas seres humanos, procurando a justiça e a paz. E se os homens políticos meditassem juntos e descobrissem essa consciência interior? (Risos). Talvez nós pudéssemos ir na direção da justiça e da paz. O problema é a vontade de poder, de dominar. A vontade de poder te leva à vontade de apropriação, e a vontade de apropriação te leva à guerra, à fome. Dessa maneira, a gente encontra os quatro cavaleiros do Apocalipse. O cavaleiro branco representa a perversão da inteligência, que procura a dominação do outro. O cavaleiro vermelho é a guerra, a apropriação da terra, a possessão, que leva ao cavaleiro negro. O cavaleiro negro é a consumação, que leva na direção do cavaleiro verde, que é a cor da morte. É uma visão simbólica, mas é importante poder adaptá-la ao momento da atualidade. Esses quatro cavaleiros estão a serviço do dragão, e o dragão é o ego, que quer dominar, que quer devorar... A única força que pode vencer o dragão é a força do cordeiro, que simboliza a força invulnerável do amor. Somente o amor é mais forte do que a morte. Mas não sei como poderia traduzir isso em termos políticos... O importante é prestar atenção na intenção dos políticos. Se é o dragão ou o cordeiro que habita dentro deles.
O senhor já falou, em outras oportunidades, que a paz, na verdade, é a “grande paciência”. Vivemos hoje com as redes sociais uma era de imediatismos. Como conciliar tantas demandas com o silêncio interior?
A importância é estar livre. Livre com relação a qualquer tipo de tecnologia. E o momento de silêncio e de retraimento nos conduz à nossa liberdade. Nós não somos escravos das nossas máquinas. Mas existe um perigo, realmente.
O senhor já declarou que o sexo é um ritual divino, “fundamental para reconquistar a inteireza de corpo, mente e coração”. E no catolicismo ele permanece como um tabu. Por que isso acontece, na sua opinião?
Na origem, os rabinos perguntavam por que o homem não tinha sido criado redondo. A resposta era: para que não seja feliz sozinho. Para que não seja inteiro sozinho. Para que ele se torne inteiro com outra pessoa. Porque é na relação que está a imagem de Deus. Não é nem o homem, nem a mulher, mas é a relação entre eles. A sexualidade é o lugar do outro em si. E muitas vezes, é um lugar doloroso. Muitas vezes é difícil achar um local para o outro em si mesmo, aceitar não ser autossuficiente. O ser humano se completa através da relação. É por isso que a sexualidade é da ordem do sagrado. É por isso que essa parte do nosso corpo chama-se sacro. É nessa região que a vida é criada, que nós nascemos à imagem do Criador. E é por essa razão que é uma pena que essa dimensão não seja vivida de uma maneira espiritual e sagrada. Porque, de novo, é a consumação. A gente pode fazer do outro um objeto de consumo. E, dessa maneira, a gente passa ao largo da relação, ao largo da dimensão divina, do amor que transforma a sexualidade. Na tradição ortodoxa do primeiro milenário, é demandada à sexualidade essa transfiguração. É mais difícil transfigurar do que renunciar. Transfigurar quer dizer assumir, introduzindo a consciência e o amor em todos os nossos atos e, particularmente, nesse ato. Para algumas pessoas, pode parecer difícil. Preferem renunciar ou consumir, mas não conseguem transfigurar. Isso é um problema no cristianismo. A sexualidade não foi assumida e transfigurada. Ela se torna, dessa maneira, um assunto de idolatria ou desprezo. E esse assunto não deve ser tratado nem com idolatria, nem com desprezo, mas com respeito. O respeito é um belo nome do amor. Respeitar o próprio corpo e respeitar o corpo do outro. Nesse momento, se torna interessante.
"
O respeito é um belo nome do amor. Respeitar o próprio corpo e respeitar o corpo do outro.
Jean-yves Leloup
O senhor costuma visitar o Brasil para seminários e outros eventos. Já esteve em algum terreiro de candomblé? O que o senhor pensa sobre tradições politeístas?
Sim. Acho que é uma bela maneira de entrar em contato com as energias da natureza, que são personalizadas ali. De novo, é a mesma coisa. Não se trata de ideolatria. Para alguns, é um caminho, e um caminho muito sensível. Todos os caminhos são bons. A condição é que a gente não pare no meio do caminho (risos). Todos os poços são bons, se a gente não ficar na metade do poço. É preciso descer até a fonte.
O senhor cunhou há alguns anos o termo normose. Acredita que hoje estamos sofrendo mais ou menos desse mal?
A normose é querer ser como todo mundo. Com a incitação da mídia, todo mundo procura se parecer. Muitas vezes, no nível do pensamento, mas também na maneira de se vestir. Para muitos, é difícil aceitar as suas diferenças. No entanto, cada um de nós é único e diferente. Quando visitei a Ananda, eu dizia às crianças: a rã e os macacos são iguais, são animais, mas se a rã quiser se tornar tão grande quanto o macaco, ela vai explodir e não será nem uma rã, nem um macaco. É preciso aceitar a si próprio, aceitar que nós somos iguais uns aos outros, e ao mesmo tempo diferentes. Um elefante não é um gato. Não se deve procurar comparações, e sim ser você mesmo. O fato de sermos diferente nos faz ter medo de sermos rejeitados. É um sentimento muito forte o medo do ostracismo, medo de ser rejeitado pela família, pelos amigos, pelo partido, pela religião. É um longo caminho tornar-se livre.
Sua autobiografia, O Absurdo e a Graça, foi lançada em 1990 na França, quando o senhor estava com 40 anos. O senhor já disse que mudamos nossa forma de entender o que é divino em momentos diferentes da vida. De que maneira percebia Deus antes e como o percebe agora?
Antes, eu apreendia Deus de uma maneira muito mental, como sendo a causa primeira, como sendo uma abstração. Hoje em dia, eu tenho menos ideias ou imagens sobre Deus. É como Jó. Em determinado momento, Jó perde tudo: sua saúde, sua família, sua riqueza. E ele perde principalmente o bom Deus, porque ele acreditava que Deus era bom e justo. Mas apesar de tudo que acontece com ele, algo injusto e inaceitável, o sofrimento do inocente, ali ele descobre que talvez Deus não seja a imagem que ele tinha de Deus. Ele perde os conceitos, as representações que tinha de Deus, mas não a fé. Ele descobre que Deus é mais do que Deus. Está além do que nós chamamos do bem e do mal, além dos contrários. E para isso não existe um nome. Porque nosso cérebro funciona sempre em binários, positivo e negativo. E nesse momento, Jó entra no silêncio. E Deus existe nesse silêncio. Hoje em dia, para mim, Deus está no silêncio, além de todas as qualidades ou representações que a gente possa dar. É apenas o silêncio que pode conhecer o silêncio. Somente o silêncio que pode falar com o silêncio. E agora eu me calo.

22 de setembro de 2018

É Primavera


São a serenidade e a Paz que nos conduzirão
pelos caminhos tenebrosos da escuridão.
 Não podemos e não devemos permitir que nos tirem do sério,
porque esta é a artimanha que usam para nos enfraquecer.
Querem que nos exasperemos, que nos tornemos violentos
para que possam responder com a única arma que sabem usar,
a violência, a força bruta. 
Nós temos a nosso favor a inteligência
e o fato de que somos capazes de pensar,
desenvolver estratégias.
Sigamos através dos caminhos da Paz
e seremos capazes de transformar a realidade 
e o mundo que nos cerca.
É o AMOR e não o TEMOR
que nos impulsiona para a vitória.
Não podemos esquecer que
 "um mais um é sempre mais que dois" 
e que "para melhor juntar as nossas forças,
é só repartir melhor o pão"
O Inverno terminou.
É primavera, a vida e o amor estão no comando.
Não importa o quanto pode demorar,
a luz se fará presente.
Paz e Luz a todos!



28 de agosto de 2018

Como um Rio



Segue como um rio.
Em seu eterno passar
O rio da vida me leva.
Hora em calmaria,
Em momentos outros em corredeiras...
Contorna algumas pedras, afoga outras,
E muitas, simplesmente as faz rolar...
Mas sempre seguindo.
Num caminho sinuoso,
Limitado pelas margens
Abriga sonhos de transbordamento.
A natureza revolta das aguas
Vez por outra, denuncia que nem tudo é tranquilidade.
E segue.
Da nascente à grande vazão,
A novidade é a constante,
Nenhuma gota repete um caminho já feito.
Tudo é novo, similar, parecido talvez, mas sempre novo.

Numa curvam como agora,
O murmurar das aguas ansioso se pergunta:
Quanto ainda falta para ao grande mar chegar?
Loucuras de rio afoito
que não percebe que o melhor do trajeto
é a simplicidade do suave marulhar.

Que eu continue a agradecer esse fluir de energia, que há 67 primaveras, me presenteia sempre com um novo, simples e desafiante marulhar cotidiano. 





15 de agosto de 2018

Em Pneuma e Aletheia

J Ricardo A de Oliveira

Vai!
Vá para ti.
Vá e não desista,
Vá e não olhes para trás.
Vá e só pare quando chegar,
Quando encontrar o coração do coração.

Chegando lá faça uma faxina,
limpe tudo,
Não deixe nada,
nem um pingo da lama que lá houver.
Depois de tudo bem limpo,
De todo o perdão exercido,
Descubra lá, a presença que te habita.

Persista,
 permita-se desta vez,
Ser tomado pelo grande silêncio.
Perceba quem te respira
E deixe-se ser respirado por esta presença.

 Mas com toda a atenção:
Em Pneuma e Aletheia – em Espírito e Verdade !
Alí, onde tudo é Paz,
Onde tudo é Luz,
Na morada do “Eu Sou”

 Seja UM com Ele.

25 de julho de 2018

A minha avó dizia...





A minha avó dizia...
Quem nunca disse esta frase?
Avós, essa materno-paternidade dupla, uma mistura de ternura e sabedoria. Avós são pais que atingiram a capacidade de educar através do amor.
Mas avós estragam as crianças lhes fazendo as vontades dizem alguns. Será?
Os pais geralmente estão preocupados com as regras e as disciplinas com a aprendizagem, a fixação de conceitos. Os avós já não têm esse compromisso, estão sempre mais atentos em passar aos netos a sabedoria adquirida enquanto seus cabelos embranqueciam. A minha avó dizia... Quanto de sabedoria essa frase esconde em nossas vidas. Quanta saudade nos traz.
Fico imaginando os avós daquele menino divino na distante e pobre Nazaré da Galileia: Ana e Joaquim. Infelizmente a tradição não nos informou os nomes dos pais de S José. Mas como terá sido a infância e o convívio de Jesus com seus avós? Tenho para mim que além dos valores que aprendeu com seus pais, Maria e José, valores de honestidade, firmeza, humildade, a mansidão, a doçura e o amor devem ter sido o legado de Joaquim e Ana àquele menino tão esperto e sábio.
Com as dificuldades do mundo moderno os avós têm sido chamados a exercer o desafio de cumprir um papel de substitutos dos pais. Pais que precisam trabalhar e até mesmo, pais que abrem mão de seus filhos fazem com que os avós assumam o duplo papel de avós e pais. Certamente estas serão crianças que terão a oportunidade de vivenciar uma maneira nova de aprendizagem da vida. Para os avós esse é um bom desafio que lhes ajudará a retardar a velhice e atravessar essa fase da vida de maneira mais jovial e ativa.
De tudo o mais importante é que a essência da sabedoria dos nossos mais velhos possa ser transmitida, com amor, às novas gerações. Se você tem avós vivos não deixe de dar um beijo carinhoso neles neste dia 26 de julho, se já se adiantaram no caminho transforme em oração o beijo, mas tenha a lembrança deles sempre viva em sua memória.
 S Joaquim e Sant’Ana, intercedei junto a Jesus por nós.


22 de julho de 2018

Oração de Maria Madalena

Extraída do livro "O Romance de Maria Madalena , uma mulher incomparável", 
de Jean Yves Leloup


“Meu Deus, tu és o Deus da primavera, O que faz florescer, o que faz crescer.
Será que é mesmo necessário que sejamos “pequeninos”
Para que tu sejas todo-poderoso?
“Pobres pecadores”, para que tu sejas misericórdia?
Não é suficiente que estejamos nus, para que tu brilhes,
Que estejamos vazios, para que tu sejas tudo?
Tu não és um Deus que desconfia das mulheres,
Que canoniza os santos e queima as feiticeiras.
Tu és belo e amas a beleza
Eu orei a ti, com frequência, Meu Deus
Para que me livrasses dos deuses que acusam
Que desprezam e fanatizam...
E tu me enviaste a primavera:
A amendoeira foresceu.
Respirei o grande dia e a grande noite,
Reconheci teu sopro no jardim,
Tua brisa à beira do lago.
Tu me ensinaste que rezar mais
É respirar melhor.
Ainda não sei se és o Deus dos amantes,
Se fores aquele que ama em todos os que amam.
Amo-te sem te ver, sem te tocar
E, no entanto, sei que me deste
Olhos para ver e braços para abraçar.
Um dia talvez, em cores oceânicas,
Um homem virá
Para te dar um semblante
E abençoar a terra na oferenda de meu corpo;
Então, eu te amarei, meu Deus
Como as mulheres amam,
Como as crianças,
Como a tempestade
E nos tornaremos Um.”

Mirian de Magdala: que mulher é essa?

. .
Mulher e principal discípula de Jesus.

Quem é esta mulher que junto a Maria de Nazaré
permaneceu aos pés da cruz?

Porque Jesus a escolheu para primeiro aparecer
depois da Ressurreição? 

Maria de Magdala pecadora perdoada ?

Discípula que mais estava próxima do mestre,
a ponto de despertar ciúmes ?

Nunca saberemos, o tempo e o preconceito
se encarregaram de apagar sua história...
De companheira de Jesus a prostituta,
muito ao longo dos séculos foi dito,
mas só mesmo o mestre, o raboni Yeshua
poderia dizer com segurança
quem foi, quem é,
Myrian de Magdala .


Com o relato da ressurreição e, a aparição de Jesus,
depois de ressuscitado à Maria Madalena
reacende-se a dúvida quanto ao papel desta mulher
na comunidade primitiva dos seguidores de Jesus.


Ao ler o O código Da Vinci,
o jornalista e escritor Juan Arias
lamentou as dezenas de erros de pesquisa
na trama de Dan Brown.
Como teólogo e vaticanista,
no entanto, reconheceu que
o best-seller havia conseguido
o que tentam há anos centenas de estudiosos,
levar ao grande público polêmicas religiosas
que a Igreja, segundo ele, esforça-se em ocultar.
As discussões provocadas pelo livro
foram a deixa para que Arias
iniciasse uma busca pela verdadeira identidade
da mulher que teria sido casada com Jesus,
trabalho reunido em
"Madalena, o último tabu do cristianismo"
(editora Objetiva).


Madalena Grávida
Imagem na Notre Dame de paris

A notícia é do jornal Globo, 19-6-2006.
Para autor, Madalena foi "apóstolo" mais importante.
Em um misto de reportagem e pesquisa histórica, Arias, autor de estudos religiosos como Jesus, esse grande desconhecido,
vasculhou centenas de documentos.
Textos como os Evangelhos Gnósticos (não reconhecidos
pelo Vaticano) e preciosos pergaminhos
descobertos no Egito na década de 40.
O livro redefine a origem do celibato e sacerdócio masculino exclusivo e derruba a imagem de Maria Madalena como meretriz convertida. "
À instituição interessa que Madalena seja a prostituta arrependida e não a esposa e escolhida de Jesus para continuar seus ensinamentos, porque isso ressaltaria o sexismo da Igreja.
Mas como explicar por que Madalena
foi a primeira a ver Jesus ressuscitado?
E a intimidade entre os dois nos Evangelhos Gnósticos,
onde Jesus beija Madalena na boca?
Ou as cenas de ciúmes dos apóstolos ao perceberem
o quanto ela era importante ao profeta?", polemiza ele.
Em vez de investir na teoria de que Jesus teria se casado com Maria Madalena, dando origem a uma linhagem que seguiria até hoje, principal tema de O código Da Vinci, Arias reúne provas históricas que conferem a Madalena um papel muito maior na formação da Igreja Católica, a de "apóstolo" mais importante para Jesus.
"Como me disse José Saramago, se Jesus ressuscitado apareceu a Madalena antes de todos, é porque ela era a mulher que mais amava. Ele sabia que duvidariam do testemunho de Madalena, como o fez Pedro, mas a escolheu",explica o teólogo.
Um outro exemplo é o pedido de Madalena ao chegar ao sepulcro de Jesus, quando ela se desespera ao não encontrar o corpo do profeta. Madalena pergunta a um homem onde estava o seu senhor, pois ela iria recolhê-lo.
Para os judeus, o corpo era sagrado e responsabilidade da família.
Que direitos tinha Madalena em reclamar o corpo de Jesus?
O direito de esposa.
O jornalista espanhol, que foi correspondente no Vaticano por 14 anos, constrói o livro com capítulos-ensaios, submetendo os trechos bíblicos a análises semiológicas e formulando uma hermenêutica acessível mesmo aos leigos nos textos sagrados.
Para Arias, Madalena pertencia à corrente gnóstica, que valorizava o conhecimento intuitivo e a palavra, e era contrária à hierarquização do cristianismo.
Ela acreditava que, por meio do conhecimento, o eu e a divindade tornavam-se um só.
"A Igreja seria menos dogmática e mais universal" Culta e de família abastada, Madalena teria sido responsável pela construção existencial e filosófica do cristianismo, que ainda não havia fixado um corpo definitivo de doutrina.
Ela foi a escolhida do profeta, definido por Arias como "um semeador de liberdades" que considerava as mulheres inteiramente aptas ao sacerdócio.
Com a morte de Jesus, porém, entre a corrente gnóstica de Madalena e a oficialista de Pedro, venceu a primazia masculina.
"Um dia a Igreja terá que pedir perdão, como fez com Galileu Galilei, por ter corrompido a figura de Madalena utilizando-a como símbolo do pecado sexual.
Se isso não tivesse acontecido, a Igreja seria menos dogmática e mais universal. E o feminismo teria sido adiantado em muitos séculos",
calcula Juan Arias.
.

Jesus e Maria Madalena - Para os puros, tudo é puro



No princípio de toda filosofia há um assombro, um maravilhamento; o assombro, por exemplo, diante da mudança e da impermanência de todas as coisas... e das questões que isso incita: Existe uma realidade que permanece dentre tudo aquilo que passa? O que resta quando não resta mais nada?
Quer respondamos através da substância , como os pré-socráticos, ou através da vacuidade, como no madyamika , isso não diminui em nada o assombro e leva a questão um pouco mais adiante: o que é a substância? Que experiência de vacuidade podemos fazer?...

O assombro de nossos contemporâneos não recai tanto sobre o ser ou o não ser quanto sobre o desejo (de viver) e o não desejo (de viver) e sobre aquilo que o sustenta ou o expressa, aquilo que, utilizando uma palavra mais ou menos redutora, chamaremos “a sexualidade”, outros preferirão “o élan vital”(Bergson), “a libido”(Freud) ou ainda, “a energia vital”, “força criadora”...
O assombro diante da sexualidade raramente é filosófico. As dificuldades de algumas funções e disfunções clamam por respostas mais pragmáticas e repelem todas as formas de especulação...
Uma abordagem menos trivial da sexualidade seria, então, impossível?

Psicólogos e sociólogos já responderam a diversas dessas questões, mas talvez ainda não tenham respondido ao nosso assombro fundamental, “de sermos um ser que deseja”. Se nos inclinarmos para o lado da teologia, nos assombraremos até mesmo diante do termo “da encarnação”; o Ser encarnado seria então um ser que deseja? Como se expressa esse desejo? Não apenas através das formas sublimes que conhecemos e que foram, algumas vezes, celebradas de maneira soberba pelas igrejas, mas, o que dizer da sexualidade do Cristo?

Para muitos essa questão não é mais da ordem do assombro, do maravilhamento, mas antes do estupor e para alguns, até mesmo da blasfêmia.
Por que?
Por que tais resistências, outrora e ainda hoje em dia? No entanto, a questão é importante, não apenas para melhor conhecermos o Cristo e para respeitá-lo em todas as dimensões de sua humanidade, mas também tendo em vista sua função “exemplar”, “arquetípica” e reveladora, para melhor conhecermos o ser humano na sua realidade sexuada, sendo esta considerada hoje em dia dimensão essencial de sua identidade e de seu advir (sua substância “e” sua falta), não apenas como lugar de transmissão da vida, mas como condição para nosso prazer ou para nosso desgosto pela vida.

Nossa abordagem permanece neste assombro, neste maravilhamento, ela não deseja ser nem polêmica, nem moralizante, nem dogmática, ela se questiona o mais honestamente possível acerca do realismo da encarnação, até aonde o Verbo se fez carne? Existem elementos da nossa humanidade que escapam à Sua luz e à Sua ternura?

Se o Amor encarnou-se na História e hoje em dia continua apenas pedindo para encarnar-se, como ele não o faria nas carnes que lhe são normalmente e naturalmente consagradas?
“Aquele que é carnal, o é até mesmo nas obras do espírito, aquele que é espiritual, o é até mesmo nas obras da carne” dizia Santo Agostinho.
Nós talvez tenhamos que redescobrir uma espiritualidade vivida dentro das obras do corpo e do quotidiano que respeitaria prioritariamente o Espírito d’Aquele que se fez homem e “inteiramente homem”, “a fim de que”, como dizem os Padres, “o homem se fizesse Deus”.

Porque, repetidas vezes, o Cristianismo nos apresentou a sexualidade como sendo algo aviltante, degradante, “mãe de todos os pecados” e raramente como algo divinizante, fonte da vida e da criatividade, participação à imagem e à semelhança do Deus Vivo e Criador.

Não deveríamos, assim hoje como ontem, ir procurar a sexualidade reduzida a seus apêndices nos sex-shop e outros locais obscuros, lá onde ela “enclausurou-se” e perdeu-se, e trazê-la de volta ao santuário que foi sua morada, seu “sacrum”, a câmara nupcial que é, de acordo com o Evangelho de Felipe, um templo aonde “oramos de verdade”?
O Cristo não veio salvar, curar e divinizar aquilo que estava perdido?

Não seria a vida sexual transfigurada, quer seja numa vida de casal ou em um celibato escolhido e assumido, a grande Aventura e Alquimia que devemos incessantemente descobrir e renovar? devolver a Deus um dos maiores dons que nos foram dados? e não pararmos de nos assombrar...

Editora Vozes, 2007


21 de julho de 2018

22 de Julho - Myrian de Magdala

Maria Madalena


Todas as incertezas a respeito de Maria Madalena deve-se à uma projeção totalmente alterada. Ela acabou presa entre as incongruências da interjeição moral cristã e a imagem arquetípica da natureza feminina erótica. 


Tudo que se sabe de Maria Madalena é retirado da bíblia ou de fontes apócrifas. A discussão a respeito dessa figura feminina que acompanhou Jesus e seus discípulos no final de sua vida pública perdura por séculos. Pouco se sabe na verdade


Para alguns, ela foi mulher de Jesus, a mais sábia dos apóstolos e a causadora das revoltas de Pedro, líder do grupo dos 12, que não suportava vê-la receber de Jesus ensinamentos ocultos. Para outros, apenas uma seguidora fiel que ajudava financeiramente a causa do Nazareno


Existem poucas citações diretas sobre ela nos quatro evangelhos, porém ela está nominalmente presente nas passagens mais marcantes na vida do Cristo, como a Paixão e a Ressurreição. Ela é a discípula que ama o mestre acima de tudo e é testemunha da Sua Ressurreição, sendo a portadora da Boa Nova. Por isso ela pode ser considerada a primeira apóstola. 


Marcos se refere a Maria Madalena como "aquela que Jesus havia tirado sete demônios" a referencia da expulsão de sete demônios (Marcos 16:9 / Lucas 8:2), que na linguagem evangélica significa libertar da totalidade do poder que aprisiona o homem. 
É a partir do que Jesus a transforma, um ser livre e preparada para servir e doar-se ao projeto de Deus, que devemos conhecer Maria Madalena. Nada mais interessa.Lucas fala de uma mulher que segue Jesus, e que "havia sido curada de espíritos malignos e enfermidades"; se chamava Maria, provinha de uma cidade de Magdala, e Jesus expulsou dela sete diabos. Imediatamente antes disto, Lucas relata a cena com o fariseu, quando uma mulher sem nome lavou os pés de Jesus com suas lágrimas, os secou com seus cabelos e logo o unge, em agradecimento ao perdão por parte de Jesus por seus pecados. 







A justaposição nos leva a acreditar que as duas mulheres se identificam em uma só. A mesma história aparece em Mateus e Marcos, mas a mulher sem nome não é tachada de pecadora e lhe foi dada muita importância ao colocá-la na última Ceia, em Betania. Não unge os pés de Jesus, mas sim sua cabeça, de modo mais cerimonial em que se unge os reis, durante a cerimônia de um sacrifício ritual. Ante a indignação dos discípulos, que argumentam que o azeite foi mal gasto, pois poderia ser vendido e dado aos pobres, Jesus pede que sua ação seja considerada como um ato de celebração, dizendo: " Porque os pobres tereis sempre convosco, porém a mim não me tereis sempre (Marcos). 




João, no entanto, acrescenta uma complicação a mais ao descrever a ressurreição de Lázaro, onde identifica de forma explícita a Maria de Betania com "a que ungiu ao Senhor com perfumes e lhe ungiu os pés com seus cabelos". João relata a cena no capítulo seguinte de forma muito similar aos outros Evangélicos, não tachando Maria como pecadora: "Então Maria, tomando uma libra de perfume de nardo puro, muito caro, ungiu os pés de Jesus e os secou com seus cabelos. E a casa se encheu do odor do perfume". Porém João não identifica em modo algum a Maria de Betania e a Maria Madalena. 



Há inúmeras outras citações e publicações sobre esta mulher importantíssima na vida do cristianismo primitivo. Sem dúvida Madalena foi muito mais do que quiseram nos fazer crer.