Absurdo e graça!

.Na vida hoje caminhamos entre uma fome que condena ao sofrimento uma enorme parcela da humanidade
e uma tecnologia moderníssima que garante um padrão de conforto e bem estar nunca antes imaginado.
Um bilhão de seres humanos estão abaixo da linha da pobreza, na mais absoluta miséria, passam FOME !
Com a tecnologia que foi inventada seria possível produzir alimentos e acabar com TODA a fome no mundo,
não fossem os interesses de alguns grupos detentores da tecnologia e do poder.

"Para mim, o absurdo e a graça não estão mais separados.
Dizer que "tudo é absurdo" ou dizer que "tudo é graça "
é igualmente mentir ou trapacear...
Como morrer e ressuscitar, o absurdo e a graça são só dois lados da mesma moeda."
"Hoje a graça e o absurdo caminham, em mim lado a lado,
não mais estranhos,
mas estranhamente amigos"
A cada dia,nas situações que se nos apresentam podemos decidir entre perpetuar o absurdo ou promover a Graça. (Jean Yves Leloup)

* O Blog tem o mesmo nome do livro autobiográfico de Jean Yves Leloup, e é uma forma de homenagear a quem muito tem me ensinado em seus retiros, seminários e workshops *

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24 de setembro de 2016

Padre Pio de Pietrelcina

Hugo Lapa 

padre pio

Muitas almas iluminadas já vieram a Terra em missão e cada uma delas deixou um rastro de luz e sabedoria que é seguido por milhares ou milhões de adeptos. Uma dessas almas é Francesco Forgione, mais conhecido como Padre Pio de Pietrelcina, uma pessoa humilde que inspirou milhões de fiéis da Igreja Católica e até mesmo adeptos de outras religiões. Apesar de sua grande simplicidade e dedicação exclusiva a vida religiosa, Padre Pio ganhou notoriedade mundial pelas suas realizações e ficou famoso por sua história repleta de mistérios. Quem foi essa incrível figura que inspirou e continua inspirando gerações de religiosos e esoteristas?
A vida de Padre Pio é cheia de circunstâncias fabulosas do início ao fim. Padre Pio nasceu no dia 25 de maio de 1887 na cidade de Pietrelcina, num pequeno povoado da Província de Benevento, na Itália. A família de Francesco era bastante humilde e tinha poucos recursos financeiros a lhe oferecer. Porém, os orientais já observaram que é do terreno mais lamacento e oculto que a flor de lótus traz o branco mais puro da natureza, ou mesmo o lírio, com seu encanto e sua beleza que às vezes nasce do estrume. O pequeno Francesco já exibia, desde tenra idade, um comportamento exemplar. Era uma criança muito tranqüila, pacífica, observadora e incapaz de fazer mal a quem quer que fosse. Segundo os pais e pessoas próximas, Francesco nunca cometera nenhuma falta e não era uma criança de caprichos ou vaidades.
Sua mãe chegou a dizer que Francesco “sempre obedeceu a mim e a seu pai, a cada manhã e a cada tarde ia à igreja visitar a Jesus e a Virgem. Durante o dia não saia nunca com os seus companheiros. Às vezes eu dizia: – “Francì, vá um pouco a brincar”. Ele se negava dizendo: – “Não quero ir mãe, porque eles blasfemam”. Diz-se que Francesco havia sido uma criança um pouco tímida e retraída. Alguns esoteristas afirmam que os grandes seres de luz que vem ao mundo corpóreo procuram conservar-se introspectivos durante boa parte da infância, caso contrário seriam influenciados pela educação da época, com seus preconceitos e estereótipos. Além disso, conta-se que Padre Pio havia conhecido seu anjo da guarda e mantinha com ele um estreito contato. Futuramente, Padre Pio pedia as pessoas que sempre que possível procurassem dialogar internamente com seu anjo da Guarda, uma força ou consciência espiritual elevadíssima e bem próxima de nós.
Desde criança, Francesco já dava sinais de que seu caminho era o sacerdócio. Expressava profundo desejo de consagrar sua vida plenamente a Deus e aos desígnios divinos. Ainda jovem, quando era assíduo freqüentador da Igreja, pedia ao Sacristão que, em sua hora de almoço, o deixasse ficar orando e meditando sozinho na Igreja fechada, apenas ele e Deus.
Pessoas próximas contaram que Francesco não era muito dado a reuniões sociais. O jovem trocava os amigos e as festas por momentos em que se isolava e permanecia horas e horas em silêncio e profunda oração. Quando estava sozinho e mergulhado em longas meditações dedicadas a Deus, experimentava êxtases místicos muito profundos, onde presenciava aparições de entidades luminosas e fenômenos estranhos. Já em tenra idade, Francesco era invadido por vozes que lhe insultavam e procuravam desorientá-lo. Segundo os católicos, ele estava sendo tentado pelo demônio; segundo os espiritualistas, ele estava sendo alvo de investidas de espíritos obsessores de baixa estirpe que tentavam a todo custo desequilibrá-lo emocionalmente, tudo isso para que não cumprisse a missão sagrada a que estava destinado.
Aos 16 anos, Francesco entrou como clérigo da Ordem dos Capuchinhos, no dia 06 de janeiro de 1908. Pouco depois de seu ingresso, ele foi acometido por graves enfermidades e seu estado de saúde ficou precário durante muito tempo. Dizem que sua febre chegara a níveis altíssimos, até maiores do que um termômetro comum era capaz de medir. Por este motivo, ele foi conduzido a vários conventos diferentes, até permanecer em definitivo no Convento de San Giovanni Rotondo. Nessa época, ele já era conhecido como o Padre Pio de Pietrelcina. No convento de Rotondo, Padre Pio ficaria morando e exercendo o sacerdócio durante os próximos 50 anos.
Conta-se que apesar de Padre Pio ter sido castigado por várias doenças, elas colocavam-no num estado que era seguido por êxtases divinos. Vemos aqui uma aproximação desse fenômeno com o que os antropólogos chamam de “enfermidade xamânica” no Xamanismo. Diz Stanislav Grof que “os futuros xamãs podem perder o contato com o ambiente e ter intensas experiências interiores, que envolvem jornadas ao mundo inferior e ataques de demônios que os expõem a incríveis torturas e provações, que costumam culminar em experiências de morte e desmembramento seguidas pelo renascimento e subida para regiões celestiais”.
Parece que Padre Pio tinha conhecimento de que as doenças têm um caráter de purificação. Ele chegou a declarar isso em algumas ocasiões, como disse uma vez a uma senhora que durante 30 anos era castigada por uma doença que nenhum médico conseguia diagnosticar ou explicar. Padre Pio disse que“Sua enfermidade é uma grande graça de Deus”. Tal como a enfermidade xamânica, Padre Pio reconhecia a providência que as enfermidades traziam para a alma, quando esta aceitava os atributos divinos e um propósito superior que elas traziam.
Porém, algo ainda mais surpreendente ocorreu nessa época. Conta-se que entre uma doença e outra, Padre Pio chegou a ficar muito debilitado e teria ficado longos períodos sem ingerir qualquer alimento físico. Houve um momento em que o Padre ficou 21 dias sem ingerir nada, apenas a Hóstia Consagrada. A despeito de alimentar-se bem pouco, Padre Pio mantinha misteriosamente o peso de 90 kilos. Esse fenômeno de manter-se por um longo tempo sem a necessidade de alimento físico chama-se Inédia. Vários santos já exibiram esse prodígio, uma delas foi Tereza Neumann. Yogananda conta no livro “Autobiografia de um Iogue”, que conheceu uma mulher ioguini, já com mais de 60 anos de idade, que estava a nada mais nada menos do que 50 anos sem ingerir nenhum tipo de alimento sólido. Há outras referências na literatura espiritual sobre essa capacidade, uma delas é no clássico Yoga Sutras de Patanjali, obra que serviu de base para a estruturação de Yoga enquanto disciplina sistematizada. Patanjali conta que através de certo exercício yogue, é possível restringir a fome e a sede.
Voltando as misteriosas doenças de Padre Pio, alguns relatos nos fazem pensar que ele teria passado não apenas por dificuldades de saúde, mas também por ataques ainda mais ferozes de espíritos das sombras. Padre Pio ficava a noite sozinho no Convento de San Giovanni Rotondo. Os membros do convento eram frequentemente surpreendidos com barulhos fortíssimos de pancadas do que parecia ser uma luta homérica sendo travada. Sons altos de batidas, gritos e agressões eram ouvidos por todos e vinham diretamente do aposento onde ficava o Padre Pio. Quando eles se reuniam e subiam até o local, ao abrir a porta, encontravam o Padre Pio sozinho e com marcas de vermelhidão, inchaço e machucados diversos, como se tivesse sido agredido por alguém. Os seguidores de Padre Pio acreditavam que demônios originários do próprio inferno visitavam-no constantemente à noite para agredi-lo e submetê-lo a torturas e agressões. Padre Pio, no entanto, nunca reclamara dessa situação, guardando apenas para si o seu sofrimento.
Além das misteriosas aparições de espíritos trevosos, outro grande mistério acometera sua vida. O fenômeno começou a aparecer inicialmente quando Padre Pio começou a sentir fortes dores nas mãos. Então, na manhã do dia 20 de setembro de 1918, ele teria uma experiência que mudaria para sempre o curso de sua vida. O próprio Padre Pio narra o que aconteceu nesse dia: Foi na manhã do dia 20 do mês passado (setembro) no coro, depois da celebração da Santa Missa, quando fui surpreendido pelo descanso do espírito, pareceu um doce sonho. Todos os sentidos interiores e exteriores, além das mesmas faculdades da alma, se encontraram numa quietude indescritível. Em tudo isso houve um silêncio em torno de mim e dentro de mim; senti em seguida uma grande paz e um abandono na completa privação de tudo e uma disposição na mesma rotina.
Tudo aconteceu num instante. E enquanto isso se passava, eu vi na minha frente um misterioso personagem parecido com aquele que tinha visto na tarde de 5 de agosto. Este era diferente do primeiro, porque tinha as mãos, os pés e o peito emanando sangue. A visão me aterrorizava, o que senti naquele instante em mim não sabia dizê-lo. Senti-me desfalecer e morreria, se Deus não tivesse intervindo sustentar o meu coração, o qual sentia saltar-me do peito. A visão do personagem desapareceu e dei-me conta de que minhas mãos, pés e peito foram feridos e jorravam sangue. Imaginais o suplício que experimentei então e que estou experimentando continuamente todos os dias. A ferida do coração, continuamente, sangra. Começa na quinta feira pela tarde até sábado. Meu Pai, eu morro de dor pelo suplício e confusão que experimento no mais íntimo da alma. Temo morrer em sangue, se Deus não ouvir os gemidos do meu pobre coração, e ter piedade de retirar de mim está situação…”
Foi após essa sublime e dolorosa experiência que Padre Pio recebeu o que é conhecido como as chagas de Cristo, ou estigmas, tal como é conhecido no cristianismo. As chagas foram primeiramente recebidas por São Francisco de Assis, após sublime experiência mística. Depois de São Francisco, dizem que mais de duzentas personalidades espirituais já apresentaram os estigmas de Jesus em seu corpo. Conta-se que São Francisco de Assis recebera as chagas de Cristo após pedir ardentemente e desejar sentir o mesmo sofrimento que Jesus sentiu, para a remissão dos pecados da humanidade. Ele queria reviver em si a paixão de Cristo, pois amava muito a Jesus e pediu o privilégio de sentir o mesmo que Jesus sentiu.
Os iniciados, místicos e esoteristas estudam o significado simbólico e místico da crucificação. No momento em que Jesus atravessou a chamada Paixão de Cristo, ele viveu uma experiência de tomar para si mesmo o sofrimento ou o karma da humanidade, ao menos uma parte do karma humano ele teria escolhido trazer para si e senti-lo. Esse processo faria com que, ao invés do karma da humanidade se abatesse contra milhões e milhões de pessoas, somente Jesus, no ato da crucificação, sentiria as dores, doenças e sofrimentos do mundo. É isso que é chamado de a “remissão dos pecados” pela Igreja Católica e o que no esoterismo é conhecido como “transmutação do karma da humanidade”.
Dizem que a maioria dos avatares ou grandes almas, os redentores, que vieram a Terra, cada um deles transmutou uma parcela do karma planetário, acolhendo para si o sofrimento das massas e de certa forma “salvando” as pessoas de seus erros de vidas passadas. Isso permite a humanidade sofredora aprender pela sabedoria e não pelas experiências ou, em ultima instância, pelo sofrimento. Padre Pio lembra muito as palavras de São Paulo, quando diz “Fui crucificado junto com Cristo. Já não sou eu que vivo, mas é o Cristo que vive em mim” (Gal. 2/19, 20). Muitos católicos têm plena consciência desse fato. É o caso de Lilá Sant´anna, uma das biógrafas do Padre Pio. Em seu livro, ela afirma que “A substituição mística encontra-se na vida dos santos, como, por exemplo, em Padre Pio, que se oferecia em lugar de outras pessoas, a fim de aliviar-lhes o sofrimento.”
Assim que um santo recebe as chagas de Cristo, ele aceita intimamente dar continuidade a esse processo de purgação do karma planetário. Na medida em que sente a dor das chagas, ele está, em verdade, sentindo a dor do karma de milhares ou milhões de indivíduos e ajudando a aliviar o sofrimento humano. Foi assim primeiro com São Francisco de Assis, e com vários outros indivíduos que o sucederam. Uma dessas almas foi Padre Pio, que recebera os estigmas tal como ele mesmo relatou. Os estigmas de São Francisco de Assis duraram apenas dois anos, enquanto os estigmas de Padre Pio tiveram a duração de 50 anos. Por este e outros motivos, ele é chamado algumas vezes de “o herdeiro espiritual de São Francisco”, por sua vida se assemelhar em pontos importantes a vida de Francisco de Assis.
O fenômeno das chagas atraiu a atenção de cientistas, estudiosos, religiosos e jornalistas do mundo inteiro, que atravessavam países e continentes para vê-lo de perto. Padre Pio foi o primeiro Padre da Igreja Católica a apresentar os estigmas. Os estigmas apareceram nas palmas das mãos, nos pés e em outras partes do corpo. Apesar da dor lancinante que sofria quase todos os dias, Padre Pio aceitava o sofrimento com amor, resignação, sem tristezas, reclamações ou pesares. Não há notícias de que ele tenha se queixado, uma vez sequer, das dores que as chagas lhe proporcionavam. Além disso, manteve total responsabilidade com relação a vida sacerdotal. Como ele mesmo dizia“Do altar para o confessionário e do confessionário para o altar”. Muitas vezes, ficava até 14 horas atendendo fiéis que vinham do mundo inteiro para vê-lo e ter ao menos uma pequena fração de tempo com essa alma de luz. Padre Pio era também chamado de “O Homem da oração” e “O homem da esperança”.
A História dos acontecimentos fantásticos da vida de Padre Pio não para por aí. Há muitos relatos de que o herdeiro espiritual de São Francisco de Assis era possuidor de outra capacidade psíquica; outro “dom miraculoso”, como os católicos costumavam chamar. Esse fenômeno é bem conhecido do esoterismo, do misticismo oriental, da Parapsicologia e até mesmo do Catolicismo. Antes de Padre Pio, a personalidade espiritual mais conhecida que realizara essa extraordinária faculdade era Santo Antônio de Pádua. Trata-se do fenômeno da Bilocação. Bilocação ou Bicorporeidade é a capacidade que alguns espíritos mais elevados possuem de estarem em dois ou três lugares ao mesmo tempo, em corpo materializado por eles, de forma a se tornarem visíveis e tangíveis a outros. Dizem que os indivíduos que possuem esse dom são vistos em dois ou três lugares por pessoas diferentes, pois são capazes de se deslocar em consciência e criar um corpo físico em qualquer local que desejarem. Padre Pio por diversas vezes usou esse dom e várias testemunhas confirmaram a autenticidade do fenômeno. Ele encontrava-se simultaneamente em dois ou três lugares.
Grandes almas realizam esse prodígio com o intento de estar em locais diferentes onde sua presença é solicitada e se faz necessária, geralmente por motivo de orientação e cura.
Muitas pessoas contam que viram o Padre Pio em determinados lugares, bem afastados do convento de San Giovanni, mesmo sabendo que o Padre Pio quase nunca saía de lá. Um desses relatos veio da Mãe Speranza, a fundadora da Ordem das Criadas do Amor Misericordioso. Mãe Speranza disse que via Padre Pio quase que diariamente, durante um ano, em Roma. O detalhe interessante é que todos sabiam que o Padre Pio foi a Roma apenas uma vez para levar sua irmã que havia decidido entrar no convento. Outro caso espantoso ocorreu em 1951, quando Padre Pio apareceu para celebrar uma missa em um convento de freiras da Tchecoslováquia. Após o término da missa, as freiras foram carinhosamente oferecer a Padre Pio um café e agradecer-lhe a benção de uma visita tão luminosa e inesperada. Quando chegaram à sacristia, perceberam que o Padre Pio não estava mais lá e indagaram-se por onde ele teria saído. As freiras então entenderam o fato como um milagre e consideraram que o Padre tivesse lhes visitado através da bilocação.
Além destes ocorridos, há vários outros que poderiam ser contados com detalhes. O fato é que Padre Pio verdadeiramente não era uma pessoa orgulhosa, ele demonstrava os chamados “milagres” de uma forma natural e espontânea, sem ofender, alardear ou ostentar suas faculdades interiores, comportamento digno das almas puras e sábias que vieram a Terra. A bilocação tinha sempre um objetivo e jamais se prestava a demonstrações vazias e inócuas. Geralmente, Padre Pio se bilocava para ajudar alguém necessitado, para a realização de curas, ou para uma palavra de orientação e conforto aos espíritos perdidos em seus sofrimentos.
De qualquer forma, mesmo com o precioso dom da bilocação, Padre Pio não podia corresponder às demandas de todos. Como era muito solicitado por fiéis do mundo inteiro, ele ensinava as pessoas uma técnica simples e direta para a comunicação com ele e com o mundo espiritual. Padre Pio valorizava muito a figura de nosso Anjo da Guarda, o Sagrado Anjo Guardião, um ser de luz muito elevado que cuida das almas encarnadas protegendo-as e auxiliando em sua evolução espiritual. De acordo com o Catolicismo, os anjos são mensageiros enviados por Deus e que servem de mediação entre o homem e a divindade. Assim, cada pessoa teria um anjo da guarda e esse ser de luz pode ser usado algumas vezes quando nossa intenção é pura e quando ela vai na direção do nosso desenvolvimento interior.
Seguindo essa linha, Padre Pio afirmava que Para todas as pessoas que vivem há um Anjo da Guarda. Por isso ninguém se encontra sozinho.” Quando uma pessoa precisava de ajuda, ele pedia a pessoa: “Envie-me seu Anjo da guarda, porque ele não paga ingresso no trem e nem consome seus sapatos.” Parece que o Padre tinha mesmo contato direto com os anjos, pois demonstrava sempre ter recebido as mensagens dos fiéis, mesmo quando não havia nenhuma forma de saber o que lhe fora enviado. Essa era uma forma de comunicação muito eficiente para ele: “É inútil que me escrevas, porque eu não posso lhe responder. Envie-me seu Anjo da guarda sempre, e eu farei tudo.”Era costume corrente dos adeptos e seguidores de Padre Pio enviar-lhe o anjo da guarda, tal como ele mesmo ensinara.
Certa vez, uma pessoa chamada Amélia Banetti, considerada a “filha espiritual de Padre Pio”, pensou em lhe enviar felicitações pelo aniversário de 20 anos do aparecimento das chagas. Porém, ela morava numa Aldeia em Turim e lá não havia agência de correio. Chegado o dia, Amélia infelizmente não encontrou ninguém que pudesse ir a cidade para enviar um telegrama de felicitações, tal como o costume dos filhos espirituais. Então, Amélia resolveu pedir ardorosamente ao seu anjo da guarda que enviasse a mensagem de congratulações diretamente ao Padre Pio. Passados alguns dias, Amélia recebeu uma carta de Rosine Placentino, uma amiga de San Giovanni Rotondo. Na carta, ela transmitia uma mensagem do Padre Pio agradecendo-lhe os votos espirituais enviados por ela.
Além do fenômeno das chagas e da bilocação, Padre Pio também ficou conhecido pelas incríveis curas que realizava. Há muitos testemunhos e evidências documentais de que essas curas realmente ocorreram, pelos menos é o que relatam muitas pessoas que conviveram com o Padre Pio. Os casos de indivíduos que melhoraram de alguma doença física após uma solicitação ao Padre Pio, ou mesmo depois de uma visita em bilocação são vários, mas podemos citar alguns mais conhecidos, tal como enumerado no livro de Lilá Sant´anna: cura de epilepsia na Itália, cura de Paralisia infantil na Polônia, cura de câncer no estômago na Itália, calcificação hipofísica na cabeça de uma criança, também na Itália, ùlcera cancerosa, duas hemorragias cerebrais, esterilidade, dentre vários outros.
Há um caso em que um homem, cego de um olho, com 50 anos de idade, recebe um presente com uma foto do Padre Pio. O homem então começa a rezar continuamente se concentrando na imagem. Durante a noite, ele encontrou o Padre num de seus sonhos. Ao acordar, percebeu que a sua vista estava completamente curada. Em outro caso, uma mãe levou uma criança com Leucemia à presença de Padre Pio, em San Giovanni Rotondo. A mãe e a criança receberam a hóstia consagrada das mãos do Padre. Ao retornarem para casa, resolveram fazer novos exames médicos. Para a sua completa surpresa, os novos exames revelaram que a Leucemia havia desaparecido integralmente, sem que os médicos pudessem explicar o motivo para tal ocorrência.
Um outro paciente com lesão na córnea faz insistentes pedidos a Padre Pio para que seja curado do seu problema. Durante suas orações, sente um inconfundível perfume no ar, que ele reconheceu como sendo o perfume que as chagas do Padre Pio espargiam no ar. Após esse acontecimento, o homem fica completamente curado da lesão. Além destes casos, poderíamos citar muitos outros relatos semelhantes. Muitos deles foram comprovados por avaliações médicas posteriores, não deixando margem a dúvidas quanto à natureza inexplicável das curas.
Haveria alguma explicação para as curas do Padre Pio? Há alguma relação dessas curas fantásticas, consideradas por muitos como “milagres”, com as chagas do Padre Pio? Se lançarmos um olhar sobre o passado, em especial a mitologia grega, veremos que há um personagem mitológico, chamado Quíron, que talvez possa lançar alguma luz sobre essas questões. Quíron, para aqueles que não conhecem, era um centauro, que possuía a uma ferida que permanência eternamente aberta. Ele teria recebido uma flechada envenenada de Héracles (Hércules) e essa ferida jamais fechara desde então. Mas como era um titã, era imortal. Como reza a tradição, Quíron era um exímio curador.  Quíron era conhecido por sua inteligência e seus dotes medicinais. Porém, o mais interessante é que, segundo a descrição do mito, a ferida de Quíron era o fator que lhe possibilitava realizar suas curas. Conta-se que Quíron sofreu muito com as dores da flechada, mas esse sofrimento não era em vão.
Aqui vemos certa analogia com o Padre Pio. Apesar de estar seriamente ferido nas mãos e pés, Padre Pio possuía o dom da cura. Aqui lembramos os estudos do arquétipo do curador ferido, estudado pela psicologia junguiana, pela Psicologia Transpessoal e tema de várias tradições contemplativas e místicas do passado. O curador ferido é um ser que recebeu, de alguma forma, um ferimento grave, mas essa ferida o capacitou a desenvolver o dom de curar outras pessoas.
No xamanismo, por exemplo, há indivíduos que adquirem o dom de cura após uma experiência de intenso sofrimento, onde são feridos insistentemente por entidades demoníacas. Muitas vezes, o aspirante a xamã fica doente durante muito tempo, às vezes por anos. Da mesma forma que a escura e cálida noite precede o amanhacer, as doenças, as feridas e os sofrimentos são uma provação iniciática, que precede um grande despertar. Existe certo padrão em todas as experiências xamânicas de iniciação, tal como foi atestado por vários estudos, em especial por Mircea Eliade. O candidato recebe um chamado (algumas vezes de seus espíritos guardiães ou auxiliares) e aceita seguir a sua vocação. É então levado aos reinos inferiores, onde se depara com a presença de várias entidades trevosas. Ele então é submetido a uma série de torturas, onde na maioria das vezes percebe o seu corpo sendo estraçalhado e devorado por espíritos das sombras. O futuro xamã é ferido em várias partes do seu corpo. Porém, o mais interessante é que, esses ferimentos são os grandes agentes da transformação que se processa dentro dele e que o fazem despertar para uma renovação integral em seu ser, capacitando o iniciando a se tornar um xamã, um indivíduo com sabedoria, poderes curativos e outras habilidades.
Vale ressaltar que no Xamanismo, a atuação dos espíritos inferiores é uma benção, posto que são eles os agentes da doença ou do sofrimento que trará a cura. São, nesse sentido, os agentes da purificação que trará a cura interior, uma forma de cura muito superior ao alívio de um sintoma.
Assim, os xamãs têm a consciência de que apenas o indivíduo que sentiu em si mesmo uma ferida, ou uma grave doença se abater sobre ele, pode despertar para o dom da cura. Apenas aqueles que chegaram ao extremo da doença, das dores e dos ferimentos conseguem conhecer intuitivamente os mecanismos e a natureza da própria doença, e assim obter a cura dos mesmos males. Diz Mircea Eliade que: “Cada um dos espíritos devora a parte do corpo que lhe cabe, cujo efeito é conferir ao futuro xamã a faculdade de curar as doenças correspondentes”. Como já dissemos, Padre Pio ficou doente durante boa parte de sua vida, sofrendo de moléstias gravíssimas. Após essas experiências, ao contrário de ficar debilitado, ele parecia estar renovado interiormente, regressando à rotina com conhecimentos superiores.
Conta-se que Padre Pio dificilmente dormia. O convento de San Giovanni Rotondo vivia cheio e pessoas de diferentes partes do mundo vinham com ele se confessar. Padre Pio, com a sua inesgotável benevolência e amor que sentia pelas pessoas, permanecia longos períodos ouvindo suas confissões, seus pecados e suas queixas. Passava longos períodos atendendo no confessionário e alguns dias ficava até 16 horas contínuas ouvindo os devotos. Apesar de realizar tudo com amor, Padre Pio às vezes sentia um forte cansaço e chegava mesmo a dizer “Não tenho um minuto sequer para mim”. Apesar disso, todos sentiam uma vibração muito positiva que emanava do Padre. Ele não deixava de atender nenhum dos seus devotos necessitados.
Além de todas as correlações da vida do Padre Pio com outras tradições espirituais, há ainda uma semelhança com a devoção do Padre Pio perante a humanidade sofredora. Num dos seus discursos, próximo de sua morte, Padre proferiu algumas palavras que muito se assemelham aos seres que no Budismo são conhecidos como Bodhisatwas. Os Bodhisatwas são indivíduos que venceram a roda dos nascimentos e morte, extinguiram todo seu karma e se libertaram da ilusão do mundo, estando bem próximos do Nirvana. Nirvana é um estado de consciência de pura felicidade e bem aventurança, estado o qual aspiram todos os praticantes budistas. Os Bodhisatwas, ainda em vida, fazem um voto de renunciar ao nirvana até que toda a humanidade sofredora também possa alcançar o nirvana, o estado que eles mesmos alcançaram. Então, eles abdicam desse estado de sublime consciência universal e continuam no mundo, servindo aos necessitados e contribuindo para a sua evolução. Padre Pio, num dos seus discursos, disse que “Ficarei na porta do Paraíso até o último dos meus filhos entrar”. Para aqueles que conhecem o voto do Bodhisatwa, essa frase traduz perfeitamente a intenção da ajuda prestada aos seres que ainda permanecem no samrara, ou a roda dos nascimentos e mortes, onde há ilusão, erros e limites. Padre Pio prometeu permanecer na porta do paraíso, ou seja, fora dele, até que cada um dos filhos de Deus possa nele ingressar. Essa atitude demonstra um desprendimento muito grande e um profundo amor por todos os seres.

Fonte:
 https://hugolapa.wordpress.com/2009/11/03/padre-pio-de-pietrelcina/
(HUGO LAPA)
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16 de setembro de 2016

O canto dos pássaros o incomoda ? Será que perdemos a nossa conexão primordial?

J. Ricardo A de Oliveira

De tanto amar o feio o belo passa a ser esquisito, incômodo, destoante.
Pobre civilização em agonia, já não sabe mais apreciar o canto dos pássaros e tê-los como melodia que embala os seus sonhos...
 Onde moro, desde criança ouço os sabiás que anunciam que o tempo das flores chegou que a frieza do inverno está no fim e que é tempo de alegria e muita luz.
Eles chegam na madrugada e cantam até quase a exaustão, seu canto me traz sonhos de natureza.
Sempre que os ouço agradeço a Deus por continuarem existindo em meio a tanta devastação.



Lendo no jornal hoje uma reportagem sobre o incômodo que o canto dos sabiás vem provocando em algumas pessoas, lembrei que há muitos anos, quase 40, quando casei ganhei um Coleiro Papa Capim de um amigo. Naquela época ainda não era politicamente incorreto ter pássaros na gaiola e eu o coloquei na área do novo apartamento que ficava a um passo da floresta da tijuca.
O bicho cantava de arrebentar e isso atraia uma grande quantidade de outros pássaros, para a área de serviço, tantos que passei a colocar comida e água e eles cantavam agradecidos. Uma verdadeira sinfonia de alegria e beleza.
Qual não foi a minha surpresa, quando um dia bem cedo, antes de sairmos para o trabalho, bateu à nossa porta uma enraivecida vizinha, bobs na cabeça, cara amarrada, nem bom-dia deu, foi logo dizendo:
 Olha, eu sou muito nervosa, muito, muito mesmo e odeio canto de pássaros ! Mas disse essa última parte do recado como que a cuspir fogo dos olhos.  E concluiu: se vocês não derem fim a este passarinho infernal que canta o dia inteiro, eu vou tomar providencias, vou a polícia denunciar. E dizendo isso deu as costas, sem mais, nem talvez...
Meio espantado, sem nem entender muito bem, pensei: polícia ?  Canto de pássaro infernal?
Como não tinha muito tempo porque trabalhávamos o dia inteiro e depois ainda seguíamos para a faculdade, só voltando ás 11 da noite, decidi levar o pássaro até a floresta da Tijuca e soltá-lo.
 De volta coloquei um laço na parte de cima da gaiola e pedi ao porteiro que entregasse o presente à Aborrecida vizinha  com meus votos de Paz e muita alegria.
Nenhuma resposta.
Soube depois que ela sempre dava alteração quando percebia que havia festa em algum apartamento, ou até mesmo quando ouvia pessoas rindo um pouco mais alto. O porteiro comentou que a coitada sempre reclamava de tudo e de todos.  
 Há pessoas que não suportam a alegria, a luz, o sol, o canto dos pássaros. Odeiam a vida e fazem dela um martírio para elas próprias e para os que estão a sua volta. De tanto se encastelar em seus mundinhos cinza perderam a noção de que fazem parte da natureza. De tanto se afastarem de si mesmas acham que são entidades únicas, acima da natureza, criaturas especiais, que precisam ser reverenciadas e jamais incomodadas até mesmo pelo canto de um pássaro.
Quanto a mim, que hoje moro no meio do caminho entre a Quinta da Boa Vista e a Floresta da Tijuca, que venham os sabiás, e quando amanhecer, os Maracanãs em algazarra, afinal eles já eram moradores deste lugar antes  que nós nos instalássemos  aqui e promovêssemos a sua expulsão.

“Vou voltar
Sei que ainda vou voltar
Para o meu lugar
Foi lá e é ainda lá
Que eu hei de ouvir cantar
Uma sabiá...
Vou voltar
Sei que ainda vou voltar
Vou deitar à sombra
De um palmeira
Que já não há
Colher a flor
Que já não dá
E algum amor Talvez possa espantar
As noites que eu não queira
E anunciar o dia  “  

 Sabiá -  Chico Buarque de Holanda 



Abaixo  reportagem do Jornal.

Cantoria de sabiá-laranjeira na madrugada divide ouvidos paulistanos
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ROBERTO DE OLIVEIRA
DE SÃO PAULO



Diz uma antiga lenda indígena que, durante as madrugadas, no início da primavera, quando uma criança ouve o canto de um sabiá-laranjeira, ela é abençoada com amor, felicidade e paz.
Isso lá na floresta. Na selva urbana, a história é outra: tem gente se revirando na cama com a sinfonia que chega a durar duas horas seguidas antes mesmo de clarear o dia.
"Morei 35 anos no interior paulista e nunca fui acordada por passarinho algum", conta Adriana Matiuzo, 37, moradora do Brooklin (zona sul). "Agora, em plena São Paulo barulhenta e caótica, minhas madrugadas têm sido bem diferentes."

Por volta das três da matina começa a sinfonia. O cantante é o sabiá-laranjeira, ave-símbolo do Brasil e do Estado de São Paulo, que vive no campo e na cidade.
Por causa do insistente gorjeio, "posts" vêm pipocando nas redes sociais, reivindicando o silêncio dos passarinhos em prol do sono.
O diretor de arte Gilberto Leite, 38, postou: "Ele canta três acordes e fica o dia inteiro martelando isso. É insuportável!". À reportagem, disse ele: "Vou ser linchado pelos protetores dos pássaros, mas que é insuportável, isso é".
O engenheiro Johan Dalgas Frisch pensa diferente. "O sabiá é considerado a ave que melhor canta", afirma.
Um dos maiores especialistas do país, respeitado internacionalmente, esse ornitólogo já gravou 18 discos... de cantos de passarinhos.
Frisch, 83, pioneiro na gravação de vozes de aves da América do Sul, diz que quem reclama da cantoria é "gente que nasceu num bloco de concreto sem conhecer o chilreio dos passarinhos".

DE PAI PARA FILHO
Segundo o ornitólogo Márcio Repenning, 31, do Laboratório de Ornitologia do Museu de Ciências e Tecnologia da PUC-RS, a ave canta principalmente para defender um território em disputa com outros machos da mesma espécie e seduzir a fêmea. "Machos que cantam com mais vigor a priori terão melhor capacidade de alimentar os filhotes."
Já Frisch lembra que o pássaro fica a até cinco metros de distância do ninho para ensinar a melodia aos filhotes, explicando, assim, a aula madrugada afora.
A escolha do horário, diz Frisch, é estratégica: durante o dia, se abandonasse o ninho, o macho deixaria os filhotes na mira de predadores.
O pássaro é o regente da estação que se avizinha, mesmo numa cidade com pouca área verde como São Paulo. De Higienópolis ao Morumbi, do Sumaré ao Tremembé, o canto está por toda a parte.
Morador de Interlagos (zona sul), o dramaturgo Brunno Almeida Maia, 26, conta que a rua onde vive nem é tão arborizada assim, mas, "por sorte", a vizinha tem um jardim, que é voltado para a janela do quarto dele.
"Como tenho insônia, ouço o trinado até as 5h. Confesso, não me incomoda. É como o barulhinho da chuva."
Diz que prefere o canto do sabiá-laranjeira ao ronco de alguém ao seu lado ou "à barulheira de um vizinho ouvindo 'Applause', da Lady Gaga". "Eu quero mais é o sabiá."
Nenhum pássaro da espécie canta igual ao outro, segundo Frisch. O ornitólogo catalogou o canto de mais de cem sabiás em diferentes pontos da cidade e do país.
Da literatura ao cancioneiro popular, o pássaro ganhou homenagens de nomes como Marisa Monte, Tom Jobim e Chico Buarque. Roberta Miranda compôs e Jair Rodriques celebrizou: "A majestade, o sabiá!". O bicho solta o gogó pelo menos até o verão. E a primavera ainda nem começou!


14 de setembro de 2016

Mudança de Rumo

Diz a máxima de Dane Rudiar, o magnifico astrólogo teosofista que "não são as coisas que nos acontecem e sim, nós é que acontecemos às coisas.Quando olho para a realidade que nos cerca neste momento de nossa história, tomando por base o que diz o astrólogo e o que nos ensina a filosofia havaiana do Ho'oponopono, eu preciso curar em mim esses absurdos que estão me rodeando.Se para alguém que me lê, não conseguir acompanhar o que digo eu recomendo a leitura tanto do D.Rudiar como a do livro "Limite Zero" do Joe Vitale, onde ele descreve a experiência do psiquiatra Havaiano Dr Ihaleakala Hew Len em um manicômio de alta periculosidade e de como ele mudou a realidade deste lugar com essa técnica havaiana.Na verdade eu já vinha amadurecendo esta ideia há algum tempo. Afinal paradigmas só mudam a partir de mudanças em nós,Confesso que tenho a impressão de estar diante de uma hecatombe onde valores vem se degradando e desabando diante de meus olhos. Seja pelo que acontece na politica, ou nas relações pessoais, no comportamento de numerosas pessoas que parece terem perdido o senso mínimo de humanidade, ou na opção pela mentira que norteiam os veículos de comunicação, tudo parece estar nos levando para um final de linha.
Vejo que já ultrapassamos o que o F. Capra chamou de "Ponto de Mutação" em seu livro da década de 80 e rumamos aceleradamente em queda para uma mudança drastica de valores. A nossa civilização ultrapassou seu ponto mais alto.
Algo novo, a nova civilização já deve ter surgido, mas levará algu tempo para que se possa perceber ou reconhecer. Acho que já não estarei aqui quando isso acontecer, mas sei que posso e devo contribuir para essa mudança.Sendo assim é tempo de mudanças, de investir no novo de partir para uma outra realidade. Como toda mudança sei que será dificil, dolorosa, criticada e vista como insana. Mas vale a aposta, eu tenho certeza. Sei que poderei errar feio, mas a vontade de encontrar o caminho certamente me guiará pela escuridão que logo se transformará em noite enluarada e depois dia claro.

Vamos em frente:
Se eu ou algum dos meus ancestrais contribuíram para este estado de desarmonia em mim e ao meu redor, digo ao divino criador que eu sinto muito, me perdoe, sou grato e te amo.E aproveito para pedir que Ele, o divino criador, cure em mim as memorias que estão causando este estado de coisas em minha vida e ao redor dela.Minhas queridas memórias, sou grato por poder libertá-las e desta forma também me libertar.A todos que me acompanham um caloroso abraço e votos de Paz e Luz!

11 de setembro de 2016

13 de Setembro - São João Crisóstomo

.
O doutor da Igreja São João Crisóstomo
disse um dos mais profundos gritos de libertação:




"Queres honrar o Corpo de Cristo? Não permitas que seja desprezado nos seus membros, isto é, nos pobres que não têm que vestir, nem O honres aqui no templo com vestes de seda, enquanto lá fora o abandonas ao frio e à nudez. Aquele que disse: « Isto é o meu Corpo », [...] também afirmou: « Vistes-Me com fome e não me destes de comer », e ainda: « Na medida em que o recusastes a um destes meus irmãos mais pequeninos, a Mim o recusastes. [...] De que serviria, afinal, adornar a mesa de Cristo com vasos de ouro, se Ele morre de fome na pessoa dos pobres? Primeiro dá de comer a quem tem fome, e depois ornamenta a sua mesa com o que sobra »
S. João Crisóstomo: Fonte: Homilias sobre o Evangelho de Mateus, 50, 3-4: PG 58, 508-509; cf. João Paulo II, Carta enc. Sollicitudo rei socialis (30 de Dezembro de 1987), 31: AAS 80 (1988), 553-556."






S. João Crisóstomo, em grego Ιωάννης ο Χρυσόστομος, (349, Antioquia da Síria, hoje Antakya, no sul da Turquia - 14 de Setembro de 407) foi um teólogo e escritor cristão, Patriarca de Constantinopla no fim do século IV e início do V. Sua deposição em 404 produziu uma crise entre a Santa Sé e a Sé Patriarcal. Pela sua inflamada retórica, ficou conhecido como Crisóstomo (que em grego significa «boca de ouro»).
"Como verdadeiro pastor, tratava a todos com cordialidade, (...) em particular nutria uma ternura especial pela mulher e dedicava uma atenção particular ao matrimônio e à familia" e "convidava aos fiéis a participar na vida litúrgica, que fez esplêndida e atractiva com criatividade genial". Mas "apesar de sua bondade (...) se viu envolto em freqüentes intrigas políticas, por suas contínuas relações com as autoridades e as instituições civis (...) e foi condenado ao exílio".
A atenção de João Crisóstomo para com os mais desfavorecidos é uma das suas mais relevantes características, a ponto de ter sido ele a celebrizar a expressão «o pobre é um "Alter Christus"». Para ele, de facto, oferecer atenção e dedicação a um pobre é dar ao próprio Cristo: «Não há diferença alguma em dar ao Senhor e dar ao pobre, pois Ele mesmo disse "quem dá a estes pequenos é a mim que dá."» ("Sobre o Evangelho de Mateus", LXXXVIII, 2-3)
Comentando os Atos dos Apóstolos, São João Crisóstomo propõe "o modelo da Igreja primitiva, como modelo da sociedade, desenvolvendo uma "utopia social", a idéia de uma cidade ideal, tratando de dar uma alma e um rosto cristão à cidade. Em outras palavras, Crisóstomo entendeu que não era suficiente dar esmolas, ajudar aos pobres, caso a caso, mas que era necessário criar uma estrutura, um novo modelo de
É considerado santo pelas Igrejas Ortodoxa e Romana; é, a par de Gregório de Nanzianzo, de Gregório de Nissa e de Basílio de Cesareia, um dos quatro grandes Padres da Igreja Oriental; é ainda um dos Doutores da Igreja Católica.

Natural de Antioquia, filho de uma família cristã, estudou, na sua cidade natal sob Libânio, filosofia e retórica. Com a idade de vinte e um anos, depois de estar três anos a colaborar com o bispo Melécio de Antioquia, e de ter recebido o baptismo, foi ordenado leitor. Contra a oposição familiar, viveu alguns anos como ermitão no deserto.
Ao longo deste tempo continuou o estudo das escrituras sagradas e, quando regressou a Antioquia foi ordenado Diácono por Melécio e Sacerdote pelo bispo Flaviano em 386. Acto contínuo, este último encarregou João Crisóstomo das pregações na principal igreja da cidade, cargo que desempenhou até 397. Este período de doze anos, foi o mais fecundo da sua vida e nele proferiu as sua homilias mais conhecidas e que, no século VI, lhe valeriam o qualificativo que passou a fazer parte inseparável do nome com que passou para a posteridade: crisóstomo, isto é, boca de ouro.
Os últimos anos de sua vida foram tumultuosos. Foi eleito bispo de Constantinopla em 397 e Teófilo de Alexandria foi, contra a vontade deste, obrigado a consagrá-lo bispo, coisa que não perdoaria jamais a João. Uma vez bispo, quis começar uma restauração eclesiástica na qual - quiçá por falta de habilidade - a sua boa, e decidida, vontade se deparou com os obstáculos existentes e com os muitos interesses de alguns privilegiados. Pouco a pouco entrou em conflito com parte do clero, e, pouco depois, com a imperatriz Eudoxia.
Nesta situação, Teófilo de Alexandria conseguiu reunir aquele que depois viria a ser chamado o Sínodo da Encina, perto de Calcedónia, onde, com acusações falsas, conseguiu que Crisóstomo fosse deposto e desterrado pelo Imperador. O povo de Constantinopla, em especial os mais desfavorecidos - por quem João tanto havia feito - amotinou-se e João, no dia seguinte ao da sua saída, voltou para a sua sé episcopal.
Contudo, poucos meses depois, a situação voltou a piorar e acabou por ser desterrado para a Arménia em 404, de onde, a pedido próprio - por causa do perigo que podia representar para a sua vida a inveja de seus inimigos face às multidões que a ele acudiam -, foi de novo desterrado para um lugar mais distante, na extremidade oriental do Mar Negro. A caminho deste seu último desterro, morreria no ano de 407. Os seus restos mortais foram levados para Constantinopla em 438, e o Imperador Teodósio II, filho de Eudoxia, pediu publicamente perdão em nome de seus pais.Desde o dia 1 de maio de 1626 o seu corpo repousa na Basílica de São Pedro .






28 de agosto de 2016

A terceira das idades, ou quando o mundo passa a nos considerar idosos.



A verdade é que sempre será uma questão de referência.
Ou seria preferência?

A verdade é que cheguei na tal idade...
Não é de hoje aprendi que o melhor mesmo é viver.
Deixar a vida me viver, sem impedir seu fluxo.
Alcanço agora não a primeira, nem a segunda,
Mas a terceira das idades.
Para muitos a pior, para outros a melhor.
Quanto a mim, acho ótimo ser jovem, cada vez há mais tempo.


Da calmaria meio insossa dos primeiros anos,
Cheguei rápido  à primavera que antecede os anos tórridos.

E daí, passei aos anos, nem quentes nem frios,
Mormaço úmido, numa sequência outonal
Como céus sem nuvens, expectantes;
Tempo de dúvida de como serão as noites frias de inverno.
O que estará por vir, amiga vida?

Feliz percebo a esperança, teimosa e insistente.

Peço a Deus que ela me seja sempre companheira.
Que Ele não permita que ela e os sonhos,
 Sejam derrotados e sucumbam às lembranças,
Que os sonhos não desanimem, 
Diante dos desafios de uma nova infância, a segunda.


Por fim,
Quero muito poder recuperar a simplicidade e a ingenuidade,
Mesmo depois de tanta experiência e de ter sido merecedor da sabedoria,
ter provado da maldade alheia e saboreado o gosto amargo do sofrimento.
Diz o poeta que sonhos, não envelhecem... confio nele.

Quero então estar preparado minha amiga vida,
Para daqui há alguns anos, muitos, eu imagino e espero,
Saborear o momento feliz de me entregar 
E no fim, te agradecer a companhia.






18 de agosto de 2016

CANTO PARA AS TRANSFORMAÇÕES DO HOMEM *

Moacyr Felix


A todos os que sonham e trabalham por um mundo melhor, libertado dos obscurantismos e dos dogmas, do apodrecimento da própria existência pela
miséria física e da perda dos valores dos humanismo pela miséria moral.


(I) INICIAÇÃO

- Meu pai, o que é a liberdade?

- É o seu rosto, meu filho,
o seu jeito de indagar
o mundo a pedir guarida
no brilho do seu olhar.
A liberdade, meu filho,
é o próprio rosto da vida
que a vida quis desvendar.
É sua irmã numa escada
iniciada há milênios
em direção ao amor,
seu corpo feito de nuvens
carne, sal, desejo, cálcio
e fundamentos de dor.
A liberdade, meu filho,
é o próprio rosto do amor.

- Meu pai, o que é a liberdade?

A mão limpa, o copo d’água
na mesa qual num altar
aberto ao homem que passa
com o vento verde do mar.
É o ato simples de amar
o amigo, o vinho, o silêncio
da mulher olhando a tarde
- laranja cortada ao meio,
tremor de barco que parte,
esto de crina sem freio.

- Meu pai, o que é a liberdade?

È um homem morto na cruz
por ele próprio plantada,
é a luz que sua morte expande
pontuda como uma espada.
É Cuauhtemoc a criar
sobre o brasileiro que o mata
uma rosa de ouro e prata
para altivez mexicana.
São quatro cavalos brancos
quatro bússolas de sangue
na praça de Vila Rica
e mais Felipe dos Santos
de pé a cuspir nos mantos
do medo que a morte indica.
É a blusa aberta do povo
bandeira branca atirada
jardim de estrelas de sangue
do céu de maio tombadas
dentro da noite goyesca.
É a guilhotina madura
cortando o espanto e o terror
sem cortar a luz e o canto
de uma lágrima de amor.
É a branca barba de Karl
a se misturar com a neve
de Londres fria e sem lã,
seu coração sobre as fábricas
qual gigantesca maçã.
É Van Gogh e sua tortura
de viver num quarto em Arles
com o sol preso em sua pintura.
É o longo verso de Whitman
fornalha descomunal
cozendo o barro da Terra
para o tempo industrial.
É Federico em Granada.
É o homem morto na cruz
por ele próprio plantada
e a luz que sua morte expande
pontuda como uma espada.

- Meu pai, o que é a liberdade?

A liberdade, meu filho,
é coisa que assusta:
visão terrível (que luta!)
da vida contra o destino
traçado de ponta a ponta
como já contada conta
pelo som dos altos sinos.
É o homem amigo da morte
Por querer demais a vida
- a vida nunca podrida.
É sonho findo em desgraça
desta alma que, combalida,
deixou suas penas de graça
na grade em que foi ferida...
a liberdade, meu filho,
é a realidade do fogo
do meu rosto quando eu ardo
na imensa noite a buscar
a luz que pede guarida
nas trevas do meu olhar.



(II) ENREDO


I

Onde se destrói o mundo em que vivo
aí estou.
Onde há destruição, aí se define o meu caminho.
Onde os deuses se desmoronam é que apareço
sem rosto
atrás de suas formas feitas de noite e de medo.
Onde se morre, onde se nasce.
Onde se morre é que eu renasço.

- Stirb und werde!
- “Morre e transmuda-te!”
Está não é, meu velho Goethe, a verdade das verdades, a ignorada
pelos que apenas
“um hóspede triste sobre a escura terra”?!
A morte e o fogo e a humilhação e o ódio
em vida e verde devem ser devolvidos.


II


Depois de silenciar o vozerio das cores
nas coisas cinzas que não dizem mais
do olhar humano que as fizera humanas,
a chama desce, e em rodopios tontos
retorna ao calor íntimo da terra,
ao berço rubro, à causa que realiza
este mistério grande de existir
o peixe e a estrela, o movimento e a cor
e o som do homem a se querer de amor.
Medo e humilhação e ódio
Assim alimentados serão devolvidos.


III


Medo e humilhação e ódio
devem ser devolvidos:
infenso ao homem é guardá-los em sua alma
receptáculo de coisas maiores
(como as águas da lua a perlavar a noite
num rosto de criança que dorme
ou numa anca macia de mulher nua).
Porque emudeceu a voz mais alta de minha infância?
Que ternura imunda rouba
A fala do mar dos pés de uma criança?
Que nos faz sobreviver, adultos
somente em medo e humilhação e ódio?
Querer-me novo é querer-me mais que morto
em mim ou nesta existência que me olha.
É querer-me outro que não este em que me instalaram.
É não parar, não querer parar os eixos
desta roda de luz
- plural de eternidades
a dissolver o bronze entre os escombros do que eu era.
Nesta banda podre do tempo
A água não inventa rios
nem ouve os cantos do mar.
Nestas escarpa onde habitam os dourados senhores do sul
ninguém nasce, ninguém agoniza mais de uma vez.
Aqui o sangue se enclausura
numa ordem arrumada como a das geladeiras.
E não sabe mais a ciência do orvalho numa alegria de flor.
Aqui a morte interrompe apenas o esforço de durar.
Aqui
Medo e humilhação e ódio
não devem ser recebidos
Muitas vezes essa é a única forma concreta de amar
aqui.


IV


Quando ensolarada pelas raízes do fogo, a vida
é o coração ligado ao velocíssimo novelo das galáxias
e na fúria de uma lágrima, senhores, e no desejo
de todo amor que se descobre
fogo e movimento e transformação
eu poderia doar-vos o acontecimento ilimitado,
o reinado da ordem e do caos anteriores a todos os deuses.


Porém a treva, a treva deste mundo em que eu escuto
estilhaçar-se a vida em seu cristal escuro,
a treva
só me permite em vossas mãos (e nas minhas)
apenas com esses parcos cacos de mim próprio...


Os vossos mitos são fortes, senhores, muito fortes.


V


Nos álbuns de família quem ganha e perde
és tu, sombra de Heráclito,
a transformar em chuva o sol em nossos rios.


Nos álbuns de família com brasões, a sepultura ideal
dos que já morreram
tantas vezes
quantas as que se deixaram fotografar
singulares
sobre uma data, uma conquista ou uma verdade
que pensaram imóveis.
Se o camponês não possui maquinas
Fotográficas
Para re-saltar o instante de sua morte como servo,
que família imóvel é essa que se quer sagrada?
Ignora ela a vazia tristeza dos seus domingos,
quando os cupins também a devoram ao lado da Casa Grande?
Nos álbuns de família, qual a vida que está neles?

Se em cada página o tempo ri
velho devasso, avô caduco
a negar ajuda e mão
estranha-mente
aos netos acordados pelo dor em fundo chão.

Nos álbuns de família quem ganha e perde
és tu, sombra de Heráclito,
a transformar em chuva o sol de nossos rios.


VI


De repartição em repartição a poesia
fugiu, tentou fugir
do engavetado mundo das mesas
alinhadas
como leitos fúnebres
à disposição das
necrófilas orgias de generais e beatas e banqueiros
e exporta-dores.
Ah, o clima de cemitério que reina nos ministérios!
Ah, a essencial recusa da poesia,
suas explosões de sangue naufragando
o destino e a infiníta infância da vida
entre os ruídos do mar e a rouquidão dos homens
agachados.
Agachados
sob o pensamento natimorto dos que divinizam
o Poder, o Estado, e a Política.
Ah, a aurora guardada no tinteiro dos poetas
em que o amor apenas autoriza o dia
na praça
sem o discurso hipócrita
ou na cidade sem bancos e sem forças armadas.


VII


Assim como defende
a perfeição da flor
acabada
e em si mesma fechada,
o poeta não defende
até hoje governo algum:

seu lado é o lado do povo
sempre e sempre roubado
por mil, por cem ou por um.

O pelego se untou
nas banhas do negocista
e engordou engordou
tanto
que a sua barriga tão grande
esmagou

a menina do povo
que vinha com a flor,
que vinha com a flor.

O poeta defende
o direito de andar

até o outro lado da vida
em que o homem é o seu avesso
o chão de seu próprio mar
e a verdade a rosa nua
solta na praia e na rua
como um convite a bailar.

O poeta defende
o direito de amar.


VIII


Do princípio e do fim das horas que o dinheiro envilece
foi então que chegaram os matadores de pássaros,
os que invadiram a minha ilimitada gaiola de ossos
e arrastaram de lá o poeta
para os depósitos de preços ou de presos.

A roda dos olhos quebrada ou o acanalhamento.
O mundo, ou o interior do exterior, tinha que ser quebrado
alguma coisa, a vida, tinha que ser quebrada
já que os homens inteiros estavam ainda no ventre
dos que reivindicavam uma história nova
nos campos e nas fábricas.
Ou no pensamento daqueles que sabiam escutar, mas
com um punhal na cintura,
o abraço das coisas e dos seres.

De re-partição em re-partição a poesia
Comprimiu o poeta no coração de uma bala.


IX


Segregada pelos amiantos do medo nos comutadores
e nos lustres, a luz
despe-se de todo berro e toda flama,
enquanto no morno ritual da sala
a saltar de colarinhos e colares
a palavra do homem assassina o homem: repetição de quando
o sílex, afiado, trazia a morte para as suas carótidas.
Os antigos porém, desconheciam os terríveis cortejos
a enterrar na tarde movida pela fala inglesa
a mudez de um Cristo sempre de madeira
e a histórica possibilidade de liberdade na existência.
E não gelavam o sangue da palavra injustiça
Em fáceis copos de uísque.

Nem mediam também a construção do homem pelo número de suas latrinas

sabiam eles, os antigos, pelo menos a diferença
entre o conforto das jaulas e o fogo aceso no topo das montanhas.
Mais alto do que eles, o coração do povo tem que saber isso!
Mais alto do que eles, o carvão que faz a noite
vestir a chama do silêncio em chamas
escreve

na estupidez moderna destes nossos muros
indicações escritas pelo sol nos mapas do futuro.


X


O homem, os homens
São vitórias da morte a circular as vidas
ou sombras opacas de uma Vida
em que esse anti-salto, a morte
não existe e nem nunca existiu
a não ser em seu não-ser de ser
desvão ao lado de desvão na ponte?

Se os câes falassem, ah, como ririam
(em frente ao sol)
dos nossos medrosos altares.


(III) CONCLUSÃO

É inútil querer parar o Homem,
o que transforma a pedra em piso,
o piso em casa e a casa em fonte
de novas músicas da carne
sob as velocidades da luz e da sombra.
É inútil querer parar o Homem
acolher sempre um pouco de si próprio
no mistério da vida a cavalgar
os cavalos aéreos da semântica
sob uma indeferida eternidade.
É inútil querer parar o Homem
e o impulso que o transforma sempre
na pátria sem fim do ato livre
que arranca a vida e o tempo e as coisas
do espelho imóvel dos conceitos.
Ah, que mistério maior é este
que liga a liberdade e o homem
e une o homem a outros homens
como o curso de um rio ao mar!
(quando a noite é una e indivisível,
nos olhos da mulher que eu amo
acende-se o deus deste segredo
-e uma sombra só nos transporta
ao fundo sem nome da vida.)

É inútil querer parar o Homem.
Do que morre fica o gesto alto
a ser o germe de outro gesto
que ainda nem vemos no tempo.
Isto as crianças nos lembram
quando rodam em nossas portas
os ossos do dia que foi nosso
e agora são os eixos do pedalar
nas bicicletas com que os deuses
as vão levando para outros dias
do acaso, do desejo e do fazer
em que não seremos mais, eternamente.
É inútil querer parar o Homem
e o seu sonho a dar longas voltas
ou a inventar estradas no cárcere,
o seu sonho mais essencial
a destruir e a enferrujar
metais de qualquer ditadura.
É inútil querer parar o Homem
e o seu sonho, o mais de flor,
de apagar dos lábios da terra
o ricto do medo que estica
no céu de aço a bomba atômica;
o seu sonho, que é o seu movimento
onde a razão dança mais bela,
de ver no armário dos museus
o manual oco e sem asas
que aprisiona o corpo e o sexo
en desrazões dadas na infância
e os livros de Deve & Haver
dos poderosos de Manhattan
comerciando Deus e o mundo.

É inútil querer parar o Homem
e o seu sonho de enterrar
sob o verde passo de uma história livre
os dogmas do stalinismo
grudado como esparadrapo
sobra a boca múltipla da vida
(e a subdesenvolvida farda
dos tiranos que bebem uísque
pago com o sangue de sua pátria).
É inútil querer parar o Homem:
em tudo que de amor cantar
o seu sonho caminhará
a encaminhá-lo na direção dele próprio
inteirado quando históricamente liberto
do econômmico em que ora o algemam.
É inútil querer parar o Homem,
o que transforma a pedra em piso,
o piso em casa e a casa em fonte
de novas músicas de carne.
A andar em formas de palavras
sob os arvoredos da vida
o sonho do Homem caminhará
do pensamento para as mãos
e das mãos para o pensamento,
noite e dia caminhará.
até tornar as mãos em pássaros
livres, inteiramente livres, para amar
o azul ou as várias almas do céu
dentro do Homem que se movimenta
na liberdade, no amor e no desejo
em que a si próprio inventa.



____
* Deste poema, escrito em maio de 1964, o fragmemto inicial foi então publicado no Correio da Manhã. Diagramado com eficiência na seleção intelectual de cada fragmento do seu texto e no uso adequado das ilustrações feitas pelo talento criador de Poty, o célebre gráfico Rubens de Barros Lima, neste mesmo ano, armou também um livro de 84 páginas, no formato de 18x24 cm, e tão graficamente bonito, que à Editora foi concedida, por essa beleza gráfica, a Medalha de Ouro da Câmara Municipal do Livro em São Paulo.
Sendo um dos primeiros livros contra o golpe militar de 1964, a livrariada Civilização Brasileira, em gesto típico de Ênio Silveira, colocou-o no espaço total de suas estantes para a rua e sobre elas estendeu uma longa faixa onde estava escrito ”A poesia é a arma do povo contra a tirania”. O livro esgotou-se rapidamente. (N. do A.)

Moacyr Félix de Oliveira (Rio de JaneiroRJ, 11 de março de 1926 — Rio de JaneiroRJ, 25 de outubro de 2005) foi um poetaescritoreditor e intelectual brasileiro.

Começou sua trajetória como editor em 1954, quando integra a equipe de redação da revista literária Marco, e de 1954; em 1956 integrou a comissão de redação da revista Caderno do Nosso Tempo, do Ibesp. De 1956 e 1958, foi o responsável pela seção de poesia e escreveu artigos de crítica e balanços literários no Para Todos, jornal de cultura do antigo Partido Comunista Brasileiro (PCB), dirigido por Jorge Amado e Oscar Niemeyer, e redator-chefe Moacyr Werneck de Castro; de 1963 a 1971, diretor da Coleção Poesia Hoje, da editora Civilização Brasileira, que juntamente com as coleções Poesia Sempre e Poesia Viva; em 1965, faz parte do conselho de redação e depois secretário da famosa Revista Civilização Brasileira, editada por Ênio Silveira e em 1966, torna-se diretor. Como poeta, de 1955 a 1960, colaborou em vários jornais, como o Correio da Manhã, o Diário de Notícias, o Diário Carioca e Jornal do Brasil. Como jornalista, de 1955 a 1962, fez parte também do conselho de redatores e redator-chefe do Jornal de Letras. Em 1962, escrevia ao domingos, no Diário de Notícias, a seção "Radiografia de um livro", dedicada a autores de filosofiasociologiapolítica e economia. Como intelectual e ativista, foi um dos fundadores do Comando de Trabalhadores Intelectuais (CTI), que teve a adesão no Rio de Janeiro de mais de quatrocentos intelectuais de todas as áreas das artes, da literatura, da ciência e das profissões liberais. Em 1964, foi eleito membro do Conselho Deliberativo deste comando.
Obras
  • Cubo de Treva (1948);
  • Lenda e Areia (1950);
  • Itinerário de uma Tarde (1953);
  • O pão e o Vinho (1959);
  • Canto para as Transformações do Homem (1964);
  • Um Poeta na Cidade e no Tempo (1966);
  • Canção do Exílio Aqui (1977);
  • Neste Lençol (1977);
  • Invenção de Crença e Descrença (1978);
  • Em Nome da Vida (1981);
  • Encontros com a Civilização Brasileira (1981);
  • Singular Plural (1988);
  • Introdução a Escombros (1998);